Oneide dos Santos sabe muito bem o que é terceirização. Ela trabalhava como costureira numa grande empresa de confecções. Tinha um bom salário, direitos trabalhistas resguardados, vale-refeição e tudo o mais. Até que um belo dia foi demitida, mesmo depois de ter dedicado quase vinte anos da sua vida para a empresa que julgava ser a sua casa. O patrão havia decidido enxugar a empresa e contratar costureiras terceirizadas. Assim, em vez de pagar um bom salário a uma trabalhadora, ele passou a pagar uma quantia fixa para uma segunda empresa que contratava mão de obra mais barata. Oneide mesmo foi parar numa dessas empresas que revendem trabalho terceirizado, ganhando praticamente a metade do que ganhava na primeira empresa. Então, é disso que se trata a terceirização. Desonerar os patrões para que tenham mais lucro. Enquanto isso, os trabalhadores têm os salários reduzidos, trabalhando muito mais. É o que Ruy Mauro Marini chamou de “superexploração do trabalho”, situação característica dos países dependentes, quando a remuneração do trabalho fica bem abaixo do seu real valor. Situação igual à de Oneide pode ser vista todos os dias na Universidade Federal de Santa Catarina, onde várias funções são terceirizadas, tais como a de faxineiras, porteiras, motoristas, seguranças e jardineiros. As pessoas trabalham no mesmo ambiente, mas ganham salários muito mais reduzidos que seus colegas concursados, criando uma divisão intraclasse que, inclusive, dificulta a organização. E não bastasse o salário abaixo do valor, esses trabalhadores ainda vivem situações de precariedade nos direitos e nas condições de trabalho. E foi justamente contra essa precarização da vida laboral que os trabalhadores saíram às ruas nessa quarta-feira, dia 15. Em Florianópolis, o dia estava emburrado e chuvoso. Mas, nada tirou a disposição das gentes em realizar o ato de protesto contra a retirada de direitos e contra a lei das terceirizações. Pela primeira vez em muitos anos, todas as centrais sindicais chamaram seus filiados. Dessa vez não houve nenhuma menção de apoio ao governo. Foi só luta contra a terceirização e contra a retirada de direitos. A rua avermelhou com as tradicionais bandeiras de luta. Partidos de esquerda, centrais, sindicatos, funcionários públicos, aposentados, informais. Todos vieram com seus cartazes e reivindicações. Não faltaram os tradicionais “fora Rede Globo”, acrescidos do regional “Fora RBS”, numa alusão a empresa monopólica de comunicação do estado. A passeata que saiu da frente da Catedral juntou mais de cinco mil pessoas. Grande parte dos presentes era formada pelos professores estaduais em greve. O magistério catarinense trava dura batalha com o governo de Raimundo Colombo, que não se digna sequer a pagar o piso nacional aos concursados e ainda arrocha a vida dos “terceirizados” da educação, que são os contratados temporariamente. A caminhada seguiu pelas principais ruas do centro da cidade e dialogou com a população sobre a lei da terceirização e a retirada de direitos. Os trabalhadores alertam que não basta inflacionar os números de aumento de emprego, se esses empregos são precarizados, superexplorando a vida das pessoas. Terceirizar é explorar ao dobro. E a única opção para quem precisa vender sua força de trabalho é a luta coletiva. Sem isso, tudo fica pior. A marcha dos trabalhadores unificou partidos de esquerda e militantes petistas (do governo que hoje está no poder). Mesmo ainda defendendo o PT, os trabalhadores ligados ao partido sabem que nada pode justificar a retirada de direitos. Dentro do sistema capitalista, a única forma de manter a vida em algum patamar de dignidade é lutando por melhorias salariais, melhores condições de trabalho e garantia de direitos. Para além disso só a revolução, que pode apontar outras alternativas de distribuição de riqueza e trabalho coletivo. E, enquanto as condições para isso não estão dadas, a batalha tem de ser no campo sindical. Nenhum direito vem de graça ou por benesse de um ou outro governante. Tudo o que foi conquistado até hoje pelos trabalhadores foi na luta renhida. Por isso, é sempre bom ver os trabalhadores unificados na peleia por vida boa e bonita. Esse primeiro passo – de unificação - dado no dia 15, pode ser o início de uma avalanche de luta que ainda está por vir. Aparentemente, os sindicatos saíram da letargia provocada por mais de 10 anos de esperanças num governo dito dos trabalhadores, ou mesmo de cooptação governista. O PT já mostrou que está disposto a sacrificar os trabalhadores em nome da “estabilidade econômica” patronal. Os ajustes e cortes orçamentários estouram, como sempre, no lado dos empobrecidos, dos assalariados. Sendo assim, não resta saída. É luta, luta e luta!
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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