Ela trabalha na UFSC há pouco tempo. É uma das “novas”. Os olhos, cheios d´água, fitam um horizonte que não mais vê. “Eu sabia que isso iria acontecer. Mas, ver na minha ficha funcional, escrito ´faltas injustificadas´ pelos dias que lutamos por democracia dentro da UFSC, foi triste demais. Eu não me conformo”. A mulher fala da greve pelas 30 horas que durou mais de dois meses na UFSC, fruto de uma atitude muito pouco comum dos dirigentes locais: a decisão unilateral e autoritária sobre a jornada de trabalho dos técnicos-administrativos. Na verdade, uma decisão inédita, tomada pela reitora Roselane Neckel, que deliberou sobre a vida dos trabalhadores, sem discutir com eles o tema, ancorada apenas numa reunião com os diretores de Centro, todos professores. Essa decisão, que fere a democracia universitária, levou os trabalhadores a uma greve interna, também inédita, que mobilizou a UFSC na luta pelas 30 horas, ou seja, universidade aberta o dia todo, com turnos de seis horas para os trabalhadores. A atitude da reitora, claramente uma retaliação por conta da greve nacional que também levantara os TAEs em meses de luta, levou os trabalhadores a questionar a proposta geral da administração, eleita com o verniz de “esquerda”. Nunca, em todas as administrações da universidade – sempre ligadas à direita e a maçonaria – um reitor se comportava dessa maneira, simplesmente descartando a presença dos técnico-administrativos negando-lhes o direito de discutir sobre temas de seu interesse. A greve foi uma longa e desgastante queda de braço, na qual a reitora contou com a força extra da maioria dos professores que apoiou a ideia de controle sobre os TAEs e do próprio sindicato da categoria, que, desde o início do movimento atuou de maneira titubeante, quando não marcadamente contra a vontade dos trabalhadores. Foi um desastre. A reitora insistia em desconhecer a greve e no segundo mês do movimento impôs o corte de salário, coisa também jamais vista na UFSC. E, não bastando cortar o salário de trabalhadores que estavam trabalhando – já que a greve era de ocupação – ela ainda decidiu que as horas descontadas deveriam ser assinaladas nas fichas dos trabalhadores como “faltas injustificadas”, o que pode acarretar problemas para os que estão em estágio probatório e também para os que ainda têm algum degrau a subir no plano de salários. Um golpe baixo que feriu de morte os trabalhadores. Aguentar o corte de salários era fácil, um risco calculado, mas a mentira descarada e a injustiça já é mais difícil. Para os novos trabalhadores, gente jovem, cheia de vontade de construir um espaço bom e saudável de trabalho, as retaliações da reitora caíram como um balde de desestímulo. Como iniciar uma relação de amor com uma instituição que os massacrava na base da ameaça e da mentira? Muitos se encheram de tanta tristeza que até adoeceram. Para os mais calejados, que estão na UFSC há mais tempo e já enfrentaram duras lutas, o que aconteceu também foi um baque. Nem com a mais violenta direita se viveu algo semelhante. E, agora, com uma mulher, vinda de um Centro sempre progressista, o CFH, e com o colorido da esquerda, aquilo parecia impensável. Muitos aceleraram a aposentadoria, tamanha a tristeza com uma direção tão antidemocrática e injusta. De qualquer forma, a batalha foi travada. A força da luta não foi suficiente para enfrentar o silêncio cúmplice de uma maioria de professores que sempre viu os TAEs como seus empregados, aliado ao braço frouxo do sindicato. Nesse momento houve uma derrota, mas a peleia por uma universidade nova segue adiante. A reivindicação na justiça contra o corte de salário deu alguns frutos. A greve, que a reitora insistia em desconsiderar, foi reconhecida pelo judiciário. Isso leva agora a outra luta que é a retirada das “faltas injustificadas” das fichas, uma vez que a falta por greve é justificada. Mas, o que se vê é que não será coisa fácil também. A reitora não cumpriu a liminar da justiça que deliberou pelo desconto de apenas 10% do salário e muitos trabalhadores tiveram descontos agora em dezembro, bem maiores que 10%. Poder ser então que ela também não acate o reconhecimento da greve. Há uma viseira tampando o bom senso na administração. O sentimento de “vingança” contra os técnicos é tão grande e irracional que, por ser questionada quanto ao horário de verão – que será de seis horas - a reitora baixou uma portaria na qual delibera que se algum trabalhador não quiser repor as horas do horário de verão, que deverão ser obrigatoriamente cumpridas com uma hora a mais na jornada de oito horas normal, pode trabalhar oito horas, mas deve seguir o horário proposto que é: das 10 às 12 e das 13 às 19. Uma verdadeira aberração, a considerar o verão, o trânsito alucinante pelo aumento da população e o fato de que não há nada aberto próximo à UFSC nos meses de férias. A medida seria motivo de riso se não fosse trágica. Mas, mostra claramente o nível de autoritarismo da gestão que beira o ridículo. O fato é que toda essa intransigência tem um endereço certo: os novos trabalhadores, os que pensam e questionam, os que insistem em ser parte da democracia ufscquiana. Para esses o recado é simples: sejam submissos, cumpram as ordens e assim pode-se chegar a alguns acordos. Ou seja, é a retomada do velho coronelismo que sempre tratou os trabalhadores técnicos-administrativos como “empregadinhos de professor”. Como agora os novos que estão chegando tem formação, são propositivos e participam da vida política, eles têm de ser derrubados, para o bom andamento da máquina. Não é sem razão que um grupo expressivo de docentes está com a proposta de encerrar uma também histórica e democrática forma de eleger o reitor. Os professores querem o poder supremo sobre a vida da UFSC, relegando aos TAEs e aos estudantes apenas 15% do peso dos votos. É a treva! Voltamos ao medievo! Mas, a despeito de tudo isso, nesse mês que se comemora mais um aniversário da universidade, os trabalhadores acham forças para se encontrar, se abraçar, se confortar e ainda fazem um bazar para arrecadar fundos que serão repassados aos que ficaram sem salário e sem empréstimo. Ao final, a vitória da reitora foi de Pirro. Os TAEs estão mais unidos do que nunca e seguem se encontrando e discutindo os destinos da UFSC. Afinal, quem disse que o chicote para a rebeldia. É o contrário. Acirra! A UFSC é de todos nós. Eles passarão.. .Nós, passarinho!
Bem, todos me olham com estranheza quando digo que o maior problema da universidade é o professor que trata os técnicos administrativos como empregadas domésticas não deveriam ser tratadas. Conviver com o ar de superioridade dos docentes, com seus olhares impregnados de preconceitos, sempre me pesou nas costas, nunca compreendi a postura da maioria dos departamentos e coordenações de ensino que vetam aos técnicos administrativos o direito de voz nas reuniões que secretariam. Isso é humilhante. Ainda, não participam às chefias de expediente a programação de gastos anuais, a definição de compras, omitem e definem entre os professores que coordenam. São inúmeras as desclassificações por que passam os administrativos. É sine qua non, na minha opinião, que os técnicos garantam o direito de participação, de voz e voto nas reuniões dos centros, departamentos e coordenações, para que a categoria saia da condição subalterna aos dirigentes professores e conquiste espaço ou determinações nas questões internas das universidades. A categoria necessita se fortalecer a partir das funções que realizam, do seu setor, para então ganhar forças e lutar com mais envergadura. Encerro dizem que não me causa estranheza alguma que na última greve os professores agiram como se colocassem a categoria dos técnicos administrativos "no seu devido lugar". É preciso sim libertar-se das amarras do "quem manda aqui sou eu". Pelo fortalecimento da categoria em 2016.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Um comentário:
Bem, todos me olham com estranheza quando digo que o maior problema da universidade é o professor que trata os técnicos administrativos como empregadas domésticas não deveriam ser tratadas. Conviver com o ar de superioridade dos docentes, com seus olhares impregnados de preconceitos, sempre me pesou nas costas, nunca compreendi a postura da maioria dos departamentos e coordenações de ensino que vetam aos técnicos administrativos o direito de voz nas reuniões que secretariam. Isso é humilhante. Ainda, não participam às chefias de expediente a programação de gastos anuais, a definição de compras, omitem e definem entre os professores que coordenam. São inúmeras as desclassificações por que passam os administrativos. É sine qua non, na minha opinião, que os técnicos garantam o direito de participação, de voz e voto nas reuniões dos centros, departamentos e coordenações, para que a categoria saia da condição subalterna aos dirigentes professores e conquiste espaço ou determinações nas questões internas das universidades. A categoria necessita se fortalecer a partir das funções que realizam, do seu setor, para então ganhar forças e lutar com mais envergadura. Encerro dizem que não me causa estranheza alguma que na última greve os professores agiram como se colocassem a categoria dos técnicos administrativos "no seu devido lugar". É preciso sim libertar-se das amarras do "quem manda aqui sou eu". Pelo fortalecimento da categoria em 2016.
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