quinta-feira, 17 de março de 2016

A fábrica de ideologia




A Globo mostrou ontem, mais uma vez, o que é ser uma fábrica de ideologia. Coloca como herói alguém que trabalha acima da lei, insufla o golpe, escancara sua posição. Nada de novo para nós que fazemos a crítica cotidiana. A mídia comercial é o braço armado do sistema. Há quem diga que não é bem assim, que não é tanto poder sobre as pessoas. Mas é. Negar isso é fechar os olhos para a realidade.

A onda fascistóide que varre o país desde há tempos só cresce, e muito desse crescimento vem da atuação da mídia. Não digo que as pessoas sejam tábulas rasas, que qualquer informação passada pela televisão se encrava e domina. Não. Isso seria estúpido e equivocado.

Mas, Theodor Adorno, um dos filósofos da escola de Frankfurt já deu a pista nos anos 50 sobre como essa fábrica de ideologia funciona e como acaba influindo na consciência coletiva. No seu estudo sobre a personalidade autoritária, Adorno mostra que existem na sociedade os fascistas em potencial. Essas pessoas seriam aquelas que já estariam abertas às tendências antidemocráticas da sociedade e, com a instigação sistemática, fatalmente se tornariam autoritárias e passíveis de explicitação do ódio.

Esse trabalho foi feito por Adorno para tentar explicar algumas tendências autoritárias na sociedade estadunidense logo após a segunda grande guerra, e ele baseava suas conclusões na experiência vivida pelo nazismo – pouco tempo atrás, que acabou levando ao fanatismo um país inteiro. Ele mostra que as tendências fascistas não estão ligadas ao desconhecimento, à ignorância ou a falta de informação. Se fosse assim não teríamos tantos intelectuais caminhando por essas veredas. A tendência fascista, para ele, é algo que está na consciência e, se bem trabalhada, pode aflorar até mesmo nas chamadas “pessoas de bem”. 

O fato é que a classe dominante usa os meios de comunicação para insuflar o ódio a tudo aquilo que apareça como um entrave ao seu domínio. Mentiras e preconceitos, repetidos e repetidos, provocam a insurgência do fascista em potencial, aquele que no íntimo do seu ser precisa de um líder, um patrão, um chefe, alguém autoritário e mandão para definir os caminhos. Ele mesmo não se sente seguro em definir seu próprio rumo. E é aí que a televisão – fábrica de ideologia – entra. Como o espaço mais propício para a fermentação do ódio e para a construção de uma sociedade autoritária.

Não é sem razão que os meios de comunicação comercial estejam sempre a massacrar os negros que vivem nas favelas, os pobres, os índios, os trabalhadores que se revoltam, as gentes que se rebelam, os de “abajo”. Todas essas parcelas da sociedade são demonizadas diuturnamente. Milhares de trabalhadores públicos em greve fazendo passeata em Brasília não entram no plantão da Globo, mas meia dúzia de reacionários gritando em frente ao Palácio da Alvorada são elevados ao patamar de “heróis da pátria”. E o que é pior, tudo isso acaba sendo potencializado nas redes sociais, que reproduzem os mesmos meios, as mesmas ideias, à exaustão. 

Na histeria dos fascistas em potencial já não cabem mais a lei, as regras definidas para viver em sociedade, nada. Só o que vale é fala e a indicação do líder. Com ele vão ao inferno e podem até matar a própria mãe. Dura realidade. Porque um líder que se vale do ódio pode voltar-se contra os seus próprios comandados a qualquer momento, basta que apresentem uma fagulha de pensamento crítico. Registros disso podemos encontrar aos milhares na história da humanidade. Na arte, um filme que mostra bem essa construção da sociedade autoritária é “O senhor das moscas”. Vale a pena ver e pensar um pouco sobre o que vivemos agora mesmo no Brasil e na América Latina. 

Ontem assistimos a mais um capítulo das investidas da classe dominante para abocanhar o poder de governar de direito. Porque de fato nunca esteve fora das decisões. Apenas suportou a aliança com o Partido dos Trabalhadores porque havia uma conjuntura continental que favorecia a um avanço da ideia de socialdemocracia, de avanço de políticas públicas, de políticas compensatórias. Mas, agora que por toda a América Latina a mão dura do capital vem recuperando seu poder, já não é mais preciso esconder-se na pele de cordeiro. O lobo volta arreganhar os dentes sem vergonha de ser quem é. E, nesse processo de reagendar novas formas de ser governo, nada melhor que espalhar o germe do autoritarismo que está latente em boa parte das gentes. Para isso tem a Globo, a Record, a Band, a Folha e toda a sorte de seguidores. 

A mão dura, quando é para ser usada em favor dos pobres, não serve. Aí, quem a usa é acusado de louco, ditador e outros quetais, como foram alcunhados Fidel, Che, Chávez. Hoje, vimos nas ruas, a elite e a classe média – em sua maioria – babando, pedindo o regime militar. A favor de quem? Dos pobres é que não. Querem o autoritarismo para garantir privilégios. Mal sabem que quando se acorda o monstro, ele pode pisar em qualquer um.




segunda-feira, 14 de março de 2016

As manifestações e o Brasil






















O dia 13 mobilizou mais de dois milhões de pessoas que foram às ruas protestar contra o PT, contra Dilma, contra o Lula e contra a corrupção. A maior concentração obviamente foi em São Paulo, centro financeiro e político do país. E nas ruas estavam gentes de todo tipo, ricos, classe média e pobres. A organização das atividades foi da direita brasileira, claramente identificada, mas não faltaram pessoas que sempre estiveram à esquerda e que hoje querem ver a derrubada do PT do poder, justamente porque o PT deixou de ser esquerda há muito tempo. Foi, portanto, uma gama bem grande de descontentamento que se expressou nas caminhadas realizadas em quase todo o território nacional.

Alguns aspectos precisam ser ressaltados para compreender o fenômeno. Nas grandes cidades houve muita facilidade para chegar ao protesto, com a logística de grandes eventos que não existe nos domingos comuns. Transporte extra – fala-se em gratuidade no metrô de São Paulo - , proteção policial e reengenharia de trânsito. Tudo preparado para o evento. Coisa que não acontece quando a manifestação é de trabalhadores em luta, por exemplo.

Também é importante ressaltar a fabricação do consenso feita pelos grandes meios de comunicação, que insuflaram as gentes durante a semana toda, oferecendo informações, muitas delas completamente mentirosas ou sem provas confirmadas. Criou-se o caldo cultural e midiático para que as pessoas fossem às ruas. Não dá para negar essa força. Não que as gentes sejam incapazes de pensar por si mesmas, mas uma informação repetida à exaustão tem seu poder.

Assim, insufladas, expressaram-se as ideias mais conservadoras possíveis, como gritavam os cartazes exigindo a intervenção militar, contra a democracia, ou ainda os mais bizarros, escritos em inglês, pedindo a ajuda de Donald Trump (o candidato conservador à presidência dos Estados Unidos). Aliado a isso encontramos os tipos que se prestam a servidão voluntária, sempre colados naqueles que eles acreditam ter o controle das coisas. Muitos eram “lulistas” durante o primeiro mandato de Luís Inácio, quando a economia ia de vento em popa e, agora, na crise, mudam de lado. Mas, também foram aos protestos os mais pobres, que realmente se preocupam com a corrupção, que sofrem cotidianamente os efeitos dela, na falta de saúde, de escola ou até mesmo de comida. Os de boa fé. Possivelmente os que expulsaram Aécio e Alckmin, quando estes quiseram se aproveitar da situação.

Nas pequenas cidades também acorreram gentes às ruas no grito contra a corrupção. Afinal, quem em sã consciência seria a favor? Municiadas pela mídia as famílias marcharam também contra o PT, Lula e Dilma, hoje identificados como o principal foco de corrupção do país. Jamais houve uma campanha assim, feita pela mídia, contra a corrupção, nem mesmo durante o governo de FHC quando os trabalhadores denunciavam os horrores da privatização, que entregou boa parte do patrimônio nacional em transações altamente suspeitas. A Vale do Rio Doce é um exemplo emblemático. Tradicionalmente conservadoras, as pessoas que foram se manifestar contra a corrupção são as mesmas que condenam os trabalhadores que lutam, chamando de “baderna” suas passeatas, greves, lutas ou mobilizações. Também são criaturas de boa fé, que acreditam ser possível resolver os conflitos entre o capital e o trabalho com conversa e negociação.

De qualquer forma, grandes ou não, as mobilizações do dia 13 apontam que há uma parcela da população que está bastante interessada em outro tipo de governo. A direita explícita quer retomar seu poder de direito, já que de fato segue mandando, uma vez que os governos petistas nunca voltaram o leme para a esquerda. E, para isso, dentro da democracia formal, burguesa, faz o seu papel, usando as suas armas para recuperar os altos postos de mando. E, as armas da direita não são de subestimar: a polícia, o judiciário e a mídia. Poderosas armas.

Do outro lado estão o PT, Dilma e Lula, acossados pela escolha que eles mesmo fizeram, que foi a de tentar servir a dois senhores. É fato que nesses 13 anos de governo petista, milhões de pessoas saíram da miséria e outras milhares conseguiram se formar no ensino superior, gente que jamais  chegaria à universidade. Pode-se questionar que o ensino é ruim, que as escolas privadas foram beneficiadas e que a bolsa família não emancipa. Mas, ainda assim, essas pequenas brechas de esperança de vida digna só existiram nesses 13 anos. Antes não.

É fato também que essas políticas são meramente compensatórias, não chegam à estrutura, não avançam para o socialismo, nem nada. Nunca houve por parte do governo petista a proposta de organizar as gentes para a construção de um novo modo de estar na vida. Pelo contrário, domesticaram-se os sindicatos e movimentos sociais, perdeu-se muito da força dos trabalhadores e houve uma acomodação diante de uma tentativa capenga de social-democratizar o Brasil. Afinal, não houve qualquer avanço no ataque aos problemas estruturais: nem reforma agrária, nem investimento na saúde, nem mudança na política da dívida pública, muito menos na política econômica. No frigir dos ovos, quem mais ganhou foram os ricos. Palavras do próprio Lula.

Agora a serpente que foi acolhida dentro do esquema governamental está a picar o calcanhar. Tem hábitos alimentares que jamais mudam. Por isso foi equivocada a aposta de conciliação de classe. A história está aí, cheia de exemplos para comprovar que a classe dominante é voraz, insaciável. É da natureza do capital exigir até o osso. O PT, Lula e Dilma optaram por dar mais comida à elite dominante. Por isso fatalmente não contarão com uma boa parte dos trabalhadores agora nessa hora noa. Muitos até sairão às ruas para defender o governo, contra o impedimento de Dilma, em apoio a Lula. Mas, outros ficarão em casa, apontando o dedo para as alianças feitas pelo governo petista, sentindo engulhos.

Essa é uma hora dramática para muitos trabalhadores. Sabem que a forma como as coisas estão sendo encaminhadas não são corretas, mas ao mesmo tempo não conseguem defender um governo que optou pelos graúdos. Alguns apostam no “que se vão todos”, esperando que a crise instalada faça estourar algo novo. Mas, exemplos da história mostram que se não houver uma organização real e prévia, isso tem pouca chance de suceder.


Enquanto isso, nas câmaras acarpetadas e nos palácios está se movendo o tabuleiro. Ali é onde o jogo parece que vai se decidir. Como no triste março de 64, quando as famílias saíram armadas com “deus” contra os comunistas no momento em que tudo já estava decidido nos centros de poder. 


terça-feira, 8 de março de 2016

Trabalhadores da prefeitura seguem em greve


















Os trabalhadores da prefeitura municipal iniciaram ainda em janeiro sua campanha salarial para 2016. Após algumas reuniões na tentativa de encontrar caminhos viram todas as portas da negociação fechadas pelo prefeito César Souza Jr. Discutiram e apontaram estado de greve. Ainda assim, nada de negociação, então, não tiveram outra alternativa que não fosse parar as atividades. A greve foi deflagrada no dia 03 de março. 

Muitos acordos da greve passada - um movimento histórico para a cidade - ainda não foram cumpridos e novas demandas se apresentam. Mesmo assim, o prefeito prefere seguir surdo aos pedidos de negociação. E mais, incapaz de dar respostas às demandas, prefere o caminho vil de criminalização do movimento, avisando que já entrou na justiça para tornar ilegal a greve. Nessa segunda-feira uma grande assembleia foi realizada e os trabalhadores decidiram continuar paralisados, exigindo uma mesa de conversa.

Em passeata foram até o prédio das secretarias no qual foram chamados pelo secretário de administração. Mas, a conversa foi frustrada com a proposta de só conversar se a greve acabar. Os trabalhadores insistem em negociar, mas não estão dispostos a aceitar cortes nas verbas para o serviço público nem para os salários. Entendem que a prefeitura arrecada muito no verão, com o turismo e ainda recebeu mais uma bolada com o aumento escorchante do IPTU. "Para onde vai o dinheiro?", perguntam, e querem que haja mais investimento nos serviços de atendimento á população.

A greve continua. Hoje, os trabalhadores fazem ações nos bairros da cidade, buscando conversar com a população, explicando os motivos da paralisação. Mobilizando milhares de pessoas, o Sindicato dos Municipários - Sintrasem - tem mostrado um vigor incomum dentro do sindicalismo atual. Guerreiros incansáveis seus diretores são referência para a categoria, que confia e constrói junto a luta por direitos. 

Bonito de ver a mobilização dos trabalhadores públicos.  Bonito de se ver o trabalho classista do Sintrasem. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Jornalista gaúcho anuncia: RBS entrega Santa Catarina



O domingo já prenunciava e a segunda-feira apontou, através do blog de um jornalista gaúcho, Felipe Vieira: a venda das ações da RBS em Santa Catarina já teria sido efetuada e a família Sirotski não controlaria mais o grupo no estado. O comprador majoritário seria o grupo liderado por um empresário do ramo dos medicamentos (?) Carlos Sanchez, 52 anos, e que tem como sócio o milionário gaúcho, Lírio Parisotto que é hoje também o maior acionista da Celesc. Há informações também de que o Boni (Globo) também teria um bom número de ações. O mesmo jornalista informa que a operação de venda teria passado de um bilhão. Segundo ele o anúncio será feito hoje , dia 7.

A troca das cadeiras no poder do oligopólio midiático em Santa Catarina – se confirmada pelo grupo RBS hoje - possivelmente não mudará nada no estrutural. O grupo que passa a dominar seguirá reproduzindo a propaganda do sistema, cuidando dos interesses da classe dominante, pois esse é sentido da existência dos meios de comunicação no mundo capitalista. De resto, o grupo gaúcho seguirá tocando a comunicação no Rio Grande e ninguém por lá ficará mais pobre. Da mesma forma os novos donos certamente encherão os bolsos servindo aos mesmos velhos interesses, agregando um ou outro mais. Como o novo dono produz remédios, as farmacêuticas estão prosas.

Os problemas deverão ficar na ponta da rede e quem sofrerá de maneira mais intensa as consequências da troca de comando serão os trabalhadores. Nova gestão sempre vem acompanhada de soluções mirabolantes para enxugamento das despesas e maximização dos lucros. A RBS está acossada pelas denúncias da Operação Zelotes, a qual investiga sua participação em esquema de sumiço de tributos, desfalcando os cofres públicos em milhões de reais. A acusação é de que a empresa pagou 15 milhões em suborno para evitar marchar com 150 milhões em dívidas tributárias.  Isso pode ter detonado a decisão de entregar os anéis (Santa Catarina) para não perder os dedos, que é o poder midiático no Rio Grande do Sul.

Os novos donos não são gente oriunda da comunicação, logo, haverá outra razão administrativa, meramente comercial. A RBS já era assim, mas mantinha certa mística, por conta de seu fundador, Maurício, que era um homem de rádio. Agora, sem qualquer vínculo com compromissos comunicacionais, a nova RBS que emergirá será mais pragmática no mundo dos negócios. Logo, nenhuma mudança real se fará.

Ainda assim, no meio desse turbilhão, o jornalismo poderá ser o setor mais aviltado. Não que já não fosse, mas pode piorar. No espaço da empresa gaúcha, o jornalismo estava vivendo dias amargos, com os trabalhadores sofrendo a mais dura exploração, baseada na multifunção. A mesma pessoa dando conta de três ou mais funções, num processo violento de cobranças, levando muita gente ao adoecimento. E tudo isso com um piso salarial de pouco mais de dois mil reais. Tudo isso refletia num jornalismo cada dia mais fraco, insosso, sem qualquer viés crítico, totalmente amarrado aos interesses patronais.

Imagino a angústia que deve estar acometendo todo o grupo de trabalhadores que se manteve completamente alheio às negociações, sem saber quais foram as questões acordadas e como será sua vida de agora em diante. Viveram como os viviam os servos no tempo dos feudos, mudando de “senhor” sem que fossem levados em conta. Logo, esse é um momento crucial, no qual o Sindicato dos Jornalistas, bem como os demais sindicatos das categorias que conformam todo o bloco comunicacional, devem atuar unidos e imediatamente, buscando canais de conversa para garantir saúde espiritual de todos os trabalhadores, bem como a garantia dos empregos até que se possa saber quais são os planos dos novos donos. Se houver organização e luta renhida, pode ser que se consiga salvaguardar os empregos.

Os otimistas dirão que uma mudança é coisa boa, um choque de gestão para remexer as bases. Mas, os realistas sabem muito bem que no embate de gente graúda, quem sai lascado é o pequeno. Não me parece haver dúvidas de que serão os trabalhadores os que pagarão o preço mais alto. Se houver enxugamento, lá vêm as demissões. Se houver um choque de gestão, lá vem o aumento da super-exploração e os baixos salários. De todo o lado virá bomba, afinal, nenhum empresário entra em uma canoa que está afundando sem um plano para colocá-la no rumo. E os planos, no mundo capitalista, são sempre muito simples. Cortar na carne dos trabalhadores para garantir maiores lucros aos patrões.  

Manifesto aqui minha solidariedade aos colegas de todos os veículos da empresa. Serão tempos duros. Por isso conclamo a necessidade de união através do sindicato. Ainda que também essa seja uma instituição que anda perdida, frágil e sem poder, ainda é o instrumento que temos nós, os jornalistas, para organizar a luta que precisa ser travada. Como as emissoras de TV pública são concessões, a transação terá de passar pelos órgãos reguladores, logo, temos tempo.

Não ouso sonhar com uma luta pelo jornalismo de qualidade, crítico, libertador. Mas, pelo menos a batalha pela sobrevivência dos trabalhadores. Vencida essa, quem sabe se possa avançar para o debate sobre o jornalismo e sobre a necessidade de organizar a luta nessa direção. O jornalismo é um fazer que requer valentia, capacidade intelectual e vontade política, para se fazer crítico e transformador. E ele deve ser praticado nas grandes empresas, mesmo correndo o risco de se ser demitido.

Como podemos ver agora, o risco do desemprego está permanentemente sob as cabeças. Lutando ou não lutando por um jornalismo de qualidade, todos cairão. Melhor, é, como diz José Martí, enfrentar de pé, cair com honra.

Esse é um bonito momento para o ressurgimento da luta sindical no campo do jornalismo. Vamos arregaçar as mangas e unir as forças no amparo dos companheiros e companheiras que fazem parte do grupo RBS.

Da minha parte, estou à postos, para o que vier.  Vamos vencer o temor e partir para a ofensiva.



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A praia e os esgotos do Campeche
























O professor Daniel José da Silva, que é especialista em Hidrologia, pegou sua bicicleta e foi dar uma volta pelo Campeche, bairro onde mora. Seu objetivo era observar cada uma das quatro saídas de esgoto que estão infestando a praia de uma água escura e fedorenta. A hipótese até então levantada era de que o que estava chegando ao mar nada mais era do que o esgoto, puro e simples, que tem sido jogado nos riozinhos que cortam a planície. Daniel descobriu que essa é uma meia verdade. Mas, o problema é muito maior do que a simples e suposta  falta de consciência dos moradores, trata-se do rebaixamento sistemático do lençol freático.

O professor Daniel explica que os rios do Campeche, que somente escoavam para o mar quando a chuva vinha forte, agora estão lançando água sistematicamente. E por quê? Porque está havendo um esgotamento do lençol freático, visando secar os terrenos para a construção dos prédios. Com a compactação do aquífero, a água escorre para o mar e leva com ela todo o material orgânico que encontra pelo caminho, por isso a cor escura. “É claro que junto com esse material orgânico também vai o esgoto secundário, que é a água poluída que sai dos sumidouros. Tudo isso somado dá aquela água preta e fedida”.

Para Daniel o mês de fevereiro marcou definitivamente o colapso do Campeche e está mais do que na hora de a comunidade assumir a luta pelo saneamento básico, participando intensamente da discussão e da definição de saídas par aos problemas. Ele lembra ainda que há uma ausência completa do poder público com relação às áreas próximas à praia, pois a prefeitura não assume aquele espaço como uma área pública. “Os donos de restaurante que tem por ali não conseguem encontrar uma forma de fazer as coisas acontecerem no que diz respeito ao tratamento do esgoto e do lixo. Estão abandonados”.

As constatações do professor da UFSC já foram motivo de muitas mobilizações da comunidade viva do Campeche. Desde há uns quatro anos, quando começaram as construções desenfreadas de prédios e condomínios, uma das constatações que levantaram os movimentos sociais do bairro foi justamente o esgotamento do lençol freático. As construtoras drenavam dia e noite a água pura pelos canos, que ia parar no esgoto. Protestos foram feitos, denúncias foram encaminhadas à polícia ambiental e o resultado foi o de sempre: os lutadores eram acusados eco-chatos, gente que queria barrar o progresso do bairro, e as obras prosseguiam.  Numa das manifestações acontecidas em frente ao prédio que fica no final da Pequeno Príncipe, bem na boca da praia, alguns moradores chegaram a quase agredir os que protestavam, ofendendo e chamando de atrasados.

Desgraçadamente, tudo aquilo que os manifestantes denunciavam agora está acontecendo. Com a dragagem do lençol freático, feita sem dó nem piedade para fincar as estacas dos prédios, o equilíbrio ambiental do ecossistema da planície está em colapso. Mais uma prova de que os eco-chatos são na verdade, os eco-certos. Somado ao desequilíbrio provocado pelas construtoras, há a falta de um sistema de tratamento do esgoto, o que faz com que muita gente jogue a água do sumidouro nos canos da água pluvial. Falta de educação sanitária, como bem diz Daniel José da Silva.

“Não falta só educação da população, falta também a política. O saneamento básico tem quatro sistemas: o tratamento da água, o esgoto, o recolhimento do lixo e a condição da água da chuva. Tudo isso combinado é o que nos humaniza. Sem esse quarteto de coisas realizado com competência, perdemos a humanidade. Algo falha”.

O professor insiste que o poder público, além de atuar com competência com relação aos  quatro sistemas, deveria ter um trabalho de educação sanitária, informando como acondicionar o lixo, como cuidar do esgoto, educando a população.  Mas, também a comunidade precisa participar da vida pública, cobrar, discutir, se reunir e encontrar soluções locais. ”Quando as pessoas entendem e usam com equilíbrio o bem comum, aí elas se humanizam de verdade. Está na hora do Campeche acordar”.

E é justamente por conta de toda essa problemática e visando fortalecer a participação popular, chamando para a luta também os novos moradores, que um grupo de pessoas do bairro – os eco-certos -  está chamando uma concentração para o  dia 05 de março, sábado, na entrada da praia. A intenção é juntar as pessoas, discutir o problema, passar informações e buscar saídas coletivas.

O Campeche cresceu demais nos últimos anos, fruto da construção desenfreada. Prédios foram erguidos por toda a planície, com as construtoras fazendo seu lento trabalho de destruição. Vendiam a beleza enquanto a destruíam. Agora, os que compraram os apartamentos justamente por conta da praia limpa e saudável, estão tendo de conviver com o esgoto e a sujeira, fruto da compactação do aquífero, da ganância dos empreiteiros e da cumplicidade de vereadores e poder público.  

Enquanto isso, a prefeitura volta a falar na construção de um emissário que leve a merda da cidade para o alto mar. Isso não é a solução. É caro, ineficiente e só servirá para enriquecer a empresa que o construir. Mais um golpe das aves de rapina. A solução são estações locais de tratamento, propostas descentralizadas, coisas que a comunidade já pensou e apresentou, apesar de o governo seguir surdo.

“Já basta de destruição. É hora de tomar nas mãos o destino da gente. Por isso, todos à manifestação do dia 5 de março, que começa às 9h da manhã”, conclamam os moradores.  E, também é mais do que hora de as pessoas prestarem atenção nos que são pejorativamente  chamados de eco-chatos, porque até agora eles nunca erraram. Todas as denúncias se confirmaram, mostrando que estavam absolutamente certos do que diziam. Nada de bom poderia vir com o rebaixamento do lençol freático. Os resultados estão aí, bem cada de toda a gente.


Mas, ainda há tempo. Basta união e participação. O Campeche se levanta mais uma vez em luta. 

Veja entrevista com Daniel José da Silva



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Das regionalices



Florianópolis tem um jeito de falar que é muito peculiar e característico do povo daqui. É o chiadinho na pronúncia do “s”, a rapidez no falar, as palavras típicas, as expressões singulares. É tudo muito lindo, mas , vez em quando, nos coloca em maus lençóis. Um exemplo disso foi a cena que protagonizei em Brasília, quando passei por racista.   

Estávamos eu e o Assis, um querido amigo que já encantou, numa daquelas malfadas plenárias da Fasuba, na UNB, e esperávamos o ônibus. Demorou, demorou e nós falando sem parar, reclamando do transporte daqui e de lá. Até que finalmente surgiu o buzão e entramos, espevitados. Na correria esquecia a minha pasta na parada. O Assis gritou para o motorista parar que a gente precisava voltar e pegar a bolsa. Ele foi muito gente boa. Parou e esperou.  Quando retornamos, gritei lá do fundo, expressando minha gratidão. “Muito obrigada, nêgo, deus abençoe”.  

O ônibus todo se voltou para mim. E o motorista sequer respondeu, fechando a cara. Eu estaquei. Puta merda! O motorista era um homem negro. Deve ter achado que eu falei: obrigada, negro. Caramba. Uma grosseria, a considerar o profundo racismo da nossa sociedade. O Assis, que era bem mais mané que eu, também falou algo do tipo, naquela alegria que lhe era peculiar. Não percebeu o desconforto.

Eu tinha duas opções. Ou tentava explicar que era de Florianópolis e que aqui todo mundo usa essa expressão “nêgo, nêga” para qualquer pessoa, independentemente da etnia, sem qualquer ligação com a cor da pele, ou  ficar quieta, por perceber a animosidade que já se expressava em vários rostos. Lembrei o provérbio árabe que diz: não se justifique – os amigos não precisam disso e os inimigos não acreditarão. Achei melhor ficar quieta. Passei por racista. Na hora em que saltei, ainda esbocei um sorriso para o motorista, mas ele não retribuiu.

Outra fria me proporcionou o “quirida”, é , assim, com “i” , que é como usamos aqui na ilha. Em Belo Horizonte, depois de comprar uns bindis de uma vendedora super atenciosa, terminei com o “muito obrigada, quirida”. Ela franziu a cara. Eu notei. Nesse dia, estávamos só as duas, eu resolvi explicar. “Desculpa a intimidade, mas lá em Florianópolis usamos muito essa expressão”. Ela riu e disse que ali esse tipo de coisa era dito quando se queria ser falsa.


Poix! O negócio é a gente se cuidar por aí nesse brasilzão de tantas falas e expressões. Afinal, nessas horas não dá pra sair com a nossa velha expressão de “ se quéx, quéx, se não quéx, dix”,  não é mesmo quiridos?


Por que se teme ao comunismo?


A Comuna de Paris mostrou a Marx que não basta tomar o estado, há que destruí-lo rompendo a máquina burocrática e militar

Observando o avanço desenfreado das pautas da direita em todo o planeta, com a também crescente fascistização da vida, via as epidêmicas redes sociais, me assalta uma certeza: o comunismo, mais do que uma necessidade política, é uma necessidade biológica. E, diante da realidade, essa forma de organizar a vida aparece-me como a única alternativa possível para os seres humanos. Alguém pode dizer que sou uma louca, quando tudo parece apontar para um retorno inexorável dos tempos mais sombrios, mas, posso mostrar que não. 

Imaginem-se na baixa idade média, quando a violência contra os pobres recrudesceu, uma vez que os senhores feudais viram que as mudanças causadas pelo nascimento dos burgos eram profundas. Naquelas horas noas, de angústia e violência, quem arriscaria dizer que estava em processo de consolidação uma nova forma de viver que daria fim ao feudalismo? Os loucos? Não! Os que faziam boas análises da realidade.

O mundo atual, capitalista, imperialista e monopólico tem como base uma equação simples: para que um viva, outro tem de morrer. Isso significa que é, por natureza, destruidor e violento. Se no mundo antigo, a escravidão era garantida pela força de uns poucos e no mundo feudal a servidão se mantinha pelo terror dos senhores da terra, no capitalismo os escravos modernos – assalariados – são mantidos também pela força da repressão policial e burocrática. E é comum, a história nos mostra, quando um sistema está ruindo, a repressão a violência contra os de baixo aumentar consideravelmente. É a tentativa desesperada da classe dominante para manter o poder.

E o que vemos hoje no mundo? Uma violência exacerbada contra tudo aquilo que possa representar uma ameaça ao sistema capitalista de reprodução da vida. Qualquer gritinho de protesto já é considerado terrorismo e a força do braço armado do poder cai sobre as gentes com precisão. É um tempo de extermínio. Até no Brasil, onde o tal do “terrorismo” raramente deu as caras, os deputados aprovaram no dia 24 de fevereiro uma lei anti-terrorismo. E com base no quê? Numa suposta possibilidade de aparecer algum “deles” nas Olimpíadas. Piada? Não! Medo.

A classe dominante mundial está com medo. E isso é bom. Se, por um lado, esse medo recrudesce a violência oficial, por outro, mostra que há um pequeno buraco na represa, como no antigo conto holandês. E o sistema tenta conter a avalanche, matando, desaparecendo, trucidando, fazendo guerra.
Diante desse quadro, só nos resta o comunismo. E uma das coisas que mais me impressiona é ver alguém chamando outro alguém de comunista como se fosse uma coisa ruim. Ou ainda, falar do comunismo como se fosse o pior que pudesse acontecer na terra. Como isso poder ser possível? Quem em sã consciência pode achar que o comunismo é ruim? Pois para responder essa questão, proponho o debate de alguns elementos que compõem o comunismo, para que, sem preconceito, possamos definir o que de bem e bom pode ter num regime como esse.

A ideia de um mundo justo, no qual todos possam ter vida digna não é coisa do alemão Karl Marx, tão demonizado. Ela aparece bem antes dele em escritos de tantos filósofos, inclusive no mundo oriental. Mas, claro, é Marx quem aponta o comunismo como um sistema de organização da vida que só pode acontecer depois que sejam desvendados e superados os terrores do mundo capitalista, que ele tão bem visualizou. A partir do estudo sobre como se expressam e se concretizam no mundo real as relações de produção do sistema capitalista, Marx concluiu que não podia ser possível ao humano viver nessas condições. Ele não descobre a luta de classe, ele a põe em foco.

Assim, segundo ele, uma vez que os trabalhadores desvelassem o véu da alienação que os mantêm presos a um sistema que oprime e mata, a única possibilidade seria a construção de uma forma autônoma e livre de viver, na qual sequer o estado seria necessário. Isso é o comunismo.

Nessa forma de organizar a vida não haverá uma classe dominando a outra. Todos serão livres e administrarão a produção das coisas para o bem-viver. Cada um trabalhará conforme sua condição e receberá conforme sua necessidade. Não haverá divisão entre trabalho braçal e intelectual e todo o trabalho será considerado digno. Se a pessoa for trabalhar como lixeiro e tiver oito filhos para sustentar, ele receberá o suficiente para isso. Ninguém precisará mendigar, migrar, fugir, se prostituir, se destruir. O estado não será necessário, porque ele existe apenas como expressão de dominação de uma classe sobre a outra. Se não houver classes, para que estado? “Poderíamos empregar em vez de estado, a palavra comunidade”, diz Engels. 

Aí se pode dizer: isso é uma bobagem. Tem que ter organização, tem que ter direção, tem que ter ordem. Mas, quem diz que não haverá? Haverá tudo isso, mas sem que alguém oprima o outro. Se cada um receber conforme a necessidade não será necessária a hierarquia entre os trabalhadores. O que hoje está numa posição de organizador da produção e do trabalho, amanhã pode não estar. E se está, vai receber o que precisa para viver. Nem mais, nem menos. O cargo que ocupa não lhe dará poderes sobre o outro. Não haverá patrão, uma vez que os bens produzidos serão coletivos, assim como a terra. E se tudo for assim, tão bom, haverá festa e haverá beleza, essas coisas doces, necessárias ao espírito. Essa é a ideia do comunismo evocada por Marx, que, é óbvio, irá se construindo e aprimorando pela ação das gentes.

Alguém dirá: isso é um sonho. O ser humano não consegue ter maturidade suficiente para viver assim, livre, sem patrão. Ora, no tempo da escravidão, dizia-se que os escravos morreriam sem o dono. No tempo da servidão, dizia-se que os servos não existiriam sem os senhores feudais. E, se foram os donos de gente, e, se foram os senhores feudais. Que passou com a humanidade? Avançou. Por que raios, então, a humanidade não iria dar esse salto de qualidade? Todas as retrospectivas histórias mostram que sim.

Agora, é fato que o comunismo não se fará em um passe de mágica, muito menos por decreto. Marx, Engels e Lenin escreveram muito sobre isso. Será necessário um tempo de transição, que é o socialismo. Esse tempo de transição preparará o caminho para o comunismo, a hora em que tudo será comum, comu-nitário. No socialismo ainda existem as classes, mas aí quem domina é a classe trabalhadora. E também será necessária a força, a burocracia, o estado. 

Por isso não faz sentido a gritaria dos capitalistas contra propostas como as de Cuba, por exemplo. É um governo forte, um estado forte, no qual quem domina são os trabalhadores. Na luta de classes cubana, pela revolução, venceram os trabalhadores. Eles comandam agora, e não a burguesia. Ah, mas eles são truculentos, violentos, tem presos políticos. Sim, são violentos, como eram violentas as forças que submetiam os trabalhadores antes. Quem não se lembra da ditadura de Batista? Ah, mas então é o dente por dente? Não. É porque ainda não é o comunismo, não há ainda a maturidade necessária para esse modo de organizar. Precisa ter Estado, precisa ter a organização hierárquica. E se o estado é o instrumento de dominação de uma classe sobre a outra, essa dominação é a dos trabalhadores sobre a burguesia. Até que todos estejam prontos para o salto, a nova ordem, o novo mundo, o mundo necessário. O socialismo é um período em que vão se depurar os projetos.

Assim que o comunismo, volto a dizer, é uma necessidade biológica. Porque nós, os humanos, temos esse desejo pelo que é bom, pela festa, pela beleza. Esse é o nosso propósito. Não é possível que a gente aceite, como raça, viver como estamos vivendo agora: oprimidos, violentados, massacrados, consumindo o planeta. Como os escravos e os servos nós também avançaremos para um tempo melhor. É infalível. 

Por isso vamos caminhando, pavimentando essa estrada de maravilhas. Talvez nós mesmos não venhamos a viver nesse mundo sonhado. Mas, não importa. Para ele estamos indo, inexoravelmente, e ele já existe dentro de todos os que o acreditamos possível. Como o casulo se transforma em borboleta. Assim será!