quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Velhice desamparada: espelho do futuro

Maricarmem Abascal


A crise das moradias na Europa cobrou vida. Uma senhora de 87 anos, Maricarmem Abascal, que havia sido violentamente despejada da casa onde viveu por mais de 70 anos, simplesmente porque não conseguia mais pagar o aluguel, morreu ontem, depois de vários dias no hospital. O despejo, que não foi o primeiro, acabou virando um símbolo na luta por moradia na Espanha, levando a população às ruas para garantir que  Maricarmem pudesse continuar vivendo na casa onde sempre morou. A luta nas ruas havia conseguido vitória, mas o coração de Maricarmem não resistiu. 

O exemplo da velhinha espanhola é só um entre os tantos outros que acontecem todos os dias por toda a Europa. Lá, nas grandes cidades, desde a instituição do ArBnb, os aluguéis dispararam e, para piorar, os salários dos trabalhadores têm sido sistematicamente rebaixados. As plataformas de aluguéis turísticos simplesmente têm comido as ofertas de alugueis permanentes e as famílias estão cada vez mais sendo desalojadas. As pessoas velhas são as que mais sofrem, pois ficam encurraladas, sem opção. As pensões ficam entre mil e 1.500 euros, enquanto os alugueis chegam a 950 euros, num sala/quarto. 

Nos países europeus a porcentagem de velhos é considerada bem alta, chegando, na média, em 23% da população e, hoje, perder a casa por conta dos aluguéis é uma realidade que se amplia. Não é sem razão que o caso Maricarmem acabou levantando a população espanhola em luta. Lá, a expectativa de vida é a mais alta do mundo, de 84 anos. 

No Brasil, a questão da habitação também é um grande drama. O déficit nacional quase chega a seis milhões de moradia, enquanto as pesquisas apontam que cerca de 30 milhões de casas são inadequadas para o bem-viver. A Caixa Federal registra um total de 83 milhões de inadimplentes, gente que não consegue pagar as parcelas da casa própria, e mais de 47 mil imóveis foram levados à leilão em 2024. Por aqui, as famílias também gastam bem mais do que 30% do salário em aluguel. Cidades turísticas igualmente têm sofrido com a chegada das plataformas de aluguéis temporários, esvaziando as comunidades e empurrando as pessoas para as periferias.  Em Florianópolis, por exemplo, a prefeitura fez acordo com a ArBnb visando ampliar as construções para especulação, fato que já provoca altas absurdas nos aluguéis para a população local. Drama que se amplia, silenciosamente, sem maiores protestos. 

Os velhos brasileiros, que não ganham em euro, e muitas vezes amargam a mísera aposentadoria de um salário mínimo, vislumbram um futuro bastante duro. Hoje, já são mais de 16% da população e, no geral, desamparados. As projeções são de que em 2047 já ultrapassem a porcentagem da Europa, chegando a 28%. Uma realidade muito pouco discutida nos movimentos sociais, partidos e sindicatos. 

Assim que o drama vivido por Maricarmem, e que a levou à morte, não está longe de nós. O binômio velhice/moradia é coisa que precisa ser acompanhada sistematicamente pelos trabalhadores, pois é sabido que boa parte da saúde mental de uma pessoa está visceralmente ligada às condições de existência. Velhos desamparados, desalojados e abandonados estão muito mais propensos a demências, o que os incapacita ainda mais. 

Esse é um tema duro, e precisa de profunda atenção.  

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