Meu pai sempre teve um grande apreço pelo trabalho. Fazia tudo com muito amor. Exagerava até. Mas sempre foi seu jeito de viver. Nunca soube ficar quieto. Creio que herdei isso dele. Quando teve de amargar um emprego mais burocrático (tinha sido radialista por muitos anos), não se conformou na vidinha apática. Tomou para si a tarefa de pagador dos trabalhadores do trecho, aqueles que ficavam nas obras das estradas. E nada o detinha. Nem as enchentes. Amarrava-se a uma corda e, com a mala de dinheiro na cabeça, atravessa os rios para entregar o salário daqueles que esperavam por aquele dia com muita ansiedade. Quando virou chefe do almoxarifado decidiu estudar desenho técnico por correspondência. A gente ria dele, porque ele acreditava que poderia aprender com aqueles métodos tão antiquados. E foi dito e feito. As apostilas do IUB - Instituto Universal Brasileiro – chegavam semanalmente e ele se debruçava sobre elas depois da janta. Ficou craque e passou a desenhar as casas dos colegas, dos amigos, dos vizinhos. Lá na cidade onde morava devem ser dezenas as casas feitas por ele. Só parou quando foi atropelado e quebrou o ombro, o que dificultou para fazer os desenhos. Depois de aposentado, sem poder ficar parado, se fez cobrador do dízimo da igreja. E todos os dias lá ia ele com seus envelopezinhos, de casa em casa, conversar com as pessoas, recolher o dinheiro e deixar um cartãozinho da santa, Nossa Senhora de Fátima, sua preferida. Hoje, já velhinho, e com a memória pregando peças, ele ainda conserva essa sua mania de querer trabalhar. Volta e meia ele se inquieta: - Mas eu preciso trabalhar. Tenho que ir trabalhar. E por conta desse desejo começou a lançar mãos dos meus livros, que se espalham pela casa. Até que um dia rasgou um. Morri. Meus livros são o que tenho de mais sagrado. Tratei de matutar sobre o que fazer para ele não destruir meus amados. Demorei, mas achei um jeito de garantir a ele o trabalho e salvar os livros. Reuni muitas revistas e repassei pra ele dizendo que era pra ele catalogar. Esse seria o seu trabalho diário. Deu certo. As revistas passaram a ser quase o centro do seu mundo. Todos os dias ele vira e revira os exemplares, lendo as manchetes, rasgando as folhas, colando de volta, colocando-as em fileira sobre a cama. É uma confusão. Mas, uma confusão boa. Ali, entre os papéis ele pode ficar horas. Às vezes, já é hora de dormir e eu digo: - Vamos guardar isso, deixa pra amanhã. - Não, tenho de terminar hoje. E ai de quem o tire de lá.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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