Quem decide cuidar de um idoso com Alzheimer ou demência precisa inventar novas formas de viver. Pois, uma coisa é certa: o cuidado é 24 horas. Não há meio termo. No geral, mesmo que seja uma família grande, o idoso escolhe uma pessoa que vai ser a que tem a voz de comando. A partir dela é que se orienta, e essa pessoa passa a ser a bússola do idoso, está amarrada a ele. Então, sinto muito. Não há descanso, não há férias. Mas, como fazer para não sucumbir ao cansaço físico e emocional? Bueno, não há receitas. Cada um tem de encontrar seu ponto de equilíbrio. Descobri isso da maneira mais dura. Depois de três anos cuidando do pai, decidi levá-lo para passar umas semanas com minha irmã. Assim eu poderia viajar, descansar, ficar sem fazer nada, o que fosse. Uns dias só para mim. Porque é certo, a gente precisa. Viajamos até lá e tudo ia bem, chegamos, comemos, conversamos, e preparamos tudo para as férias dele e nossa. Ele estava normal e à vontade na casa que foi dele durante anos. Quando a noite chegou fomos embora e ele ficou. No dia seguinte minha irmã já me ligava aturdida, pois o pai tinha literalmente surtado. Gritava desesperado, não a reconhecia, queria sair portão afora, e não havia nada que o acalmasse. Foi um terror. Esperei mais um dia para ver se ele se acostumava, e não teve jeito. No terceiro dia lá estava eu pegando o pai de volta, dando adeus ao descanso. Ele voltou para casa tranquilo e seguiu a velha rotina. Seu sul era o espaço no qual ele se sentia seguro. Percebi então que tirar o idoso com Alzheimer ou demência de sua rotina é um risco grande. Não voltei a fazê-lo. E, isso determinou o que disse lá em cima: nada de férias para quem é cuidador. Diante disso há que buscar estratégias. Uma viagem de um ou dois dias pode-se arranjar. No mais é estabelecer períodos do dia nos quais o foco seja a gente mesma. Uma tarde para passear no centro ou outro lugar que a gente goste, um cinema, um café com as amigas. Uma manhã para pegar uma praia, um meio-dia para ir no bar. Enfim, no curso das 24 horas buscar janelas de tempo para cuidar de si. Isso é fundamental porque o cuidado exige demasiado de nós. E, para garantir essas janelas precisamos de aliados. Eu tenho um companheiro e um sobrinho que assumem o cuidado quando eu saio voando pela janela da fruição. E quem não tem ninguém? Aí é difícil, bem difícil mesmo. Mas, há que buscar um amigo, um vizinho, ou mesmo alguém pago, para fazer companhia ao idoso, garantindo um tempo para si. O fato é que o idoso precisa de sua rotina e mesmo os passeios com ele não devem se estender. Há que voltar logo à segurança do sempre sabido. Mas, ainda assim se podem inventar bons momentos com eles. Já com os que estão acamados isso é impossível. O importante mesmo é que a gente se cuide e se mantenha firme, física e mentalmente, fazendo exercícios diários e ouvindo muita música, mesmo quando o desespero é grande. Ninguém pode cuidar de alguém se não estiver bem. Nossos velhos não são um peso, são uma responsabilidade. Eles cuidaram de nós por anos a fio quando éramos crianças. Agora é nossa vez. Sem drama, sem tristeza, buscando força onde for preciso.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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