Ele atravessou quase um século e foi o responsável pela criação da chamada "tradição gaúcha". Sua figura sempre foi bastante controvertida. Criticado por ser de direita e legitimador de uma ideologia gauchesca ligada ao latifúndio, Paixão amealhou bons adversários ao longo da vida. Mas, mesmo esses reconhecem que, antes dele, o gaúcho não tinha uma identidade tão consolidada como a que foi sendo fortalecida pelo movimento tradicionalista iniciado por Paixão e Barbosa Lessa nos tempos do colégio. Com eles nasceu o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) e deles derivou tudo o que hoje se conhece como tradição. Sou nascida na fronteira, marcada pela cultura missioneira. Tenho em mim agarrada essa herança telúrica, oriental e desde bem guria vivencio a tal da "tradição". Aprendi, estudando, que a ideologia do latifúndio, do gaúcho ideal, é cotidianamente apreendida e reinventada pelos trabalhadores nas canhadas e na imensidão dos campos. A bombacha, o mate, o cavalo, as longas noites de invernada, o churrasco, as danças, o modo de ser no mundo. Tudo isso está incorporado de maneira indelével, e do nosso jeito, do jeito daqueles que realmente vivem a realidade de ser um "peão", um trabalhador, um paysano, na solidão do latifúndio. Nunca fui a fundo saber das intenções de Paixão Cortes ou de Barbosa Lessa. Sei que nos tempos da ditadura, no Rio Grande, se utilizou muito esse movimento para consolidar a obediência e a disciplina. Mas, o que guardo nas retinas é a alegria das festas da campanha, das carreiradas, nas quais os trabalhadores se reuniam para dançar e comer churrasco, cantando as músicas que falavam do seu fazer cotidiano, da sua vida real, ainda que muitas vezes idealizada pelos poetas. O que posso dizer é que do Rio Grande trago essas lembranças à flor da pele. Criada que fui no CTG Tropilha Criola, onde dançavam os pobres e os ricos, e fiel parceira do meu avô, camponês sem terra, jamais me desvencilhei dessa herança que o campo me legou. Digo adeus a Paixão Cortes com certa gratidão. Porque reconheço que aquilo que ele criou como pesquisador e comunicador transcendeu ao que pudesse ter em mente como alguém ligado à classe dominante ou às tradições conservadoras. O nativismo está para além, eternamente se reinventando desde baixo, e ele, mesmo sem querer, é responsável por isso. Valeu, Paixão. E que vivam os gaúchos e gaúchas de todas as querências...
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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