Não é de hoje que o mundo vive um aprofundamento do individualismo. Nietzsche já apontava em sua devastadora crítica aos valores modernos o domínio do que chamou de "o último homem", aquele que vive sob o império da sua vontade, hedonista e egoísta. Pois eis aí, no cotidiano, essa aberração. Dane-se o coletivo, danem-se os demais. O que é que tem pra mim? Esse é o mantra.
É certo que essa forma de viver no mundo é diuturnamente bombardeada pelos meios de comunicação de massa. Não é sem razão que os programas do tipo "reality-show", os shows de realidade, tenham se tornado uma febre em quase todos os países. Ver, desde o conforto dos lares, um pequeno grupo de pessoas usar de todas as armas para eliminar o outro. Esse é o esquema. Assim, na vida real, fica mais fácil usar os mesmos artifícios para enfrentar os dramas pessoais.
Um filme que ficou bastante famoso nos últimos tempos retrata com maestria esse novo "way of life" (modo de ser). É o "Jogos Vorazes". Nele, mostra-se uma sociedade que vive a paz dos cemitérios. Tudo está quieto. Os pobres trabalham sem reclamar e os ricos vivem na abundância, sem perturbação. Toda a vida dessa gente está focada num evento anual que mantém a sociedade em equilíbrio. Nesse evento, é escolhido um jovem de cada estado da federação, assim, por sorteio. E esses jovens lutarão entre si numa competição que termina com a morte de todos, menos de um. Esse um que vence, leva a prosperidade para o estado naquele ano. Então, toda a nação senta-se em frente aos telões para ver o massacre de seus filhos. E o que é pior, torce para que um, o do seu estado, vença. Ainda que vencer signifique matar.
O filme não fez sucesso por acaso. Ele é perfeito. As coisas são assim. Milhares de pessoas seguem sentadas diante dos telões assistindo algum "maluco" que luta a contra a ordem ser massacrado. E ainda discursam sobre ele, incitando os verdugos a ferir, sangrar, matar.
Hoje, na nossa universidade, a Federal de Santa Catarina, vivenciamos os "jogos vorazes". Logo, eles estão bem mais próximos de nós do que podemos supor. Alguns trabalhadores lutam pela melhoria do atendimento e pelos turnos de seis horas, enquanto uma boa parcela dos colegas assiste no telão, acompanhando cada passo da batalha, vibrando com os golpes. Não importa que os amigos caiam na disputa. Tudo vale pela emoção. Quem vencerá? Quem trará os benefícios?
Instaurou-se uma surda guerra interclasse. Professores - colegas cotidianos - bramem o chicote com o riso no rosto. Observam a democracia ir para o ralo sem esboçar reação. No Conselho Universitário, os técnico-administrativos levantam a mão para falar e os corpos se mexem em desconforto. Quem tem o poder de comandar o espetáculo, usa o microfone quando quer, fala quanto tempo quer, sem que os demais ensaiem um protesto. Todos espectadores dos "jogos vorazes", devorando com os olhos as carnes tenras que se colocam para o abate.
Na greve que os trabalhadores vivem desde 5 de agosto, foi preciso muita luta para conseguir uma mesa de diálogo. Mas, quando acontecem os encontros, o que não há é diálogo. Nenhum desejo de negociar, apenas o de impor uma vontade. A ordem é essa, cumpram-na! Caso contrário vem a punição.
Aí estão os jogos vorazes da UFSC. No filme, a "heroína" articula uma aliança com outro companheiro de desdita e eles terminam vivos os dois. Na universidade vivemos esse momento. Queremos a aliança com os demais colegas. É hora de fortalecer a greve, lutar de maneira conjunta. Nenhum acordo pessoal vai se sustentar. A vitória só vem com todos os trabalhadores unidos. Essa é a única forma de avançar e todos sabem disso muito bem.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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