quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Terra, Trabalho e Teto: tudo que se quer...






São nove horas da manhã e o dia está nublado. Talvez por isso a estrada que vai até Canasvieiras, no norte da ilha de Santa Catarina, esteja quase vazia. Logo depois do viaduto de Jurerê, entra-se no espaço que há umas três décadas era considerado o “celeiro da ilha”, de farta produção de hortaliças, mandioca e milho. Isso sem contar o peixe que, tirado do piscoso rio Ratones, completava a base da alimentação do ilhéu. Com o passar do tempo e a descoberta do turismo, os nativos foram sendo conquistados com promessas de progresso. Assim,  boa parte das terras foi  vendida para grandes empreendimentos. A região foi sendo tomada pelas construções e a calma praia de Canasvieiras acabou se tornando uma espécie de pequena Argentina, tamanho o fluxo de turistas daquele país. 

Mas, apesar da grande densidade de gente e casas próximo à praia, ainda restam grandes espaços de terra no norte da ilha, principalmente na beira do histórico rio Ratones. Não sem razão. São quilômetros e quilômetros de área agricultável, hoje totalmente improdutiva. Para quem cruza aquele caminho todos os dias, o latifúndio vazio vislumbrado da janela do ônibus aparece quase como uma afronta. Tantos pais e mães de família sem uma casa para morar, e aquela imensidão verde sem serventia social.

Foi esse sentimento que levou cerca de 60 famílias de gente sem teto, sem condições de pagar o alto preço do aluguel praticado na “ilha da magia”, a ocupar uma dessas antigas fazendas. A área tem 600 hectares e abrigava dentro dela apenas 15 cabeças de gado, cujos donos nem são os que se dizem donos da terra. Segundo a organização do movimento, a propriedade do espaço seria de um grupo de pessoas e empresas que pretende fazer ali um campo de golfe.  A ocupação que se consolidou no dia 16 de dezembro de 2013, agora já tem 150 famílias alojadas e organizadas. “Todos os dias chega mais gente querendo ficar na ocupação. Pena que não dá para abrigar todo mundo. É que só na ilha há um déficit de 15 mil moradias, Ou seja, são 15 mil famílias cadastradas na prefeitura, esperando, algumas há mais de 20 anos, por uma casa para morar”, diz Rui Fernando, da comissão de organização.

A cidade, desde o final dos anos 80 do século passado, tem recebido um fluxo migratório muito grande, incentivado pela promoção do turismo. Mas, no geral, os governantes acolhem bem apenas os turistas endinheirados, como se pode observar das declarações dos  secretários de Estado de Planejamento, Murilo Flores e o de Turismo, Valdir Walendowsky: “Temos que qualificar o turista que chega em Santa Catarina. Ele tem que ter mais dinheiro para gastar mais”. Só que junto com o turista rico, precisa chegar também aquele que vai trabalhar para manter a estrutura. É assim que também aportam na ilha levas de migrantes em busca de trabalho.

A migração

Num país de tantas desigualdades, migrar sempre foi uma constante. Viver no interior do Brasil é sinônimo de falta de oportunidades, principalmente para aqueles que não têm uma formação específica ou não têm terra. Diante da impossibilidade de sobreviver e cuidar da famílias, as pessoas buscam mudar de cidade, indo para onde seja possível trabalhar. Segundo o último censo do  IBGE mais de 35% dos brasileiros já não vivem mais nos seus lugares de nascimento. E o motivo da mudança é sempre o mesmo: a necessidade de melhorar a vida.  A cidade que mais atrai migrantes ainda é São Paulo, mas, desde há alguns anos, o Estado de Santa Catarina, por ser tão cantado em verso e prosa como a “europa brasileira”, tem sido o destino preferido de uma fatia muito grande.

Foi assim com Maria José dos Santos, 46 anos, que saiu de Palmares, no interior de Alagoas, porque não tinha mais como manter a vida. Nascida no histórico reduto do Quilombo de Zumbi, a vida só lhe reservou pobreza. Sem um pedaço de terra para plantar, o jeito era viver do que desse. Um biscate aqui, uma faxina, uma roupa para lavar. Então, um dia, o filho escutou na televisão que Florianópolis era um lugar de muitas belezas e resolveu arriscar. Juntou os trocados e veio em busca do sonho de viver melhor. Dois meses depois mandou buscar a mãe. Hoje, ele até tem um emprego, mas é quase impossível manter a mãe, a esposa e os filhos tendo de pagar o aluguel, que é alto demais. “A gente estava morando na Serrinha,num barraco, apertado, e o dinheiro ia quase todo no aluguel. Tava difícil dar de comida pra todo mundo”.

Elen Maria Silva também pegou um ônibus em Belém do Pará e arriscou encontrar uma vida melhor em Florianópolis. “Me disseram que aqui era bom, que a cidade vivia de turismo, hotelaria. Eu achei que podia encontrar trabalho já que lá as coisas estavam muito difíceis. Eu vivi 30 anos em Belém e nunca tive uma ocupação de carteira assinada. Aqui em Florianópolis eu tive a minha primeira experiência de ver a carteira assinada. Foi muito bom. Mas, o que me mata é o aluguel. Eu estava morando no Saco Grande e lá eu tinha de pagar 600 reais por mês. Era praticamente o salário todo e eu tenho uma filha pra criar”.   

Jacson Gueveda não veio de tão longe, sua cidade natal fica no Oeste de Santa Catarina. Mas, os motivos são os mesmos. Falta de trabalho. “Lá, a gente que não tem terra só consegue trabalho na safra. Fora disso, não há o que fazer”. Morando no bairro José Nitro, num pequeno barraco que consumia mais da metade do salário, ele também sentia falta da velha cultura de tomar um chimarrão na frente de casa, de plantar um hortinha nos fundos. Ali não havia nem pátio, nem calçada. Isso sem contar o medo de ser atingido por uma bala perdida. “Aquilo ali não era vida e a gente tem direito de viver bem”.

Cláudio Barbosa dos Santos é veterano em Florianópolis. Chegou do Rio de Janeiro há 35 anos. Sendo neto de uma família nativa, ele foi morar na casa dos avós, no bairro Serrinha. Mas, agora, com o casamento, teve de buscar vida própria. “É pouco espaço pra muita gente, não deu pra ficar na casa da vó”. Trabalhando como vidraceiro, Claudio tampouco conseguia bancar o aluguel. A “ilha da magia” é ingrata com os mais empobrecidos.

Todas essas pessoas de vidas singulares tem agora uma coisa em comum: o sonho de conquistar um lugar para chamar de seu. Eles dividem a terra e os barracos da ocupação Amarildo de Souza, esperando que, enfim, se cumpra aquilo que a Constituição brasileira define como um direito: moradia digna.

Luta e esperança

A manhã abafada revela uma azáfama intermitente na ocupação. Algumas pessoas cuidam da horta, que já está com alfaces bem grandes e muito tempero verde. Outros seguem ajeitando os barracos de lona que agora servem de casa. Mulheres lavam roupa que colorem os fios entrecruzados do acampamento. Os índios Xokleng que vieram também para a ocupação, tecem seus cestos e criam os artesanatos a serem vendidos na praia, que fica próxima do lugar. “Nós pedimos na prefeitura um espaço para ficar. Essa época de turismo é boa para nossas vendas. Mas, a prefeitura não quer nem saber de nós. Então, viemos pra cá, onde fomos acolhidos”, revela o cacique.

Os barracos, feitos de taquara e lona estão montados como numa pequena vila, em distância simétrica, para que cada família possa proteger e se sentir protegida. Há uma equipe que cuida da segurança, outra da estrutura, de saúde e mobilização. Também foi criada uma ciranda para cuidar das crianças enquanto os pais saem para trabalhar. “Hoje eu saio tranquila, porque sei que aqui tem segurança. Minha filha está bem cuidada”, diz Elen. E assim é. O filho de um é filho de todos. 

A proposta da ocupação Amarildo é de criar naquela área uma comuna da terra, uma agro-vila capaz de se auto-sustentar. “A intenção é de que a terra seja comum e que a gente comece a produzir alimentos aqui, como acontecia antes. Plantar comida, alimento orgânico, que sirva para o consumo das famílias e também para a geração de renda”. É por conta dessa proposta de reforma agrária popular que as famílias querem o debate do caso da ocupação na Justiça Agrária e não na Justiça comum. “Nós entendemos que essa terra é um latifúndio improdutivo e por isso queremos que a luta se dê no âmbito do governo federal, já que a lei é clara: toda a terra deve cumprir uma função social. Essa terra aqui não está cumprindo o que manda a legislação. Assim, nós já fizemos denúncia na Ouvidoria Agrária do Estado e o Incra já se posicionou favorável as negociações e deve vistoriar a área”, explica Rui.

 Mas, essa não será uma luta fácil. Desde os primeiros dias do ano a Justiça já definiu a reintegração de posse para a Agropecuária Paludo e o Grupo Habitasul, que se intitulam donos da área. A polícia militar já esteve no local notificando as famílias e tem realizado operações de intimidação com o helicóptero. A batalha na Justiça segue. Segundo os moradores da ocupação foram encontrados documentos que comprovam irregularidades nas atas de zoneamento, preparadas para garantir a construção do campo de golfe. “Nós esperamos que a discussão se dê na Justiça Agrária e vamos lutar até o fim para garantir nosso direito de morar”.

“Vagabundos...Vão trabalhar!...”

O debate público sobre a ocupação Amarildo faz aflorar os preconceitos mais toscos e desvela uma cidade racista e discriminadora. “E se fosse o teu terreno, tu ia deixar ocupar?”, pergunta um leitor. Ora, uma ocupação urbana só acontece em áreas improdutivas, que servem à especulação, sem cumprir sua função social. Nenhuma família entraria num terreno que está sendo ocupado como moradia ou como produção. Logo, esse argumento é furado.

Outra fala eivada de preconceito é a de que os ocupantes são marginais. “Essa gente que vá trabalhar”. Bom, não há um morador da comunidade Amarildo de Souza que não trabalhe. Ou têm emprego formal, de carteira assinada, ou estão envolvidos com o trabalho informal, tal como o de pedreiro, eletricista, faxineira, vidraceiro, catador. Ocorre que essa é uma gente empobrecida, frequentemente explorada, que mal consegue garantir comida aos filhos. Daí não poder andar “bonitinha” como querem os reacionários de plantão. “A gente também tem o direito de ter uma casa pra morar. Nós somos trabalhadores, estamos aqui batalhando pelo nosso sustento. E somos nós que construímos essa cidade. A gente faz os prédios, a gente limpa, a gente serve. Não somos vagabundos”.

De fato, se há algo que as famílias acampadas querem é trabalho e teto. Para isso estão dispostas a todos os sacrifícios. Hoje, pouco mais de 20 dias depois da histórica decisão de ocupar o latifúndio urbano, não é sem emoção que as mães olham para os filhos pendurados nos balanços, a brincar, sem medo de enfrentar a violência da periferia. “Por que os pobres não podem morar bem? Por que não podem ter o direito de criar os filhos em segurança?” As famílias que formam a ocupação Amarildo estão dispostas a iniciar uma nova forma de organizar a vida: coletiva, solidária, comum. 

O espaço de terra que agora ocupam tem duas opções: servir a meia dúzia de homens ricos, consumindo litros e litros de água do rio Ratones para irrigar um campo de golfe, ou servir de moradia e espaço de produção agrícola de 150 famílias. O que pode ser mais justo? O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein definiu de maneira singela que os limites do pensamento de alguém são os limites do seu mundo. Daí sua frase enigmática: “o mundo dos felizes é diferente do mundo dos infelizes”. Talvez por isso seja quase impossível ao que tem condições de viver bem, que tem um bom emprego, compreender o desespero daquele que não consegue colocar comida na mesa. Mais fácil é etiquetar de marginal, vagabundo, ladrão. Colocar na vítima do sistema a culpa da sua dor. Afinal, se for pensar nos motivos de tanta desigualdade, a pessoa terá de se deparar com a verdade de um sistema que para existir precisa explorar e oprimir uma grande parte das gentes. Então, terá de tomar uma definitiva e radical decisão: de que lado ficar?

No sopro da esperança

Já é quase meio dia quando vou deixando o espaço da ocupação Amarildo. No meio das árvores frondosas e sombreiras, as crianças brincam de balanço, correm, dão sonoras gargalhadas. Vigilante, um trio de mães acompanha a movimentação. Jovens cortam taquaras e arrumam os barracos. Outros tomam chimarrão enquanto fazem o seu turno de ronda e segurança. Há medo da desocupação porque, em tanto tempo, alguns nunca se sentiram tão felizes. “Eu não me sinto numa ocupação. Aqui é minha casa. Eu moro aqui”, diz a paraense que trabalha como camareira.

Um carro passa veloz e joga um artefato para dentro da comunidade. Ouve-se o estrondo. Tudo para. As crianças engolem o riso e correm para o portão. As mulheres assomam nos barracos. Será a polícia? Serão as máquinas? Por enquanto não. A juíza Maria Tereza Costa e Silva, alegando motivos humanitários, suspendeu a liminar de reintegração.  É o terrorismo, a semeadura do medo, a intimidação. Ninguém se machuca, mas os corações ficam aos saltos. Passado o susto, todos voltam aos afazeres. Sabem mais que ninguém, que não será fácil. Mas, se têm medo, também têm coragem. O vento sibila entre as árvores, a criançada volta à algaravia. A ocupação Amarildo vai resistir...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A terceira e violenta votação do Plano Diretor








Tem sido assim desde as primeiras formações humanas. Quem tem o poder numa comunidade e o exerce para benefício próprio, fatalmente terá medo das gentes. A “malta”, a “raia miúda”, aqueles que ficam fora do círculo do gran senhor, sempre estarão tensionando o poder, exigindo direitos, buscando um lugar no banquete da vida. E é contra esses, no geral a maioria, que os senhores formam exércitos. Muito mais do que para atacar outros povos, é para defender seu poder.  Foi assim nas antigas civilizações, e continua nos tempos atuais. Não é à toa que, hoje,  existem as polícias militares. Não são grupos para defender o cidadão, embora até cumpram esse papel vez em quando. Existem para proteger o poder, seja ele do estado ou dos ricos. É por isso que as PMs veem qualquer mobilização popular como uma ameaça, e os manifestantes como inimigos. Não pode ser diferente. Essas corporações treinam assim os seus membros. 
Nesse dia 6 de janeiro, mais uma vez essa realidade se expressou. Diante da presença de um grande números de pessoas, protestando contra a aprovação de um Plano Diretor para a cidade, que os vereadores mostraram sequer conhecer, as forças policiais cumpriram seu papel de tratar as gentes como inimigas mortais. 

Tudo começou bem antes da sessão iniciar. As portas da casa foram fechadas, numa clara alusão de que, desta vez, a população não poderia entrar. Não importa que a Câmara de Vereadores seja chamada de “casa do povo”. Isso é uma ilusão num sistema que se diz democrático, mas que não resiste a uma mínima pressão. A democracia só se sustenta se há um manso rebanho. Qualquer rugosidade na “paz” do poder, e a democracia mostra sua cara torta. Os guardas municipais fizeram um cordão e avisaram. “Só vão entrar 80 pessoas. É a lotação da casa. Só pode ficar sentado”. Ora, a rua estava cheia de gente que queria acompanhar a votação, ver de perto a canalhice anunciada. 

O argumento dos guardas era de que os bombeiros instruiam para não deixar entrar mais gente do que permitia o plenário, com pessoas sentadas. “Mas como é que para outras votações pode ter gente em pé?”, perguntavam. “As regras mudaram”, diziam os guardas. E o medo bailava nos rostos constritos. Gente demais, povo demais. Medo demais. Os que estavam dentro pressionaram para abrir a porta, os que estavam fora também. Estabeleceu-se o impasse e o empurra-empurra. Nessa hora, a força assoma, vestida com as armas do poder. Cassetete, arma de choque, gás de pimenta. Os jovens, armados só de coragem, gritavam. E o medo na cara dos guardas fazia com que se valessem da força artificial. Dentro da Câmara, as armas de choque reluziram, afastando o povo das portas. 

Do lado de fora a Polícia Militar fazia um cordão, igualmente armada. Ainda assim, por muito tempo as gentes arremeteram contra a porta, sem contudo rompê-la. O fuzuê se estendeu por quase uma hora, tempo suficiente para que, lá dentro, no plenário, os vereadores realizassem a absurda votação, surdos à gritaria. Era para ser apreciado o texto final do projeto, que não existia na votação do dia 30. O vereador Afrânio havia pedido vistas. Não era possível que uma casa legislativa legislasse sobre um texto que nem existia de fato. Pois no dia de hoje tampouco havia o texto. Ainda assim, enquanto lá na porta do plenário, a polícia e a guarda municipal impediam a entrada das gentes, a maioria dos vereadores aprovava o texto inexistente. 

Como das outras vezes, apenas três votos contrários: Pedrão (PP), Afrãnio (Psol) e Lino (PT).    

Terminada a sessão, as portas se abriram. Sairam os manifestantes para a frente da garagem, onde pretendiam esperar a saída dos vereadores. De novo, o poder militar se interpôs diante daqueles que se manifestavam contra a ilegalidade da votação. No rosto dos militares a expressão vazia de quem atravessa o outro, porque é inimigo. Nenhum vestígio de empatia, afinal eles também são moradores da cidade e sofrerão as consequências do que foi votado. 

O tensionamento seguiu, embora não houvesse nada a guardar. Não havia vereadores, não havia carros, não havia nada. Só um portão, tapado pelos soldados. Os manifestantes cantavam e gritavam palavras de ordem. Então, toda a tensão explodiu. Irritados com alguns jovens que brincavam com spray de espuma, os soldados partiram para cima, tentando arrancar o spray. Foi o que bastou. Explodiu a massa. Um garoto foi preso, arrastado para o camburão. Outros receberam pauladas na cabeça e sangravam, uma garota, já dominada por um PM levou spray de pimenta na cara. Aturdidos e irritados com a resposta desproporcional da polícia contra jovens desarmados, as pessoas começaram a jogar coisas. Lixeiras, cones, pedaços de pau. Correria e comoção. Brutalidade e violência por parte da polícia. 

Terminava de forma lacônica a votação do Plano que vai desenhar a cidade pelas próximas décadas. Um plano desconhecido pelos vereadores, mas não pelas gentes. Sabe-se  muito bem que algumas áreas da cidade serão adensadas de maneira absurda, que espaços de preservação serão liberados para construção, que o cimento tomará conta do verde, que a ilha – hoje com 350 mil habitantes  - será preparada para receber mais de um milhão de moradores. Tudo isso sem qualquer planejamento no que diz respeito ao abastecimento de água, de energia elétrica e de saneamento. O que a “turma do cimento” quer é erguer prédio. Não importa se não haverá estrutura, ou se as pessoas não conseguirão se mover. Afinal, um apartamento em Florianópolis hoje, em áreas nobres, está entre 700 mil reais e um milhão. É dinheiro demais. O que vale é vender. Os moradores, depois, que se virem. 

Por três vezes seguidas, os vereadores votaram em propostas não discutidas com a comunidade. Muitas delas incorporadas ao Plano por pedido de seus “patrocinadores”, e pela própria prefeitura, através do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis, o IPUF. Na primeira votação aprovaram em bloco, sem conhecer o conteúdo das mais de 600 emendas apresentadas, 300 delas. Na segunda votação se recusaram a discutir o fato de que haviam sido quebradas várias regras do regimento interno e do Estatuto da Cidade. Patrolaram. Nesse dia 6, em terceira votação, repetiram a dose. Alheios ao desejo das gentes que queriam entrar para acompanhar o processo, aprovaram o texto final, igualmente desconhecido por eles.  

O que se viu em Florianópolis foi  expressão viva do que é a “democracia” do capital. Um legislativo dominado, insensível, atuando de forma irregular, sem levar em conta o clamor popular. Sem considerar um trabalho comunitário de sete anos e a construção de um Plano Diretor participativo. O projeto aprovado é completamente diferente do que foi desenhado pelas comunidades. Para defendê-lo, a força bruta da polícia. Com medo, mas sem vergonha, os vereadores usaram a PM para sua proteção e para a proteção da proposta daqueles que verdadeiramente mandam na cidade. 

Enquanto isso, em algum lugar dos Estados Unidos – alguns dizem que na Disney – o prefeito da cidade, César Souza Junior, aproveitava suas férias, completamente blindado da turbulência popular que ocupou a frente da Câmara. O “bom moço” voltará em alguns dias e poderá vetar ou aprovar o Plano. Alguns, inocentes, ainda acreditam que ele possa vetar algumas emendas, como as que reduzem os espaços de proteção ambiental. Mas, o certo é que se houver veto, será para beneficiar algum empreendimento. Há ainda uma certa esperança na Justiça, uma vez que o processo de votação está eivado de irregularidades e há uma ação em andamento. Mas, sabe-se que a Justiça também está do lado dos poderosos.

Então, resta a luta nas ruas. Só o povo unido e em ação pode mudar o plano. Só as gente em movimento são capazes de provocar o medo aos que se encastelam no poder. Eles tem a força da polícia, é certo. Mas, momentos há, em que essa “raia miúda” que eles desprezam tanto, assoma com tanta força que ninguém pode detê-la. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Enquanto sofremos o transporte de massa ruim, prefeitura planeja um teleférico

Teleférico: mais uma “iniciativa” da prefeitura às pressas e sem projeto 

Texto: vereador Lino Peres (PT) 



Até agora a prefeitura não apresentou a íntegra do projeto técnico do Teleférico, apesar de já ter divulgado o seu lançamento no dia 19 de dezembro, cujas bases técnicas questionamos. A falta de transparência é regra desde a aprovação desta obra, junto com outras, por financiamento da Caixa Econômica Federal e Governo Federal, em torno de R$ 200 milhões.

Quando esta proposta de financiamento chegou na Câmara Municipal, em início de outubro, faltavam apenas DOIS dias do prazo para encaminhamento junto à CEF, com o risco de perda de financiamento. Em função dessa urgência, eu e o vereador Afrânio Boppré não fizemos vista ao projeto nas Comissões de Constituição e Justiça e na Comissão de Viação, Obras e Serviço Público, mas a bancada governista no Legislativo se comprometeu, depois de muita negociação, a promover audiência pública para discutir o Teleférico. Isso seria feito em articulação com as demais obras viárias, incluídas no financiamento, e com uma concepção de projeto de mobilidade urbana e metropolitana.

Este acordo foi apoiado pela unanimidade dos vereadores presentes na sessão. O líder de governo, Dalmo Menezes, em mais de uma ocasião se comprometeu a dar cumprimento ao acordado, mas até hoje não promoveu nenhuma audiência pública, alegando que o setor de Obras estava desenvolvendo o projeto e, depois, que iria encaminhá-lo.

Mas pasmem! Tudo se fez sem projeto técnico e sem nenhuma discussão com a sociedade sobre que tipo de projeto é este e de que forma se articula com a proposta de corredor exclusivo de ônibus em torno ao Maciço do Morro da Cruz – esse também sem projeto técnico - e com todo o sistema viário! Resultado: o financiamento foi aprovado e será lançada a pedra inaugural agora em janeiro. Ou seja, a bancada governista não cumpriu o que foi acordado na Câmara.

Esta atitude antidemocrática se repetiu na primeira aprovação do PLC 1292/2013 (Plano Diretor) em final de novembro, e também na aprovação, em dois turnos, do PLC 1296/2013 (aumento do IPTU e ITBI) em início de dezembro, assim como o substitutivo do projeto de lei chamado Cidade Limpa. Os quatro episódios revelaram que não há independência da Câmara Municipal em relação ao Executivo, que encaminha, sem o menor respeito à casa legislativa, projetos de lei com prazos absurdos de tramitação e em total desrespeito à população de Florianópolis.

Sou coordenador do grupo de pesquisa de mobilidade urbana da UFSC (GEMURB) e reivindicamos há muito tempo um plano de mobilidade metropolitano que tenha uma coordenação consorciada entre os municípios da Grande Florianópolis, o que continua NÃO OCORRENDO.

O itinerário do Teleférico inclui três pontos de embarque e desembarque: aterro da Baía Sul, alto da Caeira e Praça Santos Dumont, próximo ao campus da UFSC na Trindade. Mas estudo do professor Werner Kraus, da UFSC, identificou sérios problemas técnicos para implantação, como, por exemplo, o alto custo da tarifa e a frequência de ventos fortes na região, que podem impossibilitar a utilização do sistema. Portanto, mais uma vez, insistimos que se reabra essa discussão, para evitar DESPERDÍCIO de recursos públicos.

É lamentável que mais uma vez uma obra como o Teleférico, como ocorreu com a Quarta Ponte e o VLT (veículo leve sobre trilhos), será tratada com um factóide desconectado de uma reflexão e planejamento para toda a  cidade e região. 


Um dia de janeiro


Ontem fui ao Centro, coisa que me dá prazer. Mas, distraída, não percebi que era janeiro. Depois de um banho refrescante fui para a parada do ônibus, em frente ao castanheira. A idéia era pegar o carro que passa por ali às 16:10. Não passou. Eram 16:25 quando ele assomou. Tudo bem, lá fui eu, ainda distraída. O ônibus desse horário faz a volta por dentro do bairro, levando em média uns 20 minutos. Levou 45. Assim, passava das cinco quando cheguei ao Terminal do Rio Tavares. Ali, a fila para o centro estava quilométrica. Se quisesse ir sentada, só esperando por uns três carros. Fui até o fiscal para perguntar sobre os horários. “Está tudo atrasado”, já foi dizendo quando me viu. “E não há carros extras? É férias, a ilha deve estar com o triplo do número de habitantes...”  Não! Não há carros extras. As empresas mantêm os mesmos horários dos dias normais. Para eles é lucro. Transportam o triplo de gente e não sofrem desgaste. Só lucro.

Eram 17:25 quando consegui entrar no ônibus para o Centro. A ida foi arrastada, mas não havia tanto engarrafamento ainda. Tudo bem. No Centro, a vida fluia sem atropelos, já que a maioria dos turistas estava na praia. As ruas estavam com movimento normal e até o mercado público, onde parei para um chope, estava tranquilo, com várias mesinhas vagas. Ufa... Fiquei ali apreciando essa minha cidade amada, deliciando-me com o por-do-sol e o vai-e-vem das gentes no caminho para o terminal. Fiquei pensando se as pessoas que planejam a cidade são capazes de coisas assim. Observar a vida real, perceber suas belezas e compreender onde estão os problemas para então resolvê-los. Nós, os que vivemos aqui, sabemos muito bem o quê fazer e como fazer.  Vivemos a cidade, andamos de ônibus, caminhamos pelas ruas, pelos bairros, sofremos os serviços públicos. Tudo parece tão simples. Mas, os que mandam estão à serviço de outros interesses. Importam-se com um número bem reduzido de pessoas. Dessas, do tipo das que vêm para o “clubes de praia” passar os verão. As que chegam de helicóptero e não sabem sequer o que seja um ônibus urbano, que não se importam com a cidade onde estão, afinal, sequer a percebem para além dos limites do seu mundo dourado.

Eram 19:30 quando resolvi votar para casa. No terminal a vida fervilhava. Moradores voltando do trabalho, turistas chegando. As filas estavam gigantes, pois os ônibus seguiam com seus horários normais. Além disso, as empresas não se preparam para os engarrafamentos e os ônibus que vêm das praias chegam todos com atraso, por conta da lentidão do trânsito. Mas, não há carros extra. Assim, os horários de saída não são cumpridos. A desculpa: são as filas. Ora, a prefeitura deveria exigir das empresas que mantivessem carros extras para colocar nos horários certos, assim, as pessoas não precisariam amargar horas nas filas. Mas, qual! Nem os fiscais ficam à vista, com medo das cobranças, as quais tampouco são muitas. No geral, as pessoas esperam, olhares tristes, mas mansos. Eu não. Faço salseiros, ainda que inúteis. 

Como as pistas da SC 405 ficam abertas para quem está voltando das praias, a ida até o Rio Tavares se estendeu por mais de uma hora. Calor de matar, ônibus sem ar condicionado, lotado até a boca. Uma antecipação do inferno. Eram 20:40 quando cheguei no terminal do Rio Tavares. Bueno, pegaria o carro das 20:45. Doce ilusão. Havia um atraso de três horários, pois os ônibus estavam parados no engarrafamento da praia. Toca a esperar. Eram 21:05 quando finalmente entrei no ônibus que me levaria para casa. O estresse é tanto que toda a beleza vivida lá no Centro, sentada na beira do mercado vendo o sol se pôr, já havia se esgotado. No coração, só aquele aperto de ver a cidade amada tão mal cuidada, tão entregue à mãos irresponsáveis. Para os turistas, que estão à passeio, tudo é festa. Um atraso, um engarrafamento, nada os tira dos sério. Mas, para a gente que aqui vive e que sabe porquê as coisas são assim, e como poderiam ser diferentes, é impossível não sofrer. 

Às 21:20 enfim desci na minha ruazinha de areia e vim andando pelo caminho com cheiro de arlecrim. E, enquanto as corujas revoavam eu pensava: “quando será que as gentes daqui finalmente elegerão alguém que cuide dessa nossa cidade e dos moradores? Quando será? Será?” 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Câmara vota Plano Diretor

A virada do ano




A cada dia o “bicho-do-mato” que mora em mim fica mais forte. Fujo das aglomerações, um pouco levada por aquele máxima de Nietzsche: “onde estão rebanhos, estão as águas barrentas”. Assim, qualquer atividade – fora as de luta, necessariamente coletivas - que reúnem mais de cinco pessoas já começa a me incomodar. 

Mas, desde que vim morar no Campeche virou uma espécie de tradição ir até a beira do mar na virada do ano. Porque, ali, antes que o ano brotasse, a gente podia encontrar os amigos de todo o dia, de todas as batalhas, dos projetos culturais, do cineclube, a turma da luta pelo plano diretor, os vizinhos. Aquela coisa ilhoa de ficar na praia, passeando os olhos pelas ondas, caminhando com a família, jogando conversa fora, distribuindo sorrisos e desejos de um ano bom.

Só que esse ano, a praia estava diferente. Bem antes da meia-noite, já assomava pela Pequeno Príncipe uma multidão. Gente de todos os lados, com enormes caixas de isopor, cheias de cerveja e garrafas de champanhe. Um frisson de criaturas fazendo fotos de si mesmas, muito mais ocupadas com o clic do celular do que com a festa mesma que acontecia na beira do mar. Cumpri meu ritual e fui para a praia. Mas, mesmo andando para lá e para cá, não vi ninguém conhecido. Apenas a turma do Rancho de Canoa se mantinha impávida, no morrinho, sentada nas cadeiras, olhando de cima, o aglomerado sem identidade que se formava na areia. 

Em meio aos fogos e ao barulho de uma música ruim, andei meio perdida, feito um cachorro que caiu da mudança. Perdidos estavam meus vizinhos, meus amigos, meus irmãos de luta. Nenhum sorriso simpático, nenhum abraço conhecido. Só aquela gritaria insana. A praia já não era mais a velha comunidade. Pensei no tremendo crescimento que vivemos no bairro, com tantos condomínios novos e moradores de primeira viagem. Pessoas que aqui vem morar, e não viver. Gente que não se importa em conhecer a história, as tradições, as pessoas. Pessoas que usam o mar, a praia, a paisagem, como se fosse apenas mais uma mercadoria. 

E, entre tantos rostos alegres e sôfregos, o meu acabou vertendo algumas lágrimas. Pensei na votação do Plano Diretor, acontecida um dia antes, nossa derrota, a cidade desfigurada. Bateu a saudade de um Campeche amigo, da comunidade, que, ali, já não estava mais. Na areia, garrafas e latas se acumulando, num consumo desesperado de alegria artificial. Flashes e flashes dos celulares modernos pipocando, buscando tornar a imagem mais bonita que o real. Discrentei.

Foi aí que meu amor me tomou pela mão e fomos andando de volta para casa, afastando da praia, a alma em escombros, tentando encontrar outra vez o céu verdadeiro, sem o brilho feérico dos fogos. Não havia estrelas, nem lua. A luz que escapava da barra do horizonte era a de alguns relâmpagos renitentes. E eu, bicho do mato, enfim sorri. Ali estava meu ano novo se anunciando. Cheio de raios e trovões. Xangô me arrancava da nostalgia. Dei graças! Devagar, como uma filha dileta de Oxalufã, segui na direção do meu destino. Às batalhas, Elaine, às batalhas...