sexta-feira, 1 de abril de 2016

Nas ruas, contra o golpe















Fotos: elaine tavares



Veio o aguaceiro, a chuva fina, o raio e o trovão.  Tudo conspirava para que as pessoas se recolhessem, fugindo da borrasca. Mas, não. Nem eram cinco horas, e os guarda-chuvas já apontavam no alto da Felipe em direção ao terminal de ônibus.  Sob a chuva chegou o caminhão de som, e aos poucos as pessoas foram se aglomerando em volta dele. Aquele não era um dia comum. 

Num 31 de março, no distante 1964, a vida dos brasileiros tinha dado uma volta grande. Pela força bruta os trabalhadores saíram de um crescente fortalecer da luta popular, para o golpe militar. E o que era esperança e alegria pela possibilidade de uma reforma agrária, ou de outras reformas de base, virou noite escura, sofrimento, morte e dor.  Nesse terror os brasileiros viveram 20 anos. Sem direito a participar da vida nacional, sem liberdade, sem direito à palavra ou ao sonho. 

Hoje, tanto tempo depois, o país volta a viver a possibilidade de outro drama como aquele de 64. Não igual, mas equivalente. Os golpes do século XXI, pelo menos na América Latina, tem tido outra conformação. Como em Honduras ou no Paraguai, chegam sem canhões, pela via legislativa ou judiciária. Mas, são igualmente danosos e violentos. 

Contra isso, as gentes foram às ruas.  

Na capital catarinense, o número de pessoas nas ruas, mesmo com a chuva, superou o ato do dia 18. Perto de quinze mil estiveram em frente ao terminal com suas faixas e cartazes feitos à mão. Cada um com sua demanda, mas todos unificados contra o golpe parlamentar que está em curso. Somaram-se a outras milhões de pessoas em todo o país que igualmente foram às ruas gritar contra o golpe. 

No alto da torre do mercado, isolada - talvez com medo das gentes  - a equipe da RBS (afiliada da Globo) registrava o ato, enquanto ouvia o grito: "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Embaixo, a chuva embalava o canto de velhas canções, hinos de resistência e amor por um país livre e soberano. E, mesmo os adversários das lutas cotidianas, se abraçavam e, de mãos dadas, unificavam os desejos.

No Congresso Nacional, deputados envolvidos em variados escândalos de corrupção formam uma comissão que propõe o impedimento da presidente Dilma Roussef, ainda que sobre ela não pese qualquer acusação, a não ser alguns testemunhos – baseados em delação – de que ela “sabia” dos desvios da Petrobras, ou que ela teria cometido improbidade administrativa ao rolar a dívida do estado. Nenhum dos argumentos tem base legal para um impedimento. 

Não se trata agora de discutir se esse é um bom governo para os trabalhadores ou não. Quem foi à rua, mesmo com críticas severas ao modo petista de governar, sabe que o que está em tela no Congresso é um golpe. E mais, sabe melhor ainda o que vem depois de um golpe. Tal qual em Honduras e no Paraguai, a aparente normalidade institucional que se seguiu ao golpe, trouxe com ela o assassinato de lideranças de esquerda, a desaparição de jornalistas, sindicalistas e lutadores sociais e impôs a cultura do medo.

No Brasil, nunca mais! É o que dizem as ruas... Contra o golpe e pela liberdade. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Enquanto o governo afunda


















A jogada do impedimento da presidente Dilma segue de vento em popa, com golpes e contragolpes no âmbito da casa legislativa, a qual abriga a comissão que julga o processo. Uma comissão que já é por si só suspeita, visto que boa parte de seus integrantes está envolvida em corrupção.  Não bastasse isso, o próprio presidente da Câmara de Deputados tem a ficha suja e dinheiro escondido – comprovadamente - nos paraísos fiscais. É quase um cenário de ficção.

No campo da investigação policial as coisas deram uma acalmada depois que saiu uma lista com os nomes de deputados de vários partidos, envolvidos com o recebimento de propina, paga pela grande empresa multinacional Odebrecht, para a defesa de seus interesses. A lista vazou e logo foi impedida de circular pelo mesmo juiz que tem insistido que não deve haver sigilo no caso da investigação contra Lula. Ficou meio difícil para ele explicar os dois pesos, duas medidas.

Por outro lado o país segue sacudido pela vertiginosa sequência de fatos palacianos e partidários. O PMDB – que era o principal partido de base do governo, desembarcou. Depois de várias ameaças de deixar o governo, finalmente, em uma reunião relâmpago, tomou a decisão. Decidiram salvar a pele, caso haja uma decisão pelo impedimento da presidenta. Uma decisão tardia, enfim, pois se houvesse um mínimo de brio, já teriam dado o fora depois da ridícula carta de Temer à Dilma, reclamando sobre sentir-se um “enfeite” como vice. Ele mesmo não sai de cena nem do governo, pois, como foi eleito na chapa com Dilma, se ampara nesse fato para garantir a faixa de presidente caso haja o impedimento. Fica ali, de “enfeite”, conspirando para que o desfecho lhe seja favorável. 

Se formos pensar em termos de jogo parlamentar, a debandada do PMDB complica um bocado as chances da presidenta Dilma no desenrolar do golpe dentro do congresso nacional, mas em termos de força de classe não muda nada. Como bem aponta o economista Nildo Ouriques, em suas sistemáticas análises sobre os acontecimentos, na luta de classes, esses partidos - PT, PMDB, PC do B e outros que compunham e compõe a base do governo petista – atuam na defesa dos interesses da classe dominante. Daí o uso do termo “governo petucano”, cunhado pelo sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos, para designar o comando atual do país. Um mistura de petismo (PT), com tucanismo (PSDB). É que nem a dita base de “esquerda”, nem a direita que hoje exige a queda de Dilma se diferencia no essencial que é a completa submissão aos interesses do grande capital.

Isso fica bem claro na conjuntura, pois enquanto os trabalhadores saem às ruas, mobilizados contra o golpe em curso, os deputados – inclusive com o voto dos aliados do governo - vão aprovando leis que destroem direitos, que aprofundam o arrocho salarial, que privatizam serviços públicos, que entregam riquezas do país. E tudo devidamente sancionado pela presidenta, que em nenhum momento vira seu olhar para as mesmas gentes que estão nas ruas em sua defesa. É como um conto de terror.

Defender o governo é inviável diante do quadro, embora se tenha claro que o que acontece é um golpe jurídico/parlamentar/midiático. Daí essa divisão entre os grupos de esquerda. Enquanto alguns acreditam que primeiro deve-se barrar o golpe e depois recrudescer a luta contra o governo petista, outros acreditam que é preciso tocar para fora todo mundo. Nem o PT e seus aliados, muito menos o PSDB e sua trupe. “Que se vayan todos”. Por outro lado, ainda não se vislumbra uma  força capaz de assumir o comando da vida brasileira. Tudo está em construção.

Amanhã, dia 31, acontecem novas manifestações – ainda bastante confusas – pois juntam a defesa da presidenta com os protestos contra o ajuste fiscal que ela mesma vem impondo. Quase uma esquizofrenia social. De fora, seguem os que querem o “fora todos”. 

O inegável nessa crise toda que vive hoje a nação brasileira, com o governo prestes a sucumbir diante de um golpe que será desastroso para a vida de todos os brasileiros, é que tudo isso é resultado justamente dos acordos partidários feitos pelo petismo para garantir a tal da governabilidade, quando então assumiu essa cara “petucana”. E, nesse consócio, a opção de classe é clara. E não é pela classe trabalhadora.

Tristes dias vivemos!  O que anima é que o povo nas ruas é sempre um exercício de luta e, desde aí, algo pode emergir. Que seja bom , e pela esquerda.  

domingo, 27 de março de 2016

O que nos diz a lista da Odebrecht


Vereadores votam Plano Diretor em Florianópolis

A guerra de torcidas entre os partidários de Moro e de Lula tem escondido algo muito mais precioso do que os nomes dos que receberam propina da grande empreiteira global, Odebrecht. É nada mais nada menos do que a prova concreta daquilo que podemos chamar de "ditadura do capital". Um pouco o que o candidato estadunidense Bernie Sanders vem tentando dizer na sua inusitada campanha bem o centro nervoso do sistema.

É também a comprovação de algo que até então estava apenas no discurso dos "comunistas" (para o senso comum qualquer um que critique o sistema), como mais uma de suas loucuras.  Ou seja, a dita democracia burguesa não é democracia. Ela é o espaço no qual reina a bem camuflada ditadura econômica. Sim, eu disse ditadura. Esse "fantasma" que, na boca dos "democratas" só existe nos espaços de seus inimigos. Pois essa bem azeitada ditadura do capital usa os deputados, senadores, prefeitos, governadores, vereadores, em sua maioria quase absoluta, para representar os interesses de grandes grupos econômicos e não os da população que o elege.

A tão incensada democracia liberal - que o presidente Obama fez questão de dizer em Cuba que é "melhor do que a ditadura de um home m só" - é um grande engodo. Nela, o império é o do dinheiro. Quem tem a "plata" investe em pessoas que vão defender seus interesses como se estivessem defendendo os destinos de toda a nação. Por isso, uma boa estudada na conformação das bancadas legislativas das cidades, dos estados e dos países, e vamos ver que o que ali está em jogo são as necessidades do grande capital, seja ele produtivo ou financeiro. Muito pouco está em pauta o desejo da maioria da população. Não é sem razão que numa cidade como Florianópolis, por exemplo, enquanto milhares de pessoas se manifestam em frente à Câmara de Vereadores contra a proposta de um Plano Diretor que destrói a cidade , a maioria dos legisladores vota às pressas e sem discussão um plano que só será bom para as grande empreiteiras, os bancos e os empresários do turismo. Essa é a lógica.

A lista da Odebrecht e suas centenas de nomes não deve ser diferente de outras tantas listas que poderíamos descobrir em outras empreiteiras, ou bancos, ou federações de empresários. Essa gente é quem tem o controle do país, e paga generosamente por isso. Assim, bancadas como a da bala, do boi ou da bíblia, no Congresso Nacional, para além de seus interesses particularistas  - que também existem - escondem também a manipulação da política para favorecer a manutenção do sistema capitalista, concretizado pelas grandes empresas e bancos. Tudo está ligado. Nesse universo perverso salvam-se alguns legisladores que, por suas lutas e por suas ligações viscerais com as comunidades onde vivem, apenas se configuram em exceções à regra.

A lista da Odebrecht é só a ponta de um escândalo maior, que é o da farsa da democracia. Ela não existe. É apenas uma palavra, que os governantes usam como arma contra os que decidem organizar a vida de outra forma, e que sejam seus inimigos. Porque pensem bem: que diferença há entre a organização da vida de Israel para o Irã. Ambos os países são teocráticos, governam em nome de uma verdade revelada desde cima, um deus. Mas, Israel é amiga dos EUA, então pode.

E Cuba? Como pode um arrogante como Obama ir arrotar na cara dos cubanos que a democracia dele é melhor? Ou que Cuba não tem democracia? Os legisladores cubanos são eleitos em eleições onde a propaganda eleitoral não existe. O candidato tem de ser alguém que atua de verdade na comunidade e, por isso, é conhecido pelas gentes. Ali a ditadura é outra. É a da maioria dos trabalhadores, dos que vivem a vida cotidiana e decidem nela.

Já na democracia liberal, do Obama e a nossa, a ditadura é a do capital. São ditaduras diferentes, com objetivos diferentes. Uma visa o bem de todos e outra visa o enriquecimento de alguns. Nós estamos aí no meio desse rolo e cabe a nós decidirmos em qual delas é melhor viver.

Há os que ingenuamente acreditam que na ditadura do capital há chances para todos, e que se trabalharem muito, "chegarão lá". Sim, pode ser que sim. Mas serão poucos, muito poucos. Nesse tipo de sistema - a democracia liberal ou a ditadura do capital - o jogo é entre os "cachorros grandes", não tenha ilusão.


Assim que ao fim e ao cabo, a lista da Odebrecht, que contempla políticos de quase todas as cores - lembrem-se das honrosas exceções - é uma boa oportunidade para que as pessoas saiam do âmbito da consciência ingênua e se deparem com a verdade nua. A de que os que fazem as leis, os que julgam, os que comandam, nada mais são do que mandaletes dos graúdos. E contra eles só tem um jeito: povo crítico, unido e em luta. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Dia da Terra Palestina






































30 de março, 18h, Auditório do CFH/UFSC

A questão envolvendo Israel e Palestina é um desses temas em que a ideologia se sobrepõe à verdade. Criado artificialmente em 1948, o estado de Israel usurpou terras de milhares de famílias que viviam naquele território, provocando um triste e doloroso êxodo. Empurradas à ponta de fuzis, as famílias tiveram de abandonar suas plantações, suas casas milenares, seus animais, enquanto em todo o mundo os Estados Unidos - mentor dessa criação - dizia que os judeus estavam voltando para casa, numa terra que não tinha povo. 

Não bastasse essa ocupação à força e à custa de tanta dor, o estado de Israel uma vez criado foi subtraindo terras do restante do território onde se refugiaram as gentes palestinas. Com massacres atrás de massacres, a parte que caberia à Israel foi alargando e hoje restam pequenas ilhas de território palestino, cercadas de muros. Prisioneiras em sua própria terra até hoje as famílias palestinas são obrigadas as mais absurdas humilhações nas travessias dos muros. Como os pedaços ficam espalhados, para um pai visitar um filho em outra região palestina, ele precisaria passar por vários portões, com revistas vexatórias, violências e escárnio. Essa é a realidade cotidiana do povo palestino.

Não bastasse isso, vez ou outra Israel define algum ataque e bombardeia as regiões palestinas. Gaza é um exemplo concreto da desumanidade e do terror. A pequena faixa de terra aglomera milhões de pessoas, como se fosse um campo de concentração gigante. Bombas, experiências químicas e toda sorte de violências recaem sobre essa gente. Colônias de sionistas são criadas a toda hora em terras palestinas, alargando ainda mais o território de Israel, sempre com a ajuda dos tanques. É quase um genocídio. 

Mas, apesar de todo o terror cotidiano, os palestinos resistem, armados de pedras e de coragem. Enfrentam os tanques, enfrentam a violência diária e denunciam. Com eles também estão em luta, por todo o mundo, milhares de pessoas que reconhecem o direito do povo palestino de viver livre na sua terra. Por isso, sistematicamente realizam debates, conversas e reflexões em todo o mundo.

O dia 30 de março é um dia importante para o povo palestino pois se celebra o Dia da Terra, lembrança do dia em que Israel anunciou o confisco de terras em 1976. Naquele 30 de março os palestinos lutaram e realizaram uma greve geral contra mais esse roubo. Houve repressão por parte de Israel e seis jovens palestinos acabaram mortos, além das centenas de pessoas feridas e presas. 

Para celebrar a luta do povo palestino, várias entidades se reuniram e decidiram promover uma rodada de conversa sobre o tema Palestina/Israel. O encontro acontece na UFSC, nesse dia 30 de março, a partir das 18h, no Auditório do CHF/UFSC. Haverá debates e o lançamento do livro de Yasser Jamil: Nosso verbo é lutar: somos todos palestinos. 

Participe. Venha conhecer mais sobre o tema.
Veja a programação.

domingo, 20 de março de 2016

O jornalismo vivo e em ação



Fotos: Rubens Lopes 

A noite de sexta-feira foi intensa na Casa da Outra, que é a sede do portal Desacato, um espaço de notícias que, no mais das vezes, não saem nos meios de comunicação comercial. Por isso, "a outra". Uma outra informação, que faz do jornalismo aquilo que Adelmo Genro Filho ensinou: forma de conhecimento.

O dia fora intenso, com as manifestações contra o golpe e toda a montanha russa informativa vinda de Brasília e de São Paulo. Mas, ainda assim, um pequeno grupo de jornalistas - e gente que trabalha com comunicação - se reuniu para discutir jornalismo. Isso, por isso só, já seria muito, visto que esse fazer está um pouco desacreditado. Hoje, jornalismo é sinônimo de propaganda. Não há análise, não há contextualização, não há impressão de repórter. Tudo que há é mentira e enganação. Não que eu defenda que o jornalismo deva ser imparcial. Isso é bobagem. Toda forma de narrar é parcial. Mas, o que se espera do jornalismo é que ele possa mostrar todos os lados possíveis de um fato, além de apresentar o contexto histórico no qual o fato está imerso.   

Mas, o encontro no Desacato não foi para chorar pitangas, nem para criticar essa gosma que se nos oferecem alguns colegas de profissão. O papo era outro. Como seguir fazendo jornalismo de verdade nessa selva informativa de redes sociais e meios dominados pela classe dominante. Lembramos que esse grupo, em especial, vem produzindo conhecimento com o jornalismo desde sempre. Particularmente mais organizado desde o lançamento do projeto Pobres e Nojentas, em 2006, que buscava através de uma revista de classe, mostrar a vida e ação produzida nas margens do sistema. Da Pobres e Nojentas, que esse ano completa dez anos de atuação , saíram companheiros e companheiras que foram construir outros espaços - na mesma linha - como foi o caso do Portal Desacato, nascido em 2008 e hoje conduzido por Rosângela Bion de Assis, Raul Fitipaldi, Tali Feld e Juan Luis Berterretche, entre outros. Logo depois, a partir do Desacato, vem o nascimento de uma Cooperativa de trabalhadores que passou também a viabilizar a vida dos que produziam a comunicação no portal.

Nesse mesmo tempo, o grupo da Pobres e do Desacato foi articulando parcerias com companheiros e companheiras que estavam fora do eixo da capital. E, a partir de cursos de formação em jornalismo comunitário e popular, foram se apertando os laços com gente do oeste e do meio-oeste do estado, juntando a Associação Paulo Freire de Educação e Cultura, a Rádio Tangará, o Jornal O Comunitário, Agência de Notícias Contestado, jornal O Taquaruçu, a Abraço e outros agentes dispersos em vários veículos do interior, além de estudantes e agentes de comunicação popular. Um trabalho bonito demais, que vem, lenta e inexoravelmente,  gerando frutos suculentos.

Hoje, o Desacato, por exemplo, já pode contar com correspondentes que escrevem a realidade dessas regiões, dando ao portal uma qualidade que não se encontra em nenhum outro veículo. Porque narra a realidade do estado de Santa Catarina a partir da comunidade das vítimas do sistema. A voz do povo encontrando espaço para se expressar. E nessa vereda que está sendo aberta com extrema qualidade assomam jornalistas como Claudia Weinman e Júlia Saggioratto, de uma nova geração que decidiu atuar no campo do jornalismo de verdade, esse apontado por Adelmo.

Por conta de toda essa história, o encontro de pessoas para falar de jornalismo não podia mesmo ficar no mimimi. O debate seguiu o rumo da análise dos tempos e na construção de propostas que permitam dar mais visibilidade ao jornalismo que está sendo feito fora dos meios comerciais. Ali vibrava a vontade de narrar a realidade com todas as cores que ela tem, e não apenas aquela que interessa a classe dominante. Jornalismo comprometido com os trabalhadores, os destituídos de direitos, os oprimidos e explorados.

O debate na Casa da Outra principia uma ação que procuraremos manter sistematicamente. Encontros críticos, formulação teórica e proposições práticas. Paulofreirianamente indo, como nos ensina o companheiro Jilson Carlos de Souza. O jornalismo pulsa e vive nas narrativas dos "velhos", como eu, e na dos "novos", como a Claudia Weinman, que retrata o oeste de Santa Catarina como há muito tempo não se via na imprensa. O jornalismo como forma de conhecimento, buscando formar, mais do que informar.

E seguimos, as Pobres e Nojentas, Desacato e todos os demais amigos da Rede Popular Catarinense de Comunicação, que vamos pavimentando pouco a pouco, na solidariedade comunicacional, na alegria e no compromisso com outro, caído.

O jornalismo vive e está aí!

quinta-feira, 17 de março de 2016

A fábrica de ideologia




A Globo mostrou ontem, mais uma vez, o que é ser uma fábrica de ideologia. Coloca como herói alguém que trabalha acima da lei, insufla o golpe, escancara sua posição. Nada de novo para nós que fazemos a crítica cotidiana. A mídia comercial é o braço armado do sistema. Há quem diga que não é bem assim, que não é tanto poder sobre as pessoas. Mas é. Negar isso é fechar os olhos para a realidade.

A onda fascistóide que varre o país desde há tempos só cresce, e muito desse crescimento vem da atuação da mídia. Não digo que as pessoas sejam tábulas rasas, que qualquer informação passada pela televisão se encrava e domina. Não. Isso seria estúpido e equivocado.

Mas, Theodor Adorno, um dos filósofos da escola de Frankfurt já deu a pista nos anos 50 sobre como essa fábrica de ideologia funciona e como acaba influindo na consciência coletiva. No seu estudo sobre a personalidade autoritária, Adorno mostra que existem na sociedade os fascistas em potencial. Essas pessoas seriam aquelas que já estariam abertas às tendências antidemocráticas da sociedade e, com a instigação sistemática, fatalmente se tornariam autoritárias e passíveis de explicitação do ódio.

Esse trabalho foi feito por Adorno para tentar explicar algumas tendências autoritárias na sociedade estadunidense logo após a segunda grande guerra, e ele baseava suas conclusões na experiência vivida pelo nazismo – pouco tempo atrás, que acabou levando ao fanatismo um país inteiro. Ele mostra que as tendências fascistas não estão ligadas ao desconhecimento, à ignorância ou a falta de informação. Se fosse assim não teríamos tantos intelectuais caminhando por essas veredas. A tendência fascista, para ele, é algo que está na consciência e, se bem trabalhada, pode aflorar até mesmo nas chamadas “pessoas de bem”. 

O fato é que a classe dominante usa os meios de comunicação para insuflar o ódio a tudo aquilo que apareça como um entrave ao seu domínio. Mentiras e preconceitos, repetidos e repetidos, provocam a insurgência do fascista em potencial, aquele que no íntimo do seu ser precisa de um líder, um patrão, um chefe, alguém autoritário e mandão para definir os caminhos. Ele mesmo não se sente seguro em definir seu próprio rumo. E é aí que a televisão – fábrica de ideologia – entra. Como o espaço mais propício para a fermentação do ódio e para a construção de uma sociedade autoritária.

Não é sem razão que os meios de comunicação comercial estejam sempre a massacrar os negros que vivem nas favelas, os pobres, os índios, os trabalhadores que se revoltam, as gentes que se rebelam, os de “abajo”. Todas essas parcelas da sociedade são demonizadas diuturnamente. Milhares de trabalhadores públicos em greve fazendo passeata em Brasília não entram no plantão da Globo, mas meia dúzia de reacionários gritando em frente ao Palácio da Alvorada são elevados ao patamar de “heróis da pátria”. E o que é pior, tudo isso acaba sendo potencializado nas redes sociais, que reproduzem os mesmos meios, as mesmas ideias, à exaustão. 

Na histeria dos fascistas em potencial já não cabem mais a lei, as regras definidas para viver em sociedade, nada. Só o que vale é fala e a indicação do líder. Com ele vão ao inferno e podem até matar a própria mãe. Dura realidade. Porque um líder que se vale do ódio pode voltar-se contra os seus próprios comandados a qualquer momento, basta que apresentem uma fagulha de pensamento crítico. Registros disso podemos encontrar aos milhares na história da humanidade. Na arte, um filme que mostra bem essa construção da sociedade autoritária é “O senhor das moscas”. Vale a pena ver e pensar um pouco sobre o que vivemos agora mesmo no Brasil e na América Latina. 

Ontem assistimos a mais um capítulo das investidas da classe dominante para abocanhar o poder de governar de direito. Porque de fato nunca esteve fora das decisões. Apenas suportou a aliança com o Partido dos Trabalhadores porque havia uma conjuntura continental que favorecia a um avanço da ideia de socialdemocracia, de avanço de políticas públicas, de políticas compensatórias. Mas, agora que por toda a América Latina a mão dura do capital vem recuperando seu poder, já não é mais preciso esconder-se na pele de cordeiro. O lobo volta arreganhar os dentes sem vergonha de ser quem é. E, nesse processo de reagendar novas formas de ser governo, nada melhor que espalhar o germe do autoritarismo que está latente em boa parte das gentes. Para isso tem a Globo, a Record, a Band, a Folha e toda a sorte de seguidores. 

A mão dura, quando é para ser usada em favor dos pobres, não serve. Aí, quem a usa é acusado de louco, ditador e outros quetais, como foram alcunhados Fidel, Che, Chávez. Hoje, vimos nas ruas, a elite e a classe média – em sua maioria – babando, pedindo o regime militar. A favor de quem? Dos pobres é que não. Querem o autoritarismo para garantir privilégios. Mal sabem que quando se acorda o monstro, ele pode pisar em qualquer um.




segunda-feira, 14 de março de 2016

As manifestações e o Brasil






















O dia 13 mobilizou mais de dois milhões de pessoas que foram às ruas protestar contra o PT, contra Dilma, contra o Lula e contra a corrupção. A maior concentração obviamente foi em São Paulo, centro financeiro e político do país. E nas ruas estavam gentes de todo tipo, ricos, classe média e pobres. A organização das atividades foi da direita brasileira, claramente identificada, mas não faltaram pessoas que sempre estiveram à esquerda e que hoje querem ver a derrubada do PT do poder, justamente porque o PT deixou de ser esquerda há muito tempo. Foi, portanto, uma gama bem grande de descontentamento que se expressou nas caminhadas realizadas em quase todo o território nacional.

Alguns aspectos precisam ser ressaltados para compreender o fenômeno. Nas grandes cidades houve muita facilidade para chegar ao protesto, com a logística de grandes eventos que não existe nos domingos comuns. Transporte extra – fala-se em gratuidade no metrô de São Paulo - , proteção policial e reengenharia de trânsito. Tudo preparado para o evento. Coisa que não acontece quando a manifestação é de trabalhadores em luta, por exemplo.

Também é importante ressaltar a fabricação do consenso feita pelos grandes meios de comunicação, que insuflaram as gentes durante a semana toda, oferecendo informações, muitas delas completamente mentirosas ou sem provas confirmadas. Criou-se o caldo cultural e midiático para que as pessoas fossem às ruas. Não dá para negar essa força. Não que as gentes sejam incapazes de pensar por si mesmas, mas uma informação repetida à exaustão tem seu poder.

Assim, insufladas, expressaram-se as ideias mais conservadoras possíveis, como gritavam os cartazes exigindo a intervenção militar, contra a democracia, ou ainda os mais bizarros, escritos em inglês, pedindo a ajuda de Donald Trump (o candidato conservador à presidência dos Estados Unidos). Aliado a isso encontramos os tipos que se prestam a servidão voluntária, sempre colados naqueles que eles acreditam ter o controle das coisas. Muitos eram “lulistas” durante o primeiro mandato de Luís Inácio, quando a economia ia de vento em popa e, agora, na crise, mudam de lado. Mas, também foram aos protestos os mais pobres, que realmente se preocupam com a corrupção, que sofrem cotidianamente os efeitos dela, na falta de saúde, de escola ou até mesmo de comida. Os de boa fé. Possivelmente os que expulsaram Aécio e Alckmin, quando estes quiseram se aproveitar da situação.

Nas pequenas cidades também acorreram gentes às ruas no grito contra a corrupção. Afinal, quem em sã consciência seria a favor? Municiadas pela mídia as famílias marcharam também contra o PT, Lula e Dilma, hoje identificados como o principal foco de corrupção do país. Jamais houve uma campanha assim, feita pela mídia, contra a corrupção, nem mesmo durante o governo de FHC quando os trabalhadores denunciavam os horrores da privatização, que entregou boa parte do patrimônio nacional em transações altamente suspeitas. A Vale do Rio Doce é um exemplo emblemático. Tradicionalmente conservadoras, as pessoas que foram se manifestar contra a corrupção são as mesmas que condenam os trabalhadores que lutam, chamando de “baderna” suas passeatas, greves, lutas ou mobilizações. Também são criaturas de boa fé, que acreditam ser possível resolver os conflitos entre o capital e o trabalho com conversa e negociação.

De qualquer forma, grandes ou não, as mobilizações do dia 13 apontam que há uma parcela da população que está bastante interessada em outro tipo de governo. A direita explícita quer retomar seu poder de direito, já que de fato segue mandando, uma vez que os governos petistas nunca voltaram o leme para a esquerda. E, para isso, dentro da democracia formal, burguesa, faz o seu papel, usando as suas armas para recuperar os altos postos de mando. E, as armas da direita não são de subestimar: a polícia, o judiciário e a mídia. Poderosas armas.

Do outro lado estão o PT, Dilma e Lula, acossados pela escolha que eles mesmo fizeram, que foi a de tentar servir a dois senhores. É fato que nesses 13 anos de governo petista, milhões de pessoas saíram da miséria e outras milhares conseguiram se formar no ensino superior, gente que jamais  chegaria à universidade. Pode-se questionar que o ensino é ruim, que as escolas privadas foram beneficiadas e que a bolsa família não emancipa. Mas, ainda assim, essas pequenas brechas de esperança de vida digna só existiram nesses 13 anos. Antes não.

É fato também que essas políticas são meramente compensatórias, não chegam à estrutura, não avançam para o socialismo, nem nada. Nunca houve por parte do governo petista a proposta de organizar as gentes para a construção de um novo modo de estar na vida. Pelo contrário, domesticaram-se os sindicatos e movimentos sociais, perdeu-se muito da força dos trabalhadores e houve uma acomodação diante de uma tentativa capenga de social-democratizar o Brasil. Afinal, não houve qualquer avanço no ataque aos problemas estruturais: nem reforma agrária, nem investimento na saúde, nem mudança na política da dívida pública, muito menos na política econômica. No frigir dos ovos, quem mais ganhou foram os ricos. Palavras do próprio Lula.

Agora a serpente que foi acolhida dentro do esquema governamental está a picar o calcanhar. Tem hábitos alimentares que jamais mudam. Por isso foi equivocada a aposta de conciliação de classe. A história está aí, cheia de exemplos para comprovar que a classe dominante é voraz, insaciável. É da natureza do capital exigir até o osso. O PT, Lula e Dilma optaram por dar mais comida à elite dominante. Por isso fatalmente não contarão com uma boa parte dos trabalhadores agora nessa hora noa. Muitos até sairão às ruas para defender o governo, contra o impedimento de Dilma, em apoio a Lula. Mas, outros ficarão em casa, apontando o dedo para as alianças feitas pelo governo petista, sentindo engulhos.

Essa é uma hora dramática para muitos trabalhadores. Sabem que a forma como as coisas estão sendo encaminhadas não são corretas, mas ao mesmo tempo não conseguem defender um governo que optou pelos graúdos. Alguns apostam no “que se vão todos”, esperando que a crise instalada faça estourar algo novo. Mas, exemplos da história mostram que se não houver uma organização real e prévia, isso tem pouca chance de suceder.


Enquanto isso, nas câmaras acarpetadas e nos palácios está se movendo o tabuleiro. Ali é onde o jogo parece que vai se decidir. Como no triste março de 64, quando as famílias saíram armadas com “deus” contra os comunistas no momento em que tudo já estava decidido nos centros de poder.