quarta-feira, 23 de julho de 2014

Falastin Horra!

Palestina Livre. Ato em Florianópolis. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Com deus...


Nietzsche dizia que só os fracos precisavam de deus. E ele estava certo. Quando tudo se desmorona, quando a perplexidade é tudo que temos, tentamos, de toda forma, encontrar alguma coisa em que nos segurar. Porque tem dias que a noite é foda, como diz um velho dito popular. E mesmo carregados de certezas e racionalidades, momentos há em que o chão se abre e tudo o que é vida em nós se esvai. Envoltos em escuridão, ficamos frágeis e sós. É aí que inventamos deus. “O medo criou deus”, insiste Feuerbach. E assim, depositamos nele todas as coisas boas que existem em nós, como a virtude, a bondade, a alegria, como se nós mesmos não pudéssemos ser esse ser perfeito.

Hoje, depois de mais um dia de horrores, acompanhando as notícias na Palestina, onde crianças estão sendo dizimadas, onde uma deputada de Israel diz que gostaria de ver mortas todas as mães palestinas, onde jogam fósforo para que as pessoas morram, sem ar, sinto-me sem chão. Não consigo pensar, como Feuerbach, que nós, como raça, poderíamos, com nossas belezas, criar um mundo bom de se viver.  Busco isso todos os dias, mas horas há, como essa, em que tudo esboroa. É quando preciso de uma rede onde encostar meu sofrer.

Assim, na impotência e na fraqueza, me agarro em deus. “Deus é uma saudade daquilo que é mais bonito em nós”, dizia Ruben Alves. E é nessa beleza que busco amparo. No céu do Campeche brilham as “três marias”, tão distantes. Mais à esquerda procuro o “ñandu”, a constelação da Ema, do povo guarani, que resplandece no inverno. Com as retinas carregadas de mortos canto um mantra sagrado que repete que tudo é amor... Bava Nam Kevalam... Acendo velas, deixo que o incenso suba até o céu ligando minha alma triste com essa perfeição inefável. Quanto necessito dessa ilusão de que somos bons.

A vida é um sopro, o mundo é um jardim. Deveríamos estar por aí, brincando. Mas, não! Estamos perdidos de nossa beleza, andamos no caos. E assim, na fraqueza da minha humilde humanidade cola-se esse deus, fraquinho também. Nada pode contra Israel ou a polícia do Rio que igualmente dizima a juventude negra e pobre. E ali, na noite campechiana, ficamos nós, abraçados, em lágrimas.

Sim, eu confesso, perdoe-me Nietzsche, preciso desse deus, essa saudade de belezas. É o que me faz retomar a vida e seguir adiante. Acreditando, firmemente, que haveremos de nos reencontrar com a maravilha que podemos ser.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Solidariedade com os palestinos



DIA 23 DE JULHO DE 2014 - Quarta-feira
HORA - das 14 às 16 horas
Local - Esquina Democratica - Rua Felipe Schimidt esquina Deodoro - Centro de Florianopolis

Ponto de Encontro - as 14 horas na Mesquita - Rua Felipe Schimidt, 390, edificio Zahia para a Marcha de Solidariedade ao Povo Palestino
Informaçoes - Khader 48 - 30257979

PALESTINA LIVRE
Ato em Solidariedade com Gaza
Gritamos Não ao Genocídio em Gaza

23/7 - 14 horas – Esquina Democrática – Florianópolis

A comunidade Árabe em Santa Catarina com apoio dos solidários Brasileiros estão realizando este Ato em Defesa da Palestina condenando e repudiando energicamente as agressões que o fascismo Israelense vem praticando contra os palestinos de Gaza. Estas agressões começaram no inicio de julho sob o pretexto Israelense de que três colonos judeus foram capturados na região de Hebron. Nenhuma força politica assumiu a autoria do sequestro, mesmo assim o governo sionista de Israel acusou Hamas pelo ato e iniciando uma forte repressão em Gaza.

Gaza tem 350 km2 e 1,6 milhões de habitantes vivendo de forma precária com o cerco israelense. As brutais ações de Israel estão massacrando os palestinos, gerando dias de violência sobre um povo indefeso.
Últimos dados revelam 554 mortes de civis palestinos, sendo 228 crianças e 175 mulheres, 3645 feridos e 2760 casas destruídas. Sofrimento de um povo abafado pela mídia que priorizou a Copa do Mundo.

Hoje nosso grito é de solidariedade ao heroico povo palestino que resiste ao genocídio israelense e defende seu Solo Pátrio da invasão Sionista. Todo nosso respeito aos mártires palestinos, em especial a família de MOHAMMAD KHOIDER, um jovem de 16 anos, que foi sequestrado em Shofat, bairro de Jerusalém, por cinco colonos israelenses. Este jovem foi espancado ate perder a consciência quando enfiaram uma mangueira na garganta e encheram o estomago com gasolina e atearam fogo, queimando-o vivo.
Estas atrocidades alertam a humanidade da ameaça que o fascismo Israelense representa.

Chega de mortes e ataques em Gaza!
Chega de derramamento de sangue de civis e inocentes.
Condenamos as agressões do Estado Terrorista de Israel
Este é o momento de romper o silencio do mundo e defender os direitos do povo palestino!

Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino
comitepalestinasc@yahoo.com

Palestina livre!
Viva a Intifada! Resitência até a vitória!
Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino
"Um beduíno sozinho não vence a imensidão do deserto, é preciso ir em caravana"
www.vivapalestina.com.br
www.palestinalivre.org

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A batalha na Crimeia




Na Rússia, a opinião da maioria das pessoas comuns, é de que Putin está mais do que certo em defender o povo da Crimeia. Segundo eles, a Crimeia sempre pertenceu a Rússia e só se anexou à Ucrânia, numa divisão artificial feita durante o regime soviético. "Quando a Crimeia foi cedida à Ucrânia ninguém imaginava que a URSS iria se acabar um dia. Estava todo mundo junto". Por outro lado, a "culpa" sobre tudo o que acontece agora é atribuída ao ex-presidente Boris Ieltzin. Contam os russo que quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se acabou, o então presidente da Ucrânia  perguntou a Ieltzin se ele gostaria de ter novamente sob o controle territorial da Rússia a região da Crimeia, e ele teria dito que não. "Também naqueles dias ninguém imaginava que a Ucrânia seria um dia governada por nazistas".

É por isso que a opinião pública russa respalda as ações de defesa da Crimeia. Porque entende que é dever do governo russo proteger os russos que vivem naquela região. No geral, as pessoas mais simples, que estão no plano da consciência ingênua, reputam a guerra à apenas esse ponto, sem levar muito em consideração os demais motivos que levam, inclusive, os Estados Unidos a apoiarem o movimento reacionário/nazista que hoje domina a Ucrânia. Não é levado em conta o fato de a Ucrânia ser um espaço estratégico de dominação, não se discute o fato de o conflito estar no centro de uma disputa de geopoder que envolve a Rússia e a recusa do governo em ceder aos chamados de coalizão com a Europa, aliada histórica dos Estados Unidos. Na verdade, a Rússia segue firme no propósito em fazer parte de outro bloco de poder, que dialoga com os EUA, mas não se subordina. O parceiro principal segue sendo a China, configurando assim o bloco sino-russo que cresce em força. Um exemplo disso é o recorrido que Putin fez nas últimas semanas pela América Latina, buscando atrair velhos aliados e puxando novos parceiros para o bloco.

Nas cidades mais distantes da fronteira com a Crimeia, a guerra é só uma coisa que acontece nas telas da televisão. E ela só se concretiza nas famílias que têm algum parente na região. Ainda assim, o apoio aos russos que vivem na Ucrânia é incondicional.

Agora, com a notícia da queda do avião da Malásia, supostamente derrubado por um míssil, a guerra de informação esquenta ainda mais o conflito. De um lado, os neo-nazis que dominam a Ucrânia acusam os pró-russos de terem disparado o também suposto míssil. Do outro, os pró-russos acusam os neo-nazis de terem derrubado o avião  pensando ser o que levava Putin de volta à Rússia. A história toda é muito controversa. Primeiro porque não se tem certeza de que foi um míssil que derrubou o avião. E segundo, porque as pessoas sabem que na guerra, a primeira vítima é a verdade.

Basta recordar os motivos que levaram os EUA à guerra com o Afeganistão ou o Iraque, todos eles baseados em mentiras que, mesmo depois de terem sido desmascaradas, não mudaram em nada o andar dos fatos. O Iraque foi destruído, o Afeganistão foi destruído e os Estados Unidos nunca responderam  pelos crimes que cometerem e seguem cometendo nesses países.

O que se vê agora são os blocos de poder se movendo do mundo, cada um tentando buscar mais força para expandir seu domínio. Nessa movimentação, a conta sobra para alguns que, desgraçadamente, estejam no caminho desses desejos. Assim, vê-se uma frente de batalha na Palestina, com Israel buscando exterminar de vez o povo que heroicamente resiste, sendo uma pedra no sapato para o bloco estadunidense que quer dominar totalmente a entrada para o Oriente Médio, e outra frente na Ucrânia que, sob o domínio neo-nazi, parceiro dos EUA, será um caldeirão fervente na porta da Rússia, sempre a incomodar. O projeto do bloco EUA/Europa é controlar o gás e se apropriar das riquezas mineirais e energéticas que são grandes no país.

A guerra "quente" está em ação e como sempre acontece, nenhum argumento moral impedirá que as coisas sigam seu curso. Coisas "sem importância" como a vida de centenas de milhares de pessoas não serão levadas em conta. O que interessa mesmo é o tabuleiro de domínio que está à frente dos governantes. Lá embaixo, na vida real, os "peões" são eliminados sem qualquer pudor. Não está dado nas coerências operacionais dos que fazem a guerra o sentimento de compaixão pelos que, para eles, só atrapalham o projeto de poder. Por isso que clamar por paz ou justiça aparece quase como um gesto inútil, como tem sido na luta pela desocupação do Iraque, Afeganistão e Haiti. Resta aos que sofrem viverem sua dor em solidão.

Muita bomba vai rolar no rastro de mais uma imolação feita em nome da guerra, como parece ser o caso das 280 pessoas mortas  pela queda ou explosão do avião da Malásia. Seja lá o que for que tenha acontecido, tenha sido um míssil ou um problema técnico, isso será usado por todos os lados para reforçar os argumentos de cada um.


terça-feira, 15 de julho de 2014

A resistência de Leningrado















Na São Petersburgo de hoje (Leningrado na época soviética), o foco das atenções está na vida dos antigos imperadores. O grosso do interesse turístico é pelos palácios e o modo de vida dos czares. Assim, uma visita guiada circula pelos históricos prédios erguidos por Pedro, o Grande, o fundador da cidade. Até 1700 aquele espaço geográfico era dominado pelos suecos. Uma guerra comandada por Pedro, que queria uma saída para o Mar Báltico, expulsou as famílias suecas e deu início a colonização russa. Em 1703 Pedro ergue a primeira fortaleza, em homenagem aos apóstolos Pedro e Paulo e desde ali foi se espalhando a cidade. São Petersburgo tem 10% do seu território em água. É banhada pelo grande Rio Neva (74 quilômetros de extensão) e cortada por mais 86 pequenos rios e canais. A cidade, que é formada por um conjunto de 42 ilhas, foi transformada em capital da Rússia no ano de 1712 e só perdeu o posto para Moscou um ano depois da revolução, em 1918. 

A história da Rússia tem um marco em Pedro, o Grande. Até ele, o país era considerado um lugar atrasado, de costumes quase bárbaros. Foi Pedro quem trouxe a "modernidade" que, n verdade foi a europeização. A partir dele, os czares deixaram de lado seu aspecto genuinamente russo, e passaram a se parecer com qualquer rei do mundo europeu, inclusive no modo de vida. Foi o fim dos palácios de madeira, que eram pequenos e simples, muito por conta do frio intenso, e o início de uma era de opulência e magnificência. Tão logo fundou São Petersburgo, Pedro mandou chamar arquitetos italianos e franceses para dar início a construção de igrejas e palácios. As igrejas seguem o estilo bizantino, da igreja ortodoxa, mas os palácios se assemelham principalmente aos franceses, em tamanho e riqueza. Só o complexo da ilha Vasilievsky, onde hoje funciona o Hermitage, tem 10 palácios, cada um deles com uma decoração extremamente rica e bem ao gosto europeu.

O museu, inclusive, é um caso à parte. É um dos maiores e mais antigos museus do mundo com obras (3 milhões de peças) de praticamente todas as épocas da humanidade. O palácio de inverno, residência oficial dos czares desde 1730, é ele mesmo uma peça de museu, e foi a partir dele que começou a coleta de peças, chegando ao auge no reinado de Catarina II, a Grande. Impossível não cair o queixo ao passar por suas salas. É tanta riqueza que fica bem fácil entender porque, foi ali que, em 1905, iniciou o processo revolucionário que derrubaria a monarquia, finalmente, em 1917.

Mas, São Petersburgo não se limita a sua beleza arquitetônica, visível em quase toda a cidade em função do grande número de palácios de toda a nobreza que se concentrava ali. Ela também abriga histórias heroicas de gente comum, que jamais pisou em um daqueles prédios gigantes e extraordinariamente ricos. Uma dessas histórias diz respeito à resistência que o povo russo, e especificamente os de São Peters, opôs ao avanço do nazismo pelo território russo.  Foi ali que os russos travaram a mais longa batalha da história da segunda grande guerra, que durou 900 dias e deixou um saldo de um milhão de mortos no lado russo.

O dramático é que esse momento grandioso da história não recebe o mesmo foco por parte dos guias turísticos. Aquele que visita São Petersburgo precisa garimpar e vasculhar com muito sacrifício os marcos dessa resistência. Por conta da nova etapa de desenvolvimento que vive a Rússia há uma tentativa de apagamento do período soviético. Pouco se fala sobre ele e tudo o que se passou nesse interregno de tempo, parece não importar. Mas, quem visita a antiga capital russa não pode deixar de render homenagens a esses homens e mulheres que fecharam o passo dos nazistas, causando-lhes muitas baixas e provocando-lhes, inclusive, a derrota final.

O cerco de Leningrado

Quando a segunda grande guerra começou, Stalin, que então governava a Rússia tinha um pacto de não agressão com Adolf Hitler. Por conta disso a Rússia ficou a parte dos conflitos, certa de que não seria atingida pela sede de poder do governante alemão. Tampouco se preparou militarmente para uma possível resistência. Stalin estava seguro de que Hitler não quebraria o acordo. Só que em 22 de junho de 1941, o líder alemão, ignorando o acordo, avança pelo território russo. Foi uma hora de perplexidade para a população. Havia que se defender e não havia ainda uma produção de armamentos capaz de dar combate à tecnologia alemã. Os primeiros a sofrer foram os moscovitas, que enfrentar como puderam. Premido pelo frio, Hitler buscou outra frente para entrar no território e foi aí que chegou a Leningrado (novo nome de São Petersburgo naquele então). 

O ataque começou em junho de 1941 e durou até janeiro de 1943, ficando conhecido como o "cerco a Leningrado". O campo alemão tinha quase um milhão de homens bem armados, 13 mil canhões, 1.500 tanques e 760 aviões. Os russos não tinham qualquer armamento. Contam os moradores que as primeiras batalhas foram puro sacrifício. Os russos jogavam seus corpos sobre os dos alemães, armados apenas de facas. A maioria morria, mas os que conseguiam chegar a um soldado alemão, garantia a arma e voltava. Boa parte do primeiro armamento foi conseguida assim. Enquanto isso, o exército alemão seguia cercando a cidade, sem conseguir vencê-la. A estratégia pensada por Hitler foi a de esgotamento. Fechar a cidade e deixar que as pessoas morressem de fome e de frio, já que as temperaturas no inverno chegavam a 50 graus abaixo de zero.  Em parte o plano deu certo. Ao longo dos 900 dias morreram mais de um milhão de russos (cinco milhões era a população), e boa parte pereceu de fome.

Foi só em fevereiro de 1943, quando a indústria bélica soviética já tinha avançado, que um ataque das tropas russas conseguiu abrir um corredor por entre os alemães, fazendo passar um trem com mantimentos. Ainda assim, o bloqueio mesmo só foi totalmente levantado em 29 de janeiro de 1944. Aqueles 900 dias de resistência são considerados os mais importantes da guerra, pois se Leningrado tivesse caído, poderia ter ocorrido um efeito-dominó, desmantelando toda a defesa soviética.

A lembrança

Mesmo que não esteja no corredor turístico normal, ninguém pode ir até São Petersburgo sem visitar o imenso memorial que foi criado para lembrar esse feito heroico do povo local. Basta tomar o metrô  e seguir até a estação Moskovskaya. Logo a frente estão as enormes estátuas de soldados, camponeses, mulheres despedindo-se de seus maridos e filhos, enfim, a gente comum, que se erguem como um raio de luz por entre a rica cidade dos czares. É um dos poucos monumentos na cidade que faz referência direta ao povo. E a beleza das expressões leva qualquer um a se emocionar, lembrando aqueles dias de pesado sacrifício, no qual muitos chegaram a comer a carne de seus amigos e familiares mortos para sobreviver. 

Naquele lugar , nos arredores da cidade, está fincada a saga de um povo que ousou defender seu território a custa de nada mais que o imenso amor pelo que chamam de "mãe russa".  No memorial também podem ser vistas fotos da época,  ilustrações e objetos usados durante o período do cerco. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O metrô de Moscou


























É fato que a novíssima geração de russos não quer nem saber de socialismo. Tudo o que sabem desse tempo é o que contam os pais. A maioria fala mal do sistema, principalmente contra Stalin e o racionamento de comida. Mas mesmos esses que falam mal, não viveram na pele esses momentos. Na cidade, onde fica mais visível a taxa média de crescimento do país, 7%, as obras estão em toda parte num frenesi de desenvolvimento. O comércio é variado, e todas as marcas mundiais estão à disposição de quem tenha dinheiro para comprar. Os grandes centros comerciais se espalham, com as mesmas marcas  que fazem sucesso nos EUA e na Europa. Assim, os russos sentem-se comodamente no centro do furacão capitalista e estão achando bom. Mas, no campo, onde ainda sobrevivem os mais velhos, que viveram o auge do sistema soviético, há quem lembre com saudade. As granjas eram coletivas e a terra era trabalhada, apesar das grandes dificuldades de fazer parir um terreno pantanoso e pouco fértil. "Agora estamos sozinho. Não há auxílio e ninguém tem condições de alimentar a terra para que ela viceje". Não é sem razão que aos camponeses foi novamente relegado o preconceituoso termos de "inúteis e beberrões".

Uma vendedora em frente a um dos centos de templos da igreja ortodoxa, velhinha já, apontava com um sorriso o ícone de Stalin, como a dizer que seria de bom tom comprar e levar para casa. Com todas as dificuldades de comunicação, ela conseguiu me passar a ideia de que quando o velho georgiano governara, os camponeses tinham sido bem tratados. Agora ela estava ali, vendendo bugigangas. Já a guia, que desconfortavelmente fizera a tradução, não deixou de arrematar: "Stalin matou muita gente, era um beberrão, como todos na Geórgia".

Outro que perdeu seu glamour na nova Rússia é Lênin. Apesar de suas estátuas continuarem firmes em cada cidade do país, seu nome, por agora, não remete a nada importante. Ainda assim, é ideia dele uma das obras mais lindas da capital russa: o metrô. Quando a revolução bolchevique foi vitoriosa foi Lênin quem decidiu que o espaço de transporte dos trabalhadores deveria ser como o de um palácio. O projeto do metrô já existia desde o tempo do império, mas foi só em 1923 que realmente começou o planejamento efetivo da obra. Anos antes, Lênin já imaginara cada estação decorada com o que havia de mais bonito na Rússia: seu mármore e a arte dos artistas locais. Ele queria que o trabalhador se sentisse como um rei, já que era o protagonista da então nova Rússia.

Lênin não chegou a ver a obra que pensou. Mas os planos seguiram conforme ele planejara. A primeira linha foi inaugurada em 1932, sob o comando de Stalin. O sistema é simples e rápido, hoje transportando mais de nove milhões de pessoas por dia. Os trens saem a cada um minuto nos dias de semana, e a cada cinco no domingo. São 194 estações, 12 linhas e 325 quilômetros. A passagem ainda hoje é barata, 40 rublos (cerca de 2,50 em reais) e se não sair do sistema pode-se visitar cada estação.

O metrô é conhecido por todos com um nome bastante significativo: "palácio subterrâneo". As estações são gloriosas, todas cobertas por mármore, decoradas com colunas douradas bem ao estilo do palácio de Catarina II. Há mármore branco e vermelho. Cada estação tem um estilo diferente, mas todas elas ressaltam a figura do trabalhador. São desenhos, afrescos, mosaicos, estátuas, que revelam a face mais bonita daqueles que ousaram tirar a Rússia das mãos dos czares. Camponeses, soldados, trabalhadores urbanos, é sobre eles que está o foco. Também há cenas da própria revolução,  passeatas, comícios, festas populares. Uma verdadeira beleza. É como se estivesse ali, gravada, a impressão digital daquele tempo que tantos querem apagar. Impossível ficar impassível diante de tanta formosura. Mesmos para os moscovitas, acostumados ao vai e vem cotidiano, ainda causa estupor toda aquela magnificência sob a terra.

Contam que ali Stalin instalou seu estado maior na época da II Grande Guerra, pois o metrô também foi construído com a função de servir de abrigo aos moradores de Moscou em situações como aquelas.

Hoje, o metrô é ponto turístico e não há quem passe pela capital que não se maravilhe com o palácio subterrâneo imaginado por Lênin. Talvez por isso tenha sido tão triste ver, numa das estações, o busto daquele que sonhou com uma pátria socialista, esquecido em meio a móveis velhos e escadas quebradas. Os guias turísticos que conduzem os grupos pelos intricados caminhos das estações sequer o citam. Ele passa batido, apagado da história. Eu, atenta, o vi, perdido lá no fundo e fui fazer uma reverência. O metrô é uma grande maravilha e diz muito do que ele pensava sobre aqueles que até então eram considerados seres insignificantes.

Sobre ganhar e perder


Desde alguns meses tenho trabalhado com um grupo de educadores da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, que faz parte de um Centro de Referência Esportiva. O propósito desse centro vai na contramão de tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida sobre o que seja a prática esportiva. Num tempo em que os seres humanos estão cada vez mais engalfinhados na competição, esses educadores trabalham com o esporte educacional, uma metodologia que busca aflorar nas crianças as suas habilidades esportivas, respeitando o ritmo de cada uma e despertando o que de melhor podem fazer dentro de seus limites. É um processo de cooperação e solidariedade. Um desafio e um encantamento.

No geral, desde bem pequenos, aprendemos o processo de competição. Na escola, a professora inventa a lógica das estrelinhas para os melhores da classe, e depois das provas os alunos comparam as notas, coisa que, no mais das vezes, provoca em alguns o triste sentimento da derrota e do fracasso. Então, vêm desde os mais tenros anos o aprendizado de que, na vida, estamos sempre a competir. Quem é o mais bonito, quem é o mais rápido, o mais inteligente, o mais habilidoso, o mais esperto. Difícil demais sair desse enrosco depois que entramos na vida adulta. Por isso talvez seja tão difícil enfrentar algumas derrotas, normais na caminhada humana. Não passar de ano, perder o namorado, encerrar uma amizade de longa data. Nada pode turvar a estrada de sucessos sob pena de um mergulho profundo nas águas da tristeza, depressão, imobilidade. É que aprendemos que o bom é ganhar.

Só que o ganhar pressupõe sempre um perdedor. Vai daí que uma vitória sem tristeza é impossível. Alguém sairá machucado. Alguém chorará, alguém mergulhará nas trevas do fracasso. E a derrota sempre está colada ao fraco, ao feio, ao incapaz, ao inútil. Elementos que tantas dores provocam no outro. 

Estamos vivendo agora no Brasil a tão falada Copa do Mundo, um certame de futebol, antes arte, agora nada mais que força e rendimento. Nele, como em quase todo jogo, alguém vence, e outro perde. É indefectível. Assim, desde o início das competições, foram muitas as cenas de lágrimas e ranger de dentes daqueles que saíram do jogo. Os perdedores clamam aos céus: Por quê? Por quê? Fizeram tudo certo, treinaram, trabalharam e perderam. O que deu errado? Ora, nada deu errado. Apenas estavam numa competição, e ela, por sua natureza exige que alguém seja vencedor e outro perdedor. Não há saídas. Mas, em vez de entender o processo como tal, sempre há que buscar o "culpado", a velha ideia do bode expiatório, aquele que, detectado e punido, expurgará toda a dor do fracasso de cada um. Um fracasso que não é real, mas imposto pela lógica competitiva. Se o jogo fosse só uma brincadeira, ninguém perderia e não haveria fracassos. Mas, a coisa não é assim.

O Brasil viveu seu momento de perda. Um "vexame", como diz a imprensa. Sete gols a um. Venceram os alemães. Derrotados e perplexos, os jogadores brasileiros protagonizaram cenas de profunda dor, desespero e perturbação. Estavam na lona, e esse sentimento aumentou em ondas no dia seguinte, com as capas dos jornais e as manchetes televisivas. "Derrota, humilhação, fracasso". Perder é o pior dos mundos e isso não é por acaso. O sistema de mercadoria do futebol precisa da vitrine das competições para vender seus produtos. E esses produtos são as pessoas. Aqueles que se destacam nos certames mundiais, quando voltam para seus times de origem podem pleitear contratos mais polpudos, podem buscar novos times, fazer mais propagandas de televisão. O dinheiro entra na medida em que o sucesso avança. Essa é a lógica.  A derrota é um corte brusco no valor da mercadoria/pessoa.

A Copa do Mundo, se jogada dentro do espírito do esporte como jogo, como brincadeira, não deveria trazer essa pressão. Poderia ser o alegre encontro de mundos diferentes, de distintas formas de jogar, no qual cada país mostraria suas habilidades, diversas, por sua geografia, por seu clima, por sua cultura. E as pessoas se divertiriam e aprenderiam a trocar experiências. Vencer ou perder não significaria nada. Os estádios seriam abertos ao público gratuitamente, para que todos pudessem vivenciar a beleza do esporte, gritando e vibrando na hora do gol, fosse de quem fosse. Ao final das partidas ninguém choraria, ninguém se sentiria derrotado, humilhado ou triste. Mas, isso, agora, é um utopia. A Copa não é espaço de alegria. É mercado de carne. Ali estão sendo realizados negócios milionários, envolvendo vidas de pessoas. Por isso um encontrão pode significar o fim de tudo para alguém. É a arena dos leões da antiga Roma. Viver ou morrer. 

Por isso me entristeço com as lágrimas dos jogadores brasileiros, de joelhos diante da nação. Como nas arenas romanas, as pessoas na arquibancada, que pagaram para ver a vitória, não tem condescendência. A derrota haverá de ser punida com piadas, agressões e, é claro, haverá de surgir o "culpado", que purgará tudo até a próxima copa. Sei que muitos daqueles meninos que ali estão vendendo sua força de trabalho ganham muito bem para isso. Alguns, levam em um mês o que um trabalhador comum não ganharia em anos. Mas, não importa. Eles são igualmente carne à venda no mercado desse mundo dominado pelo capital. Tão trabalhadores como aqueles que perderam a vida na construção dos estádios. Apenas custam mais, agora. Mas isso não dura para sempre. A idade avança, a contusão aparece e a mercadoria se desvaloriza. Alguns conseguem ajeitar a vida, outros não. Esse é o selvagem mundo da competição.

E, assim, enquanto a mídia aponta suas metralhadoras contra algum provável culpado, eu me encho de ternura por aqueles educadores anônimos lá na cidade de Rio Grande, trabalhando outra forma de ser no mundo, a duras penas, em frente ao mar. Cotidianamente ensinam às crianças que o esporte pode ser prazeroso se for apenas uma prática corporal destinada a alegria e ao jogo. Por conta disso, a cada dois meses, eles fazem os Festivais Esportivos, nos quais as crianças, junto com seus pais, parentes e amigos, se divertem à larga, jogando todo o tipo de jogo sem a pressão de ganhar. A única razão de estar ali é movimentar o corpo e dar risada. Momentos de completa inutilidade, do ponto de vista do capital. Um aprendizado lento que pode demorar gerações. Cooperar, ajudar o outro, perceber os limites, incentivar, desacelerar o passo para esperar o colega, permitir o gol para ver o riso na cara do amigo. Essas coisas simples de uma vida boa. 

Vejam que isso não é coisa impossível. É utópico, mas já caminha. Está vivo lá na ponta sul do Rio Grande. Pessoas como Carlos, Felipe, Douglas e tantos outros que disseminam essa forma de praticar o esporte não estão na arena de carne do grande certame mundial, não elevarão seus salários nem farão propagandas na TV. São sonhadores que andam aí, nos caminhos vicinais, a disseminar belezas, forjando um novo jeito de vivenciar nossa humanidade, na cooperação e na solidariedade. Quando o dia deles termina não há lágrimas de derrota, mesmo que não tenham vencido os jogos dos quais participaram, porque ali, o importante foi a troca e o aprendizado mútuo. Se lágrimas há, é de alegria. Porque vale a pena virar o mundo do esporte de ponta cabeça, como nas velhas brincadeiras de criança. Uma cambalhota, uma risada e são todos campeões!...