segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O fim do jornalismo?



Com o fim da exigência do diploma para exercer a profissão e o fortalecimento das mídias digitais os temas da figura do jornalista e a existência do jornalismo têm me perseguido. Observo que as empresas estão contratando “produtores de conteúdo” em vez de jornalistas para as redes sociais ou para seus portais de informação. Digo informação porque não poderia dizer notícias, já que uma notícia exige no mínimo checagem e re/checagem da informação. E o que se vê, na maioria desses portais é o reaproveitamento de textos de outras pessoas, as quais não temos conhecimento se são jornalistas ou gente capacitada a redigir uma boa reportagem.

Aprendi com Adelmo Genro Filho que uma notícia não é apenas um amontoado de palavras a responder as seis perguntas básicas: o que, quem, onde, como, quando, por quê? Uma notícia é uma forma de conhecimento que parte da singularidade de um fato, mas que precisa conter em si a particularidade e a universalidade que envolve o dito fato. Isso é coisa que exige um grande esforço intelectual, capacidade de síntese, densidade de informação. Ou seja, é um fazer que demanda muito da pessoa, exigindo uma formação sólida tanto na técnica, como na teoria e no conhecimento geral.  Assim, escrever uma notícia capaz de oferecer toda a atmosfera totalizante que envolve determinado fato é pedreira. Coisa de jornalista. 

Mas, com o advento das redes sociais e dos portais eletrônicos, encontrar uma notícia tem sido cada vez mais difícil. Acha-se muito texto superficial, muita bobagem e muita mentira. Mas, uma notícia mesmo, tá difícil, o que me faz pensar na difícil existência do jornalista e do jornalismo nessa selva de artificialidades e desinformação. 

Outro dia, vendo TV, algumas pessoas que desconheço, mas que ali estavam dizendo barbaridades, eram apresentadas nos créditos como “fulana de tal, digital influencer”. Dois elementos já me saltaram como ridículos: o nome em inglês (típico do colonialismo cultural) e a situação em si, uma socialite contando de suas aventuras na noite do Rio. Que influência isso pode ter, perguntei-me? Mas, no geral, os canais de TV, sejam abertos ou por cabo ou fibra, são fábricas de ideologia. Então, prestei muita atenção ao que ela dizia. Frivolidades de uma pessoa que vive num Rio de Janeiro muito específico, típico de uma classe alta, endinheirada, que pode andar pelas baladas ou frequentar as “boas praias”. Uma rotina absolutamente descolada da maioria das gentes. E ainda assim a garota é uma influenciadora digital. Dita modas, cria gírias, impõe um padrão. 

Nas redes sociais observa-se a mesma coisa. Existem pessoas que têm milhões de seguidores unicamente porque ali estão mostrando seu dia-a-dia, dizendo bobagens. Isso virou uma febre. Não tem a menor importância se o que a pessoa está dizendo tem alguma ligação com a realidade, com a verdade das coisas. Não importa. A pessoa falou, e disse. E forma opinião. E aquilo vai se reproduzindo nos grupos de uatizapi e facebook criando bolhas e bolhas de mentiras e superficialidades. Uma algaravia sem sentido que assume o sentido da verdade. A opinião pública sendo fabricada pelos tais influenciadores digitais. 

E o jornalismo? Onde anda? Sequer aparece nos telejornais das grandes redes ou nos espaços de notícias dos grandes portais onde a quantidade de barbaridades e manipulações chega às raias da loucura. Nem mesmo a regrinha liberal de mostrar os dois lados está sendo cumprida. É a deslavada produção da mentira, sem qualquer prurido. 

Quando no início do século 21 comecei o mestrado na PUC de Porto Alegre meu adorável orientador, Francisco Rüdiger, me provocava com essa assertiva: o jornalismo morreu. E eu insistia que não, estava vivo, escapava nas grandes redes e vivia pleno nos veículos alternativos, populares e comunitários. Hoje, não sei mais. Mesmo nas propostas de esquerda, vicejam os “digital influencers”, as propostas de “transmissão ao vivo” e também aparecem mentiras. Há pouca mediação jornalística, aquela coisa de produzir conhecimento, análise, baseado em informações seguras, colhidas pelo próprio repórter. Não é sem razão que muitos textos, ditos notícias, podem ser produzidos por robôs.

São questões que têm me assombrado, jornalista que sou. Haverá jornalismo nesses tempos vertiginosos? E se há, como fazer com que chegue às multidões? E se chegar, será bem recebido? Perguntas e perguntas a me torturar! 




sábado, 10 de agosto de 2019

Dicas para os cuidadores


Das coisas que vou aprendendo na caminhada com o pai, procuro dividir com os compas que vivenciam a mesma realidade. Cada experiência é única, mas tem algumas dicas que, penso, servem para todos. Passo três delas aqui que considero uma grande conquista minha nesse processo:

1 - Não dê chilique - Os velhinhos fazem coisas inauditas. Espalham cocô pelo banheiro todo, fazem xixi dentro do armário ou no meio do quarto, desarrumam o guarda-roupa todo, guardam comida dentro das roupas no armário, rasgam livros, botam fogo nas coisas, furam as roupas, enfim, uma infinidade de atos dos quais não se dão conta, muito menos percebem que incomoda os demais. Isso é coisa que não vai mudar, então não adianta clamar a deus, perguntar por que isso está acontecendo, ou gritar com eles dizendo que não pode fazer assim. Eles não entendem. Então, há que se adaptar. O pai tem mania de colocar um pãozinho dentro do bolso da calça e ficar comendo ele durante a tarde. Eu deixo. Apenas cuido para esteja sempre fresquinho e tiro na hora de dormir.

2- Resolva os problemas imediatamente – Esteja sempre atento para limpar o que tem de ser limpo, para não deixar que a comida mofe dentro das roupas, para tirar os maus odores. Se o banheiro foi premiado, arregace as mangas e dê jeito. Se fez xixi no meio do quarto, seque ligeiro para que ele mesmo não se incomode ou se molhe, se sujou as roupas de cama, troque na hora, se sujou a roupa em uso, resolva. Vasculhe o guarda-roupa, os armários e se possível inclua a pessoa na busca. Com pai faço assim, às vezes achamos bolo, doce, frutas ou comida no meio das roupas. Eu digo: quem será que deixou isso aqui. E ele responde de imediato: Eu que não fui. Então eu fico pensativa e digo: acho que foi o Saci. Ele ri e confirma. É, deve ter sido o Saci mesmo. Isso é legal porque ele não se sente mal com a coisa toda. Porque se a gente fica brabo ele fica nervoso.

3 – Garanta sempre o riso e a leveza. A pessoa com demência não faz as coisas por mal. E se por vezes fica mal humorada, ou se nega a tomar banho e fazer a higiene, há que se ter paciência e fazer tudo para distrair. A música é algo fundamental porque ajuda a criar uma atmosfera de alegria. Cada coisa incomodativa deve ser encarada com graça. Uma boa risada desmancha qualquer clima. Geralmente quando acontece algum acidente escatológico, envolvendo cocô, o pai fica muito nervoso. Creio que fica um pouco envergonhado por ter feito tanta sujeira. Mas, com o tempo consegui fazer com ele sempre me chame para mostrar o acontecido. E aí eu sempre faço alguma piada, ou fico tentando caçar o Saci, peço a ajuda dele para limpar. O incidente fica leve e ele não fica estressado nem envergonhado. Vamos fazendo as coisas juntos como já me ensinou minha boa amiga Ana Claudia de Souza.

É claro que a vida de cuidados não é um mar de rosas e por vezes nos cobra um grande esforço emocional, porque não é fácil manter o bom humor diante de algumas “aprontações” . Mas, o fato é que não há nada que possamos fazer para mudar isso. É assim. Não vai acontecer nenhum milagre e resolver. Deus não vai descer num carro de luz e transformar a realidade. Quem tem de fazer o que é preciso somos nós mesmos. Então, seguindo essas dicas, vamos caminhando. Fica mais fácil para nós e para eles.

Espero que sirva para alguém.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Sobre o que somos no capitalismo


Não há novidades na vida daqueles que não são proprietários, que não pertencem à classe dominante. Seu cotidiano é o do não-ser. Eles não existem como pessoas, que têm nome, sobrenome, filhos, sonhos. Não. O que não faz parte do 1% que domina é considerado um número, uma estatística, um receptáculo de força de trabalho. Nada mais. Mesmo os alto executivos, que dependem de salários, ainda que polpudos, estão na mesma condição. Um belo dia o patrão cansa, e adeus.

Quando o capitalismo começou a se firmar, a riqueza de poucos proprietários de terra e fábricas se fez em cima do trabalho duro da maioria das pessoas que eram arrancadas de suas terras, recebendo como prêmio a liberdade. Não mais prisioneiros do feudo, mas livres para trabalhar onde quisessem. Essa era a promessa, mas a toada era de fato outra.

Marx, no livro “O Capital” conta como tudo aconteceu na Inglaterra. Ele diz: “Os recém-libertados só se convertem em vendedores de si mesmos depois de lhes terem sido roubados todos os seus meios de produção, assim como todas as garantias de sua existência que as velhas instituições feudais lhes ofereciam”. Ou seja, não era uma escolha. A terra ficara para trás e só restava o trabalho pesado nas fábricas. Mas, como empregar toda aquela multidão que estava sendo expulsa do campo? Impossível. Muita gente ficava pelo caminho, amargando a mendicância.

E o que faziam as pessoas de bem daquela época? Ajudavam, sentiam compaixão? Não! Aplicavam leis perversas. Em 1530, na Inglaterra, a miséria era tanta entre os velhos que eles recebiam licença para mendigar. Isso era o máximo que se fazia por eles. Já os adultos que não conseguiam trabalho tinham como punição o açoitamento e a prisão. E se ao sair da prisão não encontrasse um emprego a pessoa podia ser escravizada. E quem escravizava a criatura desafortunada? Aquele que o denunciava como vadio. Era a lei.

No reinado de Elizabeth os mendigos que eram pego sem licença, mesmo se velhos, eram açoitados e os que com mais de 14 andassem na “vadiagem” podiam ser surrados e ter a orelha esquerda marcada a ferro. E caso ninguém quisesse dar emprego ao cristão, ele poderia ser executado. Eis a liberdade do capital no início dos seus tempos. “Assim, a população rural, depois de ter sua terra violentamente expropriada, sendo dela expulsa e entregue a vagabundagem, viu-se obrigada a se submeter por meio de leis grotescas e terroristas e por força de açoites, ferros em brasa e torturas, a uma disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado”.

Olhando para hoje, o que mudou? Façam o exercício de pensar. Nos dias que correm os “vagabundos” seguem sendo marcados a ferro, sem chance de se erguer. E são denunciados pelos seus iguais, que só se diferem um pouco pelo fato de terem conseguido um emprego para ser explorado. Mas, no fundo, fazem parte do mesmo grupo, daqueles que precisam vender sua força de trabalho para poder comer ou sustentar seus pequenos luxos.

Os empobrecidos pelo sistema capitalista nunca estarão empoderados, em nenhuma situação. Sobre eles pesa a realidade concreta. Se não tem trabalho, não come. E não há trabalho para todos. Se o vivente cai na droga, na bandidagem, no vazio, não há quem lhe estenda a mão. O sistema organiza e impõe a concorrência, a disputa. É matar ou morrer.

No Brasil, o presidente falastrão é só um gerente desse sistema de morte. Por isso não há novidade no grotesco do discurso. O que ele diz é o que diria um lord inglês no século XVI, XVII ou XVIII. O que ele diz é o que dizem os megaempresários nas suas mesas de negócio. O que ele diz é o que dizem os banqueiros que desalojam gente de suas casas. Morte, tortura, açoite, bala. É o normal da classe dominante e dos seus cães de guarda. A sua volta, voejam as moscas, os que riem dos torturados, dos assassinados, dos desaparecidos. Os que pensam que seu dia nunca chegará. Ele chega irmão. Por que se a pessoa não é dona dos meios que garantem a produção do que vai lhe gerar a vida ela está em permanente risco. Mesmo o maior puxa saco do planeta pode cair em desgraça. Porque que os poderosos são assim. Não veem pessoas. Eles veem coisas. E coisa se chuta.

Resumindo a ópera. O inimigo é o sistema que torna a maioria das gentes uma coisa. Os gerentes vêm e vão, são melhores ou piores, mas a desgraça permanece. Então, quando um cão de guarda rosna, há que avançar para além dele, destruindo aquilo que ele guarda. É tempo de ir à fonte.


sexta-feira, 26 de julho de 2019

A comunicação e a servidão

Fahrenheit - vigilância contra o pensamento crítico

Quando em 1938 o jovem Orson Welles levou a sociedade estadunidense a beira do delírio coletivo com a apresentação radiofônica de uma invasão alienígena – na verdade a dramatização da novela de George Wells, Guerra dos Mundos – ficou bastante claro o poder que o rádio – naqueles dias uma mídia insurgente – desempenhava. Sua penetração era avassaladora e o que era veiculado na caixinha de som assumia status de verdade absoluta. A sociedade já não estava mais refém dos ilustrados, que sabiam ler, e desvendavam as letras dos jornais. Pelo rádio, a informação falada podia chegar a qualquer pessoa e em qualquer lugar. Abria-se o espaço para a liberdade do conhecimento. Só que não.

O que apareceu como um grande passo na democratização do conhecimento sobre as coisas do mundo logo começou a ser abocanhado pelas grandes empresas de comunicação e a informação já virou mercadoria e manipulação. As informações divulgadas no rádio serviam aos interesses da classe dominante. A verdade nascia morta. E em pouco tempo os modelos das agências internacionais foram se replicando em todos os espaços do globo terrestre, fazendo hegemônica não apenas a forma, mas também o conteúdo. No Brasil, por exemplo, foi muito famoso o noticiário radiofônico chamado “Repórter Esso”. Eram cinco minutos de notícias veiculados em três horários do dia, trazendo, segundo o locutor, “o mundo”. Mas, esse “mundo” era apenas aquele que as empresas patrocinadoras (petroleiras) queriam que existisse. E as notícias apenas reforçavam os interesses da classe dominante.

Quando despontaram os anos 1940 e 1950 o planeta vivia o período turbulento da segunda grande guerra e nesses momentos de mudança de temperatura geral a informação passava a ser ainda mais importante. Era preciso criar verdades. E aí, quem tivesse o controle dos meios massivos tinha também a massa na mão. O rádio foi fundamental nesse tempo. Quando a guerra acabou outra mídia foi incorporada ao processo de disseminação da informação: o cinema. Já não era apenas a arte sendo mostrada, mas um discurso que servia ao status quo. E, nesse quesito, os Estados Unidos fizeram história construindo uma indústria poderosa que mais era uma usina ideológica, capaz de transformar em verdade as mais estapafúrdias mentiras. Foi por conta dessa máquina que se disseminou a ideia da vitória estadunidense na guerra contra o nazismo, por exemplo. O desembarque na Normandia viralizou no mundo através dos dramas da tela grande e todo o sacrifício do povo russo, que resistiu bravamente em Leningrado, ou que enfrentou o frio mortal do inverno em Moscou, barrando os nazistas, ficou obscurecido. A força da imagem na telona do cinema e dos roteiros que inventavam a história se disseminaram pelo mundo afora.

Quando Ray Bradbury lançou seu livro “Fahrenheit 451” no ano de 1953, tempo em que a chamada guerra fria – disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética pelos corações e mentes – se consolidava, sua intenção era apresentar uma crítica radical ao sistema de comunicação estadunidense que parecia render-se a um tipo de pensamento único, sem espaço para a crítica. O livro mostrava uma sociedade no futuro, completamente dominada por telas de televisão gigantes, que ocupavam o espaço das casas de maneira onipresente, apresentando uma algaravia sem sentido, capaz de obnubilar o pensamento. Ao mesmo tempo, todos os livros eram banidos como coisas perigosas e desnecessárias. A segunda grande guerra havia terminado, com a União Soviética colocando por terra o sonho de Hitler, mas os Estados Unidos, a partir de uma eficaz ofensiva comunicacional passou a difundir para o mundo inteiro que a guerra havia sido vencida por eles, o chamado “mundo livre” em oposição ao que denunciavam como o totalitarismo soviético.  Na indústria roliudiana os “russos” sempre foram representados como homens frios, maus e assassinos. Todo o mal vinha da União Soviética. Isso também consolidou um modo de pensar e de ver o mundo. A indústria do cinema não era só uma fábrica de sonhos, mas também uma fabrica de mentiras.

A televisão que começa a se massificar no final dos aos 60 segue a mesma lógica. Grandes empresas dominando o espectro e a informação sempre sob controle, garantindo o modo de ser do sistema capitalista de produção. As notícias, os filmes, o entretenimento, tudo seguindo um roteiro sem espaço para a pluralidade que se expressava na sociedade real.

Os meios de comunicação, ao longo de toda a história humana sempre tiveram essa característica. E claro, como tudo contém em si sua própria contradição, eventualmente apresentam brechas por onde a verdade salta. Mas, essas brechas são pequenas e, perdidas no universo da mentira, alcançam apenas aqueles que estão muito bem preparados para vê-las e compreendê-las. Umberto Eco, que foi um pensador da comunicação, sempre insistia na necessidade de os movimentos sociais criarem grupos de alfabetização para a televisão. Ele acreditava que se as pessoas estivessem capacitadas para perceber a ideologia e compreender os respiros de verdade que pela tela eram disparados haveria alguma chance para o pensamento crítico. Mas, poucos seguiram seus conselhos e durante muito tempo a televisão foi massificadora das ideias dominantes.

O nascimento da internet de novo trouxe o velho discurso da democratização da informação. Agora sim, diziam os estudiosos da comunicação, a rede permite a conexão de todos com todos e não haverá como manipular a verdade. Ilusão. A rede tem dono e tem interesses. E aquilo que surgiu como uma maravilha democrática muito rapidamente mostrou-se um espaço de totalitarismo em níveis jamais vistos. E, hoje, os instrumentos do facebook e whatsapp, dão vida àquilo de Bradbury apontou nos anos 50. Ou seja, a maioria das pessoas que vive nos países ricos ou em desenvolvimento, agarrada a um celular, está absolutamente presa a uma tela que não toma a parede da casa, mas simplesmente o dia inteiro do indivíduo que permanece conectado o tempo todo. Assim como no tempo do rádio e da televisão, o tempo das redes não é um tempo neutro e muito menos democrático. Poucas empresas no mundo dominam absolutamente tudo o que se vê ou lê. E mais, com o consentimento do cidadão, essas empresas também se apropriam dos dados pessoais de cada usuário manipulando-o não apenas no que pode comprar ou consumir, mas também nas suas convicções políticas e religiosas. A mais-valia ideológica apontada pelo pensador venezuelano Ludovico Silva na análise da televisão, agora encontra sua forma mais acabada no mundo das redes. Pois a televisão podia ser desligada, enquanto que o celular vibra 24 horas por dia e seu som é como o canto da sereia. Um chamado irresistível e mortal.

Para Ludovico Silva a mais-valia ideológica é justamente a prisão da pessoa ao mundo das mercadorias mesmo quando aparentemente está fora do processo do trabalho. Descansado em frente à TV, dizia ele, o telespectador está ainda enredado na ideologia do consumo e sua mente segue bombardeada por produtos e ideias que respaldam como o melhor dos mundos, o mundo capitalista.  Poucos escapam dessa máquina ideológica.

Hoje, a dominação é tanta, que a própria pessoa torna-se mercadoria, uma vez que os dados sobre ela, que ela mesmo autoriza que sejam copiados, viram ouro nas mãos das empresas de comunicação. Esses dados são vendidos milhares de vezes, para milhares de outras empresas, que bombardeiam o internauta com a propaganda de seus produtos. E servem ainda para desenhar o perfil ideológico de cada pessoa, fazendo com que mensagens específicas sejam direcionadas a elas reforçando assim sua maneira de pensar. É uma estrutura gigantesca de dominação que apesar de ter poucos donos, têm milhares de sistema robôs fazendo o trabalho de bombardeio. Esse sistema conseguiu ser mais terrível que o da ficção de Bradbury, visto que são as próprias vítimas que o autorizam, alegremente, acreditando estarem vivendo numa democracia plena.

Há bem pouco tempo o Brasil sentiu bem forte esse processo de formatação da opinião pública durante a eleição para presidente em 2018. Um candidato, usando apenas as redes sociais, conseguiu manufaturar a ideia de que ele era a melhor opção para o Brasil. E, contratando uma grande empresa de distribuição de informação através de robôs, chegou aos celulares da maioria da população, com mensagens específicas que apenas reforçavam de maneira radical os preconceitos e ideias já existentes nas pessoas, tais como o ódio aos negros, aos pobres, aos petistas, aos gays.

Perpassando a linha do tempo e observando o poder dos meios de comunicação, o que se pode depreender é que esses meios foram ficando cada vez mais totalitários e manipuladores. Ao passarem a ideia de que tudo está exposto, alardeiam que a democracia está no seu ponto máximo. Mas, não é o que a realidade mostra. Aquilo que expõem está eivando de ideologia e apenas reforça o que o status quo quer que seja visto como verdade. O fato de qualquer pessoa poder ser um produtor de conteúdo não implica democracia se essa pessoa estiver produzindo um conteúdo mentiroso, enganador ou apenas baseado em opinião. Ainda mais que as opiniões pessoais estão sendo, a cada dia, reforçadas por mensagens igualmente enganadoras. É como se a pessoa vivesse num looping interminável.  E, nesse círculo vicioso, o sistema dominante vai se fortalecendo, tornando cada vez mais distante o pensamento crítico.

A ideia de uma cidadania digital, na qual a pessoa, conectada, pode atuar politicamente com sua opinião e com seus argumentos, não encontra correspondência no que denominamos democracia participativa. Porque o cidadão digital não está no coletivo, não debate o tema, não ouve outras opiniões, não aprofunda os conhecimentos. Ele está sozinho com seu celular e totalitariamente expõe sua opinião que nasce unicamente dele mesmo, sem contato com outras pessoas na sua diversidade. «Acredito porque acredito”. É um ato de fé, como nos tristes tempos do obscurantismo quando os padres impediam a democratização dos livros e a tradução da bíblia para que os fiéis não soubessem que Jesus era amor e não um monstro que queimava pessoas.

Nos tempos que vigem, a comunicação, mais uma vez, aparece como um poder, e é. Mas ela não pode ser vista só na sua singularidade. Sem conexão com o modo capitalista de produção qualquer análise fica capenga. Porque a comunicação dos nossos dias obedece a uma razão do sistema. Ela se mostra “livre” justamente para aprisionar. É tão ilusória quanto foi o rádio ou a TV nos seus tempos dourados. A internet é igualmente uma usina ideológica, e das mais poderosas, justamente porque se apresenta como interativa e acessível para todos. Nessa frase se esconde também outra mentira. Ela só é acessível a quem pode pagar os pacotes de acesso, o que torna essa “cidadania” digital ainda mais falsa. Um ex-ministro de Administração e Reforma de Estados do Brasil, chamado Bresser Pereira, nos seus tempos de governo, cunhou uma expressão que bem revela esse novo cidadão que temos atualmente. Na época ele pregava que o Brasil deveria ter um novo tipo de cidadão, o cidadão-cliente, ou seja, aquele capaz de abrir mão dos direitos como saúde, educação, segurança, para então pagar por isso.

Naqueles dias do governo de Fernando Henrique Cardoso, anos 1990, a tal reforma do estado que criaria o cidadão-cliente era a de privatização total. E naquele mundo pintado como o melhor já visto no país, só seria cidadão aquele que pudesse pagar. A ideia não deu certo porque eles esqueceram de combinar com o povo, que se organizou e barrou muitas das privatizações, inclusive a da universidade pública.

Mas, hoje, temos essa prática do cidadão-cliente em nível mundial. E isso se expressa também na comunicação. Os famosos senhores e senhoras ninguém, que vomitam suas mentiras e preconceitos pelas redes sociais só o fazem enquanto pagam. Se atrasarem a conta da operadora, sua voz é calada. Isso não é democracia.

Não bastasse isso, as empresas que controlam o fluxo da informação, por terem acesso ao mais profundo de cada pessoa, sabem muito bem quem são aqueles que usam as redes para disseminar a verdade ou a crítica. E esses têm suas postagens apagadas sem apelação. Não há para quem reclamar. A rede é um poço sem fundo, um monstro sem rosto. Quem produz informação veraz já está bastante acostumado a mensagem: “Essa postagem viola as regras da comunidade”, que aparece em segundos depois da postagem. A democracia digital é controlada por robôs, que ao detectarem alguma palavra chave ou alguma imagem catalogada como imprópria, eliminam a mensagem imediatamente.

A saída para esse tipo de totalitarismo, aceito voluntariamente em nível mundial, pode ser a boa e velha fórmula da comunicação presencial. O olho-no-olho, a possibilidade da conversa, do debate, da argumentação. Um trabalho hercúleo, de base, que precisa ser sistemático e contínuo e que exige muito dos lutadores sociais.

É fato que há uma variedade muito grande de meios alternativos, independentes, comunitários que buscam fazer o contraponto à informação massificada. É louvável e necessário. Mas, absolutamente ineficaz. O poder dos grandes meios é infinitamente superior. É como estar na guerra com arma de rolha enquanto o inimigo tem arma nuclear. Esse tipo de comunicação é unicamente resistência. Como o menino segurando com o dedo, o furo da barragem. As páginas web dos movimentos sociais estão hospedadas em servidores que as tiram do ar a hora que quiserem. E também precisam pagar para estarem na rede. Sem grana, sem direitos. O uso do facebook vai até onde a mensagem não ferir as “regras da comunidade” e o whatsapp funciona como um bom instrumento de espionagem. Ou seja. Estando dentro da rede, estamos sob seu domínio. Nenhum direito nos cabe.

Há iniciativas de programas e aplicativos que buscam fugir do domínio das grandes empresas transnacionais que dominam o fluxo, mas como as do sistema são mais acessíveis e aparentemente “gratuitas”, as alternativas ficam isoladas no gueto. Só usam essas tecnologias ou apps aqueles que já estão convertidos e aí não conseguimos tocar a grande massa humana que navega sob o controle dos meios massivos. É um desafio brutal. E, ainda assim, também esses estão prisioneiras dos pacotes das teles. Sem pagamento, sem rede.

O resumo de toda a ópera é que não há transparência e muito menos democracia. O que existe é um sistema que se protege e cria todos os mecanismos para o que um jovem pensador, Etienne La Boétie, em 1552 , cunhou como “servidão voluntária”. Quando as pessoas aceitam a servidão em troca de pequenas migalhas que caem da mesa dos poderosos. Na atualidade, o que faz o papel das migalhas é a ilusão de que com um celular na mão se tem o poder de espalhar nossas verdades. Mas, não são as nossas verdades, são as construções do sistema que se colam em nós e que, desprovidos do pensamento crítico, não conseguimos desvelar, aceitando-as como nossas. Isso não significa que as pessoas são peças manipuladas pelo sistema o tempo todo e que não podem fugir disso. Pelo contrário. É o que La Boétie mostra no seu rico trabalho sobre a servidão voluntária. É quando a pessoa sabe, mas aceita, acreditando estar levando alguma vantagem.

A outra possibilidade, que é a de construção de uma verdadeira democracia participativa, só possível no socialismo e no comunismo, é a tarefa mais pesada. Porque ela necessita trabalho duro, exige sacrifícios, comprometimento, expõe ao risco. Assim que é mais fácil fazer a crítica morna, tentar encontrar brechas no sistema ou ficar apenas na resistência. Isso também é uma espécie de servidão voluntária, porque propõem que o sistema pode ser humanizado ou democratizado. Não pode. O sistema capitalista de produção, como já mostrou István Mészáros é insaciável e tem seus hábitos alimentares. Assim que pode aparecer bem vestido, com um sorriso no rosto, cheio de presentinhos. Mas, na hora de comer, vai comer a comida que pede a sua natureza. E é a vida dos trabalhadores.

Cada tempo histórico tem seus meios de comunicação de massa e cada modo de produção defende a si mesmo com os meios que tem. Nosso papel é destruir o capitalismo, mudar o modo de produção e constituir uma comunicação verdadeiramente democrática, amparada no conhecimento e na veracidade. Não há outra saída. Todo o resto é permanecer na servidão.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Somos alfabetizados para o desamor


Sexta-feira, fim do dia, todo mundo no terminal com aquela cara de desespero, louco pra chegar em casa. O dia foi pesado, a carga ruim cobrando seu preço, e aquelas filas imensas. No ponto do Tirio a fila dobrava duas vezes. É impressionante. Um desassossego sem fim. O Ônibus estava ali, parado. E o motorista ao lado, conversando com outros motoristas. Nada de abrir a porta. E aquele povo cheio de sacola rezando pra sentar o corpitcho.

- Abre aí, moço? Pede uma senhora. E o motorista nem aí. Sequer vira a cabeça e segue conversando. 

- Abre pra gente sentar? Repete a senhora, a cara amassada de tanta vida esgotada. E o motorista nem aí. 

Eu tinha tido um dia de inferno e imediatamente comecei a chorar. Não consigo entender porque as pessoas são tão insensíveis. Não é possível que um cara, que é trabalhador explorado, não se compadeça das pessoas que estão ali, em pé, naquela infinita espera. O que que custa abrir a porra da porta?

Fico pensando que, na real, somos alfabetizados para o desamor desde criancinhas. Na família, na escola. Só pode ser isso, porque não é possível. Por que não uma gentileza? Por que não um sorriso, um bem-fazer, um carinho, um cuidado? Sei que a vida é dura pra  maioria, mas se acontece uma gentileza é como se abrisse uma porta no paraíso. Até a dor dói menos. Eu mesma não sei o que fazer. Então, sigo aplicando a regrinha ensinada por um querido amigo de infância e vivo distribuindo gentilezas aos desconhecidos. Mesmo quando não correspondem, mesmo quando fazem cara feia, mesmo quando agridem.

Quando é tempo do conflito, peleamos. Mas, no dia a dia, que nos custa?

A luta e a servidão


Eu vivi de maneira muito próxima o início do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Eram os anos 1980 e eu trabalhava na TV Passo Fundo. Foi na cidade de Ronda Alda, na estrada do Pontão, que brotou o primeiro grande acampamento do MST: a Fazenda Anonni. Era praticamente uma cidade toda de lona preta, na qual resistiam e lutavam bravamente cerca de seis mil pessoas, 1.500 famílias. Ocupavam as terras que eram devidas à Reforma Agrária, mas que nunca tinham sido entregues aos trabalhadores. 

Naqueles dias os sem-terra eram vistos como o próprio demônio. Na televisão era proibido falar deles. Foi unicamente porque a notícia era imparável que a Fazenda Anonni começou a aparecer no noticiário. O MST anunciou que seguiria para Cruz Alta, para ocupar outra fazenda e o governo autorizou o cerco ao acampamento.  Era um fato grande demais para ser escondido. Imaginem cercar seis mil pessoas sob a ponta da baioneta.

Nossa equipe viveu aqueles dias de cerco, mais de um mês, reportando tudo que acontecia. Foi uma saga. Ainda assim os sem-terra seguiam sendo vistos como demônios, ladrões, bandidos, etc. Só que as pessoas não diziam isso em público. Xingavam os sem-terra no reduto do lar, nos grupos de esquina, nos bares, nas rodas da missa. A polícia agia duramente, mas a força do movimento era tanta que os sem-terra iam vencendo as batalhas. Mesmo que a maioria os considerasse bandidos, era impossível não reconhecer que as terras vazias não produziam nada e que, com eles, elas vicejavam. Assim, mesmo odiando aqueles camponeses, as pessoas se resignavam com suas vitórias, porque elas estavam dentro da lei. A lei é clara: latifúndio improdutivo é passível de desapropriação para reforma agrária. O ódio ficava confinado no seu reduto. Se era lei, era lei. E havia grandes movimentos de trabalhadores em ação para garantir isso. 

Hoje não. A Constituição brasileira é papel inútil. A lei não vale nada. A legislação muda conforme a pessoa que a utiliza. Não há regras. Latifúndio improdutivo é defendido pelo estado. Camponeses sem-terra são assassinados como moscas. E os assassinos dizem: “tem que passar por cima de todos eles”. E as pessoas assentem com a cabeça. “É isso aí”. E esperam que o sangue escorra nas estradas, achando que a morte de um sem-terra é coisa justa. Até matar pessoas passou a ser legal. E o latifúndio está cada dia mais armado, e dentro da lei. Vale tudo contra os “petistas”, mesmo que as pessoas não sejam petistas, mas alinhadas a outra maneira de pensar. 

Petistas, comunistas. Contra esses tudo pode. E as pessoas assistem tudo pelo celular, deixando de ver a vida dura que se expressa ao lado, nas ruas de suas cidades, no seu quintal. A dor do outro não lhes toca. Petistas, comunistas, tem mais é que se ferrar. Mas, por que? Não sabem. Não importa. Deu no grupo do uatizapi. Que morram todos. Que fiquem sem educação, sem-terra, sem casa, sem saúde, sem segurança, sem nada. Que morram. 

E, com a cabeça pendendo para o celular as pessoas não percebem que elas mesmas estão no grupo de “petistas, comunistas”, porque estão empobrecidas, porque não têm saúde, nem educação, nem casa, nem segurança. Mas, não importa. Há que destruir tudo o que é “vermelho”. 

Não é um ódio de classe. É um ódio cego, contra si mesmo. Um ódio insuflado pelo que o oprime, o explora. É a servidão voluntária. O beija-mão dos ricos esperando a migalha. Que não virá. 

Porque para o capital não existem pessoas, histórias, dramas humanos. As relações são entre coisas. A pessoa que trabalha não existe em si, apenas sua força de trabalho. Se ela se esgota, troca. É como uma pilha. Não importa se a pessoa vai passar fome, se seus filhos vão perder a escola, a saúde. Por isso que um sem-terra atropelado e morto não importa. É só mais um CPF que foi tirado de cena. Por isso um desempregado não importa. É só um CPF tirado de cena. E, enquanto as gentes vão destruindo a si mesmas e aos seus iguais, um pequeno grupo que controla o mundo segue feliz e saltitante, aproveitando a beleza da vida. 

O resto é resto. Até que se levante em rebelião. E eles se levantam. E é grande. A história ensina. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Brasil autoritário


A campanha de Jair Bolsonaro para a presidência foi absolutamente clara sobre o que iria acontecer com o Brasil caso ele se elegesse: “vamos acabar com tudo isso que tá aí”.  Eleito, está cumprindo a palavra. Suas primeiras ações já foram ataques a tudo o que é público. Nada é poupado. Ele encarna o senso comum que diz que o público é ruim. Não importa que não seja verdade. O próprio presidente é o senso comum. Ele tem os Estados Unidos como modelo e quer fazer do Brasil uma cópia. 

Na semana passada ele tripudiou das informações oficiais ao afirmar que no Brasil ninguém passa fome, e chegou a fazer gracinha com os jornalistas dizendo que não havia nenhum magro ali. Negava assim os dados do próprio governo, de instituições sérias como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o IPEA, que mostram, a partir de pesquisas, um número de mais de cinco milhões de pessoas ainda sofrendo com a fome no país e 54 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. 

Também criticou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais fazendo crer que os pesquisadores mentem quando mostram que mais de mil quilômetros quadrados da Amazônia foram desmatados só na primeira quinzena do mês, num avanço desenfreado do latifúndio. Depois de ouvir uma reprimenda do diretor do INPE, que ficou indignado, o presidente brasileiro voltou à carga dizendo que o Instituto não poderia divulgar a informação sem antes passar pelo ministro ou por ele mesmo. Ao que parece Bolsonaro não quer que mais nenhum órgão tenha vida própria. Tudo tem de passar por ele. Isso tem um nome: censura!

Outra decisão foi diminuir a representação da sociedade civil nos Conselhos. Ele já havia tentado acabar com qualquer Conselho, pois acredita que eles são “ideológicos”. Não conseguiu. Na verdade os Conselhos são uma conquista da sociedade organizada para acompanhar as ações governamentais.  Bolsonaro não quer ninguém que não seja do governo ou aliado em potencial discutindo as questões importantes do país. Ele pretende cada vez concentrar o poder na presidência. Nada de participação popular. Nada de democracia. 

No caso do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, ele extinguiu a participação das seguintes representações: jurista, médico, assistente social, enfermeiro, psicólogo, educador, cientista e estudante. O argumento para isso é que ele é contra a descriminalização das drogas e no Conselho tem gente que é a favor. Então, tratou de tirar os que são a favor para ter a posição majoritária. Isso se chama decisão arbitrária. 

Hoje (22/07) também informou que o governo vai cortar o que ele chama de “merreca” do orçamento nacional, na ordem de um bilhão e 44 milhões de reais. Não disse onde vai cortar, mas especula-se que seja em setores de maior demanda pública como educação ou saúde.

Na mídia comercial os factoides vão se acumulando sem qualquer nota crítica. A cobra vai engordando. O comando da política está sendo feito sob ordem unida. Nenhuma voz dissonante pode aparecer. Entre os apoiadores, palmas e mais palmas, a ponto de manifestantes bolsonaristas carregarem cartazes pedindo mais cortes na educação. E no campo da esquerda, esperneios pontuais. 

O autoritarismo se apresenta como graça. A reação é individual, portanto, praticamente inútil. Quem se atreve a lutar de cara ao sol, como é o caso dos povos indígenas, que desde o primeiro mês de governo vem se manifestando coletivamente, vai sendo atacado pelo terrorismo paralelo (jagunços, milícias, criminosos a soldo) ou pelo terrorismo de estado. As mortes de lideranças sociais vão pipocando aqui e ali como se não estivessem ligadas entre si. 

E a barca segue. Até quando?