Ele segue vívido nas minhas retinas, inesquecível, indelével, como um dos personagens mais intrigantes da minha infância. Seu nome: Newton. Era chamado de “o louco da rua” porque indefectivelmente por ali ficava, sob um pequeno monte de terra, bem em frente a casa de um vizinho, o seu Ciro, a gritar impropérios. A impressão que tínhamos era de que o único objetivo da sua existência era xingar o seu Ciro. E ele o fazia em todos os estilos. Cantando, em forma de versos, berrando. Diziam que eles eram meio parentes, e por isso o vizinho não se importava com aquela cantilena diária. Nunca soube ao certo. Newton era um homem bonito, alto, de cabelo comprido – pouco comum à época. Tinha um rosto expressivo, mantinha uma barba rala, mas um bonito cavanhaque. No mundo fantasioso das minhas leituras eu o comparava a Mefistófeles, do Fausto, de Goethe, porque havia visto desenhos nos quais o personagem malino carregava um cavanhaque do tipo que usava Newton. Andava sempre descalço, mesmo no inverno. E nos dias de calor, ficava sem camisa, com as calças arremangadas à moda de pescador. Tinha um corpo atlético, um abdome tanquinho. Era um tipão. Fazia parte da nossa rotina ficar à janela vendo o Newton declamar suas diatribes contra o seu Ciro. Muitas vezes decorávamos algumas de suas quadrinhas e cantávamos também. Ele era parte do nosso universo. Na verdade, todo mundo na rua cuidava dele, oferecendo café e comida. Lá em casa, era seguro que ele aparecia. No final da manhã, quando o feijão da dona Helena cheirava, ele empurrava o portão e caminhava pela calçadinha lateral até a porta dos fundos. Encostava no batente e, autoritário, dizia o seu tradicional: “me dá um prato de comida aí!”. A mãe falava com ele, conversava, perguntava sobre a saúde, e ele quieto, não respondia. Aguardava em silêncio e refeição. Não aceitava ficar à mesa com todos na família, pegava o prato e seguia para seu montinho de terra em frente a casa do seu Ciro. Comia e voltava para devolver o prato e os talheres. Ninguém o temia, apesar de todos o chamarem “louco”. Entrava nas casas sem pedir licença. Era um familiar. Hoje já não andam por aí essas figuras míticas que povoavam a vida das crianças num passado não tão distante das cidades pequenas. Presas em apartamentos ou casas bem cercadas, as gurizadas já não têm acesso a esses seres estranhos, complexos e amorosos, com suas “loucuras” sãs. Hoje, as crianças já não convivem com os diferentes. Os temem. E, o resultado é a intolerância, o medo, a incapacidade de partilhar a vida com o “outro, completamente outro”, como diria Dussel. Eu, por obra do acaso de uma infância feliz, carrego esse seres mágicos na lembrança. O Newton, o Lobisomem, a Horizontina. Pessoas que, apesar de serem diferentes, conviviam com a gente em parceria amorosa, sem que o medo de suas “maluquices” os afastasse de nós. Eram amigos e os cuidávamos, reverentes. Ainda hoje, nas tardes de primavera, posso ver o rosto de feições tão lindas, algo quadrado, do Newton, assomando na janela. Naqueles dias, a gente via a cara séria, olhando para dentro do quarto, como a buscar um olhar amoroso, e a gente corria para o beiral, rindo alto e gritando seu nome. Não lembro de tê-lo visto sorrir alguma vez, mas ainda me transpassa a mansidão do seu olhar. Creio que eles nos amava, a todas as crianças da rua. Porque ninguém ria dele ou de suas cantorias difamatórias. Ele era um de nós, só que grande. Foi tão forte sua presença que até hoje ainda repetimos, à hora do almoço: “me dá um prato de comida aí”. É o Newton, que volta.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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