quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os desafios do cuidador


Se existe algo que o processo de demência nos ensina é que não há caminho seguro, tampouco estabilidade. Quando a gente pensa que conseguiu encontrar uma forma de lidar com algum aspecto da doença, lá vem outra novidade a nos interpelar, exigindo novas técnicas, novos modos de lidar, tudo outra vez.  Com o pai tem sido assim, praticamente a cada dois, três dias um novo problema se apresenta e há que encontrar novas soluções. 

A novidade agora é com relação ao remédio. Não há como fazê-lo engolir os comprimidos. Simplesmente ele não consegue. Põe na boca, dá o gole de água, mas trava. Não consegue engolir. Imediatamente cospe fora. Alguns, como a  Vitamina B, consegui encontrar em gotas, mas o da pressão não tem jeito. Então, a saída é amassar e colocar na comida. Mas, o gosto é ruim e ele logo percebe, então muitas vezes cospe fora também. É uma novela mexicana. Por vezes, para garantir que tome um comprimido eu gasto dois ou três deles. Mesmo as gotas, se ele percebe que eu boto algo no suco, já não toma. Então, é todo um processo de esconde-esconde na cozinha.

Na mesma linha do remédio, tem vezes que parece que ele esquece como é que se engole. Põe o café na boca, por exemplo, e fica com as bochechas cheias, olhando para mim, como em desespero para jogar fora. Tenho que correr com o baldinho para ele cuspir tudo. Não há jeito de comer. Não consegui descobrir uma saída para isso. Não sei se é uma evolução da doença ou se é passageiro. Porque passado algum tempo, eu ofereço para ele outra vez o café, o pão ou a comida e ele come. Mas, volta e meia isso acontece. Fico um pouco em pânico, porque não sei o que fazer. Tenho respeitado a vontade dele por enquanto, visto que não é o tempo todo que acontece, mas assusta-me pensar que pode chegar a hora em que ele não vai mais conseguir comer mesmo. 

À noite, o problema é com o xixi. Acorda várias vezes para ir ao banheiro, mas por vezes não consegue chegar. Então, faz nas calças e nem com reza braba deixa eu trocar o calção. Xinga, fica brabo, dá soco, o diabo. Não há santo que faça ele tirar a roupa molhada. Tento secar como posso, mas tem vez que ele segue dormindo molhado. E se tento trocar enquanto dorme, valamideuzi, ele desperta virado no Jiraia. Ainda são poucas vezes que isso acontece, mas e se piorar? Não aceita fraldas nem que vaca tussa. E enquanto tiver sanidade para isso tenho de inventar formas de mantê-lo seco, afinal, aí já vem o inverno. É uma luta. 

De manhã, quando o dia sobe, afastando toda a tensão que a noite traz, ele senta no alpendre, tranquilo como um monge. Eu o observo, silente, porque não sei o que vai acontecer na próxima hora. A vida segue, como uma montanha russa louca. E eu, tentando ser aquela que precisa dar um jeito do passeio ser bom e parar em segurança. Não é fácil!



terça-feira, 14 de abril de 2020

O poder e o coronavírus



Os Estados Unidos é tido como um dos países mais ricos do mundo, e provavelmente é. E, agora, com a explosão do coronavírus, fica bem fácil ver o porquê. No mundo capitalista a riqueza é produzida pelos trabalhadores e se concentra na mão de um número pequeno de pessoas, que são as que detêm os meios da produção. Justamente por ser assim, aqueles que são os responsáveis pela produção da riqueza, dela não podem usufruir. A eles falta educação, saúde, moradia, segurança, lazer, arte, tudo. Sua função é unicamente rodar o moinho do capital.

Com a chegada do novo vírus mortal, a realidade aparece na sua expressão mais crua. Esses trabalhadores não têm a menor importância para o capital. Eles não têm nome, não têm sonhos, não tem sentimentos, não têm família, não têm existência real. São números. E, como tal, facilmente trocados sem que haja qualquer turbulência no andar da carruagem. 

Os Estados Unidos, sendo o país mais rico do mundo,  tem a maior taxa de pessoas infectadas – mais de 500 mil -  e o maior número de mortes, chegando hoje (dia 14 de abril) a 23 mil pessoas. Números que não são os números reais pois pode haver muito mais, uma vez que não há testagem em massa. Portanto, provavelmente há muita gente circulando pelas ruas com o vírus e transmitindo.  

O presidente Donal Trump, no começo da pandemia havia tripudiado da letalidade do vírus, dizendo que era apenas uma gripe, mas com a explosão dos casos foi obrigado a tomar algumas atitudes, afinal, é candidato à reeleição. Ainda assim, as medidas tomadas continuam não sendo as ideais e é por isso que as mortes se aceleram. Pela primeira vez na história do país o presidente foi obrigado a declarar desastre em todos os 50 estados. 

Não obstante, tal como o presidente brasileiro – que lhe segue os passos – Trump confunde os estadunidenses, hora falando bobagens, ora dizendo que agora, com essa declaração de desastre os EUA vencerão o vírus. Ele também trabalha contra os cientistas ligados à própria Casa Branca, que continuam afirmando: se as medidas de isolamento tivessem sido tomadas, a crise não seria tão violenta. Trump brinca no seu twitter, republicando opiniões de pessoas que pedem a demissão desses profissionais. As semelhanças com o Brasil não são coincidências. É o mesmo descaso com a maioria das pessoas. Trump, ignorando o avanço da doença, insiste que o país deve retomar a “normalidade” no primeiro de maio. 

Enquanto isso, a cidade de Nova Iorque, o coração pulsante da nação, é a que está mais fortemente impactada com a letalidade do vírus, com 10 mil mortos nessa terça-feira, sendo que representa a metade dos mortos no país. A comunidade médica e os trabalhadores da saúde são os que estão dando batalha, como em todo o mundo, contra todas as dificuldades. 

No país, o índice de morte entre os negros e pobres é altíssimo, desvelando também o aspecto de raça/classe, já que os negros estão, em sua maioria, na base da pirâmide social. E morrem justamente porque os pobres, nos Estados Unidos, não têm acesso à saúde. Ou a pessoa paga um seguro ou está morta. Não existe um sistema público capaz de dar suporte a toda essa gente. É por isso que muitos, mesmo doentes não procuram os hospitais. Sabem que se saem vivos, devem até a alma. E, como dever o que não têm?

Lá, como cá, também o governo busca formas de salvar os ricos, colocando a conta para os trabalhadores. É o caso do pessoal do agronegócio que deverá ser beneficiado com uma ajuda direta da Casa Branca, podendo ainda reduzir o salário de pelo menos 250 mil trabalhadores estrangeiros que tem permissão temporária para ficar no país trabalhando nos campos. São trabalhadores essenciais porque, sem eles, a cidade não come. Ainda assim, serão penalizados para que os fazendeiros não percam lucros. É o uso cirúrgico de uma gente que o país odeia (os migrantes), mas da qual necessita. Eles que sobrevivam como puderem. Caso morram, amanha terá mais gente chegando e tudo bem.  

Outro drama que não encontra visibilidade é o dos imigrantes que estão presos nos centros de detenção em todo o país. Gente que não cometeu crime algum, unicamente tentou entrar no país e está confinado em prisões insalubres e violentas. E agora enfrentam essa pandemia sem qualquer preocupação por parte do governo. Tanto que as entidades de Direitos Humanos têm se manifestado em frente aos cárceres, exigindo que o Serviço de Imigração garanta a saúde das pessoas, embora sem sucesso. Inclusive, há cárceres exclusivos de crianças, separadas dos pais e sem cuidados. 

Ou seja, a teoria que sustenta a forma de enfrentamento do coronavírus nos Estados Unidos é a mesma levada no Brasil. Que se infecte logo a maioria das pessoas, que morram os doentes, os fragilizados, os criminosos e que sobrem só os “fortes”, os que passarem pelo vírus sem sintomas ou com sintomas leves. Assim, a economia não para e os ricos continuam acumulando lucros. Num mundo de sete bilhões de almas não importa para o sistema capitalista e seus controladores que pereçam um milhão de vidas. Elas são facilmente substituídas. E segue o baile.

Essa lógica perversa encontra seguidores em todo o mundo. Alguns, por que acreditam mesmo numa “melhoria” da raça e outros porque acreditam cegamente nos seus líderes a ponto de disseminarem pelas redes sociais e nas suas relações interpessoais as mentiras que sustentam a racionalidade certeira do capital.

No Brasil, um vídeo de uma moradora do interior de São Paulo, resistindo a um pedido de policiais para que fosse para casa, respeitando o isolamento social, conseguiu, em poucos minutos, expor os argumentos que sustentam uma espécie de insanidade, que só é para as gentes, não para os governantes. Segundo ela, o vírus é uma invenção dos chineses, com o apoio do PT, para derrubar Bolsonaro. Ou seja, ela crê, sem pejo, que foi criada uma pandemia mundial unicamente para atacar o presidente do Brasil. Cenas semelhantes se multiplicam não só no Brasil, mas com versões locais em outros países que adotaram a lógica do “morram logo”, tal como os Estados Unidos. 

E assim, o planeta vai, mergulhado numa loucura sem precedentes. Uma loucura muito bem dirigida e direcionada. Nas altas camadas dos governos, das multinacionais, das entidades da classe dominante, a vida segue sem novidades, com cada um pensando em como acumular mais lucro e mais poder nessa hora de desespero entre a maioria dos trabalhadores. Para eles, é hora perfeita. 

Deveria ser um bom momento para que os trabalhadores percebessem qual é o seu papel nesse mundo capitalista. Mas, ao que parece, em vez de aflorar a consciência crítica, o que mais cresce é o misticismo e o fundamentalismo. Sem os instrumentos para compreender em profundidade a realidade, um número expressivo de pessoas se volta para o céu, para o milagre, esperando que a saída venha de algum deus poderoso e não da revolta organizada da classe trabalhadora. 

Com o isolamento social e a disseminação exponencial de mentiras a situação fica ainda mais difícil de ser enfrentada. 

Apesar disso, há que atuar e trabalhar no sentido de desvelar a realidade. A tarefa cotidiana e permanente. 

segunda-feira, 13 de abril de 2020

As rendas do Dinho


Cinco horas da manhã, o dia ainda dormia. O pai,  zanzado no quarto na sua dança de arrumação. São pelo menos duas horas nessa função. Pouco posso fazer. Então, fui ver o documentário da jornalista Adriane Canan, “As rendas de Dinho”. Não pude ir ao lançamento e já havia tempos que andava curiosa por assistir. Ela me mandou o enlace secreto, aproveitei.

O Dinho é um morador do Pântano do Sul que é considerado hoje um patrimônio histórico/afetivo do bairro, embora nem sempre tenha sido assim. Na sua história de vida ele mesmo lembra quando teve de ir embora de Florianópolis porque alguém na comunidade o considerava a vergonha do lugar. Ele é rendeiro, profissão sempre fadada às mulheres e que é marca registrada da ilha de Santa Catarina.  E foi essa sua singularidade que atraiu o olhar da documentarista. 

O documentário traduz bem o espírito do Dinho. É terno, leve, alegre, colorido e profundo. Delicadamente vai enredando a renda da vida desse homem que é como um raio de sol na comunidade tradicional de pescadores. A partir da fala dele mesmo e das pessoas do seu entorno o filme desvela o caminho feito desde o mar do Pântano, passando por São Paulo, Canadá e depois a volta para casa. Outra vez em frente ao mar, os olhos nos cardumes,nos barcos e nas gentes. 

No Pântano, depois de tantas andanças, Dinho se viu perdido de alguns de seus mais importantes amores e a vida virou tristeza. Então lembrou que sabia rendar e começou a fazer renda na praia. A partir daí, seu riso aberto voltou e a vida recomeçou apesar da dor.

O filme retrata esse homem e sua história de buscas, perdas e reencontros. Ele eterniza um ser que é também essência do Pântano, reconhecido e amado. Adriane Canan narra o local, mas consegue abarcar a universalidade do humano. Ela cristaliza a memória da nossa cidade e ainda oferece um presente: o Dinho, na sua singeleza e na sua capacidade de reconstrução. No rosa esvoaçante do vestido, no azul do mar e no riso de menino dança a alegria de existir e amar. 

Belo trabalho Adriane. Obrigada... 

sábado, 11 de abril de 2020

O isolamento e o pai


O isolamento social tem cobrado seu preço aqui em casa. Misturado com a demência do pai o resultado é um desastre. Primeiro que os dias se converteram todos em domingo, com todo mundo em casa. E com mais gente circulando, o pai perde a centralidade da atenção. Fica com ciúmes e aí é um deus nos acuda. Agride todo mundo, perde a tramontana e fica num vai-e-vem sem fim, como um bicho acuado. Faz a volta na casa umas mil vezes, andando sem parar, e quando fica bem transtornado começa a se meter no meio das árvores, do arbustos, da plantação. Tudo isso é um risco tremendo, e tenho de ficar andando atrás dele porque se deixo sozinho ele pode cair e se machucar. Não aceita que eu segure seu braço, então só posso ficar como uma sombra, rezando para conseguir segurar se ele for ao chão.

Sem poder sair de casa, a rotina do pai se quebrou e com isso também quebra alguma coisa no cérebro, imagino eu. Nos primeiros dias eu ia inventando uma mentira ou outra, mas com os passar do tempo já fui perdendo os argumentos. E ele fica no portão, com os olhos num vazio cheio de desespero.

Existe uma tal síndrome do pôr-do-sol que se constitui num desejo irrefreável de sair, de "ir pra casa". E a única forma de fazer esse desespero passar é sair, caminhar, encontrar pessoas, distrair. Sem isso, vem a violência, a raiva, e a descompensação. isso tem seus reflexos durante o dia todo e fica ainda pior durante a noite. Aí mistura tudo. A aflição pelo vírus que aí está e que pode atingi-lo e também pelo estado de sofrimento que o confinamento tem causado.

Outro dia quando a rua parecia vazia de gente eu abri o portão e pensei: vou andar com ele uns metros e voltar.Mas qual, ele queria ir no barbeiro e como sabe o caminho foi me arrastando. Tive de usar todas as artes e sortilégios para fazê-lo voltar. Voltou emburrado e a emenda ficou pior que o soneto.

A ânsia por sair agora também aparece durante à noite e, do nada, ele levanta da cama e sai andando no rumo do portão. Se eu tranco a porta é um escândalo, então tenho de deixar sair. Procuro cobri-lo com bastante roupa quente, mas ele vai arrancando tudo. E eu tenho de ir recolhendo e tentando colocar tudo de volta, afinal, as noites são frias.Ele finca o pé no portão e não sai. Eu pego a sombrinha e abro, para tentar evitar o sereno. A cena é louca: na madrugada estrelada, eu com a sombrinha aberta no portão. É um terror digno de Stephen King. É o vírus, é a demência, é a possibilidade de uma gripe qualquer, uma descompensação maior. Tudo é sofrimento.

Um pouquinho de paz vem de manhã quando Rolando Boldrin consegue segurar sua atenção. É quando eu também consigo colocar em dia o trabalho, que igualmente me cobra tempo. E é uma dureza tentar concentrar depois de todas essas aventuras, sabendo que logo logo elas vão recomeçar.

Nesse turbilhão estou, já quase mergulhada na demência também. Porque lá fora tem Bolsonaro, tem Trump e tem uma gente ruim respaldando a selvageria dos feitores do capital. O pouco de sanidade me vem dos livros, os quais vou sorvendo quando possível, como se fossem pequenos oásis no deserto da solidão.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Cuba e suas prioridades



Hoje partiu para Barbados mais uma equipe das brigadas Henry Reeve, com 101 enfermeiras, para ajudar a pequena ilha do Caribe na sua luta contra o coronavírus.  Lá já são 56 infectados e uma morte foi registrada. E é sempre bom lembrar que Barbados é uma nação independente, mas que está ligada ao Reino Unido, tendo como chefe de estado a Rainha da Inglaterra. Com essa equipe já são 15 grupos de médicos e enfermeiros que saem de Cuba, num total de 700 pessoas, para prestar socorro médico nos mais diversos países do globo (15 até o momento, embora haja pedidos de mais 40). 

Essa é uma prática que o país vivencia desde o final dos anos 60. E porquê? Primeiro, porque inspirada na ação revolucionário do médico argentino Ernesto Che Guevara, que foi um dos revolucionários históricos da revolução cubana. Médico, ele nunca se furtou a atender a população quando fosse necessário. Depois, na África, igualmente, muitas vezes trocou o fuzil pela maleta de médico, garantindo atenção à população abandonada. Mais tarde, quando a ilha já formava sua primeira geração de médicos, as brigadas de ajuda tornaram-se sistemáticas. 

Assim, já são 60 anos de ação médica, com a participação de mais de 30 mil médicos, isso sem contar os demais profissionais sanitários como enfermeiros e agentes de saúde. 

Com a revolução em 1959, Cuba saiu da órbita dos Estados Unidos e passou a vivenciar um sistema próprio de governo no qual a educação foi pilar essencial. Junto com a formação dos cubanos a revolução foi estruturando também o sistema de saúde que é público, gratuito e universal. Os recursos para esse setor chegam a quase 30% do orçamento geral. Lá, o sistema de saúde conta com nove médicos para cada mil habitantes, bastante superior a países europeus, por exemplo, que tem uma média de 3 ou 4 médicos para cada mil habitantes. A preocupação com a saúde é tanta que nem mesmo durante o período especial, quando da queda da União Soviética, parceiro importante da ilha, jamais  governo fechou um hospital ou um posto de saúde. Pelo contrário. Quanto mais a ilha é atacada, mais o governo pensa em como proteger o seu povo, sendo bastante conhecido e reconhecido o seu programa de médico de família. 

A prevenção de doenças é prioridade e a população é instruída, tanto pelos médicos e enfermeiras, como pelos milhares de agentes de saúde, a se manter saudável. Os problemas com o bloqueio econômico são tantos que um corpo sadio é fundamental para o enfrentamento com o império. Cuba também mantém uma escola latino-americana de Medicina,na qual forma médicos, com estudantes vindos de vários países do continente e também da África. Isso faz com que o número de profissionais seja grande e permite o envio das brigadas por todo o planeta. É bastante conhecida a ação de Cuba durante o surto de Ebola na África, como também durante a crise da cólera no Haiti. Os médicos cubanos vão aonde ninguém quer ir. 

Atualmente, com a pandemia mundial do coronavírus a ilha socialista mais uma vez se diferencia de seu antagonista principal – os Estados Unidos. A primeira ação do governo estadunidense quando a crise eclodiu na Europa foi mandar 30 mil soldados, tropas militares, para sabe-se lá o quê. Cuba enviou e segue enviando médicos. 

Agora, quando a crise chegou também aos Estados Unidos, de novo é possível perceber as diferenças entre um sistema socialista, que garante saúde universal, pública e gratuita e o sistema capitalista/imperialista comandado pelos EUA. Lá, a pandemia segue sem controle, com mais de 300 mil infectados e quase 10 mil mortos (hoje, cinco de abril). As pessoas que não têm seguro saúde,somam mais de 40 milhões, estão entregues ao deus dará, e outros tantos milhões que possuem seguros de baixa cobertura também estão na mão. Qualquer atenção médica na rede privada estadunidense custa uma fortuna e há quem se recuse a ir para o hospital por medo da conta que será apresentada ao final. 

Essa é uma hora trágica para a humanidade e na grandeza desse drama humano fica muito fácil perceber o quanto o capitalismo é nocivo à maioria da população, aos trabalhadores. Dia após dia, vai se percebendo que para os governantes o mais importante é a roda da economia girar, com as pessoas ficando em segundo lugar. Donald Trump, por exemplo, sem pejo, disse que estará tudo bem se morrerem 100 mil estadunidenses. Será preço a pagar para que o capital siga se expandindo. Não há um plano para salvar as gentes, mas sobram planos para salvar bancos e empresas. 

Enquanto isso, a pequena e mal/dita Cuba socialista vai mostrando o que realmente é importante para seu governo e para o sistema que ali se plantou em 1959: sua gente, bem como os trabalhadores de todo o mundo. Mantém com segurança o seu sistema de saúde interno e ainda manda médicos pelo mundo todo, salvando vidas. 




domingo, 5 de abril de 2020

O jornalismo esperneia, mas não assoma



Já faz tempo que se ouvem vozes sobre o fim do jornalismo. Eu sempre defendi que não. Não morreu. Pode estar meio adormecido, solapado pelas empresas que preferem desinformar a formar opinião pública esclarecida e consciente. O jornalismo em si não tem nada a ver com isso. Ele não é um ser, é um fazer. E, como já ensinou Adelmo Genro, tem até uma forma de expressar a realidade como conhecimento e não apenas informação. O que pode estar em crise ou morto é o humano capaz de narrar a vida nesses termos propostos por Adelmo, partindo do singular e abarcando o universal. Ah, isso sim.  

Agora, nesses dias de pandemia, o jornalismo reapareceu com força total, a pondo de as emissoras de televisão aumentarem seu tempo no ar para horas e horas. Repórteres cruzam os caminhos trazendo informação para lá e para cá. É uma enxurrada de notícias e reportagens. Num tempo em que as redes sociais pareciam ter tomado o lugar das empresas de comunicação, a atenção voltou a focar nos veículos tradicionais, como se, de repente, só o jornalismo pudesse ser capaz de trazer a notícia verdadeira. O que, de certa forma, é verdade. Os jornalistas têm se esforçado. 

É fato que no campo da informação crua as emissoras estão indo bem. Passam os dados, os números, as notas dos governos, as orientações médicas. Tudo isso é muito importante. Mas, o jornalismo – e aí insisto em Adelmo Genro – não é só informação. Ele pode ser também conhecimento, e deve ser. É a função mais importante dele, oferecer possibilidades de compreensão da realidade para além da simples informação, ou da simples resposta das seis perguntas tradicionais do lead. 

O que se percebe é que, como o uso do cachimbo entorta a boca, a maioria dos jornalistas parece que esqueceu como é fazer o bom jornalismo. Aquele jornalismo que é também análise, impressão, descrição e narração. Mesmo na mídia alternativa, comunitária e popular esse tipo de jornalismo pouco existe, salvo raras exceções. No geral, os jovens jornalistas, malformados a partir do ideal liberal de “mostrar os dois lados” se espantam com textos que aprofundam os temas, que singularizam as histórias, que descrevem a vida na sua imanência. Espantam-se e, surpreendentemente rechaçam.  É uma catástrofe. Porque essa seria uma hora histórica, de retomar as boas formas de narrar.

Não é o que se vê e ao fim e ao cabo, vamos mudando de canal, ou saltando as páginas de jornalismo alternativo, e tudo o que vemos é a informação asséptica, que não tem lado, que não se compromete, que não consegue conduzir o leitor/espectador para a atmosfera universalizante do fato singular. Ouve-se o morador, o governador. Ouve-se o comerciante, o médico. Ouve-se o que espera tratamento, ouve-se o enfermeiro sem máscara. Mas nada de oferecer elementos de análise que permitam o leitor/espectador compreender o cenário, o pano de fundo, as contradições.

Eu me alegrei com a retomada do espaço jornalístico, mas já perdi a esperança. O espaço aumentou, mas o jornalismo segue esquecido. Faltam os bons narradores da vida, faltam os jornalistas capazes de contar uma boa história, sobram os liberais formados pelos manuais de jornalismo copiados dos Estados Unidos.  

É desanimador! Ainda assim, vamos resistindo... 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A canalha ataca os trabalhadores


Diante da providencial crise “do coronavírus” aparece, no dia 24 de março, a proposta de Emenda Constitucional apresentada por um empresário, dublê de deputado federal, Ricardo Izar, do Partido Progressista (PP), que prevê redução de salários dos trabalhadores públicos em até 20% “enquanto durar o estado de calamidade pública. Diz ele, na sua justificativa, que os recursos serão todos usados em ação de combate a evolução do Covid-19. 

Para o empresário, é óbvio que o “sacrifício” precise vir dos trabalhadores. Afinal, sua categoria precisa seguir garantindo lucros. Já a elite brasileira, que segundo os últimos números chega a pouco mais de 200 famílias  e amealha mais de um trilhão de reais, é intocável. Nada de taxar a riqueza. Os trabalhadores que paguem a conta. 

Mas, a proposta de Izar ainda era insuficiente, e o governo decidiu dar uma “melhorada”, partindo do que aventara o Ministro da Economia Paulo Guedes, que já vinha ameaçando os trabalhadores com medidas dessa natureza bem antes do coronavírus. 

As informações sobre a nova PEC dão conta de que a redução dos salários deverá ser de 25% e não 20, como propunha o deputado do PP. E mais, em vez de durar só enquanto houver a “crise do coronavírus”, deve se estender até o fim de 2024. E os jornalistas boca-alugada festejam que a medida vai pegar “apenas” os que ganharem mais de três salários mínimos. Rodrigo Maia, presidente da Câmara já apelidou a PEC de “orçamento de Guerra”. Uma guerra na qual a bucha dos canhões serão os trabalhadores. 

Mas não é só isso. A PEC que deverá ser discutida na próxima semana no Congresso ainda prevê congelamento dos salários - já reduzidos  - até dezembro de 2022, alteração nos planos de salários que impliquem em aumento, e o congelamento das contratações. 

A canalha é insaciável.

Se isso passar, vai se somar a outras medidas que já atingem os trabalhadores da iniciativa privada os quais também poderão ter seus salários reduzidos. O governo diz que vai pagar até 80% deles e mais uma vez os jornalista boca-alugadas festejam como se fosse uma grande coisa. 

Assim que a tal “crise do coronavírus” servirá para, mais uma vez os representantes da classe dominante, que comandam o Congresso, tirarem o couro dos trabalhadores. 

Resta saber como será a organização dos trabalhadores nesse momento. As sessões poderão ser virtuais e muita gente está em casa. Não se vêem lideranças de esquerda ou sindicais tomando à frente nesse debate. Cada um está sozinho. 

O que é certo é que tirar o pão da boca dos trabalhadores provavelmente renderá bem menos do que taxar em apenas 1% os mais ricos do país. A escolha do governo é absolutamente esperada. Salvar os ricos e escalpelar os trabalhadores. Não há novidades. Esperamos que a novidade venha da luta. Porque se algo essa pandemia deixou bem á mostra foi a verdade que muitos ainda não conseguiam ver: só os trabalhadores geram riqueza. Sem eles, não há economia e não há vida.


Tristes dias


Abro os olhos nessa vigésima manhã de quarentena. O despertar é sempre sobressalto. Ao meu lado, meu pai, de 88 anos, acorda sempre confuso e tonto. Preciso pular da cama para ampará-lo e guiá-lo no seu conturbado amanhecer. Não há tempo para pensar em nada, tudo fica enredado no turbilhão. Quando toda a parafernália do despertar ameniza e o pai já está tomando café é que eu cevo um mate, encho de maçanilha, e sento no alpendre. Enquanto a quentura do chimarrão vai aquecendo a goela, sinto a presença da ceifadora ao meu lado. Tem sido assim, assustadoramente, todas as manhãs. E como Antonius, de Bergman, eu recomeço o jogo que temos jogado desde que nasci.  

Ela ronda, incansável. E eu tenho medo. Porque viver é bom. Porque gosto de andar no centro, de sentir o cheiro do mato, de dar risada nos corredores da UFSC, de discutir política, de escrever e narrar, de caminhar na praia, de tomar cerveja, de ir ao Bar Do Zeca, fazer meu programa de rádio. Gosto de caminhar pelo Campeche com o pai, de beijar meu amor, de brincar com meus gatos e cachorros, de encontrar meus amigos. 

Mas, ela me olha, impassível. Na televisão, todos os dias, os homens e mulheres da saúde dizem: todos vão ter de pegar o vírus, mais dia, menos dia. Alguns vão morrer. E eu tenho medo. Meu pai tem 88, meu compa 60, eu mesma já estou quase lá, os sobrinhos têm rinite. Minha irmã e meu irmão estão longe, não tenho controle sobre ninguém. O vírus está no comando. Não há qualquer beleza nessa espera. Porque é uma espera sem esperança. Nada vai nos livrar do vírus. Ele vai chegar. Só podemos controlar um pouco o quando. 

Há quem me diga: mas a morte é certa mesmo. Por que temer? Sim, ela é certa, mas caminha invisível entre nós enquanto nos ocupamos em viver. Agora não. Ela senta ao nosso lado e toma mate conosco, olhando nos olhos. E em todos os aplicativos – rádio, TV , internet – ela está nos dizendo: Já chego, Já chego.  Ela fala com a gente, sem pejo. 

Os dias correm, lentos. Procuro manter certa rotina, necessária por causa do pai, que sequer consegue entender o que estamos passando. Mas, vez ou outra me pego com os olhos no vazio, esgotada dessa espera. Por conta da doença do pai, a cada tentativa dele de sair pelo portão afora, preciso explicar tudo de novo, sobre o vírus, sobre a quarentena, sobre o fato de não podermos sair. Não posso alienar o pensamento e fingir que estou de férias. Não são férias, não são dias de descanso, nem de meditação. São tempos sombrios de confrontação direta com a ceifadora, que me encurrala justamente nos meus dias preferidos de outono. E a cada minuto tenho de mirar seus olhos vazios. 

Hoje, depois de conturbada madrugada saio com o mate para a manhã emburrada. E ali está ela, olhando pra mim. Respiro fundo, sento ao seu lado e ofereço o chimarrão. Ela pega, e sorve. Depois vira pra mim e sorri. Seus olhos expressam profunda ternura, como a me dizer: desculpa, mas em algum momento teremos de nos tocar. Eu olho pra ela e digo: eu sei. E seguimos, ombro a ombro, olhando o infinito. Que demore, que demore!



Enquanto a cidade dorme, voluntários trabalham, na periferia


É de manhã, a vida segue em suspenso na capital catarinense, totalmente parada pela quarentena. Os trabalhadores dos setores essenciais estão saindo, no rumo do trabalho e, junto com eles, outro pequeno grupo se move. São os voluntários que, nesses dias de isolamento, abrem mão de seu próprio cuidado para cuidar de outras pessoas. É que nas comunidades de ocupação, pelo menos mil famílias, que são invisíveis para o poder público, assomam com cara, nome e sobrenome para esses lutadores sociais que, desde anos, lutam por uma política de moradia capaz de garantir casa e vida digna a essas famílias.

Loureci Ribeiro, Elisa Jorge, Gerson Shatkoski, Ruy Wolf e Albani Pawelki Lopes coordenam a Campanha Solidária em Defesa da Vida com o trabalho de distribuição de cestas básicas e material de limpeza e higiene pessoal nesses territórios concretos de vida. Junto com eles mais 26 outras lideranças da base das comunidades também se organizam e se movem. Há que criar cumplicidade política e solidária de apoiadores externos, receber doações ou comprar os alimentos, há que montar as cestas e garantir que elas se multipliquem, podendo chegar em cada casa onde vive um trabalhador que agora está sem poder sustentar sua vida. É que na maioria dos casos são trabalhadores informais, catadores, precarizados, que a cada dia precisam garantir o sustento. Com a cidade parada, não há como. Por isso é necessária agora a solidariedade concreta. “Não é uma política de gueto nem assistencialismo. Trata-se de uma denúncia de ausência do Estado Social através da ajuda absolutamente imprescindível de sobrevivência”, diz Loureci Ribeiro.

Loureci é a prova viva de que não é diletantismo nem caridade. Desde quando era estudante de Arquitetura, e lá se vão mais de 30 anos, que ele começou essa caminhada de luta pelo Direito à Cidade. Esteve nas primeiras ocupações de terra urbana no final dos anos 1980, acompanhou a batalha do Caprom, do Cedep, atuou na construção do Estatuto da Cidade e tem se mantido esses anos na militância da Reforma Urbana pelo acesso à terra e moradia numa cidade cada vez mais especulada e inalcançável. Com ele, a também arquiteta Elisa Jorge, cumpriu a mesma estrada, atuando ainda como assessora e consultora de política urbana aos vereadores que foram fundamentais no processo de consolidação das primeiras ocupações em Florianópolis como Vítor Schmidt, Lázaro Daniel e agora Lino Peres, todos do PT.

Lutar pelo acesso à moradia, pela inclusão na vida da cidade, pela vida digna passava e ainda passa pela organização das comunidades. Isso é luta concreta, no chão da vida. É luta de classe, com os trabalhadores explorados e excluídos. E é assim que as coisas andam, dia após dia, nas antessalas do poder entregando documento, cavando reuniões, organizando atos, caminhadas, protestos. Nenhum ganho ao longo da caminhada foi concessão de governo. Tudo foi arrancado no braço. Agora, quando o terror de um vírus desconhecido cai sobre a cidade, são essas famílias as que mais precisam de um apoio real. E, com eles estão essas lideranças, que não são figuras de um dia só.

A emergência dos dias que correm diz respeito a pelo menos mil famílias em oito ocupações. Mas a luta pela moradia digna, contabilizadas as comunidades ainda em litígio, cheias de casas mal havidas, sem banheiro e sem condições de vida pode chegar a 80 mil pessoas em 70 comunidades que estão irregulares, fruto da falta de compromisso com uma politica de moradia popular, sem secretaria, projetos e orçamento municipal para habitação social . Gente demais, é fato, e que, apesar disso, segue invisível para governantes e demais moradores dos bairros “bons”.

Assim que nesses tempos de coronavírus esses lutadores sociais se dividem entre a ação junto a outras entidades e a Campanha Solidária para dar condições de sobrevivência a pelo menos 350 moradores em situação de rua que estão na Passarela Nego Querido, e outros que seguem na ruas, e ainda encontram tempo para coordenar essa ação das cestas básicas nas comunidades de ocupação.

Na semana que passou mais de 200 cestas foram entregues, com alimentos, mais 100 sabonetes, 200 litros de detergente e 200 litros de água sanitária nas seguintes comunidades: Beira-Rio, Mestre Moa e Nova esperança, em Palhoça.   Contestado, em São José. E em Florianópolis nas comunidades Fabiano de Cristo, Marielle Franco e Vila Esperança. Famílias do Mocotó, Jagata, Mont Serrat, Caieira da Barra do Sul e Quilombo Vidal Martins. Também foram lembrados e receberam cestas os estudantes indígenas abrigados na UFSC, os Kaingang que ocupavam o TISAC e os Xokleng que estão em Blumenau. É um trabalho gigantesco que, quando se trata de direitos humanos, permanece invisível para a grande mídia, tal qual as famílias as quais eles atendem.

O silêncio da mídia não é por acaso. Dar luz aos dramas da periferia seria expor o fato de que a cidade é um espaço especulado e que o poder público reserva quase 100% dos recursos para os territórios que são de interesse do capital e da acumulação privada. Tornar visíveis as famílias que lutam pela terra, que vivem em espaço degradados, de risco, seria colocar na tela da TV ou do computador a contradição viva do sistema capitalista de produção, no qual para que um viva outro tenha de morrer. Os trabalhadores, que são aqueles que verdadeiramente geram a riqueza, precisam o tempo todo estar batalhando para garantir atenção básica e condições de existência. E agora, com a pandemia, isso fica ainda mais claro. O que podem fazer aqueles que perderam o emprego ou que não têm como ganhar o pão do dia nos seus trabalhos informais? Como enfrentar esses dias tão sombrios se já no cotidiano sem vírus essas famílias já vêm seus filhos morrer por conta da falta de saneamento, moradia, emprego? A pandemia coloca à nu a luta desigual travada dentro da cidade.  Só no campo da moradia, por exemplo, a previsão orçamentária municipal para 2020 é praticamente zero e é por isso que o Movimento Nacional de Luta pela Moradia já vinha travando a luta para que a prefeitura e o estado revisassem os valores e metas essenciais. Agora, com a crise aprofundada pelo vírus o tema desaparece da mesa.

Para o MNLM e os voluntários que se somam a essa campanha solidária, mais do que dar suporte ás famílias nesse momento crucial, o trabalho é seguir organizando e lutando para que essa periferia esquecida não seja a que cotidianamente coloca os mortos, justamente por já não ter saneamento, saúde, moradia e salário.

Ainda falta muita gente para ser atendida, a quarentena se estende, e as promessas de renda mínima são para a maioria deles um futuro incerto por falta de cadastro. Por isso, o grupo de voluntários – ligados ao coletivo OCUPAÇÕES URBANAS, MNLM Movimento  Nacional de Luta por Moradia, INSTITUTO IGENTES, Igreja PRESBITERIANA de Florianópolis, MST e Tenda Lula Livre – continua insistindo em buscar doações solidárias e humanistas com a população de Florianópolis, seja em produtos ou dinheiro. Qualquer valor ajuda, então não precisa ficar com vergonha se não pode doar muito. Com menos de 40 reais é possível montar uma cesta. A compra e entrega das doações de Alimentos e Materiais de Limpeza e Higiene Pessoal é feita pelos voluntários, orientados pelo Coletivo Ocupações Urbanas e MNLM Movimento Nacional de Luta por Moradia. Uma gente voluntária e de luta que trabalha no amor e na vontade de ver o outro – vítima de um sistema tão cruel – em pé e alimentado, para que a luta por moradia e vida digna não pare.

Nas fotos, capturadas durante as entregas, o que assoma, poderoso, é o riso: de alegria de quem recebe, e de quem doa. Um povo que, em comunhão, já vive aqui e agora o amanhã sonhado.

Para contribuir entre em contato com as seguintes pessoas:

Ci Ribeiro 48 999421196

Elisa Jorge 48 984133043

Ruy Wolff 48 996740451

sexta-feira, 27 de março de 2020

O pai e o vírus



Uma das piores coisas para quem tem demência é a alteração da rotina. Isso parece que desarticula uma série de coisas no cérebro. Nessas duas semanas de isolamento tem sido bem difícil cuidar do pai. Sempre tivemos como rotina sair para a rua, dar uma caminhada, quando chega aquele momento de fim de tarde no qual ele começa com o mantra: “quero ir para casa”. Essa é uma hora de extrema tensão porque, dependendo do clima, ele pode ficar bem violento. Geralmente quando vem a vontade de ir pra casa eu saio com ele, vou ao mercado, ao barbeiro, uma série de lugares que propiciam a interação social e o esquecimento do “ir embora”. Funciona bem. Mas, agora, isso não é possível. Tem sido uma luta.

Como explicar que existe uma pandemia, um isolamento, uma doença grave? Eu até explico e ele entende na hora, mas poucos minutos depois já esqueceu tudo e volta a querer sair. É bastante estressante. Até porque a gente também está com a corda toda esticada, tendo de vivenciar as perversidades presidenciais e a peleguice estadual. Momentos há que parece que tudo em nós vai se quebrar de tanta tensão. Mas é preciso manter a serenidade para não piorar ainda mais a própria confusão do pai. Só mesmo rogando aos deuses.

A falta de interação social e essa prisão forçada têm deixado ele bastante confuso. Há três dias venho notando que ele parece estar mais alheio, quase sem nos reconhecer. É uma dureza danada, porque estamos como entre o diabo e a caldeirinha: se sai, pega o vírus, se não sai, fica totalmente desorientado. E passa o dia num vai e vem até o portão tentando abrir, louco para fugir.

Ainda assim, vez em quando ele protagoniza alguns momentos de graça como a manhã que ele levantou brabo demais, e sumiu com dentadura. Foi uma confusão porque ele tem mania de jogar coisas dentro do vaso do banheiro. Passamos a manhã toda procurando a bendita, em todos os lugares possíveis e inimagináveis, e nada. Só no meio da tarde é que o Renato resolveu, sabe-se lá porque, olhar dentro da churrasqueira. Lá estava ela, sorrindo, solitária em meio às cinzas.

- Mas pai, como tu jogou a dentadura ali?
- Ela deve estar esperando o churrasco.

Aí a gente destensiona. Mas, é por pouco tempo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Os inúteis, que morram


O presidente do Brasil não tem qualquer doença mental, como alguns alegam. Não. Ele simplesmente é um competente feitor do capital. E o que é um feitor? É o que guarda, como um cão feroz, uma riqueza que não é sua, que é dos patrões. No seu pronunciamento à nação fez o que qualquer capacho faria: tomou partido do mercado, do capital, conclamando os trabalhadores a saírem da quarentena, e seguirem vendendo sua força de trabalho a despeito de perderem a saúde, quiçá a vida. Segundo ele, vão morrer aí “uns sete mil”, mas isso não tem importância. Porque os que vão morrer são os velhos e os que têm alguma doença grave. Os “atletas”, como ele, pegarão apenas uma gripezinha e pronto. Já está. Que morram os inúteis para o capital. Não importa o tanto de vida e valor que eles já tenham criado ao longo de suas vidas laborais.

Os velhos, até ontem, eram a principal preocupação dos governos. Os governantes até realizaram uma série de reforma no sistema de Previdência porque, segundo eles, os velhos estavam onerando o tesouro, visto que viviam muito depois da aposentadoria e o estado precisava bancar essa gente inútil por anos a fio. Em diversos países a reforma se fez, inclusive no Brasil, justamente para tentar conter o gasto com os novos aposentados. Aumentar a idade mínima, aumentar o tempo de serviço, enfim, fazer com que a acumulação capitalista pudesse se estender para o próprio corpo. Usando a medicina para prolongar a vida, mas ao mesmo tempo fazendo com que o corpo fosse até mais lá na frente servindo ao deus mercado. Trabalhar até o esgotamento, até os 80, 90 anos.

A reforma da Previdência passou no Brasil sem maiores gritarias por parte das centrais sindicais. Alguns sindicatos mais aguerridos tentaram lutar, mas estavam sozinhos. No dia da votação tudo passou tranquilamente. E os mesmos deputados que agora criticam a fala do presidente votaram sim à reforma sem nem ruborizar. Estavam igualmente condenando os velhos, tal e qual o mandatário hoje. Para eles, era absurdo que o estado pudesse continuar dispendendo dinheiro para os velhos viverem a vida depois de mais de 40 anos de trabalho.

Agora, das profundezas de algum lugar não sabido, surge o coronavírus, provocando uma doença que é mais letal justamente aos velhos e aos debilitados. Um vírus providencial. Acabar com essa penca de “inúteis” pode ser uma grande pedida. Imaginem quantas aposentadorias deixarão de ser pagas? É perfeito. Então, governantes como o nosso observam isso e chegam a clara conclusão: que as coisas sigam seu curso. Que os velhos e debilitados morram e deixem de onerar o estado.

Diz ele que basta isolar esse grupo de risco e tudo bem. Mas qualquer criança sabe que o isolamento seguro não existe. Não tem como acontecer na maioria das casas das famílias brasileiras. Eles não estarão protegidos de jeito nenhum. Vão pegar o vírus e morrer. Então, a proposta presidencial está ampara não na loucura, mas na racionalidade do capital. Ele não vê razão gastar dinheiro com essa gente inútil. Então, nada de quarentena, nada de hospitais, nada. Que morram, asfixiados na solidão.

Não há novidade alguma nisso. O sistema capitalista de produção nunca se preocupou com a saúde dos trabalhadores. Tanto que os explora até a exaustão. Sabe que tem um exército de reserva pronto para assumir quando um trabalhador tomba. E está tudo bem. Então, não há porque esperar que aqueles que dominam o mundo e os seus ferozes feitores se preocupem com a vida da gente. É por isso que a dengue, o zicavírus, a chicungunha, a malária, o sarampo, a tuberculose, o câncer, tudo isso nos mata todos os dias. Porque não importamos. E se o trabalhador produtivo, que ainda gera valor não importa muito, imagina os inúteis, os velhos e doentes, que não podem mais ser explorados pelo capital?

Por isso que nessa hora de angústia e de pandemia, na qual milhares morrerão, só há uma forma de resistir: lutar coletivamente, cuidar uns dos outros, acreditar na ciência e no que ela produziu de bom para a humanidade, apostar na abnegação dos trabalhadores da saúde – médicos, enfermeiros, e todas as categorias de suporte – manter a solidariedade de classe e derrubar todos aqueles que pretendem nos mandar para o corredor da morte.

Nos tempos da escravidão, quando os feitores eram senhores da vida e da morte, com seus cavalos e chicotes, homens e mulheres os enfrentavam e fugiam para os quilombos, a vida livre. É tempo de enfrentarmos os feitores do capital. Somos a maioria.


segunda-feira, 23 de março de 2020

O congresso será cúmplice?



O governo federal, em meio ao crescimento dos casos de coronavírus no país decidiu editar uma medida provisória com a qual permite aos patrões que suspendam o contrato de trabalho e o salários dos trabalhadores por quatro meses. Justamente os próximos quatro meses que serão os de maior curva do contágio da doença. A medida, perversa e cruel, é uma afronta a toda a população que nesse momento vive um momento de puro terror, com muitas famílias não tendo como garantir o isolamento. Ele disse no seu twiter que o governo - nesse período - dará uma "ajuda" ao trabalhador. Mas essa "ajuda" não será o mesmo valor do salário. 

A maioria dos países europeus, que atualmente estão vivendo o pico da doença suspendeu o pagamento das contas de luz, água, telefone e internet e ainda está concedendo bônus aos trabalhadores para que se mantenham em casa. Outros países da América Latina, como a Venezuela, que está desde 2015 sob ataque dos Estados Unidos, igualmente está definindo políticas de proteção dos salários para os trabalhadores fiquem em casa e permitam o melhor controle do coronavírus. Também decidiu  que o governo pagará os alugueis de quem é inquilino. 

Aqui no Brasil, além do presidente da nação incentivar as pessoas a descumprirem os avisos das autoridades médicas, agora baixa essa medida que é na prática, uma atitude autoritária para fazer com que os patrões – que sãos os mais ricos  - não percam seus lucros nem num momento como esse. O presidente vai na contramão da história, colocando a população brasileira em risco, seja pelo vírus, seja pelo desespero de não ter dinheiro para comprar comida. O resultado desse absurdo será a violência. 

É muito importante que a comunidade atenda as medidas de prevenção da doença divulgadas pelos profissionais da saúde. Eles é que estão realmente tentando proteger a população. 

Esperamos que a ação de movimentos, sindicatos e políticos sérios possam derrubar essa medida do governo e garantir aos trabalhadores as condições para atravessar esse momento difícil. Sabe-se que no Brasil existem 206 bilionários que, juntos acumulam uma fortuna de mais de um trilhão de reais , e que se o governo tirassem deles apenas 1% dos seus lucros, cerca de 116 bilhões de reais, já seria suficiente para o governo enfrentar esse crise. Mas, Jair Bolsonaro prefere salvar os lucros dos ricos em vez da vida dos trabalhadores. 

Por enquanto, fiquemos em casa. É hora de protegermos nossa família, nossa comunidade e também àqueles que não têm como ficar na quarentena e estão na rua mantendo o país funcionando. É tempo de solidariedade real.  


quinta-feira, 19 de março de 2020

O pai e o corona

Comendo amendoim e fazendo graça

O ambiente na casa é como um acampamento de guerra. Desde há pouco mais de um mês, quando o pai sofreu duas quedas seguidas no quarto onde ainda dormia sozinho, o cenário mudou. Entendi que já não era mais possível dar a ele a autonomia do sono. Era preciso vigiar de perto. Então, como o quarto é pequeno, tive de improvisar uma cama de campanha para ficar do seu lado. Foram dias confusos. Ele sem dormir, rodando pelo quarto a noite toda, agitado, violento. Quando me via ali, do seu lado, ficava brabo. Um caos. 

Pouco depois rearranjei o quarto, tirei a cama de casal, botei duas de solteiro. Agora ele dorme numa e eu na outra. Mas, aí, como estava acostumado a se espalhar, ficava a noite toda quase caindo da cama. Então, mesmo quando ele dormia eu tinha de ficar vigiando para ele não cair. A solução foi juntar as camas e deixar que ele ocupe a minha quando se espalha. Ainda assim, se ele acorda e me vê do lado, é um deus nos acuda.

Tive então que desenvolver a técnica de me acordar quando ele se mexe. É só ele levantar a cabeça e eu já salto da cama para que ele não me veja ao seu lado. Por isso já me deito de roupa e tudo e sem sequer tirar o chinelo. Então, ele se levanta e sai em busca do banheiro. Mas, como acorda confuso, não sabe bem em que direção está, então vai pra qualquer lado e já tira o bilau pra fora, jorrando o líquido, bem à vontade. De vez em quando consigo guiá-lo até o vaso, mas não é sempre. Aí, desenvolvi outra técnica. Levo um baldinho e quando ele mira em outro lugar que não o vaso eu surjo, feito um  fantasma, com  o balde, bem onde está indo a urina. No geral consigo aparar tudo, mas sempre cai alguma coisa no chão. Então, é hora de limpar, para que não fique com mau odor. 

Esse acordar na madrugada é sempre uma incógnita. Além de toda a aventura do xixi tem a volta para a cama. Por vezes ele não quer voltar e aí começa todo o bailado da madrugada. Ele fica mexendo na cama, revira os lençóis, tira a fronha do travesseiro, faz uma maçaroca e fica rodeando a cama por horas. Eu tenho de ficar bem quietinha, pois se falo algo a violência explode. Agarro-me ao celular e fico vendo filme na Netflix. Ô, glória. Mas, se ele resolve sair porta afora aí o bicho pega. Ele abre a porta num átimo e se lança pelo quintal. Deus me livre se tento impedir. O que faço é seguir atrás dele, como uma sombra. Ele caminha, vai até o portão, mexe aqui e ali, roda, roda, até que volta.  Nessa hora os cachorros despertam e entram pelo quarto adentro. É um furdunço danado, pois o pai fica tentando enxotá-los e eles não saem de jeito nenhum. Tenho que ir até a geladeira e pegar mortadela, para acenar para os bichos, aí eles vêm correndo e saem do quarto. É pior do que novela mexicana. 

Agora, com essa do isolamento, estou em casa desde sábado, sem sair. Valham-me todos os deuses do Tahuantinsuyo. Temos uma rotina que é a de sair todos os dias, quando ele começa com o mantra de “eu quero ir embora”. Nessa hora ele fica muito nervoso e precisa sair a todo custo sob pena de quebrar o portão. Aí eu abro e vou com ele até o mercado, ou dou uma volta na rua. Ele se acalma e a gente volta. Só que agora não posso fazer isso. Calculem o tamanho do problema. Vivo em estado permanente de estresse, que se amplia ainda mais por conta da falta de sono. Fora isso tem o medo do vírus, pois se ele chegar pode ser fatal para o meu velhinho. 

A vida na casa gira em torno dele. Há que manter a casa limpa e garantir as refeições em horários certinhos. Nos intervalos – poucos  - quando ele sossega, posso ler um livro, escrever um texto, mas a concentração é bem difícil. Ainda teremos mais dias pela frente na quarentena. Cuidar do gajo em dias normais já não é bolinho, agora então, complicou. 

E assim vamos vivendo, enredados na atmosfera da demência e do amor. Sobreviveremos? 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Sobre o vírus e os trabalhadores

Como sobreviver fora do mundinho burguês


Quem está acostumado a ver filmes de tragédias biológicas de roliúde sabe qual é a fórmula da desgraça: governos corruptos, um maluco que fez a merda, milhões de pessoas morrendo, um pequeno grupo de heróis tentando salvar o mundo. Ao final, os heróis revertem a coisa, salvam seus ente queridos, salvam os governantes, mas os milhões que pereceram parecem não ter qualquer importância e a vida segue normal com os que sobraram. 

Agora, estamos vivendo como num desses filmes com o surto no novo vírus. E nada escapa do roteiro. É exatamente como na arte. Há uma parcela da população que simplesmente não importa pra ninguém. Ouvindo as orientações para a população logo se percebe que os médicos e governantes estão falando para um grupo bem específico de pessoas, excluindo A maioria. 

Simón Rodríguez, o educador venezuelano já anunciava lá no começo do 1800 que aos latino-americanos era preciso inventar ou morrer. Pois é disso que se trata agora. O que essa parcela gigantesca de gente, que não tem qualquer possibilidade de proteção contra o vírus, precisa fazer para sobreviver? Há que inventar. 

Eu gostaria de ver algum médico ou cientista dizendo a essas pessoas como reduzir os danos para não morrer na epidemia. 

Há milhões de pessoas que seguirão tendo de ir ao trabalho nos ônibus e trens lotados? O que fazer?

Há milhares que precisarão trabalhar em espaços lotados de outros trabalhadores, sem a possibilidade de ficarem dois metros de distância. Que fazer?

Milhares de pessoas ficarão infectadas em casas pequenas, apartamentos ou barracos  sem condições de manter a regras de isolamento. Que fazer?

Há centenas de moradores de rua, sem qualquer possibilidade de prevenção. Que fazer?

E se a pessoa cuida de um velho ou de uma criança e pega o vírus, não tendo com quem deixar a pessoa cuidada, que fazer?

Ou seja, é necessário que os médicos, governantes e cientistas encontrem respostas para essa gente que não se enquadra na lógica burguesa/classe média de lavar as mãozinhas, passar álcool gel e fazer isolamento social. 

Por que não o fazem? Porque não importam. Esse é o ponto. Sendo assim, é mais do que necessário que nós mesmos comecemos a testar formas de proteção nessas condições adversas das quais não sairemos. E aí, talvez as redes nos ajudem, com um ajudando o outro nas suas invenções. 

Nos espaços da produção capitalista alguns trabalhadores já estão dando o tom. Fábricas e empresas estão parando por decisão dos trabalhadores, que organizam paralisações e greves. Mas, e os serviços essenciais, que precisam ser feitos: o tratamento de água, a manutenção da energia, os trabalhadores da saúde e outros. Esses precisam se deslocar e estão à descoberto. Para eles temos de ter estratégias. 

Não creio que elas venham do governo ou dos cientistas que se limitam a regras genéricas. Vejam que no Brasil o presidente da nação foi o primeiro a quebrar as regras da proteção, incentivando atos públicos e compartilhando secreções com centenas de pessoas na porta do palácio, numa irresponsabilidade que pode ser considerada crime de lesa-pátria. 

Por isso que a proteção da massa abandonada tem de vir dela mesma. Que a gente possa compartilhar e se proteger. Porque não há ninguém por nós a não ser nós mesmos. Isso em tempos de epidemia como em qualquer tempo. Esses momentos dramáticos servem para nos fazer lembrar. A mudança do mundo está na nossa capacidade de inventar e caminhar juntos. Só a solidariedade entre os esquecidos pode nos salvar. 


quinta-feira, 12 de março de 2020

A reforma agrária dá certo

Fotos: Juliana Adriano/MST


Desde que em 1985 um grupo de agricultores sem-terra decidiu ocupar terras da união ou improdutivas para forçar a reforma agrária que o Brasil passou a conhecer o Movimentos dos Trabalhadores Sem-Terra: o MST. Naqueles anos de fim do regime militar e de recomeço da frágil democracia brasileira, os sem-terra eram demonizados: bandidos, baderneiros, subversivos. Para a mídia comercial nada mais eram do vagabundos roubando terra alheia. E, para eles, o que estava reservado era a polícia, a prisão, a violência, a difamação. 

Mesmo assim, milhares de famílias que já não tinham nada a perder decidiram engrossar as fileiras do movimento e as ocupações de terra foram crescendo em todo o país. A primeira grande ocupação, a Fazenda Annoni, no interior do Rio Grande do Sul, chegou a abrigar mais de seis mil pessoas numa imensa cidade de lona, em luta e em resistência.

A partir daí o Movimento só cresceu e hoje está organizado em 24 estados do país. Nesses 35 anos mais de 350 mil famílias saíram da condição de acampados sem-terra e conquistaram a terra produzindo coletivamente nos assentamentos do MST. Esse tem sido o desafio dos agricultores: produzir, apesar de todas as dificuldades que são colocadas para eles. 

Como é sabido o Brasil tem cantado loas para o agronegócio - que é a monocultura do grão ou o latifúndio da pecuária - mas muito pouco investe na agricultura que realmente produz comida para a mesa dos brasileiros. Cada avanço nas políticas para os pequenos produtores tem de ser conquistado na luta renhida, coisa que nunca faltou ao movimento sem-terra. E muitos dos programas que existem hoje para o pequeno produtor são fruto dessa luta.

É assim que, na batalha cotidiana, o MST vai fortalecendo sua produção e suas cooperativas. Tem profunda ligação com a agroecologia e procura produzir sem o uso do agrotóxico, acabando assim com o mito de que é impossível uma agricultura em escala sem o uso de veneno. A vitória da agricultura sadia é possível de ser notada no fato de o MST ser, por exemplo, o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Isso não é pouca coisa. É fruto do modo de produção sustentável e solidário construído pelo movimento.

Desde o ano passado que o novo governo que ocupa o executivo federal vem desmontando as políticas para a pequena e média agricultura. Isso passa pelo fim de programas de crédito e pelo investimento massivo apenas no agronegócio. A agricultura familiar está cada dia mais perdendo os poucos benefícios que conquistou. Além disso, a destruição do Incra, órgão responsável pela condução das políticas de reforma agrária, acaba por também inviabilizar a continuidade de programas que garantem novas terras para novos assentamentos. A reforma agrária, que não aconteceu em sua inteireza, segue sendo um sonho. São mais de quatro milhões de famílias sem terra querendo produzir sem ter como fazê-lo porque as terras estão concentradas nas mãos de pouco mais de dois mil grandes proprietários.

E é justamente para mostrar como a reforma agrária pode dar certo que o MST realiza sistematicamente suas Feiras Estaduais visando dialogar com os trabalhadores urbanos sobre a importância da produção de comida saudável. Assim, quando chega o tempo da feira, o movimento vem para a cidade e finca suas bandeiras no espaço urbano para vender os alimentos e para discutir em profundidade com parceiros e sociedade em geral temas como agroecologia, reforma agrária e soberania alimentar.

Nesse ano de 2020 a Feira Estadual acontece nos dias 16, 17 e 18 de abril, no largo da Alfândega da capital. O lançamento da proposta foi feito na Assembleia Legislativa, em Florianópolis, nesta quarta-feira, dia 11 de março, e contou com a presença de autoridades, sindicalistas, movimentos social urbano e apoiadores. Foi tempo de discutir a nova conjuntura que se apresenta e mostrar os frutos colhidos pelas lutas e pela organização dos trabalhadores sem-terra. 

O processo de destruição das conquistas sociais está em curso e é mais do que hora da união do campo e da cidade. O MST sempre esteve nessa batalha, compreendendo que muitos dos sem-teto urbanos são companheiros que tiveram de deixar o campo, as cidades do interior, para buscar uma forma de sobreviver nos grandes centros. Por isso, cada dia mais, a aliança operário/camponês se faz necessária. Os trabalhadores, juntos, construindo o mundo novo, que não é o do capitalismo reformado, mas o do socialismo. 








Sem-Terra e Sem-Teto juntos na luta



O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra esteve nessa quarta-feira (11 de março) na Ocupação Marielle Franco, onde famílias sem-teto lutam por moradia. Os trabalhadores do campo foram prestar solidariedade concreta aos moradores auxiliando na construção de caminhos e também plantando árvores frutíferas e ornamentais. Eles ainda fizeram um recorrido por outras ocupações e comunidades de periferia da capital conhecendo a realidade e dialogando com os moradores.

Assim como os moradores das ocupações urbanas, os trabalhadores rurais, a maioria acampados, também lutam pelo direito à terra, seja para plantar ou morar. Por isso, o MST decidiu realizar esse encontro visando a troca de experiências para que cada grupo - urbano e rural - possa melhor compreender a situação de cada luta.

No sábado, os trabalhadores do campo juntam-se novamente aos trabalhadores urbanos e às comunidades de ocupação para a realização da Caminhada de Justiça por Marielle Franco, a vereadora carioca cujo assassinato ainda não foi devidamente desvendado.

A caminhada sai da ocupação Marielle, no alto da Caieira do Saco dos Limões, passa pela comunidade do Mont Serrat e segue pelo centro até a Catedral. Ela também lembra os 30 anos da primeira Romaria da Terra realizada em conjunto pelos Sem-Terra e os Sem-Teto na capital catarinense realizada em 1990, justamente num período no qual as ocupações urbanas estavam em ascensão.

Morar com dignidade e ter o espaço para produzir comida parece algo cada vez mais distante dentro do processo de produção capitalista. Mas, ainda assim, as gentes se movem, lutam e avançam. Sabem que não haverá transformação dentro do capitalismo, por isso discutem e constroem a possibilidade de uma outra sociedade na qual nem a casa nem a terra sejam objetos de especulação. É uma batalha dura e demorada, mas cada passo do caminho vai palmilhando a estrada para o mundo novo.






A luta do campo e da cidade


O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra está realizando uma série de atividades na capital, Florianópolis. E a principal delas é a articulação com o Movimento pela Moradia, com a visita às ocupações, as rodas de conversa e a participação da caminhada que acontece no sábado, lembrando os 30 anos da primeira grande Romaria realizada entre o MST e o o Movimento pela Moradia. Um trabalho sistemático que vem sendo feito e que volta a se aprofundar em função da nova leva de ocupações urbanas e o desmonte das políticas para os assentamentos que tem produzido novos sem-terra. A aliança campo e cidade se fortalece.

A caminhada de sábado sai da Ocupação Marielle às 9h e 30min, atravessa o Mont Serrat e se concentra na frente da Catedral. Será mais um momento histórico importantíssimo de união das lutas rurais e urbanas. Há 30 anos, com a presença de Dom José Gomes, o MST e as ocupações iniciavam esse caminho.  Passadas três décadas, a uião segue sendo a receita para enfrentar o capital.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Os carregadores de voz




O jornalismo é um fazer que, segundo o teórico Adelmo Genro Filho, deveria ser uma forma de conhecimento capaz de transitar entre o singular, o particular e o universal. Ou seja, aquilo que é único no acontecimento, sendo mostrado na relação com o todo. Só assim o leitor, espectador ou ouvinte poderá compreender o que realmente aconteceu, porque terá à sua disposição toda atmosfera do fato. A universalidade. Fazer jornalismo assim não é para qualquer um. Precisa estofo. Isso significa que a pessoa que escreve, narra e descreve, tem de carregar dentro de si uma boa bagagem intelectual. Há que ter lido muita literatura, muitos livros de história, há que conhecer em profundidade os grandes dramas do seu espaço geográfico, há que ter capacidade de descrição profunda da realidade. 

Podemos pensar que atualmente os cursos de jornalismo não oferecem essa bagagem. A formação intelectual desapareceu. Muitos deles se tornaram meros repassadores de técnicas e tecnologias. Assim, podemos encontrar entre os recém-formados gente que sabe tudo sobre os novos softwares comunicacionais, mas é incapaz de fazer uma boa pergunta. E repórteres, senhores, já diria Acácio Ramos, são seres que perguntam. O que temos, na verdade, são os carregadores de voz. 

O jornalismo dos grandes meios comerciais já não se preocupa em narrar e descrever a realidade. E vamos ser honestos, entre os veículos alternativos a coisa anda por aí também. Basta dizer o que o outro disse. Segundo fulano, segundo beltrano. E nada de investigação, e nada de análise. Não importa. A informação é só uma sensação. Tampouco importa se o que o fulano disse é verdade. Se o fulano é autoridade, então, falou tá falado. Foi-se o tempo em que o jornalista escarafunchava arquivos em busca da verdade. Hoje não há tempo. A informação é pássaro fugaz. E a verdade é igualmente fluida.

Não é sem razão que o presidente do Brasil ataca os jornalistas. Ele grita em alto e bom som que o jornalismo mente. E ao fazer isso está apenas expressando uma opinião que já está consolidada nos brasileiros. Por isso os seus seguidores aplaudem as patacoadas que ele faz com o grupo que está em frente ao palácio para mostrar – sem crítica ou análise – as suas atitudes. O jornalismo palaciano é uma farsa. E o presidente sabe disso. Por isso brinca e tripudia. Sabe que dali não sairá qualquer reportagem digna de nota. Sabe que os que ali estão apenas repercutirão seus gestos, ou uma frase infeliz. Não haverá consistência nem narrativa crítica sobre o governo em si, sobre os dramas da nação ou sobre as entranhas podres do poder. É um jornalismo do tipo “Caras”, voltado ao exótico, ao engraçado. É um jornalismo conivente, amigo, ajoelhado diante do poder. Quem não se lembra das corridas do presidente Collor, com os jornalistas correndo junto, ofegantes, alegres por mostrarem a nova frase que o presidente ostentava na camiseta? Tudo segue como dantes no quartel de Abrantes.

Houvesse realmente jornalismo correndo nas veias dos que fazem a cobertura presidencial, eles haveriam que sair da frente do palácio e entrar. Vasculhar as gavetas, sob o tapete, manipular os papéis, os decretos, os projetos, contar ao povo o que se está armando contra ele. E se fossem impedidos, teriam de encontrar formas de encontrar a verdade que se esconde sob a lógica das piadas, das grosserias, da estupidez. O show diário da presidência é um esconderijo de verdades. E os jornalistas palacianos ficam ali, observando o que não existe, enquanto que o que existe, de fato, continua invisível para a maioria.

O jornalismo precisa deixar a opinião pública informada sobre a essência das coisas, não sobre a aparência. O jornalismo é espaço de fatos concretos, não de sensações. O jornalismo é a análise apurada do dia. Ou isso, ou nada. É só uma algaravia sem sentido que muito bem serve a quem quer embotar os sentidos. 

Há quem defenda os profissionais que seguem se submetendo aos vexames diários em frente ao palácio. Eu não. Existem sapos que temos de engolir para poder sobreviver num mundo no qual só temos nossa força de trabalho para vender. Sim, é verdade. Mas, momentos há que os limites se impõe. É bem conhecida a lenda de que no mundo das trabalhadoras do sexo há uma regra a ser seguida: se aceita tudo, menos beijo na boca. Porque o beijo é algo íntimo demais, só oferecido ao amor. Assim no jornalismo. Podem-se engolir sapos ao longo da vida para se garantir um emprego, mas coisas há que não são admissíveis. É o beijo na boca. E aí, há que dizer não, ainda que se nos custe a vida. 

Mas, essa decisão de honra não é fácil de ser tomada. Ainda assim, há que recusar o jornalismo de sensações e recolocar essa profissão nos trilhos, ou ela perecerá como vaticina o presidente. Destapar a verdade que os poderosos querem ver escondida. Informar ao público sobre o que lhe cabe. Produzir conhecimento. 

É tempo de desalambrar, colegas, romper as cercas, desalambrar...