quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A vida à margem do Nilo





É uma terça feira do inverno egípcio, um ano depois da revolta que levou as gentes para as ruas e derrubou o governo de Hosni Mubarak, que há trinta anos estava na presidência. Nas margens do rio Nilo, que corta todo o país, as gentes seguem com sua vida cotidiana, como faziam há milhares de anos. O sol já esquentou e cada família que vive à beira do Aur (nome antigo do rio que significa negro, por conta do barro que produz) cumpre sua tarefa diária. Desde o tempo dos faraós que o grande rio é sinônimo de vida para o Egito. Naqueles dias, eram as suas cheias que garantiam a comida e a fartura. O barro deixado nas margens depois da descida do rio tornava o lugar um espaço de grande fertilidade. Não foi sem razão que a maioria dos templos dedicados aos deuses mais amados acabou construída naquela estreita faixa entre os desertos escaldantes, assim como quase 90% da população esteja fincada em suas margens.

A primeira sensação que se tem ao chegar ao rio é a de assombramento. O rio é largo, mas ambas as margens podem ser avistadas sem problemas. E o que surpreende é a junção do verde esmeralda das palmeiras e das plantações com o dourado da areia. Parece impossível que aquele milagre se faça, mas ele se faz. É certo que com as represas – principalmente a grande represa de Aswan – os egípcios já não dependem mais das cheias para garantir a fertilidade das terras, mas também já não têm o barro negro que tanta fartura gerava. A obra feita com a ajuda do governo soviético na época do governo de Gamal Nasser (1968) garantiu que os agricultores pudessem ficar na margem, cultivando o ano todo, às vezes conseguindo até três colheitas, mas o barro milagroso não consegue passar pela represa. Ainda assim, com a irrigação artificial o vale do Nilo prospera no inverno e no verão, mesmo que as precipitações de chuva sejam bem pequenas.

Navegando para o sul, em direção a Aswan, pode-se ver a vida mesma, na sua imanência. Pequenas ilhas verdes acolhem o gado, que é levado pelos moradores nos barcos. Ali os animais ficam pastando e engordando numa cena que parece ter saído de algum papiro de cinco mil anos atrás. Enquanto observam o gado, os barqueiros também aproveitam para pescar, tocando a existência numa vagareza, típica do rio. Por todo o trajeto do caminho úmido veem-se as mulheres lavando suas roupas, cercadas de crianças que brincam com cachorros e cabras. Há vacas, carneiros, burros, cavalos, camelos, gatos, todos se fartando com o rio.

Na tarde quente, apesar de inverno, também se pode notar os homens e suas rezas. Enquanto o som do Corão ecoa da mesquita, eles ficam ali, na beira da água, curvando-se diante do seu deus, Alá. Os mais devotos rezam cinco vezes ao dia, como manda o livro sagrado, e a oração é feita de movimentos, sempre com a cabeça voltada para Meca. Pelos caminhos as mulheres vão e vem carregando grandes feixes de palha na cabeça, as carroças puxadas por burros circulam levando a produção, e as bombas de água sugam sem parar a bênção que é o Nilo, garantindo grandes plantações de arroz, palmeira, cana de açúcar e de banana.

Por toda a orla do rio pululam as casas simples, feitas de adobe com cobertura de palha. Como a chuva é pouca não há muito que proteger, a não ser do sol. Somente perto das cidades maiores se percebe grandes casas de gente rica ou empreendimentos turísticos. No geral as margens parecem pertencer a pequenos produtores que são donos de sua própria terra e vivem da agricultura de subsistência. “As pessoas que vivem aqui não esperam grandes coisas da vida, nem querem. Gostam de viver do rio, fazer seu trabalho, estabelecer seu ritmo. Agora, com a revolução, tudo que anseiam é uma melhora na infraestrutura dos povoados, condições de juntar algum dinheiro para viajar à Alexandria, em férias. Somos um povo simples, com desejos simples”, diz Muhamad Mustafa, morador de Luxor.

Ele conta que apesar de toda a exploração dos governantes de plantão, no Egito nunca se soube de alguém ter morrido de fome. O povo muçulmano é muito solidário e pratica a caridade, jamais permitindo que um familiar ou um vizinho passe necessidade. “Faz parte da prática religiosa que um muçulmano doe 10% de tudo que ganhou no ano. Essa doação ele tem de fazer em segredo, ninguém pode saber, e geralmente a gente ajuda os que estão próximos e precisam mais”, conta Zizo, que é devoto e praticante. Mais de 40% da população ainda vive na área rural e tudo o que querem é ter um bom hospital, uma boa escola e poder cuidar da família em paz.

Foram essas necessidades que levaram mais de 70% da população a comparecer às urnas nas eleições legislativas. Eleição era coisa que ninguém mais dava bola, mas, depois da revolta de janeiro de 2011 que colocou Mubarak para correr, a política renasceu. O desejo de participar e mudar as coisas moveu as gentes. “É certo que o sistema eleitoral ainda é precário, pois os partidos novos, o povo da revolução, não teve dinheiro para fazer uma campanha nacional. Não há propaganda gratuita e só os partidos mais organizados ou quem tem muito dinheiro pode chegar a todos os lugares. Daí que foi meio óbvia a vitória da irmandade muçulmana. Eles estão organizados desde há anos e tem a ajuda dos imãs (sacerdotes)”. De qualquer forma o Egito vive tempos de grandes câmbios e mesmo isso pode mudar. Vai depender dos rumos dos movimentos sociais.

Já para os ribeirinhos que vivem na capital do país, o Cairo, o rio Nilo perdeu parte do seu valor. A vida citadina tem outras demandas e as margens do rio estão espremidas pelos prédios. O alto nível de contaminação não permite que se use o rio para a pesca, há muito lixo e esgoto, tornando as águas mais escuras do que são. Em alguns lugares a falta de cuidado é gritante e uma das reivindicações da juventude insurgente é com o saneamento. Essa é uma área que precisa de muito investimento no Egito moderno.

A revolução de janeiro de 2011 colocou muitos pontos de interrogação para a população egípcia. O novo governo, hegemonizado no parlamento pela irmandade muçulmana, é esperado com franca satisfação. As últimas gerações – dos anos 60 em diante - não conseguiram lograr tempos de paz, vivendo conflitos armados com Israel, e tampouco vida boa para a maioria, nos tempos de Mubarak. Agora, eles se armam de esperanças e apostam em mudanças substanciais.

No geral, o turismo é visto como uma coisa boa, e há uma estrutura bem montada para receber os visitantes que vêm em busca da cultura milenar. No caminho do rio pode-se ver os cais bem estruturados para a navegação e paragem de mais de 280 barcos que fazem os passeios pelo Nilo. Há também uma bem montada rede de distribuição das verbas do turismo. Ao que parece todo mundo ganha um pouco com os viajantes. Os barcos grandes, os barcos pequenos, as falucas, os carroceiros, os donos de camelo, os vendedores de badulaques, os moradores do vale. “O turismo abriu um pouco a cabeça desse povo que vive aqui na margem. Sempre foi uma gente muito conservadora, e, agora, com o contato com gente de várias partes do mundo, vai se modernizando”, conta Zizo, que também é originário de um pequeno povoado da beira do Nilo.

Agora, na última semana, voltaram a ocorrer conflitos de rua na capital e também em Port Said, onde dezenas de pessoas morreram num confronto no estádio de futebol. O descontentamento assomou, até porque os jovens que protagonizaram a revolução querem a saída imediata dos militares que ainda estão no comando do país através da junta militar. Poucos são os que aceitam esperar até junho para as eleições. A mudança tem de ser já. O processo iniciado em janeiro de 2011 ainda não se cumpriu. E mesmo na lenta existência dos que habitam as margens do Nilo, assoma agora a pressa, a vontade de que o Egito inicie uma nova era, uma espécie de segunda República. Isso significa que ainda há muita água para rolar debaixo dessa ponte da revolução.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A democracia e sua expressão

Exército reprime familiares dos grevista - reprodução da TV - hoje pela manhã

O teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho, já havia revelado no seu livro “O Segredo da Pirâmide” que, apesar de ser filho dileto do capitalismo, existem momentos nos quais o jornalismo não pode esconder as contradições da vida real. Daí a possibilidade do seu caráter revolucionário. Penso que é o que temos visto, nos últimos dias, na televisão. Apesar da posição sempre servil das emissoras com relação ao poder, e das informações aparentemente desconexas, se procurarmos juntar os fios das informações, podemos ter um quadro sem retoques da tão defendida democracia liberal. Nela, ao contrário do que dizem os porta-vozes dos governos, o que não existe é a liberdade. Mas é preciso aclarar: a liberdade dos pobres. A eles é vedado o direito a qualquer reivindicação. Se ficarem quietos, agüentando tudo, está certo. Mas se resolverem gritar contra qualquer filigrana do poder, a força da “democracia” aparece com um estrondo sem lugar.

Todos os dias, a pedagogia da sedução do sistema capitalista joga para dentro das cabeças a idéia de que a democracia do mundo ocidental é a melhor coisa que pode acontecer aos povos. Foi assim quando os Estados Unidos quis invadir o Afeganistão. Pintaram os talibãs como diabos e diziam que a alegria só voltaria ao país se ali entrasse a democracia. Invadiram, depuseram o talibã, implantaram a democracia e tudo seguiu como antes: violência, terror, mortes. Depois foi a vez do Iraque. Sadam era o demônio antidemocrático. E lá foram os soldados estadunidenses a levar a democracia. Resultado: violência, terror e milhões de mortos. Cenas que seguem se repetindo até hoje. Ora, se a democracia iria resolver tudo, como não resolveu? Ano passado foi a Líbia que mereceu a visita da democracia. Que se passa por lá agora? Por que os meios não nos contam? Reina a paz? A mesma que eles querem impor à Síria, agora a bola da vez para receber a democracia.

Mas, não precisamos ir muito longe, no Oriente Médio, para ver como a democracia se comporta. Basta uma olhadinha para nós mesmos. A desocupação da comunidade do Pinheirinho no final de janeiro, com todos os requintes de brutalidade, é um exemplo bem claro. Os empobrecidos, sem casa, sem esperança, sem nada, ocuparam uma terra abandonada. Lá ergueram suas casas e lá viveram por oito anos. Uma vida. Agora, a justiça (assim, com minúscula) decide que ali não é lugar de pobre morar e começa todo um processo de demonização das pessoas. São bandidos, marginais, gentes sem estofo. Não merecem a pena de ninguém, daí que as cenas brutais das casas sendo destruídas, das famílias sendo despejadas, dos animais sendo mortos e outras tantas gentes sendo presa ou desaparecida já não comove boa parte das pessoas. O recado da democracia já havia sido dado: aquelas criaturas não eram gente, logo, a violência é bem vinda. É limpeza.

Hoje, assisti as cenas na Bahia, divulgadas pelos jornais nacionais. Os repórteres falam dos vândalos que saqueiam lojas, dos bandidos que circulam pela madrugada baiana, das “badernas” dos familiares dos policiais em greve e, é claro, os grevistas são pintados como os grandes responsáveis pelo caos que se instalou na bela capital baiana. Então mostram a atitude acertada do governo central que mandou jovens do exército nacional para garantir a lei e a ordem. E mostram alguns moradores saudando a vinda do exército para salvá-los. Os confrontos em frente a Assembléia onde estão os trabalhadores em greve são mostrados como distúrbios irracionais. Nenhuma das reportagens toca no nome do governador baiano, Jaques Wagner, como se o governo não tivesse absolutamente nada a ver com isso. Quando seu nome aparece é como o cara que vai garantir o carnaval, nem que tenha de trazer todo o exército para as ruas. Claro, a folia dos endinheirados é mais importante do que liberar uns poucos caraminguás aos policiais.

Pois essa é tão amada democracia burguesa. A lei e a ordem dos poderosos, dos que tem o dinheiro, dos que tem o poder. Qualquer rugosidade nessa paz do poder, e os remédios são imediatamente utilizados sem qualquer piedade. Há que impedir que a “doença” se alastre e há que agir com rapidez. E as doenças são, comumente, os empobrecidos, os sem-teto, sem terra, sem trabalho, os explorados, gente que vive assim, não porque quer, mas porque é levada à margem pela ganância e a sede de lucros de quem manda. Mas esses precisam ficar quietos, acatar todas as leis que são criadas contra eles, precisam aceitar de cabeça baixa todas as decisões que os graúdos lhes impõe, ainda que sejam injustas e imorais.

E a coisa é tão bem arrumadinha que, por vezes, as próprias “vítimas” – que é a maioria da população – aceitam a idéia de que é preciso viver na paz, sem perturbar a ordem dos que mandam. Aceitar o cabresto e viver das migalhas.

Ocorre que gente há que diz não. Não aceita. Não quer. Gente há que quer morar, viver, comer sorvete, levar o filho ao parquinho, ver um bom filme no cinema. Gente há que não se deixa enganar pelo canto vazio da ideologia que se expressa na escola, na família, na TV. Gente há que luta, que se rebela, organizadamente ou não.

O quadro da democracia burguesa é mais ou menos assim. Os que são jogados na miséria e na exploração, ou se revoltam individualmente e roubam, matam, perdem sua humanidade, ou se organizam em sindicatos, movimentos, e lutam coletivamente por mudanças. Uma coisa ou outra sempre vai acontecer, ou as duas juntas ao mesmo tempo. Não dá para fugir disso. É da condição humana caminhar para a beleza. Ninguém pode aceitar viver sem isso.

Assim, sejamos espertos, observemos as notícias com o grosso lápis da história e vamos ligando os fios. O desenho final é o quadro da opressão massacrando aqueles que querem participar do banquete, enquanto na televisão os lobos aparecem como cordeiros, e os cordeiros como lobos. Um espelho invertido que precisa ser quebrado. Já vimos essa história aqui mesmo na pele, com a revolta da catraca, ou a luta dos professores pelo simples cumprimento de uma lei.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Youssef, o egípcio






No primeiro dia foi como mágica. Entramos no quarto depois de uma longa jornada peregrinando pelos templos dos deuses antigos do Egito e ali estava, sobre a cama, um cisne, todo moldado em toalha. Era a imagem de Tot, um deus protetor. No segundo dia, mais caminhadas pelo velho Egito, dos faraós e dos sacerdotes. E, de novo, ao abrir a porta do quarto, ali estavam as toalhas, dobradas em outro desenho esplendoroso. Era um elefante, e a pessoa havia chegado ao preciosismo de colocar duas folhas negras no lugar onde deveriam estar os olhos. Era uma coisa delicada e bela. Desconfiei de que haveria de ser uma criatura mágica que deixava tudo assim, já que no Egito certamente não haveria Saci.

No terceiro dia chegamos mais cedo e surpreendemos um garoto que fazia a limpeza dos quartos. Seu nome: Youssef. Tentamos conversar, mas ele não entendia. Pediu, através de sinais, que esperássemos um pouco para entrar. Esperamos. Em cinco minutos voltou, sorridente, fazendo o sinal de positivo. E sumiu pelos corredores. Entramos e ali estavam as toalhas, penduradas no teto como se formassem um macaco. E havia um detalhe especial. Ele ainda pegara meu casaco e meus óculos, dando ao macaco de toalhas uma aparência descolada. O guri era um artista.

Youssef é um desses garotos egípcios que fizeram a revolução, cheio de desejos de vida boa e bonita para toda a gente. Nascido em um pequeno povoado da região de Assuam ele desde cedo precisou batalhar duro para que a vida fosse melhor. Hoje, com 21 anos, trabalha como camareiro em um pequeno barco que carrega viajantes pelo Nilo afora. Mas, no seu peito de garoto pulsa um coração artista que precisa de espaço para se expressar. Então, ele vai trabalhando com as toalhas, encantando os passageiros com suas surpresas. Faz tudo no silêncio das manhãs, quando todos estão fora, desfrutando da vida. Muitos sequer percebem a obra de arte que foi ali construída com tanta sensibilidade e perfeição. Ele não se importa, faz porque gosta. Quando vê que alguém gostou, se esmera mais e usa os pertences das pessoas para incrementar as figuras. Sorri como menino, encantado que tenham se encantado.

Youssef faz parte de um exército de jovens que já não quer mais o Egito que se fazia apenas para poucos. Ele quer fazer universidade, criar outras coisas, inventar novas artes. Ele quer formar uma família, viajar, conhecer o estrangeiro. Não esteve naqueles dias de janeiro de 2010 na Praça Tahir, mas fez sua parte onde estava, às margens do grande rio. Como todos os demais que foram às ruas naquele então ele sonha com um país novo, de riquezas repartidas. Faz parte dos 67% que hoje estão entre os 18 e os 40 anos, dos que querem mudanças, a nova geração do Egito.

Assim, entre o ir e vir pelas águas do Nilo, Youssef fabrica sonhos e também sonha, debruçado sobre o convés. Sorriso de anjo, cara de menino e coração de criança, esse jovem da região núbia já aprendeu que a vida pode ser dura, mas que a luta também pode fazer acontecer o novo. Por conta disso, no último dia, ele deixou no quarto um sapo. Bicho que pula, que vai longe, que transpassa as fronteiras do possível. Assim ele haverá de fazer, com seus companheiros de geração, saltando sobre as pedras do seu amado Egito, em busca do grande meio-dia.

E nós, partimos, com a sensação de que, às vezes, um menino inventando bichos com toalhas é o que basta para encher o coração de alegria. Foi como uma doce dádiva dos deuses. Youssef e seus delicados presentes.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O Vale dos Reis






No Vale do Reis ainda vivem os artesãos fazendo o que faziam há cinco mil anosA primeira coisa que vem a mente quando se entra nas tumbas do Vale dos Reis, em Luxor, é a destreza do artesão que construiu tanta beleza. As paredes são cobertas com as histórias dos reis e a sua relação com os deuses. Cenas da vida cotidiana, da coroação, da morte, enfim, toda uma linguagem que nos carrega até 3.300 anos atrás. Tudo segue vívido e claro, como se não houvesse passado tanto tempo. E, andando pelas redondezas, se percebe que ali estão eles, os artesãos, vivendo quase que do mesmo jeito que há cinco mil anos, talhando nas pedras as coisas dos homens e dos deuses.

O Vale dos Reis fica no sopé de uma montanha que tem clara formação piramidal, e certamente por isso o lugar foi escolhido para abrigar os corpos dos reis, uma vez que essa forma é sagrada para os egípcios. Ali estão enterrados os faraós de três dinastias, a 18,19 e 20, formando um conjunto de 62 tumbas. As mais famosas são as de Tutmés I, do grande Ramsés II que reinou por 67 anos e foi responsável por mais de 30% dos magníficos templos que existem no Egito, e a de Tutankamon, o faraó menino, cuja tumba foi uma das últimas a ser encontrada. Conta Abdelaziz, que trabalha há anos como guia, que quase toda a riqueza descoberta naquelas tumbas foi roubada há muitos séculos. Como era costume levar para dentro das tumbas os objetos amados pelos faraós, assim como coisas da vida cotidiana, pois se acreditava que no mundo dos mortos eles haveriam de precisar disso tudo, sempre existiram os saqueadores de tumbas, que podiam ser ladrões comuns como até mesmo sacerdotes de outros faraós.

Nos tempos contemporâneos foi a vez dos arqueólogos europeus que andaram pelo Egito fazendo escavações fazerem o papel dos ladrões. A Pedra de Roseta, por exemplo, que deu a chave para a decifração da escrita hieroglífica, está no Museu de Londres, a famosa cabeça da rainha Nefertite está em Berlim e a magnífica Barca de Horus, da tumba de Ramsés III está no Museu do Louvre. ”Nós, egípcios, temos muito apreço pelos arqueólogos que descobriram muitas dessas riquezas, mas entendemos que elas são do Egito e não deveriam estar em outros museus”. A tumba de Tutankamon, uma das últimas a serem encontradas, só escapou da ação dos ladrões porque estava praticamente escondida do lado de outra, maior, que centralizou a cobiça. Por conta disso, hoje, pode-se ter uma ideia do tanto de riqueza que havia nas tumbas. A de Tutankamon, considerada uma das menores do Vale dos Reis – ele reinou apenas nove anos - enche várias salas no deslumbrante Museu do Egito.

Cada tumba que se visita com reverente respeito no vale é um universo completo da vida egípcia que já vicejava como civilização desde a cinco mil anos atrás. Como se acreditava na ressureição, a cidade dos mortos sempre foi muito bem pensada. Cada vez que um faraó assumia o trono, os sacerdotes e artesãos começavam a fazer a tumba, pois tudo tinha de estar preparado para quando chegasse a hora de baixar ao mundo das trevas. Geralmente os desenhos que enchem as paredes das tumbas dizem respeito a cenas da vida do faraó, representação de suas batalhas, do seu dia-a-dia, dos seus inimigos e da sua relação com os deuses. Também estão gravados nas paredes os amuletos e sortilégios do famoso Livro dos Mortos, que encerrava todo o saber sobre o outro mundo. Os desenhos são magníficos e as cores surpreendentes. Também é digna de nota a habilidade dos artistas e artesãos, capazes de cinzelar na pedra as cenas mais belas. “Hoje se sabe que quem fez esse trabalho não era escravo. Eram artesãos famosos que tinham como missão de vida retratar a caminhada dos deuses e do faraó. Era um ofício sagrado, era uma oferenda aos deuses. E os descendentes desses artistas seguem aqui, nessas casas, fazendo o que sempre fizeram”, conta Zizo.

A tumba de Ramsés III guarda uma adorável surpresa. Ali se vê pela primeira vez a representação de uma guitarra, o que mostra que a tataravó do violão já existia por aquelas terras do baixo Nilo. Também ali se pode ver claramente a visão de céu e de inferno que tinham os egípcios. O inferno é cheio de gente atada em árvores, prisioneiros da dor. E o paraíso é retratado como um grande jardim. Nada muito diferente da visão cristã, o que mostra que as religiões parecem ter vindo de um mesmo centro. “Também há semelhança com a ideia de paraíso do Islã. No mundo antigo, os mortos tinham de passar por nove degraus até chegar ao paraíso e só os bons chegavam até o final”.

Também as rainhas tinham o seu Vale de tumbas que igualmente revela toda a riqueza da cultura egípcia. São um total de 100 tumbas da dinastia 18 e 20. Como o Egito teve 30 dinastias é certo que ainda há muita coisa para ser encontrada, por isso a cidade de Luxor parece um imenso museu aberto, no qual sempre está acontecendo alguma escavação. Numa primeira vista parece uma coisa meio desorganizada e suja, mas logo se percebe que é a vida antiga que assoma em cada canto da cidade. Uma mistura inquietante do mundo dos mortos com os dos vivos, de cultos ancestrais com a beleza do Islã, de passado e de futuro. Tudo ali tem a cor ocre dourada do deserto e é preciso se despir completamente dos pré-supostos ocidentais para poder fruir com profundidade toda a beleza que as retinas são capazes de capturar.

O Vale dos Reis e das Rainhas, muito mais do que mostrar a caminha dos reis, ou seja, dos dominadores, é um momento raro de comunhão com os perdidos da história, os artistas, os artesãos, os construtores, aqueles que fizeram real a possibilidade de aquela cultura atravessar o tempo e chegar até nós. São o trabalho cotidiano e as habilidades artísticas daquela gente que se fizeram imortais. Seus nomes não estão escritos nos cartuchos dos templos, mas são eles os que saltam das pedras a nos contar histórias de milhares de anos atrás. Sem eles nenhum faraó teria sobrevivido.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Egito real





A terra dos faraós sempre foi muito forte no meu imaginário. Desde bem pequena as histórias de deuses e reis daquele distante lugar na África habitavam em mim por conta de uma “estranha” mania do meu pai, que era a de comprar livros de todos os vendedores que batiam às portas de casa. Naqueles livros vinham as mais loucas narrações dos mundos mais distantes, com seus mitos e belezas. Então, era essa terra que eu tinha na cabeça quando desembarquei no Cairo, três dias antes do aniversário da chamada “revolução” que depôs Hosni Mubarak depois de 30 anos de governo. Muito do que vivia em mim foi fortalecido e outras tantas coisas se agregaram, misteriosas e fortes. O que ficou de saldo foi a certeza de que esse país milenário tem uma gente brava, corajosa, crédula e apaixonada. Nas ruas, homens e mulheres reais falam sobre seus sonhos, suas esperanças, seus medos e seus mais secretos desejos de amor. O grande território de Misr (nome original do Egito), de mais de um milhão de quilômetros quadrados, é um espaço de esperanças, mas sem ilusões. As gentes sabem que nada está dado. Há ainda muita coisa para conquistar.

O que antes não se fazia

A leva de turistas que esperava na entrada do Vale dos Reis, em Luxor, se via diante de uma novidade. O serviço de visitas estava parado. Os trabalhadores que dirigem os carrinhos que levam os visitantes até bem perto das tumbas faziam uma greve exigindo aumento no salário. Havia uma intensa algaravia, como se brigassem entre si, mas, que nada, é o jeito egípcio de protestar, falando alto e forte. Vinte homens fazem o serviço de carregar turistas durante todo o dia em carrinhos a motor, ganhando menos de 20 dólares ao mês, enquanto o estado arrecada um dólar por turista. A considerar que o número de visitantes pode chegar a cinco mil pessoas ao dia, eles entendem que é hora de levar uma fatia maior do quinhão. “Isso aí era impensável antes da revolução. Agora os trabalhadores sentem que têm direito de protestar e lutar por coisa melhor. A cada hora estoura uma greve no Egito”, comenta Abdelaziz, que trabalha como guia. Mesmo a juventude que vive de vender postais, lenços e lembrancinhas – no trabalho informal – começou a fazer exigências.

A região do Vale dos Reis é o mundo dos artesãos. Era assim no tempo dos faraós, quando dali saiam os mestres que deixaram ao mundo a beleza gravada nas pedras dos templos, e é assim agora. Cada uma das casinhas simples que se vê na paisagem arenosa é uma fábrica e a mesma arte das pirâmides segue sendo produzida dia após dia. A diferença é que antes faziam seu trabalho para os deuses, agora disputam os dólares dos turistas. Naquele lugar a vida parece congelada, como se nada tivesse mudado, mas isso é só aparente. Enquanto talham pedras e fazem desenhos, os egípcios da região de Luxor buscam vida melhor. Foi assim com Karim, de 31 anos, que tão logo explodiu a luta no Cairo, em janeiro de 2011, deixou tudo para trás e se foi a protestar. “Havia um sentimento nacional contra Mubarak, a morte do blogueiro em Alexandria no mês de dezembro de 2010 foi o estopim. A mudança já estava em curso e toda a gente queria participar”. Agora, passado um ano o que parece é que o Egito ainda está alerta. “Nada está acabado. Vamos ter de esperar para ver o que fazem os irmãos muçulmanos e ainda há que ver Mubarak numa prisão de verdade”.

O sentimento de que se pode falar e dizer não ao sistema se expressa até nos lugares mais sagrados. Zizo, morador de um pequeno povoado da região norte, conta que outro dia, na mesquita, quando o imã (sacerdote muçulmano) falava mal dos jovens que haviam morrido nos dias de luta de janeiro de 2011, um rapaz que estava rezando se levantou e gritou: “ `não fale de política no púlpito. Limite-se às coisas de Alá´. Isso é coisa que nunca aconteceu, interpelar um imã. Agora acontece. Se pode falar”. Nos dias duros da revolução 84 pessoas foram assassinadas pelas forças de repressão. São mártires e ai daquele que ousar dizer que isso não é verdade.

Nada para celebrar

O dia 25 de janeiro é um feriado nacional no Egito bem antes da vitória da revolução - celebra-se o dia da vitória das tropas egípcias contra o exército britânico em 1952 – mas, hoje, o que era uma festa da polícia virou hora da ação popular. Daí que por todo o país se armaram protestos e aglomerações. As marchas começaram nesse dia e encerraram no dia 27, sexta-feira, que é dia de descanso para os muçulmanos, o que permite que todos possam sair às praças para protestar. No Cairo milhões de pessoas foram às ruas, mas a movimentação podia ser vista em cada cidadezinha do país. As coisas ainda estão inacabadas e os motivos pelos quais morreram pessoas ainda não se cumpriram.

Muhamad M. tem 33 anos e há 12 anos trabalha no comércio de Luxor. É formado em história, mas a carreira de professor no Egito é bastante amarga e ele decidiu atuar no turismo. Nos dias de convulsão do janeiro passado também fechou seu negócio e se foi ao Cairo. “Aqui no Egito existe um dado histórico bem interessante. A cada 100 anos fazemos uma revolução. A última foi em 1922, contra os ingleses, então era certo que algo haveria de passar agora”. Ele conta que quando Mubarak assumiu o poder em 1981 o povo do Egito acreditava na sua proposta. As gentes ainda viviam em estado de guerra, por conta dos conflitos contra Israel (primeiro com Nasser, derrotado e depois com Al Sadat, vitorioso), muitos haviam morrido e tudo o que se queria era paz. E foi isso que Mubarak prometeu. “O fato é que os primeiros dez anos de governo foram bons. A guerra acabou, havia paz, ele começou a reestruturar o turismo, o dinheiro começou a entrar, havia contato com o povo, os professores, os jornalistas. Isso foi importante para nós”. De qualquer forma todo esse desenvolvimento era promovido pelas instituições financeiras estadunidenses e também a dívida externa cresceu muito. Também havia o forte apoio político dos EUA uma vez que tendo Mubarak como aliado era fortalecida a política de ocupação estratégica da porta oriental.

Em 1990, quando o Iraque atacou o Kuwait, os Estados Unidos cobraram a fatura e pediram ajuda ao então presidente. Ele imediatamente se colocou contra a invasão e mandou soldados para lutar com o Kuwait. De repente Mubarak se viu procurado por vários chefes de estado, o Egito era um espaço estratégico na proposta de destruição do Iraque encampada pelos Estados Unidos, e começou a achar que era como um faraó, filho de deus. Nesse período a dívida externa de sete bilhões de dólares foi perdoada e ele se entregou totalmente aos interesses dos Estados Unidos. “Foi nessa época que ele começou a agir como dono do Egito e já aí começaram os protestos. A coisa começou a esquentar mesmo foi no ano 2000 quando Mubarak anunciou que estava preparando seu filho, Gamal Mubarak, para assumir a presidência. Ninguém queria isso, Gamal era muito jovem, sem experiência e havia outras pessoas no Egito mais capacitadas para o cargo. Foi desde aí que começou a se gestar a revolução.”

Ibrahim Y., 44 anos, é ativista político e está na luta contra Mubarak desde o final dos anos 90. Segundo ele, os protestos e as manifestações que eram feitas até janeiro de 2011 eram pequenas e restritas aos militantes socialistas ou ligados a movimentos mais radicais como a irmandade muçulmana – que hoje controla a Assembleia do Povo. “Nos anos 90 houve ataques radicais, muita violência do estado, e depois de 2000 já fazíamos protestos nas praças, mas éramos quatro ou cinco”. Foi só depois de 2005 (ano da quinta eleição consecutiva de Mubarak) que, com a expansão da internet, uma juventude conectada começou a divulgar nos blogs e nas redes sociais as falcatruas do governo egípcio, tornando as informações que antes circulavam em ambientes restritos, internacionalizadas.

Mubarak colocou em ação as forças de inteligência e de repressão até que, em dezembro de 2010, os militares invadiram um café onde estava um jovem blogueiro- Khaled Saaed, 28 anos – conhecido nacionalmente por seus escritos críticos, e o golpearam até a morte. Foi o estopim que detonou o processo revolucionário. Milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra a violência das forças do governo. “No começo foi um movimento de pura raiva. As pessoas saíam às ruas exigindo justiça pelo assassinato de Khaled. Depois, com a força que ia se formando na rua, o movimento começou a se politizar. O povo foi vendo que dava para exigir mais. Mubarak era um ladrão, estava esgotando o Egito. Desde aquele momento, os egípcios entendiam que era hora de ele deixar o poder”.

A revolução ainda não se cumpriu

O que se viu no Egito no mês de janeiro de 2011 o mundo todo acompanhou. Milhões nas ruas, acampamentos gigantescos, revide violento da ordem, até que em fevereiro, depois de muitas mortes, feridos e presos, a força popular logrou depor o homem que governara por 30 anos e que preparava seu filho mais velho para outra fase da “dinastia”. Desde aí o país foi se preparando para uma nova fase, com eleições diretas, escolha de uma Assembleia do Povo e preparação de nova Constituição. Mas, o que aparecia como uma grande vitória popular foi tendo outras feições. Uma junta de governo provisória foi formada por militares, coisa que não agradou ninguém. Por conta disso os protestos voltaram a acontecer. Além disso, familiares dos jovens mortos durante o conflito seguem acampados na Praça Tahrir exigindo julgamento e condenação do ex-presidente. Mubarak, que já tem mais de 80 anos, foi preso, mas, como dizem os egípcios, está num “cárcere de ouro”, com todas as regalias.

O processo de eleição dos membros da Assembleia do Povo foi demorado e só terminou neste janeiro com a instalação oficial. O Egito é dividido em 27 províncias e em cada uma delas as eleições aconteceram separadamente em várias etapas. A eleição presidencial só virá em junho, embora haja muita manifestação pela antecipação do processo. Os egípcios não querem mais saber de ser governados por militares.

Por outro lado, coisas muito sutis foram acontecendo durante o ano que passou. Por ser um partido bem mais organizado e com vida anterior muito presente na vida nacional, a Irmandade Muçulmana logrou maioria (71%) nas cadeiras da nova Assembleia do Povo que tem 508 membros, dos quais apenas dez são mulheres. Desse número, 100 serão escolhidos para preparar a nova Constituição e isso promete novos embates. Com a vitória avassaladora dos muçulmanos nas eleições e sua consequente hegemonia há o risco de o país entranhar na vida política nacional os pressupostos religiosos. Tanto que no dia da instalação da Assembleia, Mamdouh Ismail, membro do partido salafista Al-Asala fez o seu juramento dizendo: a Assembleia do Povo construirá uma nova constituição que será respeitada, desde que não se coloque contra o Corão (livro sagrado dos muçulmanos). Houve tumultos, gritarias, confusões e protestos dos liberais (que detêm 17% das cadeiras), o que mostra que esse não será um embate fácil. Comenta-se que os muçulmanos teriam feito um acordo tácito com a junta militar garantindo que o parlamento vai interferir sobre os assuntos do exército e em contrapartida que o exército não interferiria na redação da nova Constituição. Isso não é desconhecido de boa parte dos militantes sociais, mas a maioria da população não tem acesso a essas “filigranas” do poder. Muita água vai passar por baixo dessa ponte.

Entre os que estiveram nas ruas para depor Mubarak o sentimento é de esperança e esses “detalhes” não parecem importar, até porque as gentes são muito religiosas e não veem mal nenhum que o Corão comande a vida. “Nós já experimentamos o comunismo (Nasser), não deu certo. Al Sadat não deu certo. Depois tentamos Mubarak, também não deu. Agora vamos dar uma chance aos muçulmanos. Se eles não fizerem o que tem de ser feito a gente tira eles”, diz Muhamad.

Já entre os militantes de organizações sociais mais antigas o ceticismo é bem explícito. “O povo votou nos muçulmanos porque não teve como conhecer a ideia dos demais grupos. No Egito, o candidato precisa de muito dinheiro para fazer uma campanha política. Nossos grupos não tiveram como bancar. Como os muçulmanos estavam mais solidamente organizados, tiveram mais recursos. Foi a vitória do dinheiro”, diz Mustafa H. Além disso, os muçulmanos fizeram uma campanha vinculando-se a uma oposição ferrenha a Mubarak, coisa que não é bem verdade, conta Mustafa. “Durante o governo de Mubarak a irmandade fez muitos acordos, não é tão oposição assim. Mas, vamos ver o que vai dar. Aguardaremos vigilantes, prontos para atuar”.

De certa forma esse ceticismo se expressou muito claro nas manifestações do aniversário da revolução. No dia 27, quando a Praça Tahrir estava tomada por mais de quatro milhões de pessoas foi possível observar três grupos bem determinados. O dos muçulmanos, o dos civis/liberais e os socialistas. Sem sombra de dúvidas os dois últimos formavam maioria. Quando os líderes muçulmanos tentaram discursar falando em “celebração”, as vozes se ergueram. Não há celebração. Nada se cumpriu. Mubarak não foi condenado, não teve eleição presidencial, não tem Constituição. “O que há é o processo em curso”, insiste Ibrahim. “Nós não queremos cortar cabeças, nem o terror. Nós queremos paz, mas queremos que os responsáveis pelos massacres do povo sejam julgados e condenados. Há muitos generais de Mubarak ainda por aí, dentro do exército”.

De fato, boa parte dos ministros e estado maior de Mubarak está encarcerado, mas muitos conseguir fugir para os Estados Unidos ou outros países. Um dos mais odiados é Zahy Hawas, que durante 15 anos dirigiu o Museu do Cairo, e que está abrigado nos EUA. “Esse homem roubou muitas riquezas do nosso povo, é o rei dos ladrões. Nos dias de conflito na Praça Tahrir foram seus homens que atearam fogo no museu e foram eles que roubaram objetos valiosos. O que desapareceu do museu foram obras bem específicas, muito cotadas, coisa que só ele poderia saber. Ele fugiu para os Estados Unidos, o grande ladrão ocidental. Foram os homens de Mubarak que saquearam e incendiaram. Não foi o povo”.

Isso é o que conta Neder Y, de 43 anos. Segundo ele, nos dias de conflito Mubarak mandou soltar da prisão centenas de criminosos, os armou e os mandou atuar contra o povo. “Naqueles dias a gente montava barricadas em frente aos monumentos para protegê-los, os trabalhadores protegiam os hotéis, os turistas. O povo foi quem protegeu as riquezas do Egito. Os saqueadores foram os homens de Mubarak, inclusive foram eles que incendiaram a biblioteca. Tem provas. Nós aqui amamos nossa história, respeitamos o patrimônio cultural”. Essa proteção também foi organizada nesse janeiro de 2012 quando a Biblioteca de Alexandria e o Museu do Cairo estiveram fechados, guardados pelos guias de turismo e gente do povo, visando impedir qualquer ato de vandalismo pelas forças aliadas a Mubarak.

A história seguirá seu curso

O Egito é um gigante de riquezas e belezas. Sua cultura remonta há mais de cinco mil anos, tem um milhão de quilômetros quadrados de território bastante cobiçado, está numa posição estratégica, na entrada do mundo oriental. Detém o canal de Suez, tem saídas para dois mares, o Mediterrâneo e o Vermelho, é o quinto no mundo em produção de gás, tem bastante petróleo, possui centenas de minas de ouro, produz o melhor algodão do mundo, movimenta um fluxo de 14 milhões de turistas ao ano. Dentro do país está o rio mais longo do mundo, o Nilo, detém a quarta maior represa e o maior lago artificial do planeta, o Nasser, com 500 quilômetros de largura. Dos seus 85 milhões de habitantes, 67% estão na faixa etária de 18 a 40 anos. É feito de gente jovem e ávida de mudanças. “Nós vamos dar uma chance aos muçulmanos. Vamos esperar dois anos. Ver o que fazem. Não vamos tolerar alianças com os Estados Unidos, eles roubam nossas riquezas e nos deixam dívidas. Nós queremos trabalhar, produzir, desenvolver o país. Queremos uma vida melhor para nossos filhos e netos. Esse é o desejo dos egípcios. Simples assim”.

Para os que ainda seguem vigilantes nos protestos, nas praças, nas ruas, é fato de que o Egito está vivendo uma nova fase, apesar de todas as incógnitas. “Nós mudamos tudo, tiramos os políticos, os jornalistas, os professores. Começamos uma nova época. Estamos ensinando nossas crianças a partir de novos pressupostos, vamos recomeçar, vamos fundar a Segunda República”, diz Ibrahim. Ele mostra que conhece a política internacional e diz gostar muito de Lula (ex-presidente brasileiro). “A nós, falta um líder como Lula, que unisse o país. Mas, ainda assim, se houvesse um, não permitiríamos que cometesse o erro que Lula cometeu. Lula deu dinheiro para os pobres (bolsa-família), e isso não é certo. Não somos animais para só comer. Precisamos é de oportunidade, trabalho. Garanta o trabalho e nós seguimos em frente”.

E assim segue o Egito, cheio de esperanças e contradições. Junho já está às portas, muitos são os pré-candidatos à presidência, mas a lógica eleitoral é bastante viciada. Como é o dinheiro quem dá as cartas parece quase certo que aqueles que comandaram o processo de mudança, inclusive dando as vidas, não serão os que hegemonizarão o poder. O que virá será uma nova experiência que os egípcios enfrentarão com a valentia de quem acredita no “maktub” (destino). Embora nas ruas se possa perceber claramente que existe uma juventude disposta a fazer o destino acontecer com as próprias mãos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Quando o povo luta unido, ele vence!

Vozes que não se calam

Sexto Festival de Curtas de Atibaia