quarta-feira, 25 de maio de 2016

A juventude e a mídia popular


Entrevista com Gabriel Lopo, blogueiro de Montes Claros, interior de Minas Gerais, realizada durante o Quinto Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. Ele fala sobre a importância do espaço digital como lugar da informação que verdadeiramente interessa à maioria.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Blogueiros e ativistas digitais fortalecem a luta na rede


















O Quinto Encontro Nacional e Blogueiros e Ativistas Digitais em Belo Horizonte aconteceu em meio a muitas turbulências. A primeira delas, positiva, foi a provocada por uma multidão que, aproveitando a presença da presidenta Dilma no encontro, decidiu realizar um grande ato em frente ao hotel Othon Palace, onde acontecia o encontro, para se solidarizar com ela e denunciar o golpe. A manifestação gigantesca, organizada pela Frente Brasil Popular de Minas Gerais, não pode passar despercebida. Assim, a abertura do evento acabou sendo também um grande ato de denúncia do golpe que está em curso no Brasil.

A segunda rugosidade veio pela imprensa, que divulgou a informação sobre a negativa da Caixa Federal em manter o apoio que já havia sido acordado com a organização. Ora, a CEF é uma entidade pública que tem uma política de apoio à eventos a qual qualquer entidade pode pleitear. E foi o que foi feito. Um contrato foi firmado, e a organização cumpriu todas as cláusulas, logo, não aceitará quebra no contrato. A informação foi considerada uma retaliação por parte do grupo que está interinamente no governo contra os ativistas que tem sido críticos ao golpe.


Mas, apesar da indignação, o Instituo Barão do Itararé e o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, organizadores do encontro, não se intimidaram. Foram à luta e garantiram com os sindicatos, centrais e movimentos sociais as condições para receber os quase 500 inscritos que participaram ativamente das atividades. 

E o que se viu nos três dias de debate foi a vitória do trabalho coletivo, com uma mescla de gente de 23 estados do país interessada em conhecer cada um e cada um que anda por aí, escrevendo e disseminando informação, para além da gosma da mídia comercial. Blogueiros que são jornalistas, blogueiros que não são jornalistas, ativistas de todas as idades e profissões que, indignados com a lógica de propaganda, manipulação e desinformação, decidiram usar as ferramentas da internet para fazer uma guerrilha informacional.


Pessoas como Ronaldo Alves, que enfrentou 40 horas, de ônibus, desde Teresina, no Piauí, sem dinheiro e sem nem saber como voltaria, ou Gabriel Loppo Silva Ramos, um jovem de Montes Claros que passou o chapéu na cidade para viabilizar a viagem, foram os extremos num grupo apaixonado pela escrita e absolutamente necessitado de dizer essa palavra que não encontra morada na grande mídia. Talvez por isso que as sessões de debates e conversas tenham estado sempre cheias e sem a habitual disputa para ver quem tem a melhor proposta.


O encontro de blogueiros teve essa coisa única. Não foi uma disputa de aparelho, nem guerra de partidos, nem um jogo sobre quem é mais inteligente. Tampouco houve cobranças sobre aqueles que estavam ali defendendo Dilma ou os que insistiam na crítica. Foi um espaço de conversa real, na qual as divergências foram apontadas sem dedo em riste ou caras enfastiadas. Cada fala, na mesa ou na plateia, aparecia como um ponto a mais na grande teia de solidariedade, partilha e comunhão comunicacional que estavam todos dispostos a construir. As pessoas estavam interessadas em saber como sobreviver a onda fascistizante que varre o país, como garantir recursos para sobreviver com blogs críticos, como escrever sem dar espaço para judicialização, como narrar a vida com competência e como construir uma rede de apoio e socialização da informação.

Gente de Roraima, do Amapá, de Ceará, do Maranhão, dos rincões mais afastados do Brasil profundo que, nos seus espaços geográfico resiste, muitas vezes solitária, e que veio buscar essa coisa boa que é se sentir parte de algo grande, transformador e generoso.

Nas falas, a certeza de que a blogosfera, o espaço do ativismo digital, teve papel fundamental na denúncia do golpe ocorrido no país. “Nós estamos criando um novo tipo de jornalismo horizontal, viral”, afirmou Laura Capriglione, do Coletivo Jornalistas Livres. “Estamos contando o país desde os nossos celulares e temos de centrar fogo na credibilidade. Esse é o nosso desafio. Checar, checar e divulgar só a verdade, mas sem se fechar num gueto. Temos de chegar longe, ter estratégia de rede, não falar apenas para nós mesmos”.

Nas rodas de conversa, momento estratégico de pequenos grupos no qual todos têm a possibilidade de expor suas ideias, ficou claro que o trabalho do ativismo digital não pode ficar apenas na denúncia do golpe, mas também avançar para a construção de uma soberania na comunicação, coisa que obviamente precisa passar também pela construção de uma outra forma de estado, de organização da vida. Sem a luta concreta na vida, não adianta a luta digital. Há que transformar o Estado para que se tenha também uma outra comunicação, tudo está ligado. E nós, jornalistas – ou comunicadores populares - temos a obrigação de ser o elemento crítico, que narra e desvela a realidade.

O Quinto Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais terminou com a certeza de que é preciso reunir as pessoas e provocar o conhecimento entre elas. Uma vez feito o contato pessoal e afetivo a possibilidade da formação da rede é bem maior. Também produziu a Carta de Belo Horizonte que repudia o governo ilegítimo hoje no Brasil, faz uma breve análise de conjuntura e aponta eixos de luta na política e na comunicação.

Foi formada também a comissão nacional que tratará de organizar o sexto encontro para daqui a dois anos. Enquanto isso, a luta seguirá, fortalecida e permanente.   

Menção especial aos incansáveis Altamiro Borges e Aparecido Araújo que, com especial carinho e afeto garantiram a expressão de todas as vozes. É assim que se avança!

Dilma participa do encontro de blogueiros em BH

 
 
 















Na sexta-feira, dia 20, a frente do tradicional hotel Othon Palace se encheu de gente. As pessoas foram chegando ainda de tarde, alertadas para o fato de que a presidenta Dilma Roussef estaria ali, para o encontro nacional de blogueiros e ativistas sociais. Quando a noite chegou, banhada por uma enorme lua cheia, já era uma multidão. Num caminhão de som, uma a uma foram falando as lideranças sociais, sindicais e políticas, denunciando o golpe que retirou a presidenta do governo. “O que estamos vivendo é um golpe, sim. Não há como negar. Não há crime cometido por Dilma”.
Eram pouco mais de sete horas quando ela chegou ao hotel. Passaria adiante, na direção da abertura do encontro. Mas, foi impossível. As ruas estavam tomadas por  milhares de pessoas aos gritos de “fica, querida”. A presidenta chorou. Então, falou às gentes: “Eu quero dizer para vocês que eu não vou ficar escondida no palácio da Alvorada. Eu vou resistir ao golpe. Serei uma zeladora da democracia”.
No encontro de blogueiros, Dilma escutou antes a fala da representante dos ativistas- Secretária-Geral do Barão de Itararé e Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Renata Mielli - que fez uma dura crítica ao governo do PT no quesito comunicação. “Ao longo de todos os anos que ficou no poder o PT não enfrentou a batalha contra o monopólio. É necessário que haja um compromisso real com a mídia alternativa, sindical e ativista”. A presidenta falou por uns quarenta minutos, nos quais explicou aos presentes todo o processo que levou ao impedimento e reiterou sua posição no sentido de resistir ao golpe. Apesar de outros políticos do PT que falaram no ato terem feito um “mea culpa” sobre a comunicação, Dilma não se deteve nesse tema.
De qualquer forma, os blogueiros e ativistas deram seu recado. Caso o golpe seja superado e a presidenta volte ao governo, será fundamental que mude seu comportamento com relação à mídia alternativa popular. Mas, não só. Também será preciso fortalecer a EBC e apostar na criação de veículos de comunicação públicos e comunitários. Hoje, os comunicadores estão comprometidos na luta contra o golpe e as diferenças se esboroam diante de uma situação que é muito grave. Por outro lado, há a clareza por parte de todos de que muita estrada ainda será preciso ser palmilhada para se chegar a uma situação satisfatória para as mídias alternativas e populares.
A quinta edição do Encontro Nacional dos Blogueiros e Ativistas Digitais foi organizada pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, pelo Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e pela Comissão Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Oeste catarinense na defesa do padre Reneu



Padre Reneu ao lado do quadro que recorda D.José Gomes, o bispo mais amado do Oeste

Não faz muito tempo havia um homem. Todos diziam que ele era um fora da lei. Andava com as putas, comia na casa dos chamados “malfeitores”, circulava pelas beiras de cais, nas vielas escuras e nas moradas dos enfermos. Ele poderia ter ficado na sua terra, fazendo seus móveis. Mas, não, preferiu caminhar com os desvalidos, abraçar os bêbados, confortar as adúlteras, amainar a dor dos desgraçados. Ele tinha muito amor no coração. E talvez esse tenha sido seu grande erro. Pois quem, sendo mau, pode aguentar o amor?

Nos caminhos desse homem foram se juntando os que eram sedentos de carinho, mas também, pelas beiradas, começaram a vigiar os que sempre viveram de sugar o sangue dos pobres: os ricos, os doutores da lei, os sacerdotes da elite, os abonados, os graúdos. Eles se reuniam e sussurravam contra o homem. Quem é esse que ousa dizer que o amor pode ser a maior das dádivas? E tramaram contra ele. E o acusaram de louco, de bandido, de subversivo. Vomitaram tanto ódio contra ele que chegaram a convencer a uma multidão que ele deveria morrer por ter cometido o grande pecado de gritar contra a injustiça e a opressão. Esse homem ficou conhecido como Jesus, o nazareno. Mas ele poderia ter muitos outros nomes.

Ao longo dos tempos, na história humana, todo aquele que se levanta em rebelião contra a dor, a opressão, a injustiça e a falta de amor sofre a mesma longa caminhada de tortura e morte, tal qual o jovem palestino de Nazaré. E se eles se indignam, se trovejam suas vozes contra o crime, eles é que viram vilões. E os graúdos das vilas, das cidades, dos países, incitam as gentes contra eles, e os matam como bandidos.

Pois assim está sendo com o padre Reneu Zortea, da paróquia de São Miguel Arcanjo, na cidade de São Miguel do Oeste. Acusado de "comunista" por um locutor de uma rádio local (Rádio Peperi), que também é vereador pelo PSDB, ele está sofrendo ataques de toda ordem via as ondas do rádio. Como se fora nos velhos tempos da inquisição, o radialista e vereador usa de uma concessão pública, a emissora de rádio, para incitar a população contra o padre. Tudo porque num de seus sermões, ele se manifestou contra o golpe que foi dado no país. O padre, que caminha com os oprimidos, com os trabalhadores, com as gentes empobrecidas, é quem está sendo massacrado. Como na velha história milenar. O vereador Raul Gransotto, não satisfeito em trovejar impropérios contra o padre na rádio, usa das redes sociais para ameaçar o “comunista”.



Na sessão da Câmara, dessa terça-feira (17) ele tentou passar uma moção de repúdio contra o padre, usando dos mesmos recursos tão bem conhecidos nos tempos dos coronéis. Ameaças à jornalistas críticos, ameaças às gentes que foram defender o padre, ofensas contra os jovens que se manifestavam, e gritos contra o “comunismo”. Por fim a tal moção sugerida não recebeu qualquer voto favorável e o vereador teve se engolir a bravata. Mas, ao que parece, o ataque contra o padre Reneu não deverá ficar por aí, pois o vereador dublê de radialista disse que isso é “apenas o começo”.

O padre Reneu é bem conhecido na região oeste, justamente pelo trabalho social que desenvolve. De voz mansa e gestos serenos, ele tem aquela doçura jesuânica de quem decidiu seguir os passos do mestre nazareno. Mas, incitados pelo ódio radiofônico de todo dia, algumas pessoas – possivelmente de fora da paróquia – chegaram a profanar a igreja de São Miguel Arcanjo, fazendo cocô em frente ao altar. Tudo isso vem gerando conflito na cidade entre os que se mostram a favor do vereador do PSDB e os paroquianos que vivenciam, desde há anos, o generoso trabalho pastoral do padre Reneu.

O fato é que o clima nacional de caça aos “vermelhos”, que voltou com força durante a cruzada midiática contra o PT, se traveste de cruzada local visando a destruição de “inimigos” mais próximos. Tal como na ditadura militar quando pessoas acusavam  de “comunistas” seus inimigos pessoais ou mesmo pessoas com as quais tinham rixas fúteis, tudo se repete. Os oportunistas de plantão, gerentes da classe dominante, usam de seus espaços públicos  - rádio e câmara de vereadores – para suas cruzadas pessoais.

Reneu Zortea tem vivido seu sacerdócio como o nazareno viveu na antiga Palestina. Caminhando com os pequenos, organizando as comunidades, espalhando seu sorriso e seu afeto aos que batalham no cotidiano da cidade, que ainda preserva seu ar rural. Ele é o que se embrenha nas veredas quando alguém precisa dele, o que consola, o que acolhe e o que diz a palavra que alimenta. Sim, porque Reneu vive o evangelho que prega. Não é um capacho das elites, é parte das gentes e com ela anda. Por isso, agora, sofre os ataques daqueles que servem de escudo para os poderosos.


















Mas, Reneu não está sozinho. Com ele estão os jovens de luta, as mulheres guerreiras, os trabalhadores, os camponeses, os que não se calam diante das injustiças. Os que se expressaram na câmara de vereadores, apesar das ameaças e dos xingamentos, esses seguirão lado-a-lado de Reneu, porque com ele mesmo aprenderam o valor da co/munhão. Comer junto o pão. São com/panheiros e enfrentarão o ódio porque sabem que o que está em tela é a boa e velha luta de classe, como naqueles dias, em Jerusalém, quando Jesus derrubou as barraquinhas do tempo, contra os vilões do amor.

São Miguel do Oeste amanheceu fria nessa manhã de quarta-feira, mas a fumacinha branca dos fogões à lenha, nas quebradas, nas estradinhas de terra e nas comunidades prenunciam que as gentes estão despertas e vigilantes. Na defesa de Reneu e na defesa do direito de viver em um país livre.

Desde aqui, da capital, todo o apoio à comunidade organizada de São Miguel do Oeste, aos jovens das Pastorais e à jornalista Claudia Weinman, pessoalmente ameaçada através de um email, por unicamente narrar a vida das gentes.  





terça-feira, 17 de maio de 2016

Blogueiros e ativistas digitais se reúnem em Belo Horizonte



A jornalista Elaine Tavares, que alimenta esse blog, participa nesse final de semana do Quinto Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais. O encontro começa sexta-feira (20), em Belo Horizonte, e vai até o dia 23. Com o tema #MenosÓdioMaisDemocracia, o #5BlogProg reunirá jornalistas, blogueiros e ativistas de todo o país para discutir a defesa da democracia e a luta contra o golpismo midiático. O evento ocorre no Othon Palace Hotel (Av. Afonso Pena, 1050) e terá transmissão ao vivo pela TVT, a ser reproduzida pelo Barão de Itararé.  Confira, a seguir, a programação e os nomes já confirmados para o Encontro:

SEXTA-FEIRA (20)

18h - Abertura e apresentação da dinâmica do evento
19h - Ato político em defesa da democracia e contra o golpismo midiático.

SÁBADO (21)

9h - Debate: As forças políticas e a democratização da comunicação
14h - Rodas de conversa e troca de experiências sobre a blogosfera e o ativismo digital
17h - Debate: O crime de Mariana e o papel da mídia
19h - Reunião dos estados
21h - Atividade cultural

DOMINGO (23)

9h - Aprovação da Carta de Belo Horizonte e eleição da Comissão Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais
13h - Encerramento do #5BlogProg

Presenças confirmadas: Paulo Moreira Leite, Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Rodrigo Vianna (O Escrevinhador), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), Conceição Oliveira (Maria Fro), Cynara Menezes (Socialista Morena), Fernando Brito (Tijolaço), Marco Weissheimer (RSurgente), Lola Aranovich (Escreva Lola Escreva), Diógenes Brandão (As Falas da Pólis), Tarso Cabral Violin (Blog do Tarso), Najla Passos (Carta Maior), Douglas Belchior (Negro Belchior), Tereza Cruvinel, Elaine Tavares (Palavras Insurgentes), Hildegard Angel, Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Renato Rovai (Revista Fórum), Miguel do Rosário (O Cafezinho), Daniel Bezerra (Portal Mídia Livre) e Rosane Bertotti (CUT). 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O golpe e a ponte para o passado


O patriarcado em ação


O golpe judiciário/midiático consolidado nessa quarta-feira, dia 11 de maio, no Brasil, encerra um ciclo na América Latina, que ficou marcado pela presença poderosa e carismática de Hugo Chávez. Liderança inconteste de transformações populares no continente, Chávez alavancou um período histórico para as gentes dessa parte do mundo. Participação protagônica, soberania, cooperação, solidariedade, elementos fundamentais para a organização de outra forma de viver. Não foi sem razão que o combate contra suas ideias foi igualmente poderoso e, passo a passo, consolidou a derrota da ideia generosa da pátria grande, trazida ao sul do mundo outra vez. A primeira fora com Bolívar, também derrotado pela sede de poder particularista de seus generais.

O Brasil não chegou a vivenciar grandes transformações como a Venezuela ou a Bolívia, mas entrou no ciclo de ascenso de governos mais progressistas com a posse de Luís Inácio Lula da Silva em 2003. Com o governo petista não houve qualquer mudança estrutural, mas os pequenos avanços nas políticas públicas já foram capazes de mudar a cara do país, pelo menos a cara mais empobrecida. Programas de transferência de renda, moradia, saúde, acesso à universidade, tudo isso provocou alterações profundas na vida de milhões de pessoas. Não houve o chamado à participação protagônica como na Venezuela, mas só o fato de ter acabado com a fome crônica de mais de 40 milhões de pessoas e incluído outras tantas na roda do consumo já foi um sucesso estrondoso.

O fato é que a classe dominante no Brasil aceitou engolir o “sapo barbudo” até certo ponto. Desde sempre tramou contra qualquer face mais transformadora do governo, que igualmente também aceitou as regras de não avançar muito, visando garantir governabilidade, uma vez que tinha o governo, mas não tinha um congresso fortemente favorável. O jogo político foi sendo jogado nessa correlação de forças. O PT foi abandonando suas velhas bandeiras e entregando os dedos e as mãos para a classe dominante. De certa forma, cavou o golpe que se encerrou no dia 11, até porque, ao longo desses anos de governo não foi capaz de atrair para o seu lado a classe trabalhadora como um todo, acendendo velas para o capital bem mais que para as gentes.

O golpe

A trama do golpe começou ainda no processo eleitoral do qual Dilma saiu vitoriosa. Como boa parte dos países que haviam entrado no ciclo “progressista” já estava dando sinais de esgotamento, era hora de, no Brasil, a direita de novo retomar as rédeas de maneira direta. E a aposta foi em Aécio Neves. Não funcionou. Dilma venceu as eleições e desde aí começou o sistemático ataque para derrubá-la. Todas as armas ditas legais foram usadas, não deu certo. Restava então a boa e velha tática do golpe, coisa que é “useira e vezeira” de acontecer no Brasil. Para quem não se lembra é sempre bom recordar que a independência do país foi conquistada assim: uma pequena quartelada montada por Pedro Primeiro, enganando o povo sobre estar “se libertando de Portugal”. Depois, foi a vez de outro golpe para empurrar a República, com uma reticente liderança militar, Marechal Deodoro da Fonseca. De um dia para o outro, as forças dominantes se ajeitavam e impediam as revoltas com acordos espúrios feitos à portas fechadas. 

Mais recentemente, em 1964, foi a vez dos tanques empurrarem para baixo da terra o sonho de um país de justiça para os trabalhadores do campo e da cidade. As reformas de base, que eram só pequenas reformas, já eram vistas como um “perigo comunista” e foram solapadas pelas botas e pelos fuzis. De novo a elite criando um consenso na sociedade sobre os males “comunistas” sem que as gentes sequer soubessem o quanto de beleza e generosidade esse sistema de organização da vida contém. 

Agora, em 2016, depois de já ter acompanhado os golpes judiciários/legislativos dados em Honduras e no Paraguai, a classe dominante brasileira, de olho nas riquezas intermináveis dessa terra, apostaram na mesma técnica. Uma acusação sem fundamento e um julgamento no qual o que conta é única e exclusivamente o desejo de retirar do poder a presidenta. Em Honduras a acusação foi de que Zelaya estava indo contra a Constituição por chamar um plebiscito, no qual a população pudesse decidir sobre os destinos do país. Foi deposto por isso. Seu crime: querer dar poder ao povo. Fernando Lugo no Paraguai, foi acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses no interior do país. Ora, Lugo estava enfrentando os fazendeiros, querendo fazer uma reforma, pequena, no setor agrário. Foi deposto por isso, numa acusação sem fundamento.

Dilma sofre o mesmo processo no Brasil. Acusada de usar o recurso das pedaladas fiscais, coisa que todos os governantes fazem, ela foi afastada do governo para que a classe dominante pudesse tornar real sua ponte para o passado. Não que o governo petista tenha conseguido gerar  brilhantes futuros para a nação brasileira, mas certamente, como já foi dito, foi o que mais tornou possível uma participação – ainda que mínima – dos empobrecidos no projeto de nação. É fato que a inclusão dos mais pobres foi dentro da lógica do consumo capitalista, mas o fato de alguém simplesmente comer, num contexto de fome crônica, não pode ser considerado menor. 

Enfim, todas as críticas ao governo de Lula e Dilma podem ser feitas e já o foram ao longo desses anos. Mas, o que não se pode ocultar é que o que aconteceu nesse dia 11 foi um golpe. De outro tipo, de outra cor, de outra estirpe, mas um golpe.

Agora, o passado

Finalizado o processo golpista com o afastamento da presidenta, o país deverá viver um ciclo de violento retrocesso e tudo isso está documentado na proposta chamada de “ponte para o futuro” , divulgada por Temer, o ilegítimo. Não bastasse a conformação do ministério, completamente alinhada aos ditames neoliberais, as propostas são claramente um retorno aos tempos nos quais o Brasil se subordinava completamente aos interesses do grande capital. 

No documento divulgado pelo PMDB, partido do presidente ilegítimo, está claro de que haverá um novo regime orçamentário, com receitas desvinculadas. E o que isso significa: que o governo poderá pegar dinheiro da saúde para jogar em outra coisa, ou da educação, ou da moradia.  Também propõe que o Congresso Nacional seja, na prática, o que dê a última palavra sobre o orçamento. Quem viu o “tipo” dos parlamentares na votação do impedimento, sabe muito bem o que isso significa.   

Temer também propõe o fim da indexação para os salários e aposentadorias. Assim, ninguém mais receberá conforme esse ou aquele índice. Os aumentos serão definidos pelos parlamentares. Outra medida dramática é o orçamento com base zero, o que quer dizer que todos os programas governamentais serão avaliados ano a ano, podendo seguir ou não, conforme avaliação de alguma comissão do congresso. Mais uma vez aí está o que o senador Roberto Requião chama de semi-parlamentarismo, com todo poder ao congresso. Na prática, o governo na mão dos grandes grupos que dominam a casa legislativa: os da bala, do boi, da bíblia e das transnacionais. Outros pontos do documento igualmente apontam para isso. O que definitivamente comprova a tese do golpe parlamentar. 

O fato é que a tal ponte peemedebista fatalmente levará o Brasil ao passado, retirando conquistas importantes da população e dos trabalhadores. Mudanças na aposentadoria, nas leis trabalhistas, arrochos salariais, diminuição dos gastos sociais, privatizações aceleradas e, é claro, a entrega completa do Pré-sal, conforme queria José Serra, agora, com o golpe, finalmente ministro, e nas Relações Exteriores, para estreitar fortemente os laços com os patrões do norte. 

O dia que começa nessa sexta-feira, depois da nomeação dos ministros, a destruição de ministérios, como o da Cultura, por exemplo, e a assunção de figuras nefastas no comando do país, desafia as gentes organizadas para uma longa e dura batalha.  Uma luta que já vinha sendo travada no governo petista, ainda que de baixa intensidade, por conta da domesticação e da cooptação de muitas forças importantes. Agora, a tendência é de as forças de esquerda se unificarem outra vez diante de um inimigo comum, e certamente o conflito vai se acirrar. E, como já acontece em Honduras e no Paraguai, que sofreram golpes semelhantes, haverá muita repressão, haverá desaparições cirúrgicas, e a criminalização dos movimentos será fortemente reforçada.  Um espinhoso caminho, que a classe trabalhadora vai trilhar como sempre fez, afinal, não resta alternativa a não ser construir, na unidade, a estrada do presente. O passado já foi, é história. E o futuro, que o PMDB anuncia na sua “ponte”, definitivamente não é bom para a maioria da população. Isso ficará bem claro na hora em que as medidas concretas de ataque começarem a ser tomadas. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O dia depois do golpe


O Senado, como a Câmara, votou pelo afastamento da presidenta, sem que houvesse qualquer indício de crime por parte dela. Isso é golpe. Rompimento das regras da própria democracia burguesa. Estamos, a partir de agora, sob um governo que não tem legitimidade. Independentemente dos erros e da decisão de conciliação de classe por parte do PT - coisa que sempre criticamos - o que acontece, concretamente é um golpe. Negar isso seria desonestidade com aqueles que nos leem desde há tempos. 
Assim como Zelaya foi deposto em Honduras, acusado de querer ouvir o povo e Lugo foi deposto no Paraguai, acusado de responsabilidade sobre um massacre de camponeses, aqui também se concretiza o golpe, com acusações pífias. Mas, a luta segue. Com Dilma, sem Dilma, com Temer ou qualquer outro, a classe trabalhadora sabe que ainda tem longa jornada até um tempo de libertação.

A vida é assim: esquenta e esfria
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem!

Guimarães Rosa