sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Vá para casa ou preso!


Conhecida como uma das capitais europeias mais descoladas e abertas do mundo, Londres vive seu momento “treva” a partir de uma campanha realizada pelo Ministério do Interior britânico. Dispostas a se livrar dos indesejáveis imigrantes, as autoridades criaram uma campanha que tem como lema uma violenta ameaça: “Vá para casa ou enfrente a prisão”. Assim, desde há semanas circulam pelos bairros londrinos várias camionetas com grandes cartazes contendo essa advertência, com o “singelo” discurso de ajuda aos que estão em situação ilegal. A proposta das autoridades é amedrontar os imigrantes com a ameaça de prisão e fazer com que eles se apresentem para uma deportação “sem traumas”.

O tema virou assunto nos jornais e mesmo os liberais estão de acordo de que esta é uma campanha estúpida e ofensiva.  Até Nigel Farage, líder do Partido da Independência, que defende a ideia de que é preciso frear a imigração e fechar as portas à União Europeia declarou que a proposta da campanha é repugnante e geradora de medo.

Ainda assim, passadas mais de duas semanas, as camionetas seguem rodando, visando “limpar” as ruas daqueles que chegam a Grã Bretanha para buscar vida melhor. Entre os “indesejáveis” estão principalmente os habitantes de antigas colônias inglesas na África e Ásia que, de uma forma ou de outra, estabeleceram laços com a metrópole. Mas, o recado é claro: os britânicos podem invadir as terras, roubar as riquezas e tudo mais. Mas os povos invadidos não podem se arvorar a querer viver em Londres ou outras cidades britânicas. Para esses resta o que se vê: ameaças, prisão e deportação.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma mudança necessária : 30 horas


A batalha pelas 30 horas na UFSC e em todas as universidades do Brasil não é uma novidade para os trabalhadores. Desde há anos que os técnico-administrativos incorporaram na sua pauta de luta a ideia de redução de jornada, uma luta mundial. Todos os avanços tecnológicos criados pelo homem permitem essa redução e não há argumento sólido capaz de sustentar que uma pessoa precise ficar oito horas no seu local de trabalho para cumprir suas tarefas. Só mesmo a ganância e a superexploração podem servir de motivo para isso. No caso do serviço público, onde em última instância o patrão é o governo, apenas a eterna submissão ao capital e ao modelo de dependência é o que impede de garantir essa redução de jornada aos trabalhadores.

Ainda assim, a luta tem sido grande. Ora mais forte, ora menos, mas constante. Tanto que o governo teve de admitir, através de um decreto lançado em 2003 (decreto 4.826), que em caso de os setores permanecerem abertos por 12 horas, o turno de seis horas estaria garantido. É lei. Não há mais o que discutir. Por outro lado, no caso das universidades, imperam os sofismas. Boa parte dos reitores insiste que a interpretação da lei não é tão simples assim e admite liberar os turnos de seis horas apenas para setores como os do Hospital Universitário, argumentando que setores administrativos não estariam enquadrados no decreto. Mas, para uma pessoa de mediana inteligência, a lei se mostra muito clara. Se o setor abriu 12 horas, turno de seis.

A universidade é uma instituição que atua em três períodos do dia: manhã, tarde e noite. Logo, todos os setores são passíveis de fazer turnos de seis horas, desde que mantenham 12 horas de atendimento. Para os usuários, essa opção seria absolutamente necessária. Quem já não deu com a cara na porta quando foi buscar um documento no horário do almoço? Pois a universidade, oferecendo os turnos de seis horas, manteria os setores abertos durante todo o dia e também à noite, quando muitos estudantes que trabalham poderiam resolver suas questões.

Mas, o que é uma reivindicação histórica dos trabalhadores de todo mundo, enfrenta barreiras gigantescas na universidade. Na Federal de Santa Catarina muitos são os motivos que levam a uma parcela significava dos trabalhadores a não querer essa redução para seis horas.

Privilégios – uma herança maldita

A UFSC nasceu em plena ditadura militar e desde então seus dirigentes tem consolidado uma forma de atuar que beira ao conhecido coronelismo, típico das regiões rurais. Ou seja: o dirigente assume as funções de “pai”, auxiliando os trabalhadores em questões pessoais e exigindo deles lealdade no local de trabalho. Essa lealdade se concretiza no apoio e no voto que tem garantido a manutenção no poder de praticamente o mesmo grupo político ao longo de quase 60 anos de existência. Os trabalhadores agem no cálculo, assumindo a servidão voluntária. São leais aos chefes e, com isso, garantem alguns privilégios.
Uma dessas moedas de troca é a diferenciação no horário de trabalho. Um número expressivo de trabalhadores já realiza um único turno de trabalho, geralmente atuando das oito ao meio dia ou das duas às seis. Muitos desses trabalhadores acabam sendo radicalmente contra a proposta das seis horas, pois, com isso, teriam de trabalhar duas horas a mais do que já fazem hoje. Essa proposta também esbarra nas chefias. Afinal, se todos os trabalhadores passassem a fazer seis horas, qual seria a moeda de troca que poderiam usar? Perderiam o controle sobre os “favores” que prestam e, com isso, já não teriam como garantir a lealdade.

Não é sem razão que o trabalho do grupo Reoganiza, criado na última greve dos trabalhadores, em 2012, encontre tanto ranço e barreira. A proposta, tirada em assembleia geral, garantiu que fosse criada uma comissão, envolvendo técnicos e representantes da gestão, para fazer um estudo do redimensionamento da instituição. Na prática, era conhecer a situação das vagas nos locais de trabalho e observar se havia a possibilidade de aplicação das seis horas, com dois turnos entre os trabalhadores. Para os técnicos-administrativos a proposta do Reoganiza era clara: mostrar que a universidade pode fazer as tão esperadas 30 horas. Mas, tanto para a gestão quanto para os que temem a perda do controle sobre os trabalhadores, essa não é uma questão fechada. Terminado o relatório, a grande batalha pelas 30 horas ainda nem começou.

30 horas muda a organização da vida na universidade

Se para o grupo que administrou a UFSC por décadas – com um único respiro em 1993 -  as 30 horas elimina uma boa moeda de troca que garante a lealdade de grande número de trabalhadores, para a atual gestão (que não faz parte do velho conservadorismo), essa proposta não diz coisa alguma. Nota-se um discurso cuidadoso e muito relutante. Talvez porque na medida em que se instale o processo das 30 horas, aconteça também grande resistência por parte dos trabalhadores já citados, que hoje cumprem apenas quatro horas. Nada garante que isso não venha a ser um entrave para o andamento dos trabalhos na UFSC.

É fato que a aceitação dos turnos de seis horas trará algumas mudanças importantes, e uma delas é uma nova lógica administrativa, a qual também enfrentará muita resistência. Os trabalhadores teriam de reaprender os processos, uma vez que o colega do turno seguinte precisaria dominar o serviço do que o antecedeu. Afinal, não se admitiria que um determinado serviço só pudesse ser prestado num dos turnos. Isso significaria a necessidade também de um esforço grande de capacitação. A considerar a lentidão com que os trabalhadores acostumados a pequenos acordos e privilégios têm de consolidar mudanças, não será um trabalho fácil para ninguém. Nesse primeiro ano de mandato da gestão Roselane/Lúcia não tem sido difícil perceber os entraves administrativos existentes, e isso que ainda nem aconteceu qualquer mudança. 

Há uma parcela de trabalhadores que perderam cargos e privilégios que realiza sistemática oposição. Também não são poucas as reclamações de trabalhadores que foram removidos de seus velhos locais de trabalho de maneira forçada, sem diálogo, e que se tornaram críticos ferozes. E, nesse universo, a administração tem tido dificuldades em lidar com essas questões, seja por inexperiência ou por arrogância. O fato é que há muita insatisfação. Assim, mudar os processos administrativos com as 30 horas pode aprofundar ainda mais os descontentamentos. A pergunta que fica, então, é: haverá a administração de enfrentar isso? Saberá atuar em consequência, garantindo a participação dialogada, a capacitação? Essa é uma forte dúvida.

Também é importante perceber que mesmo aqueles trabalhadores que hoje trabalham oito horas e esperam pelo turno de seis, haverão de encontrar dificuldades na transição. Não será coisa fácil. Como já foi dito, cada trabalhador precisará passar por um longo processo de readaptação, uma vez que precisará atuar em sintonia com o colega do turno seguinte. E isso não poderá ser feito sem muito trabalho e muita disposição de mudança. Os mais novos, que chegaram nos últimos concursos talvez estejam mais propensos a essas mudanças, porque ainda não estão enraizados em velhos hábitos, mas é certo que a mudança será lenta e precisará de muita conversa, democracia, compreensão e disponibilidade de mudança. Tanto para quem administra como para quem cumpre o trabalho. Talvez por isso a ideia das 30 horas caminhe tão lentamente.  

O futuro

O trabalho desenvolvido pelo grupo Reorganiza foi um bom esforço de diagnóstico da situação funcional da UFSC.  Agora tudo está no papel. As condições para as 30 horas já foram apresentadas. É possível fazer. Resta a decisão política. E essa não virá facilmente. Muitos são os interesses em jogo. Há um grupo conservador que não quer perder sua moeda de troca. Há grupos que simplesmente não querem ver a atual gestão bancar essa proposta. E existem os limites da própria gestão que não parece segura em garantir a transformação, seja porque vai encontrar muita oposição, seja porque não sabe mesmo onde isso poderá dar.

Mas, ainda assim, o certo é que essa mudança precisa ser feita e já nem é mais uma questão política. Passa a ser uma necessidade de adaptação aos novos tempos. Para os trabalhadores pode parecer um grande desafio, mas, certamente eles são os que mais estão preparados para isso. É fato que mesmo entre os técnico-administrativos haverá oposição e essa será uma longa batalha. Só que é uma realidade que precisa ser enfrentada. Não há mais como voltar atrás. Todos os dados apontam que as 30 horas podem ser implantadas. Então, o esforço para isso deverá ser, primeiro, individual, acompanhado da discussão e aprofundamento coletivo. Juntos, os trabalhadores poderão dar esse passo fundamental para melhorar a qualidade de vida e garantir atendimento aos usuários.

Agora, à administração central cabem duas opções: ou assume e realiza a mudança, com todos os riscos que isso pode ter, ou capitula diante do conservadorismo, do medo e da inércia, perdendo a chance de modernizar a universidade. Os caminhos estão abertos e foram pavimentados pela luta dos trabalhadores. O trabalho do Reorganiza consolidou ainda mais essa possibilidade. Aos trabalhadores cabe seguir na batalha pelas 30 horas, garantindo um passo a mais no processo de trabalho. As 30 horas são uma exigência do tempo presente que oferece avanços tecnológicos significativos. Nada revolucionário, apenas uma reforma dentro do sistema burguês. Um pequeno avanço que já não é mais possível protelar.  

domingo, 4 de agosto de 2013

Semana Paulo Freire


Semana Paulo Freire, de 19 a 21 de agosto, na UFSC,  se propõe a pensar a pedagogia latino-americana para a transformação social. Muitas conversas, muitas ideias, muitas propostas. Vale a pena conferir. 

O cubano Carlos Rodriguez Almaguer faz a abertura, falando sobre o pensamento de José Martí. Telmo Adams, da Unisinos, fala sobre Paulo Freire. Elaine Tavares fala sobre Simón Rodriguez.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Bradley Manning nos deu a verdade



Sempre fui renitente com os estadunidenses. Aquela coisa do preconceito que a gente vai madurando dentro da gente e que, por vezes, torna-se cristalizado e burro. Então comecei a ler os livros de Gore Vidal e vi que por lá havia vida inteligente. Mais tarde conheci Howard Zinn e, obviamente, constatei que a história desse povo também é cheia de beleza e de gente comprometida com a vida, com a verdade, com o bem de todos. Não dá para confundir o governo e a elite podre com as pessoas de bem, que assomam em milhares.

Uma dessas tem me causado tristeza e ternura nos últimos dias. O bravo soldado Bradley Manning. Sua carinha de menino, ainda cheia de espinhas, caminhando entre os guardas, com o semblante imutável, definitivamente certo de que fez o que tinha de fazer. Esse garoto era um analista de inteligência lotado no batalhão de suporte da 2ª Brigada da 10ª Divisão da Estação de Operação de Contingência, durante a Guerra dos EUA contra o Iraque. Mais um desses meninos que são obrigados a servir num país distante, travando uma guerra que não é deles, em nome de interesses escusos.

E tal como outros tantos soldados metidos nessas guerras estúpidas, Bradley viu coisas que não pode suportar. Todas essas denúncias que são feitas de terror, assassinatos, estupros, violências, torturas. Tudo isso passou por ele nos dados que manipulava no computador. Premido pela consciência ele decidiu divulgar os horrores que eram praticados pelos soldados no Iraque. Seu desejo era singelo: coibir os abusos. Como qualquer estadunidense comum ele acredita em quase todas as histórias de “mundo livre”, “democracia perfeita” e todas essas ideologias que o governo martela todos os dias através dos meios de comunicação e outras correias de transmissão. Ele sente orgulho em pertencer à armada de seu país. Por isso era confuso ver o que via. Aquelas imagens que observava no computador não fechavam com o ideal de mundo perfeito que tinha na cabeça. 

E foi por conta desse soldado que o mundo pode ver imagens duras como a da morte de uma dezena de civis, promovida sem qualquer pudor desde um helicóptero. E outras tantas atrocidades que apareceram no sítio da Wikileaks. Pois tudo o que Bradley queria é que esse terror tivesse fim. Na sua ingenuidade, talvez, ele acreditou que o desvelamento da verdade sobre o que acontecia no Iraque pudesse parar a máquina da morte. 

Pois o jovem soldado não sobreviveu à traição. Um informante que investigava o caso dos vazamentos de informação conseguiu descobrir que era Bradley a pessoa que havia desviado os documentos e o entregou às autoridades estadunidenses. Ao contrário de Julian Assange ou Edward Snowden, Bradley não teve para onde fugir. Foi preso e ficou confinado em condições de detenção desumanas. Foi apresentado à nação como um traidor. Virou o inimigo número um dos EUA. O “mundo livre” não podia deixar barato o fato de ter tido sua máscara arrancada por um quase guri. Assim, durante sua prisão, desde 2010, Bradley provou daquilo que via seus companheiros fazerem com os “inimigos”. Foi submetido a tratamento desumano. Segundo seu advogado, David, Coombs, Bradley permanecia trancado, sozinho, na cela, sem que tivesse roupas de cama, ou qualquer outro objeto pessoal. Até seus óculos foram retirados. Tudo o que podia fazer era caminhar em círculos dentro da cela vazia. Durante a noite, era obrigado a tirar toda a roupa e entregar aos guardas. Dormia apenas com a cueca. Uma suprema humilhação que visava destruir sua autoestima e seu desejo de viver.

Nessa semana o vimos de novo na televisão, durante seu julgamento. Acusado de 21 crimes diferentes ele foi condenado a 136 anos de prisão. Seus crimes se resumem num só: ele revelou a verdade sobre a guerra. Ele tirou o véu da mentira, colocou à nu a podridão, o terrorismo, o assassinato frio de homens, mulheres e crianças, gente civil.   

E ali estava ele, agora com 25 anos, sereno, ao ouvir a sentença. Talvez, dentro do coração, ainda esteja cheio de perplexidade, porque tudo o que queria era provocar o debate sobre o horror de uma guerra e os excessos cometidos por seus companheiros. Bradley, ao contrário do que dizem seus acusadores, queria salvar o seu “mundo livre”, limpá-lo das manchas. Um garoto ingênuo e sonhador.  Cometeu o terrível erro de tentar salvar seu país. Deveria ser carregado nos braços como um herói pelo seu povo. Deveria ser reverenciado por outros tantos jovens que, como ele, partem para os confins da terra lutando em guerras que nem entendem. 

Bradley Manning nos deu as provas da verdade tão denunciada. Agora vai pagar por isso, na solidão, certamente submetido a toda sorte de humilhações.  

Por conta disso se articulam em todo mundo comitês de apoio ao soldado que pedem a sua libertação. É que as pessoas que lutam por um mundo justo sabem que esse é um dever. Bradley arriscou tudo para nos dar a verde. Agora é hora de retribuir esse doloroso presente. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Alma húngara

Eu era menina e vivia na cidade de São Borja. Estranha guria, amante da solidão. Envolta em livros e velhos discos. Nos dias de verão intenso, quando o mundo parecia derreter e todas as almas faziam a sesta no pós meio dia, eu pegava a vitrolinha e ia para a varanda ouvir os discos do meu pai. Antigas canções sertanejas, música caipira de raiz. Ângela Maria, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Vicente Celestino, Silvio Caldas, Miguel Aceves Mejía. Não me cabiam nem o rock, nem o iê-iê-iê. Eu era uma guria velha.

Mas havia um disco em particular que me tirava do mundo. Na capa, uma cena de acampamento cigano. Uma fogueira, uma mulher morena, bonita, com véus coloridos e pandeiro na mão. Ela dançava e, à sua volta, os demais a miravam com fervor. Dentro da capa, o disco, já surradinho, trazia toda a sorte de canções húngaras. Violino, acordeão, uma coisa que parecia penetrar peito adentro, como uma flecha fervente. Havia uma delas em particular que me amolecia as pernas e me tomava inteira de paixão. Czardas. Nunca em toda vida uma música me emocionou tanto. Quando ela tocava, meu corpo magrinho assomava e, com os olhos fechados, eu ficava a dançar. Primeiro, piano, só o balançar dolente. Depois, aquela explosão de beleza.

Nada podia ser mais inverossímil. No interior do Rio Grande, de frente para a campanha infinita, uma guriazinha meio-charrua se fazia cigana, de alma e coração. E quando eles chegavam, os ciganos de verdade, eu os espiava cheia de vontade de ser roubada, para poder viajar pelo mundo dançando ao pé da fogueira. Até hoje, quando o violino começa a tocar, volto àqueles dias de infância. E minha alma voa para os não lugares da Hungria que nunca conheci, mas que sempre amei.

O espaço do sagrado




Sou um bicho raro. Minhas primeiras leituras foram os mitos gregos, depois vieram os hebraicos, os semitas, os dos povos originários, os celtas, os africanos. Encantava-me esse universo da fé. E, nesse entrecruzamento de deuses, deusas e expressões do sagrado, fui percebendo que a religiosidade nos toma por dois motivos básicos: a falta de uma explicação plausível para os mistérios do mundo e a nossa fragilidade humana. Nietzsche muito bem definiu isso quando disse que a religião servia aos fracos.

Pois ao longo desse mais de meio século de vida, tantas vezes me vi tão fraca, tão sem força, tão frágil diante da tormenta do viver que, nessas horas, sempre, sem qualquer pudor,  me apeguei aos deuses. Eles serviam como redes onde podia descansar meu corpo doído ou espaços de abrigo seguro para minha alma em escombros. Mas, com Mestre Eckart aprendi que também os momentos de sublime beleza estão repletos desse sentimento indizível do sagrado. Horas assim em que a sensação de felicidade é tão grande que a gente se sente mergulhada num oceano intraduzível. O mistério. O ômega.

Também, ao longo dessa caminhada de mulher militante, de lutadora social, nunca escondi que junto a mundanidade das lutas, fatalmente carreguei a atmosfera do sagrado. Nunca me envergonhei de amar os ensinamentos de Jesus, de Buda, dos pajés, dos xamãs. porque, todos eles apontam para a construção de um ser humano de beleza, de sensibilidade, de ternura, de cuidado com o outro. Mesmo quando tomada pelo ódio, assoma em mim a certeza de que o ódio nos move na luta contra os vilões do amor, e, por conta disso, é necessário. Nossa humana condição é essa mesmo, sombra e luz, yng e yang.  E assim vamos caminhando.

Minha mãe era muito igrejeira e desde pequena convivi com essa atmosfera de santos e cerimônias. Uma das coisas que ela me ensinou é que o sagrado não está nas coisas, nas imagens. O sagrado está em nós e na maneira como vemos as coisas e nos movemos no mundo. Ainda assim, me apego a coisas, porque elas, de alguma forma, concretizam determinados sentimentos que por vezes, me são necessários. Amo a figura de São Francisco, por exemplo, não por ser santo, mas por ser o homem que foi, e gosto de tê-lo em casa, numa imagem, porque ao mirá-lo, volta e meia me recordo do que preciso ser. Também tenho em casa uma chacana, símbolo da religiosidade andina, e sua sombra na parede me impele a compreender as profundezas do mistério.

Guardo bonequinhos do Sr. Spock, do Mulder, do Saci, seres de ficção que me encantam com sentimentos bons, de alguma forma, sagrados. Tenho retratos do Che na parede  e espalho pela casa bernunças e carrancas do São Francisco.  Porque, para mim, imagens significam. Chorei quando os talibãs quebraram as estátuas do Buda porque imagino o quanto aquilo podia significar para alguém. Luto pelas comunidades indígenas e me indigno quando os brancos destroem seus espaços simbólicos do sagrados.

Não importa se a gente é de direita ou de esquerda. As coisas significam. E elas podem nos paralisar, nos alienar, nos escravizar ou nos libertar. Tudo vai depender de uma série de outras variáveis que vamos construindo ao longo da vida. Confesso, vivo carregada de religiosidade, embora isso não me torne prisioneira de dogmas ou de pessoas. Busco o sagrado e não tenho vergonha de me deitar nas redes do que chamam "supertição" ou "ópio".  Respeito os deuses de todos e tenho a firme convicção de que o melhor dos mundos é aquele no qual não existem "povos eleitos", definidos por algum homem ou mulher que se arvore decifrar o sagrado. O sagrado é indizível, indefinível, é um momento único de encontro com a beleza suprema. Disso não podem nascer igrejas, apenas relações de amor.

Sonho com o dia em que poderemos viver  nossas fraquezas, amparada nos nossos mais variados deuses e deusas, sem que ninguém diga qual deles é melhor. Esse dia está longe, e até lá, ainda teremos de vivenciar muita intolerância. O que é uma pena.

Enquanto isso, canto!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Levanta o povo Charrua

Charruas levados prisioneiros para a França

Era uma fria manhã de 1834 na bela Lyon. Enquanto a cidade amanhecia, com seus odores de pão fresco e gentes malcheirosas, um homem jovem andava ligeiro pela rua ainda vazia. Carregava nos braços um bebê. Vestia-se pobremente e volta e meia olhava para trás, esperando ver soldados. Os poucos transeuntes não sabiam, mas ali ia um valente cacique charrua, chamado Tacuabé. Carregava a filha da também charrua Guyunusa que, como ele, fora aprisionada na região da Banda Oriental (hoje Uruguai), e remetida a Paris, como um bicho raro. Eram quatro os índios levados para a França: Tacuabé, de 23 anos, Vaimava, um velho cacique, Senaqué, um conhecido pajé charrua e Guyunusa. Obrigados a se apresentarem em circos pelos arredores de Paris, sofrendo maus tratos e saudosos de sua terra, os charrua foram morrendo um a um. O primeiro foi Senaqué, que definhou de tristeza, depois o velho Vaimaca. Guyunusa, com pouco mais de 20 anos, tomada pela tuberculose, morreu em Lyon, deixando um bebê que se acredita fosse filha de Vaimaca. Obteve de Tacuabé a promessa de que a garota haveria de ser livre. E assim, tão logo ela fecha para sempre os olhos, o jovem charrua decida escapulir do circo, levando com ele a menina. Os historiadores nunca acharam o rastro do cacique e da menina charrua, mas, se sobreviveram é possível que hoje o sangue charrua também corra em alguma família aparentemente francesa. Porque se ser charrua é ser valente, não há dúvidas de que Tacuabé conseguiu garantir a vida, dele e da menina, naqueles longínquos e tristes dias. 

Quem eram os charrua

Corria o ano de 1513 quando Juan de Solis chegou ao Rio da Prata e isso marcaria para sempre a vida dos povos que ali viviam desde há séculos. O povo charrua era uma gente aguerrida que habitava as pradarias do que hoje é o Uruguai, a pampa argentina e parte do Rio Grande do Sul. Chamado de vale do rio Uruguai essa era uma região de coxilhas e muitas pradarias, espaço de ventos intensos tanto no verão como no inverno. Além da gente charrua e do povo minuano, dividiam o espaço as capivaras, ratos do banhado, pecaris, veados, jaguatiricas e o mítico ñandu (a ema). 

Já em 1526, o espanhol Diego Mogger relata em suas cartas sobre esses indígenas que eram vistos de longe, observando e sendo observados bem na entrada do Rio da Prata. Os espanhóis descreviam os charrua como uma gente moreno-oliva, de estatura média, pomo de adão saliente, dentes bons, rosto largo, boca grande e lábios grossos. Os homens usavam cabelo bem comprido, muito lisos, e tinham por costume amputar um dedo da mão. Já os minuano eram um pouco mais baixos, de fala baixa, melancólicos e igualmente acobreados. Durante todo o processo de ocupação do território do que hoje é o sul da América Latina eles se mantiveram à distância, porque seu espaço era o interior e tantos os espanhóis quanto os portugueses preferiam se radicar nas margens do mar ou dos grandes rios. Mesmo assim, desde a chegadas dos invasores muitas foram as escaramuças, principalmente com os charrua. Desde o ano de 1573 já é possível encontrar relatos de lutas com os espanhóis. 

Eles viviam como grupos seminômades, em acampamentos estáveis, ora aqui, ora ali, seguindo o ritmo das estações. Caçavam e plantavam coletivamente num território que, depois da invasão, ficou durante mais de dois séculos como fronteira não demarcada entre Espanha e Portugal. Era visto pelos invasores como “terra de ninguém”. Mas, ao contrário do que poderiam crer os que chegavam da Europa, aquele era um espaço já há centenas de anos ocupado não só pelos Charrua mas também pelos povos Minuano, Tapes, Chaná e até Guarani. Ainda assim, apesar das lutas esporádicas, os originários eram ignorados. "Sem alma", diziam os padres. Assim, para os europeus, Joãos e Marias ninguém.

Só que, na verdade, esses povos já tinham desenvolvido uma cultura. Tinham uma organização comunitária e eram regidos por um conselho da aldeia. As tarefas eram definidas, os homens caçavam e as mulheres cuidavam dos toldos que lhe serviam de abrigos. Desenvolveram tecnologias eficazes para a caça como é o caso da boleadeiras, instrumento usado para derrubar os ñandus e bichos maiores. Já cozinhavam a carne e produziam vasos de barro escuro, os quais serviam para uso doméstico. Reverenciavam as forças da natureza e acreditavam na ressureição, uma vez que seus mortos eram enterrados com todos os seus objetos pessoais, para uso na outra vida. No verão andavam nus, no inverno se ungiam com gordura de peixe e usavam peles de animais. As mulheres usavam uma espécie de fralda de algodão, hoje conhecida como xiripá, chamado por eles de cayapi. Os homens usavam uma vincha (faixa de pano) na testa. Toda a organização girava em torno do núcleo familiar. Um homem quando queria se casar fazia o pedido ao pai da moça e já montava sua tenda. A comunidade não tinha hierarquia, tampouco chefe, tudo era decidido no conselho. Presos de guerra não eram escravizados, viravam família e se integravam na vida da comunidade. Todo grupo tinha uma mulher velha que cuidava da saúde. O grupo tinha por costume se reunir no cair da noite para planejar o dia seguinte, mas nada era imposto. Era um povo livre e essa forme de viver iria, três séculos mais tarde, encantar o jovem Artigas, que seria um dos libertadores nas guerras de independência. 

A ocupação espanhola

A vida dos charrua começaria a mudar radicalmente a partir de 1607 quando os espanhóis introduzem o gado bovino e equino na região e, como as pradarias não tinham fim, os animais se espalhavam chegando a gerar imensos rebanhos selvagens chamados de “cimarrón”. Tão logo conheceram o cavalo, os charrua se encantaram com a beleza, a velocidade e a docilidade dos mesmos. Trataram de aprender a lidar com eles e em pouco tempo era exímios cavaleiros, imbatíveis no lombo nu dos velozes cimarrón. Nas batalhas, eles se agarravam às crinas e permaneciam deitados de um lado, praticamente invisíveis aos inimigos. Por algum motivo não sabido, charrua e cavalo passaram a ser quase como uma só criatura.

Por outro lado, foi justamente o crescimento exponencial do gado bovino o responsável pelo fim da mal arranjada paz no território charrua. Como a carne e o couro eram artigos disputados pelo comércio da época, a região que antes era dominada pelos indígenas passa a receber levas de faeneiros (a mando dos espanhóis) e changueadores (aventureiros) que buscavam arrebanhar o gado selvagem para a venda aos ingleses. Essa mistura com a gente europeia e criolla vai enfraquecendo o já frágil domínio que os charrua tinham sobre o território da campanha. Também é nessa época que ficam mais acirradas as relações com a gente branca que começava a adentrar para o interior, cercando terras e fazendo-as suas.

Em 1626 é a vez da chegada dos jesuítas que começam a criar missões para aldear os índios. O objetivo era domesticar e converter. Os guarani foram mais suscetíveis ao discurso e a ação dos jesuítas, mas os charrua não quiseram nem saber. Eram homens e mulheres livres, acostumados aos caminhos da pampa e não houve quem pudesse prendê-los, ainda que com discursos de salvação. Diz a história que chegou a existir uma pequena redução charrua, em torno de 500 almas, mas não durou mais que quatro anos. Os charrua prezavam a liberdade e, acossados pela invasão branca, acabavam por realizar operações de saque nos povoados, em busca do fumo e da erva-mate. Por conta disso a relação com os colonizadores se acirrava cada vez mais. Naqueles dias começavam a surgir as estâncias, e o gado deixava de ser solto nas pradarias, sendo recolhido em grandes currais. Assim, os animais livres escasseavam e os indígenas perdiam sua fonte de sobrevivência, passando a viver em estado de miséria. Sem terra, sem gado e sem comida, só restava o roubo.

Para os espanhóis e criollos que começaram a ocupar as terras da Banda Oriental, aquela "indiarada" começou a ser um problema e tanto. Era preciso exterminá-los. Foi nesse contexto que aconteceu a famosa "batalha de Yi" em 1702, quando os espanhóis decidiram encerrar a aliança que mantinham com os charrua e os minuano, e resolveram matar todo mundo. Para isso, de forma perversa, contaram com a ajuda dos guarani, os quais já mantinham aldeados há anos. E o resultado foi que mais de 200 charrua pereceram sob o exército de dois mil guarani. Outros quinhentos, levados como prisioneiros para as missões, foram assassinados pelos tapes, também orientados pelos jesuítas e chefes espanhóis. Era o que os espanhóis chamavam de "limpeza dos campos". Na metade do século muitos tinham sido passado pela faca e as mulheres e crianças mandadas a Buenos Aires e Montevidéu servindo como domésticas. Ainda assim, vários grupos resistiram e seguiram vagueando pelos campos, vivendo de contrabando de gado e roubo.

Artigas, os charrua e a independência

São esses valentes que o jovem José Artigas vai encontrar nas cercanias das terras onde vivia com os pais, na imensidão da campanha gaúcha. Desde bem guri ele fugia para as tolderias e aprendia com os charrua o valor da vida em liberdade. Aprendeu suas táticas de guerra, sua cultura, sua forma comunitária de viver. Quando então, finalmente, saiu de casa para não mais voltar, foi viver de aventuras como contrabandista de gado. Abdicando de ser um “filho de fazendeiro” era com os irmãos charrua que ele vagueava pelos campos na única rebelião possível naqueles dias: pegar os espanhóis pelo bolso. Em 1897, quando decide entrar para o batalhão de Blandengles, Artigas já tem muito claro os seus objetivos. Inspirado por tantas lutas que assomaram contra o domínio espanhol, Artigas decide que, junto com os negros e índios – os mais explorados entre os explorados – vai comandar a luta pela independência da Banda Oriental. 

E é assim que as coisas acontecem. O soldado Artigas não é um soldado qualquer. Ele pensa e propõe. Tem do seu lado uma leva de homens livres que o seguem de livre vontade. Não como um líder, mas como a um irmão. Acreditam nele e nos seus desejos de vida digna, de terra repartida, de vida comunitária. Esse legado, aprendido com os charrua, é o que vai comandar toda a proposta artiguista de libertação. E é na valentia indígena que acontece a primeira grande batalha de Artigas, na comunidade de Las Piedras, em 1810. Armados apenas de facas, os comandados de Artigas colocam para correr os soldados bem armados da coroa. Depois disso, são inúmeras as páginas da guerra, com Artigas e seu grupo de índios e negros, aos quais chamava de “povo de heróis”. Com eles, praticava a política da soberania popular e da autodeterminação, gestando uma consciência de classe, de pertencimento, que se manteve firme até o massacre final. Nos acampamentos comandados por Artigas todas as coisas eram discutidas abertamente, cada soldado, cada mulher, cada ser, tinha direito a voz e voto. Era essa gente que deliberava, Artigas apenas cumpria. No primeiro grande êxodo, quando o povo seguiu com ele pelo lado norte do rio Uruguai, Artigas chegou a criar uma entidade sociológica, a qual dizia obedecer. Era o “povo oriental em armas”. Nunca traiu os seus companheiros e com eles levou a Banda Oriental à liberdade. 

Mas, a história da libertação desta parte do sul do mundo tem também os seus traidores, que acabaram sendo os carrascos de Artigas e dos charrua. Logo depois da independência, os interesses da elite criolla foram se consolidando e “aquela gente suja” que andava com Artigas acabou virando uma pedra no sapato. Ninguém queria que as ideias de reforma agrária, democracia e autodeterminação vingassem por ali.  A revolução artigista representava uma transformação radical nos métodos e práticas de governo. A prioridade era a ação direta do povo. As comunidades elegiam seus representantes de forma livre e era nas assembleias que se discutiam os temas relevantes da nação. Este sistema foi cunhado como o “sistema dos povos livres”. Pela primeira vez, depois da conquista europeia, o território voltava a ser das gentes. E a proposta defendida por Artigas era tão avançada que ele conseguia manter unidos os povos originários e os descendentes espanhóis sob o mesmo desejo: criar uma pátria nova, livre, soberana, onde cada um tivesse o mesmo poder. Era coisa demais para as elites locais e para os que sonhavam em dominar a região, rica em carne e couro. 

Foi aí que começou a se gestar o processo de destruição de Artigas e de seu povo. Através de intrigas e difamações, o comandante é escorraçado do Uruguai, partindo para o exílio no Paraguai. Com ele seguem dezenas de famílias charrua, decididas a compartilhar sua derrota. Mas, outros tantos permanecem no território uruguaio e passam a ser vistos como um perigo em potencial. Eram homens livres e não haveriam de aceitar a perda das terras e de todo o ideário construído com Artigas. O presidente da nação recém-criada, Fructuoso Rivera decide então chamar os charrua para uma armadilha. 

Corre o ano de 1831, num cálido abril, quando Fructuoso envia convites a todas as tolderias charrua para um encontro em Salsipuedes. Pede a ajuda dos indígenas para defender as fronteiras contra os portugueses. Os charrua acorrem, solícitos, em defesa da pátria oriental, a qual aprenderam a amar como sua. Eles chegam, armam seus toldos e esperam pelo presidente. Ele nunca chegaria. Durante a noite, enquanto os indígenas dormem, o exército ataca. A ordem é matar todo mundo. Nenhum charrua deve sair vivo.  O que se vê na manhã seguinte é um banho de sangue. O povo charrua está exterminado. Os poucos que restam vivos são vendidos como escravos. A nova nação se vê livre do incômodo: o valente povo charrua que, na verdade, foi o protagonista da liberdade.  

Entre os “escravos” levados para Montevidéu seguem Vaimaca, Senaqué, Tacuabé e Guyunusa, que dois anos mais tarde são levados como “bichos de circo” para a França. Subsumidos como criados e perdidos de sua liberdade o povo charrua originário do Uruguai vai se apagando, até deles não restar mais vestígios. Alguns poucos homens que sobrevivem ao massacre de Salsipuedes, comandados pelo cacique Sepé atravessam o rio Uruguai pela cidade de Quaraí, e passam para o lado português, indo, mais tarde, se integrar às colunas do exército farrapo que iniciou a luta pela independência na região do Rio Grande do Sul. Misturados aos minuanos e tapes, eles irão escrever páginas gloriosas no chão brasileiro, mas, igualmente derrotados, também desaparecem na poeira da história. 

O fim?

Até o final do século XX era dado como certo que o povo charrua era uma gente extinta. Dela restava só a memória daqueles anos longínquos da independência. Mas, pouco a pouco, pessoas foram se deparando com suas raízes, descobrindo seus ancestrais. Descendentes da gente charrua que passou para o Paraguai com Artigas, do grupo que cruzou o rio Uruguai e veio para o Brasil, dos que sobreviveram como escravos ou empregados domésticos. A história charrua voltou a ser contada, palavras da língua original começaram a ser lembradas e a vida brotou. O povo charrua foi assomando nos descendentes e hoje já são milhares os que se autodenominam assim. Há uma organização do povo charrua no Uruguai e outra no Rio Grande do Sul. Não há um território específico sendo reivindicado ainda, mas já se sabe que no início de 1900 havia um pequeno grupo fixado na região de Tacuarembó, no Uruguai, bem como atualmente há um grupo vivendo em comunidade próximo à Porto Alegre. 

Para os descendentes o mais importante agora é recuperar a história. O povo do Uruguai precisa saber que só é livre porque um dia o povo charrua se levantou em armas, junto com Artigas, e defendeu as fronteiras ajudando a criar a nação. O povo do sul precisa saber que os charrua foram enganados, massacrados, mas ainda assim deixaram viva a sua marca. Não é sem razão que na entrada de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a estátua que representa a cidade é uma figura que é um misto de paisano e charrua. O famoso “laçador”, apesar de um semblante bem paisano, aparece com o xiripá, a vincha na testa e a boleadeira, elementos típicos da cultura charrua. 

E, hoje, já na metade da primeira década do século vinte e um, os charrua se levantam e se mostram. Tanto que no dia 9 de novembro de 2007, após uma luta que já durava 172 anos, a Câmara Municipal de Porto Alegre reconheceu a comunidade charrua como um povo indígena brasileiro. Considerado extinta pela Fundação Nacional do Índio (Funai), essa foi uma vitória fundamental. O evento foi organizado em conjunto pelas comissões de Direitos Humanos da Câmara Municipal, da Assembleia Legislativa e do Senado Federal.

Há informações de que existem mais de seis mil charrua nos países que compõem o Mercosul. Só no Rio Grande do Sul, são mais de quatrocentos índios presentes nas localidades de Santo Ângelo, São Miguel das Missões e Porto Alegre. A terrível sentença de Fructuoso Rivera não se cumpriu. O povo que dominava todo o território da Banda Oriental não foi exterminado. Ele vive e avança!