Sempre gostei do entardecer. Ainda que me dê melancolia. Quando a barra do dia vai sumindo assoma invariavelmente aquela triste sensação da finitude. Tudo acaba. Tudo acaba. Sempre. Mas, se tudo acaba é sinal de que estamos em movimento, construindo novas auroras. Então, quando entardece é bom. Assim que me encanta ficar no alpendre, ruminando pensares. O sol sumindo, a noite vindo. Tão bom! Mas, agora, com a presença da doença do meu pai, o entardecer perdeu a cor. Já não é mais um momento de fruição. Sua chegada é a hora do desassossego e medo. Por conta de algo que ninguém ainda sabe muito bem, quando chega o pôr-do-sol as pessoas que têm Alzheimer ou demência senil se agitam de maneira desesperadora. E alguém que passara o dia tranquilo fica outra pessoa. Irritado, confuso, violento, desequilibrado. As palavras tropeçam e saem em convulsiva confusão. O olhar fica desesperado, como se estivesse diante de um grande perigo, e ele mira o portão, com seu mantra “quero ir para casa”. Essa é a hora noa (da suprema angústia). Dele, e minha. Dele, porque sofre. E, minha, porque não sei o que fazer. É aquele momento aterrador no qual tu queres proteger o outro de toda a dor, mas não sabe como, não tens os instrumentos, as condições. No processo de compreensão da doença temos feito algumas tentativas medicamentosas. Mas, as coisas não se ajeitam. É um confuso turbilhão. Um remédio ajuda em uma coisa, e desarruma outra. É uma aventura assustadora, porque tudo parece inútil. Como se todo o conhecimento da medicina não servisse para nada. Uma insuperável impotência nos assalta. No meu desarvoro faço o que posso. Mas, desabo com o seu olhar aterrorizado. E, nessa hora, nem um abraço pode ser alcançado, porque não há razão, só o desespero, um desejo de fugir talvez. Imagino que seja alguma coisa que acontece no cérebro, que desarranja tudo, onde o toque amoroso não tem morada. É triste demais. Há dias que são mais calmos, outros mais tumultuados. Mas, indefectivelmente, o fim do dia para mim passou a ser portal do medo e da impotência. Meu pai sempre foi um homem de ação e decisão. Mata-me vê-lo assim. E nesse morrer, dele e meu, vamos caminhando, de mãos dadas, enfrentando o torvelinho com as poucas armas que temos. Lançando-nos no abismo, todos os dias. O amor vai segurando a onda. Mas, momentos há que nem o amor tem poder. É duro demais! Resta essa força atávica, que herdei dele. Que vai sustentando, sustentando, sustentando...
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Jornalismo de Libertação
Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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Um comentário:
Triste mas linda esta crônica sobre vocês dois. Carinho e força!
Tania Pacheco
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