segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Investir na Ciência Nacional



O filósofo Álvaro Vieira Pinto, no seu livro "O conceito de Tecnologia" faz uma profunda discussão sobre esse tema e sobre os países ditos subdesenvolvidos que, segundo ele, precisam atuar no sentido de caminhar com as próprias pernas e desenvolver a sua ciência com os recursos que têm. Isso não significa ficar fechado para o conhecimento gerado fora, mas toda a tecnologia importada não pode vir em pacote cerrado, sem que os cientistas nacionais saibam ou possam intervir.

Diz ele sobre isso: "A tecnologia de origem externa serve de instrumento para a aceleração do desenvolvimento da nação retardada unicamente se for uma aquisição de livre escolha por parte de seu centro soberano de poder político, que objetiva os propósitos da autêntica consciência de si, a saber, a de suas massas trabalhadoras. O poder de decisão na escolha, manutenção e direção da tecnologia não só quanto à origem mas igualmente quanto à natureza dela constitui o traço mais significativo para comprovar  a posse da autoconsciência pelo país subdesenvolvido".

Isso é o faz Cuba, por exemplo, que está bloqueada pelos Estados Unidos, impedida de negociar com muitos países. Premida pela necessidade a ilha decidiu investir na ciência e na busca de saídas locais. Ainda assim manda seus cientistas para fora para estudar, aprender e depois, na volta, criar. Isso é soberania. Por isso Cuba tem a sua própria vacina hoje, quando as demais vacinas só existem nos países mais ricos e desenvolvidos. Todos os outros países terão de comprar a vacina desses centros.

No Brasil, a duras penas, temos o Instituto Butantan (instituição pública estadual), a Fiocruz (instituição pública federal) e outras pequenas ilhas nas universidades públicas onde a ciência pode se fazer. Mas, tudo sempre é muito sofrido. Os profissionais mal pagos, os recursos incertos, a precariedade. Cada dia uma batalha para se manter. E, agora, com esse comando genocida, tendo ainda de enfrentar o próprio governo. Não é fácil.

Ainda assim esses trabalhadores da ciência nacional conseguiram, a partir da tecnologia chinesa, desenvolver aqui a vacina contra o coronavírus. Um trabalho quase heroico, diante de tantos percalços, desafios e guerras políticas. Por isso, é para essa gente que devemos agradecer. Não fosse o fato de que permaneceram no Brasil, resistiram nas condições mais duras, e seguiram trabalhando nas instituições públicas provavelmente ainda não teríamos a vacina, visto que o governo tenta atrasar ao máximo a imunização.

Ainda vai demorar para que sejamos uma nação soberana, tal qual Cuba, e enquanto isso não é construído pelo povo em luta, há que se dizer obrigado aos homens e mulheres - desde os pesquisadores até os faxineiros - destas instituições públicas que conseguiram ontem oferecer a vacina aos brasileiros. Queria muita poder saber o nome de cada um , de cada uma, para registrar na memória. Trabalhadores públicos, cientistas comprometidos com a nação, trabalhadores privados cumprindo seu turno apesar dos riscos, todos e todas que tornaram isso possível.

Obrigada pessoal do Instituto Butantan, obrigada pessoal da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Por causa de vocês, nós, os que ainda sobrevivemos, temos uma chance.

Sabemos que agora inicia outra batalha para a distribuição das vacinas. Muitos obstáculos serão colocados. A nós, os de sempre, restará a luta para que as doses cheguem logo e sejam aplicadas. Cada dia uma luta nova. Seguimos, P´alante!



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Brasil: não é incompetência, é plano



Quem acompanha a carreira do homem que hoje está na presidência do Brasil sabe: ele é isso aí. Durante toda sua medíocre vida parlamentar ele esteve ancorado na ignorância, no ódio, na intolerância, na sede de sangue. Não é sem razão que seu ídolo maior é um dos mais nefastos torturadores da ditadura militar. Falando sobre a ditadura ele afirmava: “Matou só 30 mil, tinha que ter matado mais”, ou “Não devia ter só torturado, tinha que ter matado”. Tirando isso, tema que domina com maestria, sobre o demais é sempre uma ladainha de burrice e preconceito. Seu mundo é tão pequeno que suas ideias sobre ele caberiam em algumas linhas de papel. É o receptáculo perfeito para servir de gerente sem alma do capital. Por isso, quando sua presença foi ganhando corpo em uma camada igualmente ignorante da população, ele passou a ser notado pela elite dominante no país. 

Naqueles dias, os partidos políticos amargavam grande repúdio por parte dos brasileiros. A direita tradicional havia perdido força e o Partido dos Trabalhadores fraudava as esperanças dos que acreditavam ser possível um passo mais à esquerda. Cenário perfeito para o azarão. E foi assim que a criatura saiu da marca dos 3% para ganhar as eleições em 2018. Não foi um raio no céu azul. Foi a consequência dos equívocos políticos de quem deveria ter formado as gentes e mantido a população organizada para alavancar mudanças estruturais.  

Correndo por fora da mídia comercial, aproveitando-se das novas redes comunicacionais, a criatura foi crescendo. Expressava o sentimento de muita gente que havia se mantido no silêncio, mas que alimentava dentro de si horrores semelhantes. Assim, bastou criar um inimigo plausível: os comunistas (já bem conhecidos por serem comedores de criancinhas) e pronto. Fervia o caldo da desgraça. A lógica empregada pela campanha bolsonarista não era novidade. Já tinha sido empregada na chamada “Primavera Árabe” que destruiu parte do Oriente. Mentiras, simulações, ampliação do medo, reforço dos ódios raciais e preconceitos de todo o tipo, aliado ao fundamentalismo religioso construído durante décadas pelas chamadas igrejas neopentecostais.  

Assim, enquanto a criatura bradava contra a mídia, o sistema e “tudo isso que está aí”, a esquerda brasileira, já sem dentes para morder, trabalhava com propostas palatáveis para a classe média que havia crescido no país, mas que se faziam incompreensíveis para uma camada gigante da população. Acabou perdendo a classe média, que se aliou ao discurso ultraconservador com o intuito de manter privilégios e perdeu a massa de trabalhadores que queria mudanças, qualquer mudança. O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas levou a mídia comercial a olhar com cuidado para ele, e os discursos televisivos foram mudando. Era uma boa oportunidade de se livrarem do PT que, apesar de ser muito mais liberal do que esquerda, trazia em si a simbologia da esquerda. Assim, o mesmo Bonner que hoje faz discursinho contra Bolsonaro é o mesmo que massacrou os candidatos da esquerda liberal, e pisou miudinho com Bolsonaro nas famosas entrevistas do Jornal Nacional.  

E assim, chegamos ao horror dos nossos dias. Eleito para ser o coveiro das aspirações mais à esquerda, Bolsonaro foi apoiado pela direita brasileira esfacelada, pela mídia comercial, pelas igrejas sedentas de grana, e pela camada da população que mantinha viva em si toda série de ilusões acerca da ordem, progresso e crescimento econômico do tempo dos militares. Ele seria o condutor da destruição da “bagunça” petista.  

Por isso não há surpresas na política implementada pelo grupo bolsonarista. Tudo que prometeu, está cumprindo. Militares no governo (mais de oito mil em cargos), mão dura contra a dita esquerda, destruição dos serviços públicos que, segundo eles, só servem para cabide empregos dos esquerdistas, mais poder para as forças de segurança (para garantir a ordem), entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros (que são mais competentes e trarão o progresso) e muito circo, para manter a massa animada. Vejam que não passa um dia sem que esse governo faça alguma aglomeração. A mobilização do grupo de apoio é constante, tanto física quanto virtualmente. Os grupos de uatizapi são eficazes e velozes. Qualquer declaração contra o presidente é imediatamente solapada com centenas de postagens de contrainformação.  

Colar a figura do presidente à rede de “heróis mundiais” enviados por Deus é a estratégia perfeita. Junto com Donald Trump ele comanda um aguerrido grupo de lutadores que se uniu para enfrentar e destruir os pedófilos, abortistas, gayzistas e comunistas que querem destruir o mundo. Essas informações são repassadas nas igrejas aliadas, nas famílias, nas redes. É um universo paralelo que se multiplica dia a dia sem que se dê a devida atenção.  

A chegada da pandemia é vista como um “castigo divino” aplicado por conta de o país ter permitido um governo de comunistas (no caso, o PT, embora o partido não seja comunista). Agora, há que limpar esse mundo que foi violado pela mancha vermelha. Então, daí a necessidade dos cordeiros imolados. Os escolhidos, que tomarem ivermectina e cloroquina, serão salvos. Não importa que a vida real esteja mostrando que aqueles que fizeram o tal tratamento precoce estão morrendo também. Eles deviam ter algum pecado. Os justos não, esses serão salvos. A prova viva é o próprio presidente que pegou o vírus e está vivinho. Isso basta.  

E enquanto os “pecadores” caem como moscas nos hospitais públicos sem pessoal, sem equipamentos, sem insumos e até sem salários, os justos avançam. Hoje, quando a cidade de Manaus vive o horror de presenciar a morte por asfixia de pacientes por conta da falta de oxigênio, os grupos bolsonarista espalham a boa nova da vitória final que virá com os exércitos de Donald Trump no dia 20 próximo. A “Operação Tormenta” varrerá do mundo os comunistas e impedirá, inclusive, que sejam produzidas as vacinas feitas com fetos humanos, que eles tentam obrigar o mundo a tomar. Uma vacina que inoculará um chip capaz de tornar a pessoa comunista ou quem sabe, um jacaré.   

A batalha comunicacional neste momento dá vitória folgada aos bolsonaristas. Ela tem uma eficácia extraordinária a tal ponto de as pessoas não se emocionarem para nada com as mais de mil mortes por dia no país, e mesmo o caos em Manaus, quando as vidas se extinguem, sufocadas, sem ar, não provoca maiores emoções. Pelo contrário. A corrente informativa nos grupos espalha a seguinte informação: o governo federal mandou muito dinheiro para o Amazonas, mas os governantes de lá desviaram para tentar destruir o presidente. A culpa sempre é de outro. 

A contraofensiva deste tipo de informação parece não encontrar espaço. As palavras emocionadas de William Bonner no Jornal Nacional só provocam risos de mofa. O presidente disse que não é para acreditar na Globo. E ninguém acredita. Ponto final. E a esquerda tirou como estratégia bradar o “Fora Bolsonaro” como se a vontade expressa nas redes pudesse se tornar potência sem uma ação organizativa real. Não pode.  

No meio do caos, com as mortes se multiplicando e o país sendo assaltado à luz do dia, entidades gigantes como as Centrais Sindicais, os Partidos Políticos, que congregam milhares de pessoas, estão completamente paralisados. Nada além de “lives” na plataforma do grande irmão facebook.  

Hoje é Manaus, amanhã pode ser qualquer outra cidade, mas a responsabilidade parece não colar nas figuras do poder. O que voga é a máxima religiosa: “milhões cairão a tua esquerda, milhões à direita, mas tu, que crês, não será atingido”. O que fica vivo acredita que deu certo e o que morre não tem mais o que pensar. Então tá tudo certo.  

O fato é que a pandemia só potencializou o desmonte, o crime. E cada um que ajudou a colocar no poder os que hoje nadam no sangue é responsável. Nenhum esquecimento e nenhum perdão. Não é só o presidente – esse é só o gerente do processo. É a mídia, são as igrejas da prosperidade, são os deputados federais, os senadores, os juízes da Suprema Corte, os empresários, as gentes “de bem”. Todos os que sustentam essa lógica de destruição sem garantir parada são responsáveis e haverão de responder por isso.  Se não hoje, algum dia, porque como diz a música do Geraldo Vandré, “deus que se descuide deles, um jeito a gente ajeita dele se acabar. Fica mal com deus, quem não sabe dar, fica mal comigo quem não sabe amar”.  

Mas, para isso, há que organizar.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Era uma vez o Brasil

 


Na foto, Matheus Nachtergaele encarnando Zé do Caixão. Extraordinário.

Assisti há pouco tempo a primeira temporada de uma série chamada “Hollywood”. É incrível ver como a indústria do cinema tem essa capacidade de se alimentar de si mesma, gerando produtos sem fim. A série é uma ode à arte do cinema, sob o ponto de vista estadunidense, é claro, uma vez que ali só aparecem referências ligadas àquele país. Artistas, diretores, produtores. É um passeio sobre o nascimento da indústria cinematográfica e toda a sorte de dramas que ensejou, desde as buscas pessoais dos aspirantes a astros e estrelas até os dramas coletivos como a questão da homossexualidade, o racismo, a libertação da mulher etc... A singularidade da série é que ela reescreve a história introduzindo momentos que poderiam ter mudado o curso das coisas. Nela, por exemplo, o jovem astro Rock Hudson, que era homossexual e sempre fez papel de galã escondendo sua opção, se revela publicamente. Uma atriz negra ganha sua chance de interpretar uma personagem entregue só as brancas e é premiada por isso. E uma mulher assume, com brilho, a condução de um estúdio cinematográfico. Coisas inimagináveis nos Estados Unidos dos a nos 30, 40 e 50.  Enfim, é interessante, mas é Hollywood, ou seja, mais do mesmo.  

Digo isso pensando numa fala do professor Nildo Ouriques, num dos programas Pensamento Crítico, quando ele diz que no Brasil sabemos mais do cinema estadunidense do que do nosso. E é verdade. Imaginei então algum cineasta fazendo um apanhado da vida cinematográfica do Brasil numa série assim, tipo essa de Hollywood, trazendo para as novas gerações todos os dramas que fizeram a beleza do nosso cinema, desde as famosas chanchadas, Mazzaropi, as pornochanchadas, o cinema de arte, Zé do Caixão, Glauber, Barreto, e até as bobajadas comerciais da Globo, mostrando os nossos artistas e os bastidores das produções. Seria um trabalho e tanto e nos daria um panorama singular do cinema nacional.  

Lembro do magnífico trabalho feito pelo ator Matheus Nachtergaele na série que contou a vida de Zé do Caixão, um dos nossos grandes. O trabalho foi realizado inspirado na biografia “Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins”, escrita pelos jornalistas Ivan Finotti e André Barcinski. A direção foi de Vitor Mafra e o roteiro produzido por Barcinski, Mafra e pelo professor da Academia Internacional de Cinema (AIC), Ricardo Grynszpan. É uma lindeza de série e deveria ser vista por todo o país em canais abertos. Mas até agora só passou no cabo. É uma belezura de trabalho, com a atuação extraordinária de Matheus. 

Enfim, temos cinema, temos história, temos atores e atrizes geniais e temos roteiristas incríveis. É tempo de contarmos essa história e eternizar os grandes e os pequenos realizadores. Só o sistemático revolver da memória garante que a vida vivida não se perca. Viva o cinema nacional.  


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

As aventuras do pai


 Depois de umas três noites bem mal dormidas hoje decidi dar uma cochilada depois do meio dia, quando o pai fica sentado ouvindo música e cochila também.  Mas, acabou que eu apaguei e dormi pesado. Quando despertei já agucei o ouvido, pois havia muito silêncio. E silêncio é confusão. Saltei da cama e já vi que não estava na sala. Hum... Corri para o quarto dele, entrei devagarinho e lá estava ele no banheiro, tomando um banho com a água do vaso sanitário. A maior lameira no chão, sabonete por tudo e ele sem chinelo. Um perigo absurdo. 

Nessas horas a gente não pode fazer alarde, nem movimentos bruscos pois se ele se assusta o trem fica feio. Fui chegando de mansinho, falando baixo, segurando-o pelo braço. Estava ali muito à vontade, com a toalha enfiada no vaso, a qual ele tirava e passava pelo corpo. Delicadamente fui puxando para o box e abrindo o chuveiro.  

- Bora lavar essa cabeça, querido? Olha o chuveirinho aqui, ó... 

E ele meio desconcertado, mas já aceitando o chuveiro, foi seguindo com o banho. Agora já com a água limpinha e a bucha de banho.  

A parada é assim. Nunca quer tomar banho e é só deixar sozinho que apronta. Uma piscada de olho e eles nos escapam. 

Depois, já banhado foi se refestelar no alpendre.  


 

O tempo da confusão



 Li há pouco tempo o longo artigo de Jimmie Moglia sobre a política estadunidense interna e externa. A que está em curso com Trump e a que vem com Biden. Segundo ele, tanto um quanto o outro trabalham firmemente com a nova modalidade de poder que veio montada na emergência das atuais plataformas de comunicação: a da confusão.   Mogli diz que o país caminha em meio a bombardeios éticos, mísseis terapêuticos, assassinatos democráticos e uma espécie de imperialismo humanitário. “Mesmo o raciocínio mais perspicaz pode ser facilmente confundido com tudo isso, enquanto o mítico cidadão comum, perdido no labirinto mental das notícias, sente como se tivesse tropeçado na escuridão absoluta de um universo sem estrelas. Não se pode negar que a confusão é a matéria-prima do poder”. 

Sobre algumas confusões bem visíveis ele aponta: como é possível demonizar a China se os EUA compram tudo o que ela produz? Como pode a Suprema Corte dos EUA se recusar a investigar a acusação de fraude nas eleições se é a Suprema Corte que tem de fazer isso? Isso gera uma confusão tremenda na cabeça do sujeito comum, que fica perdido em meio a tanta contradição. O absurdo desaloja e é muito mais sedutor que o medo. 

A partir dessas reflexões do escritor estadunidense pode-se pensar o Brasil e a política atual. A lógica parece ser a mesma. Basta acompanhar o cotidiano das declarações presidenciais. Ora está com Covid, ora não está. Ora fala dos planos para vacina, ora fala que quem vacinar vai virar jacaré. Num momento diz que vai mudar tudo o que está aí, e no outro investe na mesma política de sempre do toma lá, dá cá. Tal e qual os EUA fala mal da China, mas compra tudo o que há.

Da mesma forma age a chamada esquerda liberal. Fala mal do Bolsonaro e se alia com o que há de mais podre no Congresso. Critica as ações governamentais, mas não convoca o povo para protestos. Na mídia, igual. A Globo critica Bolsonaro, mas apoia Guedes. Faz discurso antirracista, enche a tela de negros, mas não discute o processo que leva ao racismo. Na verdade, o que está em jogo é a potencialidade de consumo. Se negro consome põe o negro na tela e finge ser pró-diversidade. Tudo aparece muito confuso, em todos os campos.  

Essa política da confusão não é coisa de agora e nem tem a ver com as novas tecnologias. Como bem já escreveu nosso filosofo maior, Álvaro Vieira Pinto, as tecnologias não têm vida própria. Elas são criadas e comandadas pela mão humana, pela dinâmica social. E a mão humana que conduz a confusão é a que quer manter-se firme no poder. Essa lição já foi ditada pelo presidente estadunidense Harry Truman logo depois da segunda grande guerra quando os EUA consolidaram sua postura imperial: “se não podes convencer, confunda”. Hoje, com o advento das redes sociais essa confusão ficou ainda mais disseminada. Qual criatura comum pode discernir o que é mentira e o que é verdade nas redes? Os programas de alteração de voz e de rosto já são de domínio público e enquanto alguns brincam colocando seu rosto no Capitão América ou na Mulher Maravilha, a política do poder vai manipulando outras faces. A linha entre a realidade e a invenção não está tênue, ela sumiu. E enquanto as pessoas se debatem na confusão, a mão dura reina. 

A pandemia e a Covid-19 também têm se prestado às mais estapafúrdias confusões. Um médico na TV diz que a Ivermectina previne. Outro médico diz que isso é bobagem. Um especialista diz que a máscara previne, outro diz que é bobagem. Um jornalista famoso diz que os hospitais estão lotados, outro diz que não. Tudo está sob suspeita. E afinal, quem diz a verdade? Ninguém sabe, não importa. O que importa é manter todo mundo nesse estado catatônico de confusão. 

É assim, nesse universo de confusão, que vão se desenvolvendo as teorias mais alucinantes como a da grande transformação mundial na nova era de Aquário, quando virá um enviado de deus (Trump) para, com seu exército (o dos EUA), comandar os exércitos amigos de todo o mundo, instaurando um planeta sem comunismo, essa doença gayzista, cujo grande líder é o filho de Satã, o Papa Francisco. Quem pode com um enredo destes?  

Cada leitor poderia aportar algum exemplo dessa política da confusão que se dissemina pelo mundo. Tudo com um único objetivo. Manter o rebanho quieto e seguir abocanhando os lucros. Logo, por baixo da aparente balbúrdia babélica, há uma verdade pétrea: no capital não se mexe. Tudo para os capitalistas que comandam o mundo, e a confusão + dominação para o restante. Ou seja, segue como dantes no quartel de Abrantes. A dominação pela força, pelo medo, pela sedução ou pela confusão, tudo conforme o freguês.  

Então, a dica é: mantenha-se calmo e siga o dinheiro. É lá que mora a razão de todas as coisas no capital. Veja que não é sem motivo que as grandes fortunas aumentaram mais de 30% durante a pandemia. O capital, voraz, não perde. Ele vai se adequando, se adaptando, cooptando nossas bandeiras. Olho vivo! Não se confunda. O inimigo é o capital e contra ele temos de travar nossa mais longa e feroz batalha.

São Borja, o engenho de arroz e a propriedade coletiva



Quando éramos pequenos, vivendo em São Borja, nossa maior alegria era brincar na montanha de cascas de arroz. Do lado da nossa casa, na propriedade do seu Artur Savian, havia um engenho. Lá dentro eles beneficiavam o arroz. O esquema era muito legal e entrar naquele engenho era adentrar em um mundo mágico. Enorme, cheio de tubos gigantes, a nossa Nárnia. O arroz entrava com a casca e no processo ela era descartada através de um enorme cano bem no alto do engenho, se armazenando na parte de fora. Isso fazia com que se formasse uma espécie de montanha de cascas.

Brincar ali era divino, apesar da coceira que dava depois. Mas, quando a gente é criança essas coisas não têm qualquer importância. Era bastante comum a gente fazer túneis nas cascas, nos quais entrávamos para nos esconder. Hoje eu vejo o perigo que era. Tudo era muito frágil e se aqueles túneis desabassem sobre nós, provavelmente morreríamos sufocados. Bueno, nunca aconteceu.

A melhor brincadeira era a de mocinho e bandido. E aí não importava muito se a gente era o mocinho ou o bandido porque o bom mesmo era ser atingido e rolar pela montanha de cascas. Era uma queda homérica, épica mesmo, com direito a várias cambalhotas. Descer rolando aquela montanha de cascas nos fazia todos excepcionais candidatos a dublês em filmes de ação. A nossa melhor aventura.

Não bastasse isso, naqueles dias não havia de maneira alguma o conceito de propriedade privada. Como a gurizada era muita, nas brincadeiras de esconde-esconde era comum a gente entrar na casa uns dos outros e nos esconder nos quartos, embaixo das mesas, nos armários. Se havia muros, os portões estavam sempre escancarados e nas demais casas só o que tinha era um cerca de arame, as quais ultrapassávamos sem problema. 

Lembro até hoje da querida Dona Mira, esposa do seu Artur, que vez ou outra se surpreendia com um de nós nos quartinhos que ficavam ao longo do enorme alpendre. Mas, não dava nada. Ela fazia cara de paisagem para não entregar ninguém e a turma seguia a brincadeira. Assim era também na casa da Nelci, onde buscávamos os cinamomos para brincar de Tarzan, pulando de galho em galho enquanto ela lavava a roupa sem se ocupar de nós.

Que tempos aqueles na rua dos Andradas, quando a rua e as casas eram de todos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O novo ano - 2021


 As celebrações de um novo começo na vida das gentes são tão antigas quanto a própria raça. Nas culturas mais remotas o “recomeço” era celebrado sempre no solstício ou equinócio de primavera (dependendo do hemisfério), quando tudo começa outra vez a florir. É que como o conceito de tempo ainda não havia sido aprisionado nos relógios, a vida das comunidades se regia pelas estações. Naqueles dias, o povo se reunia em festivais, cantando, dançando e bebendo em honra da terra. As mulheres engravidavam e a vida florescia. Era a completude do ciclo da existência, sempre se repetindo. Reavivar, Recomeçar.

No geral, sou otimista. Mas, desde que a cultura da morte tomou o país, tenho andado ajujada de dores. Elas respingam todas as possibilidades de alegria e, imiscuídas na existência, se destacam absurdamente. No campo pessoal tenho visto meu pai caminhar devagarito para o grande começo. Não é coisa fácil. E esse ano de 2020 foi particularmente duro. Cada pessoa que tomba, anonimamente, por conta do plano perverso desse governo, é como uma chaga aberta no meu próprio corpo. Sim, no capitalismo, as coisas são assim mesmo, o tempo todo. Os trabalhadores caindo como moscas para enriquecer meia dúzia. Mas, com a pandemia, fica tudo ampliado demais. Por isso invejo quem dorme.

Minhas noites não são calmas. Elas se preenchem com o cuidado do pai e o pensamento na dor dos que vão perdendo seus amados por pura negligência. Tá osso. Sim, todo mundo vai morrer. Mas, não precisava ser por falta de um respirador, ou de uma UTI. A morte tinha de ser como a de Antônia, a do filme, que realiza tudo o que precisa realizar, deita e parte.

Esta noite não vou dançar, nem cantar, nem celebrar. Tampouco enviarei votos de esperança ou de gratidão. Não. Na solidão, buscarei e afiarei as adagas, sistemática e lentamente. Porque haverá de chegar o momento - coletivamente  - de rasgar essa noite escura. Haverá de chegar... E que seja logo!

Porque esse sim será o grande recomeço, o tempo novo.