domingo, 1 de setembro de 2013

Uma bolsa estudantil


A votação da nova resolução que trata das bolsas para estudantes foi outro momento importante no Conselho Universitário da UFSC. De novo, mesmo com nova direção, a instituição mostrou que tem medo de qualquer rugosidade que se apresente na aparente “paz” vigente no campus. Como a proposta da administração apresentava avanços, mas também recuos, os estudantes entenderam que diante de um tema que lhes dizia respeito era preciso uma participação maior do que a representação minoritária que hoje têm no Conselho. Assim, exigiram uma sessão aberta. Como sempre acontece nesses casos, o tema foi polêmico, mas, pressionados pelo número expressivo de estudantes, os conselheiros aceitaram transferir a sessão para o auditório da reitoria e discutir de forma mais democrática as questões que envolviam uma mudança radical na vida dos estudantes bolsistas.

Para quem tem memória curta é bom avivar. Até o ano de 2005 as bolsas para os estudantes de graduação eram chamadas de bolsa de treinamento. Assim, os estudantes empobrecidos que precisavam da bolsa para poder se manter na universidade, eram obrigados a prestar serviços em algum lugar da instituição. No mais das vezes, eram a mão de obra necessária numa universidade carente de técnicos-administrativos em educação.  Faziam às vezes de trabalhadores. Essa situação era veementemente rejeitada pelas entidades estudantis e pelo sindicato dos trabalhadores. Muitas lutas foram então travadas, em parceria, para que isso mudasse. E foi justamente essas lutas, culminadas no dia 18 de agosto de 2005, quando estudantes e TAEs foram acusados de sequestro e formação de quadrilha, por terem ocupado o Conselho Universitário, que fizeram a proposta avançar (ver reportagem sobre o tema: http://eteia.blogspot.com.br/2012/12/condenados-por-lutar.html). Depois de toda essa batalha a bolsa passou a ser conhecida como bolsa permanência e já não havia mais a obrigatoriedade de o estudante prestar serviço.  Agora, ele tinha de se ligar a um projeto de pesquisa e atuar nele.

Foi uma vitória importantíssima de estudantes e TAEs, mas, com o passar do tempo, na prática, muito pouca coisa mudou. A bolsa permanência ainda obrigava os estudantes a se vincularem a algum projeto e, de novo, lá estavam eles, servindo de mão de obra para os setores carentes de técnicos administrativos em educação. Poucos eram os setores que garantiam aos estudantes as horas para estudo.

Por isso, a luta sempre se manteve. Qual o motivo que leva o estudante de graduação ser obrigado a uma contrapartida de trabalho, se os de pós-graduação tem outra política? Por que não haver uma isonomia nesse quesito? A impressão que se tinha era de que o empobrecido era penalizado duas vezes. Primeiro, por estar na condição de empobrecido e, segundo, por ser obrigado a realizar um trabalho em pagamento da bolsa. Isso, além de injusto, atrapalhava os estudos.

Toda essa discussão levou o governo federal a pensar numa nova política de bolsas que garantisse não só a permanência dos empobrecidos, agora em maior número por conta das políticas de inclusão, mas também a qualidade do estudo, sem a obrigatoriedade do trabalho.  Foi por conta disso que a UFSC teve de rever todo o processo de concessão de bolsas. Nesse sentido, uma comissão elaborou uma proposta que seria então debatida e aprovada no Conselho Universitário. 

Os avanços e os recuos

O avanço significativo da proposta era o de que com a nova política, o estudante de graduação não estaria mais na condição de trabalhador. Ele receberia a bolsa para estudar, e ponto.  Mas, a velha visão escravagista que parece nunca se acabar nesse país, não podia deixar o estudante apenas estudar. Havia que impor regras que tornassem muito claro a sua condição de “ajudado”. Assim, a proposta incluía um tempo máximo para o aluno receber a bolsa, índices de frequência, e outras exigências que falaremos a seguir. Para os estudantes, algumas dessas exigências eram inconcebíveis, uma vez que prejudicariam os alunos. Daí a necessidade de discutir mais e de buscar formas de convencer os conselheiros sobre o tema.

Na primeira parte do debate, na tarde do dia 20 de agosto, a sessão foi aberta. Nela, foram aparecendo os conflitos. Falaram os estudantes, falaram os técnicos, falaram os conselheiros. Mas, como sempre acontece na relação de poder entre professor e aluno, professores há que não conseguem dialogar sem se colocar numa posição de superioridade. A reunião degringolou a ponto de um conselheiro quase bater num aluno. Sem clima para prosseguir, estudantes e TAEs abandonaram o plenário, e a reunião foi suspensa. E como sempre acontece a culpa do “bafom” recaiu sobre os estudantes.

Na semana seguinte, nova reunião do conselho foi realizada para terminar o tema. Outra vez os estudantes solicitaram que a reunião fosse aberta. Mas, os conselheiros, indignados com o conflito da semana anterior, tinham restrições. Um representante do DCE teve direito a uma fala na qual tentava convencer os conselheiros sobre a necessidade de abrir o debate, permitir que mais estudantes participassem, numa sessão aberta. Segundo ele, não era legítimo que os estudantes seguissem reféns das decisões relacionadas à suas vidas tomadas em portas fechadas.  Que os conselheiros tivessem sensibilidade e ouvissem os estudantes. Alguns conselheiros riram alto, ridicularizando o estudante.

Depois, passou-se à discussão se devia ser aberta ou não a sessão. O diretor do CFH defendeu que fosse sessão fechada porque a discussão já havia sido realizada. Disse que não se sentia à vontade para uma sessão aberta e que não seria o “bafo no cangote” que deveria obrigar a isso. Também disse que eram poucos os estudantes na porta. “Se fossem cinco mil, aí sim”. Esse argumento foi rebatido pelo estudante Tito. Ele disse que não entendia qual o critério que orientava essa democracia. Em que cinco mil valiam mais do que os que estavam ali fora? Outros argumentos vieram contra e a favor, mostrando que o tema “democracia” ainda é um grande tabu. A universidade como instituição, consolidada no seu conselho máximo, mostra que não está preparada para enfrentar os conflitos naturais que se explicitam no cotidiano. Atuando na mentalidade de séculos passados, os conselheiros – maioria docente – ainda temem o debate aberto e livre. Tripudiam dos estudantes, como se eles não fossem capazes de serem sujeitos de suas existências.

Enquanto rolavam os debates sobre se a sessão abria ou não, lá fora, o grupo de estudantes aumentava. Não eram cinco mil, mas estavam reivindicando o seu direito de participar. Batiam tambores e cantavam palavras de ordem. Incomodados, os conselheiros se revezam na crítica à “desordem”.  Foram lembrados pela bancada dos técnicos que os estudantes sempre tiveram um importante protagonismo nas lutas sociais. Em 1918, na cidade de Córdoba, na Argentina, um pequeno grupo iniciou uma luta por melhoria do ensino e mais poder aos estudantes nas instâncias deliberativas. Eram poucos, mas a luta se espraiou por toda a América Latina e mudou a cara das universidades em todo o continente. Depois, em 1960, por conta de um tema prosaico, como o acesso aos dormitórios, os jovens franceses iniciaram um movimento que acabou mudando o mundo inteiro. Então, porque ser tão desrespeitoso com a luta dos estudantes por uma bolsa de estudos digna?

A presidente do Conselho, professora Roselane Neckel, se manifestou dizendo que a democracia tinha sido cumprida. “Democracia é ouvir e nós fizemos isso. Democracia se caracteriza pela maioria na votação e é o que fizemos aqui. Não devemos fazer defesas corporativas. Se faz política com argumentos que tenham veracidade”. Ficou uma certa perplexidade sobre o conteúdo desse conceito, mas, o conselho, concordando com o moralismo explícito na defesa, decidiu votar. Foram 24 votos contra 15 e a reunião seguiu a portas fechadas.  Votaram a favor da abertura, os técnicos-administrativos, os estudantes e uns poucos professores.

Os pobres precisam ser gênios

A votação que se seguiu aportou mais uma discussão bastante reveladora do caráter conservador e quase escravagista do conselho da universidade. Estava em questão o tempo máximo que o estudante bolsista poderia receber o benefício. A proposta dos estudantes, apoiada pelos técnicos, era de que a bolsa deveria ser concedida no tempo máximo que qualquer aluno tem para cursar a faculdade. A comissão havia trazido a proposta de que o estudante só poderia ter mais dois semestres além do tempo mínimo, o que obviamente não era uma boa proposta. Imaginem que um aluno bolsista roda em determinada cadeira que só é oferecida uma vez ao ano, ele atrasa um ano do curso. Assim, ao estudante pobre estava sendo colocada a pressão de ser um verdadeiro gênio, sem possibilidade de reprovar. O vice-diretor do CSE chegou a propor que não se desse nem um semestre a mais além do tempo mínimo. Ou seja, com o pobre, todo o rigor. Outra professora ainda trouxe o argumento moral de que havia muitos outros pobres querendo a bolsa e que era preciso pensar em ampliar o número de bolsas e não pensar “corporativamente”. Foi um festival de absurdos.

A partir do governo Lula muitas foram as políticas de inclusão que permitiram um número bem maior de pessoas empobrecidas entrar numa universidade federal. Vieram as cotas para negros, as cotas para escola pública, para índios e, a cada ano, essas políticas abrem mais as portas das universidades para aqueles que, entrando, precisam de políticas de permanência. Mas, ao que parece, para uma grande parte dos dirigentes, essa realidade parece não ser visível. Segue a visão elitista, patriarcal, escravagista. A impressão que se tem é de que algumas pessoas acreditam realmente que os pobres, que não têm condições de bancar os estudos, não deveriam estar ali. São um incômodo. Não conseguem ver a bolsa como um direito. Ao final, chegou-se a uma proposta de que os bolsistas não teriam o tempo máximo e sim um acréscimo ao tempo mínimo sendo considerada a média aritmética do curso. Alguma coisa como um ano a mais, no geral.  Os técnicos administrativos em educação votaram contra. Entendiam que os bolsistas deveriam ter o mesmo prazo que qualquer outro aluno.

Depois ainda houve debates sobre dois pontos que envolviam aprovação e frequência e tetos máximos de benefícios. De novo, os velhos argumentos do século XIX. Os estudantes empobrecidos, para seguirem recebendo a bolsa devem ter 75% de frequência e aprovação em pelo menos 50% das disciplinas. Mas, não foi fácil chegar até aí. Muitas foram as opiniões leoninas sobre as regras para os pobres. De novo, a necessidade de serem gênios e serem submetidos ao rigor excessivo, como se eles tivessem de ser penalizados por estarem ali “atrapalhando o tráfego”. Defender que os estudantes bolsistas tivessem o mesmo tratamento que os demais era chamado de “defesa pequeno-burguesa”, seja lá o que for que isso signifique.

E assim terminou mais uma sessão do Conselho Universitário da UFSC, mostrando que ainda há muito que avançar na luta por uma universidade realmente libertadora, que respeite seus estudantes e que saia da síndrome da idade média. É espantoso observar alguns educadores explicitando posições que poderiam servir num senhor de escravos. Parece haver uma grande incapacidade de compreender que os tempos estão mudando, que a universidade vai sendo tomada por garotos e garotas da classe trabalhadora, que há uma parcela crescente de gente capaz de batalhar pelos seus direitos. Mas, ainda segue a igual incapacidade de lidar com o conflito de maneira aberta, no cara a cara. A democracia ainda engatinha na nossa UFSC.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Rua de areia





A rua onde moro é sempre cheia de surpreendente ternura. Nela ainda passeiam, sem medo, as galinhas caipiras e os cachorros. Vez ou outra passa o cavalo, carregado de meninos. Por toda a sua extensão também é possível afundar o pé na areia. Não há lajotas, nem asfalto. Mesmo nos dias frios, de chuva miúda, os meninos acorrem ao portão buscando fios para a pandorga e pedaços de pano para a rabiola. Depois, saem correndo, pés descalços, empinando a pipa, cheios de infância e gratidão pela vida. A rua onde moro fica num cantinho do Campeche, esse bairro, ainda jardim, onde a gente tem puro prazer de viver.  

Encontro de Jornalistas, mais uma vez, amordaçado


Por Mario Sousa  - Diretor do SJRJ

A atual direção da  Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), com a realização do XIX  Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Imprensa, no Rio,   mais uma vez,  perdeu a  oportunidade de fazer um encontro para debater com seriedade os problemas que afetam os jornalistas em Assessoria de Imprensa no País,  como a precarização da profissão,  a pluralidade das questões regionais e a diversidade do pensamento na Comunicação.

Dessa vez, a Fenaj se superou. Além de acabar com os grupos temáticos de debate, organizou mesas meramente expositivas, e, como em todos os últimos encontros, predominou a imposição das teses guias  e o controle imperativo do presidente da Fenaj. 

O encontro foi burocrático, engessado, sem o calor do debate, sem diálogo, sem o contraditório, sem a manifestação livre e democrática das idéias. E, pasmem, o presidente da Fenaj, Celso Scroder, agrediu grosseiramente o jornalista Cláudio Monteiro, chamando-o de moleque, pelo simples fato dele cobrar os 50% de abatimento para os aposentados nas inscrições do Enjai, proposta aprovada no Congresso do Acre. 

Na plenária das apresentações das teses, prevaleceu a decisão ditatorial e qualquer tentativa de questionamento, era desqualificado pelo   grupo da Fenaj.

Teses sobre Meio Ambiente, Violência contra os jornalistas, Fim das teses guias assim, apresentadas pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, assim  como uma tese sobre a precarização das condições de trabalho, apresentada pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais,  foram consideradas fora do contexto e transferidas para o Congresso Nacional de Jornalistas, em Alagoas.

O  mais lamentável é a submissão  da maioria dos delegados dos sindicatos regionais de todo o Brasil. Ser aliado não pressupõe a perda total de identidade e do pensamento discordante.

 Como este modelo de Encontro, é melhor a Fenaj transformá-lo apenas num  passeio turístico e repassar para os delegados e observadores suas propostas e teses já aprovadas.

É mais honesto, mas nem por isso, também, repudiável!

Mário Sousa é Diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e Delegado Junto a Fenaj. Participou do Encontro como delegado do Sindicato do Estado do Rio.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Precisamos dos cubanos?


médico cubano: está onde ninguém quer ir

Eu aprendi com Enrique Dussel que talvez o único imperativo ético universal seja a vida. Mas, não uma vida qualquer. A vida daquele que é vítima do sistema que o oprime e o envilece. É esse ser que temos de defender com unhas e dentes, para o que vier. Todos os dias, nos deparamos com ele, na televisão, na rua de casa, no mercado, ao virar a esquina. O caído, o desgraçado, o fugitivo, o assustado. A maioria das pessoas faz como naquela linda parábola de Jesus: olha, e passa adiante. Poucos são os que se curvam e acolhem o que está no chão. E é bom que se diga que os empobrecidos da terra não o são por sua culpa. A maioria está nessa condição porque alguém está lhe sugando a vida. Alguém está enriquecendo a custa do outro. É a máxima do capitalismo. Só que é mais fácil permanecer com o véu da alienação. Conhecer dói.
Noite após noite a televisão – esse olho insone  - joga na nossa cara a dor do mundo. Mas, de maneira espetacular, consegue virar o jogo. Os meninos negros, que são assassinados como moscas nas periferias das grandes cidades, não aparecem como vítimas. Eles são os “monstros” que andam por aí a fazer maldade. Ninguém diz o porquê deles ficaram assim, se é que ficaram mesmo. E os bons cristãos fazem o “pelo sinal” e agradecem pela polícia nos livrar dessa “corja”.  Também vemos os “terroristas”, que podem ser os palestinos, os sírios, os iraquianos, os afegãos, sempre serão aqueles que estarão vinculados a algum plano do império estadunidense para vivenciar a “plena democracia”. Não importa se para isso for necessário promover farsas macabras como a do 11 de setembro ou o assassinato de crianças inocentes com armas químicas. Tudo vale a pena porque a “democracia” não é pequena. E a classe média, aquecida em seus cobertores, esfrega as mãos e agradece pelo império fazer a defesa de seu castelo de sonhos, “o mundo livre”.

Esses mesmos falsos burgueses, que pensam estar seguros com seus planos de saúde, agora se levantam contra a vinda dos médicos cubanos. Acreditam na revista Veja. Creem firmemente que essa gente solidária nada mais é do que um povo escravizado que teme desobedecer a Fidel.   Não sabem nada de Cuba, de sua história, da coragem de seu povo em estar há mais de 60 anos enfrentando o maior império da terra, e vencendo. Não sabem que na ilha socialista qualquer pessoa que queira, pode ser médico, engenheiro ou padeiro. Depende apenas de sua vontade. Não sabem que são esses profissionais que se formam na solidariedade ao caído, ao oprimido, que se deslocam para os mais terríveis lugares da terra unicamente para salvar e acolher. São esses jovens médicos cubanos os que estão no Haiti, curando feridas, enquanto os nossos jovens vão para lá de arma em punho, servir de cão de guarda ao império.

Agora vem essa polêmica por conta da vinda dos cubanos. De novo o véu da alienação. Ninguém se pergunta por que um país como o nosso, tão rico, tão cheio de bênçãos, precisa desses abnegados cidadãos? Se os médicos cubanos são aqueles que partem para os confins do mundo, onde a dor do outro é tão intensa que mais ninguém quer ver, por que precisariam vir para o Brasil? Que porcaria de país é esse que arrota caviar, mas precisa dos médicos cubanos, esses que vão aonde ninguém quer ir?  

Pois esse é um país no qual boa parte dos médicos sente nojo dos pobres, sente medo, sente asco. E por conta disso os deixam morrer nas ruas, sem ajuda. Ou olham, sem sequer levantar da cadeira, uma pessoa ter um ataque do coração. Ou são aqueles que sequer levantam os olhos para o doente à sua frente num posto de saúde.  Os que não apertam a mão, os que não tocam, não examinam, não reconhecem o enfermo como ser humano precisando de consolo.

Esse é um país aonde os jovens recém-formados se recusam a ir para o interior, para os lugares longínquos, para as selvas, para as favelas, os bairros de periferia. Nem mesmo altos salários os comovem. Deve ser, portanto, um problema de origem. Talvez um problema de classe. Quem é que nesse país pode se formar em medicina? Como pode um jovem da periferia ser médico se o curso exige tempo integral e custa os olhos da cara, mesmo numa escola pública? Pois esse é um país que forma médicos, dentistas, engenheiros, na sua maioria de classe alta. É, portanto, bem diferente de Cuba, que incentiva e garante o ensino dessas profissões, e por ter tantos profissionais pode mandá-los pelo mundo para que ajudem quem nada tem.   
Assim que a vinda dos queridos irmãos cubanos para o Brasil, em vez de causar tanta indignação, deveria suscitar um alerta. Se temos tantos médicos como ficou parecendo nas passeatas dos “de branco”, por que não os encontramos onde eles têm de estar? Por que precisamos da ajuda dos cubanos, se eles estão acostumados a atuarem em lugares perdidos de toda a esperança, como os confins do continente africano, ou as aldeias andinas, ou os empobrecidos países do Caribe, como é o caso do Haiti? Em que medida o país do pré-sal, a quinta economia do mundo, se compara a esses tristes lugares onde só a solidariedade cubana é capaz de chegar?

Essas perguntas é que deveriam ser feitas por nós. O que é a medicina num país capitalista? Ela existe para salvar a vida, para dar conforto ou apenas para fazer girar a roda do lucro das farmacêuticas e dos mercadores da saúde? Por que não temos uma medicina preventiva? Por que não há médicos nos postos de saúde? Por que não estão eles nos hospitais, nas emergências, nas pequenas cidades do interior, no campo?  Onde se esconde toda essa gente que agora anda a vociferar nas ruas?

Sim, nós não deveríamos precisar dos médicos cubanos. Nossa juventude deveria ter acesso às escolas de medicina, de odontologia, de veterinária. Deveríamos formar milhares e milhares de profissionais da saúde, para que cuidassem das gentes de todo o país. Deveríamos ter universidades de massa, nas quais os filhos do povo pudessem se formar com qualidade. E qualquer guri, mesmo aquele que vive lá no interior do Acre, deveria poder fazer realidade o sonho de ser “doutor”. Mas, não é assim. Os médicos que temos são esses que vemos na televisão dizendo que se vierem os cubanos eles não vão ajudar quando eles errarem. Ou seja, que morra o vivente, apenas para provar que estão certos.

É certo que temos também muitos profissionais médicos que se assemelham aos cubanos, que dedicam suas vidas ao juramento que fizeram de cuidar, acolher, curar. Esses, sabemos reconhecer de apenas uma mirada. Mas, ainda são minoria. Para nossa desgraça, o que aparece são esses que vemos na TV a bradar contra os cubanos, mas não contra o estado de abandono que está a população. E é isso que torna tudo ainda mais sórdido. Porque pessoas há que lhes dão razão, e não são poucas. Essas mesmas pessoas que, portando um plano privado de saúde, acreditam estar a salvo. Não estão. Mas, ainda assim, compactuam dos preconceitos, dos absurdos, da alienação e da mentira.

Eu realmente não queria que os médicos cubanos viessem para cá. Queria ter um país que não precisasse dessa ajuda solidária. Mas, ocorre que, em alguma medida, e em tantos lugares, somos tão desprotegidos como os irmãos do Haiti ou de alguma longínqua aldeia africana. É certo que os médicos cubanos são só pessoas, não fazem milagres. Mas, não há dúvidas de que a medicina que se ensina e pratica na ilha caribenha se difere em muito da nossa. Ela pensa o ser como uma vida integral, alguém que tem nome, sobrenome, sonhos, esperanças. Não é um dado na ficha, um inoportuno, um zé ninguém. E é por conta disso que quero receber essa gente única com todo o amor que há nessa vida. Eles saem de suas casas para fazer o que nossos profissionais deveriam fazer. Rogo a todos os deuses que eles tragam, mais do que essa solidariedade abissal, também o germe da rebeldia, para que nosso povo possa compreender que já é chegada a hora de fazermos a transformação. E que a gente avance para um país que não precise dos cubanos, um país que possa ser ocupado por nós mesmos. Mas, para isso, haveremos de mudar a universidade, mudar o país, e sair desse sistema que mercadeja com a saúde e a vida.

Os cubanos podem até não salvar todas as vidas, mas, não duvido, eles serão capazes de segurar a mão do que padece e dizer: “não tema, eu estou aqui”. Porque são feitos de outro barro. Socialista.


Uso indiscriminado de remédios em crianças

São cada vez mais frequentes os casos de medicalização de crianças com remédios que melhoram a atenção ou fazem com que elas fiquem mais concentradas. Um desses remédios é a Ritalina, quase uma epidemia nacional. No Programa Campo de Peixe, que levamos ao ar todos os sábados, na Rádio Campeche, conversamos com a psicóloga Ana Claudia de Souza sobre o assunto.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ariano Suassuna: um brasileiro de valor

Em passagem pela cidade de Florianópolis, o escritor Ariano Suassuna concedeu entrevista ao professor Nildo Ouriques, do Iela. Na conversa Ariano fala da cultura brasileira e do seu trabalho.

 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Egito e a destruição


A lógica da "democracia" cantada em verso e prosa pelo mundo ocidental chegou ao Egito com a queda de Mubarak.  O povo foi às ruas, denunciando a ditadura, exigindo direitos. Muita gente morreu por isso, antes, durante e depois das grandes lutas. Obviamente havia a necessidade de mudanças e o povo egípcio as queria. Mas, como sempre acontece, a mão da "democracia" ocidental logo se fez notar, com ajuda financeira, logística e política. O exército egípcio, ainda eivado de remanescentes do velho regime, foi quem preparou a transição. E foi preciso mais luta e povo na rua para que eles soltassem o poder, realizando finalmente as eleições.

Saídos de uma longa ditadura, os lutadores egípcios tiveram de se deparar com uma eleição nacional  que exigia organização em todo o país. Muitos grupos políticos não conseguiram lograr essa articulação, que exigia tempo e dinheiro. O resultado foi que os mais votados acabaram sendo o representante do velho governo, por razões óbvias, e o da Irmandade Muçulmana, que acabou eleito. Ocorre que a Irmandade sempre esteve organizada nacionalmente e ainda contava, em cada povoado, com a ajuda vinda das mesquitas.   As forças que alavancaram a luta por mudança ficaram à margem.

Vencidas as eleições pelo representante da Irmandade Muçulmana, as coisas pareciam caminhar no rumo de uma abertura política. Mas, passado um ano de governo, o presidente Mursi decidiu fazer mudanças na Constituição, incluindo leis baseadas no livro sagrado dos muçulmanos. Isso acirrou alguns grupos seculares que queiram ver o Egito avançar para um estado laico.

Segundo o jornalista inglês, Roberto Fisk, a violência desatada na última semana no Egito cria um fosso imenso na sociedade, podendo levar a uma longa guerra civil. O golpe de estado aplicado pelos militares destruiu todas as esperanças de ver o país avançar. Para boa parte dos egípcios, os muçulmanos chegaram ao poder de forma limpa. Não há motivos plausíveis para o golpe. A irmandade tem sobrevivido no Egito, ora apoiando a ocupação britânica, ora apoiando o exército local. Agora, está de novo na berlinda, mas tendo já ocupado um espaço de poder que pôde ser bem articulado nacionalmente.

O fato é que o destino do povo egípcio está por se cumprir, agora cindido em lutas internas. Muçulmanos incendiaram igrejas cristas, e existem muitas no Egito. Cristão se armam contra os muçulmanos. Abriu-se uma chaga dentro da lógica da religião, o que torna também o processo ainda mais complicado, uma vez que as duas religiões sempre conviveram numa certa paz. Há organizações novas, buscando mudanças e muitas das suas lideranças certamente perecerão nos protestos que têm sido violentamente esmagados. Os mártires já se contam aos milhares. É muita violência. E, como pano de fundo, assomará cada dia mais a ideia de que os árabes, a saber os muçulmanos, são potencialmente "terroristas". Tanto que o exército que perpetrou o massacre contra o povo, acusa a irmandade de fomentar a resistência e levar seus filhos à morte. Uma inversão total dos valores.

Estive no Egito quando se completava um ano da revolução. Havia esperança, orgulho. Os filhos do Egito estavam dispostos a dar sua vida para defender a liberdade nascente e para defender seus tesouros culturais. Abaixo segue o depoimento de um desses lutadores sociais, Ibrahim, que é também guia turístico. Ele dedicava parte do seu dia - assim como outros colegas - a cuidar dos museus e das bibliotecas do país, para evitar que as riquezas fossem roubadas. Segundo ele, nesses momentos de crise e violência, os ladrões que surrupiam os tesouros antigos são justamente as autoridades oficiais, e não o povo. São essas atitudes, de cuidado com o país, que nos levam a pensar sobre o terrível destino que aguarda toda essa gente que sonha com a autonomia.