sexta-feira, 1 de julho de 2011

Boa notícia para os trabalhadores

O Ministério Público do Trabalho (MPT) notificou a empresa Tractebel Energia, com sede em Florianópolis, por praticar atividades antisindicais. Há mais de 10 anos a empresa vinha barrando a entrada de dirigentes no local de trabalho. A recomendação foi emitida pelo Procurador Regional do Trabalho de SC, Sandro Eduardo Sardá, que questionou o posicionamento da empresa. Em documento expedido, o MPT exige que a Tractebel “Abstenha-se de adotar condutas antisindicais [...]” e “autorize a entrada de dirigentes sindicais na empresa para a avaliação de saúde e segurança dos trabalhadores”.

A diretoria do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis (Sinergia) afirma que entre as empresas do setor elétrico da região, a Tractebel é a única que impede o sindicato de manter contato direto com os trabalhadores. A entidade espera poder agora exercer na plenitude suas atividades.

A legislação brasileira assegura o direito a atividade sindical por meio do artigo oitavo da Constituição Federal e da Norma Regulamentadora 1 (NR 1) do Ministério do Trabalho. Além disso, a Justiça também utiliza como base de entendimento os termos da Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que protegem os trabalhadores e os direitos sindicais.

Chávez fala sobre sua doença.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

As revoltas na Grécia


Todos os dias eu vejo, estupefata, as manifestações em Atenas. Estive lá, em julho do ano passado, e pude acompanhar de perto estas caminhadas, as vigílias em frente ao parlamento, os confrontos com a polícia. Conversei com dirigentes partidários, sindicalistas, estudantes. Em cada um deles pude perceber a clareza de tudo o que acontece no país. Submetido a um governo de vende-pátrias, o povo grego tem visto, desde 2004, a consolidação de um estado de inanição do próprio estado, mergulhado em dívidas, contraídas a revelia do povo mesmo.

Baseados em megalomaníacos projetos de recuperação da pomposidade das olimpíadas, o governo aprofundou a crise econômica, pegou empréstimos de vários bancos europeus para construir estádios, fazer reformas em outros, e sempre com a mesma velha cantilena de que tudo isso se reverteria em benefícios para o povo. Nada disso aconteceu. Alguns embolsaram grana, obras faraônicas foram feitas e o povo agora tem de pagar por isso.

Naquele 2010, quando lá estive visitando o magnífico estádio olímpico, tudo o que pude ver foi vazio e silêncio. Nada acontece por lá. Tudo está entregue às moscas. Já o povo sobrevive no mesmo velho diapasão dos povos dos países periféricos e dependentes. Poucos empregos formais, muito emprego temporário no turismo, muita informalidade. A Grécia é um país incrível, cheio de belezas, berço da história ocidental. Seu potencial turístico é grandioso, mas ao que parece, poucos podem usufruir de toda essa riqueza.

Nas ruas, pode-se perceber um movimento organizado muito forte. O partido comunista é bastante agregador e tem sido uma ponta na lança dos protestos. As passeatas organizadas pelos sindicatos também mostram a força dos trabalhadores visceralmente articulados nessas organizações trabalhistas. Há ainda um movimento da juventude, não ligada a qualquer partido ou organização, que também se expressa nas ruas de forma muito radical e há igualmente um outro movimento de populares que se integra numa ou noutra coluna, simplesmente porque sente-se indignado com tudo que acontece. Nas análises que consegui colher naqueles dias de peregrinação pelas entidades o que aparece muito claro é que estes movimentos que se juntam nas ruas ainda não eram capazes de se unir num único projeto de nação. Cada grupo disputa seu ponto de vista e muitas vezes as manifestações acontecem de forma separada, só se juntando ao final, na Sintagma, a praça central em frente ao parlamento.

Lá dentro, é o que se vê na televisão. Completamente indiferentes ao clamor das ruas os deputados seguem decidindo por mais empréstimos para saldar as dívidas do país, feitas sem que o povo pudesse opinar. Mais empréstimos que significam a completa submissão do país às receitas impostas pelos organismos financeiros. Cortar despesas, apertar os cintos. E tudo isso só vale para os trabalhadores. Ao observar os ternos bem cortados dos deputados que se sucedem no plenário, pode-se perceber que no bolso deles nada está doendo. Mesmo na Rede Globo, onde as notícias são pasteurizadas, é impossível deixar de perceber as contradições que saltam, gritantes.

Ontem (28/06), depois de mostrar as imagens violentas dos choques entre os manifestantes e a polícia, e informar que o parlamento havia aprovado as novas medidas recessivas, Fátima Bernardes leu mais uma notícia, com um sorriso: “A aprovação do novo pacote animou os investidores estrangeiros e a bolsa de Nova Iorque teve uma subida de 6%”. Bom, para qualquer observador de nível médio, essa informação vale mais do que mil análises. Enquanto as gentes gregas se debatem entre suas diferenças e toda a desgraça que se abate sobre elas, os investidores, banqueiros, empresários, os tubarões, lambem os beiços e se preparam para mais um banquete com comida alheia.

Nos meus ouvidos ainda ecoa a voz de trovão de um velho militante comunista, daqueles que ainda enche os olhos d água ao lembrar dos velhos tempos de revolução popular, da grande a figura de Alexandros Panagulis, o inesquecível lutador grego que, em 1968, tentou matar o ditador Georgios Papadopoulos. “Eu não queria matar um homem, e sim um tirano”, dizia. Naqueles dias havia um projeto, um sonho, que, hoje, se perdeu, até porque os que comandam se dizem socialistas. Há desesperanças, há tristezas, mas há luta, muita luta.

Nas ruas de Atenas, os jovens e os trabalhadores saem de casa, todos os dias, com o seu kit básico de revolta: lenços, máscara contra gás (muitas feitas de modo bem artesanal), pedras. Mas o que se vê é que as ruas se enchem, os conflitos se fazem, e nada muda. A elite que domina o país, a classe política que faz as leis, todos seguem fazendo o que bem entendem sem que a revolta se transmude em mudanças reais. A esquerda democrática pede novas eleições, acredita que pela via institucional as coisas podem mudar. Mas, há uma grande parcela que já sabe que mudam as moscas, mas a meleca segue igual. Há que refundar a Grécia. O desafio é unir esses lutadores num projeto de nação. E isso, ao que parece, longe está... longe está...

Enquanto isso, vamos assistindo a toda essa tristeza.

domingo, 26 de junho de 2011

Salários dos trabalhadores: papo mosca do governo



O documento elaborado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal sobre o controle das despesas de pessoal do serviço público federal mostra claramente que os argumentos do governo sobre não haver dinheiro para aumentar salários, ou que o aumento colocaria as finanças em risco, são absolutamente vazios de sentido. Em uma nota técnica sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal o Sindifisco apresenta gráficos e oferece dados que não deixam dúvidas: o Brasil investe muito pouco nos serviços públicos, tem pouco trabalhador atuando nessa área e opera com baixos salários, salvo nos cargos que considera “estratégicos”. Ver no sítio
http://www.sindifisconacional.org.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=76&Itemid=172&lang=pt

A Lei de Responsabilidade Fiscal entrou em vigor no ano de 2000 e tinha como suposto controlar melhor os gastos do Estado visando dar equilíbrio e transparência às finanças e buscando fazer com que o Estado não gastasse mais do que arrecada. No que diz respeito aos gastos com pessoal a lei estabelece que não podem passar dos 50%. Segundo o gráfico apresentado pelo Sindifisco, desde que a lei foi criada os gastos com pessoal nunca passaram deste percentual, pelo contrário, eles foram diminuídos significativamente. Entre 2004 e 2008 alcançou a média mais baixa, de 33, 3.

O estudo também mostra que o número de trabalhadores públicos do executivo federal reduziu drasticamente de 1995 a 2006, enquanto os do Legislativo e do Judiciário aumentaram. Só a partir de 2009 o número de trabalhadores no executivo começou a aumentar, fruto da política de tentativa de reversão de algumas terceirizações, denunciadas e comprovadas como lesivas aos cofres públicos. Custava mais caro ao Estado pagar trabalhadores terceirizados do que concursados. De qualquer forma, somando todos os poderes, ainda assim o número de trabalhadores público cresceu muito pouco nos últimos 15 anos, passando de um milhão e 33 mil trabalhadores, em 1995, para um milhão e 55 mil, em 2009.

O levantamento feito pelo Sindifisco também mostra que desde a Lei de Responsabilidade Fiscal o Estado vem mantendo os gastos com pessoal, na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB), dentro dos limites dos 5%. Se formos comparar com outros países os dados mostram o quão pouco o Brasil investe nos seus trabalhadores. A Suécia investe 15,4%, Portugal 13,7%, França 13,3, Reino Unido 12%, Espanha 11,8%, Itália 11%, garantindo assim à sua população uma melhor qualidade nos serviços públicos prestados. Isso mostra que comparando com os demais países o investimento no serviço público por parte do Brasil está muito aquém dos padrões internacionais.

Para o Sindifisco o período de ajuste nas contas federais tem sido muito longo – vem desde 1999, e reduziu as despesas em 22% - e torna as carreiras no serviço público pouco atraentes, o que faz com que os trabalhadores tenham de buscar um segundo emprego ou abandonem o trabalho por ofertas mais atrativas no setor privado. Com as restrições de gasto impostas pela LRF o serviço público sofre muita descontinuidade e tem baixa qualidade, pois impede que sejam repostas vagas e que os trabalhadores tenham seus salários reajustados. Outro problema causado pela LRF é que as carreiras que o governo considera estratégicas ou aquelas que têm maior poder de pressão acabam sendo as que conseguem ter seus ganhos aumentados, provocando uma perigosa divisão entre os trabalhadores. Basta ver o quadro dos salários para observar que os trabalhadores do Judiciário e do Legislativo tiveram crescimento muito mais significativo nas suas folhas de pagamento. Serviços básicos para a população como a Educação e Saúde, estão sempre na rabeira da lista.

Ainda conforme o estudo do Sindifisco se a LRF tinha como objetivo segurar as contas e fazer o “ajuste”, isso já foi consolidado e não haveria razão para se continuar impondo tamanho arrocho ao funcionalismo que, em última instância, é a ponta no atendimento dos serviços públicos básicos. Só com salários o governo já conseguiu economizar quase 500 bilhões e sabe-se muito bem que isso não serve para melhorar a vida da população: vai para pagamento de dívidas externa e interna. Nesse sentido perdem os trabalhadores públicos e perde a sociedade em geral.

Não bastasse todo esse freio nas contas para garantir o pagamento de dívidas, algumas delas ilegítimas, o governo federal anuncia a necessidade de novos ajustes sobre o funcionalismo, trabalhando com a ideia de congelamento salarial por mais uma década. Assim, os trabalhadores das universidades federais que, no conjunto dos trabalhadores públicos do executivo estão na rabeira da remuneração, decidiram entrar em greve exigindo reajuste, delimitação de uma data-base (até hoje os trabalhadores públicos não a tem) e melhorias no Plano de Cargos aprovado em 2004 que causou uma série de problemas e disparidades entre os níveis.

Das 51 Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), 47 estão paralisadas. O governo, como sempre, faz-se surdo às reivindicações dos trabalhadores ao mesmo tempo em que entrega o país para os que destroem a floresta, latifundiários, grandes empresas multinacionais, empreiteiras. Assim como faz ouvidos moucos para os indígenas, os ribeirinhos, os pescadores e os empobrecidos, igualmente ignora o funcionalismo público, sendo assim responsável pelo cada vez menos eficaz serviço público. De certa forma, esta postura ajuda ainda mais o setor privado que vive de olho nos serviços que deveriam ser básicos e gratuitos como a saúde e a educação.

Assim, enquanto a mídia nacional mostra uma excessiva preocupação com o fato de os estádios de futebol ainda não estarem prontos para a Copa de 2014 (cuja verba usada será eminentemente pública), os trabalhadores se vem às voltas com mais uma luta desigual. De um lado o governo, cada vez mais entregue ao grande capital, e de outro a sociedade que não consegue se solidarizar com aqueles que ela julga serem os responsáveis pelos péssimos serviços públicos. Ao serem bombardeadas pelas reportagens na televisão que mostram o horror dos hospitais públicos, por exemplo, a maioria das pessoas não consegue estabelecer a ligação entre aquele horror e o sistema político/econômico/cultural que o engendra. Mais fácil é colocar a culpa no enfermeiro ou no atendente. Ele está mais próximo!

Neste redemoinho de ajustes copiados do FMI e Banco Mundial, de entrega total aos gerentes do Capital, o governo vai desgastando ainda mais o serviço público e destruindo a auto-estima dos trabalhadores. O que os dados do Sindifisco mostram é que não há argumento plausível para a recusa de aumento salarial e este trabalho pode ser mais um instrumento de luta dos trabalhadores. Resta uma boa mobilização, muita estratégia, bastante conhecimento das contas públicas e uma luta efetiva nas ruas.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nossa cultura, nosso Agostinho!!!

A saúde pública em crise?




Quem vê televisão não perdeu essa. Todos os dias têm alguma matéria falando mal dos hospitais públicos. Problemas bem reais, eu sei. Mas, por outro lado, creio que a abordagem é que é meio vesga. Pela virulência no ataque à saúde pública a gente, que é macaca velha, já antevê: é a tradicional lógica de falar mal para preparar o povo para a privatização. Esta é uma tática muito ladina.

Além de se falar mal do atendimento público, os repórteres acabam também levantando alguns casos de médicos canalhas que se aproveitam do sistema e sequer trabalham. Acham-se alguns bodes e pronto. Está feita a crítica. A solução apresentada sugere algumas passeatas contra a corrupção e é claro, a privatização dos serviços. Assim, com certeza, o povo terá mais qualidade. Mas, a maioria das gentes que depende do serviço público bem sabe. A privatização não melhora nada, a não ser a vida daqueles que traficam com a saúde alheia. Para quem não dinheiro de nada valem os hospitais bem equipados e profissionais conscienciosos.

Penso eu que a questão da saúde merece outra abordagem. Eu trabalho numa universidade e vejo bem quem é que consegue fazer o curso de medicina. E olhem só: a universidade onde eu trabalho é pública. No geral, os alunos da medicina são jovens da classe alta, os que conseguem fazer um curso em tempo integral, que precisa dedicação exclusiva. Os filhos da pobreza não têm essa possibilidade. Um ou outro consegue entrar no curso, mas é raro. A medicina, então, é uma profissão a qual só pode chegar uma classe bem específica. Isso, por si só já é um problema. Os jovens da classe alta não sabem o que é a vida de alguém que nada tem. Não sabem. O grande filósofo da linguagem, Wittegenstein, já anunciara. “A vida dos felizes é diferente da vida dos infelizes. Não se comunicam”.

Na universidade, estes alunos aprendem que a medicina é um negócio. Tá, eu sei que tem professores que se esforçam por trabalhar a questão pública, que são valentes lutadores do SUS e tudo mais. Mas é a minoria. O que impera é a ideia da medicina como negócio. Quem sai da faculdade sonha em ter seu consultório, bem lindo, e uma freguesia seleta. Os tempos de atendimento nos postos de saúde ficam para trás. Também é certo que há alguns abnegados que se dedicam ao SUS, mas, são poucos. E a luta dentro do sistema, tal como ele se apresenta, é quase heróica.

Os médicos que não tem condições de já sair com seus consultórios bonitos, amargam nos vários empregos públicos. Ganham mal e precisam se virar nos 30. São peças azeitadas de um sistema que não se preocupa em cuidar da saúde, mas da doença. Muitos sofrem com isso, mas se vêm sem saída.

No meu modesto pensar, creio que o que deveria mudar era o modo de organizar a vida. Outro dia, vendo um vídeo que o Michel Moore fez em Cuba, para onde foi levando quatro estadunidenses doentes, pude sentir o que é um país com respeito pela vida e pela saúde. Os cidadãos estadunidenses foram recebidos e tratados. Sem o famoso “seguro”, estavam há 20 anos tentando um atendimento digno. Nunca tiveram. Ali foram examinados e diagnosticados. Ali receberam tratamento. Cuidados e remédios de graça. Choravam como crianças. Nunca haviam visto algo assim. Uma das mulheres ao ver, na farmácia, que o remédio, o qual precisa tomar duas caixas por mês, custava cinquenta centavos e que nos EUA custa 150 dólares, chorou copiosamente. Viu o que era um país onde a saúde das gentes não estava ligada ao negócio farmacêutico.

Nós, nos países capitalistas, somos escravos de um sistema de ensino que privilegia o rico, e escravos de um sistema de manutenção das doenças para a sobrevivência dos laboratórios farmacêuticos. Nossa saúde é o que menos importa. Melhor é ficar doente e consumir remédios às pencas. Assim era também na Venezuela. E, quando o governo Chávez convocou os médicos do seu país para atuarem nas periferias, nas cidades longínquas, quando os chamou para atuarem na saúde, o que recebeu? Um sonoro não! Poucos estavam dispostos a pisar no chão da vida real. Ele então apelou aos cubanos e lá foram eles, solidários como sempre, levar a saúde para cada cantão. “Ditador”, gritaram os médicos da classe alta, servidores voluntários das grandes empresas de remédios. E as gentes receberam os médicos cubanos, e ganharam saúde.

É disso que falamos. Aqui no Brasil haveria de ter um governo que também convocasse. Que os médicos brasileiros fossem chamados a cuidar da saúde e não da doença. Que se dispusessem a sair de suas zonas de conforto, que se dedicassem às gentes de verdade, que não tivessem outra preocupação a não ser confortar os que sofrem. Mas, o que se vê é a perseguição a um ou outro, numa agenda de plantão, em momentos em que se precisa privatizar. Haveria de se fazer uma virada radical, mudar o sistema, as prioridades, a universidade. Haveria de se dar condições aos garotos filhos da pobreza para que pudessem entrar e fazer medicina. Eles saberiam onde dói a dor das gentes.

Mas essa não é uma coisa que acontece só por desejo. Há que se construir. E a melhor forma seja, talvez, primeiro, desvelar todos os véus, buscar ver o que está escondido, a “verdadeira verdade”, como diz o poeta Bernardo. Quem sabe então... quem sabe!


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Alguns dilemas do Jornalismo


No debate promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina para discutir liberdade de expressão, o jornalista Celso Martins trouxe um aspecto da realidade que não aparece muito na discussão sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão. A Fenaj insiste no argumento redutor de que o diploma do jornalista melhora o jornalismo que a sociedade vai receber. Isso soa de certa forma até pueril e mostra o quanto alguns dirigentes da categoria estão mesmo completamente alienados da vida real. Celso Martins - que defende o diploma porque acredita que é uma forma de garantir certos direitos aos trabalhadores – problematizou a questão da liberdade de expressão lembrando que desde a consolidação das técnicas jornalísticas inventadas pelos estadunidenses e copiadas de forma acrítica pelos brasileiros os jornalistas perderam a capacidade de dizer sua palavra. Na prática, diz Celso, os jornalistas, que antes eram intelectuais e publicavam longos artigos de opinião e análise, tornaram-se porta-vozes de vozes alheias e não têm mais espaço para um texto de profundidade e de opinião. No geral, quem opina nos jornais são os famosos “articulistas” que necessariamente não precisam ser jornalistas formados, e o texto de profundidade há muito sumiu das redações.

Além das novas técnicas e das novas tecnologias que acabam obstaculizando o bom jornalismo, as condições de trabalho também calam a voz do jornalista. Muitos são obrigados a segurar dois empregos, ganham salários aviltantes, vivem a lógica da superexploração. Isso os torna também piores pessoas, fazendo com que avance o egoísmo e a falta de solidariedade de classe. “O jornalista mesmo já não tem espaço nos jornais e na TV. Não tem como dizer sua palavra”. Assim, se a liberdade de expressão é, como explicou o procurador João dos Passos, a possibilidade de – tendo o espaço – a pessoa não ter sua palavra censurada, então, esse é um artigo muito em falta no jornalismo. O procurador catarinense, analisando os argumentos do STF sobre liberdade de expressão, interpreta a Constituição de forma diferente. Segundo ele, a liberdade de expressão não significa que a pessoa possa falar onde queria e o que queira. “O que a lei diz é que o conteúdo da fala de alguém que tenha um espaço onde se expressar, não pode ser tolhido. Isso não significa que a pessoa possa reivindicar falar em qualquer espaço. Há regras e elas precisam ser respeitadas”. No caso do jornalismo, não haveria obstáculo à lei a obrigatoriedade do diploma. Mas, o STF entendeu diferente.

Outro aspecto que raramente é lembrado nessa cruzada pela retomada do diploma é o papel das universidades. Na convenção de solidariedade a Cuba, no início do mês de junho, em Porto Alegre, conheci uma jornalista gaúcha, Tania Faillace, da velha guarda, que tem uma posição bastante crítica da lógica de mercantilização que tomou conta da educação depois dos anos 40. Segundo ela, cursos esdrúxulos e inúteis, criados apenas para a reserva do mercado, provocaram trágicas brigas entre radialistas e jornalistas, relações públicas e publicitários, acabando, ao final, prejudicando em grande parte os gráficos e todo o pessoal da "cozinha" do jornal impresso. “Eles foram substituídos pela informatização generalizada, que faz um jornalista (com diploma) fazer (muito mal) o trabalho de: repórter, redator, revisor, diagramador, pré-impressor e outros”.

Tania defende que os jornalistas de hoje em dia não deveriam fazer a tarefa dos gráficos, mas o que vê são garotos e garotas recheadas de egoísmo, achando maravilhoso poder fazer tudo e dispensar os demais. “E, assim, eles são operadores informáticos razoáveis, péssimos redatores, com a maioria sequer conhecendo bem o português, e piores analistas de fatos, que é uma exigência básica para se fazer um jornalismo razoável. O jornalismo é uma atividade política e não técnica”.

Por conta dessa idéia ela questiona de forma radical o papel da universidade nos dias de hoje e sua incapacidade de atuar no sentido de transformar a sociedade. Para Tania, o sistema universitário brasileiro tem como objetivo principal manter as classes sociais nos seus “devidos lugares”, sem garantir aos filhos dos trabalhadores o conhecimento que realmente interessa. Ela não acredita que o diploma, saído de uma universidade como a que existe atualmente possa garantir qualidade. Nesse sentido, discutir a universidade e os cursos de jornalismo também é papel de quem se preocupa com a formação do ser que vai exercer a profissão de jornalista. Não bastasse isso, necessário seria também discutir o acesso aos cursos, como bem lembra Tania. Quem consegue hoje fazer uma universidade pública, de qualidade? E qual a qualidade das dezenas de cursos de jornalismo que as universidades privadas oferecem a peso de ouro? As perguntas são muitas e as respostas ganham mais luz dependendo do interesse de cada um.

Se o jornalismo é uma atividade política, como diz Tania, por que foram tiradas dos currículos cadeiras teóricas importantes que envolvem a compreensão da economia, da política, da arte e da cultura do país? Por que os chamados “melhores cursos” são os que direcionaram seus currículos para as áreas técnicas, como se saber fazer uma página na internet fosse o supra-sumo do jornalismo? Por que os debates críticos sumiram das universidades sobrando apenas a mente cativa e colonizada? Na minha modesta compreensão, o jornalismo é atividade política e técnica, e ambas devem andar juntas, siamesas.

Já para os empresários da comunicação, pensar é coisa perigosa. Jornalista precisa saber o mínimo da técnica e ter o máximo de domesticação. Sem maiores compreensões sobre as forças que regem o mundo capitalista de produção, os estudantes dos cursos de jornalismo saem das salas de aula direto para os “matadouros” empresariais levando na bagagem o aprendizado da técnica e da ideologia dominante. E, essa, exige competição, egoísmo, individualismo exacerbado. A vida lá fora é vista como um campo de guerra em que o mais esperto e mais bonito sairá vitorioso. Não é sem razão que hoje, enquanto entram pela porta da frente os jovens e competitivos recém formados, dispostos à multifunção e a superexploração, pela porta de trás saem os jornalistas mais velhos, muitos deles já bem próximos da aposentadoria, porque são muito “antiquados” no trato do jornalismo. Eles insistem em fazer reportagens, enquanto os patrões exigem que dirijam, fotografem, editem, diagramem, revisem, montem blogs, filmem, criem páginas. E tudo isso, uma pessoa só.

Estas são algumas das faces do problema que é fazer jornalismo hoje no Brasil. O diploma é uma delas. No fundo da questão está o tipo de sistema que rege a nação. Enquanto persistir o modo capitalista de produção, a luta dos trabalhadores será sempre reativa, será quase sempre um processo de redução de danos, de “menos pior”. No debate que envolve a decisão do STF precisa ser considerado esse ponto. A volta do diploma, por si só, não garante nada. Como lembra o Celso Martins, os jornalistas seguiriam calados, sem direito a voz real. E também no cotidiano da empresa os trabalhadores seguiriam sendo explorados da mesma forma. A luta então poderia se pautar por um horizonte mais ousado, de mudanças radicais, de transformação real do sistema de organização da vida.

Mas, ainda uma boa parte dos jornalistas acredita que é uma raça superior, afeita e propícia aos salões do poder. Esses parecem não ter recebido a “triste notícia”, como dizia Brecht: não são superiores, são apenas trabalhadores num mundo de superexploração. Mudar esse estado de coisas parece ser a única saída possível. Lembro aqui o caso de Cuba. Para um jornalista de lá é quase incompreensível esse debate que levamos aqui no Brasil. “Como assim, diploma?” É que na ilha caribenha, onde o povo cubano fez uma revolução e destruiu o modo capitalista de produção, qualquer um tem acesso à universidade, seja ele taxista, cozinheiro ou jornalista. Por isso, em Cuba, este tipo de questão não tem sentido.

Já para os jornalistas locais, enquanto não se muda a vida, estes são alguns nós. Cabe desatá-los. Mas nunca sem perder de vista de que há outras formas possíveis de caminhar no mundo. E pavimentar esses caminhos pode ser uma boa coisa para se fazer. Na universidade e fora dela.