Dormitava, recostada na rede. Vez em quando vinha um átimo de lucidez. O livro, nos joelhos, permanecia aberto na página 20, de onde não conseguia passar. Os olhos pesavam e ela os fechava, tentando fugir do turbilhão de dores que assomava. O romance de Lima Barreto tornava tudo mais triste. Policarpo, tão quixote no seu amor visceral ao Brasil. Era a milionésima vez que o lia, e sempre derramava lágrimas. O tempo seguia, nada mudava. Quem pode ser capaz de tanto altruísmo? Isso é coisa de outros tempos, outras gerações. Agora, a onda é "eliminar". Seja no Big Brother, na Fazenda ou na vida mesmo. Não gostou? Elimina! Esmaga, exclui, deleta. Remexeu-se quando um gato pulou desavisado e louco, num saltito de bebê, brincando com as franjas, afiando as unhas. Eram criaturas estranhas e alegres os gatos. Quietos, ensimesmados, mas, vez ou outra, parecendo ver espíritos, pulavam em desatada carreira. Quando não, aboletavam-se no colo, num aconchego desavisado, e ela estaqueava, procurando esticar o momento até quando desse. Era como se o tempo parasse e todo o sentido da vida se resumisse a segurar aquele instante de ronronar dolente, de quenturinha gratuita. O nirvana: uma pessoa e um gato. Dormiu de novo e acordou com os cachorros espantando um carteiro. Algo havia chegado, contas, com certeza. Assim como ninguém escrevia ao coronel, tampouco à ela. Quem já não dá, igualmente não recebe. Suspirou. Veio-lhe a mente os dias de frenética vida, no trabalho, na ação política, na mobilização, sempre cercada de gente. Agora era o silêncio. Afastou a mosca teimosa que voejava próximo ao seu rosto. Lembrou do declínio, quando deixou de ser necessária. "Isso que tu faz é ridículo" dissera o jovenzinho, aprendiz, mas que já parecia dominar o mundo. E ela ficara, suspirando. Quanta inocência! Depois, foi um suceder de coisas. Já não era ágil, já não tinha forças, cometia erros. E os jovens franziam a cara, esperando pela desobstrução. "Vai descansar". Nunca foi fácil ser velho, mas, hoje, parece que a coisa é pior, tanto desrespeito. Poderia responder, brigar, xingar, mas parecia inútil. A arrogância juvenil é surda aos outros, velhos ou não. Deixou para lá, seguiu vivendo. Agora estava ali, deitada ao sol do fim da tarde, envolta em tristezas e lembranças. De novo, um gato pulou na rede, cravando as unhas na sua bunda. Ela se perdeu no mundo felino, rindo, fazendo festa. Era só ela e o gato, companheiro de anos. Principiou a falar língua de gato, numa algaravia louca. Ah, foda-se a velhice! Foda-se a tristeza! Havia tanta coisa boa para celebrar. Aquele por de sol, aqueles bichos, as flores do limão, as primeiras jabuticabas, os araçás, a coleirinhas pousadas nos fios, as corujas no muro. Saiu da rede, arrastando os pés até a geladeira. As cervejas gelavam silentes, esperando o espocar. Foi o que fez! Abriu a lata, fez o colarinho, e sorveu, devagar, o néctar dos deuses. Buscou nos velhos CDs as músicas do Boi Garantido, capazes de levantar um morto. E quando a sonoridade vermelha do Amazonas soou nos alto-falantes, ergueu bem o volume. O corpo, enferrujado, se retorceu, mergulhado no ritmo da floresta. A música era a salvação, invadindo, soprando as brasas, como advertira Nietzsche. Já não tinha nada a dar, seguidores e amigos haviam se dispersado. Estava ali, sozinha. Mas, estar sozinha não é estar em solidão. Havia um mundo nela, que fora construído tijolo a tijolo ao longo do século XX. Histórias, amores, lembranças boas. E, pasmem, havia sonhos, ainda. Quando a noite adentrou, a velha ainda dançava, de copo na mão, algo bêbada. E no seu rosto, havia um riso, de graça e de luz. Ninguém morre antes da hora.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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