terça-feira, 6 de abril de 2021

As eleições subnacionais na Bolívia



Depois de alguns meses de governo de Luis Arce, o MAS foi novamente testado nas urnas, nas eleições municipais e departamentais, chamadas de subnacionais, na Bolívia.  

Nos departamentos, que são nove, o MAS ganhou Oruro, Cochabamba e Potosí. Santa Cruz ficou na mão do Creemos, tendo eleito Luis Camacho, líder do grupo que tomou o palácio depois da renúncia de Evo Morales e principal adversário do MAS,  e Beni com o MTS. Quatro departamentos terão segundo turno e todos têm o MAS na disputa. Esse resultado nos departamentos está sendo visto como um alerta de que a oposição segue firme e de que a situação do partido não é tão confortável. 

No que diz respeito aos municípios o mapa do país seguiu prioritariamente azul com o Movimento ao Socialismo conquistando 240 munícipios - 13 a mais do que em 2015 - dos 336 existentes. Apesar de a oposição de direita ser forte em alguns municípios de grande densidade populacional como Santa Cruz, o MAS consegue ter bastante penetração nas pequenas cidades do interior que ainda são eminentemente rurais. Esses espaços seguem sendo o núcleo duro do partido e chegam a somar mais de 30% da base partidária. 

Observou-se ainda uma grande polarização nas grandes cidades nas quais subsiste um sentimento anti-Evo bem demarcado. Já falamos em Santa Cruz, mas isso se deu também em La Paz, Cochabamba e El Alto, onde o MAS perdeu, embora essa perda tenha sido para novas lideranças que deixaram velhos caudilhos locais para trás, inaugurando uma novidade na política. Ainda assim, o partido do governo foi o único que conseguiu garantir representação nos nove departamentos, inclusive no racista e direitista Santa Cruz, onde ficou com 28 municípios contra 54. 

Nos 96 municípios que não ficaram sob o comando do MAS a vitória ficou dividida entre 43 frentes locais ou regionais. Entre elas, o Movimento Terceiro Sistema ficou com 10, Unidos com oito, Venceremos com sete, Cremos com sete, Democratas com cinco e o Jallalla (de base indígena e popular), que abocanhou quatro municípios, incluindo El Alto. 

As eleições subnacionais na Bolívia têm dois sistemas bem demarcados, um que se articula em nível nacional e outro que se organiza regionalmente, subdividido nos municípios, a partir de interessem bem particulares, daí o grande número de agrupações cidadãs com listas nos mais diversos municípios, bem como organizações indígenas por etnia. Isso significa que uma agrupação pode disputar em apenas um departamento. 

A esquerda e a direita – conceitos que não abarcam o indígena 

É justamente essa diversidade de agrupamentos políticos que possibilitou a ascensão do Jallalla, que elegeu Eva Copa como prefeita de El Alto. Esse agrupamento se articulou esse ano para as eleições no Departamento de La Paz, principalmente na cidade de El Alto, a segunda maior cidade do país, com a capital a seus pés. O município fica a quatro mil metros acima do nível do mar e tem hoje quase um milhão e duzentos mil habitantes, a maioria indígenas da etnia Aymara, migrantes das mais diferentes regiões da Bolívia. 

El Alto foi até 1985 um subúrbio de La Paz, mas em função de seu crescimento ganhou status de município. Sua gente tem destacado papel na vida política do país desde o levantamento de Tupac Katari, que dali chegou a cercar La Paz em 1791, no mesmo rastro da luta de Tupac Amaru. Na história contemporânea a cidade de El Alto também teve protagonismo na queda de Sanchez de Losada e na Guerra do Gás.  

Em dezembro do ano passado, quando as candidaturas para as prefeituras começaram a se articular, a senadora Eva Copa, eleita pelo MAS, que foi inclusive presidente do Senado e que depois da renúncia costurou acordos políticos para garantir as eleições presidenciais, sob a orientação de Evo Morales, esperava ser indicada pelo partido para a municipalidade de El Alto. Mas, não foi a escolhida. Isso gerou uma crise e fez com que ela rompesse com o Movimento ao Socialismo. Pouco tempo depois, Eva surpreendeu a todos anunciando sua candidatura para a prefeitura de El Alto pela Agrupação Jallalla, organização política de corte indígena. Em um ato público, ela falou do compromisso que tinha com a sua cidade natal e aceitou vestir o jaleco vermelho do movimento. O resultado foi a vitória avassaladora de Eva, com quase 70% dos votos que também garantiu 9 dos 11 conselheiros municipais. 

Apesar de algumas lideranças de esquerda, ligadas ao MAS acusarem a agrupação Jallalla de ser um braço do PAN-BOL, um partido de direita, as lideranças que assumiram a campanha esse ano repudiam essa afirmação. Conforme Magali Vianca, advogada e militante que trabalhou na campanha de Eva Copa, a agrupação já existia, mas estava inativa, e seu criador realmente tem acusações de corrupção. “Mas, isso não significa que estamos ligados ao PAN-BOL. Apenas era necessária uma agrupação para que pudéssemos lançar a candidatura de Eva e do Malku (Felipe Quispe, que era o candidato ao departamento de La Paz), porque aqui, para nós, o que pesa mesmo é a liderança política”.  

Magali também não gosta de marcar a realidade boliviana pela dicotomia direita/esquerda que, para ela, são conceitos importados, eurocêntricos. O mundo indígena tem outras referências. Ela explica também que até o começo dos anos 2000 era possível divisar com claridade o que era direita e o que era esquerda, com todo o processo de privatização e tudo mais, mas agora essa linha foi se perdendo. “Tem gente que acha que o governo de Evo Morales era de direita porque ele não cumpriu a agenda indígena, pelo que fez nos territórios, como o caso do TIPNIS”.  

TPNIS é a Terra Indígena Parque Nacional Isiboro-Sécure. Isiboro e Sécure são dois rios dessa área de mais ou menos um milhão de hectares onde habitam quatro nacionalidades:  Tsimanes, Mojeno-Triitários e Yuracarés. O governo de Evo tentou dividir a terra ao meio para abrir uma estrada, provocando muitas manifestações e protestos. 

É por isso que a liderança de Eva Copa, eleita prefeita de El Alto, agora pretende trabalhar numa linha que não reforce essa divisão que hoje existe no país entre os que apoiam o MAS e o movimento anti-MAS. Há mais coisas do que essa dicotomia pretende cristalizar. Daí a ideia de criar um novo partido, capaz de unificar as demandas indígenas, camponesas e populares, para além da proposta social-democrata do MAS. “A esquerda local vê o índio de maneira muito paternalista. Não pretende sua emancipação. Tanto que a cara da pobreza no país ainda é indígena. Por isso sempre surge a ideia de um partido índio. Isso sempre teve na Bolívia: o katarismo, o nacionalismo. E esses movimentos também sempre dialogaram com a esquerda, e com a direita também. Para eles têm que valer as demandas da maioria”.  

Magali critica o que chama de “esquerda pachamamista”, que usa a cultura indígena como um adorno para suas políticas populistas, sem realmente compreender essa cultura e sem um projeto real de escuta das demandas originárias. O próprio vice de Evo Morales, García Linera, que tem um vasto trabalho teórico sobre o povo indígena da Bolívia, é visto como um “pachamamista”, pois nunca avançou de verdade na construção do estado plurinacional que está consolidado na Constituição.  

A agrupação Jallalla, que elegeu Eva Copa, também está no segundo turno para a disputa de governador do departamento de La Paz. O candidato escolhido havia sido o lendário líder aymara Felipe Quispe, de larga trajetória política na luta dos povos originários, mas sua morte acabou colocando na cabeça de chapa o filho, Santos Quispe, que igualmente arrebanhou muitos votos e é um forte adversário do MAS. A campanha tem sido valente, mas é bastante claro que Santos não tem o preparo político que tinha El Malku e isso pode ser decisivo na eleição do dia 11 de abril.  

Essa tensão entre os indígenas (de perfil katarista e nacionalista) e o MAS não é de hoje e cresceu muito quando Evo Morales decidiu passar uma estrada por dentro do Parque Nacional Indígena (TIPNIS), gerando revolta e muitas batalhas de resistência. Não bastasse isso, apesar da origem aymara de Evo, as comunidades muito mais o identificavam com o grupo de cocaleiros/camponeses do que com os grupos de luta indígena. Isso foi sempre um ponto de conflito. Muitas lideranças indígenas passaram a criticar o governo alegando que a proposta Evo/Linera caminhava mais para uma via desenvolvimentista aos moldes da revolução de 1952, do que para um processo de mudança realmente vinculado ao caráter plurinacional com respeito ao modo de viver da população majoritariamente indígena. Garcia Linera também foi criticado por estar fazendo o contrário daquilo que escreveu. 

Felipe Quispe, por exemplo, que chegou a liderar um exército guerrilheiro, o Tupac Katari, nos anos 1990, sempre foi crítico do governo de Evo Morales e era um dos que reivindicavam a necessidade de um partido nascido nas comunidades indígenas e apenas com indígenas. Nesse ponto ele era bem radical, não aceitando que pessoas não-indígenas pudessem ditar a vida das comunidades. Sempre foi tachado de intolerante, radical e até racista, mas ele entendia que qualquer concessão significaria manter o vírus do colonialismo.  

A revolução popular de corte camponês que aconteceu em 1952 já havia mostrado que mesmo um governo de esquerda, como foi o governo revolucionário, não estava preparado para lidar com as demandas indígenas. Na época, a proposta para as comunidades foi uma reforma agrária nos moldes do capitalismo, com a repartição individual da terra, quando a tradição sempre foi de uso coletivo da terra, na tradição do ayllu.  

Um novo partido 

Com a vitória estrondosa de Eva Copa em El Alto, novamente volta a ideia de um partido indígena, de abrangência nacional, capaz de amalgamar as propostas do katarismo e do nacionalismo popular, e isso deve começar a ser costurado. Não se sabe ainda se o grupo de Santos Quispe vai compor essa proposta, ainda que ele – tanto quando seu pai, Felipe  - já tivessem verbalizado essa intenção. O Jallalla os juntou para essa eleição em particular e também pode ser que não seja essa sigla, visto que apresenta problemas por conta de seu fundador.   

O que parece certo, como enfatiza Magali Vianca, é trabalhar contra a polarização MS/anti-MAS e fortalecer as lideranças mais jovens que assomaram desde a guerra da água e a guerra do gás. A população boliviana é de maioria indígena e as demandas das comunidades precisam ser melhor compreendidas e atendidas. “O que nos interessa é gerar projetos políticos que tenham como sujeitos os movimentos indígenas”. 

Magali conta que Eva Copa, por exemplo, não precisa ficar se afirmando como indígena, ou usando adornos indígenas de forma folclórica. Ela é uma aymara e pronto. Maneja de maneira muito segura o discurso popular e não precisa se reivindicar indianista. “Aqui em El Alto somos muito politizados. A senhora que vende refresco na rua discute a política, o estudante, o comerciante e o indígena. Não é algo simbólico, folclórico, é a vida mesma”. Os povos indígenas não querem ser instrumentalizados por nenhum partido que use os adornos indígenas, compartilhe cerimônias, mas siga fazendo política de forma tradicional e não avance nas transformações estruturais.  

“Não trazemos petições culturais. Isso só fortalece o racismo que existe forte no nosso país. Nós queremos atacar as questões econômica e estruturais”, afirma Magali.  

Os indígenas da Bolívia querem discutir suas demandas e avançar na consolidação do estado plurinacional, dando espaço para as singularidades aymara, quechua, guarani e mais 33 outras nacionalidades.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Lá vai o Brasil, descendo a ladeira


 

A verdade é como um esqueleto no armário. Mais dia, menos dia, ela aparece, ainda que seja tarde. É assim que, agora, vai se revelando o que todos sabíamos: o juiz Sérgio Moro, que conduziu o processo contra Luiz Inácio Lula da Silva manipulou, mentiu, agiu ilegalmente e tudo mais. O que era nítido naqueles dias agora ressurge com nova roupagem, visto que são os juízes da Suprema Corte que estão apontando os erros. Ainda assim, as emissoras de televisão, que foram pródigas em condenar o líder petista, comportam-se de maneira muito contida na divulgação dos fatos. O que antes era acompanhado de análises rebuscadas e áudios proibidos, agora aparece como mera notícia, sem maiores explicações. E não poderia ser diferente. A mídia comercial está sempre agarrada ao poder.

O fato é que a farsa montada em Curitiba tirou do páreo o ex-presidente Lula e abriu caminho para a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. A condenação do dirigente petista e a facada falsa foram gasolina no fogo do fascismo que se assanhava. Muito provavelmente tivesse sido Lula o candidato, e vencido, o país não estaria vivendo esse filme de terror, no qual todos os dias morrem mais de três mil pessoas sem que cause qualquer desconforto a não ser na família de quem morreu. Não que Lula fosse a melhor opção, mas certamente enfrentaria a pandemia de outra forma e não estaríamos vivendo esse massacre diário, com mais de 300 mil pessoas perdendo a vida por conta da incompetência e da má-fé.

Chegamos ao segundo ano do mandato de Jair sob um governo eminentemente militar – já há mais de 11 mil milicos nos cargos – e que, a todo o momento, acena com mais e mais endurecimento a tal ponto de quase anunciar um ato-golpe. Os milicos conformam quase 15% dos postos no governo. Dilma teve 2,5% e Temer 4%, só para comparar. Os últimos acontecimentos, com a saída do ministro da Defesa, mais do que uma crise nos quartéis,  mostram que o presidente segue com a rédea firme e não é sem razão que o governo acene com aumento salarial apenas para os militares entre os funcionários públicos. Analistas apontam que a hipermilitarização do governo, incluindo aí as escolas militares que seguem sendo implantadas no país, está carregando o país para um fechamento conservador, ainda que siga com aparência de democracia. Bolsonaro está seguro de que tem os militares sob seu comando, tanto que chama de “meu exército” e não hesitará em endurecer o regime. Até porque segue sem oposição concreta.

A maneira autoritária como está comandando a pandemia, dizendo que não vai fechar nada, que não usa máscara, que não compra vacina e o escambau, sem uma oposição séria, mostra que está bem seguro no cargo e que pode ir apertando a corda. Sabe-se lá até quando.

Enquanto as peças do tabuleiro conservador vão se montando a esquerda partidária fica no silêncio. Não se manifesta, não promove agitação das massas, e o máximo que consegue fazer é mapear candidaturas para 2022. Parece não compreender que pode nem haver eleição e que a batalha está sendo dada agora. Diante do silêncio dos partidos de esquerda, das centrais sindicais e de boa parte dos movimentos sociais, sobra o salve-se quem puder.

Enquanto os quartéis se reorganizam e a presidência se fortalece, os brasileiros seguem morrendo. Até ontem parecia um pesadelo que se chegasse a três mil mortos por dia, agora já vamos caminhando para quatro mil e tudo parece normal. Há quem diga que logo chegaremos a cinco mil mortos por dia e a população segue apática como se tudo fosse designíos de deus e não uma deliberada política de extermínio. O caos na saúde foi uma ação planejada e teve como objetivo justamente fomentar o medo. Um povo com medo fica acuado e quieto. Para o governo importam muito pouco as perdas em vida, afinal, ali, ninguém é coveiro, e tem muita gente no país para manter a máquina do capital funcionando. Logo, está tudo bem.

Bolsonaro segue esticando a corda, sem oposição. O gigante da América do Sul parece um ursinho domesticado e assustadiço. E, enquanto o regime vai endurecendo, nos partidos políticos fala-se nas eleições de 2022 com esperanças. Os últimos acontecimentos envolvendo Lula reacenderam as expectativas sobre uma candidatura do ex-presidente. Ora, nem Lula nem o Brasil são os mesmos de 2018. Essas criaturas vivem como Alice no país das maravilhas. É aterrador.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A televisão, os shows de "realidade" e a eliminação de nós mesmos

Os "irmãos", que se matam por um prêmio

Engana-se quem diz que a televisão perdeu poder. Não é verdade. Ela segue dominando a sala de quase 98% dos brasileiros. Alguns programas podem ter  perdido força, mas o carro-chefe, que é o que o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos chama de “novelização da vida” segue introduzindo pílulas eficazes de ideologia, justamente porque é sistemático e segura a audiência. A população brasileira tem alto índice de analfabetismo, seja o de não saber sequer escrever o nome, seja o funcional, que é aquele que mal consegue ler e muito não consegue entender o que dizem as letras. É por isso que por aqui as gentes engravidam pelo ouvido, como dizia Rubem Alves. Daí o sucesso de usinas ideológicas como o rádio, a televisão e agora o uatizapi. As verdades, e as mentiras, chegam pelo ouvido e por vezes nem mesmo as imagens conseguem provar: “Ah, mas eu ouvi na TV”. Pronto. Está feito.  

O filósofo argentino Enrique Dussel mostra que o mundo ocidental greco/cristão é um mundo que tem se amparado numa ideologia do ódio ao outro, distinto. Desde a Grécia, a máxima que move o mundo é: o ser é, o não-ser não é. Ou seja. Aquele que é igual a mim eu valido como bom, o que me parece distinto eu considero como um não-ser, alguém que pode ser eliminado sem culpa. Afinal, se algo não-é, não existe. E o que é nesse mundo é o rico, o branco, o cristão. Pois, é isso o que tem sido sistematicamente ensinado até hoje. Existem seres que não são. Assim formam-se as discriminações. O ódio ao negro, ao pobre, ao mendigo, ao gay, ao que reclama, ao que reivindica. A indústria cultural tem sido um eficaz braço de propagação dessa “verdade”. E a novelização da vida é o canal por onde essa ideia se fortalece. Oferece-se aos espectadores uma história na qual estão bem demarcados esses personagens e a trama vai tratando de consolidar o paradigma. Para isso existem as novelas, o jornalismo, os programas de auditório, enfim, quase tudo. 

A proposta da novelização da vida real embutida nos chamados “reality shows” surgiu como mais uma pílula bastante eficiente para disseminar essa verdade, e mais, tem servido para reforçar a necessidade de eliminar aquilo que nos parece ruim. Digo parece porque, na verdade, dentro dessas propostas, no geral as pessoas acabam assumindo máscaras, seja para se defender, seja para suportar. Então, o que aparece na tela pode não ser a verdade. Tudo é uma grande e bem formulada mentira que, inclusive, conta a ajuda externa, da famosa “edição”. Isso significa que o diretor do programa, que assume a figura de um deus, pode manipular a seu prazer as falas, as situações, as expressões. Nada ali é verdade, exatamente como nas novelas ou nos programas de auditório.  

Mas então, o que tem de verdade nisso tudo? Sob meu ponto de vista, duas coisas. A primeira delas é a domesticação. Daí a terrível humilhação que as pessoas sofrem para disputar um prêmio. Pode-se dizer que elas estão ali por sua vontade. Bom, isso é uma meia verdade. Elas topam participar, mas cabe perguntar por que? Desconhecidos querem seus minutos de fama, porque a sociedade diz que tu é um não-ser se tu não se destacas. Artistas em decadência ou em subida também aceitam porque precisam alavancar as carreiras e o sistema os obriga a essas situações. Pensem nos programa de auditório que levam artistas que são obrigados a comer bicho, comidas estragadas ou a entrarem em câmaras com baratas ou outras coisas abjetas? O fazem por querer? Elas fazem porque é preciso e porque não podem dizer não. E essa é uma lição importante do sistema: para vencer há que se sujeitar. Recursar-se, rebelar-se, pode significar o retorno ao ostracismo. Isso acontece desde a emissora de rádio em Carapicuíba até a indústria de Hollywood. 

A outra lição é a validação da eliminação do outro. Aquele que nos incomoda, que nos desaloja, que destoa da nossa plataforma de certezas, é colocado no patíbulo para que o eliminemos. Assim como um dia o foram as bruxas, os loucos, os doentes, os estrangeiros, os escravizados. A novelização da vida, a criação de inimigos ou a confirmação de preconceitos, faz com que numa noite de verão, milhões de pessoas peguem seus telefones e eliminem alguém. Observem o verbo: eliminar. Retirar do cenário, matar, excluir, sacar fora. Eliminar é tirar de cena para sempre. Está aí embutida outra preciosa lição: quando o sistema te diz para eliminar alguém, tu vais lá e elimina. Simples e singelo. Não importa se toda a trama foi criada, inventada, editada. Tu vais lá, tomada pela paixão do ódio e elimina. Mas, observem que nessa novela ninguém elimina o patrão, o chefe, o empresário. Não, os eliminados são exatamente como nós, as pessoas da vida real, os trabalhadores. Somos nós eliminando a nós mesmos. Os que destoam, os que reclamam, os que ousam ser ousados, os desafiadores, ou mesmo os que são muito mansos nesse mundo de vale-tudo.    

Enrique Dussel, aquele que mostrou como o mundo ocidental cria uma mentira que se sustenta por milênios, de que o ser é e o não-ser não é, desmonta essa farsa ao propor uma nova forma de ver o mundo. Segundo ele, é possível mudar completamente a realidade a partir de outra máxima: o ser é, o não-ser é real. E o que ele quer dizer com essa proposição filosófica. Que mesmo aqueles que são considerados não-seres pelo sistema, pelo mundo, pela maioria das gentes como os negros, os pobres, os inválidos, os doentes, os gays etc... eles existem, são reais, logo, não podem ser simplesmente eliminados. Precisam ser conhecidos, respeitados, ouvidos, vistos. Isso significa que confrontados com seres que nos desalojam as certezas, os medos, os preconceitos, é preciso um tempo para conhecer de verdade. Talvez não sejam maus, talvez não sejam perigosos, talvez não sejam feios, talvez não sejam repugnantes. Ah, mas esse é um mundo de Poliana. Não. Esse é um mundo de pessoas capazes de entender por seus próprios meios. Um mundo no qual os inimigos reais podem aparecer com claridade, os vilões podem ser reconhecidos, os malvados podem ser vistos apesar dos seus carrões ou roupas caras. E aí sim, reconhecidos os verdadeiros inimigos, combatê-los, com todas as armas, eliminando-os se for necessário.  

Assim que não tripudiemos a televisão, essa usina de mentiras, nem subestimemos programas como esse malfadado Big Brother. Porque eles são faculdades da manipulação, mestrado e doutorado das gentes na formação do ódio a si mesmos, à sua classe, trabalhadora, real. Por isso que a luta deve ser pela tomada dos meios de comunicação e não pela sua “democratização”. Porque se o sistema aceitar colocar lá dentro os pretos, os pobres, os gays, ele os tornará vilões. E eles serão eliminados.  

E como tomaremos os meios? Na paz, no diálogo, através da Câmara dos Deputados? Infelizmente não. Isso só acontecerá com a luta mesmo, a revolução. Como será essa revolução cabe a nós definir. Mas só a derrubada total dessas estruturas de poder e mentira poderá mudar as coisas. Não sendo assim, seguiremos enxugando gelo, discutindo sazonalmente os personagens que vão passando por essas usinas, patéticos e tristes personagens construídos para serem odiados, desprezados e eliminados. 

Juntos e em luta, podemos fazer com que ninguém nesse mundo precise submeter-se à humilhação para fazer parte do banquete. Porque no mundo sonhado, o socialista, comunista, ninguém estará sob a mesa, esperando migalhas. Todos estarão sentados, comendo, bebendo, e sendo felizes.    



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A pampa



Das imagens que povoam a minha vida uma delas é a da pampa gaúcha. Todos os anos a família saía de São Borja para Uruguaiana nas férias, para visitar os avós. Primeiro era a longa e maravilhosa viagem de trem.  O campo passando na janela, o balanço do vagão, o rec-rec-rec das rodas da Maria Fumaça nos trilhos. Lá fora, os nhandus correndo, tentando seguir o trem, as saracuras nos banhados ao longo dos trilhos, os tarumãs com sua sombra bendita para o gado, as ovelhas e os cavalos livres pelas campinas e, vez em quando, algum paysano tocando uma pequena tropa. E lá longe, o horizonte. O mundo parecia sem fim. 

Depois, o pai comprou um Fusca e fazíamos a viagem de carro. A estrada era de chão e demorava chegar. Por outro lado, as coisas podiam ser vistas com mais vagar. Às vezes o pai parava para a gente ver os nhandus bem de perto e ao longo da estrada brotavam os banhados repletos de vida. Fazíamos uma parada em Itaqui para descansar e comer sanduiche na rodoviária. Era o melhor sanduíche do mundo, por isso a parada era obrigatória. Enchíamos a pança e com mais um monte deles na sacola seguíamos o caminho até chegar à ponte do Ibicuí onde também fazíamos parada apenas para olhar, embevecidos, aquela imensa estrutura de ferro construída pelos ingleses ainda no século 19. Nela só podia passar um carro por vez, e então ficávamos esperando nossa hora, enquanto a mãe contava histórias sobre o rio. Era um momento mágico.

Depois de cruzar a ponte, mais um monte de tempo até chegar à Uruguaiana, sentindo todos aqueles sentimentos que a pampa traz. Aquela era a viagem mais linda. Passávamos o natal com os pais do pai na cidade e depois seguíamos para o Japeju, na casa dos pais da mãe.  Ali o vô plantava arroz e os dias se passavam no cuidado com a terra. Cedinho ele pegava o rumo da plantação onde ia cuidar da bomba d´água e manejar as taipas. Eu ia de apêndice, ouvindo suas piadas de sapo e pulando nas macegas. Voltava para casa com as pernas cheias de chamichungas. Havia noites que ele pegava a lata de minhoca e ia pescar no Ibicuí. Metida, eu ia com ele. Amava demais aquele vô. E lá, na beira do rio, ficávamos pela madrugada, apenas com uma fogueirinha feita numa lata de banha e com o vô contando causos de assombração. Certa noite, enquanto vigiava a linha, vi passar uma perna... era seguramente uma perna humana, via-se o pé, os dedos. O Vô estava do meu lado e também viu. 

- Que é aquilo, vô? 

- Deve ser assombração - disse, achando que não iria me assustar.

Nunca soubemos se era gente ou não, mas que era uma perna, era, e aquele foi um causo que nos seguiu a vida toda nos saraus à luz do lampião de gás, que era o que iluminava a casinha de madeira no meio do nada, alaranjada como a aurora. 

Quando as férias acabavam fazíamos a viagem de volta. Tudo outra vez. A pampa e suas maravilhas, Itaqui e seu sanduíche, os nhandus, as saracuras, os paysanos, o céu azul, o horizonte. Chegávamos à São Borja já sonhando com o fim do ano, para novas aventuras... 

Ah, essa pampa que ainda vive em mim!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Os fugitivos do capital


Fronteira do Brasil com o Peru - polícia peruana impede passagem dos que fogem do Brasil por medo da pandemia que está incontrolável

A cena de um grupo de haitianos/venezuelanos/brasileiros tentando cruzar a fronteira do Peru, desde o Acre, é de partir o coração. Dezenas deles, que não encontrando formas de sobreviver no Brasil, decidem partir para outro ponto do globo, sendo impedidos, barrados, escorraçados. Seu destino parece ser a fuga permanente. Os haitianos, maioria no grupo, saíram do Haiti, onde desde há décadas o império estadunidense estende seus tentáculos, seja nas ditaduras sanguinárias, seja nos golpes disfarçados - como a tal ajuda humanitária com os cascos azuis – seja em mais uma tentativa de perpetuação no poder, como é o caso agora do último presidente, Jovenel Moïse. O Haiti é uma ferida aberta de tormentos e dores. E por isso os jovens fogem de lá, buscando um espaço para viver em paz. Mas, ao que parece, por mais que se desloquem, não encontram guarida.  

Aqui na capital catarinense também podemos vê-los, nas suas correrias no centro da cidade, com enormes sacos nas costas, tentando vender produtos nas ruas, sempre acossados e humilhados  pelos fiscais da prefeitura. São rechaçados pelos comerciantes que não lhes dão emprego e também lhes impedem de sobreviver com as vendas informais. Podemos vê-los nas comunidades empobrecidas, sendo enganados, sofrendo agressões e até morrendo. É um sofrer sem fim. Poucos conseguem escapar deste destino. 

Migrantes pobres são sempre vistos como um atrapalho, como uma concorrência para os parcos empregos locais, como uma sujeira, um encosto. Se são negros, é pior. Porque aí se embute também o racismo estrutural típico das nossas sociedades escravagistas e dependentes. Os haitianos padecem, assim como padecem os migrantes dos mais diversos países da África, que atravessam oceanos fugindo das guerras, da miséria, da morte.  

Mas não são apenas os negros que vivem esse drama da fuga permanente. Na América Central, desde o ano de 2019, as famílias e principalmente os jovens, inauguraram uma nova forma de migrar. Não mais individualmente, enfrentando sozinhos os coyotes (personagens que cobram para atravessa-los na fronteira), mas em gigantescas colunas que chegam a juntar mais de quatro mil pessoas. Milhares de corpos em fuga, da violência explícita, da fome, de governos tiranos. Atravessam a pé os países do braço que divide as Américas, no rumo do sonhado paraíso, representado pelos Estados Unidos. E, como os haitianos e africanos de todas as nações, são barrados pela polícia, agredidos, mortos. Muitas mães perdem seus filhos, homens perdem esposas, pais se desencontram. Os que conseguem furar os bloqueios vão enfrentar lá dentro do pseudo-paraíso o racismo, a miséria, a violência, tudo igual.  

Olhando bem, vê-se que o capitalismo é mesmo um estado de guerra permanente, em alguns lugares com os tanques e as bombas, em outros com o manejo da economia e o roubo das riquezas autóctones. Tudo o que esse sistema de produção toca fica imediatamente sujo de sangue. Para que 1% da população mundial siga acumulando riqueza sem fim, a maioria precisa viver nesse estado de fuga perpétua, seja migrando para outros países, seja migrando dentro do próprio país. Vagar de um lado para outro em busca de trabalho é a sina. E toca sucumbir no forno da exploração. 

O Brasil sempre foi mais um espaço de chegada, mas com a ascensão do governo ultraconservador – com rasgos fascistas  - de Jair Bolsonaro começa a ser também um espaço de fuga. Os que têm condições de garantir a vida em outro país pegam suas trouxas e se mandam. Os que não têm, sonham com a migração. Não tem sido fácil viver nesse país/continente, onde o governo central aposta na morte, liberando armas para os ricos, abandonando os empobrecidos à própria sorte em plena pandemia e destruindo tudo o que é público, para que os trabalhadores fiquem à mercê do privado. É a hora do cidadão-cliente, figura criada pelo economista Bresser Pereira, do nada saudoso governo de Fernando Henrique Cardoso. Cidadão/cliente, aquele que para ter acesso ao que deveria ser um bem público - como água, luz, saúde, educação - tem de pagar caro, muito caro.  

Não bastasse isso, os brasileiros precisam enfrentar seus irmãos de até ontem, que hoje se juntam às hostes do nefasto e começam a construir a estrada que levará a uma inevitável guerra. Os anjos (eles) contra os demônios (nós). Só que não. Nem eles são anjos, nem nós os demônios. Mas o discurso formatado desde os grupos de uatizapi - alimentados por grandes empresas disparadoras - insuflam pautas fascistas que reforçam preconceitos e discriminações. Um recente decreto do presidente permite que os brasileiros possam ter em casa até seis armas, num claro incentivo a formação de um exército pronto para garantir novas atrocidades do governo. Óbvio que a massa trabalhadora não terá a opção de se armar também, pois sua prioridade será comer e não comprar armas, deixando assim esse “privilégio” para os mais abastados. Isso significa que num possível golpe ou confronto, mais uma vez os trabalhadores ficarão em desvantagem.   

O abandono dos empobrecidos no caso da pandemia já provoca fugas. Cidades em colapso, hospitais sem condições de prover atendimento, mortes desnecessárias. Moradores das fronteiras, por exemplo, procuram os países vizinhos para, pelo menos garantirem vacina, já que aqui o governo cria barreiras para que elas demorem e não cheguem. E, sendo pobres, são também rechaçados como acontece com os demais migrantes. É um quadro de horror.  

E assim, em todo o planeta, os trabalhadores se movem em desespero tentando manter a vida, enquanto que os que detêm o capital ficam cada dia mais ricos, criminosamente acumulando muito mais riqueza nesses tempos de terror.  

E ainda há quem tenha a cara de pau de dizer que o capitalismo é bom e que a ideia de comunismo precisa ser varrida do mundo. Pois para quem não sabe, no comunismo, as riquezas seriam comuns e repartidas conforme a necessidade. Um vislumbre desse mundo pode ser visto em Cuba, que ainda nem é comunista embora tente chegar lá. Agora, na pandemia, seu povo está protegido e é o único país do mundo – dos que não estão entre os mais ricos - que desenvolveu uma vacina própria. Lá, apesar da pobreza – causada por um criminoso bloqueio dos Estados Unidos – existe a melhor educação, a melhor saúde, moradia para todos, segurança e ninguém morre de fome. Sim, há quem queira fugir dali em busca do sonho do consumo insuflado pelo capitalismo. Mas, são poucos. Se olharem bem, verão que os fugitivos, na sua mais absoluta maioria, são fugitivos do capital.   

Logo, é contra ele que temos de travar longa e feroz batalha. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Os mistérios do banho



A água é um tabu para os velhinhos com demência. Falar a palavra “banho” desencadeia reações desesperadas. O pai vai logo tratando de escapar para longe de mim, brabo, falando sem parar. É sempre uma novela mexicana essa hora. Claro que quando a coisa fica muito estressante, eu deixo pra lá. Aprendi a dar o velho banho de gato, com meus paninhos mergulhados em alfazema. E tudo tem de ser feito por etapas. Primeiro a cara, depois os braços, bem mais tarde o peito e as costas, as pernas e só por último as partes íntimas. Isso nos ocupa um dia inteiro. 

Outro dia lendo um texto antigo do Ruben Alves, ele contava sobre a história do cara que foi na casa da namorada e pensou estar comendo couve-flor. Estava tudo indo muito bem até que ela disse que aquilo não era couve-flor, mas sim miolos. Foi o suficiente para o cara correr para o banheiro vomitar. Aí o querido poeta conclui: nós engravidamos pelo ouvido. O ouvido escuta e a gente sente. Hummm.. Fiquei matutando... Decidi então não mais usar a palavra “banho”.  

De manhã, quando ele acorda, ainda meio zonzo do sono, eu vou encaminhando para o box, falando um monte de coisa nada a ver. “Mas, que bonito estás” “dormiu bem, meu querido”, e assim por diante até chegar no chuveiro. E lá, jamais abro o chuveiro, evitando que a água o surpreenda. Uso o chuveirinho para ir familiarizando com a água aos pouquinhos.  

- Olha, vamos lavar o pé. Tá sentindo o quentinho? ...  e ele vai aceitando... 

Aí vou subindo a duchinha e quando molho a cueca, já vou tratando de tirar... Depois é só sacar a camisa e pronto... Lá está o banho... Demora, mas demora bem menos do que o banho de gato... Ao final ele já está gostando da água quentinha e preciso insistir para que ele saia do box.  

Também não torturo ele com banho todo dia, não. Ele está sempre bem limpinho... Cada vez que faz xixi ou cocô e dou uma geral com os lencinhos umedecidos, o óleo de bebê e a lavanda. E se ele fica meio fedorento às vezes, tudo bem também, faz parte. O importante é não causar sofrimento desnecessário. Quando pá, lá vem outro banho, e assim vamos.  

Agora só quero ver qual será a estratégia para o inverno... aff 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Brasil: já estivemos no inferno


Presidente Collor e a corrida maluca

Talvez essa nova geração não conheça, mas já estivemos no inferno. Muitas vezes. E só para lembrar dos tempos de agora podemos falar da ditadura militar. Dias duros, de mortes, torturas e desaparições. Também passamos por um longo período de “distensão”, saindo do regime dos milicos para novamente passar às mãos da boa e velha elite civil. Não foi fácil cruzar o umbral da ditadura. As lutas foram grandiosas e massivas: batalha pela anistia, batalha pelas diretas. Quantas lágrimas de frustração e ódio vivemos depois dos gigantescos comícios e atos que mobilizaram multidões, e que se esfumaçaram numa decisão de cúpula, para uma eleição indireta? Depois de tantos anos de dor, a tal democracia vinha tutelada, pelas mãos de um congresso infame. E nos tocou Tancredo Neves como presidente, um velhinho simpático, mas de passado claro sobre quem e o que defendia. Mas, o diabo ainda queria mais, e o Tancredo morreu, ou foi morrido. E quem assumiu a presidência? Nada menos do que o príncipe do Maranhão, José Sarney e nós tivemos de aguentar seus marimbondos de fogo por cinco anos inteiros.  

Com Sarney nós passamos pelo Plano Cruzado, de mudança de moeda, num contexto de inflação gigante. Ele congelou o preço das coisas e aumentou os salários em 15%. A euforia era grande entre a população, mas logo depois veio a paulada, e o Plano Cruzado II reajustou a gasolina em 60%, a luz em 120% e as demais mercadorias em mais de 100%. A inflação disparou outra vez, chegando a 1973% no final do mandato. É, dá pra crer? 1973%. Quatro dígitos. Ainda no meio desse turbilhão Sarney chamou a tão sonhada Constituinte, que acabou sendo mais um balde de água fria, pois ela não foi exclusiva como  queria a maioria. Nova derrota para o movimento social. Ainda assim a Carta que brotou do congresso acabou sendo bastante progressista, em comparação com o inferno da ditadura militar.  E foi essa aparente “vitória” que preparou o país para seu momento mais esperado: a eleição direta para presidente.  

Era o ano de 1989. Havia mobilização em todo o país. A Central Única dos Trabalhadores estava no auge, organizando os trabalhadores e o Partido dos Trabalhadores parecia amalgamar todos os desejos das gentes. Lula era o candidato e tudo indicava que o sol vermelho iria iluminar a nação. Quem viveu aqueles dias, lembra. A profusão de militantes, o avanço das bandeiras, a petezada nas ruas, fazendo bazar, distribuindo panfletos. Uma esperança se agigantava. Então, da distante Alagoas, das profundezas da casa grande e do engenho, assoma um jovenzinho que iria aparecer como o novo herói nacional: um caçador de marajás. Fernando Collor de Mello. Os marajás, é claro, eram os inimigos de sempre da elite selvagem, os funcionários públicos. Foi criada uma campanha nacional de denúncias contra os trabalhadores que eram acusados de salários altíssimos, vivendo como marajás. Globo, Veja e Isto É cavoucavam histórias de trabalhadores públicos milionários e forjavam o ódio da população contra os “privilegiados”. E havia? Sim, havia, como há até hoje. Alguns poucos, muito poucos. Mas, a já conhecida manipulação midiática agiu com todas as fichas. Não iria deixar um barbudo comunista (?) tomar o poder. Collor, empunhando a espada da justiça, virou o candidato da classe dominante e a primeira eleição direta, depois de mais de duas décadas de ditadura e um governo de transição, foi vencida pelo valente governador alagoano, que iria varrer do país a corrupção. Sim, essa história da carochinha existe faz tempo. Não é uma pauta nova.  

Naqueles dias nós como nação atravessamos mais um umbral do inferno. Com Collor na presidência veio o famoso ajuste neoliberal. O Brasil seria como o Chile, o México e outros tantos países da América Latina que estavam se livrando do “peso” de tudo o que era público. A privatização salvaria o país. E, de novo, a máquina de ideologia midiática  agiu com força. E, assim, como hoje, havia o cercadinho em Brasília onde os admiradores do novo presidente jovial e atlético, iam vê-lo correr, todas as manhãs. Era o seu ritual. Saía de manhã, sempre com uma camiseta com dizeres motivacionais, e fazia sua corrida. Atrás dele corria a imprensa babosa, e no trajeto, as pessoas gritavam e sonhavam com uma foto com o herdeiro da coroa. Quando a corrida acabava, ele abria a boca para os microfones e vociferava contra o serviço público, contra os trabalhadores, contra as empresas públicas e atacava o Congresso Nacional. Sim, esse roteiro já vivemos.  

Mas, no campo da economia, o atleta logo disse a que veio. Lançou o Plano Collor, congelando os preços outra vez. E enquanto a mídia festejava suas corridas, ele confiscou a poupança da população. Sim. A poupança. Toda a gente que tinha dinheiro guardado na poupança ficou sem ele. Não podia sacar. Não confiscou investimentos na bolsa ou em outras operações que envolviam mais dinheiro. Não. Roubou a grana dos pobres. E não satisfeito, ainda confiscou valores que estavam nas contas-correntes. Então imaginem o que foi o desespero das pessoas, no geral classe média baixa, tendo perdido todos os seus recursos. Foi um choque. Naqueles dias o Paulo Guedes era uma mulher: a ministra Zélia Cardoso de Mello. Ela justificava o confisco como necessário para equilibrar as contas. Vamos salvar o país, e que seja o povo mais pobre a pagar a conta. Óbvio. Nunca antes a população tinha pago um preço tão alto e o caçador de marajás mostrava que os marajás eram os únicos que não seriam caçados. Aqueles foram tempos tenebrosos. Gente se matou, famílias inteiras foram à bancarrota, negócios se esfumaçaram.  

No terceiro ano de governo de Collor, a própria elite dominante, cansada das ditas “loucuras” do presidente, decidiu que tinha de derrubá-lo. Assim, aproveitando o desespero da população que já se levantava em rebeldia, passou a apoiar as manifestações dos “caras pintadas”, movimento da juventude que pintava o rosto de verde e amarelo nos protestos contra Collor. Sim, nós da esquerda já usamos as cores da nossa bandeira para protestos massivos e foi bonito.  Até a rede Globo entrou na luta, mostrando as grandes manifestações e incentivando a participação. Por fim, Collor foi denunciado ao Congresso por ter usado dinheiro público para fazer um jardim na casa da mãe e o congresso, acossado pelas ruas,  decidiu pelo impeachment. Sim, não foi por 200 mil mortes, mas por conta de um jardim e de uma Elba.  

A partir daí o que se seguiu foi uma sequência de presidentes bem comportados e alinhados com os desejos da classe dominante. Fazendo tudo pelos mais ricos e tirando tudo o que podiam dos mais pobres. Passamos também por governos petistas que, apesar de terem atuado com mais eficácia na redução de danos para os mais empobrecidos, nunca avançaram numa pauta de mudanças estruturais. Pois é, temos vivido o inferno, nós, os trabalhadores, parece que desde sempre.  

Assim o que estamos passando agora, com o novo dirigente da nação, não é novidade. A história se repete, como farsa, em decibéis mais elevados. De novo as bravatas, de novo os inimigos internos, de novo o que vai nos salvar da corrupção, de novo o que (aparentemente) briga com os deputados, de novo o presidente atleta que faz flexões, corre, anda a cavalo e resfolega. De novo, a imprensa baba-ovo correndo atrás. De novo o cercadinho. De novo, um povo apático, porque tinha esperanças.  

E bueno, o certo é que a história não é um terminal de ponto final. Ela caminha sempre para frente. Nós já conhecemos bem as instâncias do inferno, nós já nos enfrentamos com o diabo centenas de vezes e ainda que a custo alto, temos vencido. O belzebu dos nossos dias já é conhecido e as veredas da resistência se perfilam. Não há mal que sempre dure. Uma greve aqui, outra ali, uma pequena manifestação acolá, a coisa vai crescendo porque é a vida material que define o rumo. A vida encontra o caminho para viver. A maioria escolhe não aceitar um governo que traz a morte. Isso a história da humanidade nos mostra, está tudo aí, nos livros. Todos os tiranos caem, os maus governos se acabam e a luta dos povos não tem fim.  

Portanto, não há que desesperar. Há que fazer o que sempre fizemos. Resistir, organizar e lutar. , como diz o poeta mineiro: “a canção sabemos de cor. Só nos resta aprender”.  

Aguarda aí, diabo da vez. Estamos em caminhada.