domingo, 16 de maio de 2021

A Palestina resiste




 Essas dolorosas imagens em preto e branco foram tiradas em 1948, quando quase um milhão de palestinos foram obrigados, pela força das armas, a abandonarem suas terras, suas casas, suas oliveiras. Amigos se separaram, famílias se destruíram, sonhos foram pisoteados. Esse momento de dor e desespero ficou conhecido como o Nakba – o dia da catástrofe. Quando a terra palestina foi tomada/invadida por Israel.

Esse êxodo aconteceu porque os Estados Unidos, a Europa e outros países do mundo, servis e vis, decidiram criar nas terras palestinas um estado artificial: Israel. Diziam que lá não havia povo, mas havia. Que era uma terra esquecida, não era. Ali viviam famílias que amavam, plantavam e tinham seus filhos. Famílias que cresciam desde a muitas gerações. E que, de uma hora para outra, foram arrancadas de casa. Suas moradas foram destruídas e os sionistas os obrigaram a marchar, abandonar tudo o que lhes era caro. Muitas dessas pessoas carregaram entre os seus pertences a chave de suas casas, uma casa para a qual nunca voltariam. Uma casa roubada, uma vida saqueada.

Os que conseguiram ficar em outros espaços do território foram tendo suas vidas roubadas pouco a pouco, num Nakba que não tem fim. A cada tanto, com armas e soldados da morte, os israelenses vão avançando sobre a vida dos palestinos e a tal ponto de os confinarem em imensos campos de concentração, como é a Faixa de Gaza, por exemplo. Esses palestinos vivem cercados por muros e não podem cruzar os caminhos sem passar por vexatórias e sistemáticas revistas e humilhações. É incrível que o mundo assista a isso calado. 

São mais de 70 anos de dor, morte e horror. E o que é vimos na mídia comercial? “Orem por Israel”. Hipócritas! São os sepulcros caiados. Assassinos também! 

Não pessoal, não há que orar por Israel porque esse é um estado assassino, que mata crianças, velhos, homens, mulheres, que derruba casas, que corta oliveiras, que obriga ao êxodo.

Não peço que orem pelos palestinos. Eles não precisam de orações. Precisam de apoio e solidariedade. Precisam de nossa ajuda concreta. Principalmente a divulgação da verdade.

O Nakba não tem fim. Essa é a verdade nua. 

Fora Israel das terras palestinas. Terrorista é o sionista.


Cheguei aos 60



 Normalmente não gosto de festa de aniversário. Acho meio tolo ficar celebrando nosso decrepitar. Mas, já tinha pensado em juntar meus poucos amigos quando fosse começar a 60º voltinha em torno do sol. Afinal, entrar nos 60 é algo. Desgraçadamente não vai dar. O novo giro começa essa madrugada, em meio a uma pandemia, num país que decidiu entregar seu povo à própria sorte. Nessa hora noa – de profunda angústia – parece uma afronta celebrar o fato de estar viva quando mais de 400 mil pessoas já morreram no carreirão da incompetência e da maldade. Não me compraz festejar em meio a tanta dor.

Eu nasci na madrugada do dia 14 de maio, no interior de Uruguaiana, no Toro Passo. Era uma noite de chuva, raios e relâmpagos. Iansã abençoava, por certo. Meu pai saiu pela noite atrás da parteira, a Dona Maria, que trazia ao mundo toda a gente por ali. Eram duas e meia da manhã quando ela chegou, encharcada, conduzindo sua carroça, e suas mãos abençoadas me receberam. Cheguei assim, nessa tormenta, bem no meio do nada, na campanha gaúcha. Talvez por isso as tempestades da vida não me amedrontem.

Sempre fui uma criança quietinha, de olhos graúdos e curiosos, disposta a sorver tudo que a vida pudesse oferecer. Apegada a bichos, seres extraterrestres e livros, perdida em meio a letras e histórias. Nunca fui birrenta, mas sempre tive opinião. Adolescente, preocupava mais com a humanidade do que comigo mesma. Tive um amor de colégio a quem amei e esperei até os 21 anos, quando então soube de seu casamento. Aí me soltei, disposta a viver todos os amores. Vivi mesmo, sem freio, até encontrar o homem que hoje me aninha e me faz feliz. 

Hoje, entrando nos 60, me assombro. Jamais pensei que pudesse chegar tão longe. Mas, ao mesmo tempo, parece que foi tão rápido, tão pouco. A primeira infância em Uruguaiana, depois em São Borja. A migração para Minas Gerais, Belo Horizonte, Pirapora, Arinos, João Pinheiro.  A passagem por São Paulo: Bauru, Marília. A volta para o Rio Grande: Caxias, Uruguaiana, Passo Fundo. A vinda para Florianópolis. Faço a lista dos amores, os perdidos, os achados. Os amigos, tantos... As aventuras dizíveis e indizíveis, os segredos escondidos, os sonhos realizados e os que ainda guardo nos planos escritos em papéis amarelados. As viagens pelo mundo, pela minha América Latina. Os lugares ainda não visitados, mas muito anhelados. Quanta vida... quanta beleza... quanta superação. Eu realmente vivi à larga. Agradeço aos deuses e deusas.

Gosto que meu nascimento tenha sido no outono, essa estação tão linda, quando tudo parece que fica mais claro. Na manhã de 14 de maio desse ainda aterrador 2021 despertarei – espero - no mais puro espanto. De saber que ainda ando sobre a terra, que vivo, respiro, amo, encontro pessoas, faço coisas boas. Olharei no espelho e verei uma mulher madura, ainda charmosa, carregada de bonitezas. 60 anos. Uma vida boa demais, carajo. Não haverá churrasco, nem tilintar de copos, só a vidinha ordinária com o pai, os cachorros, os gatos, o Renato, o Pedro. Um almoço melhorado, talvez, uma cervejinha e, à noite, uma pizza, porque afinal sou filha de deus.  

A festa fica para quando der, quando não houver mais pandemia, quando não houver mais esse cavaleiro do inferno a conduzir o país... A festa virá, ah... virá, porque é merecida... 



sexta-feira, 7 de maio de 2021

A luta pela privacidade digital em 2021



Informações repassadas pela Techwarn

A pandemia mundial de COVID-19 mudou (e exacerbou) diversos aspectos de nosso relacionamento com a tecnologia: para muita gente, a continuidade dos trabalhos, lazer, e até contato com família e amigos, depende hoje de um computador ou celular como intermediário. Suas vantagens são inegáveis, podemos ter acesso ilimitado e imediato à informação, podemos nos comunicar a qualquer hora, e aplicativos podem ajudar a resolver diversos problemas do cotidiano.

O problema é que, dentro de um sistema de constante expansão que visa extrair o máximo de valor do trabalhador comum, a tecnologia também pode servir como arma, e suas desvantagens podem ser ainda mais significativas em períodos de vulnerabilidade social. O fenômeno do trabalho em apps de delivery, por exemplo, demonstra como a mesma tecnologia pode oferecer comodidade, praticidade e estabilidade para restaurantes, às custas, mais uma vez, da exploração de um trabalho perigoso e mal remunerado para os entregadores. 

Dentro de todos esses paradoxos, especialistas em segurança digital alertaram que a privacidade (que já estava sendo minada na última década) está sendo completamente destruída nos últimos meses. Não há ainda resposta de que resultados serão enfrentados pelas próximas gerações que viverão em um mundo que se esqueceu do direito à privacidade, mas ainda temos em mãos a oportunidade de entender e lutar contra o começo deste processo. Vamos entender. 

Coleta de dados como modelo de negócios

A grande tendência do fim da privacidade digital aconteceu com a percepção de que os dados relativos a um usuário são extremamente valiosos. É sob essa premissa que plataformas e serviços como o Google e Facebook são capazes de operar “gratuitamente”, e ao mesmo tempo, integrarem o conjunto de empresas tão valiosas que superam o PIB de diversos países. 

Sem que um usuário use alguma técnica consciente para limitar a extração de seus dados, como uma VPN, um DNS customizado, e uma extensão de navegador que bloqueia rastreamento, uma rede como a Google pode imediatamente saber: sua localização, seus contatos, acessar suas fotos, hábitos diários, local de trabalho, comidas favoritas, histórico de navegação, histórico de pesquisa, músicas favoritas, entre muitos outros dados que, em conjunto podem descrever perfeitamente uma pessoa. 

E se isso não é suficiente, o uso de algoritmos de inteligência artificial pareados aos metadados do usuário podem chegar ao nível de conhecer as pessoas mais profundamente que sua própria família. Em um caso famoso, a varejista estadunidense Target usando “a ciência que te faz comprar mais” notou hábitos de consumo diferentes em uma cliente, associados às mudanças de saúde resultantes da gravidez, e passou a oferecer produtos relacionados à gestação antes mesmo que a própria mulher, e seu pai, soubessem do bebê a caminho. 

Algoritmos e liberdade

Se uma empresa como a Google conhece cada detalhe de nossas vidas pessoais, inclusive coletando dados remotamente através de aparelhos com Android, e vende essas informações para anunciantes que, por sua vez, usam os dados para nos convencer de mil maneiras a comprar mais produtos, é possível que algumas pessoas considerem que este fenômeno não seja tão preocupante. Afinal, que diferença faz se o Facebook sabe que prefiro comprar Coca-Cola ao invés de Pepsi? 

O problema é que o uso “inocente” do marketing digital para nos oferecer produtos é a menor das preocupações. Algoritmos inteligentes e um volume imensurável de dados podem ser usados não apenas para entender nosso comportamento, e sim, para o influenciar. Pesquisadores sociais já demonstraram por exemplo que o Facebook ajudou Trump a ganhar as eleições, e uma série de artigos demonstram como plataformas como a Google Notícias e o Instagram criam o “efeito bolha” para manter seus usuários viciados em um círculo fechado de ideias, sem a capacidade de buscar outras informações, questionar suas convicções, e refletir antes de propagar uma notícia ou publicação baseando-se apenas nas emoções. Isso não é um erro, é um algoritmo proposital. 

E a situação pode piorar: Edward Snowden, ex-agente do departamento NSA dos Estados Unidos, é perseguido político por revelar ao mundo que a agência coletava e monitorava os dados de pessoas do mundo inteiro, incluindo a ex-presidenta Dilma Rousseff e cidadãos comuns do Brasil, para que entre outros motivos a opinião pública à respeito do país pudesse ser controlada.

A luta pela privacidade digital é mais importante do que nunca: Se deixarmos nossa vida ser transformada em um pacote de dados para serem comprados e vendidos por gigantes da tecnologia, com poderes financeiros inimagináveis, estaremos abandonando alguns dos direitos mais fundamentais da humanidade, e nos rendendo à nova etapa do capitalismo moderno orwelliano que trata pessoas comuns como amontoados estatísticos que servem apenas para gerar mais renda para suas corporações. 


A escravidão e o Jacarezinho



O sistema colonial que se instalou no “novo mundo” depois da invasão das Américas precisava de mão-de-obra para fazer o trabalho andar. Foi assim que os países ricos da época – Inglaterra e Holanda  - começaram um comércio até então inédito: o de gente. Levavam os navios para o continente Africano, sequestravam gente, e levavam para a América para trabalhar como escravo. Foram séculos dessa infâmia.

No caso do Brasil, quase dois milhões de pessoas foram trazidas para trabalhar nas fazendas dos senhores de engenho ou de café. Mais de 200 mil morreram no caminho. Essa gente toda foi espalhada pelo território e apesar das condições brutais de existência, gerou descendência. Um censo realizado em 1872 - 16 anos antes da abolição - dá conta de que 58% da população brasileira se declarava negra ou parda, ou seja, os negros eram maioria, sempre foram desde que trazidos da África. Quando a abolição finalmente chegou, o país tinha ainda 723 mil pessoas na condição de escravo. 

É bom que se lembre de que antes disso teve a Lei do Ventre Livre, que deu “liberdade” aos nascidos de pessoas ainda escravizadas e a Lei do Sexagenário, que liberou os mais velhos. Ora, todas essas duas leis foram perversas porque jogavam numa condição ainda mais miserável os bebês, que apesar de “livres” tinham de ficar com os pais ou abandonados, e abandonava os velhos a sua própria sorte depois de já terem sido consumidos. Nem às crianças nem aos velhos foi dada qualquer condição de reproduzir a vida. 

Da mesma forma, toda essa gente escravizada se viu livre numa manhã de 1888, sem qualquer opção de existência. A eles não foi dado o direito de propriedade e muito menos qualquer política pública de recomeço da vida agora como um ser livre. Nem mesmo o trabalho lhes restava porque as levas de imigrantes agora viriam a substituir os negros, e estes eram sempre a primeira opção dos fazendeiros. Isso mostra bem a condição do negro naqueles dias de libertação. Começava aí um novo processo de aprisionamento, desta vez como exército de reserva do capitalismo nascente. 

Depois de 300 anos de escravidão, os negros eram largados com uma mão na frente e outra atrás. Sem emprego e sem opção, eles foram ocupando terras periféricas e se organizando como dava. No geral, o máximo que conseguiam eram trabalhos esporádicos, bicos, e suas condições de vida eram precárias. É dessa história de sequestro, violência e abandono que nasce o menino de rua, a favela, o mendigo. É claro que muitos negros conseguiram romper com essa planejada destruição, mas a maioria foi jogada na marginalidade.  

A tragédia do Jacarezinho – Rio de janeiro/2021

Neste dia 06 de maio de 2021, 133 anos depois daquele maio que tornou livres os negros escravizados, uma tropa da polícia civil do Rio de Janeiro entrou na comunidade do Jacarezinho e matou, sem direito a julgamento ou defesa, 25 pessoas. Gente jovem e preta, como tem sido, sistematicamente, há décadas, em todas as regiões do país. A lógica é cortar o “mal” pela raiz. O argumento é singelo: os policiais estavam ali “limpando” a área para garantir a segurança aos “cidadãos de bem”. Segundo a versão oficial, as pessoas mortas eram bandidos, traficantes e mereceram o destino: CPF cancelado, para usar a linguagem dos tempos bolsonarísticos. Não foi um confronto, foi uma execução. 

Analistas entendidos da realidade carioca falam que o Jacarezinho é uma região do Rio onde as milícias ainda não puderam entrar. E que são elas as que dominam quase 60% do território. Pode estar aí um dos motivos para essa “incursão” já que todo o poder institucional do estado e da cidade está conectado com as milícias. Há quem diga que o próprio clã que hoje governa o país também. Tudo isso são questões que aparecem de maneira periférica na discussão. Geralmente quando acontece algo assim sempre vêm à tona as guerras de facções, os esquemas de poder do submundo do crime e tal. 

Para o leitor/espectador comum, o foco todo fica sempre no morto: era um bandido. Mesmo que não seja. Se era preto e vivia na favela, era bandido. Essa é a compreensão. E se o morto é uma criança, as pessoas pensam: bom, se não era bandida ainda, seria. Porque no imaginário nacional o negro está sempre vinculado ao lado ruim da força. Essa é a ideia que vem se reforçando desde o princípio da escravidão, eu intuo. Imagino os donos de engenho repassando aos filhos a informação: “não cheguem perto dos negros, eles não são gente, são coisas do mal”. Depois, quando os negros estavam livres e foram se incrustar nos morros, seguiam sendo apontados como os “malvados”, os “capoeiras”, os “marginais”. Hoje, ainda confinados às regiões mais pobres, eles seguem sendo a imagem do mal. É uma construção histórica que muito bem serve à classe dominante, essa que nunca saiu da casa grande.

Pode ser que alguns daqueles jovens assassinados no Jacarezinho fossem traficantes. Pode ser. Muitos deles são. Porque aos pobres do país muitas vezes não resta saída. Ser recrutado pelos gerentes do tráfico é coisa corrente nas comunidades. É bem difícil escapar desse destino porque no geral não há trabalho para jovens negros, e se há, é subemprego. Com o tráfico eles tiram em um dia o que ganhariam em um mês. Que jovem não faria esse cálculo? Negro, branco, vermelho, amarelo ou azul? Qualquer um, afinal, vive-se num mundo capitalista no qual a pessoa é medida pelo que tem. A questão é? São eles, culpados? E sendo, deveriam ser executado assim, sem julgamento ou direito à defesa?

Não faz muito tempo um avião presidencial – eu disse presidencial - foi pego com quilos e quilos de cocaína. Cocaína é droga. Sabem o que aconteceu? Nada. Nenhuma invasão ao aparelho, nenhum tiro. O militar – assim trata a imprensa, em vez de bandido ou traficante - que acabou responsável pelo caso foi preso sem alarde e nem sei se ainda está. Outro caso famoso é o de um avião cheio de cocaína que era de propriedade de um deputado mineiro e que foi apreendido dentro da fazenda do deputado, tampouco teve tiro ou execução. E inclusive, mesmo sendo o avião do deputado e a fazenda do deputado, o tal deputado não foi incriminado. Parece que só sobrou para o piloto. Eis a questão! 

Os traficantes de verdade, os que importam, os que fazem girar o mundo das drogas, esses não estão na favela. Eles frequentam os salões e vivem no asfalto. Suas casas não são invadidas e eles não são assassinados em frente às mães, às irmãs, aos primos. Eles são os que estão no comando. Nada lhes toca. A guerra é feita aos gerentes e aos soldadinhos do tráfico, para mostrar que se está fazendo algo. E com muito mais violência a guerra é feita  aos soldadinhos, porque esses não tem nenhum poder a não ser a arma que carregam. Eles podem ser abatidos como moscas para serem expostos como troféus de uma “política de segurança”. Mas, outros como eles logo estão prontos para se alistar no exército do tráfico, porque não encontram saída do labirinto onde foram jogados há séculos. 

Esse é o jogo. Essa é a incômoda verdade. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, diz a canção do Rappa. 

E, nesse contexto, basta a gente se levantar em defesa dos mortos e já vem a matilha a gritar: “leva pra casa, tomara que estuprem tua mãe”. Porque essas criaturas, que não conseguem enxergar o todo, temem os traficantes, os bandidos, os “negrinhos”. Não conseguem ver que o temor precisa tomar outra direção. Os verdadeiros causadores da tragédia das drogas não são os guris do morro. Eles são apenas um elo da corrente, o mais fraco, aliás. O verdadeiro traficante – o dono da droga – está protegido e seguirá assim até que um dia esse mundo mude pela força das nossas mãos. 

Hoje as famílias do Jacarezinho choram seus mortos, e daqui a algumas horas, outras famílias, de outros morros, outras comunidades, também chorarão. Tem sido assim, todos os dias. Porque são herdeiras daquela gente “descartável” que cometeu a heresia de ficar por aqui, de não morrer. 

E assim vai a vida nesse triste país, sem parada. 

Dia virá, eu espero, que os deserdados se levantarão, organizados e coletivamente, e arrancarão das mansões os verdadeiros fabricantes da morte e do terror. 


Morar é um direito - Vale das Palmeiras de pé



 Quando a pandemia começou em março do ano passado houve uma batalha muito grande para que as prefeituras de Florianópolis e dos municípios vizinhos garantissem condições de higiene e comida para as famílias em comunidades de ocupação. Esses espaços que as famílias sem-nada ocupam para poder montar seus barracos e se proteger, afinal, alugar um imóvel em Florianópolis e região não é para qualquer um. Os preços são altíssimos e mesmo nas comunidades de periferia para muitas famílias fica inviável alugar. Ocupar os terrenos vazios é a única saída.

 Foram meses e meses de conversas, marchas e protestos. Isso porque mais de mil famílias, distribuídas em oito comunidades, estavam completamente destituídas de qualquer possibilidade de sobreviver quando teve início o fechamento total das atividades. Sendo a maioria das pessoas em situação de trabalho informal, a fome logo abriu caminho pelas casinhas mal havidas. Foi preciso que diversos grupos de solidários se formassem para garantir essas vidas, visto que para os governos elas são invisíveis e descartáveis. 

Esse trabalho de suporte que é feito por pessoas ou instituições continua até hoje, pois muita gente ainda não conseguiu voltar ao ritmo de trabalho de antes da pandemia. Segue faltando comida e produtos de higiene. Uma batalha sem fim. 

DESPEJO

Pois não bastasse todo o terror que é não ter comida e nem possibilidade de trabalho, algumas famílias ainda têm de enfrentar as ameaças de despejo. É o que está acontecendo agora na cidade vizinha de São José, com a prefeitura local querendo desalojar 150 famílias da comunidade de ocupação Vales das Palmeiras. Ou seja, em plena pandemia, o prefeito Orvino Coelho de Ávila (PSD), quer jogar na rua uma comunidade inteira que desde há tempos vem se organizando às margens da Avenida das Torres, buscando um canto onde encostar a cabeça numa cidade que há oito anos não cria qualquer projeto de moradia popular. Isso significa que os moradores são deixados à própria sorte numa região em que a renda da terra acaba por tornar a vida insustentável para o trabalhador. Tanto em Florianópolis quanto no seu entorno os imóveis custam os olhos da cara. 

As famílias que vivem na ocupação Vale das Palmeiras têm lutado duramente para seguir vivas nesse período de pandemia, visto que a maioria trabalha de maneira informal.  E agora, desde o começo do mês de abril deste ano vivem em estado de terror permanente com as ameaças de derrubadas das casas. Primeiro foi a polícia que chegou com intimações falsas, alegando que era para saírem imediatamente. Os documentos sequer tinham assinaturas de juiz. Era só um desejo do prefeito. Imediatamente a comunidade acessou as redes de apoio e logo a farsa foi descoberta. Mas, em seguida, souberam que o processo já estava mesmo finalizado na justiça e que a ordem de despejo seria dada. O que o prefeito fez foi antecipar o drama. 

Com essa informação a comunidade tratou de se articular em luta e começou o processo de tentativa de negociação, afinal, existe até uma lei que determina que enquanto durar a pandemia não pode haver despejo. E mesmo com reunião marcada na prefeitura, a polícia seguiu fazendo incursões na comunidade, colocando medo nas pessoas. Tentavam intimidar as famílias a aceitar o aluguel social proposto pela prefeitura, num valor que não alcança pagar nenhuma moradia digna no município.

Uma reunião aconteceu, sem qualquer avanço, até porque o prefeito não estava presente. Nova reunião foi marcada, mas dois dias depois os moradores enfrentavam o corte de luz, um direito básico que foi negado como mais uma intimidação. No dia 23 de abril nova ordem de despejo é dada, sem que o prefeito aparecesse para conversar. Mais marchas, mais manifestação. A prefeitura ofereceu um “acolhimento” que seria de uma parcela única de 770 reais. Ora, o que uma família sem casa e com todas as suas coisas na rua pode fazer com 700 reais? 

No dia 28 de abril as famílias conseguiram uma decisão favorável de um juiz para que as casas não sejam demolidas, mas a prefeitura segue pressionando para que aconteça o desalojo. No dia primeiro de maio a polícia apareceu na ocupação visando impedir uma manifestação pacífica. Nesta quarta-feira, dia 05, foi realizado mais um ato em frente à prefeitura de São José, pedindo uma conversa com o prefeito, mas ele segue se negando a falar cara-a-cara com as famílias.

E assim segue a luta. O despejo está suspenso por enquanto, mas nada está garantido. Os moradores seguem esperando uma negociação de verdade e se amparam na lei, visto que a nossa carta magna diz que morar é um direito, coisa que parece valer apenas para o famoso cidadão-cliente, ou seja, aquele que tem dinheiro.

Santa Catarina, que é cantada na mídia como a Europa brasileira, está bem longe de ostentar o bem estar social da região europeia. Só no quesito moradia o déficit é de quase 200 mil habitações, isso sem contar as moradias precárias – 36 mil segundo a Cohab - que não oferecem dignidade. Em São José o déficit é de mil moradias. 

Morar é quesito de primeira necessidade e ter a própria casa é sonho de 10 entre 10 trabalhadores, porque pagar aluguel é considerado o gasto mais injusto que pode haver. É um dinheiro que, sendo ganho com o suor do trabalho, já vem morto. Por isso, as famílias que lutam nas comunidades de ocupação, não querem deixar suas moradias, muitas vezes bastante precárias. Porque, tendo-as, não precisam pagar aluguel. E isso já significa muito. 

No Vale das Palmeiras é assim. E as famílias vão lutar até o fim. 

O mínimo que esperam é que o prefeito pare de se esconder e venha conversar.


 

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Os migrantes e os EUA


A notícia aparece no portal Democracy Now como uma nota pequena. Mas, seu alcance é significativo para toda a América Latina. O governo dos Estados Unidos fez um acordo com o da Guatemala para treinar agentes da polícia da fronteira, garantindo assim uma ação mais dura contra os migrantes que partem de vários cantos da América Central em direção aos Estados Unidos. É bom lembrar que a Guatemala não faz fronteira com os EUA, mas com O México, ainda assim o governo de Joe Biden tem como objetivo militarizar os espaços fronteiriços  buscando evitar que as colunas de gente consigam passar.

A informação é de que os Estados Unidos enviará agentes de segurança nacional para a Guatemala e estes irão treinar os guardas da fronteira. O acordo foi pactado pelo presidente Alejandro Giammattei com a vice-presidente Kamala Harris em uma reunião virtual na semana passada. Esta não é a primeira vez que os EUA realizam treinamento das forças de repressão do país, mas é digno de nota que desta vez seja um curso especial para os guardas de fronteira, fazendo com que a repressão seja mais dura com os próprios guatemaltecos.

Kamala Harris declarou que quer trabalhar com o governo da Guatemala para tratar das causas da migração dando ao povo da Guatemala a possibilidade de manter-se no país. Ora, todos sabem porque as pessoas fogem da América Central: justamente por conta da política imperialista e neo-colonial dos Estados Unidos que empobrece o país, mantendo-o na dependência e na subserviência. 

Os ativistas que atuam na luta por justiça para os imigrantes dentro dos Estados Unidos estão condenando amplamente essas crescente intervenção dos EUA na região e denunciam que são estas sistemáticas intervenções políticas e econômicas que agravam a pobreza e a violência na América Central, o que obriga milhares de pessoas a saírem de suas casas e de suas cidades em busca de vida melhor. 

Ao contrário de Trump que militarizou as fronteiras dos EUA e atuou no sentido de prender e devolver aos seus países os imigrantes, Biden pretende terceirizar essa função treinando os guardas dos países, fazendo com que a responsabilidade de parar os imigrantes fique a cargo de cada governo específico. Isso significa que além de terem de amargar as políticas de destruição que os Estados Unidos mantêm contra seus países, as populações da América Central também serão impedidas de se movimentar no espaço geográfico, com seus próprios conterrâneos garantindo mais violência e repressão. 

A violenta política democrata dos EUA sendo a violenta política democrata dos EUA. 



segunda-feira, 26 de abril de 2021

A comunicação como espaço de poder


É falsa a ideia de que vivemos tempos nos quais a comunicação se tornou estratégica e necessária. Sempre foi. Ocorre que atualmente, com as novas tecnologias, as informações alcançam as pessoas com maior velocidade e intensidade, daí a impressão de que só então a comunicação assume um status de prioridade. Talvez, só agora, e aí sim, seja possível perceber a importância desse setor. Que a gente aprenda. Uma mirada na história e já podemos ver o quanto quem apostou na comunicação conseguiu ser eficaz na fixação de suas ideias. Isso vale tanto para a propaganda de produtos quanto de ideias. 

Antes de qualquer análise sobre como as coisas estão, é preciso uma crítica ao governo petista que vingou a partir das demandas dos trabalhadores. Nem Lula, nem Dilma compreenderam a importância da comunicação de massa e, justamente por isso, perderam a batalha informacional quando mais necessitavam vencer. Isso é algo imperdoável, até porque sempre houve gente no campo da esquerda a chamar a atenção para isso. A estratégia petista foi a de fortalecer alguns jornalistas de nome nacional – Luiz Nassif, Paulo Henrique Amorim  - e investir em uma e outra agência também nacional de difusão de informação, como a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres. Equívoco. A comunicação tem de ser regionalizada, pois um país com dimensões continentais como o Brasil não pode ficar refém de análises feitas no eixo Rio/São Paulo/Brasília. Cada estado tem uma dinâmica, uma maneira de apresentar o discurso, um modo de ser.  

Lula – inexplicavelmente - não aceitou a ideia generosa e patriagrandista de Hugo Chávez de tornar aberta a Telesur no Brasil. Barrou o sinal e impediu que os brasileiros pudessem tomar contato com a realidade latino-americana. Criou a TV Brasil, mas igualmente não garantiu que ela fosse aberta e que se espalhasse por todo o território nacional. Não criou TVs comunitárias, não investiu nas Rádios Comunitárias, não propiciou que os movimentos sociais pudessem produzir conteúdo. E aqui é importante tomar como exemplo o governo de Hugo Chávez que criou uma lei – a Lei Resorte – na qual criava as condições para que as comunidades organizadas pudessem produzir conteúdo e criou duas emissoras de televisão públicas, além de outras estatais, de alcance nacional, para a divulgação desses conteúdos. Lula realizou a Conferência Nacional de Comunicação, por tanto tempo esperada pelos jornalistas e gente da comunicação, mas, ao final, colocou tudo por terra ao incluir os empresários com poder de intervenção. Ou seja: manteve a comunicação nas mãos privadas e não teve coragem de romper com a hegemonia dos que sempre comandaram esse setor. A estratégia de investir em pessoas e grupos fincados em SP e RJ não foi capaz de dar combate quando se necessitou de uma comunicação capaz de constituir capilaridade. O governo foi massacrado pela grande mídia que fortaleceu.  

Por outro lado, os grupos vinculados ao empresariado e ao gangsterismo, que sempre souberam da importância da comunicação, trataram de assumir o comando do discurso quando perceberam as potencialidades das novas tecnologias. Daí o investimento massivo em gente e empresas capazes de produzir conteúdo e distribui-lo em velocidade. O advento do WhatsApp – com a formação de redes familiares e de confiança - permitiu que esse discurso pudesse circular sem a mediação dos meios comerciais, ainda que estes também seguissem fazendo seu trabalho de manutenção do status quo. Hoje há um gabinete no governo que comanda a distribuição massiva de informações - muitas delas mentirosas - e há dados que mostram estarem os militares no comando dos algoritmos. Isso é muito importante saber visto que no governo atual, as forças armadas mantêm mais de 11 mil pessoas nos postos de mando. Sendo assim, elas têm as armas, os postos chave e o controle da informação.  

Outro elemento importante que não se pode subestimar é o controle que apenas três empresas – todas estadunidenses e expressões acabadas do capital – têm sobre as plataformas de comunicação utilizadas. Elas controlam o que é publicado, elas armazenam todo o conhecimento que criamos, elas vigiam tudo o que é produzido – mesmo individualmente - e elas decidem se ficamos conectados ou não. Ou seja, debater comunicação é debater poder e soberania, se isso não for entendido, todas as propostas de combate serão inúteis. Afinal, a um toque de botão, podemos ficar totalmente fora das redes sem ter a quem recorrer. Vale lembrar que nem ao Papa, visto que ele mesmo é visto como um “inimigo comunista”.

Qual o diagnóstico hoje 

Pesquisas realizadas pela Kantar Ibope Mídia dão conta de que aconteceram grandes mudanças no campo da comunicação. Obviamente que tem havido uma intensa migração para as novas tecnologias, mudando os meios por onde chegam as informações. A televisão de sinal aberto, por exemplo, perdeu quase 50% da audiência, principalmente no público jovem. Empresas como a Rede TV e o SBT tiveram perdas de 57 e 52%, respectivamente. A Globo perdeu um em cada três espectadores, mas tem investido em outras mídias e ainda se mantém poderosa. Por outro lado, a Rede Record é a única emissora que cresceu em audiência e isso se deve, obviamente, ao fato de que agora tem ligações diretas com o poder tanto político quanto religioso, visto que o neopentecostalismo cresce sem parar.  

Ainda que a TV aberta tenha perdido audiência, o veículo TV segue sendo a estrela da casa e agora, no período da pandemia as pesquisas dão conta de que mais aparelhos estiveram ligados, embora tenha crescido bastante o serviço de streaming. Ou seja, a pessoa paga um determinado grupo empresarial para ver apenas os seus programas, tipo Netflix, Disney, Globosat, etc... Isso forma um espectador com opções bastante reduzidas, vinculadas ao seu gosto pessoal, um gosto que é moldado pelo que vê, formando um círculo do qual não consegue sair.  Conforme pesquisa do Ibope, em 2020, 15 aparelhos de TV em 100 estavam ligados nos streamings e a Globo detém 33% desse mercado. 

No campo da TV paga, com vários canais – mas quase sempre das mesmas empresas que dominam a TV aberta - o número de usuários vem se reduzindo, apenas 20 milhões de brasileiros têm acesso, com mais quatro milhões chegando ao serviço em esquemas pirateados.  

Esses dados mostram que a TV aberta ainda segue tendo muito poder, até porque ela chega a até 97% do território, com a Globo tendo o melhor sinal. Nesse período da pandemia o tempo médio em frente à TV aumentou bastante e o conteúdo jornalístico das redes passou a ser mais consumido, passando de 21 a 30%, provavelmente por conta das informações referentes a caminhada da Covid-19. Ainda assim, o conteúdo mais visto na TV aberta são os programas de realidade confinada, os chamados realitys shows, como Big Brother, a Fazenda e outros, que não passam informação alguma, sendo unicamente espaços de algaravias pessoais, bastante alienadoras. Mas, por outro lado, são programas que fortalecem de maneira inteligente e subliminar a lógica do capital na qual se eliminam pessoas que não se enquadram aos gostos dos espectadores. Competição, individualismo, hedonismo, egoísmo, preconceito são alguns dos valores que vão se tornando cada dia mais musculosos. Logo, não são programas de entretenimento, mas de mais-valia ideológica, conforme expressa Ludovico Silva.  

As pesquisas também mostram também que os conteúdos das TV abertas acabam escapando do meio e invadindo também as redes sociais. Eles são responsáveis pela geração de milhões de twitters, postagens no facebook, memes e publicações do Instagram, fazendo com que as mesmas informações circulem por todos meios. É um círculo sem fim.   

Os celulares como novo meio hegemônico 

Se a TV chega a 97% dos lares, o celular, meio individual de comunicação, praticamente está colado em cada brasileiro e está presente em 94% dos lares. Hoje existem 234 milhões de aparelhos, uma média de um por habitante. Segundo o IBGE 79% dos brasileiros dispõe de um celular. A faixa etária que mais está grudada nesse aparelho é a de 30 a 34 anos, com uma taxa de 90%.  

Os números são reveladores da vitória do meio individual de comunicação, mas os problemas de acesso ainda estão longe de serem resolvidos. Apenas metade do país dispõe de um sinal realmente bom e a velocidade do serviço é bastante precária. No Brasil agravado pelo fato de as empresas estarem facultadas a entregar apenas 80% da velocidade contratada. O trânsito de dados ainda é muito baixo, sendo o estado de São Paulo o que tem o melhor índice. Cada pessoa passa pelo menos três horas no celular durante o dia.  

O conteúdo mais visualizado nos sítios de busca está relacionado ao “como fazer” ou lista de coisas, do tipo, cinco dicas sobre isso ou aquilo. Acessar notícias ocupa 25% do tempo, já a visualização de memes e outros conteúdos engraçados ocupa mais de 30% do tempo. As redes mais acessadas são o Youtube (95%), o Facebook (90%) e o Whatzapp (89%). Existem 140 milhões de usuários ativos nas redes e 61% das pessoas as acessam pelo celular.  

Quem é da área deve se lembrar do acordo fechado pela presidente Dilma com o dono do Facebook para garantir acesso massivo do conteúdo da rede aos brasileiros, criando assim uma legião de alienados ao discurso exclusivo gerado pelo Facebook, visto que os pacotes de dados da maioria não permitem a navegação por outros sítios. Uma forma perversa de manter a massa cativa, refém do aplicativo. O mesmo se deu com o uso do WhatsApp que passou a ser “gratuito”, oferecido pelas empresas de telecomunicação. Com isso, cria-se o cenário perfeito para a manipulação da informação visto que os que têm menos condição de garantir pacotes de navegação são os que se informam exclusivamente pelos dois sistemas: o que interessa ao Zuckerberg (o capital) e o que interessa ao sistema dominante em cada espaço geográfico (gerentes do capital). 

Para abastecer essas redes nascem as empresas produtoras de informações e as distribuidoras de conteúdo que podem atingir milhões em um único segundo, o que torna o combate bem mais difícil. Como já dissemos, hoje, no Brasil, são os militares que comandam esse processo. 

Para dar alguns exemplos, na secretaria Especial de Comunicação havia até ontem um almirante de esquadra  - Flávio Augusto Viana Rocha, ficou por meses acumulando cargos. Na EBC, são sete militares em postos chave. O Ministério da Defesa criou um Centro de Comunicação Social, com grande número de militares. A Abin é comandada por um ex-policial indicado do general Santos Cruz. No Ministério de Ciência e Tecnologia, o tenente Marcos Pontes e por aí vai. Eles comandam setores estratégicos e têm acesso a toda a tecnologia de controle de informação.  

A história e o que fazer 

Uma das coisas que precisam ficar claras é que o problema da alienação não é causado pela tecnologia. Ou seja: não são as redes sociais que imbecilizam, alienam e desinformam. Como muito bem já discutiu o grande filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, a questão que precisa ser pensada é a sociedade que gera essa alienação, o modo de produção que a engendra. E, nela, a comunicação produzida.  

A história dos meios de comunicação de massa mostra que não é meio em si que define a comunicação, mas sim o poder que está por trás e que busca vencer a batalha do discurso. Os jornais diários quando surgiram na França queriam mais era  vender mercadorias do que dar notícias de real interesse. Mas, também havia diários capazes de refletir criticamente a realidade como a Nova Gazeta Renana, de Karl Max, ou o Diário do Orinoco, criado por Simón Bolívar. O rádio, quando massificou a informação, chegando também a quem não sabia ler, serviu para alienar, como foi o caso da Alemanha nazista, mas também se prestou a desalienar como foi o caso da Rádio Rebelde em Cuba, que fermentou a revolução. O mesmo se pode falar da televisão que surgiu para revolucionar as comunicações, ancorada no sistema dominante, mas ainda assim, sempre  permitiu, involuntariamente, que a verdade escapasse quando em vez. Os meios não produzem as coisas, são as pessoas, em sociedades historicamente determinadas que as fazem.  

Portanto, os tempos modernos, das redes sociais, igualmente estão prenhes dos mesmos devires. Podem enganar, mentir, alienar, ou não. Tudo vai depender do sistema que domina o processo. Por isso qualquer debate sobre a comunicação tem de ter uma proposta de poder e de um novo modo de produção da vida.

É fato que hoje a velocidade da informação é um diferencial que não pode ser negligenciado e a possibilidade da massificação de um engano, de uma mentira - as chamadas fake news - é bem maior do que na era do rádio ou da televisão. Isso nos remete então à discussão da sociedade na qual estamos mergulhados e à sua capacidade de garantir que tudo permaneça como está. O que é gerado nas redes é fruto da ação de grupos de poder. Sendo assim, voltamos ao ponto central: enfrentar a batalha comunicacional não pode se apequenar na mera crítica dos meios. Há que avançar para a destruição do sistema de dominação que nos aprisiona. É, portanto, uma batalha sobre poder.  

Nesse sentido a batalha pela comunicação precisa se dar dentro dos meios existentes, ainda que estejamos em desvantagem sempre, mas principalmente fora, no campo da política, no cotidiano. É na vida real, na materialidade da existência que se torna possível a mudança. Daí a necessidade da educação política da população para que cada pessoa seja capaz de compreender o que se mostra e o que se esconde no discurso dominante. Para além disso, nos grupos em disputa pelo poder, esse tema tem de estar no topo e fazer parte da agenda estratégica.  

Isso significa que precisa ser necessária a coragem para tocar na estrutura do setor, coisa que nos 14 anos de governo petista não aconteceu. O medo de enfrentar as grandes redes – com a renovação automática das outorgas públicas, a falta de uma lei mais dura no campo da comunicação e a estratégia equivocada de ação - garantiu a continuidade do mesmo discurso servil ao poder dominante mundial, ao capital. Foram 14 anos que poderiam ter revirado muita coisa nesse setor. Mas, não aconteceu. O resultado apareceu em 2016, quando durante o processo de julgamento público da presidente Dilma, os meios tradicionais, unificados,  fizeram sua parte na defesa da classe dominante, enquanto a militância petista se viu desprovida de meios para enfrentar o ataque.  

Hoje, a situação ainda é mais dura na medida em que a comunicação está na mão dos militares e o simples controle dos algoritmos acaba tendo um poder extraordinário. A capacidade de resposta do grupo bolsonarista – por exemplo - é avassaladora na sua rapidez e eficácia, ainda que seja um grupo relativamente pequeno. Mas eles contam com as estruturas de poder, tanto na produção do conteúdo como na sua distribuição. Não bastasse isso, as chamadas redes sociais são controladas ideologicamente pelas empresas que impedem que o combate se faça desde dentro. Divergir ou criticar é aceito até por ali. Se passou do limite deles, o conteúdo é censurado. “Você violou as regras da comunidade”, quem já não teve uma postagem sua assim recusada? A correlação de forças dentro do sistema é contra nós significativamente. Temos de atuar formando gente capaz de compreender essa nova forma comunicacional na sua materialidade e funcionamento. E também atuar fora das redes virtuais, no corpo-a-corpo com a vida, com as pessoas. Fazer isso dá trabalho, é penoso, mas ou é isso ou já perdemos a batalha. Além disso, o projeto de poder para a mudança precisa contemplar a questão da ciência e da tecnologia para que seja possível criar soberania comunicacional também.

Resumindo: não tem receita de bolo e não é possível seguir acreditando que postar no face ou no uatizapi resolve o problema. Há que ter o controle dos meios. E isso se resolve na política. Como já dizia o velho Marx: “a parada é sinistra, mas vamos transformá-la”.