A querida dona Zenaide, como uma boa capitã, resiste e segue firme
O “pedacinho do céu” que havia no Pântano do Sul queimou.
Era o bar da capitã, dona Zenaide. Uma marca registrada da praia, pelo
atendimento alegre dessa pessoa sem igual, que tem criado sua família na lida
dura, frente ao mar.
Pois com o bar destruído, artistas de Florianópolis decidiram
realizar atividades buscando arrecadar recursos para reconstruir o bar. A cada
semana alguma coisa acontece.
Nessa semana que entra, nos dias 17 e 18, está programado um
Festival Cultural, com muita música, poesia, pintura, livros, enfim, muita
coisa boa. Já estão confirmadas as presenças de nomes importantes da arte da
nossa cidade: Denise de Castro, Sílvia Beraldo, Esporão do bagre, Valdir
Agostinho, Luis Meira, Regi Barcelos e muito mais gente boa. Som de qualidade e
muito amor no coração, assim como é quando o povo dessa ilha se junta pra
ajudar os seus.
Quem mora no sul da ilha não pode perder, e quem vive nos
outros cantos da cidade também. Faça um esforço e venha dar seu apoio para que
o Pedacinho do Céu volte a oferecer a boa comida típica junto com a simpatia da
capitã.
O festival começa na sexta, dia 17 a partir das 19h, no Salão
Paroquial do Pântano do Sul. E no sábado, a festa continua também a partir das
19h.
A apresentação do festival estará a cargo de Andréa Buzzato e Cláudia Barbosa.
Sim, acredito na possibilidade dessa coisa que tanta gente
abomina: o comunismo. Um modo de vida sem estado, sem classes, sem preconceitos
de etnia, religião ou orientação sexual, no qual ninguém explora ninguém, onde não há medo e a
riqueza gerada coletivamente é repartida conforme a necessidade. Ah... o mundo
perfeito! Sei que é difícil chegar lá, mas vou caminhando nessa trilha,
tropeçando aqui e acolá.
Sempre há quem diga: isso é loucura. Esse mundo nunca virá.
Eu escuto e sorrio. Não acredito nessas pessoas, porque vejo coisas no mundo
que me dão sinais, bons sinais. “O mundo só tem gente ruim”, insistem. “Veja o
que fizeram na segunda guerra com os judeus”. É, um povo inteiro seguindo um
louco. Gritando com o braço erguido, aplaudindo a morte de milhões nas câmaras
de gás. Mas ai eu penso naqueles que arriscaram tudo para salvar um vizinho,
nos que escondiam judeus ou que trilhavam com eles caminhos de fuga. Penso
nessas pessoas que ajudam os fugitivos de guerra a fugir, ou naquele francês
que carrega os imigrantes pela fronteira. Penso nessas mulheres incríveis que
andam por aí salvado bichos de rua ou animais abandonados. Ou nos que andam
pelas noites perigosas para levar uma sopa aos que não tem um canto onde
descansar a cabeça.
Penso nos companheiros e companheiras que ofereceram o peito
à bala na luta contra a ditadura, nos que perderam tudo por ter ajudado um
comunista nos tempos sombrios. Ou as mães da praça de maio a rodar buscando os
filhos, enfrentando os generais.
Penso nos que, no cotidiano da vida comum, nas cidadezinhas e
aldeias, estão sempre dispostos a matar a fome de alguém, a fazer algo
grandioso, sem nenhum holofote. Penso na juventude que ocupou escolas e na que
se organiza em partidos de esquerda ou movimentos populares.
Ah, para cada fascista tem uma multidão. Pessoas que, ás
vezes, nem sabem o que vem a ser esse tal de comunismo, e na sua estrada andam,
por carregarem tanto amor.
Hoje, quando o dia amanhecia e eu via o meu pai tomar seu
café da manhã, vi o celular tocar. Era uma amiga me dizendo para ver uma
postagem no facebook. Um cara, em Vitória, capital do Espírito Santo, onde se
vive um momento de medo e terror, andando com seu carro pela noite da cidade.
Um alto-falante tocando a música de John Lenon, “Imagine”, e um canhão de luz
jogando sobre casas e prédios uma mensagem singela: “sem medo”.
Vendo isso, como não se encantar? Como não acreditar? Das
janelas as pessoas gritavam, acenavam. “Tu não tem ideia do efeito positivo que
aquilo deu na nossa alma”, disse uma moradora, que filmou a cena da janela. E,
como um vírus, as pessoas ficaram esperando que ele passasse na rua delas, para
se encherem de esperança. E na sua página começaram a chover pedidos: "passa aqui".
O nome desse cara é Rike Soares e ele mexe com a paz. Com a
arte, com a beleza. Trabalha com eventos e fez o que fez num impulso de amor.
Não sei quem ele é , não sei que posições políticas
compartilha. Não sei. Mas o que eu sei é que coisas como essa que ele fez são
as que fazem a diferença. Ele pode até nem ser comunista, mas que sua alma anda
por essa estrada é de certeza.
Sei lá, mas tem gente legal nesse mundão de deus... Ah,
tem... Veja o vídeo de suas andanças...
Ele me chegou sem eu nem querer. Vinha da rádio, num cálido
dia de abril, por esses caminhos de areia que o Campeche ainda tem. Então o vi,
no portão de uma casa. Chorava um chorinho miúdo, olhando pra dentro do pátio,
agoniado. Era um pedacinho minúsculo de vida, todo pretinho. Estaquei diante da
cena. Era de doer. Fiquei parada em frente à casa, esperando que alguém saísse para
pegar o pequenino. Nada. Uma mulher finalmente assomou na janela. “Tá querendo
entrar”, falei, penalizada. Ela redarguiu, seca: “Não é nosso”, e fechou a
janela.
O bichinho seguiu com seu chorinho e fui andando com o
coração aos pedaços. Entrei num caminho e continuei a ouvir o choro. Olhei pra
trás e lá estava ele, agora olhando na minha direção. A súplica era para mim. Olhei
para um lado e para outro. Ninguém. “Foda-se, vou pegar”. Voltei às pressas e
peguei a bolinha preta. Aconcheguei ao coração, bem apertado. Ele cessou o
choro e se apertou de encontro a mim. Vim pelos caminhos conversando e fazendo
carinho. Pensava nos gatos em casa, o que achariam?
Quando cheguei e o tirei do colo a blusa estava tomada de
carrapatos. Ele mesmo estava cheio dos bichinhos. Provavelmente fora abandonado
há um ou dois dias, era muito bebê. Então, lá fui eu comprar remédio e
comidinha de cachorro. Como já tinha um gato preto de nome Zumbi, o batizei com
o nome do grande lutador sul-africano, Steve Biko. Por conta dos carrapatos ele
ficou com uma sequela, uma tremurinha na perna. Mas, o demais, tudo bem. Tem
sido uma adorável companhia desde então. Nove anos. Adquiriu inúmeros modos dos gatos, família que o acolheu. Dorme em cima da mesa, com a cabeça pendente, igual aos irmãos felinos. E
escala o muro tal e qual.
Hoje cheguei do mercado e ele estava ali, na rua, como
sempre. Fica olhando, bem paradinho, até que me reconhece, então vem pulando,
balançando o rabinho. Tem nove anos, mas é um galgo. Pula o muro quantas vezes
bem quer, adora a rua. Agora, que ela está calçada, virou uma perigosa
armadinha. Mas, como prendê-lo? Impossível. O coração fica apertado quando ele
alça o pulo e se vai. Faz um salseiro na rua, acendendo toda a cachorrada, e
passa pra lá e pra cá no portão, olhando pra dentro de casa, como a dizer: ó, to
aqui.
Depois, pula o muro de volta e vem esfregar a bundinha na
gente, olhando com aqueles mesmos olhos doces que tinha quando o encontrei no
caminho. Essas criaturinhas nos enchem de ternura.
Já fazia muito tempo que eu não sentava na ponta do mercado
para olhar a vida. Desde que o prefeito César Souza inventou uma reforma
gourmet e tirou da ponta o Bar do Alvin, ir ao mercado Público de Florianópolis
virou um sofrimento. Por ali, tudo agora é espaço de boy e de madame. Turistas
comendo pratos caros e cervejas artesanais. Não tem mais o samba de raiz, nem
as cadeiras de plástico e principalmente pessoas. Gente nossa, dessas que a
gente conhece, dos botecos, das quebradas. Até bem pouco tempo nem cerveja
tinha, só aquela de pescoço longo, tamanho pequeno e preço nas alturas. Passo
por ali quase todo o dia, mas não gosto. Não reconheço ali o povo daqui. E não
tem mesmo.
Mas, hoje, me assaltou a vontade de ver a vida passar. E não
há melhor lugar no mundo do que a ponta do Mercado, que dá vista para o
terminal de ônibus. Ficar ali, sentado, é ver passar diante de si a cidade. As
pessoas e seu corre-corre cotidiano. Dez minutos e a gente já cumprimentou pelo
menos uns três. Estudantes, trabalhadores, donas de casa em compras, mascates,
cantores, mendigos, skatistas, artistas de rua, é uma miríade de vida, uma vida
que se conhece. Tão diferente da que se expressa no vão do mercado, antes tão
nosso.
O sol estava quase a pino quando entrei no bar. Era o espaço
do antigo bar do Alvin. Tudo arrumadinho demais. E os garçons? Nenhum conhecido,
todos sem sotaque. O exato sentido de solidão. Antes, já se gritava: “Ei,
Marcelo, um chope”. “Neto, um bolinho de bacalhau”. E se via o Alvin,
circulando pelas mesas. Mas agora, nada. Aquela coisa sem vida, sem gritos, sem
bebuns. Uma gente arrumadinha demais. Enfim, sentei. Aquele lugar é, sem
dúvida, o melhor lugar de Floripa para se ver a vida que pulula no centro. Bem
em frente ao Camelódromo, na diagonal com o terminal central. É um sem fim de
gente.
O garçom foi simpático, mas não era amigo. Pedi um chope e
fique ali, bem na porta, vendo as gentes passarem. É uma experiência sem igual.
Um vai e vem de pessoas que carregam nas almas suas dores, seus medos, suas
alegrias. O cego, o sem perna, a mocinha de pernas de fora, a do shortinho
curtíssimo, o homem da água de coco, a velhinha com a sombrinha, o vendedor do
chip da TIM, a senhorinha bem arrumada com sacolas do xopingue, as garotas falantes
com sacolas do Kilojão, os garotos sarados, os equatorianos com suas sacolas
cheias de muamba.
Vez em quando algum amigo ou conhecido que passava ligeiro
me acenava. E eu ali, morrendo de vontade que fosse outro tempo. Bateu quase
que um sentimento de vazio. Meio da tarde e eu ali, sozinha, ruminando minhas
ausências. Nenhum garçom pra contar das namoradas, nenhum amigo para dividir as
coisas da vida, nenhum ombro companheiro para as lágrimas e lamentações. Só
aquele sonzinho de música cabeça, e aquela coisa limpa demais. O garçom chegou,
solícito: “Mais um?”. “Tá”. Fazer o quê. O primeiro chope tava amargo demais,
pedi um da brama. A porra do bar só serve duas marcas de chope. Ou isso, ou
vaza. Caralho, e é o melhor lugar da cidade, na ponta do Mercado. Ódio. Fiquei,
ainda que com aquele sentimento de estar traindo o Alvin e toda a companheirada
que antes frequentava o bar.
Mas a vida ali na esquina dessa cidade que amo me chamava. E
eu mergulhei. Esquecida do ambiente abuguesado e dos clientes entojados,
fiquei, virada para a rua, balançando no vai e vem. Lá na outra ponta do camelódromo
começou um bafon, uma mulher gritava por conta de uma sombrinha. Sorri. A vida!
Do nada surgiu um cara com uma caixa de som e começou a cantar. Músicas bregas,
de traições e mágoas de amor. Pedi o terceiro chope, sem nem olhar para dentro
do bar. O centro da cidade é bom demais. Não saberia viver sem isso.
Por fim, 30 pila mais pobre (é, 10 pila cada chope), decidi
pegar o rumo do sul. Misturei-me a multidão que assomava rumo ao terminal, passei
a catraca da Plataforma B e procurei o Rio Tavares. Lá estava, parado, e com
pouca gente. “Milagre, milagre”, gritei, mentalmente, e corri arrastando a
sacola da Millium, onde tinha comprado umas almofadas vermelhas. Sentei esbaforida. Um menino no meu lado
sorriu. E eu retribui.
Ah, tem horas que vale a pena viver.
Aqui, a histórica entrevista com o Marcelo, garçom no Bar do Alvin.
Esposas e familiares dos PMs se movimentam contra o arrocho e a insegurança
A mídia comercial tem mostrado o "caos" no Espirito Santo por conta da greve dos policiais militares. Algumas coisas precisam bem esclarecidas sobre esse movimento. Em conversa com o cabo Noé, vice-presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares do Espírito Santo, colhemos as seguintes informações. 1 - Não é uma greve de policiais. O que acontece é que as esposas e familiares dos policiais estão trancando as portas do batalhões e não estão permitindo que eles saiam. 2- Os familiares decidiram fazer isso porque é vedado aos policiais fazer greve. 3 - Os familiares reivindicam um salário melhor aos policiais e também condições de trabalho. Hoje o salário médio é de 2.750 bruto, e é o pior salário do Brasil. No Espírito Santo eles estão sem ganho real há sete anos, e desde há três anos sequer têm reajuste da inflação. A situação é de penúria. 4 - Não bastasse a falta de salário, os policiais são obrigados a trabalhar enfrentando riscos cotidianos sem as condições para sua proteção. os coletes a prova de bala estão vencidos, e os que estão na validade precisam ser usados em sistema de rodízio. Um veste a proteção e outro não. A sorte define quem vive. 5 - As perdas salarias chegam a 45%, mas a Associação dos Praças alega que um reajuste de 10% já poderia abrir uma negociação. Ainda assim o governador Paulo Hartung, que é do PMDB, se nega a negociar. 6 - A postura do governador é descrita como "imperial". Segundo os policiais eles prefere morrer a ceder. 7 - Por outro lado, os policiais e suas famílias já estão morrendo e tampouco estão dispostos a seguir assim. 8 - Se hoje o estado vive um caos, com criminosos nas ruas, tiroteios, sequestros, roubos de carro, saques, a responsabilidade deve ser dada a quem de direito: o governador e sua política de arrochar os trabalhadores em vez de cobrar as dívidas do empresariado local. Como sempre, o argumento para manter o salário baixo e não garantir a segurança dos soldados é a falência financeira do estado. Como sempre, pagam os trabalhadores.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Jornalismo de Libertação
Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
Moda Inviolada: uma história da música caipira
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