segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O Brasil, as eleições e as opções dos trabalhadores

Lutas ainda são pontuais, mas tendem a crescer

Vivo na política desde bem pequena. A ditadura militar foi vivida na pele. Meu pai era trabalhador na rádio do João Goulart em São Borja. A política, então, sempre correu no sangue. A grande política. O debate dos projetos. A certeza de que tinha de ficar sempre do lado dos trabalhadores. A consciência de classe. Tudo isso fui construindo ao longo dos anos dessa vida louca. Sei de onde venho, sei quem sou e sei onde quero chegar. Sou trabalhadora e quero um mundo de justiça, de riquezas repartidas, na prática do comum. Essas são minhas certezas.

É por isso que me entristeço quando preciso responder sobre a conjuntura política aos amigos que me perguntam: o que está acontecendo? Quem afinal é a esquerda hoje no Brasil? Podemos confiar no PT? Vejo nos olhos deles o desconserto, a confusão, o embaralhamento das ideias. Como votar no PT se eles estão se aliando aos inimigos em vários estados do Brasil? Como entender um povo que foi às ruas chamando determinados políticos de golpistas, e agora estão aí, abraçados? Como votar no PSOL se o candidato é só uma cópia mal acabada do Lula? E o PSTU que não entende a conjuntura internacional e ataca as propostas progressistas na América Latina? E PCB que se aliou ao PSOL? O que fazer? O que fazer? 

Sim, a conjuntura é confusa demais. Os fatos se sucedem e nos confundem. Ou não.

O professor Nildo Ouriques, que foi pré-candidato à presidência pelo PSOL, desde há muito tempo vem falando de um “consórcio petucano” na política brasileira. E o que seria isso? Ele quer dizer que tanto o PT quanto o PSDB tem projetos de poder bem parecidos, que se juntam nas questões estratégicas como a questão agrária, o agronegócio, a energia, as leis trabalhistas e só divergem em questões muito pontuais. Funcionam assim como os dois grandes partidos dos Estados Unidos: republicanos e democratas. No fundo, são a mesma coisa, com diferenças muito sutis. No caso do PT, esse tem mais sensibilidade social que o PSDB. Coisa pouca, mas que num país continental pode fazer a diferença, como fez o bolsa-família, fome zero e outros políticas sociais que, de fato, tiraram milhões da pobreza extrema.

Mas, o fato é que nas questões estruturais, nada de novo apareceu com os governos petistas. A aliança com o capital estrangeiro, com alguns grupos da burguesia nacional, com o agronegócio, com os bancos, tudo isso aconteceu sem percalços. Da mesma forma, o tacão sob a cabeça dos trabalhadores, com a reforma da previdência dos servidores públicos, com a abertura do crédito que engordou os bancos e endividou grande parte dos trabalhadores, e a lei antiterrorismo que hoje pesa sobre os lutadores sociais. Ou seja: nada de novo sob o sol.

Agora, na corrida eleitoral, tudo se repete. Os projetos de governo mal se diferenciam e o sonho petista é voltar a ser como no primeiro mandato do Lula. Bom, não será. Porque qualquer pessoa que entenda minimamente o movimento da vida sabe que a conjuntura é outra. Que as coisas se transformam, mudam. Nada será como antes. A conjuntura mundial mudou, o Brasil é outro, cindido pela onda de ódio e do preconceito contra os trabalhadores, os que lutam por outro modo de produção. Não que esse ódio não existisse antes, mas agora ele se expressa mais livremente e encontra representantes viáveis. 

Diante desse quadro de horrores, que fazer? A resposta já está dada pelos próprios trabalhadores, pelas gentes oprimidas que vivem o cotidiano da morte, do desemprego, do ódio, da falta de saúde e de educação. Eles querem uma proposta radical de mudança. E mostram isso quando pendem para propostas radicais, de direita. Querem mudanças de fato, e não o mesmo velho discursos que conhecem e sabem onde vai dar. Podem até não compreender que as mudanças radicais apontadas pela direita são contra eles, mas sabem muito bem que o que aí está e as promessas de mais do mesmo, tampouco levarão a um bom lugar. Então, que mude. Depois se vê. Foi assim no golpe: “primeiro, a gente tira a Dilma...” E ainda não tiveram o tempo histórico largo para compreender o desastre que se aprofundou com o governo Temer. 

A proposta de um radicalismo político de esquerda tem sido o caminho apontado pelo grupo liderado por Nildo Ouriques, no movimento pela revolução brasileira. Um outro/novo radicalismo político, que mostre claramente as propostas, que ataque de fato a corrupção, a pequena e a grande, esse câncer que toma conta do corpo do estado e das instituições, já que é intrínseco ao capitalismo. Uma proposta que avance para mudanças estruturais concretas e factíveis. A revisão dos contratos da dívida que certamente apontarão as irregularidades e ilegalidades, desafogando o orçamento brasileiro e garantindo investimentos maiores na educação e na saúde, provocando mudanças reais na vida das pessoas. 

Os brasileiros estão fartos de mi-mi-mi e de enganações. Aprenderam muito com esse processo de golpes e contragolpes. Mas, infelizmente, no cenário eleitoral do momento, não encontram nos quadros da esquerda uma opção segura, que aponte com competência mudanças concretas e radicais. 
Assim, o embate que travaremos nas urnas será a trágica escolha entre o radicalismo de direita contra o consórcio petucano. Os que forem às urnas não terão outra escolha. 

O que há de bom nessa conjuntura que mais parece um conto fantástico de terror é que a vida mesma não se resolve nas urnas. Ela é definida na luta diária dos trabalhadores organizados que atuam em consequência quando são exigidos. Isso tem acontecido desde sempre, mesmo na ditadura. Então, sabemos que as lutas seguirão e que a vida política continuará a acontecer no duro embate contra o capital. O desafio que se coloca é a reconstrução da unidade dos trabalhadores sob a bandeira da revolução brasileira, a transformação de verdade, desde baixo, e que garanta as mudanças estruturais necessárias. Um longo caminho, é certo, mas numa estrada que não está vazia. Por aí vamos! E temos companhia! 


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

As aventuras do pai


Quando é dia de vento suli, valamideuzi. Bate uma zica e ele quer sair. Sozinho. Se eu digo que vou junto, arrenega demais, fica brabo, e volta. Não posso deixar ele ir só, pois se perde. Já me aprontou uma assim. Mas, é preciso dar alguma autonomia. Hoje, encrencou, se foi em direção ao portão e saiu. Deixei que ele fosse e fui seguindo de longe, me escondendo atrás dos carros ou postes.  Ele, que não é bobo, vez em quando olha pra trás, pra ver se estou seguindo. 

Minha técnica é deixar ele seguir uma quadra, quando ele dobra, eu corro. Hoje, confundiu o caminho do mercado e dobrou para o lado errado. Fui seguindo, e ele se mandando por umas ruas bem cabulosas, já indo em direção ao mato. Deixei que ele fosse até bem longe. Vi que estava confuso, não sabia se seguia ou voltava. Creio que percebeu que o caminho estava errado.  Fui chegando devagar pra tentar trazê-lo de volta. 

- Mas, olha, tu por aqui?
- É. 
- Acho que me perdi. 
- Não tem problema, vamos juntos. 

Ele me deu o braço, bem tranquilo, e seguiu de volta pra casa com seu passinho ligeiro. 


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Artistas na defesa do Edital Elisabete Anderle 2018 e pela transparência na política pública.

A cantora Jana Gularte é uma das lideranças desse movimento - Foto: Luiza Filippo


Artistas da cidade de Florianópolis, trabalhadores da cultura e comunidade que ama e vive a arte estão em luta por mais recursos e também por transparência na liberação das verbas dos editais que financiam a arte e a cultura, que já são poucos e bem mal distribuídos. No último sábado, 28 de julho, aconteceu um ato público, no Espaço Arco Íris, no qual os artistas se reuniram para debater as ações do Governo do Estado e da Fundação Catarinense de Cultura que, através de contratações diretas, sem chamamento público, e sem qualquer consulta de relevância junto ao Conselho de Cultura, colocaram em risco para esse ano o Edital mais importante para a promoção da cultura no Estado, o “Elisabete Anderle”.

Segundo os organizadores, “a lei obriga o governo garantir o Anderle, então como pode ficar gastando o dinheiro em outros eventos não previstos em lei se não garante a obrigação legal? Isso é crime de responsabilidade e causa dano ao setor cultural e toda a sociedade pela ausência de suas consequências diretas em economia, turismo e educação”.

Conforme informações dos artistas que estão no comando desses protestos, em 2017 o Edital Elisabete Anderle beneficiou apenas 170 projetos culturais entre 1800 projetos inscritos, o que significa menos de 10% de toda demanda do Estado. Agora, em 2018 o edital está sob risco de não sair, apesar de ser uma lei de obrigatoriedade anual. 

A denúncia é de que o fundo que permite o cumprimento da lei, o Funcultural, está sendo esvaziado por atividades paralelas que não estão previstas em lei. 

“O Governo Estadual esvazia o Funcultural em dois milhões de reais em contratação de recitais da Associação Filarmônica Camerata (as três primeiras cidades confirmadas que receberão a contratada são governadas pelo mesmo partido da gestão estadual atual) e esvazia também com o valor de 1,5 milhão de reais a ser liberado para o Festival de Dança de Joinville, uma suplementação que inclusive colocou em constrangimento o Conselho Estadual de Cultura por ter que politicamente se manifestar a favor da concessão da verba com a ressalva de colocar em risco o Edital Elisabete Anderle, sem nada poder fazer para impedir”.

A FCC, em nota oficial, admitiu já ter 50% do valor necessário para poder lançar o Edital com o mesmo valor do ano anterior, de 5,6 milhões de reais. Observa-se que, somados, os valores dessas duas contratações citadas acima já seriam suficientes para suplementar a totalidade do Anderle.

Para os artistas que estão engajados nessa luta tudo evidencia que a falta de provisão é de responsabilidade da gestão e poderia então ser considerado um crime o esvaziamento do Funcultural, já que não garante a sua obrigação principal.

A batalha que os trabalhadores da cultura do estado de Santa Catarina travam é para que o governo do Estado defina e garanta o provisionamento imediato do Edital Elisabete Anderle 2018 e que providencie o seu imediato lançamento. 

“Lembramos que em valores atualizados o Edital deveria ser no valor de 13 milhões de reais, o que representaria ainda muito menos que os 3% previstos legalmente de repasses ao Funcultural, visto que atualmente os valores repassados correspondem a 0,01%, um zero à esquerda e um zero à direita do que deveria de fato ser repassado das verbas públicas ao setor cultural. O não cumprimento do lançamento do Edital Elisabete Anderle acarreta em pena de responsabilidade administrativa da gestão executiva estadual”. 

É importante ressaltar que os artistas que estão nessa luta não estão fazendo qualquer juízo de valor sobre a importância do Festival de Dança de Joinville ou da Camerata. O que questionam é o fato de a quase totalidade dos recursos ser investida em apenas dois grandes projetos, deixando de fora uma quantidade gigante de pequenos projetos que, juntos, podem fazer ecoar a cultura catarinense em todo o estado.

Num país que já relega a cultura , a opção por financiar apenas megaeventos impede ainda mais que a cultura chegue aos confins das comunidades, elitizando ainda mais a arte.  

sexta-feira, 27 de julho de 2018

O jornalismo como munição para a barbárie


Um professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Áureo Moraes, foi chamado pela Polícia Federal para dar explicações sobre cartazes de protestos que populares levaram para uma atividade de homenagem ao reitor Luiz Carlos Cancellier, morto por conta do abuso de poder que o humilhou e violentou. Os cartazes mostravam nomes e caras daqueles que os manifestantes consideravam os verdugos do reitor morto. Um protesto veemente de um grupo de pessoas ainda impactadas pela dor da tragédia que foi o suicídio de Cancellier.

Áureo era chefe de gabinete do reitor Cancellier e foi um dos organizadores da homenagem, que celebrava o aniversário da UFSC e ao mesmo tempo lembrava o professor morto. Durante o ato que se desenvolveu na reitoria ele foi entrevistado. E na entrevista viam-se atrás dele os cartazes com as caras e nomes dos envolvidos no caso. 

A Polícia Federal, tendo visto a entrevista, ou a partir da denúncia de alguém, resolveu intimar o professor para que desse explicações, acusando-o de “atentado contra a honra” da delegada da PF que conduziu o caso. Isso porque o nome dela aparecia no cartaz que estava às suas costas. 

Tirando de cena o fato de que já é uma completa arbitrariedade convocar uma pessoa que deu entrevista com um cartaz atrás de si, culpabilizando-a pelo conteúdo do cartaz, o que me chama a atenção é o que diz respeito a função do jornalismo. 

O papel do jornalismo é o de informar e analisar os fatos cotidianos, atuando assim como uma forma de conhecimento, garantindo aos leitores/espectadores/ouvintes a possibilidade de saberem o que acontece e também de estabelecerem as ligações com a realidade na sua totalidade. Também é seu papel denunciar os desmandos, a barbárie, o que os vilões querem ver escondido.

O que a Polícia Federal reinaugura é a possibilidade de o jornalismo vir a ser o seu contrário: uma arma contra as pessoas que atuam na luta por uma vida melhor, contra os que assomam em repúdio aos desmandos, a barbárie, o horror. Filmar uma passeata pode ser uma arma para identificar “terroristas”? Filmar um ato de homenagem e protesto pode ser uma arma contra os manifestantes que choram um amigo caído? Filmar a resistência numa comunidade que teve um de seus filhos assassinados vira uma arma contra as pessoas que pranteiam seus mortos? Que assombrosa missão é essa que estão querendo imputar ao trabalho do jornalista? 

Eu que sou meio centáurica, sempre com uma câmara na mão, indesgrudável, já começo a repensar as coisas. Nesses dias feicibuquianos, em que a imagem é protagonista, estaremos todos armadilhados no processo de deduragem e delação? Um registro qualquer pode servir de “prova” para que alguém seja intimado, preso, condenado. No país das “convicções” já não há mais limites, nem mesmo dentro das regras burguesas? O direito de manifestação, consubstanciado na nossa Constituição, agora está nesse patamar? Só pode se for sem voz, sem cartaz, sem nada? 

Os tempos são sombrios, mas não devem servir para lamentações. Pelo contrário. Há que discutir novas formas de atuar. 

É hora de fazer com que o sindicalismo combativo ressurja das cinzas. Afinal, a lição sabemos de cor: só no coletivo, juntos, em comunhão, que podemos avançar. 




quinta-feira, 26 de julho de 2018

A injustiça, minha mãe, Juliane e ódio são

Uma impotência tão grande

Hoje, durante a reunião com a trabalhadora Juliane de Oliveira, na sala da diretora da Prodegesp/UFSC, onde ela foi chamada para assinar sua exoneração, depois de um processo totalmente irregular, só tive olhos para duas pessoas: seus filhos. O maior, talvez de uns treze anos, ficou atrás da mãe, encostado à parede, com olhos de espanto. A menina, pequena, ficou no colo, e, talvez, sentindo o bater acelerado do coração de Juliane, não parava de chamar por ela: mamãe, mamãe, como se ali, naquele nome, encerrasse todo o medo que parecia sentir. Uma cena de cortar o coração.

Num átimo, aquela imagem de impotência da pequena família acossada pela injustiça, me remeteu a um passado bem distante, na velha São Borja, quando minha mãe foi até a casa de um falso amigo de meu pai que tinha nos tirado tudo. Naqueles dias, o homem cobrava umas promissórias que meu pai, inadvertidamente, tinha assinado para ele, em confiança, sem saber que na verdade estava entregando a casa e tudo o que havia dentro.

Meu pai estava longe, em Minas, e o homem chegou à nossa casa com os oficiais de justiça para tirar os móveis e tudo o que lá havia. Foi um terror ver cada pequena coisa carregada de história sair para nunca mais. Deu-nos, então, 30 dias para abandonarmos a casa que tomara para si, basicamente roubando. Eram minha mãe e os três filhos, ela, sozinha, contra a raposa. Quando já estourava o prazo para deixarmos a casa ela foi até o apartamento dele pedir mais tempo. Não tínhamos para onde ir e já não tínhamos sequer o que comer. Todas as coisas tinham sido levadas e nós sobrevivêramos vendendo nossas roupas. Tínhamos então cada um apenas duas mudas de roupa. Dos móveis só sobrara a máquina de costura da mãe, que uma vizinha escondera. Dormíamos no chão nu.

Aquela foi uma noite violenta e inesquecível. Minha mãe implorando ao homem que nos roubara. Não havia sentido. Eu, que deveria ter uns 13 anos, e meu irmão, com nove, estávamos ao seu lado, tentando dar a força que necessitava, mas tão assustados quanto ela. A família do homem nos rodeara, e as crianças, que antes eram nossas amigas e brincavam conosco, agora nos humilhavam dizendo: “acaba com eles, pai, acaba com eles”. Foi talvez a coisa mais dolorosa que nos aconteceu, e tanto, que durante anos eu planejei vingança.

O fato é que o homem não teve misericórdia e nós tivemos de abandonar nossa casa, construída anos a fio, com tanto sacrifício. Saímos dali com a roupa do corpo e a máquina de costura no rumo do desconhecido. Meu avô tinha acabado de morrer. Era um momento terrível. E nós fomos embora com num pau-de-arara ao contrário, para Minas Gerais. Nunca esqueci. O ônibus saindo de São Borja e as lágrimas caindo diante da injustiça e do medo. E eu jurando vingança ao melhor estilo de novela mexicana.

Minha mãe era uma leoa. Mesmo longe ela não se abateu e continuou lutando para provar que a casa era nossa e que o homem tinha enganado meu pai. Ela moveu céus e terra, nunca esmoreceu e anos depois, conseguiu a casa de volta. Já tínhamos comido o pão que o diabo amassou e ela desenvolvera uma tuberculose, já tinha vindo a fome, o abandono, tudo de ruim. Mas, ela, enfim, venceu. No dia em que recebeu o dinheiro da casa, saiu conosco, os três filhos, e disse: comprem o que quiserem. Voltamos para casa com um aparelho de som último tipo e os discos da Maria Bethânia e do Zé Ramalho, além de um jogo de sofá. Foi apoteótico.

Mas, apesar da vitória com relação à casa, aquela noite de profundo medo e humilhação no apartamento do bacana nunca saiu de mim. Assomava, vez em quando, nas noites cálidas de Minas e a vingança chamava. Armei planos mirabolantes e voltei para São Borja. Meu plano era matá-lo e me preparei.

Passados tantos anos cheguei a São Borja pronta para cumprir meu destino e quis a providência que no primeiro dia eu já soubesse sobre ele. Algumas desgraças tinham se abatido sobre a família e eu já comecei a fraquejar. Mas, o que me derrubou mesmo foi encontrar a garota, que era minha amiga, e que gritara naquela noite: “acaba com ela, pai”, num supermercado. Ela era uma sombra, um escombro. Saí dali, bati o pó das sandálias e nunca mais voltei. Não necessitava vingança. A vida havia se encarregado.

Ainda assim, nos meus sonhos, em noites frias de inverno, quando bate o vento norte, eu acordo sobressaltada ouvindo aquelas vozes, vendo aquele esgar de ódio, e sentindo outra vez o desejo da vingança. Aquilo nunca saiu de mim. Minha mãe, ali, tão frágil, diante da tragédia.

E foi essa mesma fragilidade que vi naquela sala, na Prodegesp. Juliane, acossada diante da injustiça, com seus verdugos marcando o ponto onde deveria assinar sua exoneração com um sorriso na boca. E os filhos com aquele olhar de medo, de não-sei-quê. Como podem? Como podem infligir tamanha dor? Foi assim que me veio de novo esse ódio, esse desejo de vingança, como naquela longínqua noite em São Borja. Porque sei que esse será um momento indelével para aquelas crianças. E isso é imperdoável.

O bom é que ao contrário da solidão da minha mãe, Juliane estava amparada por vários colegas, trabalhadores da UFSC, que estão lutando lado a lado com ela. E quando saiu dali, saiu em comunhão. Isso pode mudar tudo. E talvez a marca daquele momento se esboroe. Não sei...

O que sei é que, tal qual minha mãe, Juliane é leoa, e vai vencer.

Já eu, não sei, estou aqui, espumado...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Generosidade seletiva



Tenho lido nas redes sociais alguns comentários sobre a questão dos meninos da Tailândia que ficaram presos numa caverna. Durante semanas o mundo esteve com os olhos lá naquele longínquo lugar. Uma corrente de bons pensamentos e desejos de salvação. Pessoas de mais de 40 países, profissionais de mergulho e de salvamento, para lá foram, no intuito de tirar com vida todos os meninos e o professor. Foi uma corrente do bem mundial. Duvido que alguém tenha ficado imune. E ontem, quando finalmente todos saíram vivos da cova, o planeta inteiro respirou aliviado. É certo que um mergulhador morreu na batalha. E ficará na memória de todos como um herói. Saman Kunan é seu nome, inscrito para sempre no coração daquele grupo que vivenciou o terrível drama. 

Terminado o resgate surgem as perguntas: e por que o mundo não se comove com a situação dos meninos e meninas presas nos Estados Unidos? Por que não se comove com a tragédia das crianças palestinas, presas e assassinadas todos os dias? Por que não se comove com os jovens negros que caem nas comunidades de periferia do Brasil, sob o fogo do estado? Por que não se comove com as crianças que vivem em zona de guerra? 

Também me pergunto sobre isso. Por quê? 

Arrisco um palpite. As crianças na Tailândia sofreram um revés da sorte. Uma tragédia provocada por ninguém. Entraram na caverna e veio a chuva, e o inesperado aconteceu. Não havia quem culpar. Nem mesmo o professor. As cavernas são visitadas cotidianamente, poderia ter acontecido com qualquer um.  

Já as demais crianças sobre as quais clamamos, não. Essas tem sua história construída pela mídia e pela ideologia. Os palestinos não são crianças, são terroristas. As crianças latinas presas nos EUA não são crianças, são filhas de criminosos, logo, criminosas também. Os meninos negros nas periferias são ladrões e bandidos em potencial. E as crianças nas guerras estão tão distantes, são estatísticas. Não têm nome nem sobrenome. 

Essas crianças todas pelas quais nosso coração e nossa razão clamam, estão obscurecidas pela construção ideológica que os poderosos fazem delas. E assim, as pessoas que ocupam apenas sua consciência ingênua não se compadecem. Na verdade, as temem. E, por isso, acabam aceitando a ideia de que é preciso prendê-las ou matá-las.
É uma realidade cruel. Mas, é a realidade construída pelo capitalismo, na qual aquele que não se rende aos encantos da mercadoria ou não se curva diante do pequeno grupo de poder, acaba sendo transformado em vilão.

As crianças pelas quais nós também choramos e clamamos são inimigas do capital: migrantes empobrecidos, comunidades oprimidas, moradores de lugares que o capital quer pegar para si. Por isso sobre eles se constitui um véu.  Para o capital, as inocentes vítimas da Tailândia não representam qualquer perigo. Por elas pode-se chorar e se desesperar. Por elas pode-se regozijar na hora da salvação. Já os demais, não. Esses são perigosos.

E assim, as pessoas que são inoculadas com essas construções ideológicas acabam se recusando à generosidade. Para clamar pelos migrantes, há que se comprometer contra o poder. Para clamar pelas crianças das guerras, há que comprometer contra as nações centrais que fazem a guerra, para clamar pelas crianças presas no México, na Palestina, nos Estados Unidos, há que se comprometer contra o poder desses governos. Para clamar pelos negros que tombam na periferia há que se comprometer contra o governo que promove o massacre. 

Clamar pelos meninos da Tailândia não exige nada. Só a piedade individual. Isso é fácil.

Cá no meu cantinho, no sul de uma pequena ilha do sul do mundo acompanhei com apreensão o drama dos meninos tailandeses. Chorei com a morte do mergulhador e vibrei com o final vitorioso. Mas, como um animal político que sou, eu me comprometo com a luta contra o capital e assim, sigo clamando e denunciando todas as violências e crimes que se cometem contra crianças, jovens e adultos em todo mundo. Como dizia el Chê: enquanto houver um injustiçado, com ele estarei. 

E, mais que clamar, vamos construindo, o novo mundo, que virá. 

Posso entender essa generosidade seletiva das gentes, porque estão obnubiladas pela ideologia. Muitos sequer se dão conta disso. Mas, sei que mudar isso exige trabalho e luta. E é por aí que vamos! Há um mundo para transformar. E a grande caverna do capitalismo para derrubar. Haveremos de sair... 

P´alante. 


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Trabalhadores: é tempo de lutar

Retomar as ruas, fortalecer as lutas.

Tarde de quinta-feira. O posto da Caixa Econômica Federal, um dos bancos públicos brasileiros, está lotado. São quase 100 pessoas sentadas nos bancos azuis, com olhar perdido no vazio, esperando. Antes de entrar, precisam passar pelo constrangimento de esvaziar suas bolsas ou coloca-las num escaninho que, mesmo na agência central, parece coisa do século passado. Leva-se pelos menos uns 10 minutos no trâmite de pegar a chave com um garoto que distribui senhas, abrir o cadeado que fecha uma corrente na porta do armário. Coisa bárbara. Lá dentro o ambiente é tóxico. Rostos ansiosos e tristes. Por ter de estar ali pagando contas, e por passar pela absurda espera. Como sempre, há poucos caixas, fruto do sistemático desmonte das empresas estatais brasileiras. Também os trabalhadores tem o rosto pesado, superexplorados que são. A tensão ali dentro é concreta, quase se pode pegar com a mão. 

Naquela tarde, no meio das cadeiras, um gurizinho de uns três anos, corria, brincando entre as cadeiras. Então, no meio do corredor, decidiu parar, abriu os bracinhos, apertou os punhos e fez cara de Hulk, rugindo, brabo. Sua manifestação espontânea de raiva por estar ali há tanto tempo, levou todo mundo ao riso. Foi um átimo de descontração. Poderia ter sido o catalizador para que toda aquela gente esse levantasse e quebrasse tudo, dando vazão ao ódio por estar sempre sendo espezinhado nesse mundo no qual o capital dita as regras e mantém as pessoas escravizadas. Mas, não. Houve o riso, o balançar de cabeça e os olhos voltaram ao vazio. Há que pagar as contas. Há que esperar. 

Esse tem sido o comportamento de boa parte dos brasileiros nos últimos tempos. Um resignado cumprir das tarefas cotidianas, enquanto o Brasil vai se esfacelando, com as riquezas sendo entregues e os direitos trabalhistas exterminados. Um processo de destruição tamanho que exigiria uma violenta reação. Mas, ainda não aconteceu. Há resistências pontuais, uma greve por salário aqui, outra ali. Reações particulares, algumas muito fortes, mas sem conexão com o todo. 

A reforma trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional destruiu 60 anos de luta, pois praticamente todos os direitos conquistados a duras penas foram para o ralo. Ter a carteira assinada e, com isso, uma série de garantias trabalhistas já é coisa do passado. O tempo agora é do trabalhador por hora, por projeto, o famoso “self-made man”, aquele que se faz a si mesmo, o empreendedor individual. O empresário de si mesmo. Parece coisa bonita e o nome em inglês deixa ainda mais atrativo. “Só não se dá bem quem não se esforça”, dizem os patrões, agora livres de encargos e deveres, prontos para acumularem mais e mais. Viva o trabalho intermitente, no qual o trabalhador terá mais tempo para si trabalhando por períodos curtos. Como se o trabalhador pudesse existir sem o trabalho. Não no mundo capitalista. Nesse mundo o trabalhador só tem a força de trabalho para vender e se não a vende, não come, não mora, não tem saúde nem educação. Ainda assim, há quem aplauda a reforma. 

Os números, ah os números, dizem que o emprego aumentou. Mas não dizem que são precarizados, que são por prazo curto, que são por salários mais baixos. O desemprego estrutural se aprofunda e logo, logo, seus efeitos se farão sentir com mais força. 

Não bastasse isso a Câmara dos Deputados segue atuando rápida e livremente a favor de seus patrões: os latifundiários, as transnacionais, os bancos. Dia após dia aprovam novas leis que garantem mais lucros aos seus chefes e aumentam o abismo entre pobres e ricos no Brasil. Dane-se a pátria. Está a um passo de ser aprovada a desregulamentação dos agrotóxicos, que envenenarão ainda mais a comida da maioria do povo. Poderão ser vendidos sem fiscalização e, inclusive, marcas que estão proibidas em praticamente todo o mundo. 

Também aprovaram a privatização da Embraer, empresa brasileira que não apenas fabrica aviões de qualidade como é também responsável pela segurança aérea do país. Ou seja, os dados referentes à segurança do espaço aéreo brasileiro agora pertencerão aos Estados Unidos, através da Boing, empresa que comprou a Embraer. Há quem ache muito legal ser colônia dos EUA, mas seria bom dar uma espiada na situação do Afeganistão, Iraque, Somália, Porto Rico, Colômbia, para ver quem realmente ganha com o “protetorado estadunidense”. Não são os trabalhadores. Não são mesmo.  

Na semana passada os deputados aprovaram também a privatização da distribuição de energia, mais uma fatia da Eletrobras. Com isso, entregam para os estrangeiros ou para a elite nacional esse importante filão que é a energia elétrica. Hoje, com a distribuição sendo pública, mesmo as comunidades mais longínquas tem garantia de luz, pois ela é um direito e o estado provêm. Mas, privatizada a distribuição, estender linhas não será mais direito e sim espaço de consumo. Ou paga, ou não tem. E, da mesma forma, a conta da luz deverá ter uma alta significativa, pois as empresas cobrarão pelos caminhos por onde a energia vai fluir. 

No âmbito do executivo também se avolumam as decisões contra os trabalhadores, a maioria da população. Enxuga-se tudo o que é público, desmontam-se as empresas estatais, arrojam-se os trabalhadores. No campo da educação a destruição já vem de um bom tempo. A reforma do ensino médio, que levou os secundaristas às ruas, passou, e hoje as coisas já estão acomodadas. As escolas se apequenam, física e culturalmente. E o espectro da perseguição e da delação ronda, destruindo professores críticos e constituindo uma massa facistificada. O professor virou vilão e apanha na cara. A boa educação ficou para os que tem dinheiro para pagar. Aos pobres, as batatas. 

Na saúde o terror segue seu curso, cada vez mais forte, com o desmonte sistemático do SUS e com as propostas de sua destruição. Acabou a Farmácia Popular, diminuíram-se os recursos e o povo que arque com o custo dos remédios, para engordar a conta da farmacêuticas, tratando das doenças que são criadas pelos venenos das transnacionais de alimentação. Tudo articuladinho para manter os trabalhadores no limite entre a vida e a morte, para que não encontrem forças para rebelarem-se. Crescem os Planos de Saúde privados, atirando-se sobre as angústias das gentes e surgem como capim os chamados “espaços populares de medicina”, nos quais as consultas variam de 80 a cem reais, ficando “acessíveis” para a população. E as pessoas se agarram a isso porque os espaços públicos vão sendo destruídos, justamente para jogá-los aos tubarões privados. Saúde é mercadoria. 

Na segurança, segue o caveirão da morte, passando pelas comunidades de periferia, ceifando as vidas dos trabalhadores, particularmente a das crianças e jovens negros. Não há limites. Meninos que seguem para a escola são mortos preventivamente, porque “um dia poderão se tornar criminosos”. Meninos negros. Meninas são baleadas na porta de casa, na padaria, na frente da escola. E tudo bem. São meninas negras. “Que poderão fazer depois que crescerem?” A elite, a classe média justificam tudo. “Algo de mal irão fazer”. Matam porque temem a revolta dos desvalidos. E condenam os trabalhadores, a maioria, a eterna guerra entre si. 

E assim vamos indo, ladeira abaixo, perdendo cada dia um direito, esfacelando o tecido social, vendo o cotidiano se transformar num aterrorizante “Mad Max”, o mundo distópico da violência, do individualismo, do terror.

Na televisão das massas, um jornalista global teve a cara de pau de dizer que em Cuba “só” o que funciona é a saúde, educação e segurança, querendo tripudiar da forma de governo que ali existe desde a revolução de 1959, constituída pelo povo livre e em armas. O “só” dele é o tudo que uma população pode querer de dignidade. Educação de qualidade para toda a gente, saúde garantida para toda a gente, e o direito de andar pelas cidades, pelos campos, pelos caminhos, em paz, sem o terror de ser roubado, assassinado, violentado. 

O “só” de Cuba deveria ser nossa bússola. E para lá deveríamos caminhar. Em luta. Porque se são os trabalhadores que tudo produzem, se são eles os responsáveis pelas riquezas geradas, a tudo devem ter direito.