quarta-feira, 29 de abril de 2015

Os negros, os pobres e a indiferença







A luta por permanência na UFSC











O Conselho Universitário da UFSC protagonizou nessa terça-feira, dia 28, mais uma página lamentável da sua existência. Sentindo-se confrontados por um pequeno grupo de estudantes negros, que reivindicava o direito de permanência na universidade – uma vez que 12 deles, excluídos dos auxílios, estão em situação de emergência – alguns professores bateram boca, gritaram e se retiraram da sala. Para piorar a situação, a reitora em exercício, Lúcia Pacheco, imediatamente suspendeu a sessão, impedindo assim que o tema fosse conhecido e discutido pelos conselheiros. Boa parte dos membros saiu e apenas a representação dos técnicos,  alguns poucos professores e alguns representantes dos estudantes permaneceram na sala dos Conselhos e ouviram as demandas dos estudantes. 

Eram cinco horas quando gritos começaram a ser ouvidos na sala contígua ao Conselho. “Ô reitoria, chega de ausência. Preto e pobre exige permanência”. Mais um pouco e um grupo de estudantes negros adentrou a sala. Eles vinham cobrar respostas a uma demanda que já estava sendo discutida há dias, sem que a administração desse uma resposta favorável. Segundo eles, vários alunos em situação de extrema necessidade ficaram de fora do edital que garante assistência estudantil. Mostravam que a situação era de emergência e que era um direito que precisava ser garantido. “Estamos em uma situação de vulnerabilidade econômica muito séria, tem gente que está passando fome. Queremos saber por que nós ficamos de fora de todos os editais se o nosso cadastro prova que não temos como estudar sem o auxílio”. 

Os estudantes colocaram uma série de informações sobre outras pessoas, em situação econômica melhor, que foram contempladas e exigiam explicações sobre os critérios que a UFSC usa para distribuir os auxílios. “Nós entramos na UFSC pela porta da frente e não vamos sair pela porta de trás. Queremos nossos direitos, queremos estudar”. 

A reitora em exercício, Lúcia Pacheco, chamou a representante da pró-reitoria de assuntos estudantis para a mesa e quando um dos estudantes insistiu em continuar falando, os professores Paulo Pinheiro Machado e Maninho se levantaram dizendo que o estudante estava sendo desrespeitoso e autoritário com a reitora. Tudo isso porque ele disse que não precisava da permissão de ninguém para falar.  Nesse momento, vários outros membros do conselho começaram a se retirar, gritando com os estudantes, recusando-se a ouvir as suas falas. A reitora então suspendeu a sessão, dando legitimidade ao abandono. 

O que se seguiu foi uma série de falas e contra/falas que só demonstraram a triste realidade de uma instituição que apesar de 50 anos de história ainda não conseguiu aprender a conviver com a diferença. A presença de negros e pessoas empobrecidas na UFSC aumentou muito nos últimos anos, em função da política de cotas – que também demorou a se estabelecer na universidade. Essas pessoas fogem do padrão do estudante médio que a UFSC sempre teve, que era de classe alta ou média. Em função disso a demanda por bolsas e auxílios permanência aumentou consideravelmente. A instituição, em vez de travar dura batalha pelo aumento desses auxílios prefere o cômodo caminho do “a lei não permite”, “as regras são essas”, “vocês têm que entender”. 

O professor exaltado considera que o aluno que reivindica o direito de comer, morar e estudar é um autoritário. “Já basta de abaixar a cabeça. Somos negros, somos gente igual. Não somos subalternos”, repetiam os estudantes. A casa-grande continua querendo ditar regras para os negros. A casa-grande ainda não saiu de dentro de muita gente, esse era o sentimento. Desde quando uma mãe, negra, com um filho nos braços, não tem o direito de gritar por atenção e pelos seus direitos? Quando isso é autoritarismo? Quando isso é desrespeito com a autoridade? 

Que fique claro. Não se trata de vitimização. Não está em pauta o mantra de “somos coitadinhos”. Nenhum daqueles estudantes que entrou no Conselho estava pedindo favor. Há uma lei que garante a entrada na universidade e é necessário que a instituição encontre caminhos para que esses jovens possam permanecer e terminar os cursos. A questão racial é latente. “Temos muitos colegas que estão trabalhando, fazendo bico à noite para poder seguir. Outros já desistiram, já foram embora. Não têm de onde tirar. O caminho que a gente está buscando é a educação. Se amanhã um de nós pegarmos uma arma e sairmos assaltando, esses mesmos professores que se levantaram serão os primeiros a pontar o dedo e dizer: vagabundos, tem de morrer. Essa é a verdade”.  

A resposta da administração é de que vai estudar uma possibilidade. Mas os alunos não querem mais promessas, eles precisam pagar as contas agora. Entendem que a universidade tem de encontrar caminhos para a demanda de pedidos de auxílio que cresce a cada dia. Não dá para ficar escondida detrás de regras e editais. Se não há recursos, há que batalhar por eles, inventar, criar. A força política da universidade não é capaz de mover coisas desse tipo? 

Na verdade, a administração se comporta dentro da regra de como tem sido desde que assumiu esse mandato: agarrada a letra fria da lei. Não importa que bem ali, na sua frente, estejam pessoas de carne e osso. São números na matrix. E a resposta é: Não pode. Não dá. 

Os estudantes que entraram na reunião do CUn exigindo serem vistos não querem que a UFSC burle as leis, nem que não siga os editais. Querem que a administração tenha a sensibilidade de enxergar o problema e caminhar para uma solução. Hoje são 12 pessoas que estão em situação de emergência. Amanhã, indefectivelmente, serão mais. 

Os pobres e os pretos estão entrando na UFSC. Os pobres e os pretos estão falando na UFSC. Essa é uma realidade que não tem mais volta. 



MST é homenageado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina














Fotos: rubens lopes



















Eu tinha pouco mais de vinte anos, no início dos anos 80,  quando avistei o primeiro acampamento de sem-terra do MST. Era no interior da cidade de Ronda Alta, na estrada do Pontão. A Fazenda Annoni tinha sido ocupada por mais de 1.500 famílias e eu era repórter da RBS TV. Nunca saiu de minhas retinas aquela cena primeira, num virar da estrada, de centenas de barracos de lona e gentes em profusão. A bandeira vermelha, a fumaça dos fogões de chão, a correria das crianças e dos cachorros. Era uma cidade.

Naquele acampamento de sem-terra forjei meu espírito, nas conversas ao redor do fogo, sorvendo um chimarrão, conhecendo as histórias de cada homem e cada mulher que ali escrevia também a história do nosso país. A Fazenda Annoni foi o primeiro grande acampamento construído pelo MST instituído e organizado. Naqueles dias, os agricultores envolvidos naquela “aventura” eram considerados “bandidos”, “invasores” e toda a sorte de adjetivos que ficaram colados a eles por décadas.  

Desde a vivência da Annoni a experiência de organização e luta do Movimento Sem Terra nunca mais saiu do meu foco. Com eles passei a caminhar, não apenas como narradora dos seus mundos, mas como alguém que também acreditava na reforma agrária como uma necessidade para o país.
Foram anos e anos de marginalidade. Tanto para eles que faziam a luta, quanto para os que apoiavam o movimento. Em cada ocupação, cada marcha, cada ação, os meios de comunicação aplicavam sua velha fórmula de mentiras para a fabricação de um consenso contra o movimento, contra os trabalhadores, contra a reforma agrária. Muita gente morreu nessa jornada que já leva 30 anos. Mas, também, muitas famílias, que ousaram entrar para as fileiras de luta do MST hoje tem sua terra, sua casa, sua produção. São incontáveis os assentamentos que produzem a comida posta em nossa mesa.

Em Santa Catarina o MST nasceu na região oeste, quando realizou sua primeira ocupação – na fazenda Burro Branco. Desde aí, os trabalhadores sem-terra souberam que tinham um lugar no mundo. Cada ocupação, cada barraco fincado no chão desse estado, avançava no sonho da terra repartida. Também aqui não foram poucos os momentos de dor, de violência, de morte e de execração. E também aqui, as bandeiras vermelhas ousaram se desfraldar em marchas e movimentações reivindicativas. Tantos rostos, tantos sonhos, tanta beleza.

E foi recordando cada uma dessas ações do MST em Santa Catarina que acompanhei, cheia de alegria e orgulho, a entrada dos sem-terra e dos assentados do MST, na Assembleia Legislativa na noite do dia 28 de abril. Uma noite cálida de outono, mesclada do grito de luta dos professores estaduais em greve que também ocupavam a “casa do povo” nesse dia histórico. Ali estavam os velhos guerreiros da luta pela terra em Santa Catarina homenageados em uma sessão solene. Ali estava a nova geração, gurizada nascida nos acampamentos, ensinada no fragor da luta renhida. E naquela casa tão estéril, tão surda aos anseios dos trabalhadores, os deputados puderam ver a poderosa mística que movimenta a esperança dos sem-terra.

O barraco de lona, as ferramentas de lida na terra, a bandeira vermelha, aquele riso carregado de certezas, o braço erguido no gesto de luta. As falas emocionadas, as lembranças dos 30 anos de batalha por uma terra que ainda não chegou para todos. Tudo isso fez da noite de homenagem um momento de beleza.

O MST ocupou as cadeiras, as galerias, as escadas, os corredores. O MST entrou pela porta da frente, sem forçar, sem polícia para barrar. O MST entrou de peito aberto e cabeça erguida porque sabe o que tem feito nesse estado e nesse país, recuperando a dignidade de milhões de famílias sem-terra. O MST, que é responsável por quase uma centena de cooperativas e agroindústrias familiares em Santa Catarina, gerando comida para nossa mesa. O MST que tem revolucionado o método de ensino no campo e dando exemplo em áreas como a comunicação, a cultura e a arte.

Já não dá mais para chamar de “bandidos” a esse povo que tanto tem contribuído para a vida econômica e política do nosso estado. E foi por isso que a Bancada dos deputados do PT propôs a homenagem. Nesses 30 anos, a luta dessas famílias desenhou um estado diferente. Ninguém pode mais fingir que eles não existem ou que são apenas uma massa informe embaixo de barracos. O MST tem inserção significativa na vida de Santa Catarina e mereceu o reconhecimento. Não que precise disso. Essa gente já ocupou aquele espaço da Assembleia tantas vezes na força da luta, exigindo direitos. Sabe que aquela casa é do povo e a usa em consequência. Mas é sempre bom ver chegar aquela onda vermelha, entre risos e canções, ocupando os espaços do poder apenas para uma festa.

Também foi particularmente bom ver Vilson Santin, que já foi deputado estadual representando o MST, entrando no plenário cercado pela gente com a qual ele escolheu caminhar desde quando era muito jovenzinho. Um homem que nunca se perdeu nos caminhos do poder. Hoje, com os cabelos brancos, ele vai abrindo passo para uma juventude aguerrida que segue as pegadas dos antigos com a mesma valentia.

E assim, cada rosto marcado que entrou naquela casa na noite de terça-feira, foi trazendo uma lembrança. Boa. Cálida. Cheia de emoção.

O MST faz 30 anos. É forte, vigoroso, atento. O MST marca com sangue e suor a história desse estado. O MST é também Santa Catarina. Tudo isso se vê na exposição de fotos que está também na Assembleia Legislativa, marcando essa data tão importante.

E eu, que um dia cruzei as cercas desse movimento, me encolhi num cantinho, entre lágrimas, na firme certeza de que tomei a decisão certa lá nos meus distantes 20 anos. Porque o MST é muito mais do que seus erros ou os erros de algumas de suas lideranças. O MST é aquela força viva que assoma nos barracos, nas escolas rurais, nas cooperativas. A gente sem-terra que rasga o chão e faz brotar a vida. Esses são os meus.


O MST faz 30 anos e Santa Catarina disse: Obrigada! Foi bonito de ver.  

terça-feira, 28 de abril de 2015

primeiro de maio no Campeche

















O Campeche celebra a vida

O bairro do Campeche tem uma longa tradição de luta e festa. Desde os bons tempos do velho Bar do Chico, a luta pela cidade se fazia em meio à alegria, porque a vida mesma precisa de batalha e riso. Não é sem razão que o Campeche foi pioneiro na construção de um Plano Diretor para o bairro, que depois se espraiou para a cidade inteira. São mais de 30 anos de peleias para manter um jeito de viver que é simples, bonito e comunitário.

No Campeche também sobrevive ainda a pesca artesanal. São poucos barcos, mas todos os dias se pode ver pela praia a labuta difícil de quem vive do mar. A canoa à remo, a força bruta do pescador que precisa arrastar a rede com as próprias mãos, a partilha amorosa do peixe na beira da praia. Tudo isso vibra e mantém a comunidade unida.

É por isso, que no dia primeiro de maio, desde há 10 anos, as gentes do Campeche celebram a vida numa linda festa comunitária. É missa que marca o início da temporada da tainha, peixe bom que vem junto com o frio, trazer fartura para as mesas campechianas. 

Esse ano, além da missa, a Associação dos Pescadores do Campeche preparou uma intensa programação cultural que começa já na quinta-feira, dia 30, com a projeção de filme lá no Rancho da Canoa Glória, que hoje é praticamente um espaço de cultura local. E, no dia primeiro de maio, em meio às celebrações do dia do trabalhador,  o dia começa com um café comunitário no rancho, depois tem a missa e, em seguida, uma série de atividades culturais como brincadeiras e apresentações de teatro, com a Dona Bilica,  e de música.

O primeiro de maio no Campeche é um dia de encontros e delicadezas comunitárias. É quando a gente sabe que pertence a um lugar. Quando os abraços se fazem, o riso ecoa e as pessoas se encontram para comungar a vida preciosa. Tudo isso com o som do mar. Um momento em que a vida faz pleno sentido.

Quem é comunidade pode chegar. Porque comunidade são as forças vivas de um lugar, que lutam por vida digna, por beleza e pela distribuição da riqueza. 

Esperamos vocês.  

A revolução não será televisionada

Nesses dia 28 de abril, a partir das 19h, no Instituto Arco-Íris, que fica na Travessa Radcliff, 56, será exibido o filme "A revolução não será televisionada", sobre o golpe na Venezuela em 2002. Logo após haverá debate com Elaine Tavares e Jonaz Gil. A entrada é gratuita e a promoção é do CINEARTH, da Faed.


sábado, 25 de abril de 2015

Parceiros

No lançamento do livro Alfredo, pescador, organizado pela jornalista Renata Rosa. Com os parceiros de vida...








sexta-feira, 24 de abril de 2015

O livro da minha vida

Projeto da editora da UFSC busca saber o livro da vida das pessoas. O meu é "O Cortiço", de Aluísio Azevedo.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Então, Brasil


Em 1500, num 22 de abril, conta a história, chegaram os homens de Portugal nas costas de Pindorama. Vinham em busca de ouro, encontraram gentes. Pessoas de paz, dispostas a ver o outro, sem medo ou estranhamento. Deles, diz Pero Vaz de Caminha, o escrivão: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. ...A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos...Os cabelos são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar”.

Ali estavam os Pataxó, espiando a praia, vendo chegarem aquelas naves gigantes sobre o mar, e nelas, homens como eles. Não tinham lendas de deuses que viriam, por isso receberam a todos como se recebe a um desconhecido qualquer que nos acena na entrada de casa. Convidaram para entrar, visitaram as naus e trocaram presentes. Não sabiam que os que ali chegavam só queriam roubar as riquezas, o ouro, a prata. Brincavam com os estranhos, como crianças. “Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer,” diz Caminha.

A essa confiança, os portugueses revidaram com álcool e pregação. “Agora já andam mais mansos”, repete Caminha, como se lidasse com animais. E sentencia, ao rei: “Porém o melhor fruto, que nela (a terra recém-encontrada) se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”. Por salvação, que fique claro, queria dizer a submissão dos indígenas ao deus cristão e ao rei de Portugal. Assim foi sendo criado o que hoje chamamos Brasil.

Hoje, passados 515 anos ainda podemos encontrar pessoas como Caminha, que acreditam que a “salvação” do indígena está na sua inclusão à “civilização” branca. Para isso, roubam-lhes a terra, matam e desaparecem seus filhos, enquanto seguem oferecendo bugigangas. A inclusão é, de fato, uma ilusão.

A diferença é que os povos indígenas contemporâneos estão calejados. Sobreviveram à duras penas ao extermínio e já não olham para os não-índios com “mansidão”. Isso pode ser visto na semana de mobilização em Brasília. Pintados para a luta, eles exigiram o que lhes é direito: território e autonomia. E não aceitarão menos do que isso.

Num 22 de abril, os portugueses encontraram um povo desconhecido para eles. Não souberam respeitar a vida que aqui já existia. Mas, sempre é tempo. E a gente celebra, não o massacre, não a invasão, mas a possibilidade de, que sabe, um dia, realizarmos, por fim, o encontro necessário. Alguns já conseguiram. Outros ainda precisam de muito chão.


Viva o dia da terra, viva o mundo indígena, e que vivam todos aqueles que já conseguem viver em comunhão, reconhecendo os direitos indígenas e caminhando com eles na luta.