quarta-feira, 4 de maio de 2016

Campeche forma novos remeiros


A pesca artesanal é uma tradição no Campeche e a comunidade luta sistematicamente para manter esse fazer vivo nas novas gerações. Agora, uma escola de remeiros já começa a dar seus primeiros frutos. Onze novos remadores se formaram no dia primeiro de maio, dia que se celebra a abertura da pesca da Tainha. A iniciativa foi de Getúlio Inácio.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Por que precisamos nos afirmar belos?



Ali estão, no meio da Biblioteca Central. Impossível passar incólume. Penduradas, rodando, estaqueadas. As imagens dos negros da UFSC. Um povo que até bem pouco tempo só aparecia na universidade configurando casos bem específicos. Raros, a maioria, africanos. Mas, agora, com o advento das cotas, eles estão por todo lugar, em todos os cursos, expondo suas demandas e sua cultura, rompendo o preconceito, enfrentando o racismo de cada dia.

Não tem sido uma caminhada fácil. O racismo é parte orgânica da sociedade brasileira, que nada tem de cordial e, desde os primeiros passos das cotas para negros, índios e gente da escola pública, que esses estudantes precisam enfrentar a fúria, o escárnio, a discriminação.

Mas, ainda assim, eles avançam, afirmando suas identidades étnicas e encarando as dificuldades como sempre fizeram em todos os espaços da vida. Guerreiros e guerreiras, desde a ancestralidade do grande continente do leste.

O trabalho com as fotos é uma produção do Coletivo Kurima, dos estudantes negros e negras da UFSC, que acabou se expressando na exposição “A beleza de nossos corpos negros”. Um espaço de encanto, formosura, perfeição. 

O trabalho coordenado por Roberta Lira é como uma brisa dentro da BU, um respiro de vento fresco, mostrando que a beleza é algo que está no olho de quem vê. Caminhar por entre os retratos dos corpos negros, do riso, da cor, é trilhar a vereda do verdadeiro encontro humano. Porque somos nada mais que isso - negros, brancos, vermelhos e azuis – “apenas um pequeno gênero humano” como dizia Bolívar. 

Vale a pena visitar esse espaço de afirmação e de maravilhas. Sentar, fruir, sentir, se envolver e, finalmente, responder com profunda honestidade a pergunta inicial e provocativa: por que precisamos nos afirmar belos? Por quê? 

A exposição fica na BU até o dia 15 de maio. 

Concepção e coordenação geral: Roberta Lira
Fotografia: Diana Souza
Realização: Coletivo Kurima (Kurima Bantu)



domingo, 1 de maio de 2016

Festa na Rádio Campeche






































Ali estávamos, deitados no chão da Rádio Campeche. Sobre nós, o céu estrelado de uma noite fria. Nove graus no termômetro. Mas, naquele pequeno pedaço de terra, encravado no sul do mundo, no sul da ilha de Santa Catarina, uma comunidade inteira vibrava em ternura e emoção, aquecida ao pé da fogueira que serpenteava fagulhas. A formação de estrelas que leva o nome de Cruzeiro do Sul luzia forte, apontando o caminho escolhido, sempre o sul. E na parede do muro a luz do projetor fazia passar em cenas coloridas a história mais linda do mundo: a nossa.

Embalados pela voz de Todd Southgate, que narra o filme "Desculpe pelo transtorno: a história do Bar do Chico", fomos relembrando toda a saga da comunidade do Campeche na luta pelo Plano Diretor, pelo direito de viver num bairro-jardim, num espaço de comunhão e de benquerenças. E em cada fotograma que passava, projetando o rosto e a voz dos nossos bravos companheiros de luta, passava também nossa própria vida. Esse delicado e precioso tramado de sangue, suor, lágrimas e risos. A história do Campeche.

Nossa Rádio Comunitária celebrava dez anos de programação ao vivo e o dia fora de festa. Já tínhamos abraçado os amigos, já tínhamos acompanhado o esquete da atriz Vânia Schwenke, a música do Pedra do Urubu. Tudo isso regado a muito quentão, pizza e toda a sorte de comidas e frutas que, como mágica, foram aparecendo na grande mesa comunitária que se formou no pátio. Nada pode ser mais divino que o pão repartido de forma amorosa e fraterna. Esse gesto poético que concretiza em corpo essa ideia abstrata do que chamam "comunidade". A rádio se fazia passarela de pessoas, vindas de todo lugar, para o abraço e para o encontro.

Um fogueira se acendeu para fazer sumir a friagem da noite invernal. Crianças corriam pelo pátio, em brincadeiras e cantorias. Rodinhas se formavam, conversas, risadas. Uma mão ajudando outra e costurando essa rede de solidariedade e realidades construídas em comunhão.

Então veio o bolo, com velas de 10 anos. Uma delícia morena, de chocolate amargo, coberta de puro glacê, que foi lambuzando caras e bocas. Chimarrão, chá quente, vinho, água pura. Tudo repartido como cabe ao Campeche.

E quando a noite se firmou no horizonte, rodeamos a fogueira, entrincheirados e cobertos de lã, para ver o filme que falava de nós. Essa batalha de viver no Campeche, sempre cientes de que somos parte da cidade e que estamos todos ligados por um fio invisível de comunhão. E, na tela, saltavam as caras e as vozes da Tereza Barbosa, a Janice Tirelli, o Ataíde, o Glauco, o Lázaro, a Débora, o Seu Chico, o Fernando, e tantas outras pessoas especiais que ao longo de décadas vêm entregando seus dias pelo nosso Campeche. A luta de um bairro, de uma gente, de uma comunidade viva. Nossas vitórias, nossas derrotas, nossas lições aprendidas na dura batalha contra o poder.

E quando o filme acabou, triste, evocando a morte do Seu Chico, por um minuto só se ouviu o espocar das fagulhas  do fogo que ardia na fogueira. Um silêncio reverente que, num átimo, se fez palmas, seguidas de risos e falas alegres. Essa comunidade guerreira não se entrega para a dor. E quando a luz acendeu e a gente se olhou, ali estavam as mesmas pessoas que há poucos minutos estavam na tela do filme. Todas elas: Tereza, Janice, Glauco, Ataíde, Dauro, Lázaro, Débora, Fernando... o Campeche que luta, o Campeche que é comunidade viva, o Campeche que aprendeu, na caminhada, que é a comunhão, a partilha e união que nos faz fortes. E a gente se abraçou, forte, apertado. A coisa mais linda que pode haver no mundo. Ser, juntos!

Quando, enfim, todos foram embora, e só restaram alguns poucos, da diretoria da rádio, juntando as cadeiras e tralhas espalhadas pelo chão, respirava-se um ar de bendições. Pairava na noite uma alegria doce, um sentimento bom, uma quentura amorosa de quem se sabe amado.

A festa da Rádio Campeche foi como o Campeche é: simples, terna, solidária, bonita e trovejante.

Obrigada a todas as pessoas lindas que vieram para esse momento de celebração. Foi bonito demais. Quando acontecem momentos assim é que a gente percebe, na pele, que tudo o que fazemos vale a pena.




quinta-feira, 28 de abril de 2016



O Portal Desacato continua avançando em sua parceria com ABRAÇO-SC. Neste domingo 1º de Maio, 10 h, no Portal Desacato e no sítio da ABRAÇO, em homenagem aos Trabalhadores, estreia o programa de rádio semanal, o primeiro de uma grade que irá se construindo aos poucos: INFORMATIVO PARALELO. Ele vem se somar ao quadro 'Desacato Passa Revista' que desde 2015 se apresenta semanalmente no Jornal dos Trabalhadores.
Apresentado pela jornalista Patrícia Krieger, com a participação de Elaine Tavares, Raul Fitipaldi, as reportagens de Márcio Papa, Cláudia Weinman, Izabel Fávero e José Carlos Ferreira, a locução de Gabrielle Schardosin, a Direção de Thiago Iessim, todos sob a Direção Audiovisual de James Pereira e a Direção Geral de Jornalismo de Tali Feld Gleiser, 'Informativo Paralelo' vai desconstruir as "verdades" da mídia monopólica.
Depois da apresentação no Dia dos Trabalhadores, o programa lançará episódios semanais todas as quartas-feiras, às 10 h da manhã, no Portal Desacato e no sítio da ABRAÇO-SC, a partir do dia 11 de maio.
O programa pode ser ouvido no sítio do Desacato: www.desacato.info

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Brasil pós dia 17


Os bufões

O domingo, dia 17, foi trágico e cômico. Trágico porque vimos acontecer, ao vivo, em tempo real, um golpe contra a ainda frágil democracia burguesa brasileira. Um golpe de novo modelo, não mais com canhões e exército na rua, bem ao estilo do que já aconteceu em Honduras  e no Paraguai. Com acusações pueris, sem qualquer comprovação, e sem base legal, os deputados federais, os pouco mais de 500 que conformam a câmara, deram prosseguimento ao processo de impedimento da presidenta Dilma Roussef.

A votação foi risível e expôs o baixo nível daqueles que deveriam ser - em tese - os representantes da população. Muitos dos parlamentares pela primeira vez usavam da tribuna assim, em cadeia nacional, a ponto de os brasileiros descobrirem, abestalhados, por exemplo, que o cantor sertanejo, Sérgio Reis, era um deles. Nunca fora sequer citado nos noticiários da casa. Ainda assim, essas figuras estranhas à maioria da população foram se sucedendo no microfone votando pelo impedimento da presidenta, pelos mais estapafúrdios motivos, menos por algum crime ou ilegalidade que a mandatária tivesse cometido. "Pelo meu filho, pelo meu pai, pela minha mãe que está de aniversário, por deus, para que as crianças de seis anos não mudem de sexo, em honra de um torturador"... Foi um festival de horrores. Uma deputada mineira, aos gritos de sim, sim, oferecia seu voto contra a corrupção ao marido, que, no dia seguinte foi preso pela polícia federal... por corrupção!

O dia seguinte ao 17 foi de perplexidade. Estava consolidado o golpe com mais de 360 deputados votando pelo impedimento, sem que sequer soubessem qual era a acusação à presidenta. Foi uma gigantesca barganha política na qual os corruptos - a começar pelo presidente da Câmara, comprovadamente envolvido em vários escândalos - buscavam tirar do poder aquela que dera  espaço para que os crimes começassem a ser investigados.

O Partido dos Trabalhadores perdia seus aliados e não conseguia barrar o golpe, que tanto atingiu a democracia quanto a figura da presidenta. Muito dessa derrota - há que se considerar - é também responsabilidade dessas alianças feitas no passado para garantir a governabilidade.  Os ratos deixavam o navio sem qualquer prurido e festejavam a queda. O vice-presidente, Michel Temer, assistia a votação em casa e já lançava notas à imprensa sobre o que iria fazer no "seu" governo. Grotesco e desleal, como já se apresentara desde o começo da crise. Sobre ele, que também assinou as famosas "pedaladas fiscais", as quais imputam à presidente como irresponsabilidades, não pesa nada. Aparentemente é o potencial "presidente" caso Dilma seja tirada do cargo.

Nas redes sociais, no segundo dia pós perplexidade, os brasileiros começaram a criar memes com os absurdos ditos pelos deputados. E tudo virou uma grande piada. Uma maneira de elaborar o que passara. Enquanto isso, a mídia golpista seguia seu trabalho sujo, lançando confetes sobre Michel Temer, como se tudo estivesse já acabado para Dilma. Mas, as coisas não são assim. Agora, o processo está no Senado, a câmara alta, e ali também haverá uma comissão e discussão. Ou seja, ainda vão alguns dias para que os brasileiros saibam se Dilma sai ou fica. A considerar o resultado da votação na Câmara, é bem possível que não haja divergência no Senado e o mesmo resultado se dê. Mas, quem pode ter certeza? A política é movediça e o que é hoje, amanhã pode não ser. A conjuntura muda vertiginosamente.

O Supremo Tribunal Federal que está, inclusive, com o processo contra Cunha, se manteve quieto, deixando o circo pegar fogo. Já a polícia federal iniciou a semana fazendo detenções de políticos envolvidos em casos de corrupção. O que os internautas já estão chamando de "maldição da Dilma". Votou sim, contra a corrupção sendo corrupto? Pois agora a maldição vai te pegar! Há que ver até onde vai isso ou se é só um cardume de peixe pequeno.

Mas a revista semanal mais propagandística da direita brasileira foi a que conseguiu levantar a revolta entre a mulherada do país. Saiu com uma matéria especial sobre a esposa de Michel Temer, que é 43 anos mais nova que ele. Num matéria risível mostra como a jovem quase primeira dama é bonita, recatada e "do lar", ressaltando valores que há muito as mulheres já varreram de suas vidas. Um texto machista e grotesco, tentando comparar a jovenzinha com a presidenta Dilma. Num tom bem diferente do discurso misógino dos deputados golpistas que, no plenário, no dia da votação, exibiam o cartaz escrito "tchau, querida", explicitando o quanto lhes dói ser governado por uma mulher.  

Pois o burlesco texto da revista semanal foi o que bastou para que as mulheres invadissem as redes sociais com novos memes, ridicularizando a revista mais escrota do Brasil. É da natureza do povo brasileiro essa mania de fazer piada com tudo, sem deixar de ser crítico. A piada é, na verdade, o jeito de ser crítico. Foi um furor.

Enquanto isso, na vida real, as organizações populares e sociais se articulam e buscam formas para enfrentar a nova fase do golpe, agora no Senado. Criam-se comitês em defesa da democracia, organizam-se passeatas e atos públicos. A vida segue pulsando. Ao mesmo tempo o governo também se articula e joga suas cartas. Ainda há muita coisa para acontecer. É fato que muito das movimentações agora visam defender o governo de Dilma, mas também é fato que povo na rua sempre pode ser surpreendente. Estar organizado, manifestar-se, manter-se caminhando é bem melhor do que a apatia, e daí muita coisa boa pode nascer. Muito mais do que defender Dilma ou a frágil democracia burguesa, as gentes em movimento também podem encontrar novos caminhos. A política pulsa, a vida segue. 


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Não há novidades para os pobres


A política brasileira deverá definir nesse domingo os destinos da presidência. Num processo de impedimento no qual a ré – no caso, a presidenta Dilma - cometeu crime algum, o “tribunal” armado no Congresso parece não levar em conta a lei. Nenhum argumento legal se sustenta na acusação de responsabilidade que se tenta imputar à Dilma.

O trabalho da comissão que se definiu pela continuidade do processo de impedimento, que chega ao plenário nesse domingo,  foi uma algaravia sem sentido, uma espécie de joguinho de cartazes, no qual o que estava em jogo era a capacidade performática de cada grupo. Tudo muito bem acompanhado pela mídia que deu foco naquilo que era de seu interesse, ou seja, a formação de uma opinião pública favorável ao impedimento, ainda que não haja nada que comprove qualquer irregularidade. Pelo contrário, numa comissão, na qual mais da metade dos deputados está envolvida em corrupção, a figura da presidente Dilma é a única que não aparece em qualquer lista ou  caso de corrupção.

O espetáculo do impedimento tem todas as características de um golpe e é por isso que as forças de esquerda – na sua maioria – assim o denomina. O modelo é o mesmo que já foi usado em Honduras, em 2009, e no Paraguai, em 2012. Levantam-se acusações estapafúrdias, sem base na realidade, e efetua-se o julgamento. Nada mais nada menos do que o mero exercício de retomada do poder. Assim, sem canhões ou tiros, dentro da “casa do povo” os grupos de interesses econômicos – representados por seus lacaios – definem os rumos do país. É o jogo no tapetão, com juiz e bandeirinhas comprados. Tudo está definido.

Até o dia da semana foi escolhido a dedo. Domingo. Seria engraçado se não fosse trágico. Uma casa que funciona até quinta, vai se reunir no sagrado dia do descanso dos trabalhadores para decidir o destino da presidência. Nem Macondo seria capaz de tal criatividade. Mas, a escolha do domingo não foi ao acaso. Ela está colada ao dia que a classe dominante escolheu para realizar suas manobras de rua, devidamente respaldada por seus servos voluntários e ingênuos de plantão.  

As ruas

Ainda assim, o cenário do golpe judiciário/parlamentar é bem mais amplo do que pode oferecer a mídia igualmente golpista. Por todo o país milhares de pessoas se reúnem em passeatas, atos e protestos, manifestando-se contra o impedimento da presidenta. Grandes centros, como o Rio de Janeiro e São Paulo  juntam milhões. Pequenas cidades do interior se levantam e os mais empobrecidos também se apressam em defender os pequenos ganhos que tiveram no governo petista. Migalhas, é certo. Mas, se antes nem isso havia, entendem que não podem dar passo atrás.

Nas redes sociais também segue de vento em popa a luta de classe, finalmente expressa no Brasil “cordial”. Nessa hora de grande transcendência, poucos são os que ficam em cima do muro. É tempo de dizer de que lado se está, é tempo de aparecerem todas as contradições, de saltarem as verdades, as mentiras, os enganos e as escolhas. Vivemos nossa hora noa (a hora da angústia).

É fato que para os trabalhadores essa hora parece nunca acabar. Os empobrecidos, os que vivem de vender sua força de trabalho, desde o início do capitalismo são jogados para cá e para lá, sem que sua opinião ou desejo seja levado em conta. O filósofo alemão Karl Marx, no seu texto sobre acumulação primitiva, no qual explica como se deu a base para o nascimento do capitalismo na Inglaterra, mostra como os camponeses foram arrancados de suas terras para dar lugar às ovelhas que produziriam a lã para a indústria nascente. Mostra também como toda essa gente foi encaminhada às cidades nascentes para servir de braço às indústrias, e como os que não conseguiam “se vender”,  ao virarem mendigos ou vagabundos, eram criminalizados, presos, torturados e transformados em escravos.

Naqueles dias, os governantes e os legisladores inventavam leis contra a “vadiagem” que eles mesmos haviam criado com a expulsão das gentes das glebas. Assim, os recém-nascidos trabalhadores livres já nasciam perdendo duas vezes: a terra e os direitos. Um crime de lesa humanidade que reduziu milhões de seres ao martírio de uma nova servidão, ainda mais cruel.

Desde aí, em todo o mundo, os que dominam seguem fazendo a mesma coisa. Roubam as terras, roubam as possibilidades de sobrevivência e oferecem apenas a servidão. Em raros momentos da história do capitalismo, algumas nações conseguiram apontar para outro caminho, de terras repartidas, de riqueza repartida, de soberania dos trabalhadores.

O Brasil

O governo petista, em ação desde 2003, não investiu na soberania. Seguiu no diapasão do capitalismo dependente, sem avançar em qualquer reforma estrutural. É fato que melhorou a vida de milhões de brasileiros, tanto dos que viviam a fome crônica – que hoje não a vivem mais - ou os que não tinham acesso aos bens de consumo.  Também permitiu o acesso à universidade a outros milhares de jovens que jamais passariam por perto de uma. Mas, isso não foi suficiente para qualquer transformação. Era e é apenas o capitalismo se expressando, fazendo girar a roda do consumo, no modelito “dependência”. Nenhuma guinada para o socialismo ou para um processo efetivo de participação popular na política.

Ainda assim a elite oligárquica não perdoa. Quer os pobres no limite da existência para que possam ser mais bem conduzidos ao matadouro. É por isso que a Globo não mostra os protestos gigantescos, as passeatas ou as manifestações dos trabalhadores e dos empobrecidos. Torná-los visíveis é dar-lhes poder. Por isso os congressistas corruptos que julgam a presidenta não estão preocupados no mais mínimo com as manifestações populares. Enquanto elas não derrubarem a “bastilha” não há qualquer problema. A vida seguirá sendo decidida no tapetão.

Apesar de tudo isso, as gentes seguem sua luta. Seja na consciência ingênua ou na crítica, a maioria sabe bem que o matadouro está bem ali, esperando, em qualquer das situações. Mas, sempre há o imponderável, essa coisa incrível que acontece às vezes, quando as gentes unidas ultrapassam todas as barreiras e criam novas formas de convívio, fugindo da lógica do capital. É possível e virá.

Assim, no domingo, enquanto os deputados – representantes da elite econômica, empresarial e oligárquica, estiverem dando seu veredito num processo sem pé nem cabeça, quando tiverem tangendo o golpe, os trabalhadores estarão em luta, esperando barrar o retrocesso. E no dia seguinte, eles seguirão na rua e em luta, seja qual for o resultado. Se o governo seguir seu caminho, há que combater suas políticas de arrojo e de destruição de direitos, que serão mais duras depois das alianças que se farão. E se o golpe se concretizar certamente haverá muito mais barreiras a derrubar.

Lutar e lutar. Esse é o destino dos deserdados da terra, dos que tem apenas os seus corpos nus como seus. Esse é o destino dos trabalhadores até que chegue o dia do grande meio-dia. Há um longo caminho para o fim do capitalismo. Um longo e duro caminho.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Deuses e deusas, protejam os jornalistas!


Então veio o sete de abril, incensado como o dia do jornalista. Passou meio batido em meio a um dia estressante de trabalho. Mas, no final do dia, desavisada, acabei assistindo o RBS Notícias, da rede RBS, para dar uma espiada sobre como estava se fazendo o jornalismo, naquele dia tão especial. Foi como um balde de água fervente no cangote.

Uma reportagem em particular tirou-me o chão dos pés. Era sobre a superlotação dos hospitais em Joinville. O repórter mostrou o problema de falta de leitos, gente nos corredores, aquele drama de sempre. Mas, o surpreendente veio ao final. Quando enfim pensei que viriam em destaque os motivos daquilo ali, assomam os entrevistados. Um deles, representando o hospital, dizia que a superlotação era devido ao fato de que as pessoas estavam com medo da gripe A e, portanto, procuravam o hospital para consulta. Ora, por favor!

Depois, o ápice. Aparece uma mulher, não sei se da secretaria de saúde, alguma coisa assim. E a pérola maior. “As pessoas não devem procurar o hospital. Devem procurar o posto de saúde mais próximo da sua casa”. SEM OR!!!! Quem no mundo, ao sentir-se doente, procurou um posto e encontrou um médico na hora? Creio que é algo raro de acontecer.

Certa vez, em 2008, eu quase morri por septicemia. Estava com uma infecção generalizada  e já tinha passado por 12 médicos - entre posto de saúde e UPA . Quando enfim, vencida, tive de ir a um médico particular, ele me disse, com todas as letras: quando estiver doente mesmo, procura o hospital, lá pelo menos tu vai ser atendida e fazer exames. É uma técnica de sobrevivência nesse mundo de caos que é a saúde. O sistema de Posto de Saúde funciona bem se a gente consegue se agendar, fazer consultas preventivas. Mas, na hora da doença mesmo, não dá pra contar. Qualquer um sabe disso. Que fique claro, o SUS é o melhor sistema do mundo, mas que tem problemas, tem. No geral, é por que não há o investimento necessário. Coisa complexa...

Mas, a reportagem da RBS encerrou aí. Então, o que fica é o seguinte. Os hospitais estão lotados porque as pessoas são histéricas e procuram o hospital por qualquer coisinha. Que elas devem ir ao posto de saúde, que lá haverá alguém para atender. Pode?

Desliguei a Tv e fui acender um incenso para Saraswati e São Francisco de Sales, respectivamente a deusa indiana, protetora da escrita e do conhecimento e o santo cristão, padroeiro dos jornalistas.  Ó deuses e deusas, protejam os bons jornalistas.. Eles devem andar por aí....