sexta-feira, 8 de maio de 2020

O novo normal na universidade


Está rolando nas internas da UFSC - e provavelmente nas demais instituições federais também  - um debate sobre como será a vida universitária nisso que se está nominando de “novo normal”, ou seja, um mundo com a ameaça do coronavírus, com isolamento social, que pode se estender até por mais de dois anos. A proposta que mais tem recebido adeptos é a do Ensino à Distância. Boa parte dos professores que se manifesta acredita que hoje a tecnologia oferece dezenas de plataformas e programas capazes de atender com qualidade aos alunos. Até aí, tudo certo. É uma verdade incontestável. 

O que parece que não entra na cabeça desses colegas é o fato de que milhares de estudantes universitários não têm acesso à internet de qualidade. Quando muito têm as redes sociais gratuitas, oferecidas pelas operadoras de celular. Como esses estudantes irão acessar as plataformas? Não bastasse isso, os estudantes que estão no campo dos empobrecidos precisam garantir a sobrevivência, como lembrou o professor Jaime Hillesheim, do Curso de Serviço Social, em contundente depoimento: 

“Fico pensando na realidade de nossos estudantes que moram nas periferias que, apesar da regra de isolamento, precisam dar um jeito para conseguir algum recurso para se manterem e a suas famílias. E, em face dessas necessidades, colocam em risco a si mesmos e os seus. Que condições têm eles de estudar num contexto como esse, independentemente da modalidade de ensino? Nem nós e nem os estudantes estamos preparados para esse "novo normal" e, tanto uns quanto outros, nem sempre contam com as condições objetivas para responder as demandas do processo ensino-aprendizagem que esse tempo de pandemia nos impõe. Isso não significa dizer que não poderemos construir as habilidades e competências necessárias para respondê-las, mas ainda nos restará sanar os problemas relacionados às condições objetivas para a implementação de uma proposta de ensino intermediário. Não é possível avançar em qualquer proposta se essas duas questões essenciais (existem outras) não forem enfrentadas com prioridade”.

Esse tema levantado por Jaime é o essencial e é justamente o que parece completamente esquecido na concepção dos demais colegas. Afinal, nas universidades públicas e na UFSC em particular, mais de 50% dos estudantes tem renda mensal familiar baixa. E isso não é só um número, é uma lista de gente com nome, sobrenome e história. 

Definitivamente o tal do novo normal tenderá a ser ainda mais excludente que o que já existe. Basta lembrar que o governo federal decidiu manter o Exame Nacional do Ensino Médio que garante algumas vagas nas universidades. A propaganda que já circula é de uma perversidade sem fim. Jovens bem nutridos dizendo: estude, estude como puder, nos livros, na internet, como puder. Ora, como puder? Quais as condições de disputa que podem ter os estudantes de escolas públicas, moradores das periferias desse brasilzão, que não têm acesso à internet nem a bibliotecas. Em que mundo vivem essas pessoas? Fácil. No mundo capitalista. Esse mundo que cria empobrecidos para que sejam explorados. Esse mundo que não está nem aí para os que não fazem parte do 1% de sua laia.  Por isso a completa incapacidade de perceber a realidade dos que conformam a maioria. Que morram, que permaneçam ignorantes, que se explodam. 

Assim que para quem acreditava que o mundo renasceria melhor da pandemia, as evidências apontam para o contrário. A crise econômica que já vinha se expressando será aprofundada, a desigualdade aumentará o abismo e menos gente estará em condições de fazer um curso superior. Talvez seja por se adequar acriticamente a esse cenário possível que alguns professores já estejam buscando alternativas de ensino que só serão exequíveis para um grupo muito pequenos de pessoas. 

É muito importante reafirmar que o problema não é a existência ou não de tecnologias capazes de serem utilizadas em ensino remoto. O tema a discutir é: em que condições uma pessoa poderá estudar, mesmo tendo acesso à internet? Como estudar numa casa cheia de gente que demanda atenção? Como estudar em casa se o cotidiano fica cobrando a cada minuto a limpeza, o almoço, a janta, o cuidado com os velhos, com as crianças, com os bichos. Ei, professores, as pessoas vivem.

A educação, penso eu, é um ato de entrega no qual educando e educador se encontram e discutem com total atenção. Um momento em que um e outro precisam estar focados e comprometidos. Um momento de diálogo, de comunhão. Ah, mas isso é utopia ou palavreado romântico! Não, isso deveria ser o ideal. Para todos, e não apenas para os que nascem em melhores condições econômicas. 

O ensino à distância pode ser uma boa opção? Pode! Mas, antes há que se pensar nas condições em que esse ensino será recebido. Sem isso, estaremos promovendo ainda mais exclusão. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O caminho do Brasil



A ruidosa saída do Ministro da Justiça, herói do Lava Jato, Sérgio Moro, anunciada como uma bomba, ao que parece vai se constituir num minúsculo traque, de pequeno alcance. No depoimento dado à Polícia Federal nenhuma prova contundente apareceu contra o mandatário nacional, seu ex-chefe. Por outro lado, a deserção do ex-juiz está atiçando a militância bolsonarista que agora já aparece nas redes sociais, explicitamente, à luz do dia, chamando para treinamento militar com o objetivo de “ucranizar o Brasil”. 

A moça loira e bem nutrida que comanda essa ação chamada de os “300 pelo Brasil” é assessora da Ministra Damares - esta conhecida por seu conservadorismo bíblico - Sara Geromini, agora autointitulada Sara Winter (um sobrenome em inglês para melhor representar sua filiação) já foi militante feminista, pró-aborto, quando essa era uma boa onda e garantia recursos. Agora, resolveu surfar na onda que ocupa o poder no Brasil, virou temente a deus. Comporta-se então como uma oportunista, apontando para onde pode ocupar mais espaço. 

Nas redes sociais ela aparece sempre armada como se fosse uma dessas heroínas de filme estadunidense. Quer criar uma milícia armada, paramilitar, para acabar com os comunistas. Deu entrevista para um jornal conservador onde diz: “eles agora vão ter medo de nós”. Eles, no caso, são os militantes da esquerda ou qualquer ser humano que se oponha ao governo de Bolsonaro. No acampamento “espontâneo” que ajudou a organizar em Brasília, para um ato de apoio ao presidente da nação, iniciou o que chama de “treinamento” do tal grupo 300. 

Provavelmente ela utilizou o nome 300 lembrando a resistência heroica dos espartanos contra o imenso exército persa. Não deve ter lido até o fim a história, pois os 300 acabaram esmagados pelos persas, depois de uma traição dentro de suas próprias fileiras (seria o Moro?). De qualquer forma o tema aqui não é esse.  A questão é que existe um grupo paramilitar se formando no facebook e no uatizapi sem que nenhuma ação seja feita por parte das chamadas instituições brasileiras. Conforme a liderança assegura em entrevistas o objetivo é ucranizar o Brasil, ou seja, promover a matança dos comunistas em nome de um deus vingador. 

Agora imaginemos o contrário: que a CUT ou o PCO, ou o PT, o PSOL ou qualquer outro grupo identificado como esquerda estivesse chamando pela rede social a criação de um grupo armado para enfrentar os bolsonaristas. O que aconteceria? A Polícia Federal certamente entraria nas casas das lideranças, prenderia os envolvidos e eles seriam julgados como subversivos, comunistas a serviço da Rússia, traidores da pátria ou qualquer outro nome. 

Essa é a realidade brasileira no momento. O grupo dos bolsonaristas é pequeno, mas ruidoso. E também é ousado. Está seguro que de com eles nada acontecerá porque seu presidente tem o controle até da Polícia Federal. 

Do outro lado temos uma esquerda acuada, que se comunica através de notas de repúdio ou então fazendo piada sobre a “pequenez” dos grupos que pregam o AI-5 (o fim de todas as garantias individuais e o fechamento do Congresso) e a intervenção militar. Não há ação organizada junto aos trabalhadores, mesmo nessa hora pandêmica onde a maioria está desprotegida e sendo obrigada a seguir vendendo sua força de trabalho mesmo sem as garantias de proteção à saúde. As estradas para a ação dos fanáticos e fascistas estão abertas, sem bloqueios.

Essa é uma hora decisiva. A pandemia avança cobrando vidas. Provavelmente o Brasil ainda colocará muito mais mortes do que as atuais quase nove mil. O desemprego crescerá, a pobreza aumentará, o desespero e a fome assomarão, portanto, terreno fértil para o obscurantismo e o fanatismo.

O caminho para a ucranização está livre. Alguns acham graça disso. Mas, sempre é bom lembrar que se os 300 de Esparta foram derrotados, eles enfraqueceram poderosamente o exército de Xerxes, que foi derrotado logo adiante. Não é momento de tripudiar do que parece ser um exército de Brancaleone às avessas. Isso é sério e tem como objetivo matar brasileiros em nome de deus. 

É tempo de organizar os trabalhadores e montar as barreiras. Se o fanatismo é risco, a revolução também é. Das instituições não há o que esperar. Tudo o que temos são nossos corpos nus, como diria o grande repórter Marcos Faermann. 

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Jornalista não almoça com o poder

A foto é da Geci Prates, que já encantou. À ela, meu amor.

Eu tinha 20 anos quando comecei a trabalhar na TV. Foi em Caxias do Sul, uma cidade de porte médio. Ainda assim, em pouco tempo percebi que a gente, que aparecia na telinha, era uma espécie de celebridade. As pessoas nos tratavam de maneira diferente. Nas lojas, nos restaurantes, na igreja. Lembro que a cada estação, a empresa de malhas Petenatti, mandava sua coleção de presente e as vinícolas – dezenas delas – mandavam caixas de vinhos nas festas especiais. No começo eu achava bem bacana. Não compreendia ainda que aquilo era só uma maneira – nada sutil – de comprar nossa simpatia.

Mas, o bom é que eu sempre fui uma pessoa pensante, e comecei a ruminar sobre aquilo. E foi justamente a elite empresarial de Bento Gonçalves que me fez ver com clareza o que aqueles pequenos presentes representavam. Como Bento ficava na região de abrangência da TV Caxias a gente sempre ia lá cobrir o almoço semanal dos empresários. Era um rega-bofe chique que terminava com a gente fazendo entrevistas com o maior número deles, falando sobre seus negócios. Era, na verdade, uma das matérias 365, código que dávamos para matérias que não tinham interesse público, que eram propaganda travestida de jornalismo. Aquilo incomodava, mas tínhamos de fazer.

O almoço era servido numa mesa grande e uma das laterais era reservada aos jornalistas. Com o tempo fui observando que era sempre a mesma coisa. Os jornalistas ficavam bem longe do centro, no finalzinho da mesa, servidos por último. E, tantas
vezes surpreendi um olhar de desprezo por parte dos empresários, como se fôssemos gente menor, um desprezo que também via no olhar dos garçons. Eram trabalhadores como nós e agiam como os chefes. Fui pegando nojo daquilo. A partir daí comecei a atrasar a saída de Caxias deliberadamente para não chegar a tempo do almoço, para não participar daquela humilhação. Aí, a gente chegava no final, fazia as entrevistas e ia comer xisburguer num boteco perto da Associação Comercial. Eram nossos melhores almoços. Comecei então a ter noção de que os “presentinhos” eram a moeda para comprar nossa vassalagem.

Naqueles dias eu era jovem e pensava que o mundo girava em torno de mim. Por sorte sempre fui curiosa e gostei de estudar. E foram os livros que me salvaram. Os livros e as relações que fui construindo com os trabalhadores. Tinha uma trabalhadora, em particular, que muito me ensinou: a Geci Prates. Era presidente do Sindicatos dos Trabalhadores Gráficos e chegou a ser candidata a prefeita pelo PT naqueles anos 80, quando o PT era a novidade alvissareira para os trabalhadores. Que mulher. Penso que ela nunca soube o tanto que transformou minha vida. A partir dela fui descortinando o mundo dos trabalhadores em Caxias do Sul, um mundo escondido e fora dos holofotes da mídia. E, desde ali, parei de ser idiota e comecei a forjar a pessoa que sou. Então, mesmo dentro da RBS – que era a maior rede comercial do estado – comecei a abrir espaço para as lutas dos trabalhadores. Nunca mais pude aceitar um presente de quem quer que fosse, porque entendia ali a intenção.

Essa postura virou uma regra de ouro para mim. Nenhum presente, nenhum almocinho nas beiradas de mesa, nenhum deslumbramento com o fato de o prefeito, o governador ou mesmo o presidente saber meu nome. Eles não sabem nosso nome porque nos querem bem. Eles sabem nosso nome enquanto estivermos enquadrados na empresa que lhes serve. O jornalista-marca, como muito bem já definiu a professora Roseméri Laurindo no seu livro “As três dimensões do jornalismo”. O jornalista que só é, enquanto empregado da rede famosa, do jornal famoso. Quando perde o emprego e vira uma pessoa sem marca, deixa de ser incensado pelos que estão no poder.

Isso tudo é para dizer que sinto uma profunda indignação quando vejo os jornalistas se abaixarem para a classe dominante acreditando fazer parte do banquete. Não fazem. Estarão sempre na beirada da mesa, sofrendo os olhares de desprezo. Nossa função como jornalista é apurar a crítica, desvelar o escondido, expor as feridas. Doa a quem doer. Fazer jornalismo é ser capaz informar e formar a opinião pública sobre o que corta a carne da maioria, e para isso temos de perder a ilusão de que somos especiais. Não somos. Somos parte do exército de trabalhadores que vive sob a exploração do capital. E, como tal, nossa obrigação é narrar o mundo desde o nosso lugar.

Comungar com o poder que nos oprime é um erro. Um triste e irreparável erro.

Na rave, com o pai


A vida pandêmica segue de maneira alucinada, apresentando sempre um novo problema na relação demência/cotidiano. Os dias passam atabalhoados, mas de boa. As noites é que são do peru. Como já contei aqui, cada vez que encontro uma solução para algum drama, logo outro aparece, quase que como a me desafiar. É pankeira. Mas, tudo bem, estamos na vida para isso, para ajeitar as coisas, para juntar o que está quebrando, para iluminar o que está escuro.

Sempre que a noite chega tenho de tomar uma decisão. Se eu dou o remédio de dormir para o pai, ele dorme quase a noite toda, mas apronta horrores com as incontinências, líquidas e sólidas. E aí é bem difícil, porque também não aceita que eu limpe ou troque as roupas. Ele ainda se recusa a usar fradas e nem o anjo do senhor o faz aceitar. Se eu não dou o remédio, sempre que ele quer fazer xixi ele desperta e levanta. Mas se levanta, não deita mais. E aí é um zanzar pelo quarto a noite toda, mexendo nas coisas, arrumando a cama, revirando papéis. Nada de dormir. Sem contar que quando faz xixi ou cocô, não vê lugar, vai fazendo. E eu atrás limpando, evitando que ele se suje ou caia.

O fato é que as duas opções igualmente me impedem de dormir. Então, o jeito é novamente inventar coisas para fazer durante a zanzação. Ou é Netflix, cujos filmes ruins eu já vi todos, acho. Ou fico no youtube vendo clipe dos meus amados cantores gaúchos, como o Luiz Marenco, o Mauro Moraes, ou então o Ricky Vallen, o qual amo de paixão. Quando tô nos filmes o seu Nelson me abstrai. Mas quando tô no youtube ele se antena, e faz a zanzada dele dançando. É bem engraçado. Vez em quando, pego ele pelo braço e saio dançando também.

Na madrugada, ao som do chamamé, juntam-se os cachorros e gatos. É uma espécie de rave bem singular, cheia de baldes, panos e muuuuita paciência, a qual vai tornando tudo enfim menos doloroso. Claro que há noites de calmaria, mas essas, das raves, são as que ficarão na memória.

domingo, 3 de maio de 2020

Outono roubado



Não gosto muito do verão. O calor é excessivo, a gente fica melequenta, a cidade assume outra cara por conta dos milhares de turistas, e a praia fica cheia demais. Por isso, quando o ano acaba eu fico esperando março. Não que eu não goste dos turistas e de toda a movimentação que eles trazem. Acho bom e bonito, mas me perco naquela multidão de desconhecidos. E gosto de andar pelo Campeche cumprimentando os amigos. No verão, amigos não há. Só estranhos. Assim que os meses de calor passo mais no Bar do Zeca do que na praia. Só olhando e enfrentando uma geladinha.

Mas quando chega março, aí tudo muda. O céu fica de um azul intenso. Ainda é calor, mas não tanto. O mar fica clarinho, a areia vazia. E, de novo, as carinhas conhecidas aparecem. E a gente anda pela orla encontrando todo mundo. A cada dez passos uma paradinha para um abraço, um beijo, uma conversa. É outono, a estação do ano mais linda que há. E assim passam março e abril, numa beleza sem par. Quando chega maio é o tempo da missa do trabalhador, da pesca da tainha, e a praia fica pipocada de pescadores, olheiros e curiosos esperando os lanços.

Esse ano não teve março nem abril, o outono nos foi roubado. Veio o vírus, o isolamento, e ainda que lá fora os dias fossem de uma belezura infinita, tivemos de ver passar sem as caminhadas na praia. Agora chega maio, com toda sua lindeza, eivado de dias cheios de vento suli. E, nesse dia primeiro, não teve a missa de abertura da pesca, criada pelo seu Getúlio. E a gente não se encontrou na beira do mar para rezar, fofocar e falar mal do prefeito. Lá nos ranchos de pesca os pescadores seguem consertando as redes, ajeitando as canoas, esperando que a tainha venha, mesmo que sem a bênção. Mas ainda assim, o maio passará sem que se possa vivê-lo em plenitude. Os dias passam em meio ao estupor de ver milhares e milhares de brasileiros morrendo por conta da omissão governamental diante de uma tragédia sanitária. E quando pá, o outono de 2020 terá ido embora, deixando o rastro de uma boniteza que não foi vivida.

Hoje, o dia está emburrado, não há sol, corre um friozinho gostoso. É maio, enfim. Lá fora, voejam os passarinhos e correm os cachorros de rua. Tomam a direção do mar. O mar que eu não verei, de um outono que não desfrutaremos. A vida escorre, perdida. E eu sinto as lágrimas quentes correndo pela cara. Nesse mundão de deus, milhares de almas jamais verão outro outono, alcançadas que foram pelo vírus maldito. Talvez eu sobreviva, não sei. O que sei é que por agora, mesmo diante da plenitude dessa estupenda estação, não há motivos para qualquer alegria.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Ação Civil Pública em defesa das comunidades de Periferia


O Instituo Igentes, junto com a Associação dos Moradores do Frei Damião, entrou com uma Ação Civil Pública contra o município de Palhoça, o Estado de Santa Catarina e a União Federal exigindo ação imediata em defesa da vida dos mais de doze mil moradores da região do bairro Frei Damião. Esse bairro, que é um dos maiores do município, ocupa uma área em torno de 30 mil metros quadrados. Ele foi formado a partir de uma ocupação iniciada ainda na década de 1980. E, apesar de estar localizado bem ao lado do bairro Pedra Branca, próximo a Unisul, o contrataste entre os dois é gigante. 

É possível perceber que enquanto os investimentos da prefeitura são massivos no bairro nobre perto da universidade, de alta classe, o Frei Damião está completamente abandonado, provavelmente por ser uma das comunidades mais empobrecidas de Santa Catarina. Lá, não há fornecimento regular de água, muito menos de energia elétrica. Conforme o Igentes, a maioria das ruas não tem pavimentação, e o esgoto corre a céu aberto, pelas ruas ou valas improvisadas e há casas que sequer possuem banheiro ou vaso sanitário. Também existem diversas famílias que vivem em coabitação, ou seja, várias famílias morando no mesmo barraco, amontoados em pequenos cômodos, espaço seguro para proliferação de um vírus como o da Covid-19. 

Conforme um levantamento feito pelo Sebrae em 2013, o bairro possuía 1.346 casas e barracos, todos irregulares, sendo que a maioria dos moradores tinha renda de 1/3 do salário mínimo.  Hoje, conforme a Associação de Moradores, já são mais de 12 mil pessoas vivendo no Frei Damião, sendo que 1.612 são crianças de zero a 12 anos. Pelo menos 943 destas famílias dependem de cestas básicas, que agora durante a pandemia estão sendo distribuídas de forma solidária e voluntária por movimentos sociais, visto que o município não tem qualquer ação para o bairro. Além disso, estão registradas 197 grávidas, 250 idosos, doentes graves com HIV, lactantes e deficientes físicos. 

Não bastasse a situação da comunidade Frei Damião ainda existe a região da Beira Rio, também em Palhoça, próxima ao bairro, com mais  114 famílias, 132 crianças, 13 idosos, 206 adultos, 2 grávidas, 19 doentes, 4 deficientes, 4 casas sem banheiro, totalizando 351 pessoas, também vivendo em barracos sem estrutura alguma. Essas também são famílias que não têm condições de se defender diante da pandemia do coronavírus, daí a ação responsabilizando o Estado.  
Com base na Constituição federal que determina o direito à vida, à moradia digna, saúde e educação, a ação civil busca garantir que essas famílias possam ser protegidas nesse momento de emergência sanitária que vive o país, afinal, além do número alto de pessoas doentes, a situação de pobreza gera desnutrição piorando ainda mais as condições de imunidade. Sem água encanada, por exemplo, como esses milhares de trabalhadores podem manter as condições de higiene que evitam a disseminação do vírus? 

A ação civil aponta a responsabilidade do estado de Santa Catarina com essas pessoas que precisam ter seus direitos assegurados. Como a maioria dos moradores não tem trabalho formal, a situação é de desespero. Falta comida, falta saneamento e  falta cuidado. 

Sendo assim, visando proteger a vida da comunidade , a ação requer as seguintes ações:

1. Que o Município de Palhoça, o Estado de Santa Catarina e a União, em até 5 dias, após sua citação, adotem medidas preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus – Covid-19, no bairro Frei Damião e Beira Rio, Palhoça/SC, com a redução dos fatores de propagação do vírus, implementando medidas sanitárias, 
a. Construção de banheiros nas casas em que não há; 
b. Disponibilização de água nas residências que não possuem água encanada; 
c. Fornecimento de máscaras, álcool gel e sabão para todas as pessoas e residências; 
d. Plano de saneamento para todo o bairro do Frei Damião e Beira Rio, solucionando o esgoto a céu aberto. 

2. Que o Município de Palhoça, o Estado de Santa Catarina e a União apresentem plano de ação, em relação ao bairro Frei Damião e Beira Rio, em até 5 dias, após sua citação, que garanta: 
a. Medidas de isolamento na forma dos protocolos das autoridades sanitárias; 
b. Realização de campanha informativa acerca da Covid-19; 
c. Levantamento de pessoas com Covid-19 ou com suspeitas, na comunidade Frei Damião e Beira Rio; 
d. Levantamento de leitos em internação e em UTI que possa atender a Comunidade do Frei Damião e Beira Rio; 
e. Transporte dos doentes e grávidas da comunidade Frei Damião e Beira Rio nas consultas, exames e internação, bem como fornecimento de remédios aos doentes crônicos, com Covid-19 ou doenças respiratórias;
f. Garantia de testes aos suspeitos da Covid-19; 
g. Designação de equipe médica, específica para a comunidade do Frei Damião e Beira Rio, com local de atendimento e visitas domiciliares, quando necessário; 
h. Designação de equipe de assistência social para a comunidade do Frei Damião e Beira Rio, garantindo o fornecimento de cestas básicas para as famílias que necessitam;
i. Providenciar quartos de hotel, alojamento ou casa com alimentação e higiene, para as pessoas dos bairros Frei Damião e Beira Rio, que, segundo critério das autoridades sanitárias, necessitarem se ausentar de casa para ficar em quarentena visando evitar o contágio da Covid-19, em condições dignas e em local próximo aos seus familiares; 
j. Instalação de rede de internet, com acesso livre wi-fi, de forma gratuita, com abrangência em todo o bairro Frei Damião e Beira Rio, para que a comunidade possa ter acesso às informações acerca da Covid-19, bem como para que os alunos possam acessar as aulas online, garantindo o direito à educação; 
k. Instalação de salas com computadores, para acesso público, para quem não tem celular/computador, para que a comunidade possa ter acesso às informações acerca do Covid-19, bem como para que os alunos possam acessar as aulas online, garantindo o direito à saúde e educação, garantido o devido distanciamento e medidas de higiene na forma dos protocolos sanitários.

Segundo a advogada Celina Duarte Rinaldi, do Instituto Igentes, essa ação será usada como exemplo para outras ações do mesmo tipo envolvendo outras comunidades de periferia que passam pela mesma situação de descaso no estado. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O tráfico, a dor e o Mocotó





O Mocotó é uma das primeiras comunidades de periferia de Florianópolis, ela nasceu quando os negros e pobres foram tirados do centro numa operação de “limpeza” da cidade que começava a crescer. Sem ter como bancar aluguéis ou cumprir a lei sanitária que obrigava a ter banheiro em casa, as famílias buscavam, na ocupação dos morros, o espaço para viver. Lá, já vivam outras famílias, de fugitivos da escravidão ou ex-escravos, que igualmente não encontraram lugar no centro, onde começavam a se erguer os sobrados da gente rica. O pé do morro onde fica o Hospital de Caridade, lá pelo meio do 1800 era chamado de Toca, e ali ia crescendo a comunidade. Com o passar do tempo outros espaços no entorno do Morro da Cruz foram sendo tomados, prioritariamente pelas famílias negras, mas também com brancos pobres. 

Não é sem razão que a cidade chame os morros de “espaço da criminalidade”, porque, na verdade, esse sempre foi o nome dado a quem não participa do grande banquete das famílias abastadas. Ser pobre parece ser potencialmente bandido. E é por isso que ao longo dos tempos esses lugares onde abundam as moradias precárias, o esgoto a céu aberto, as vielas, os trabalhadores, são também espaço da repressão. Assim, sucessivamente e historicamente, é nessas comunidades onde a polícia vai buscar os bandidos, e onde a lei parece não fazer qualquer sentido. São comuns os relatos de invasões de casa, sequestro de pessoas, assassinatos, agressões, violências. E tudo fica respaldado porque, afinal, "são bandidos".  

Ontem (28), enquanto noticiava uma manifestação no Morro do Mocotó contra o assassinato de três jovens da comunidade, a jornalista da televisão encerrava a nota dizendo: “a polícia informa que os três mortos são ligados ao tráfico de drogas”. Opa, então tá! Aí sim! São traficantes, então tudo se justifica. Já para as famílias que montaram barricadas na Mauro Ramos para denunciar e expressar sua dor e seu protesto, aqueles jovens tinham nome, sobrenome, história, sonhos. E mesmo que fossem ligados ao tráfico, eram o peixe miúdo, aquele que surge da necessidade ou do ódio.

Sim, há bandidos no Mocotó, no Mont Serrat, no Horácio, assim como há bandidos na Beira-Mar, na Bocaiuva, na Trompovski. Mas, nesses lugares chiques a polícia não chega atirando, sequer chega. Nos espaços onde vivem à larga os donos do tráfico há advogados de plantão e malas de dinheiro prontas para agir se necessário for, mas nunca é. Porque os peixes grandes não são tocados. Sempre é mais fácil exterminar a raia miúda, que não tem nada por ela a não ser os seus corpos em rebelião.

Eu lembro que há alguns anos pegou fogo no Hospital de Caridade. Era de noite. E mesmo antes da chegada dos bombeiros, os jovens da comunidade do Mocotó já estavam lá tirando pessoas, ajudando a apagar o fogo e ali ficaram pé até que tudo estivesse debelado, realizando um trabalho de gigantes. Naqueles dias a imprensa subiu o morro para contar dos atos heroicos da rapaziada. Provavelmente os mesmos jovens que são mortos pela polícia nas noites de calmaria. E os que foram salvos por aquela gente invisível agradeciam emocionados. Provavelmente os mesmos que hoje fazem muxoxo diante da fala da apresentadora de televisão. 

O tráfico de drogas não é coisa para ser banalizada. Ele é responsável pela destruição de tantas e tantas vidas. Mas, já vai longe essa política de extermínio dos jovens negros das comunidades de periferia. Se essa fosse a política correta, então já era para ter acabado o tráfico. Mas, por que a polícia mata e tudo segue igual? Essa é uma pergunta de fácil resposta. Porque a fonte do tráfico não está na favela. Ali vicejam os aviões e os gerentes de baixo clero. Mesmo os que têm seus barracos cheios de pequenas riquezas não chegam sequer aos pés dos verdadeiros traficantes. Logo, a abordagem policial parece não ter como foco o fim do tráfico. Na verdade, as ações contra a raia miúda são para fingir que há o enfrentamento do problema. Não há. E nessa guerra de extermínio, também os policias - que são trabalhadores -  acabam sendo vítimas. Seja quando tombam nos confrontos, seja quando se transformam em criaturas sem parâmetros éticos. A dor sempre fica para os “de abajo”, ou alguém já viu algum dia um traficante de peso ser assassinado ou mesmo preso? Eu nunca vi. 

Ontem, no Mocotó, as famílias se manifestaram tacando fogo na rua. Sabem que não há caminho negociado. Não são ouvidas. A única maneira de serem vistas é na manifestação coletiva, na rua. 

Ontem eles tacaram fogo nos pneus para dizer basta. É a única forma de abrir diálogo. Alguém aí vai dizer: tá com pena? Leva pra casa. É porque a maioria das gentes acredita que a solução dos problemas passa pela ação individual. Não, não adiantaria levar para casa a juventude do Mocotó ou de qualquer outro lugar de periferia do país. Porque o problema não está na pessoa. Está no sistema.  É essa forma de organizar a vida que gera a violência. É da natureza do capitalismo manter  a bota sobre a cabeça dos empobrecidos. É da natureza do capitalismo manter uma periferia no limite da vida, para que as pessoas possam ser melhor exploradas. É da natureza do capitalismo fazer do narcotráfico um dos pilares da indústria da morte – que vende armas, equipamentos de segurança e gente. 

Ontem, as famílias do Mocotó botaram fogo no meio da rua para fazer ouvir seu grito. As mesmas famílias que limpam as casas, lavam a roupa, fazem a comida, atendem no comércio, nas creches, nas escolas e ainda salvam vidas quando confrontadas com a tragédia do outro. Como um dia fizeram, salvando os internados no hospital privado mais famoso da cidade.  As mesmos que são esquecidas no dia seguinte quando todos já estão confortavelmente instalados em suas casas quentinhas. 

“Ai, que romântico, quero ver se um negrinho desses um dia tirar a vida de um familiar teu”, gritam os de sempre. Sim, será trágico, e ainda assim não será culpa dele. Será do sistema que o engendrou. Enquanto isso, alguns “branquinhos” seguirão tirando a vida de muitos da classe média e alta sem que ninguém lhes aponte o dedo.