sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Caminhando pelo equador


A cidade de Quito é uma belezura. O chamado casco colonial parece sair das páginas de um livro. Não é à toa que foi tombado como patrimônio da humanidade. Tudo está muito bem conservado e a impressão que se tem é de que se está passeando pelas ruas de um longínquo 1800. As igrejas pulam em cada esquina, imensas, descomunais, expressão máxima da dominação. Toda a cultura originária está aplastada. O que assoma é a morada da aristocracia com seus solares, seus pátios internos, suas arcadas.

Muitas das casas hoje se transformaram em pequenos centros de compra e o contraste é inevitável. No meio da cultura colonial o que vende mesmo é o artesanato originário. Ou seja, o produto é a cultura autóctone, mas a arquitetura é a da dominação. Tudo acaba se integrando como o que de fato acontece nesta América mestiça. Nas ruas é a população indígena que aparece com mais vigor, imorrível, apesar de tantos anos de opressão. São originários os vendedores nas ruas, os pequenos comerciantes, a gente que caminha para lá e para cá, num afã febril.

Até mesmo antigos conventos passaram à condição de comércio e muitos chegam ao limite da heresia, o que parece estranho numa cidade tão católica. Contam que as dezenas de igrejas estão sempre lotadas nas missas, mas mesmo assim, fazem-se piadas com as coisas do sagrado. Uma delas diz respeito a um antigo monge, o padre Almeida, que costumava fugir do convento durante a noite para fazer cantorias com sua guitarra. Para sair pela alta janela ele tinha de escalar um crucifixo e pisar na cabeça de Cristo. Diz a lenda que um dia, quando o padre iniciava sua escalada para fora, ao pisar na testa cravejada de espinho de Jesus, ele teria suspirado e dito: Até quando, padre Almeida? E este, assustado, mas não persuadido de ficar no convento, teria respondido: Até a volta, senhor! Pois o lugar deste fato virou restaurante e ali está em destaque a figura do padre a fugir...

Ainda próximo a Praça Maior fica o solar de onde Manuela Saenz atirou uma coroa de flores para Simón Bolívar, quando este entrou na cidade, vitorioso. É uma casa imponente, toda rosa, cheia de janelas. Ali é ponto de peregrinação daqueles que sabem do que foi a força deste amor entre Manuela e Simón. No balcão parece bailar a paixão desesperante que levou aquela pequena mulher quitenha a se transformar na Cabaleresa del Sol, guerreira, indômita, senhora dos exércitos e libertadora do libertador. Seu nome ecoa pela cidade como um mantra e seu retrato está em todos os lugares. Ela, vulcânica, reina, deusa, na Quito das igrejas.

Também pelas estreitas ruas pode-se apreciar os “agachaditos”, que são as comidas callejeras. Tudo o que se vende por ali tem algo de milho, a cultura ancestral. Qualquer coisa é “agachadito”, pode ser uma fritura, um peixe, uma tortilla, uma sopa, um molho de galinha. Diz a lenda que o nome nasceu por conta do hábito de um antigo habitante que se fazia de dândi, metido a rico sem ter tostão. Ele andava pelas festas, vestido com roupas da moda, mas não tinha dinheiro para comer. Então, quando vinha a fome, ele buscava os vendedores de rua e comia seus quitutes. Para não ser visto pelos que o consideravam rico, ele se abaixava. Daí nasceu o “agachadito”. Coisas divinas feitas por mãos populares.

Toda a cidade de Quito pode ser admirada de cima do Panecillo, uma dos montes que cercam a cidade. Este, por ter o formato de um pão é assim chamado: pãozinho. Ao chegar lá em cima outra cena surpreendente desta cidade sem igual. Impávida, domina a paisagem a estátua descomunal de uma virgem, representando a cultura religiosa que é tremendamente opressiva por ali. O curioso é que para mostrar que também respeita a visão dos vencidos, a cidade decidiu colocar sob os pés da virgem imensa, um artefato originário, uma olla, que representa uma espécie de vaso cerimonial das culturas indígenas. Mas, basta uma olhadela para se verificar o quanto aquilo é só um gesto ritual. Enquanto a virgem recebe cuidados e atenção, tendo, inclusive, uma iluminação belíssima, capaz de ser vista de qualquer ponto da cidade, a olla se mantém na escuridão, escondida e abandonada, ruindo sob a ação do tempo.

Do Panecillo também se pode ter uma visão deslumbrante da cidade. Dali, é possível observar como se deu a Batalha de Pichincha, comandada pelo jovem general José Antônio Sucre, em 24 de maio de 1822. Em menor número - ao pé do grande vulcão que leva o nome de Pichincha - mas com uma estratégia genial, o mariscal logrou vencer as tropas realistas e libertar Quito do jugo espanhol. Em pé, no beiral disponível sob a virgem, chega-se a ouvir os gritos da batalha, tamanha é a magia que se desprende na noite quitenha, iluminada como se tivesse milhares de fogueirinhas.

Outro lugar cheio de energia é o mercado de artesanato no bairro de Mariscal. Ali se concentram mulheres e homens que tecem a beleza da cultura originária. Muitos deles vêm da região de Otavalos, onde estão os kichuas. Impossível não se embasbacar com a belezaa das mulheres originárias, com suas saias pretas, blusas bordadas e o indefectível hualca , colar de contas amarelas que representa a riqueza da cultura autóctone. “Isso nos faz ter sempre em conta aquilo que nos dá a vida, o sol, o milho, além de ressaltar a beleza da mulher”, dizem.

De resto, a cidade de Quito é cheias de outros escondidos encantos, como o mercado de Hipiales, onde se concentra o comércio popular. Ali, por entre as barracas, as gentes oferecem sacrifícios ao deus consumo. Isso sem contar os milhares de minúsculos bares e cafés que oferecem o tradicional “seco de chivo”, que parece ser a comida mais pedida por ali. É feita com carne de bode e me pareceu delicioso. Também tem as dezenas de praças, grandes, pequenas, de todo o tipo, onde as gentes descansam sob o sol andino. Nas fraldas dos vulcões se amontoam as casinhas da gente mais empobrecidas. Mas nada que se compare às favelas brasileiras. Talvez por causa do frio rigoroso, todas elas, mesmo as mais simples, são de material. Luis Gavillán, que trabalha como motorista, esclarece que com Rafael Correa as coisas estão melhorando. “Eu votei nele quatro vezes e não me arrependi”.

Outro ponto magnético é a pequena comunidade de Calacalí, a poucos quilômetros da capital. Ali, em meio a casinhas coloridas fica o exato lugar onde uma missão franco-espanhola, em 1736, mediu a metade do mundo, estabelecendo os equinócios e os solstícios. Um pequeno marco estabelece a linha e a pessoa pode ficar com um pé em cada hemisfério da terra. Não sei bem porque, mas algo nos atrai mais ao sul. Creio que é magia!

E assim é uma visão parcial desta cidade pulsante, cheia de contrastes e multicultural. Vigiada pelos vulcões que a circundam, por Sucre, por Manuela. Amada pelas gentes, espaço de disputas. Cidade/país em construção. E, por entre lutas, avanços e desacertos, os equatorianos seguem acreditando que por força de suas livres vontades, a vida vai ficar melhor. “Até hoje todos os presidentes desta república só nos roubaram. Agora, tem problemas, é fato, mas também há avanços incríveis. Nós vamos saber caminhar para um tempo melhor”, diz Luis. “E vamos conquistar outro tipo de desenvolvimento que não este, predador, do mundo neoliberal”, ensina Gonzalo Guzmán, líder indígena. O rosto altaneiro dos grandes caciques dos povos originários do Equador, que estão unidos em assembléia numa praça em frente ao teatro da Universidade Central, parecem concordar. Haverá de estar sendo gestado um novo Equador. Pluricultural, livre.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Homenagem ao Catatau

Hoje, no Projeto 12:30, que acontece todas as 4ªs feiras,na Concha Acústica/UFSC, será inaugurada a placa em homenagem ao Catatau (nosso eterno patudo).

Esta placa foi um esforço conjunto das três categorias da UFSC - alunos, técnico-administrativos e professores - e de simpáticos à causa, por meio da arrecadação com as vendas do material do Catatau (bótons e adesivos).

Com esta homenagem e adesões, nossa campanha torna-se mais acirrada contra o abandono no Campus da UFSC, controle populacional e preservação do bem estar daqueles que lá residem.

Assim, solicitamos a divulgação nos blogs, Grupos, Comunidades, etc, para que todos os amigos do Catatau se façam presentes.

Saudações,

Rogeria

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mercedes




Assim a viu o grande Guayasamin, pintor equatoriano que mais que ninguém expressou a vida da nossa gente.

domingo, 4 de outubro de 2009

Duerme, negrita!

Por la mano de Vitor Jara: "Duerme, duerme, negrita, que tu mamà està en el campo, negrita"... Se foi "la negra", a mulher que nos anos setenta tanto me ensinou sobre "nuestra amèrica" e suas lutas... Com ela, ainda menina, entendi o Chile, a Argentina, as ditaduras e tantas coisas mais...

Mercedes encantou e è destes mortos que nunca morrem...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quito, a metade do mundo


È noite quando o avião começa sua descida na cidade de Quito, Equador. Da janela o viajante já pode notar o desenho de um lugar que a primeira vista parecer ser de sonho. As luzes aparecem em suas formas geométricas e formam figuras míticas. O aeroporto fica no meio de tudo e a impressão que se tem è de que o avião vai se arrastar por entre as casas. Mas, è de manha que vem a surpresa maior e as retinas brasileiras parecem não dar conta do que vêem. A cidade è cercada por vulcões e, de qualquer lugar onde se esteja ali estão eles a vigiar.

Pelas ruas a vida è puro fermento. Os professores estão em greve e fazem cortes de rua, os famosos “paros”. Querem mudanças na lei de educação superior que està em discussão no paìs. Também estão em movimento os indígenas, trabalhando igualmente para manter suas vontades na nova lei de águas. Ao todo são 14 novas leis apresentadas pelo executivo e a população vive as voltas com os debates e discussões. A nova Constituição assim o exige, tudo està para ser regulamentado. As coisas estão mudando no Equador e isso se pode sentir nas ruas. Hà um frisson e todos sabem o que està passando.

È certo que este não è um processo fácil. Não houve nenhuma revolução. As coisas precisam ser feitas sob a pressão de uma oposição dura. Então, tal e qual a Venezuela no inicio do século XXI, o Equador vive a luta de classes no seu cotidiano, e de maneira bastante acirrada. Entre um corte de ruas aqui e outro ali, a grande cidade de Quito e os demais recantos do Equador vão construindo seu presente com os olhos postos no futuro.

Em Quito também vigiam as mudanças os espìritos de Manuela Saenz, a grande mulher equatoriana, libertadora do libertador. E também Sucre, o mariscal apaixonado, artífice da libertação. Pelas ruas de pedra do centro histórico pode-se sentir que os desejos de liberdade que um dia afloraram nas guerras de independência, e ainda antes, nas revoltas indígenas, segue aprisionado. Hà muito por fazer, mas os equatorianos estão caminhando. Vulcânicos, apaixonados e seguros de que sò a vontade do povo unido pode mudar as coisas. Eu caminho por entre eles e aprendo!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Adelante companheiros!

A Rádio Globo Honduras foi fechada a força pelo exército hondurenho, mas pela força dos jornalistas tornou-se Rádio Clandestina e já reiniciou (com algumas dificuldades de audio) sua luta comunicacional.
Entrar pelo chat da rádio:
http://www.radioglobohonduras.com
Avante companheiros jornalistas, na luta contra o golpe.

domingo, 27 de setembro de 2009

Governo golpista decide fechar Rádio Globo e Canal 36

27.09.2009 – Em Honduras, recrudesce a violência do governo golpista contra os partidários da resistência. No sábado foi assassinado o sobrinho de Alejandro Villatoro, o dono da Rádio Globo, que tem sido incansável na divulgação de todas as manifestações do povo hondurenho. E neste domingo o governo liberou um decreto no qual determina o fechamento da Radio Globo, assim como do Canal 36, veículo que também tem se pautado por um jornalismo independente.

Não bastasse isso o governo golpista decidiu dar um ultimato ao presidente Luis Inácio para que retire Zelaya e também os brasileiros de dentro da embaixada. Segundo o chanceler golpista, como o Brasil não reconhece o governo de Micheletti, não há porque reconhecer a embaixada como um lugar neutro. “Estamos considerando um escritório privado”, ameaçou.