quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ariano Suassuna: um brasileiro de valor

Em passagem pela cidade de Florianópolis, o escritor Ariano Suassuna concedeu entrevista ao professor Nildo Ouriques, do Iela. Na conversa Ariano fala da cultura brasileira e do seu trabalho.

 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Egito e a destruição


A lógica da "democracia" cantada em verso e prosa pelo mundo ocidental chegou ao Egito com a queda de Mubarak.  O povo foi às ruas, denunciando a ditadura, exigindo direitos. Muita gente morreu por isso, antes, durante e depois das grandes lutas. Obviamente havia a necessidade de mudanças e o povo egípcio as queria. Mas, como sempre acontece, a mão da "democracia" ocidental logo se fez notar, com ajuda financeira, logística e política. O exército egípcio, ainda eivado de remanescentes do velho regime, foi quem preparou a transição. E foi preciso mais luta e povo na rua para que eles soltassem o poder, realizando finalmente as eleições.

Saídos de uma longa ditadura, os lutadores egípcios tiveram de se deparar com uma eleição nacional  que exigia organização em todo o país. Muitos grupos políticos não conseguiram lograr essa articulação, que exigia tempo e dinheiro. O resultado foi que os mais votados acabaram sendo o representante do velho governo, por razões óbvias, e o da Irmandade Muçulmana, que acabou eleito. Ocorre que a Irmandade sempre esteve organizada nacionalmente e ainda contava, em cada povoado, com a ajuda vinda das mesquitas.   As forças que alavancaram a luta por mudança ficaram à margem.

Vencidas as eleições pelo representante da Irmandade Muçulmana, as coisas pareciam caminhar no rumo de uma abertura política. Mas, passado um ano de governo, o presidente Mursi decidiu fazer mudanças na Constituição, incluindo leis baseadas no livro sagrado dos muçulmanos. Isso acirrou alguns grupos seculares que queiram ver o Egito avançar para um estado laico.

Segundo o jornalista inglês, Roberto Fisk, a violência desatada na última semana no Egito cria um fosso imenso na sociedade, podendo levar a uma longa guerra civil. O golpe de estado aplicado pelos militares destruiu todas as esperanças de ver o país avançar. Para boa parte dos egípcios, os muçulmanos chegaram ao poder de forma limpa. Não há motivos plausíveis para o golpe. A irmandade tem sobrevivido no Egito, ora apoiando a ocupação britânica, ora apoiando o exército local. Agora, está de novo na berlinda, mas tendo já ocupado um espaço de poder que pôde ser bem articulado nacionalmente.

O fato é que o destino do povo egípcio está por se cumprir, agora cindido em lutas internas. Muçulmanos incendiaram igrejas cristas, e existem muitas no Egito. Cristão se armam contra os muçulmanos. Abriu-se uma chaga dentro da lógica da religião, o que torna também o processo ainda mais complicado, uma vez que as duas religiões sempre conviveram numa certa paz. Há organizações novas, buscando mudanças e muitas das suas lideranças certamente perecerão nos protestos que têm sido violentamente esmagados. Os mártires já se contam aos milhares. É muita violência. E, como pano de fundo, assomará cada dia mais a ideia de que os árabes, a saber os muçulmanos, são potencialmente "terroristas". Tanto que o exército que perpetrou o massacre contra o povo, acusa a irmandade de fomentar a resistência e levar seus filhos à morte. Uma inversão total dos valores.

Estive no Egito quando se completava um ano da revolução. Havia esperança, orgulho. Os filhos do Egito estavam dispostos a dar sua vida para defender a liberdade nascente e para defender seus tesouros culturais. Abaixo segue o depoimento de um desses lutadores sociais, Ibrahim, que é também guia turístico. Ele dedicava parte do seu dia - assim como outros colegas - a cuidar dos museus e das bibliotecas do país, para evitar que as riquezas fossem roubadas. Segundo ele, nesses momentos de crise e violência, os ladrões que surrupiam os tesouros antigos são justamente as autoridades oficiais, e não o povo. São essas atitudes, de cuidado com o país, que nos levam a pensar sobre o terrível destino que aguarda toda essa gente que sonha com a autonomia.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Todo apoio ao povo do Egito





Terríveis imagens do massacre que vitimou mais de mil pessoas no Egito (dados ainda não oficiais). Há pouco tempo, quando estive lá, conversando com as pessoas, elas estavam cheias de esperança. A maioria sabia que a Irmandade Muçulmana não era a melhor das opções, que havia ganhado as eleições por estar melhor organizada num país onde toda a possibilidade de organização tinha sido podada. Mas havia a vontade de avançar, de fazer do Egito um lugar de alegria, de paz, de felicidade. Havia o desejo de construir novas possibilidades, novos partidos, novas formas de organização. Com o golpe, as coisas se complicaram. Agora, o massacre de civis, a gente simples que estava se manifestando em favor do presidente deposto. A resposta dos milicos foi a violência e a morte.De novo, o Egito mergulha na escuridão. 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

No Egito, a velha cidade de Alexandre, o grande







Na estrada que vai do Cairo até Alexandria tudo o que se vê por quilômetros é deserto. Mais perto da cidade começam as plantações de uva e já no perímetro urbano aparecem as chaminés, possivelmente relacionadas à exploração do gás natural. Sua orla mediterrânea, de mais de 30 quilômetros, é de uma beleza imensa. Impossível não vislumbrar, olhando para aquela imensidão azul, o mítico farol que guiou os barcos por mais de mil anos, uma das maravilhas construídas pelos gregos que dominaram a região. Ele não está mais lá, mas a aura encantada da beleza permanece.  A cidade, que leva o nome de Alexandre, até hoje vive da sua lembrança.

Os grandes períodos de ouro do Egito já tinham passado quando Alexandre chegou àquele pedaço de terra, em 332 a.C,  no centro norte do país. Quem tinha o domínio da região era o rei Persa Dário III. Na beira do mar restara apenas um povoado de pescadores chamado Rakotis. Mas, o lugar já era habitado desde há 3.000 a.C, quando levava o nome de Al Farma, e em 1.200 a. C. chegou a ter um porto, criado por Ramsés II. Depois, decaiu e foi sumindo. O espaço foi escolhido a dedo por Alexandre, depois de vencer os persas, por ser um lugar abrigado das variações do Nilo, embora perto o bastante para ligar o grande rio ao mar. Por isso Alexandre mandou reconstruir o porto, que foi uma das mais importantes ligações dos vários reinos do mundo antigo, recebendo navios de toda a orla mediterrânea e atlântica (África), além de Índia e China. Também ali foi construída a famosa biblioteca que reunia todo o saber do mundo da época e chegou a ter mais de cinco milhões de livros, cerca de 700 mil rolos de papiro. A proposta era ter no lugar um exemplar de cada manuscrito escrito sob a terra.

Alexandre teve pouco tempo para desfrutar da cidade que criou. Logo partiu para novas campanhas de guerra, deixando Alexandria sob os cuidados de seus comandados. Quando ele morreu, em 323 a.C, um de seus generais, Ptolomeu, decidiu coroar-se imperador, mas apesar de tudo, seguiu governando a cidade com espaço para a arte, a educação e a beleza, bem ao gosto de Alexandre, inaugurando uma dinastia, a dos Ptolomeus, que iria ser muito importante para o campo do conhecimento. Foi no seu reinado que a grande biblioteca foi criada. A cidade viveu então sua fase mais opulenta, com grandes palácios, museus, bibliotecas, praças, mercados, banhos e ginásios. Naquele período toda a região já tinha bem mais a cara grega que egípcia. Esses, os nativos, ficavam confinados a um pequeno bairro de pescadores, um dos mais pobres da cidade. A cidade tinha mais de 150 mil habitantes e era toda asfaltada com basalto negro.

O sucessor de Ptolomeu I, o II, que governou o Egito de 285 a.C a 246 a.C, foi mais um dos grande incentivadores do saber. Tanto que a Escola de Alexandria, fundada pelo seu antecessor, chegou a ser um dos mais importantes centros de conhecimento do mundo. É a ele também que se atribui a construção do famoso farol, visto como uma das maravilhas daquele tempo, iluminando o mar por mais de mil anos, de 280 a.C até 1320, quando foi destruído. A cidade só vai perder o seu fulgor quando, sob o reinado de Cleópatra (a última da linhagem dos Ptolomeus), cai nas mãos dos romanos em 46 a.C.  

Essa também é outra história que produz todo o encantamento da cidade de Alexandria. Foi bem ali que Cleópatra aprisionou o coração do conquistador Júlio César e depois o de Marco Antônio, até a derrocada final, dela mesma e do Egito.

É por isso que quando se anda pelas ruas da cidade é possível sentir do peso dessa história milenar. Fora da região central e da orla, Alexandria parece uma grande escavação a céu aberto. Até hoje ninguém encontrou o corpo da mítica rainha, e sabe-se que a cidade tem sob seus pés outras centenas de cidades, monumentos e templos ainda por serem encontrados. Os arqueólogos e pesquisadores estão por toda a parte e em cada virada de esquina pode-se dar de cara com um entulho. Não é sujeira, é trabalho de arqueologia. Dizem os moradores que bem embaixo de onde está erguida a cidade nova existem palácios e infinitas riquezas. Até mesmo o corpo de Alexandre, o fundador da cidade, há quem diga que está ali. A cidade é envolta em beleza e mistério.

Na beira do mar está construída a nova biblioteca, terminada em 2002, que é gigante, embora não chegue aos pés da criada pelos Ptolomeus. Tem quatro bibliotecas especializadas, laboratórios, planetário, 200 salas de estudos, museu de ciências e de caligrafia, além de uma biblioteca cibernética. Ali estão mais e dez mil livros raros, cem mil manuscritos, 300 mil publicações periódicas, 200 mil cassetes de áudio, 50 mil vídeos e quatro milhões de livros. O prédio tem uma arquitetura moderna e impressionante. Bem na frente, uma cabeça de Alexandre em mármore homenageia o fundador da cidade. Na parede da frente estão gravadas as letras de todos os alfabetos das civilizações antigas e modernas numa tentativa de recuperar a ideia dos seus criadores: reunir todo o conhecimento do mundo. Isso ainda está longe de acontecer já que bibliotecas como a do Congresso dos EUA e da França tem muito mais livros do que ali, mas o certo é que o fato de saber que a cidade de Alexandria já abrigou praticamente todo o conhecimento do mundo antigo dá um peso quase mítico ao prédio.

De noite, quando o vento sopra forte na beira do mar, e as luzes vão marcando a orla, a gente volta os olhos para o infinito e se perde nas redes da história. Sussurram os antigos egípcios, Alexandre, Cleópatra e, mesmo sem querer, a gente se transporta para aquele tempo tão longe. Na vida real, da Alexandria moderna, os egípcios seguem com sua lida diária, trabalhando, procurando o passado, tentando construir um país novo. No caminho da orla é surpreendente como convivem ainda casas velhíssimas com grandes mansões, prédios moderno com antigos e corroídos prédios de apartamentos onde a classe trabalhadora se espreme. Mas, segundo dizem, essa mistura está perto de acabar. A região perto do mar vai sendo cada vez mais especulada e muitos dão como certo que os pobres acabarão expulsos. Há que acompanhar o desenrolar dessa história porque afinal, o Egito é essa turbulência, essa beleza, esse mundo em revolução. 









sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Vá para casa ou preso!


Conhecida como uma das capitais europeias mais descoladas e abertas do mundo, Londres vive seu momento “treva” a partir de uma campanha realizada pelo Ministério do Interior britânico. Dispostas a se livrar dos indesejáveis imigrantes, as autoridades criaram uma campanha que tem como lema uma violenta ameaça: “Vá para casa ou enfrente a prisão”. Assim, desde há semanas circulam pelos bairros londrinos várias camionetas com grandes cartazes contendo essa advertência, com o “singelo” discurso de ajuda aos que estão em situação ilegal. A proposta das autoridades é amedrontar os imigrantes com a ameaça de prisão e fazer com que eles se apresentem para uma deportação “sem traumas”.

O tema virou assunto nos jornais e mesmo os liberais estão de acordo de que esta é uma campanha estúpida e ofensiva.  Até Nigel Farage, líder do Partido da Independência, que defende a ideia de que é preciso frear a imigração e fechar as portas à União Europeia declarou que a proposta da campanha é repugnante e geradora de medo.

Ainda assim, passadas mais de duas semanas, as camionetas seguem rodando, visando “limpar” as ruas daqueles que chegam a Grã Bretanha para buscar vida melhor. Entre os “indesejáveis” estão principalmente os habitantes de antigas colônias inglesas na África e Ásia que, de uma forma ou de outra, estabeleceram laços com a metrópole. Mas, o recado é claro: os britânicos podem invadir as terras, roubar as riquezas e tudo mais. Mas os povos invadidos não podem se arvorar a querer viver em Londres ou outras cidades britânicas. Para esses resta o que se vê: ameaças, prisão e deportação.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Uma mudança necessária : 30 horas


A batalha pelas 30 horas na UFSC e em todas as universidades do Brasil não é uma novidade para os trabalhadores. Desde há anos que os técnico-administrativos incorporaram na sua pauta de luta a ideia de redução de jornada, uma luta mundial. Todos os avanços tecnológicos criados pelo homem permitem essa redução e não há argumento sólido capaz de sustentar que uma pessoa precise ficar oito horas no seu local de trabalho para cumprir suas tarefas. Só mesmo a ganância e a superexploração podem servir de motivo para isso. No caso do serviço público, onde em última instância o patrão é o governo, apenas a eterna submissão ao capital e ao modelo de dependência é o que impede de garantir essa redução de jornada aos trabalhadores.

Ainda assim, a luta tem sido grande. Ora mais forte, ora menos, mas constante. Tanto que o governo teve de admitir, através de um decreto lançado em 2003 (decreto 4.826), que em caso de os setores permanecerem abertos por 12 horas, o turno de seis horas estaria garantido. É lei. Não há mais o que discutir. Por outro lado, no caso das universidades, imperam os sofismas. Boa parte dos reitores insiste que a interpretação da lei não é tão simples assim e admite liberar os turnos de seis horas apenas para setores como os do Hospital Universitário, argumentando que setores administrativos não estariam enquadrados no decreto. Mas, para uma pessoa de mediana inteligência, a lei se mostra muito clara. Se o setor abriu 12 horas, turno de seis.

A universidade é uma instituição que atua em três períodos do dia: manhã, tarde e noite. Logo, todos os setores são passíveis de fazer turnos de seis horas, desde que mantenham 12 horas de atendimento. Para os usuários, essa opção seria absolutamente necessária. Quem já não deu com a cara na porta quando foi buscar um documento no horário do almoço? Pois a universidade, oferecendo os turnos de seis horas, manteria os setores abertos durante todo o dia e também à noite, quando muitos estudantes que trabalham poderiam resolver suas questões.

Mas, o que é uma reivindicação histórica dos trabalhadores de todo mundo, enfrenta barreiras gigantescas na universidade. Na Federal de Santa Catarina muitos são os motivos que levam a uma parcela significava dos trabalhadores a não querer essa redução para seis horas.

Privilégios – uma herança maldita

A UFSC nasceu em plena ditadura militar e desde então seus dirigentes tem consolidado uma forma de atuar que beira ao conhecido coronelismo, típico das regiões rurais. Ou seja: o dirigente assume as funções de “pai”, auxiliando os trabalhadores em questões pessoais e exigindo deles lealdade no local de trabalho. Essa lealdade se concretiza no apoio e no voto que tem garantido a manutenção no poder de praticamente o mesmo grupo político ao longo de quase 60 anos de existência. Os trabalhadores agem no cálculo, assumindo a servidão voluntária. São leais aos chefes e, com isso, garantem alguns privilégios.
Uma dessas moedas de troca é a diferenciação no horário de trabalho. Um número expressivo de trabalhadores já realiza um único turno de trabalho, geralmente atuando das oito ao meio dia ou das duas às seis. Muitos desses trabalhadores acabam sendo radicalmente contra a proposta das seis horas, pois, com isso, teriam de trabalhar duas horas a mais do que já fazem hoje. Essa proposta também esbarra nas chefias. Afinal, se todos os trabalhadores passassem a fazer seis horas, qual seria a moeda de troca que poderiam usar? Perderiam o controle sobre os “favores” que prestam e, com isso, já não teriam como garantir a lealdade.

Não é sem razão que o trabalho do grupo Reoganiza, criado na última greve dos trabalhadores, em 2012, encontre tanto ranço e barreira. A proposta, tirada em assembleia geral, garantiu que fosse criada uma comissão, envolvendo técnicos e representantes da gestão, para fazer um estudo do redimensionamento da instituição. Na prática, era conhecer a situação das vagas nos locais de trabalho e observar se havia a possibilidade de aplicação das seis horas, com dois turnos entre os trabalhadores. Para os técnicos-administrativos a proposta do Reoganiza era clara: mostrar que a universidade pode fazer as tão esperadas 30 horas. Mas, tanto para a gestão quanto para os que temem a perda do controle sobre os trabalhadores, essa não é uma questão fechada. Terminado o relatório, a grande batalha pelas 30 horas ainda nem começou.

30 horas muda a organização da vida na universidade

Se para o grupo que administrou a UFSC por décadas – com um único respiro em 1993 -  as 30 horas elimina uma boa moeda de troca que garante a lealdade de grande número de trabalhadores, para a atual gestão (que não faz parte do velho conservadorismo), essa proposta não diz coisa alguma. Nota-se um discurso cuidadoso e muito relutante. Talvez porque na medida em que se instale o processo das 30 horas, aconteça também grande resistência por parte dos trabalhadores já citados, que hoje cumprem apenas quatro horas. Nada garante que isso não venha a ser um entrave para o andamento dos trabalhos na UFSC.

É fato que a aceitação dos turnos de seis horas trará algumas mudanças importantes, e uma delas é uma nova lógica administrativa, a qual também enfrentará muita resistência. Os trabalhadores teriam de reaprender os processos, uma vez que o colega do turno seguinte precisaria dominar o serviço do que o antecedeu. Afinal, não se admitiria que um determinado serviço só pudesse ser prestado num dos turnos. Isso significaria a necessidade também de um esforço grande de capacitação. A considerar a lentidão com que os trabalhadores acostumados a pequenos acordos e privilégios têm de consolidar mudanças, não será um trabalho fácil para ninguém. Nesse primeiro ano de mandato da gestão Roselane/Lúcia não tem sido difícil perceber os entraves administrativos existentes, e isso que ainda nem aconteceu qualquer mudança. 

Há uma parcela de trabalhadores que perderam cargos e privilégios que realiza sistemática oposição. Também não são poucas as reclamações de trabalhadores que foram removidos de seus velhos locais de trabalho de maneira forçada, sem diálogo, e que se tornaram críticos ferozes. E, nesse universo, a administração tem tido dificuldades em lidar com essas questões, seja por inexperiência ou por arrogância. O fato é que há muita insatisfação. Assim, mudar os processos administrativos com as 30 horas pode aprofundar ainda mais os descontentamentos. A pergunta que fica, então, é: haverá a administração de enfrentar isso? Saberá atuar em consequência, garantindo a participação dialogada, a capacitação? Essa é uma forte dúvida.

Também é importante perceber que mesmo aqueles trabalhadores que hoje trabalham oito horas e esperam pelo turno de seis, haverão de encontrar dificuldades na transição. Não será coisa fácil. Como já foi dito, cada trabalhador precisará passar por um longo processo de readaptação, uma vez que precisará atuar em sintonia com o colega do turno seguinte. E isso não poderá ser feito sem muito trabalho e muita disposição de mudança. Os mais novos, que chegaram nos últimos concursos talvez estejam mais propensos a essas mudanças, porque ainda não estão enraizados em velhos hábitos, mas é certo que a mudança será lenta e precisará de muita conversa, democracia, compreensão e disponibilidade de mudança. Tanto para quem administra como para quem cumpre o trabalho. Talvez por isso a ideia das 30 horas caminhe tão lentamente.  

O futuro

O trabalho desenvolvido pelo grupo Reorganiza foi um bom esforço de diagnóstico da situação funcional da UFSC.  Agora tudo está no papel. As condições para as 30 horas já foram apresentadas. É possível fazer. Resta a decisão política. E essa não virá facilmente. Muitos são os interesses em jogo. Há um grupo conservador que não quer perder sua moeda de troca. Há grupos que simplesmente não querem ver a atual gestão bancar essa proposta. E existem os limites da própria gestão que não parece segura em garantir a transformação, seja porque vai encontrar muita oposição, seja porque não sabe mesmo onde isso poderá dar.

Mas, ainda assim, o certo é que essa mudança precisa ser feita e já nem é mais uma questão política. Passa a ser uma necessidade de adaptação aos novos tempos. Para os trabalhadores pode parecer um grande desafio, mas, certamente eles são os que mais estão preparados para isso. É fato que mesmo entre os técnico-administrativos haverá oposição e essa será uma longa batalha. Só que é uma realidade que precisa ser enfrentada. Não há mais como voltar atrás. Todos os dados apontam que as 30 horas podem ser implantadas. Então, o esforço para isso deverá ser, primeiro, individual, acompanhado da discussão e aprofundamento coletivo. Juntos, os trabalhadores poderão dar esse passo fundamental para melhorar a qualidade de vida e garantir atendimento aos usuários.

Agora, à administração central cabem duas opções: ou assume e realiza a mudança, com todos os riscos que isso pode ter, ou capitula diante do conservadorismo, do medo e da inércia, perdendo a chance de modernizar a universidade. Os caminhos estão abertos e foram pavimentados pela luta dos trabalhadores. O trabalho do Reorganiza consolidou ainda mais essa possibilidade. Aos trabalhadores cabe seguir na batalha pelas 30 horas, garantindo um passo a mais no processo de trabalho. As 30 horas são uma exigência do tempo presente que oferece avanços tecnológicos significativos. Nada revolucionário, apenas uma reforma dentro do sistema burguês. Um pequeno avanço que já não é mais possível protelar.  

domingo, 4 de agosto de 2013

Semana Paulo Freire


Semana Paulo Freire, de 19 a 21 de agosto, na UFSC,  se propõe a pensar a pedagogia latino-americana para a transformação social. Muitas conversas, muitas ideias, muitas propostas. Vale a pena conferir. 

O cubano Carlos Rodriguez Almaguer faz a abertura, falando sobre o pensamento de José Martí. Telmo Adams, da Unisinos, fala sobre Paulo Freire. Elaine Tavares fala sobre Simón Rodriguez.