quinta-feira, 28 de julho de 2022

Campeche diz não à proposta da prefeitura para o Plano Diretor


Ginásio lotado - Foto: Eros Mussoi

A apresentação da proposta de mudança no Plano Diretor de Florianópolis na audiência pública realizada no Campeche nesta quarta-feira, 28, deixou uma coisa bem clara: esta é uma prefeitura fraca. Uma gestão fraca. Um governo municipal que simplesmente está disposto a permitir que sejam os empresários do cimento os que vão moldar a cidade. Não é uma proposta construída com a população, mas, como muito bem colocou o professor Daniel José da Silva, é um plano de negócios. E um plano que tem como centro o desejo do empresário da construção e não o povo que vive na cidade. 

Apesar das firulas e jogo de imagens reproduzidas no telão, a ideia da prefeitura é simples. Quer sentar com os construtores e dizer assim: “olha, a lei diz que aqui só pode construir quatro andares, mas se tu me deres um espaço para uma praça, pode um andar a mais. Se tu me deres uma rua, pode construir outro andar e assim por diante”. Os nomes pomposos na armadilha são “outorga” e “incentivo”. Então, será o empresário o que vai definir o que quer dar. Nada poderia ser mais fraco e humilhante. Uma cidade como Florianópolis, conhecida por sua beleza natural, com 42 lindas praias, com tanta riqueza cultural, simplesmente se ajoelha diante dos magnatas do cimento.   

Uma prefeitura forte deveria construir uma proposta de cidade com sua população e dizer aos empresários: "essa é nossa proposta. Se qués, qués, se não qués, dish". Com absoluta certeza os que estão acostumados a explorar o turismo aceitariam a proposta, porque sabem que o que “vende” é a beleza, a mobilidade, a vida boa, a comunidade festiva e feliz. Mas, os dirigentes da velha Meiembipe preferem entregar anéis, dedos e mãos de maneira servil em vez de planejar com seu povo. 

O Campeche disse não a essa proposta. Porque luta há mais de 20 anos para ter reconhecido o seu plano para o bairro, um plano construído por dias, noites, finais de semana, em reuniões e oficinas. Uma parte significativa da vida colocada nesse esforço para manter a comunidade fora da lógica da especulação e da rapina. E, ao final do processo, no apagar das luzes de 2014, o plano diretor que foi para votação não foi o desenhado pela comunidade. O que houve foi um estelionato político cometido pelo prefeito César Souza e pela maioria dos vereadores. Prefeito e vereadores ajoelhados diante da ganância.  

Agora, de novo, de forma atabalhoada, a prefeitura, com Gean Loureiro e Topázio,  volta a impor uma mudança no Plano Diretor, sem a participação popular, tanto que para realizar as audiências o movimento social precisou recorrer à luta e às batalhas jurídicas. 

Uma coisa é mais do que certa. Quem sabe do bairro é quem vive no bairro. Assim como quem sabe da cidade é quem vive na cidade. E quando dizemos viver, é viver mesmo, visceralmente, e não apenas morar. 

No Campeche a vida deteriora ano a ano, mesmo com as pequenas conquistas tidas no plano de 2014. Foram mantidos os prédios baixos e as dunas e a restinga não acabaram invadidas por uma estrada do tipo beira mar. Mas, por outro lado a ação predadora da câmara de vereadores e suas intermináveis alterações de zoneamento permitiram a semeadura de inúmeros condomínios, sem a melhoria estrutural, outros tantos prédios em cima das dunas, construções irregulares de toda ordem que a comunidade embargava, mas que logo depois perdia, com o aparecimento de licenças, sabe-se lá como conseguidas. 

Esse enchimento do Campeche tornou a vida dos trabalhadores um inferno, e a volta para casa no final do dia virou um sofrimento sem fim, com o transito lento e mais de 40 minutos parados na Pequeno Príncipe, que já não consegue escoar o tanto de carros. Há apenas duas saídas do bairro. Uma pela Pequeno Príncipe e outra pelo Rio Tavares/ Lagoa. Mas, os trabalhadores, os que andam de ônibus, tem apenas uma. Não há melhoria no transporte, não há trem de superfície, não há VLC, não há nada. A comunidade está entregue ao caos. E não é porque não há leis ou um plano diretor. Não há é fiscalização, gestão competente. 

Durante o verão falta água, a lagoa do Peri vive em risco, e a carga de energia não aguenta. E nem precisa ser verão. Quem vive no Campeche sabe o tanto de cortes de luz que acontecem todo momento. Isso só tem um nome: falta de cuidado e de planejamento por parte dos governantes. A praia, que já foi conhecida como a mais limpa do sul, hoje sofre com o esgoto correndo para o mar. Crescer deveria significar vida melhor. E o que acontece é o contrário.

Agora, com a proposta de mudança o plano da prefeitura é transformar a ilha num monstro de concreto. Aumentar o número de andares, permitir prédios imensos, provocar o adensamento populacional, sem a contrapartida na estrutura. Os governantes não se importam com a qualidade de vida da maioria. Agem como se esse lugar não tivesse limite. Só querem vender e encher a cidade de prédios para especulação de veraneio. Pois bem. Não é o que a comunidade quer.

O que os que vivem no Campeche querem é andar na cidade, sem sofrimento, e sem levar uma hora e meia ou duas horas para fazer 30 quilômetros de ônibus, com  transporte de qualidade, rápido. Querem o parque cultural, o Pacuca, para passear com os filhos, netos e velhos. Querem a praia limpa, as dunas e restinga protegidas. Querem o tratamento de esgoto e a manutenção da ideia de um bairro jardim, com casas e construções baixas, espaços de vida saudável. Querem turismo comunitário e planejado, sem especulação. 

O sul da ilha tem sido a bola da vez, mas a comunidade mostrou, em uma audiência lotada – a maior das 13 realizadas – que não vai permitir a destruição da comunidade. A maioria disse não a essa proposta que, apesar de tantas letrinhas, só tem um propósito: garantir lucros aos donos do cimento, à especulação. Junto com a Amocam os moradores estão dispostos a discutir, estudar e oferecer alternativas para que o bairro fique melhor. Mas que seja uma melhoria real, para todos, e não só para os que querem ganhar dinheiro com a paisagem especulada. O Campeche não quer ser Balneário Camboriu, nem Dubai, nem ter um futuro de excrescências na beira do mar. Quer um presente de vida boa, aqui, agora, garantindo assim um amanhã igualmente bom para os que vierem depois. 

O que a prefeitura ouviu na audiência foi um sonoro não a essa proposta fraca, de uma prefeitura fraca. Mas, não é um não vazio. É um não de quem vive, estuda, ama e pensa a cidade. De quem tem as próprias propostas construídas coletivamente e que exige serem levados em conta. Ou isso, ou viveremos outro estelionato político, como é comum.  Esperamos que não.  Nossas propostas estão na voz da Amocam. E com elas vamos lutar. É para elas o nosso sim.

A parte isso, seguimos lutando para garantir uma prefeitura forte, espelho das comunidades organizadas, que tenha competência para definir a vida da cidade e não uma prefeitura que viva se ajoelhando diante dos interesses do capital, oferecendo migalhas ao povo. 




terça-feira, 19 de julho de 2022

Quatro anos de Bolsonaro: desastre para os trabalhadores, alegria para os empresários

 Foto: APUB


Durante um bom tempo muita gente trabalhou com a ideia de que a criatura que hoje está na presidência do país era um bronco, incapaz de governar. Nada mais errado. Nesses quatro anos ele colocou para andar todas as suas promessas, garantindo praticamente todas as pautas da elite dominante. Já nos primeiros dias de governo declarou guerra os povos indígenas, disposto a entregar as terras protegidas para o latifúndio e a mineração. Não fosse a histórica capacidade de resistência e luta dos indígenas, isso já teria sido levado a cabo. Ainda assim, o preço tem sido alto para as comunidades que seguem vendo seus filhos assassinados, violentados ou desaparecidos. Além das vistas grossas diante das invasões de terras e jagunçagem contra os povos originários, o governo atuou lentamente no processo de queimadas criminosas envolvendo a Amazônia e o Pantanal. Perdem os indígenas, os ribeirinhos, os pequenos agricultores e ganha o agronegócio, que avança sobre a terra alheia sem que ninguém ponha freio.

No que diz respeito à saúde, o desmonte tem sido dramático. O combate à pandemia, por exemplo, só foi dado por conta dos trabalhadores, que se desdobraram para atender a população, muitas vezes até sem os equipamentos de segurança. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 13 mil e 600 deles morreram, um dos maiores números em todo o mundo. Ainda assim, jamais receberam qualquer incentivo ou agradecimento. Os hospitais seguem tendo baixos orçamentos e não conseguem dar conta da proteção da população. Na rede básica de saúde também é igual. Diminuem as verbas e estrangulam os atendimentos. Perde a maioria da população e ganham os empresários da doença, que acabam criando uma série de alternativas de “medicina barata” para os desesperados. Telemedicina e planos de saúde de baixo valor, mas de baixa cobertura, proliferam no país que se aproxima de 700 mil mortos pela Covid-19. 

Na educação, muitas foram as bombas de destruição. As mudanças no ensino médio empobreceram ainda mais a já frágil qualidade que os estudantes tinham e acabaram incentivando a desistência dos alunos. No ensino fundamental mais de 650 mil crianças deixaram a escola. A escola pública agoniza sem verbas. No que diz respeito ao ensino superior o desastre também é grande. Com o sistemático corte de verbas as universidades não conseguem dar conta das políticas de permanência e muitas sequer conseguem pagar as contas básicas. A pesquisa, a ciência, o estudo, tudo isso é visto com desdém e ano após ano as verbas foram escasseando. Perde a juventude, perde a ciência, perde o país. Mas, não se enganem, isso parece muito bom para as empresas estrangeiras que vendem tecnologias e abre as portas para a ampliação da rede privada de ensino superior, que, excetuando uma ou outra universidade de existência história, só consegue oferecer ensino de segunda classe. 

Na economia vivemos um drama sem igual se considerarmos as últimas décadas. Gasolina a sete reais, alimentos a preços altíssimos. O leite, por exemplo, passa dos sete (7) reais o litro. A fome, que já tinha sido erradicada, voltou com força e chegamos de novo a 33 milhões de famintos. Enquanto isso, o comércio, que não aceita perder lucros, passou a vender pele de galinha, ossos, e até as caixas de papelão usadas. Uma situação que praticamente duas gerações não chegaram a conhecer. 

Apesar de tudo isso a população ordeiramente espera as eleição, ainda que o presidente venha se movendo no sentido de não aceitar qualquer resultado que não seja a sua vitória. Ele traçou uma estratégia de denunciar que o Supremo Tribunal Federal está com Lula, que o Tribunal Superior Eleitoral está com Lula e que todos juntos vão fraudar as eleições para o petista vencer. Insiste em espalhar mentiras sobre o sistema eleitoral e já colocou em campo os seus aliados generais. Ele já apontou que não vai parar e tem um objetivo bem claro: seguir governando. Como o Congresso Nacional foi aliado nesses quatro anos de destruição, não há de ser ali que ele encontrará resistência. Não bastasse isso sua base eleitoral se mantém entre 25 e 30% da população, com tendência a aumentar depois da jogada de mestre em garantir auxílio para os empobrecidos, caminhoneiros e até taxistas até dezembro deste ano.

O cenário para os próximos meses é sombrio, com a tendência de muito aumento da violência por motivos políticos, visto que o presidente incentiva seus apoiadores a fazerem o que for preciso para barrar o PT, que ele chama de comunismo. Nada mais longe disso, mas a população tem sido sistematicamente orientada a pensar assim, seja pelas redes sociais, seja pela mídia comercial que também é aliada do presidente. 

A campanha não será uma campanha qualquer. Mas, por outro lado, não se observa nem os sindicatos, nem as centrais, nem os partidos progressistas (?), atuarem no sentido de enfrentar essa avalanche de mentiras e bravatas ao estilo de Donald Trump, em quem Bolsonaro se inspira. Enquanto isso, a classe dominante esfrega as mãos. Está tudo bem pra ela.


sábado, 9 de julho de 2022

Novo reitor na Ufsc


Foto: Cotidiano/UFSC

 Entrei na UFSC em 1994, já passei por muitos reitores e nunca elegi qualquer deles. O Diomário, que já era reitor quando eu cheguei foi o que mais perto chegou da compreensão da comunicação, a tal ponto de depois de entender, ele ser um divulgador da política pública criada pela Agecom, naqueles dias comandada pelo jornalista Moacir Loth. Depois, os que vieram estavam sempre na posição de adversários e contra suas políticas muitas lutas travei. Cheguei a responder a um processo na polícia federal, por sequestro de reitor - o Lúcio - numa dessas lutas com a estudantada. E foi por conta de uma atitude equivocada do Rodolfo Pinto da Luz que eu tive de sair da Agecom. Ele nomeou um professor do curso de jornalismo para dirigir a agência durante uma greve de trabalhadores. E com ele sofremos censura e assédio moral. Foi quando decidi, junto com Nildo Ouriques, Beatriz Paiva e Raquel Moysés participar da criação do Iela. 

Hoje foi um dia especial. Fui a uma posse de reitor. Um reitor que escolhi, no qual votei e em quem deposito grande confiança. Irineu Manoel de Souza, a melhor pessoa. Foi uma cerimônia bonita, esperada por anos, já que Irineu havia tentado outras três vezes. Agora, finalmente, o gurizinho que entrou na UFSC com 18 anos sonhando em ser reitor, viu seu sonho acontecer. Foi emocionante olhar sua figura pequena assomando no meio de um mar de gente, sob o som das palmas. E lá em cima, no palco, com sua beca de reitor, gigante. Esperou 48 anos por isso. E não apenas esperou. Ele batalhou por isso, se preparou. E o dia chegou. 

Irineu assume num tempo duro, final de festa bolsonarista (ou não?), cortes imensos nas verbas da universidade, anos de abandono, não será fácil. Mas, o Irineu está bem acostumado a lidar com os tempos duros. Vai encontrar caminhos, eu espero. 

De minha parte seguirei como sempre. Acreditando, apostando, mas sem deixar de ser o grilo-falante, pronta a berrar se algo não sair como por tantos anos planejamos. Espero que ele cuide bem da comunicação - essa menina dos meus olhos. Que a Agecom seja fortalecida, que não vire espaço de alunos - isso é coisa do curso de jornalismo - que não seja chapa-branca, que volte a ter um jornal, que a TV UFSC também receba cuidado, que se reconheça o valor dos que cuidaram de tudo com tão pouco, como é o caso do querido Thesta. 

Lá do fundo do auditório eu fiquei com o coração em festa, eu me emocionei, chorei. Foi bonito demais. Amanhã, quando a vida reiniciar depois do fim de semana, estaremos ao pé do canhão, de ouvidos e olhos alertas. Porque a UFSC precisa ser a universidade necessária. Para isso lutamos e menos que isso não aceitaremos. Desejo sorte ao Irineu e toda sua equipe. Sejam ousados, inventivos e certeiros.



segunda-feira, 27 de junho de 2022

Jornalismo, 40 anos - o primeiro chefe


Neste ano de 2022 completei 40 anos de atuação no jornalismo profissional. Comecei minha carreira na TV Caxias, em Caxias do Sul, então afiliada da RBS. Na carteira de trabalho o registro foi de locutora-entrevistadora, mas a função era de repórter. Tive a sorte de ter como meu primeiro chefe de reportagem o jornalista Otaviano Fonseca. Era assim uma espécie de anjo. Sempre bem humorado e paciente, ele conseguia lidar bem com a minha inexperiência, evitando assim que eu cometesse muitos erros, afinal, nunca na vida tinha trabalhado em TV, e fazer TV não é coisa fácil. Diferentemente de escrever, que é um ato solitário, fazer TV é coisa coletiva. Tu dependes do trabalho da equipe toda: o motorista, o cinegrafista, o carregador de VT (é, tinha isso) e o editor. 

Pois o Otaviano me ensinou tudo sobre a reportagem em televisão. Tudo. E sempre com muita delicadeza. Eu o amava por isso. Guardo até hoje as orientações que ele me passou quando fui fazer o primeiro enterro de político. Bah, eu fiquei em pânico. O que eu ia fazer? O que perguntar numa hora dessas para não parecer idiota? Quem entrevistar para não ser invasiva e inoportuna?  E ele, pacientemente fez uma espécie de roteiro, tudo escritinho à mão. Além das manhas da reportagem ele também me ensinou a editar naquelas imensas ilhas de edição, com as fitas U-Matic, e em pouco tempo eu já editava minhas matérias e a de outros colegas. Tenho por ele o maior amor do mundo e todos os dias da minha vida eu agradeço por ter sido ele o meu primeiro chefe. 

Metidos naquele imenso salão onde ficava a redação - que era a metade da garagem da TV Caxias – nós, eu e o Britto Jr (outro repórter) pudemos aprender tudo o que era possível na profissão. E, mesmo quando a gente cometia algum erro, ainda que fosse grande, ele assumia tudo e nos orientava sobre o que fazer para não mais errar. O Otaviano era muito especial. O Britto logo em seguida alçou voo para São Paulo, onde se deu muito bem e eu também segui meu caminho, segura e competente, esculpida por conta dos seus ensinamentos. Desde que saí de Caxias nunca mais o vi, mas ele mora dentro do meu coração.  Nesse ano em que celebro os 40 anos dessa minha prática no jornalismo, eu o reverencio: meu mestre muito amado. 

Obrigada por tudo e tanto. Te amo!!! 



terça-feira, 14 de junho de 2022

40 anos no jornalismo






Foi num dia 14 de junho de 1982 que tive registrado meu primeiro emprego formal no jornalismo. A anotação era locutora-entrevistadora, mas a função cumprida era de repórter. Hoje, celebro então 40 anos nessa profissão. Uma vida inteira correndo atrás da notícia, da informação de qualidade, da análise do dia. Desde bem pequena eu tive esse sonho de ser jornalista, imagino que por conta do exemplo do meu pai. Minha brincadeira favorita era andar com um gravador e microfones feitos de papelão, fazendo entrevistas. O rádio me fascinava, e ver meu pai nas coberturas noticiosas,  ou de futebol e carnaval era minha alegria. “Vou ser como ele”. Eu morava em São Borja e o caminho natural seria terminar o ensino médio e fazer faculdade em Santa Maria. Era o planejado. 

Mas, a vida dispôs. Meu pai perdeu tudo, teve de migrar para Minas Gerais e a família toda precisou se mover para lá em 1977. Um novo estado, nova cidade no interior das Geraes, pobreza, sem condições de pensar em faculdade.  O caminho agora era arrumar um trabalho e ajudar o pai a sustentar a casa. Guardei o sonho no fundo do coração. O tempo passou e meu tio se ofereceu para me pagar um cursinho em Belo Horizonte. Mas, ele esperava que eu cursasse engenharia. Nóóó... muito longe do meu querer. Fiquei lá por um ano, não fiz o vestibular de engenharia e voltei para Pirapora, disposta a fazer um concurso para o Banco do Brasil. Fiz a inscrição e, no dia da prova, cheguei até a porta do colégio e não entrei. Eu pensei comigo: vou passar nessa porra, e aí? Nunca mais saio do banco. Foi uma surpresa na família eu não ter passado, afinal eu sempre fora “a estudiosa”, caxias em nível máximo. Não contei que não tinha feito a prova.  

Finalmente em 1982, quando minha mãe já estava boa da tuberculose, eu decidi sair atrás do meu sonho e fui morar em Caxias do Sul, com minha tia Dalva. Não sabia como ou o que fazer para ser jornalista. Então, fui preencher uma ficha para vaga de telefonista na TV Caxias. Coloquei ali minha experiência com comunicação e o diretor resolveu me chamar. O motorista foi até me buscar em casa. Uma surpresa e tanto. Eu não tinha noção do que ia acontecer. Lá, na sala do seu Ênio, ele me perguntou: “tu já fizeste tudo isso mesmo que colocaste na ficha?”  E eu respondi que sim, embora houvesse ali muito exagero. E ele então disparou: “Acreditas que pode trabalhar aqui como repórter?” Meu coração deu um salto, mas ele não notou. “Pode apostar”, eu respondi, segura. Ele apostou.  Estava contratada. De quase telefonista a repórter, assim, do nada. Não tive medo. Já tinha uma estrada na comunicação. Daria conta.

E foi assim que eu desci para o salão onde ficava o setor de jornalismo e me apresentei ao Otaviano Fonseca, que era o chefe de jornalismo. No outro dia já estava jogada aos leões, fazendo entrevistas. Tive a sorte de ter grandes parcerias, colegas incríveis que me ajudaram e me ensinaram. Passei depois pela TV Globo de Bauru, a TV Globo de Marília, TV Uruguaiana, TV Umbú de Passo Fundo, RCE TV em Florianópolis, Jornal O Estado, Rádio Guarujá, Jornal A Notícia, dei aulas na Univali, atuei na comunicação popular e por fim a UFSC. 

Toda essa caminhada eu fiz com profunda alegria e com imenso amor por essa profissão que escolhi desde menina . O jornalismo que se compromete, que toma partido, que olha o mundo desde o lado da classe trabalhadora. Foi assim desde as primeiras greves de gráficos que eu cobri em Caxias. Naqueles dias era intuitivo, mas com o passar do tempo a consciência ingênua se fez crítica. Onde quer que eu trabalhasse estava sempre a serviço das lutas. Sempre atuei no sindicato dos radialistas e depois de formada em Jornalismo, no sindicato dos jornalistas. 

Como jornalista, trabalhando dentro da RBS, usei todos os recursos da rede para divulgar as lutas sociais e tive a alegria de cobrir por um ano inteiro a grande batalha dos trabalhadores sem-terra na Fazenda Anonni, um marco na luta pela terra no Brasil. Pauteira atilada, sempre procurei abordar as notícias de maneira a mostrar a injustiça e a exploração. Quando por fim fui fazer a faculdade, lá por 1987, encontrei Adelmo Genro Filho, pela mão do mestre Sérgio Weigert. Então, tudo o que era intuição ganhou corpo e se fez compreensão. Entendi que fazer jornalismo é garantir a visão da totalidade do fato. Que fazer jornalismo é estar comprometida com verdade dos tempos, sendo capaz de capturar o singular, sem perder a conexão com o todo, o universal. Que fazer jornalismo é estar sempre atenta ao que nos salta aos olhos e ser capaz de ver o que quase ninguém vê.   

Hoje, assombrada com o andar do tempo, vejo que quatro décadas se passaram e eu ainda não perdi o encantamento pela rua e pelas pessoas. Que exatamente como aquela menina aprendiz da TV Caxias eu ainda caminho pelo mundo com olhos de lâmpada, sedenta de desvelar o que se esconde, de gritar o que tentam calar. O jornalismo é minha espada Jedi, meu carrossel encantado, meu espaço de ser. 

Hoje é um dia cheio de significado para mim. Vou tomar uma gelada e lembrar cada criatura que passou por esse meu caminho: os que me ajudaram a ser quem sou, os que eu narrei, os que caminharam comigo, os que eu amei, os que me feriram, todos... 

Quarenta anos de jornalismo não é bolinho...  É uma vida, uma doce, linda e generosa vida...

segunda-feira, 13 de junho de 2022

A Bilica


A primeira vez que eu a vi foi no centro da cidade, numa destas apresentações que a prefeitura promove. Naqueles dias ainda eram ela e o seu Maneca, uma dupla hilária, dando vida ao que de mais autêntico temos aqui nessa nossa velha Meiembipe: a população nativa e aquele seu jeito de vestir e falar tão único. Para mim era lei, onde quer que eles estivessem se apresentando, lá estava eu, rindo à bandeiras despregadas. Depois, a Bilica seguiu sozinha, e eu continuei acompanhando. Lá no Campeche, nas festanças promovidas pelo seu Getúlio, sua presença sempre foi constante. Impossível não se apaixonar por aquela mulher tão cheia de verdade e pureza. 

Com o passar do tempo eu acabei conhecendo a incrível pessoa que dava vida à Bilica: a atriz Vanderléia Will, uma mulher carregada de uma força imensa, uma criatura apaixonada pela arte da palhaçaria, pela cultura local, pela arte. Uma paixão tão grande que a fez apostar na construção de um circo, que servisse de espaço para os atores, palhaços, cantores, poetas, toda a sorte de gente que precisa de um lugar para expor sua arte. E por um bom tempo o Morro das Pedras abrigou o Circo da Dona Bilica, sempre com uma opção de qualidade no campo da cultura. 

Pois essa garota extraordinária, a Vanderléia, completa 30 anos na adorável tarefa de dar vida à querida Dona Bilica. Não é qualquer coisa. É como se fosse uma existência inteira. E, para celebrar, ela realiza um show no teatro do CIC, nesta quarta-feira, dia 15 de junho, às 21 horas. Um lugar nobre para uma arte nobre, para uma artista nobre. Sim, já vi esse espetáculo várias vezes, e o veria ainda outras incontáveis vezes, porque é engraçado, é terno, é lindo, é cheio das belezas dessa nossa gente que encontramos amiúde no ônsh, no mercadinho, na missa, nas festas do divino e do boi-de-mamão. 

Convido todo mundo a celebrar o aniversário de 30 anos da Bilica, porque ela é uma lembrança de toda a riqueza do que somos aqui nesta ilha: um pouco brutos, mas também capazes da ternura mais funda. A Bilica é nossa alma, que passeia dentro do corpo da Vanderléia. 

Parabéns querida... e que venham mais 30 anos...



As noites com o pai


Durante muito tempo o pai dormiu sozinho. Ele acordava bastante e vinha bater na porta do meu quarto de madrugada. Eu o levava de volta e assim íamos. Um pouco antes de se desatar a pandemia eu decidi me mudar para o quarto dele. Ele havia caído e eu me dei conta que não dava mais para deixá-lo só. Assim que estou ali, acampada. Nesses dois anos foram muitas as fases e as noites eram turbulentas. Agora, já faz algum tempo que ele está tranquilo, e dorme quase a noite toda. Um milagre. Mas, ainda assim, eu sigo ali, porque ele desperta pelo menos umas duas vezes, e estar ao seu lado faz a diferença. 

Eu sinto quando ele começa a se mexer lá por volta da uma hora. Ele se destapa e senta na cama, o rosto crispado, as mãos em luta, como se estivesse andando no inferno. Aquele despertar na madruga é carregado de muito medo. Acho que eles ficam muito confusos quando saem do sono. Não sei, algo passa. Então, eu também sento na cama, pego a sua mão e digo: “tá tudo bem, querido, eu estou aqui”. Ele abre os olhos lentamente, me enxerga e sorri, saindo daquele estado abissal. O medo se desfaz e a expressão que vejo no rosto dele é de pura alegria. Ele fala algumas coisas na sua língua de cigano, canta, resmunga e volta a dormir, apertando bem a minha mão, na certeza de que pode atravessar qualquer deserto. Eu estou ali. 

Quando dá cinco horas, de novo. Ele senta na cama e começa a puxar as minhas cobertas, fazendo um bolo, os olhos apertados, com aquela expressão de medo e desespero. Eu falo com ele e digo que ainda é muito cedo, que dá para dormir mais um pouco. Ele luta com os cobertores até que abre os olhos e me vê. – Ah, tu tá aqui? – ele diz, abrindo um sorriso luminoso. “Sim, meu brotinho, tô bem aqui e não vou a lugar nenhum, tá bom?”. Devagarinho ele vai descendo o corpo, colocando a cabeça no travesseiro para mais algumas horas de sono. Não sem antes espiar pra ver se sigo ali mesmo. Ele se sente seguro.

Acho importante estar sempre por perto quando ele acorda, porque a impressão que tenho é que ele sai de algum emaranhado desesperador. E o rosto familiar o recupera para a vida. De manhã, eu fico espiando ele, esperando que desperte. Porque é sempre igual. Ele senta e começa a amassar as cobertas, assim como fazem os gatos, sovando. Quando por fim vejo que ele abriu os olhos eu entro cantando: “Bom dia, o sol já nasceu lá na fazendinha´, acorda o bezerro e a vaquinha, acorda o seu tavarinho”... e vou fazendo macaquices como uma Maricota maluca. Não dá para descrever a alegria que se desenha no seu rosto. Ele reverbera em riso e eu faço cosquinhas... “Bora pular da cama, seu Tavares, bora tomar café”... Aí começa toda a função da troca de roupa... que é outra história... 

Outro dia um amigo me disse que agora que o pai já dorme bem à noite eu podia voltar para o meu quarto, para a minha vidinha de antes. Mas, não dá. Esses despertares na madrugada são assustadores. Ele realmente fica desorientado. Um rosto amigo e sorridente é fundamental para que ele saia daquele estado de abismo e possa voltar a dormir, serenamente. E assim vamos vivendo nossa aventura, aprendendo sobre confiança e sobre belezas.