sexta-feira, 6 de março de 2026

As eleições e o Irineu



Nas eleições, como na guerra, o que vale é a mentira. Interesses pessoais ou particularistas (de causas) se transformam, num átimo, em interesses gerais. Os discursos jorram e as propagandas tomam o lugar do debate. Há tempos que não discutimos mais projetos. Tudo vira uma onda louca de peças publicitárias, nas quais as promessas se acumulam.  Nestas horas, vale prestar atenção às práticas, às ações cotidianas, a maneira de atuar na vida. 

Vejamos as eleições na UFSC. Pessoas que já estiveram no comando da universidade vêm a público falar do que não foi feito pelo atual reitor. Reclamam de coisas que eles mesmo não fizeram, e em tempos bem menos hostis. Estranho. Por isso é sempre bom voltar no tempo e pensar nas gestões passadas. O que foi o mandato de Ubaldo? Como enfrentou o tempo da pandemia? Como foi deixada a universidade? O que foi o mandato da Roselane? Como ela atuou politicamente com os trabalhadores, com a tão falada democracia?  Lembram-se da EBSERH votada na Polícia Militar? E as gestões liberais, quem ainda se lembra de suas atuações privatistas? 

Pois é, eu lembro. A universidade é um campo de batalha. Aqui se expressa vida mesma, tal como fora do campus. Há projetos de país em disputa, há projetos de educação em disputa, há projetos políticos em disputa. Não é só como se vai “gerir” a máquina. Diz respeito a que tipo de universidade queremos comandar. Uma universidade abraçada com interesses de grupos de poder ou uma universidade que se coloque na vanguarda do conhecimento necessário aos interesses nacionais e regionais? Uma universidade que se abre para a participação equitativa ou uma universidade que se fecha em círculos elitizados?

Nesta disputa que se avizinha em abril elejo o Irineu, porque conheço suas práticas cotidianas. Tive a sorte de compartilhar com ele a vida no mesmo Centro onde foi diretor. Pessoa querida, equilibrada, sempre disposto a organizar consensos se o que estiver em jogo for o melhor para a comunidade, aberto ao diálogo fraterno, respeitoso com os estudantes, com os trabalhadores TAEs, defensor da participação direta. 

Li num artigo de um professor no sítio da APUFSC que ele é um ‘inexpressivo`. Engraçado como os professores gostam de diminuir o Irineu. Não me lembro de ter visto críticas “ad hominem” a figuras como o Rodolfo, Prata, Lúcio, Ubaldo, ou mesmo  Roselane. No geral as críticas que havia eram respeitosas. Mas, ao Irineu, os colegas gostam de tripudiar, diminuir. Será por quê?  O que seria ser um “inexpressivo”? Seria por não ser membro honorário da maçonaria? Seria por não ser amigo de lideranças estaduais ou nacionais da suja política tradicional? Seria por não estar ligado a grupos empresariais de “prestígio”? Seria por ele ter sido técnico-administrativo?   Seria por sua singela humildade? Seria por sua capacidade de tratar com respeito a qualquer um? 

Sim. Irineu não é dado a grandes discursos nem tem relações pessoais com figurões. Mas é um dedicado trabalhador da UFSC que aqui entrou quando tinha 18 anos. Conhece as entranhas da UFSC e já trilhou muitos dos seus caminhos de administração, sempre fazendo um trabalho diligente e competente. Prefere agir quietinho, sem choramingar. Critica o governo no que cabe e atua para resolver os dramas da universidade, sempre ameaçada e sucateada. Pegou uma UFSC desmontada, pelo drama da pandemia e por uma administração pouco eficaz. Era óbvio que não mudaria a realidade em meses. Tudo foi tendo de ser refeito, reconstruído, repensado. Administrar é isso. Resolve algo aqui, aparece outra coisa ali. As coisas vão tendo de ser reavaliadas. A Universidade perdeu muito de sua autonomia. Gerencia hoje mais de 300 contratos com empresas privadas, porque os governos foram eliminando e extinguindo funções. Limpeza e manutenção é coisa difícil de gerir, por ser privado e por estar submetido a uma série de regras que não favorecem a universidade. E aí, a coisa pega. Mas, vai-se trabalhando.

Estou na UFSC desde a gestão do Diomário, que foi bem boa. Teve seus problemas, como todas têm. Depois tivemos os privatistas, contra os quais lutamos muito, ora impedindo retrocessos, ora não conseguindo. Roselane, da dita “esquerda”, que foi uma decepção. Cancelier, morto pela onda lavajatista. Nada é 100%. Nosso papel, como trabalhador público, é seguir zelando pelo melhor. E hoje, o melhor segue sendo o Irineu. Disso não tenho dúvidas. Para mim ele não é um inexpressivo. É um trabalhador da UFSC da maior qualidade. Um professor exemplar. Um administrador competente. Um homem de valor. Talvez seja isso que incomode tanto. 

Irineu, meu voto é teu.  

quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo das atrocidades




Quando em 2017 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA pela primeira vez aberto, com esse feito, um caldeirão de atrocidades. Uma espécie de corolário do irracionalismo que vem se consolidando desde a primeira grande guerra. Conhecido mundialmente por sua frieza e maldade expressas de maneira clara num desses abjetos shows de realidade chamados “O aprendiz”, estava mais do que lógico de que governaria o país com a mesma arrogância com a qual ofendia, humilhava e despedia os seus “aprendizes” de monstros. Sim, porque o tal programa era um show no qual os aprendizes tinham de tomar decisões administrativas que se caracterizavam por falta de empatia, desumanidade e vilania. O mais calhorda era o que ganhava e o prêmio era ser assessor de Trump. Logo, era absolutamente certo de que o que se veria na presidência do país aqui mais poderoso do mundo era exatamente isso: vilanias. Deixemos claro: o Trump foi eleito, o que significa que essa fatia da população, que o conhecia bem, sabia o que estava fazendo. 

O que se viu, então, neste mandato, foi o seu showzinho já conhecido. Grosserias, preconceito, humilhações, arrogância. E, junto com isso, o crescimento de um movimento de ultradireita chamado QAnon, baseado em mentiras e invenções alucinantes. Esse movimento se passou rapidamente pelos eternos repetidores de bobagens estadunidenses e logo chegou à América Latina. Usando as mesmas técnicas de Trump, Bolsonaro se elegeu no Brasil, trazendo para a política o mesmo modo de desempenho. E assim, quanto mais fora da casinha fosse o candidato, mais chance passaria a ter. Claro que as experiências ditas progressistas deram uma mãozinha ao não conseguirem apresentar às populações respostas aos seus dramas. 

Javier Milei, na Argentina, é outro que se elegeu usando a mesma técnica. Gritos, ofensas, atos espetaculosos. E o que é pior. Foi extremamente claro na sua campanha sobre o que iria fazer: acabar com os direitos trabalhistas, destruir os serviços públicos e ajudar a família, a sua é clara. Foi escolhido no voto pelos argentinos. 

Agora, nos últimos anos, já no segundo mandato de Trump, vimos a naturalização da barbárie. O genocídio do povo palestino, perpetrado por Israel, assistido ao vivo nas telas dos celulares, sem causar muita comoção. Pelo contrário. Nos comentários das imagens pudemos ler os horrores de uma gente completamente destituída de humanidade. Apesar das grandes manifestações pelo mundo, nada aconteceu. O genocídio aumentou, sem trégua e segue ainda... Ficou tão naturalizado que já não importa mais... Israel matou crianças, velhos, explodiu gente nos hospitais, nas barracas de refugiados, matou jornalistas, médicos, as coisas mais abjetas. Sem limites. 

Então, quando os soldados estadunidenses entraram na Venezuela e sequestraram Maduro e Cilia, presidente e vice do país, não houve surpresas. O que é um sequestro diante de mais de 100 mil palestinos destruídos? Tá de boa! A Venezuela foi tornada refém e segue tutelada por Trump que governa desde Washington. E, para o mundo, tudo está bem. “É bem feito para os venezuelanos que inventaram de afrontar os Estados Unidos”, são os comentários que proliferaram na internet. Aí também decidimos estrangular Cuba, matar o povo de fome, na escuridão. E está tudo bem. Há quem festeje... e são muitos.

Então, se não há mais limites para o terror, bora bombardear o Irã. Sim, porque os Estados Unidos odeiam o fato de que o Irã não é seu capacho. Logo, vamos “aquecer” as coisas lá no Oriente Médio. O primeiro ato foi fenomenal: uma escola de meninas. Mais de 180 meninas mortas, destroçadas pelas bombas de Israel. Ah, mas não importa. São projetos de terroristas. De novo, o metralhar de comentários maldosos e vis de gente ruim e da mídia comercial, capacho do poder. Então, quando o Irã reviveu e bombardeou Israel. MEUS DEUS!!!! Que pecado atroz. Que gente ruim... está bombardeando alvos civis. Hipócritas!

E assim vamos. Não há limites. Somos, todos, reféns da megalomania de dois ou três governantes que se arvoram xerifes do mundo. E que têm bombas atômicas, capazes de destruir a todos. Não há limites. Nada a esperar de títulos de governos. Tudo indica que esta escalada de terror será longa. Os amantes de Trump, Bolsonaro, Milei e outros quetais, babam, felizes. O que acontecerá quando a realidade os surpreender? 

Os tempos são duros, mas, resistimos!