sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Como vencer a batalha da mentira e da desinformação

Foto: Vilar RodrigoWikimedia Commons - Os espaços vicinais como espaços do encontro 

Sempre tive muito arraigada em mim a proposta do trabalho de base. Não por acaso. Sou filha das CEBS. Quando no Brasil vivíamos a ditadura, tudo era proibido. Falar de política, discutir demandas, compreender a realidade, organizar lutas trabalhistas. Os partidos de esquerda eram clandestinos e não havia outra forma de chegar ao povo que não a do trabalho de base, esse feito nas comunidades, nas associações de moradores. A Igreja Católica, na sua vertente da Teologia da Libertação, foi talvez a única que conseguiu fazer esse trabalho organizativo às claras. Quem iria impedir que os clubes de mães da igreja se reunissem? Ou que os grupos de juventude católica se encontrassem? Foi assim que nasceram as Comunidades Eclesiais de Base. O objetivo era discutir a bíblia, mas a discussão passava pela análise da realidade e, principalmente pela proposta de que não era necessário esperar o céu para ser feliz. Era possível ser feliz aqui e agora.  A teoria do vale de lágrimas totalmente desmantelada. 

Foram anos e anos nesse trabalho e não há como negar que grande parte, senão a maioria, dos movimentos sociais que começaram a surgir e se fortalecer no começo dos anos 1980, tiveram aí a sua semente. Combater a ditadura passava por essas reuniões de pequenos grupos.

Outro dia, em conversa com o professor Nildo Ouriques, ele comentava que os tempos modernos não comportam mais aquele tipo de trabalho que fazíamos na ditadura. Creio que ele tem meia razão. 

Hoje não é mais necessário criar subterfúgios para uma reunião ou para a organização dos trabalhadores. Tudo está aberto. E mais, temos uma plataforma tecnológica que, em tese, nos abre para o mundo e na qual podemos publicar textos, vídeos, fazer encontros etc... Não há partidos clandestinos e as possibilidades para os debates são infinitas. Mas, aí também residem problemas.

Justamente por sua multiplicidade as plataformas de comunicação acabam gerando um excesso de informação. Qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode fazer um vídeo expondo sua “verdade” e isso vai rodando nas telas, uma após a outra, sem que a gente consiga mais – por conta do extremado número – distinguir o que é correto, o que está embasado em informações seguras, o que verdadeiramente faz sentido. Isso sem contar os vídeos de dancinha e de bichinho que nos distraem a cada tanto. Caminhamos num pântano, numa areia movediça, dos quais raramente conseguimos escapar. 

Como então enfrentar esse tempo, que é totalmente outro, mas que traz suas dificuldades singulares? Acredito firmemente que precisamos, junto com os meios tecnológicos que dispomos, trabalhar também no presencial. Os pequenos grupos, as pequenas reuniões, os pequenos encontros. Eles servem para estabelecer e fortalecer laços amorosos que, em última instância, é o que determina a atenção e a audiência. Isso pode ser feito com o uatizapi? Não sei! Pode ser. Mas, creio que nada supera o olho no olho, o caminho do abraço, do afeto, do respeito construído na caminhada real. Daí que o uatizapi vem depois, como são os grupos de família ou de amigos. Os laços já estão formados...

Como o universo das redes se configura na formação de bolhas, fica bem difícil chegar a alguém que não faça parte do nosso mundo, que não compartilhe nossa forma de ver a realidade. E sair da bolha nos joga nesse pântano de informações que pululam incessantemente. Assim que realizar esse trabalho de encontro em espaços diferenciados pode ajudar os partidos, os grupos políticos, os movimentos, a estabelecer nexos com gente que não se encontraria nos lugares onde estamos acostumados a estar. As estradas reais ainda são importantes, penso eu. 

Não sei se isso poderia ser chamado de trabalho de base, mas a arte do encontro vivencial ainda me parece ser indispensável. Adélia Prado, poetisa mineira, diz: só o que a memória ama fica eterno. Lembro-me de mim mesma, nos caminhos das CEBS, ouvindo sobre a bíblia e sobre a luta política e as memórias mais penetrantes são as caras, os toques, os abraços, os sorrisos, a atmosfera da solidariedade, da cooperação. Isso ficou marcado como uma forma de viver, é mais forte que o discurso. 

Alguns me chamariam de igrejeira... mas eu prefiro dizer que a raiz dessa minha certeza é antropológica. O ser humano pende para a beleza e para o belo e quando os vislumbra, ainda que por uma pequena greta, os segue, os persegue! 

Daí que descobrir como fazer esse trabalho num tempo em que aparentemente não há mais censura e onde a informação jorra é nosso desafio... 

Óbvio que nesse caminho não podemos abrir mão da comunicação de massa... mas isso é outro assunto! 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Com Samuel, pelos Andes

Na foto, Samuel, o caminhão vermelho e nós três, na parada em Paso de Jama.

Seu nome: Samuel. O encontramos meio escondido debaixo de um enorme caminhão que carregava papel. Estava quase marrom, a cor que cobria tudo na perdida cidade de Susques, na puna argentina. Com um pano sujo, tocava aqui e ali no coração da máquina buscando achar o problema que o prendia naquele lugar. Estava atrasado e mal-humorado. Susques é chamada de portal dos Andes, cidade fronteiriça onde está o posto da alfandega e todos os caminhões que cruzam a linha entre a Argentina e o Chile têm que, obrigatoriamente, parar ali. Por isso, era ali que também estávamos em busca de uma carona para San Pedro de Atacama. Samuel já era o quarto caminhoneiro a ser consultado sobre a tal carona.  “Não dá, tô quebrado”, foi a resposta seca e incisiva. Já eram onze da manhã  e a possibilidade de outros caminhões passarem  se esvaía. O movimento maior era sempre de manhazinha. “Até o meio dia ainda pode aparecer alguém”, dizia Fernando, um dos fiscais da aduana, ansioso por nos ajudar. Mas no olhos dele se percebia que as chances eram pequenas. Teríamos que ficar mais um dia em Susques e nosso sonho de chegar ao deserto ainda naquele dia ficava mais distante. Dalí não saía ônibus nem nada. A única chance era mesmo um caminhão.

As onze e meia da manhã o Samuel apareceu na aduana para acertar os papéis. Iria arriscar atravessar a cordilheira com o caminhão ruim. Não podia mais ficar ali. Estava igual a nós, com pressa de chegar ao Chile, mas tinha medo de levar caronas, pois a coisa podia ficar ruim. A cordilheira é traiçoeira e havia notícias de que estava nevando mais acima. “É arriscado”, balbuciava, enquanto Fernando insistia em convencê-lo a nos levar. Então, finalmente, foi vencido.  E lá fomos nós para a boléia levando a reboque o argentino Horácio, que voltava para o posto da fronteira com um galão de gasolina. Seu carro havia ficado lá, sem combustível. Seríamos cinco a subir os Andes no caminhão avariado. 

 A insistente fumaça branca que saia do possante deixava claro que sem óleo não chegaríamos a lugar nenhum. Poucos quilômetros depois de Susques paramos num posto, o último de toda a travessia da cordilheira. Por azar, só havia quatro litros de óleo  disponíveis. Compramos. Sim, nós, porque o Samuel estava tão quebrado quanto o caminhão. Há dias fora de casa e com o veículo avariado já não restava qualquer tostão. E assim tossindo e cuspindo fumaça lá foi o caminhão pela trilha da montanha.

A travessia é solitária. Vez ou outra, muito rara, aparece alguém. Geralmente os caminhões passam bem cedinho e são pouquíssimos os carros de passeio. O trotezito do caminhão não saia dos 40, 30 quilômetros por hora. Íamos rezando para que o óleo não evaporasse todinho. Mas, faltou santo. O barulhinho de pi, pi, pi no painel dava conta de que era preciso parar. Na estrada, o vazio. Uma chuva forte, deserto total. Os cinco desolados, esperando que passasse alguém. Por um milagre apareceu um caminhão e compramos mais quatro litros de óleo. Voltou todo mundo para o caminhão e toca a subir. Marcela começou a ter dor de dente e ria de nervoso. Eu, que não havia comido nada aquele dia, comecei a passar mal por causa da altura. Na frente, Miriam seguia, impávida, de papo com Horácio que contava sobre Córdoba, sua cidade natal. A duras penas chegamos a Paso de Jama, o ponto da fronteira, e ali deixamos o companheiro argentino. Nada havia além da aduana.

Feito os trâmite seguimos a subida da montanha, o possante cuspindo fumaça. Agora, na estrada de asfalto o que nos esperava era a neve. Começou assim, de repente, e num segundo, tudo estava coberto de gelo, inclusive o caminhão. Bem naquela hora lá veio o barulhinho insistente pi,  pi, pi, exigindo óleo. De novo paramos, no meio da neve, e descemos a olhar a estrada. Um frio de rachar. Mais um milagre? Rezávamos.  

Pois não demorou dez minutos e logo apontou outro caminhão. O motorista nos vendeu mais quatro litros de óleo. Vibrávamos com palmas e gritos. O caminhão seguiria seu ritmo de completa lentidão. Samuel ria da bagunça e contava um pouco de sua vida. Em 27 anos de estrada, sempre fazendo a rota da cordilheira, nunca havia passado por aquele tipo de situação. Casado e com três filhos queria chegar logo à cidade de Calama, no Chile, onde esperavam por ele com uma comidinha caseira e uma cama quente. Achava estranho o fato de nós três sermos casadas  e estarmos viajando sozinhas. “Lá no Brasil a gente é moderno”, brincava Miriam.  E ele ria um riso que deixava entrever que lá no Chile não era assim não. 

Como a jornada estava longa dividíamos a pouca comida que tínhamos: um pão de sal pequeno que eu comprara em Susques, cortado em quatro pedaços, uma barra de cereal, também cortada em quatro pedaços e pedaços de gengibre. Foi o que nos sustentou até o fim do dia. Não imaginávamos que levaríamos mais de oito horas  para fazer duzentos e poucos quilômetros até San Pedro. 

Já ia caindo a noite e estávamos ainda a 20 quilômetros de San Pedro. Parecia que tudo iria dar certo. Chegaríamos, enfim. Mas, o malfadado pi, pi, pi de novo nos fez parar. Agora não seria mais possível um novo milagre. Era pedir demais para os deuses da cordilheira. Samuel disse que se, por ventura, passasse alguém seria melhor a gente ir com a nova carona. Ele passaria a noite na estrada. Não aceitamos. Estávamos juntos e chegaríamos juntos. O vento soprava com uma força descomunal. Ficamos os quatro, dentro do caminhão, parados no meio fio, buscando nos aquecer com o calor um do outro. 

Então, no meio da ventania, como um novo milagre, assomou um carro branco, de passeio. Samuel desceu e pediu para que parasse. Eram dois bolivianos que vinham na direção contrária. Uma conversa rápida e Samuel trouxe a notícia. “Eles vão voltar e levam vocês até a aduana”. Insistimos que seríamos solidárias ficando até conseguir mais óleo, mas Samuel não quis . “Vocês cheguem lá e peçam para os carabinieri virem me buscar. Eles ajudam”.  Bom, assim tudo bem, eram só 20 quilômetros, seria um passinho para eles. Lá fomos nós então com as mochilas para dentro do carro dos bolivianos, enquanto Samuel ficava na estrada acenando. 

Os dois rapazes conversavam nervosos e por fim nos contaram o conto. Na verdade, o motorista tinha vindo justamente do posto da fronteira. Tinha sido mandado de volta porque trazia um clandestino. Os guardas o obrigaram a  levar o outro – que era um primo – até a fronteira. Mas eles haviam decidido que o garoto ficaria ali, no meio do deserto, naquela ventania, e entraria no Chile à pé, em algum ponto, de forma clandestina. “Chegando lá não digam nada”, pediam, assustados. E nós concordando é claro, mais assustadas do que eles.  Pois foi assim que chegamos ao Chile. No carro do boliviano, que já estava encrencado. 

A polícia, normalmente mal-humorada, já nos marcou. Revista total. Abre mala, abre bolsa. Éramos “suspeitas”. Eu, que trazia um saco de folha de coca no bolso, corri para o banheiro e me livrei de tudo. Foi um momento de tensão. E mesmo longe, foi Samuel quem nos salvou, pois contamos toda a aventura e pedimos aos carabinieri que fossem ajudar o companheiro, chileno, que estava a 20 quilômetros dali correndo risco de morrer de frio. Penso que foi só aí que acreditaram que não éramos cúmplices do boliviano. Este, que já havia liberado o primo, sumiu no mundo.

Passado o perrengue da aduana, mochila nas costas, entramos à pé em San Pedro, no Chile, depois de oito horas na estrada. Foi o tempo que levamos para fazer pouco mais de 200 quilômetros, tendo passado por calor, chuva, neve e vento na cordilheira. Ainda estávamos um pouco tensas com toda a aventura e caminhávamos sem falar. Então, ao virar a esquina do pequeno povoado, que era a cara daquelas vilas de seriado de Zorro, foi exatamente isso que vimos. Dentro de um ônibus que saia da cidade, o próprio Zorro, dirigindo, mascarado, a acenar. Caímos na gargalhada e entramos na Caracoles – rua principal - prontas para viver a mais linda experiência do deserto chileno. 

Lá longe, no meio da noite, Samuel recebia dos carabinieri mais alguns litros de óleo, o que lhe garantiria passar a noite em casa.

***


Do Brega

Foto: Rosane Lima


Verdadeiramente tenho uma espécie de compulsão pelo brega. Não sei ser chique. Mesmo quando quero, a coisa acaba descambando. Nas ruas, meus olhos tendem a buscar as lojinhas de roupas baratas e bregas. Não sei por quê. Outro dia fui ao xopim com minha amiga Jussara disposta a comprar uma calça jeans chique. Fomos às lojas da Levis e da Forum...Provei uns 20 modelos, não gostei de nenhum... Geralmente faço uma carinha de enfado, enquanto digo: feeeeiiiiiia. Depois, fui conferir os preços. Com o valor de uma única calça eu compraria seis nas Pernambucanas. Bah, não tem como. 

O pior que sou assim desde pequena. Quando morávamos em São Borja o pai abriu um crediário para nós na Loja Nemetz, uma das mais chiques da cidade. A gente podia ir lá e comprar o que quiséssemos. Minha irmã fazia a festa, comprava roupas, sapatos, bolsas, lenços, tudo o que havia na crista da moda. E eu olhava aquelas roupas esquisitas com a mesma carinha de enfado que faço hoje. Não comprava nada. Minha alegria mesmo era quando eu ia às Pernambucanas com a mãe. A gente ficava por lá uma tarde inteira olhando as fazendas, que era como chamávamos os cortes de tecido. Geralmente paninhos simples, coloridos e baratinhos os quais se transformavam em lindos vestidinhos bregas que a mãe mesmo fazia. Eu me sentindo o máximo. 

O mesmo passa com sapatos. Não consigo sair da tradição. Quando pequena eu usava só as Franciscanas, sandálias confortáveis usadas por freiras. Era tudo de bom. Usei até a fase adulta e só parei porque a fábrica se acabou. Nunca mais vi uma franciscana. Só de pensar eu choro. Como eram boas aquelas sandálias. Sem elas passei para as alpargatas de sola de corda. Usei por anos e ainda uso. Mas as preferidas são as havaianas. Uso o tempo todo, apesar de que agora gourmetizaram as bichinhas. Estão custando 70 reais. Um absurdo. Talvez seja hora de buscar algo mais raiz. Outro dia visitei as lojas de calçados em busca de uma sandália de verão.. mesma coisa de sempre. A cara de enfado e mãos vazias. Acabo no Mercado Público com algum modelito havaiana ou uma alpargata. No inverno até tento ser chique, mas não aguento muito tempo. Uso uma botinha bonitinha um dia e no dia seguinte lá estou de sandália de couro e meia. A alma é brega...  Tem jeito não... Tivesse eu dinheiro seria o fino do brega... exageradamente...



quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Os patinetes e as ciclovias



Pois os patinetes voltaram a aparecer por toda a cidade. E têm feito a alegria da garotada. Na UFSC é possível ver muita gente pra lá e pra cá com aquelas coisinhas amarelas ou verdes. E é bom, porque no trânsito caótico da cidade acaba sendo uma forma bem rápida de se mexer. A mobilidade só piora, então aparecem as “alternativas”. Dizer o quê? Na UFSC, que é uma universidade onde circulam mais de 30 mil pessoas por dia a gente pode ficar numa parada de ônibus por até 40 minutos. É sim! Por isso mesmo que a gurizada pede ciclovia e agora acha bacana esse lance dos patinetes. A turma saúde pedala e os mais preguiçosos andam nas maquininhas de duas rodas, que sequer pedem esforço. 

Não sou contra ciclovia nem contra os patinetes. Há que desenvolver técnicas de sobrevivência no caos. Mas é preciso ultrapassar o limite das pautas pequeno-burguesas que clamam por ciclovias e outros tipos de transporte individuais. E por que digo isso? É simples. Os trabalhadores são seres que moram quase sempre muito longe de seus locais de trabalho. Eles não têm como fazer 30 ou 40 quilômetros em cima de um patinete (seria desconfortável e caro), muito menos pedalar tudo isso para ir e para vir. Imagine uma senhora como eu, prá lá dos 60, como vai pedalar todo esse trajeto depois de um dia estafante de trabalho, num trânsito que mata? Que tipo de governante pode conceber isso? 

Os trabalhadores precisam de transporte de massa. Repito. Transporte de massa. Com qualidade e de preferência com tarifa zero. Porque 90% das pessoas que usam o transporte se deslocam para engordar a conta do capital, o mesmo que lhes suga a vida e ainda permite que percam de duas a três horas no inferno do transporte desintegrado. Eu quero um ônibus bom e rápido, um trem de superfície, qualquer coisa que nos transporte num átimo para onde nosso coração clama: a casa, aconchegante morada. 

O transporte individual, seja o carro, a bicicleta, o patinete, a moto, resolve a vida de muitos. Mas não da maioria. Fosse assim não teríamos mais de 200 mil pessoas se aglomerando nos ônibus todos os dias, padecendo com falta de linhas e horários. 

Pois bem, vêm aí as eleições municipais. De novo vamos ver propostas mirabolantes e muitas historinhas no tik tok. Não se enganem. Para nós, trabalhadores, a única proposta realmente séria é o transporte de massa, bom, rápido e barato, senão gratuito. Fora isso são arranjos individuais, que não servem à maioria. Temos amargado prefeito após prefeito o descuido com nossa vida cotidiana. Não podemos dar nosso voto para quem nos engana.

sábado, 26 de agosto de 2023

Do amor




Carlos Walter Porto-Gonçalves é assim, um monumento. Geógrafo dos mais importantes não só do Brasil, mas da América Latina, ele não se comporta como um “pescoçudo”, que é como eu chamo os doutores metidos. Bem ao contrário. Ele é risonho e falador. O conheci num evento em Curitiba, junto com a sua companheira Márcia. Fiquei meio tensa porque sempre tenho medo de conhecer quem admiro. Vai que a pessoa é uma babaca. Não foi o caso. Carlos Walter é um fofo,  alegre e intenso. Um homem adorável e uma espécie de biblioteca ambulante. Em poucos minutos de conversa e ele já vai te dando a conjuntura, a história atual e passada, números, dados, estatísticas, teses, mas de um jeito tão querido que nunca soa pedante. Ele é um poço de saber e tem prazer em dividir o que sabe. Um ser raro, por supuesto.

Quando comecei meu doutorado, sobre a questão indígena, ele foi o primeiro nome que me veio à mente. Mas, e cadê a coragem para pedir para ser da minha banca? Não fosse minha amada Beatriz Paiva eu não o teria chamado. Ela insistiu e o fiz. Aceitou na hora, com aquele seu sorriso de menino, feliz e satisfeito. Ajudou muito na qualificação, dando dicas de leituras, fazendo observações cirúrgicas. Só enriqueceu. Sempre que eu olho meu trabalho eu fico inflada de orgulho por saber que ele tirou um tempo de sua vida corrida para ler e fazer comentários. 

Ele agora está vivendo em Florianópolis e eu posso partilhar de sua amizade e seu convívio. Posso dizer que somos amigos, e isso é incrível. Gosto de estar com ele e ouvir suas inúmeras e maravilhosas histórias. Caminhares de um geógrafo humano que se encanta com as pessoas e os lugares. Um latino-americano. Seu conhecimento não é frio. É quente. Repleto de ternuras e amor pelas gentes e pelos lugares. Quando ele fala o mundo se abre em delicadezas e espanto. O vejo menos que gostaria, mas é bom de saber que ele está aí, bem perto, pronto para a comunhão amorosa dos seus saberes. 

No dia que lancei meu livro de crônicas me fez uma baita surpresa. Foi lá, com seu sorriso e seu abraço. Ele, uma espécie de deus, se movendo por uma simples mortal. Encheu meu coração de alegria. Autor de dezenas de livros e artigos ele já foi até Prêmio Casas das Américas. É uma sumidade, mas não ostenta. Quem priva de seu convívio sabe. Fala pelos cotovelos, derrama saberes e nos embriaga com seu conhecimento. É um intelectual generoso, que sabe ensinar e dividir. 

Te amo Carlos Walter, és verdadeiramente um ser especial. Te amo pacas...

Furdunço



Hoje foi um dia de chuvas e ventos, caiu até granizo. Quando a tarde escureceu todinha, o pai ainda dormia a siesta. Veio o temporal e ele nem viu. Pensei em deixá-lo no quarto, já que estava frio. Mas, acordar, tomar café e ficar ali, olhando para o vazio, não parecia certo. O pai gosta do furdunço que sempre assoma na nossa pequena cozinha onde organizamos uma gostosa poltrona para ele ficar. Com ele, ficam os cachorros, os gatos e a gente, circulando, estudando, fazendo coisas. Também tem a vitrola que toca suas músicas preferidas ou a TV com os doramas, que são os meus preferidos, mas que ele acompanha. A vida pulsa na cozinha. Melhor fazer a operação “ET”. 

Colocamos o pai na cadeira de rodas e cobrimos o corpo todo com um cobertor, inclusive a cabeça. Só os olhinhos ficam de fora.  Aí é sair correndo, atravessando o pequeno caminho que vai do quarto – que fica fora da casa - até a cozinha. Nisso o meu sobrinho Renato é craque. 

Chegando à cozinha ele se alegra vivamente. A música toca, os cachorros se achegam, mais tarde chega o bisneto, gritaria, confusão, furdunço. Ele ri bem faceiro, esparramado na sua poltrona, coberto com o cobertor quentinho. É hora da janta. Bagunça e falaceira. A vida em movimento. Não é que a parada não seja dura ou que a doença de Alzheimer não seja cruel. Mas temos aqui em casa essa coisa do bom humor, do riso, da alegria. Vamos enfrentando cada golpe da doença com graça, na valentia. E ver o pai alegre, em meio à barafunda da cozinha é bom demais. A gente já entendeu que a velhice precisa ser vivida na aldeia, no meio da muvuca, na quenturinha do amor. E assim, vamos indo... e ele, resistindo...

Homenagem aos vivos/ Miriam Santini de Abreu


Minha amiga, parceira de realidades e companheira de vida, Miriam Santini de Abreu, será homenageada pelo Desacato, nesta sexta-feira, dia 25, na  2ª. Edição da distinção Gustavo de Lacerda de Jornalismo, dentro do seminário sobre comunicação que celebra também os 16 anos do Portal. Esta é uma distinção absolutamente merecida, a considerar que Gustavo Lacerda, jornalista catarinense, foi no seu tempo um agitador, buscando garantir direitos aos colegas e criando a Associação Brasileira de Imprensa para ser um espaço de luta e reflexão. 

Miriam tem essa veia, da criadora de coisas, agitadora. Ela é como uma cornucópia, sempre jorrando ideias de textos, artigos científicos, projetos. Não para quieta um minuto. É como se sua cabeça fosse uma enorme galpão, com inúmeras e variadas oficinas, aonde ela vai construindo, lapidando, moldando. E dela sempre saem belezas. 

A gente se conheceu quando ela foi trabalhar no Sintufsc e eu era diretora por lá no começo dos anos 2000. Queríamos, Raquel e eu, uma jornalista que estivesse disposta a fazer jornalismo de verdade, sem se acomodar no sindicalês. E ela se mostrou perfeita. Em pouco tempo já comandava com segurança a comunicação do sindicato, sempre com alguma ideia inovadora, fora da caixa. Chegou a fazer, sozinha, um jornal sobre São Francisco do Sul que planejava a instalação da empresa ArcelorMittal Vega através de parceria publico-privada, com investimentos públicos que beneficiaram grandemente a empresa e tornavam a cidade refém. Uma maravilha aquele jornal. 

A Miriam é como um dínamo, sempre girando. Assim fez seu mestrado, focado na farsa do desenvolvimento sustentável e o papel do jornalismo nesse engodo. Depois seu doutorado, discutindo a cidade. E segue estudando em pós e pós e pós doutorados, porque tem sempre uma pergunta inquietante a lhe queimar os miolos. É estudiosa e metódica. No meio disso tudo ela ainda faz seu trabalho no sindicato e mais umas trocentas outras coisas que toca em diversas parcerias. Jornalismo, meio ambiente, cidade, moradia, plano diretor. Pensa a cidade. Pensa o jornalismo. Faz livro, faz vídeo, organiza debates. É parceira de longas conversas teóricas e de projetos alucinantes, que nos esgotam forças e plata. Mas, não descansa. E eu a sigo em tudo que propõem porque gosto de caminhar com ela, de partilhar de sua imensa luz.

Nesta sexta ela recebe esta distinção e eu agradeço aos queridos amigos do Desacato por isso. Porque homenagens precisam ser feitas em vida, para que a pessoa saiba e sinta o que significa para o grupo onde está inserida. Parabéns minha adorável amiga, trem bala que desembesta e envereda por todos os caminhos, abrindo frentes, descortinando horizontes. Tu mereces esse carinho e esse reconhecimento. 

Te amo, sua pobrezita nojenta! Minha eterna Scully dos cabelos vermelhos...