domingo, 27 de março de 2016

O que nos diz a lista da Odebrecht


Vereadores votam Plano Diretor em Florianópolis

A guerra de torcidas entre os partidários de Moro e de Lula tem escondido algo muito mais precioso do que os nomes dos que receberam propina da grande empreiteira global, Odebrecht. É nada mais nada menos do que a prova concreta daquilo que podemos chamar de "ditadura do capital". Um pouco o que o candidato estadunidense Bernie Sanders vem tentando dizer na sua inusitada campanha bem o centro nervoso do sistema.

É também a comprovação de algo que até então estava apenas no discurso dos "comunistas" (para o senso comum qualquer um que critique o sistema), como mais uma de suas loucuras.  Ou seja, a dita democracia burguesa não é democracia. Ela é o espaço no qual reina a bem camuflada ditadura econômica. Sim, eu disse ditadura. Esse "fantasma" que, na boca dos "democratas" só existe nos espaços de seus inimigos. Pois essa bem azeitada ditadura do capital usa os deputados, senadores, prefeitos, governadores, vereadores, em sua maioria quase absoluta, para representar os interesses de grandes grupos econômicos e não os da população que o elege.

A tão incensada democracia liberal - que o presidente Obama fez questão de dizer em Cuba que é "melhor do que a ditadura de um home m só" - é um grande engodo. Nela, o império é o do dinheiro. Quem tem a "plata" investe em pessoas que vão defender seus interesses como se estivessem defendendo os destinos de toda a nação. Por isso, uma boa estudada na conformação das bancadas legislativas das cidades, dos estados e dos países, e vamos ver que o que ali está em jogo são as necessidades do grande capital, seja ele produtivo ou financeiro. Muito pouco está em pauta o desejo da maioria da população. Não é sem razão que numa cidade como Florianópolis, por exemplo, enquanto milhares de pessoas se manifestam em frente à Câmara de Vereadores contra a proposta de um Plano Diretor que destrói a cidade , a maioria dos legisladores vota às pressas e sem discussão um plano que só será bom para as grande empreiteiras, os bancos e os empresários do turismo. Essa é a lógica.

A lista da Odebrecht e suas centenas de nomes não deve ser diferente de outras tantas listas que poderíamos descobrir em outras empreiteiras, ou bancos, ou federações de empresários. Essa gente é quem tem o controle do país, e paga generosamente por isso. Assim, bancadas como a da bala, do boi ou da bíblia, no Congresso Nacional, para além de seus interesses particularistas  - que também existem - escondem também a manipulação da política para favorecer a manutenção do sistema capitalista, concretizado pelas grandes empresas e bancos. Tudo está ligado. Nesse universo perverso salvam-se alguns legisladores que, por suas lutas e por suas ligações viscerais com as comunidades onde vivem, apenas se configuram em exceções à regra.

A lista da Odebrecht é só a ponta de um escândalo maior, que é o da farsa da democracia. Ela não existe. É apenas uma palavra, que os governantes usam como arma contra os que decidem organizar a vida de outra forma, e que sejam seus inimigos. Porque pensem bem: que diferença há entre a organização da vida de Israel para o Irã. Ambos os países são teocráticos, governam em nome de uma verdade revelada desde cima, um deus. Mas, Israel é amiga dos EUA, então pode.

E Cuba? Como pode um arrogante como Obama ir arrotar na cara dos cubanos que a democracia dele é melhor? Ou que Cuba não tem democracia? Os legisladores cubanos são eleitos em eleições onde a propaganda eleitoral não existe. O candidato tem de ser alguém que atua de verdade na comunidade e, por isso, é conhecido pelas gentes. Ali a ditadura é outra. É a da maioria dos trabalhadores, dos que vivem a vida cotidiana e decidem nela.

Já na democracia liberal, do Obama e a nossa, a ditadura é a do capital. São ditaduras diferentes, com objetivos diferentes. Uma visa o bem de todos e outra visa o enriquecimento de alguns. Nós estamos aí no meio desse rolo e cabe a nós decidirmos em qual delas é melhor viver.

Há os que ingenuamente acreditam que na ditadura do capital há chances para todos, e que se trabalharem muito, "chegarão lá". Sim, pode ser que sim. Mas serão poucos, muito poucos. Nesse tipo de sistema - a democracia liberal ou a ditadura do capital - o jogo é entre os "cachorros grandes", não tenha ilusão.


Assim que ao fim e ao cabo, a lista da Odebrecht, que contempla políticos de quase todas as cores - lembrem-se das honrosas exceções - é uma boa oportunidade para que as pessoas saiam do âmbito da consciência ingênua e se deparem com a verdade nua. A de que os que fazem as leis, os que julgam, os que comandam, nada mais são do que mandaletes dos graúdos. E contra eles só tem um jeito: povo crítico, unido e em luta. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Dia da Terra Palestina






































30 de março, 18h, Auditório do CFH/UFSC

A questão envolvendo Israel e Palestina é um desses temas em que a ideologia se sobrepõe à verdade. Criado artificialmente em 1948, o estado de Israel usurpou terras de milhares de famílias que viviam naquele território, provocando um triste e doloroso êxodo. Empurradas à ponta de fuzis, as famílias tiveram de abandonar suas plantações, suas casas milenares, seus animais, enquanto em todo o mundo os Estados Unidos - mentor dessa criação - dizia que os judeus estavam voltando para casa, numa terra que não tinha povo. 

Não bastasse essa ocupação à força e à custa de tanta dor, o estado de Israel uma vez criado foi subtraindo terras do restante do território onde se refugiaram as gentes palestinas. Com massacres atrás de massacres, a parte que caberia à Israel foi alargando e hoje restam pequenas ilhas de território palestino, cercadas de muros. Prisioneiras em sua própria terra até hoje as famílias palestinas são obrigadas as mais absurdas humilhações nas travessias dos muros. Como os pedaços ficam espalhados, para um pai visitar um filho em outra região palestina, ele precisaria passar por vários portões, com revistas vexatórias, violências e escárnio. Essa é a realidade cotidiana do povo palestino.

Não bastasse isso, vez ou outra Israel define algum ataque e bombardeia as regiões palestinas. Gaza é um exemplo concreto da desumanidade e do terror. A pequena faixa de terra aglomera milhões de pessoas, como se fosse um campo de concentração gigante. Bombas, experiências químicas e toda sorte de violências recaem sobre essa gente. Colônias de sionistas são criadas a toda hora em terras palestinas, alargando ainda mais o território de Israel, sempre com a ajuda dos tanques. É quase um genocídio. 

Mas, apesar de todo o terror cotidiano, os palestinos resistem, armados de pedras e de coragem. Enfrentam os tanques, enfrentam a violência diária e denunciam. Com eles também estão em luta, por todo o mundo, milhares de pessoas que reconhecem o direito do povo palestino de viver livre na sua terra. Por isso, sistematicamente realizam debates, conversas e reflexões em todo o mundo.

O dia 30 de março é um dia importante para o povo palestino pois se celebra o Dia da Terra, lembrança do dia em que Israel anunciou o confisco de terras em 1976. Naquele 30 de março os palestinos lutaram e realizaram uma greve geral contra mais esse roubo. Houve repressão por parte de Israel e seis jovens palestinos acabaram mortos, além das centenas de pessoas feridas e presas. 

Para celebrar a luta do povo palestino, várias entidades se reuniram e decidiram promover uma rodada de conversa sobre o tema Palestina/Israel. O encontro acontece na UFSC, nesse dia 30 de março, a partir das 18h, no Auditório do CHF/UFSC. Haverá debates e o lançamento do livro de Yasser Jamil: Nosso verbo é lutar: somos todos palestinos. 

Participe. Venha conhecer mais sobre o tema.
Veja a programação.

domingo, 20 de março de 2016

O jornalismo vivo e em ação



Fotos: Rubens Lopes 

A noite de sexta-feira foi intensa na Casa da Outra, que é a sede do portal Desacato, um espaço de notícias que, no mais das vezes, não saem nos meios de comunicação comercial. Por isso, "a outra". Uma outra informação, que faz do jornalismo aquilo que Adelmo Genro Filho ensinou: forma de conhecimento.

O dia fora intenso, com as manifestações contra o golpe e toda a montanha russa informativa vinda de Brasília e de São Paulo. Mas, ainda assim, um pequeno grupo de jornalistas - e gente que trabalha com comunicação - se reuniu para discutir jornalismo. Isso, por isso só, já seria muito, visto que esse fazer está um pouco desacreditado. Hoje, jornalismo é sinônimo de propaganda. Não há análise, não há contextualização, não há impressão de repórter. Tudo que há é mentira e enganação. Não que eu defenda que o jornalismo deva ser imparcial. Isso é bobagem. Toda forma de narrar é parcial. Mas, o que se espera do jornalismo é que ele possa mostrar todos os lados possíveis de um fato, além de apresentar o contexto histórico no qual o fato está imerso.   

Mas, o encontro no Desacato não foi para chorar pitangas, nem para criticar essa gosma que se nos oferecem alguns colegas de profissão. O papo era outro. Como seguir fazendo jornalismo de verdade nessa selva informativa de redes sociais e meios dominados pela classe dominante. Lembramos que esse grupo, em especial, vem produzindo conhecimento com o jornalismo desde sempre. Particularmente mais organizado desde o lançamento do projeto Pobres e Nojentas, em 2006, que buscava através de uma revista de classe, mostrar a vida e ação produzida nas margens do sistema. Da Pobres e Nojentas, que esse ano completa dez anos de atuação , saíram companheiros e companheiras que foram construir outros espaços - na mesma linha - como foi o caso do Portal Desacato, nascido em 2008 e hoje conduzido por Rosângela Bion de Assis, Raul Fitipaldi, Tali Feld e Juan Luis Berterretche, entre outros. Logo depois, a partir do Desacato, vem o nascimento de uma Cooperativa de trabalhadores que passou também a viabilizar a vida dos que produziam a comunicação no portal.

Nesse mesmo tempo, o grupo da Pobres e do Desacato foi articulando parcerias com companheiros e companheiras que estavam fora do eixo da capital. E, a partir de cursos de formação em jornalismo comunitário e popular, foram se apertando os laços com gente do oeste e do meio-oeste do estado, juntando a Associação Paulo Freire de Educação e Cultura, a Rádio Tangará, o Jornal O Comunitário, Agência de Notícias Contestado, jornal O Taquaruçu, a Abraço e outros agentes dispersos em vários veículos do interior, além de estudantes e agentes de comunicação popular. Um trabalho bonito demais, que vem, lenta e inexoravelmente,  gerando frutos suculentos.

Hoje, o Desacato, por exemplo, já pode contar com correspondentes que escrevem a realidade dessas regiões, dando ao portal uma qualidade que não se encontra em nenhum outro veículo. Porque narra a realidade do estado de Santa Catarina a partir da comunidade das vítimas do sistema. A voz do povo encontrando espaço para se expressar. E nessa vereda que está sendo aberta com extrema qualidade assomam jornalistas como Claudia Weinman e Júlia Saggioratto, de uma nova geração que decidiu atuar no campo do jornalismo de verdade, esse apontado por Adelmo.

Por conta de toda essa história, o encontro de pessoas para falar de jornalismo não podia mesmo ficar no mimimi. O debate seguiu o rumo da análise dos tempos e na construção de propostas que permitam dar mais visibilidade ao jornalismo que está sendo feito fora dos meios comerciais. Ali vibrava a vontade de narrar a realidade com todas as cores que ela tem, e não apenas aquela que interessa a classe dominante. Jornalismo comprometido com os trabalhadores, os destituídos de direitos, os oprimidos e explorados.

O debate na Casa da Outra principia uma ação que procuraremos manter sistematicamente. Encontros críticos, formulação teórica e proposições práticas. Paulofreirianamente indo, como nos ensina o companheiro Jilson Carlos de Souza. O jornalismo pulsa e vive nas narrativas dos "velhos", como eu, e na dos "novos", como a Claudia Weinman, que retrata o oeste de Santa Catarina como há muito tempo não se via na imprensa. O jornalismo como forma de conhecimento, buscando formar, mais do que informar.

E seguimos, as Pobres e Nojentas, Desacato e todos os demais amigos da Rede Popular Catarinense de Comunicação, que vamos pavimentando pouco a pouco, na solidariedade comunicacional, na alegria e no compromisso com outro, caído.

O jornalismo vive e está aí!

quinta-feira, 17 de março de 2016

A fábrica de ideologia




A Globo mostrou ontem, mais uma vez, o que é ser uma fábrica de ideologia. Coloca como herói alguém que trabalha acima da lei, insufla o golpe, escancara sua posição. Nada de novo para nós que fazemos a crítica cotidiana. A mídia comercial é o braço armado do sistema. Há quem diga que não é bem assim, que não é tanto poder sobre as pessoas. Mas é. Negar isso é fechar os olhos para a realidade.

A onda fascistóide que varre o país desde há tempos só cresce, e muito desse crescimento vem da atuação da mídia. Não digo que as pessoas sejam tábulas rasas, que qualquer informação passada pela televisão se encrava e domina. Não. Isso seria estúpido e equivocado.

Mas, Theodor Adorno, um dos filósofos da escola de Frankfurt já deu a pista nos anos 50 sobre como essa fábrica de ideologia funciona e como acaba influindo na consciência coletiva. No seu estudo sobre a personalidade autoritária, Adorno mostra que existem na sociedade os fascistas em potencial. Essas pessoas seriam aquelas que já estariam abertas às tendências antidemocráticas da sociedade e, com a instigação sistemática, fatalmente se tornariam autoritárias e passíveis de explicitação do ódio.

Esse trabalho foi feito por Adorno para tentar explicar algumas tendências autoritárias na sociedade estadunidense logo após a segunda grande guerra, e ele baseava suas conclusões na experiência vivida pelo nazismo – pouco tempo atrás, que acabou levando ao fanatismo um país inteiro. Ele mostra que as tendências fascistas não estão ligadas ao desconhecimento, à ignorância ou a falta de informação. Se fosse assim não teríamos tantos intelectuais caminhando por essas veredas. A tendência fascista, para ele, é algo que está na consciência e, se bem trabalhada, pode aflorar até mesmo nas chamadas “pessoas de bem”. 

O fato é que a classe dominante usa os meios de comunicação para insuflar o ódio a tudo aquilo que apareça como um entrave ao seu domínio. Mentiras e preconceitos, repetidos e repetidos, provocam a insurgência do fascista em potencial, aquele que no íntimo do seu ser precisa de um líder, um patrão, um chefe, alguém autoritário e mandão para definir os caminhos. Ele mesmo não se sente seguro em definir seu próprio rumo. E é aí que a televisão – fábrica de ideologia – entra. Como o espaço mais propício para a fermentação do ódio e para a construção de uma sociedade autoritária.

Não é sem razão que os meios de comunicação comercial estejam sempre a massacrar os negros que vivem nas favelas, os pobres, os índios, os trabalhadores que se revoltam, as gentes que se rebelam, os de “abajo”. Todas essas parcelas da sociedade são demonizadas diuturnamente. Milhares de trabalhadores públicos em greve fazendo passeata em Brasília não entram no plantão da Globo, mas meia dúzia de reacionários gritando em frente ao Palácio da Alvorada são elevados ao patamar de “heróis da pátria”. E o que é pior, tudo isso acaba sendo potencializado nas redes sociais, que reproduzem os mesmos meios, as mesmas ideias, à exaustão. 

Na histeria dos fascistas em potencial já não cabem mais a lei, as regras definidas para viver em sociedade, nada. Só o que vale é fala e a indicação do líder. Com ele vão ao inferno e podem até matar a própria mãe. Dura realidade. Porque um líder que se vale do ódio pode voltar-se contra os seus próprios comandados a qualquer momento, basta que apresentem uma fagulha de pensamento crítico. Registros disso podemos encontrar aos milhares na história da humanidade. Na arte, um filme que mostra bem essa construção da sociedade autoritária é “O senhor das moscas”. Vale a pena ver e pensar um pouco sobre o que vivemos agora mesmo no Brasil e na América Latina. 

Ontem assistimos a mais um capítulo das investidas da classe dominante para abocanhar o poder de governar de direito. Porque de fato nunca esteve fora das decisões. Apenas suportou a aliança com o Partido dos Trabalhadores porque havia uma conjuntura continental que favorecia a um avanço da ideia de socialdemocracia, de avanço de políticas públicas, de políticas compensatórias. Mas, agora que por toda a América Latina a mão dura do capital vem recuperando seu poder, já não é mais preciso esconder-se na pele de cordeiro. O lobo volta arreganhar os dentes sem vergonha de ser quem é. E, nesse processo de reagendar novas formas de ser governo, nada melhor que espalhar o germe do autoritarismo que está latente em boa parte das gentes. Para isso tem a Globo, a Record, a Band, a Folha e toda a sorte de seguidores. 

A mão dura, quando é para ser usada em favor dos pobres, não serve. Aí, quem a usa é acusado de louco, ditador e outros quetais, como foram alcunhados Fidel, Che, Chávez. Hoje, vimos nas ruas, a elite e a classe média – em sua maioria – babando, pedindo o regime militar. A favor de quem? Dos pobres é que não. Querem o autoritarismo para garantir privilégios. Mal sabem que quando se acorda o monstro, ele pode pisar em qualquer um.




segunda-feira, 14 de março de 2016

As manifestações e o Brasil






















O dia 13 mobilizou mais de dois milhões de pessoas que foram às ruas protestar contra o PT, contra Dilma, contra o Lula e contra a corrupção. A maior concentração obviamente foi em São Paulo, centro financeiro e político do país. E nas ruas estavam gentes de todo tipo, ricos, classe média e pobres. A organização das atividades foi da direita brasileira, claramente identificada, mas não faltaram pessoas que sempre estiveram à esquerda e que hoje querem ver a derrubada do PT do poder, justamente porque o PT deixou de ser esquerda há muito tempo. Foi, portanto, uma gama bem grande de descontentamento que se expressou nas caminhadas realizadas em quase todo o território nacional.

Alguns aspectos precisam ser ressaltados para compreender o fenômeno. Nas grandes cidades houve muita facilidade para chegar ao protesto, com a logística de grandes eventos que não existe nos domingos comuns. Transporte extra – fala-se em gratuidade no metrô de São Paulo - , proteção policial e reengenharia de trânsito. Tudo preparado para o evento. Coisa que não acontece quando a manifestação é de trabalhadores em luta, por exemplo.

Também é importante ressaltar a fabricação do consenso feita pelos grandes meios de comunicação, que insuflaram as gentes durante a semana toda, oferecendo informações, muitas delas completamente mentirosas ou sem provas confirmadas. Criou-se o caldo cultural e midiático para que as pessoas fossem às ruas. Não dá para negar essa força. Não que as gentes sejam incapazes de pensar por si mesmas, mas uma informação repetida à exaustão tem seu poder.

Assim, insufladas, expressaram-se as ideias mais conservadoras possíveis, como gritavam os cartazes exigindo a intervenção militar, contra a democracia, ou ainda os mais bizarros, escritos em inglês, pedindo a ajuda de Donald Trump (o candidato conservador à presidência dos Estados Unidos). Aliado a isso encontramos os tipos que se prestam a servidão voluntária, sempre colados naqueles que eles acreditam ter o controle das coisas. Muitos eram “lulistas” durante o primeiro mandato de Luís Inácio, quando a economia ia de vento em popa e, agora, na crise, mudam de lado. Mas, também foram aos protestos os mais pobres, que realmente se preocupam com a corrupção, que sofrem cotidianamente os efeitos dela, na falta de saúde, de escola ou até mesmo de comida. Os de boa fé. Possivelmente os que expulsaram Aécio e Alckmin, quando estes quiseram se aproveitar da situação.

Nas pequenas cidades também acorreram gentes às ruas no grito contra a corrupção. Afinal, quem em sã consciência seria a favor? Municiadas pela mídia as famílias marcharam também contra o PT, Lula e Dilma, hoje identificados como o principal foco de corrupção do país. Jamais houve uma campanha assim, feita pela mídia, contra a corrupção, nem mesmo durante o governo de FHC quando os trabalhadores denunciavam os horrores da privatização, que entregou boa parte do patrimônio nacional em transações altamente suspeitas. A Vale do Rio Doce é um exemplo emblemático. Tradicionalmente conservadoras, as pessoas que foram se manifestar contra a corrupção são as mesmas que condenam os trabalhadores que lutam, chamando de “baderna” suas passeatas, greves, lutas ou mobilizações. Também são criaturas de boa fé, que acreditam ser possível resolver os conflitos entre o capital e o trabalho com conversa e negociação.

De qualquer forma, grandes ou não, as mobilizações do dia 13 apontam que há uma parcela da população que está bastante interessada em outro tipo de governo. A direita explícita quer retomar seu poder de direito, já que de fato segue mandando, uma vez que os governos petistas nunca voltaram o leme para a esquerda. E, para isso, dentro da democracia formal, burguesa, faz o seu papel, usando as suas armas para recuperar os altos postos de mando. E, as armas da direita não são de subestimar: a polícia, o judiciário e a mídia. Poderosas armas.

Do outro lado estão o PT, Dilma e Lula, acossados pela escolha que eles mesmo fizeram, que foi a de tentar servir a dois senhores. É fato que nesses 13 anos de governo petista, milhões de pessoas saíram da miséria e outras milhares conseguiram se formar no ensino superior, gente que jamais  chegaria à universidade. Pode-se questionar que o ensino é ruim, que as escolas privadas foram beneficiadas e que a bolsa família não emancipa. Mas, ainda assim, essas pequenas brechas de esperança de vida digna só existiram nesses 13 anos. Antes não.

É fato também que essas políticas são meramente compensatórias, não chegam à estrutura, não avançam para o socialismo, nem nada. Nunca houve por parte do governo petista a proposta de organizar as gentes para a construção de um novo modo de estar na vida. Pelo contrário, domesticaram-se os sindicatos e movimentos sociais, perdeu-se muito da força dos trabalhadores e houve uma acomodação diante de uma tentativa capenga de social-democratizar o Brasil. Afinal, não houve qualquer avanço no ataque aos problemas estruturais: nem reforma agrária, nem investimento na saúde, nem mudança na política da dívida pública, muito menos na política econômica. No frigir dos ovos, quem mais ganhou foram os ricos. Palavras do próprio Lula.

Agora a serpente que foi acolhida dentro do esquema governamental está a picar o calcanhar. Tem hábitos alimentares que jamais mudam. Por isso foi equivocada a aposta de conciliação de classe. A história está aí, cheia de exemplos para comprovar que a classe dominante é voraz, insaciável. É da natureza do capital exigir até o osso. O PT, Lula e Dilma optaram por dar mais comida à elite dominante. Por isso fatalmente não contarão com uma boa parte dos trabalhadores agora nessa hora noa. Muitos até sairão às ruas para defender o governo, contra o impedimento de Dilma, em apoio a Lula. Mas, outros ficarão em casa, apontando o dedo para as alianças feitas pelo governo petista, sentindo engulhos.

Essa é uma hora dramática para muitos trabalhadores. Sabem que a forma como as coisas estão sendo encaminhadas não são corretas, mas ao mesmo tempo não conseguem defender um governo que optou pelos graúdos. Alguns apostam no “que se vão todos”, esperando que a crise instalada faça estourar algo novo. Mas, exemplos da história mostram que se não houver uma organização real e prévia, isso tem pouca chance de suceder.


Enquanto isso, nas câmaras acarpetadas e nos palácios está se movendo o tabuleiro. Ali é onde o jogo parece que vai se decidir. Como no triste março de 64, quando as famílias saíram armadas com “deus” contra os comunistas no momento em que tudo já estava decidido nos centros de poder. 


terça-feira, 8 de março de 2016

Trabalhadores da prefeitura seguem em greve


















Os trabalhadores da prefeitura municipal iniciaram ainda em janeiro sua campanha salarial para 2016. Após algumas reuniões na tentativa de encontrar caminhos viram todas as portas da negociação fechadas pelo prefeito César Souza Jr. Discutiram e apontaram estado de greve. Ainda assim, nada de negociação, então, não tiveram outra alternativa que não fosse parar as atividades. A greve foi deflagrada no dia 03 de março. 

Muitos acordos da greve passada - um movimento histórico para a cidade - ainda não foram cumpridos e novas demandas se apresentam. Mesmo assim, o prefeito prefere seguir surdo aos pedidos de negociação. E mais, incapaz de dar respostas às demandas, prefere o caminho vil de criminalização do movimento, avisando que já entrou na justiça para tornar ilegal a greve. Nessa segunda-feira uma grande assembleia foi realizada e os trabalhadores decidiram continuar paralisados, exigindo uma mesa de conversa.

Em passeata foram até o prédio das secretarias no qual foram chamados pelo secretário de administração. Mas, a conversa foi frustrada com a proposta de só conversar se a greve acabar. Os trabalhadores insistem em negociar, mas não estão dispostos a aceitar cortes nas verbas para o serviço público nem para os salários. Entendem que a prefeitura arrecada muito no verão, com o turismo e ainda recebeu mais uma bolada com o aumento escorchante do IPTU. "Para onde vai o dinheiro?", perguntam, e querem que haja mais investimento nos serviços de atendimento á população.

A greve continua. Hoje, os trabalhadores fazem ações nos bairros da cidade, buscando conversar com a população, explicando os motivos da paralisação. Mobilizando milhares de pessoas, o Sindicato dos Municipários - Sintrasem - tem mostrado um vigor incomum dentro do sindicalismo atual. Guerreiros incansáveis seus diretores são referência para a categoria, que confia e constrói junto a luta por direitos. 

Bonito de ver a mobilização dos trabalhadores públicos.  Bonito de se ver o trabalho classista do Sintrasem. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Jornalista gaúcho anuncia: RBS entrega Santa Catarina



O domingo já prenunciava e a segunda-feira apontou, através do blog de um jornalista gaúcho, Felipe Vieira: a venda das ações da RBS em Santa Catarina já teria sido efetuada e a família Sirotski não controlaria mais o grupo no estado. O comprador majoritário seria o grupo liderado por um empresário do ramo dos medicamentos (?) Carlos Sanchez, 52 anos, e que tem como sócio o milionário gaúcho, Lírio Parisotto que é hoje também o maior acionista da Celesc. Há informações também de que o Boni (Globo) também teria um bom número de ações. O mesmo jornalista informa que a operação de venda teria passado de um bilhão. Segundo ele o anúncio será feito hoje , dia 7.

A troca das cadeiras no poder do oligopólio midiático em Santa Catarina – se confirmada pelo grupo RBS hoje - possivelmente não mudará nada no estrutural. O grupo que passa a dominar seguirá reproduzindo a propaganda do sistema, cuidando dos interesses da classe dominante, pois esse é sentido da existência dos meios de comunicação no mundo capitalista. De resto, o grupo gaúcho seguirá tocando a comunicação no Rio Grande e ninguém por lá ficará mais pobre. Da mesma forma os novos donos certamente encherão os bolsos servindo aos mesmos velhos interesses, agregando um ou outro mais. Como o novo dono produz remédios, as farmacêuticas estão prosas.

Os problemas deverão ficar na ponta da rede e quem sofrerá de maneira mais intensa as consequências da troca de comando serão os trabalhadores. Nova gestão sempre vem acompanhada de soluções mirabolantes para enxugamento das despesas e maximização dos lucros. A RBS está acossada pelas denúncias da Operação Zelotes, a qual investiga sua participação em esquema de sumiço de tributos, desfalcando os cofres públicos em milhões de reais. A acusação é de que a empresa pagou 15 milhões em suborno para evitar marchar com 150 milhões em dívidas tributárias.  Isso pode ter detonado a decisão de entregar os anéis (Santa Catarina) para não perder os dedos, que é o poder midiático no Rio Grande do Sul.

Os novos donos não são gente oriunda da comunicação, logo, haverá outra razão administrativa, meramente comercial. A RBS já era assim, mas mantinha certa mística, por conta de seu fundador, Maurício, que era um homem de rádio. Agora, sem qualquer vínculo com compromissos comunicacionais, a nova RBS que emergirá será mais pragmática no mundo dos negócios. Logo, nenhuma mudança real se fará.

Ainda assim, no meio desse turbilhão, o jornalismo poderá ser o setor mais aviltado. Não que já não fosse, mas pode piorar. No espaço da empresa gaúcha, o jornalismo estava vivendo dias amargos, com os trabalhadores sofrendo a mais dura exploração, baseada na multifunção. A mesma pessoa dando conta de três ou mais funções, num processo violento de cobranças, levando muita gente ao adoecimento. E tudo isso com um piso salarial de pouco mais de dois mil reais. Tudo isso refletia num jornalismo cada dia mais fraco, insosso, sem qualquer viés crítico, totalmente amarrado aos interesses patronais.

Imagino a angústia que deve estar acometendo todo o grupo de trabalhadores que se manteve completamente alheio às negociações, sem saber quais foram as questões acordadas e como será sua vida de agora em diante. Viveram como os viviam os servos no tempo dos feudos, mudando de “senhor” sem que fossem levados em conta. Logo, esse é um momento crucial, no qual o Sindicato dos Jornalistas, bem como os demais sindicatos das categorias que conformam todo o bloco comunicacional, devem atuar unidos e imediatamente, buscando canais de conversa para garantir saúde espiritual de todos os trabalhadores, bem como a garantia dos empregos até que se possa saber quais são os planos dos novos donos. Se houver organização e luta renhida, pode ser que se consiga salvaguardar os empregos.

Os otimistas dirão que uma mudança é coisa boa, um choque de gestão para remexer as bases. Mas, os realistas sabem muito bem que no embate de gente graúda, quem sai lascado é o pequeno. Não me parece haver dúvidas de que serão os trabalhadores os que pagarão o preço mais alto. Se houver enxugamento, lá vêm as demissões. Se houver um choque de gestão, lá vem o aumento da super-exploração e os baixos salários. De todo o lado virá bomba, afinal, nenhum empresário entra em uma canoa que está afundando sem um plano para colocá-la no rumo. E os planos, no mundo capitalista, são sempre muito simples. Cortar na carne dos trabalhadores para garantir maiores lucros aos patrões.  

Manifesto aqui minha solidariedade aos colegas de todos os veículos da empresa. Serão tempos duros. Por isso conclamo a necessidade de união através do sindicato. Ainda que também essa seja uma instituição que anda perdida, frágil e sem poder, ainda é o instrumento que temos nós, os jornalistas, para organizar a luta que precisa ser travada. Como as emissoras de TV pública são concessões, a transação terá de passar pelos órgãos reguladores, logo, temos tempo.

Não ouso sonhar com uma luta pelo jornalismo de qualidade, crítico, libertador. Mas, pelo menos a batalha pela sobrevivência dos trabalhadores. Vencida essa, quem sabe se possa avançar para o debate sobre o jornalismo e sobre a necessidade de organizar a luta nessa direção. O jornalismo é um fazer que requer valentia, capacidade intelectual e vontade política, para se fazer crítico e transformador. E ele deve ser praticado nas grandes empresas, mesmo correndo o risco de se ser demitido.

Como podemos ver agora, o risco do desemprego está permanentemente sob as cabeças. Lutando ou não lutando por um jornalismo de qualidade, todos cairão. Melhor, é, como diz José Martí, enfrentar de pé, cair com honra.

Esse é um bonito momento para o ressurgimento da luta sindical no campo do jornalismo. Vamos arregaçar as mangas e unir as forças no amparo dos companheiros e companheiras que fazem parte do grupo RBS.

Da minha parte, estou à postos, para o que vier.  Vamos vencer o temor e partir para a ofensiva.