terça-feira, 8 de março de 2016

Trabalhadores da prefeitura seguem em greve


















Os trabalhadores da prefeitura municipal iniciaram ainda em janeiro sua campanha salarial para 2016. Após algumas reuniões na tentativa de encontrar caminhos viram todas as portas da negociação fechadas pelo prefeito César Souza Jr. Discutiram e apontaram estado de greve. Ainda assim, nada de negociação, então, não tiveram outra alternativa que não fosse parar as atividades. A greve foi deflagrada no dia 03 de março. 

Muitos acordos da greve passada - um movimento histórico para a cidade - ainda não foram cumpridos e novas demandas se apresentam. Mesmo assim, o prefeito prefere seguir surdo aos pedidos de negociação. E mais, incapaz de dar respostas às demandas, prefere o caminho vil de criminalização do movimento, avisando que já entrou na justiça para tornar ilegal a greve. Nessa segunda-feira uma grande assembleia foi realizada e os trabalhadores decidiram continuar paralisados, exigindo uma mesa de conversa.

Em passeata foram até o prédio das secretarias no qual foram chamados pelo secretário de administração. Mas, a conversa foi frustrada com a proposta de só conversar se a greve acabar. Os trabalhadores insistem em negociar, mas não estão dispostos a aceitar cortes nas verbas para o serviço público nem para os salários. Entendem que a prefeitura arrecada muito no verão, com o turismo e ainda recebeu mais uma bolada com o aumento escorchante do IPTU. "Para onde vai o dinheiro?", perguntam, e querem que haja mais investimento nos serviços de atendimento á população.

A greve continua. Hoje, os trabalhadores fazem ações nos bairros da cidade, buscando conversar com a população, explicando os motivos da paralisação. Mobilizando milhares de pessoas, o Sindicato dos Municipários - Sintrasem - tem mostrado um vigor incomum dentro do sindicalismo atual. Guerreiros incansáveis seus diretores são referência para a categoria, que confia e constrói junto a luta por direitos. 

Bonito de ver a mobilização dos trabalhadores públicos.  Bonito de se ver o trabalho classista do Sintrasem. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Jornalista gaúcho anuncia: RBS entrega Santa Catarina



O domingo já prenunciava e a segunda-feira apontou, através do blog de um jornalista gaúcho, Felipe Vieira: a venda das ações da RBS em Santa Catarina já teria sido efetuada e a família Sirotski não controlaria mais o grupo no estado. O comprador majoritário seria o grupo liderado por um empresário do ramo dos medicamentos (?) Carlos Sanchez, 52 anos, e que tem como sócio o milionário gaúcho, Lírio Parisotto que é hoje também o maior acionista da Celesc. Há informações também de que o Boni (Globo) também teria um bom número de ações. O mesmo jornalista informa que a operação de venda teria passado de um bilhão. Segundo ele o anúncio será feito hoje , dia 7.

A troca das cadeiras no poder do oligopólio midiático em Santa Catarina – se confirmada pelo grupo RBS hoje - possivelmente não mudará nada no estrutural. O grupo que passa a dominar seguirá reproduzindo a propaganda do sistema, cuidando dos interesses da classe dominante, pois esse é sentido da existência dos meios de comunicação no mundo capitalista. De resto, o grupo gaúcho seguirá tocando a comunicação no Rio Grande e ninguém por lá ficará mais pobre. Da mesma forma os novos donos certamente encherão os bolsos servindo aos mesmos velhos interesses, agregando um ou outro mais. Como o novo dono produz remédios, as farmacêuticas estão prosas.

Os problemas deverão ficar na ponta da rede e quem sofrerá de maneira mais intensa as consequências da troca de comando serão os trabalhadores. Nova gestão sempre vem acompanhada de soluções mirabolantes para enxugamento das despesas e maximização dos lucros. A RBS está acossada pelas denúncias da Operação Zelotes, a qual investiga sua participação em esquema de sumiço de tributos, desfalcando os cofres públicos em milhões de reais. A acusação é de que a empresa pagou 15 milhões em suborno para evitar marchar com 150 milhões em dívidas tributárias.  Isso pode ter detonado a decisão de entregar os anéis (Santa Catarina) para não perder os dedos, que é o poder midiático no Rio Grande do Sul.

Os novos donos não são gente oriunda da comunicação, logo, haverá outra razão administrativa, meramente comercial. A RBS já era assim, mas mantinha certa mística, por conta de seu fundador, Maurício, que era um homem de rádio. Agora, sem qualquer vínculo com compromissos comunicacionais, a nova RBS que emergirá será mais pragmática no mundo dos negócios. Logo, nenhuma mudança real se fará.

Ainda assim, no meio desse turbilhão, o jornalismo poderá ser o setor mais aviltado. Não que já não fosse, mas pode piorar. No espaço da empresa gaúcha, o jornalismo estava vivendo dias amargos, com os trabalhadores sofrendo a mais dura exploração, baseada na multifunção. A mesma pessoa dando conta de três ou mais funções, num processo violento de cobranças, levando muita gente ao adoecimento. E tudo isso com um piso salarial de pouco mais de dois mil reais. Tudo isso refletia num jornalismo cada dia mais fraco, insosso, sem qualquer viés crítico, totalmente amarrado aos interesses patronais.

Imagino a angústia que deve estar acometendo todo o grupo de trabalhadores que se manteve completamente alheio às negociações, sem saber quais foram as questões acordadas e como será sua vida de agora em diante. Viveram como os viviam os servos no tempo dos feudos, mudando de “senhor” sem que fossem levados em conta. Logo, esse é um momento crucial, no qual o Sindicato dos Jornalistas, bem como os demais sindicatos das categorias que conformam todo o bloco comunicacional, devem atuar unidos e imediatamente, buscando canais de conversa para garantir saúde espiritual de todos os trabalhadores, bem como a garantia dos empregos até que se possa saber quais são os planos dos novos donos. Se houver organização e luta renhida, pode ser que se consiga salvaguardar os empregos.

Os otimistas dirão que uma mudança é coisa boa, um choque de gestão para remexer as bases. Mas, os realistas sabem muito bem que no embate de gente graúda, quem sai lascado é o pequeno. Não me parece haver dúvidas de que serão os trabalhadores os que pagarão o preço mais alto. Se houver enxugamento, lá vêm as demissões. Se houver um choque de gestão, lá vem o aumento da super-exploração e os baixos salários. De todo o lado virá bomba, afinal, nenhum empresário entra em uma canoa que está afundando sem um plano para colocá-la no rumo. E os planos, no mundo capitalista, são sempre muito simples. Cortar na carne dos trabalhadores para garantir maiores lucros aos patrões.  

Manifesto aqui minha solidariedade aos colegas de todos os veículos da empresa. Serão tempos duros. Por isso conclamo a necessidade de união através do sindicato. Ainda que também essa seja uma instituição que anda perdida, frágil e sem poder, ainda é o instrumento que temos nós, os jornalistas, para organizar a luta que precisa ser travada. Como as emissoras de TV pública são concessões, a transação terá de passar pelos órgãos reguladores, logo, temos tempo.

Não ouso sonhar com uma luta pelo jornalismo de qualidade, crítico, libertador. Mas, pelo menos a batalha pela sobrevivência dos trabalhadores. Vencida essa, quem sabe se possa avançar para o debate sobre o jornalismo e sobre a necessidade de organizar a luta nessa direção. O jornalismo é um fazer que requer valentia, capacidade intelectual e vontade política, para se fazer crítico e transformador. E ele deve ser praticado nas grandes empresas, mesmo correndo o risco de se ser demitido.

Como podemos ver agora, o risco do desemprego está permanentemente sob as cabeças. Lutando ou não lutando por um jornalismo de qualidade, todos cairão. Melhor, é, como diz José Martí, enfrentar de pé, cair com honra.

Esse é um bonito momento para o ressurgimento da luta sindical no campo do jornalismo. Vamos arregaçar as mangas e unir as forças no amparo dos companheiros e companheiras que fazem parte do grupo RBS.

Da minha parte, estou à postos, para o que vier.  Vamos vencer o temor e partir para a ofensiva.



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A praia e os esgotos do Campeche
























O professor Daniel José da Silva, que é especialista em Hidrologia, pegou sua bicicleta e foi dar uma volta pelo Campeche, bairro onde mora. Seu objetivo era observar cada uma das quatro saídas de esgoto que estão infestando a praia de uma água escura e fedorenta. A hipótese até então levantada era de que o que estava chegando ao mar nada mais era do que o esgoto, puro e simples, que tem sido jogado nos riozinhos que cortam a planície. Daniel descobriu que essa é uma meia verdade. Mas, o problema é muito maior do que a simples e suposta  falta de consciência dos moradores, trata-se do rebaixamento sistemático do lençol freático.

O professor Daniel explica que os rios do Campeche, que somente escoavam para o mar quando a chuva vinha forte, agora estão lançando água sistematicamente. E por quê? Porque está havendo um esgotamento do lençol freático, visando secar os terrenos para a construção dos prédios. Com a compactação do aquífero, a água escorre para o mar e leva com ela todo o material orgânico que encontra pelo caminho, por isso a cor escura. “É claro que junto com esse material orgânico também vai o esgoto secundário, que é a água poluída que sai dos sumidouros. Tudo isso somado dá aquela água preta e fedida”.

Para Daniel o mês de fevereiro marcou definitivamente o colapso do Campeche e está mais do que na hora de a comunidade assumir a luta pelo saneamento básico, participando intensamente da discussão e da definição de saídas par aos problemas. Ele lembra ainda que há uma ausência completa do poder público com relação às áreas próximas à praia, pois a prefeitura não assume aquele espaço como uma área pública. “Os donos de restaurante que tem por ali não conseguem encontrar uma forma de fazer as coisas acontecerem no que diz respeito ao tratamento do esgoto e do lixo. Estão abandonados”.

As constatações do professor da UFSC já foram motivo de muitas mobilizações da comunidade viva do Campeche. Desde há uns quatro anos, quando começaram as construções desenfreadas de prédios e condomínios, uma das constatações que levantaram os movimentos sociais do bairro foi justamente o esgotamento do lençol freático. As construtoras drenavam dia e noite a água pura pelos canos, que ia parar no esgoto. Protestos foram feitos, denúncias foram encaminhadas à polícia ambiental e o resultado foi o de sempre: os lutadores eram acusados eco-chatos, gente que queria barrar o progresso do bairro, e as obras prosseguiam.  Numa das manifestações acontecidas em frente ao prédio que fica no final da Pequeno Príncipe, bem na boca da praia, alguns moradores chegaram a quase agredir os que protestavam, ofendendo e chamando de atrasados.

Desgraçadamente, tudo aquilo que os manifestantes denunciavam agora está acontecendo. Com a dragagem do lençol freático, feita sem dó nem piedade para fincar as estacas dos prédios, o equilíbrio ambiental do ecossistema da planície está em colapso. Mais uma prova de que os eco-chatos são na verdade, os eco-certos. Somado ao desequilíbrio provocado pelas construtoras, há a falta de um sistema de tratamento do esgoto, o que faz com que muita gente jogue a água do sumidouro nos canos da água pluvial. Falta de educação sanitária, como bem diz Daniel José da Silva.

“Não falta só educação da população, falta também a política. O saneamento básico tem quatro sistemas: o tratamento da água, o esgoto, o recolhimento do lixo e a condição da água da chuva. Tudo isso combinado é o que nos humaniza. Sem esse quarteto de coisas realizado com competência, perdemos a humanidade. Algo falha”.

O professor insiste que o poder público, além de atuar com competência com relação aos  quatro sistemas, deveria ter um trabalho de educação sanitária, informando como acondicionar o lixo, como cuidar do esgoto, educando a população.  Mas, também a comunidade precisa participar da vida pública, cobrar, discutir, se reunir e encontrar soluções locais. ”Quando as pessoas entendem e usam com equilíbrio o bem comum, aí elas se humanizam de verdade. Está na hora do Campeche acordar”.

E é justamente por conta de toda essa problemática e visando fortalecer a participação popular, chamando para a luta também os novos moradores, que um grupo de pessoas do bairro – os eco-certos -  está chamando uma concentração para o  dia 05 de março, sábado, na entrada da praia. A intenção é juntar as pessoas, discutir o problema, passar informações e buscar saídas coletivas.

O Campeche cresceu demais nos últimos anos, fruto da construção desenfreada. Prédios foram erguidos por toda a planície, com as construtoras fazendo seu lento trabalho de destruição. Vendiam a beleza enquanto a destruíam. Agora, os que compraram os apartamentos justamente por conta da praia limpa e saudável, estão tendo de conviver com o esgoto e a sujeira, fruto da compactação do aquífero, da ganância dos empreiteiros e da cumplicidade de vereadores e poder público.  

Enquanto isso, a prefeitura volta a falar na construção de um emissário que leve a merda da cidade para o alto mar. Isso não é a solução. É caro, ineficiente e só servirá para enriquecer a empresa que o construir. Mais um golpe das aves de rapina. A solução são estações locais de tratamento, propostas descentralizadas, coisas que a comunidade já pensou e apresentou, apesar de o governo seguir surdo.

“Já basta de destruição. É hora de tomar nas mãos o destino da gente. Por isso, todos à manifestação do dia 5 de março, que começa às 9h da manhã”, conclamam os moradores.  E, também é mais do que hora de as pessoas prestarem atenção nos que são pejorativamente  chamados de eco-chatos, porque até agora eles nunca erraram. Todas as denúncias se confirmaram, mostrando que estavam absolutamente certos do que diziam. Nada de bom poderia vir com o rebaixamento do lençol freático. Os resultados estão aí, bem cada de toda a gente.


Mas, ainda há tempo. Basta união e participação. O Campeche se levanta mais uma vez em luta. 

Veja entrevista com Daniel José da Silva



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Das regionalices



Florianópolis tem um jeito de falar que é muito peculiar e característico do povo daqui. É o chiadinho na pronúncia do “s”, a rapidez no falar, as palavras típicas, as expressões singulares. É tudo muito lindo, mas , vez em quando, nos coloca em maus lençóis. Um exemplo disso foi a cena que protagonizei em Brasília, quando passei por racista.   

Estávamos eu e o Assis, um querido amigo que já encantou, numa daquelas malfadas plenárias da Fasuba, na UNB, e esperávamos o ônibus. Demorou, demorou e nós falando sem parar, reclamando do transporte daqui e de lá. Até que finalmente surgiu o buzão e entramos, espevitados. Na correria esquecia a minha pasta na parada. O Assis gritou para o motorista parar que a gente precisava voltar e pegar a bolsa. Ele foi muito gente boa. Parou e esperou.  Quando retornamos, gritei lá do fundo, expressando minha gratidão. “Muito obrigada, nêgo, deus abençoe”.  

O ônibus todo se voltou para mim. E o motorista sequer respondeu, fechando a cara. Eu estaquei. Puta merda! O motorista era um homem negro. Deve ter achado que eu falei: obrigada, negro. Caramba. Uma grosseria, a considerar o profundo racismo da nossa sociedade. O Assis, que era bem mais mané que eu, também falou algo do tipo, naquela alegria que lhe era peculiar. Não percebeu o desconforto.

Eu tinha duas opções. Ou tentava explicar que era de Florianópolis e que aqui todo mundo usa essa expressão “nêgo, nêga” para qualquer pessoa, independentemente da etnia, sem qualquer ligação com a cor da pele, ou  ficar quieta, por perceber a animosidade que já se expressava em vários rostos. Lembrei o provérbio árabe que diz: não se justifique – os amigos não precisam disso e os inimigos não acreditarão. Achei melhor ficar quieta. Passei por racista. Na hora em que saltei, ainda esbocei um sorriso para o motorista, mas ele não retribuiu.

Outra fria me proporcionou o “quirida”, é , assim, com “i” , que é como usamos aqui na ilha. Em Belo Horizonte, depois de comprar uns bindis de uma vendedora super atenciosa, terminei com o “muito obrigada, quirida”. Ela franziu a cara. Eu notei. Nesse dia, estávamos só as duas, eu resolvi explicar. “Desculpa a intimidade, mas lá em Florianópolis usamos muito essa expressão”. Ela riu e disse que ali esse tipo de coisa era dito quando se queria ser falsa.


Poix! O negócio é a gente se cuidar por aí nesse brasilzão de tantas falas e expressões. Afinal, nessas horas não dá pra sair com a nossa velha expressão de “ se quéx, quéx, se não quéx, dix”,  não é mesmo quiridos?


Por que se teme ao comunismo?


A Comuna de Paris mostrou a Marx que não basta tomar o estado, há que destruí-lo rompendo a máquina burocrática e militar

Observando o avanço desenfreado das pautas da direita em todo o planeta, com a também crescente fascistização da vida, via as epidêmicas redes sociais, me assalta uma certeza: o comunismo, mais do que uma necessidade política, é uma necessidade biológica. E, diante da realidade, essa forma de organizar a vida aparece-me como a única alternativa possível para os seres humanos. Alguém pode dizer que sou uma louca, quando tudo parece apontar para um retorno inexorável dos tempos mais sombrios, mas, posso mostrar que não. 

Imaginem-se na baixa idade média, quando a violência contra os pobres recrudesceu, uma vez que os senhores feudais viram que as mudanças causadas pelo nascimento dos burgos eram profundas. Naquelas horas noas, de angústia e violência, quem arriscaria dizer que estava em processo de consolidação uma nova forma de viver que daria fim ao feudalismo? Os loucos? Não! Os que faziam boas análises da realidade.

O mundo atual, capitalista, imperialista e monopólico tem como base uma equação simples: para que um viva, outro tem de morrer. Isso significa que é, por natureza, destruidor e violento. Se no mundo antigo, a escravidão era garantida pela força de uns poucos e no mundo feudal a servidão se mantinha pelo terror dos senhores da terra, no capitalismo os escravos modernos – assalariados – são mantidos também pela força da repressão policial e burocrática. E é comum, a história nos mostra, quando um sistema está ruindo, a repressão a violência contra os de baixo aumentar consideravelmente. É a tentativa desesperada da classe dominante para manter o poder.

E o que vemos hoje no mundo? Uma violência exacerbada contra tudo aquilo que possa representar uma ameaça ao sistema capitalista de reprodução da vida. Qualquer gritinho de protesto já é considerado terrorismo e a força do braço armado do poder cai sobre as gentes com precisão. É um tempo de extermínio. Até no Brasil, onde o tal do “terrorismo” raramente deu as caras, os deputados aprovaram no dia 24 de fevereiro uma lei anti-terrorismo. E com base no quê? Numa suposta possibilidade de aparecer algum “deles” nas Olimpíadas. Piada? Não! Medo.

A classe dominante mundial está com medo. E isso é bom. Se, por um lado, esse medo recrudesce a violência oficial, por outro, mostra que há um pequeno buraco na represa, como no antigo conto holandês. E o sistema tenta conter a avalanche, matando, desaparecendo, trucidando, fazendo guerra.
Diante desse quadro, só nos resta o comunismo. E uma das coisas que mais me impressiona é ver alguém chamando outro alguém de comunista como se fosse uma coisa ruim. Ou ainda, falar do comunismo como se fosse o pior que pudesse acontecer na terra. Como isso poder ser possível? Quem em sã consciência pode achar que o comunismo é ruim? Pois para responder essa questão, proponho o debate de alguns elementos que compõem o comunismo, para que, sem preconceito, possamos definir o que de bem e bom pode ter num regime como esse.

A ideia de um mundo justo, no qual todos possam ter vida digna não é coisa do alemão Karl Marx, tão demonizado. Ela aparece bem antes dele em escritos de tantos filósofos, inclusive no mundo oriental. Mas, claro, é Marx quem aponta o comunismo como um sistema de organização da vida que só pode acontecer depois que sejam desvendados e superados os terrores do mundo capitalista, que ele tão bem visualizou. A partir do estudo sobre como se expressam e se concretizam no mundo real as relações de produção do sistema capitalista, Marx concluiu que não podia ser possível ao humano viver nessas condições. Ele não descobre a luta de classe, ele a põe em foco.

Assim, segundo ele, uma vez que os trabalhadores desvelassem o véu da alienação que os mantêm presos a um sistema que oprime e mata, a única possibilidade seria a construção de uma forma autônoma e livre de viver, na qual sequer o estado seria necessário. Isso é o comunismo.

Nessa forma de organizar a vida não haverá uma classe dominando a outra. Todos serão livres e administrarão a produção das coisas para o bem-viver. Cada um trabalhará conforme sua condição e receberá conforme sua necessidade. Não haverá divisão entre trabalho braçal e intelectual e todo o trabalho será considerado digno. Se a pessoa for trabalhar como lixeiro e tiver oito filhos para sustentar, ele receberá o suficiente para isso. Ninguém precisará mendigar, migrar, fugir, se prostituir, se destruir. O estado não será necessário, porque ele existe apenas como expressão de dominação de uma classe sobre a outra. Se não houver classes, para que estado? “Poderíamos empregar em vez de estado, a palavra comunidade”, diz Engels. 

Aí se pode dizer: isso é uma bobagem. Tem que ter organização, tem que ter direção, tem que ter ordem. Mas, quem diz que não haverá? Haverá tudo isso, mas sem que alguém oprima o outro. Se cada um receber conforme a necessidade não será necessária a hierarquia entre os trabalhadores. O que hoje está numa posição de organizador da produção e do trabalho, amanhã pode não estar. E se está, vai receber o que precisa para viver. Nem mais, nem menos. O cargo que ocupa não lhe dará poderes sobre o outro. Não haverá patrão, uma vez que os bens produzidos serão coletivos, assim como a terra. E se tudo for assim, tão bom, haverá festa e haverá beleza, essas coisas doces, necessárias ao espírito. Essa é a ideia do comunismo evocada por Marx, que, é óbvio, irá se construindo e aprimorando pela ação das gentes.

Alguém dirá: isso é um sonho. O ser humano não consegue ter maturidade suficiente para viver assim, livre, sem patrão. Ora, no tempo da escravidão, dizia-se que os escravos morreriam sem o dono. No tempo da servidão, dizia-se que os servos não existiriam sem os senhores feudais. E, se foram os donos de gente, e, se foram os senhores feudais. Que passou com a humanidade? Avançou. Por que raios, então, a humanidade não iria dar esse salto de qualidade? Todas as retrospectivas histórias mostram que sim.

Agora, é fato que o comunismo não se fará em um passe de mágica, muito menos por decreto. Marx, Engels e Lenin escreveram muito sobre isso. Será necessário um tempo de transição, que é o socialismo. Esse tempo de transição preparará o caminho para o comunismo, a hora em que tudo será comum, comu-nitário. No socialismo ainda existem as classes, mas aí quem domina é a classe trabalhadora. E também será necessária a força, a burocracia, o estado. 

Por isso não faz sentido a gritaria dos capitalistas contra propostas como as de Cuba, por exemplo. É um governo forte, um estado forte, no qual quem domina são os trabalhadores. Na luta de classes cubana, pela revolução, venceram os trabalhadores. Eles comandam agora, e não a burguesia. Ah, mas eles são truculentos, violentos, tem presos políticos. Sim, são violentos, como eram violentas as forças que submetiam os trabalhadores antes. Quem não se lembra da ditadura de Batista? Ah, mas então é o dente por dente? Não. É porque ainda não é o comunismo, não há ainda a maturidade necessária para esse modo de organizar. Precisa ter Estado, precisa ter a organização hierárquica. E se o estado é o instrumento de dominação de uma classe sobre a outra, essa dominação é a dos trabalhadores sobre a burguesia. Até que todos estejam prontos para o salto, a nova ordem, o novo mundo, o mundo necessário. O socialismo é um período em que vão se depurar os projetos.

Assim que o comunismo, volto a dizer, é uma necessidade biológica. Porque nós, os humanos, temos esse desejo pelo que é bom, pela festa, pela beleza. Esse é o nosso propósito. Não é possível que a gente aceite, como raça, viver como estamos vivendo agora: oprimidos, violentados, massacrados, consumindo o planeta. Como os escravos e os servos nós também avançaremos para um tempo melhor. É infalível. 

Por isso vamos caminhando, pavimentando essa estrada de maravilhas. Talvez nós mesmos não venhamos a viver nesse mundo sonhado. Mas, não importa. Para ele estamos indo, inexoravelmente, e ele já existe dentro de todos os que o acreditamos possível. Como o casulo se transforma em borboleta. Assim será!


     

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Entregando o pré-sal


O senado brasileiro votou ontem à noite a favor do regime de urgência para a discussão e votação do fim da exclusividade de exploração do pré-sal pela Petrobras. O resultado foi apertado: 33 votaram pela urgência e 31 votaram contra. Isso significa que o projeto do senador José Serra (PSDB), que pretende entregar o pré-sal para as garras das gigantes transnacionais irá mesmo à votação, e em regime de urgência. Ou seja, não poderá haver qualquer adiamento. A decisão será tomada.

Os senadores catarinenses Dalírio Beber (PSDB) e Paulo Bauer (PSDB) votaram pelo regime de urgência, aliados com Serra.  Dário Berger (PMDB) votou contra o regime de urgência.

A considerar o resultado dessa votação, é praticamente seguro que a maioria vote favoravelmente ao senador do PSDB. É certo que a Petrobras já tem vários setores privatizados, mas ainda é uma estatal cuidando de um setor estratégico (energia). Passando a proposta de Serra, o Brasil e os brasileiros perdem e perdem feio, inclusive soberania.

O argumento do senador José Serra para entregar o pré-sal é de que a estatal brasileira (Petrobras) não têm os recursos  para tocar a exploração do petróleo no ritmo acelerado que ele considera deveria ser. Assim, propõe que se retire a exigência de que a Petrobras tenha participação assegurada na exploração de cada uma das áreas do pré-sal. Arregaça as portas para os estrangeiros.

Na verdade, a proposta de Serra está alicerçada no desejo das multinacionais do Petróleo que querem abocanhar as reservas a baixo custo. Assim, ele capitaneia mais um vergonhoso momento de entrega do patrimônio brasileiro promovido pelo PSDB, como foi a entrega da Vale do Rio Doce,  no governo de FHC. A intenção que se esconde por trás de mais essa vilania é a destruição da estatal do petróleo, além de entregar aos estrangeiros reservas que são estratégicas para o país. Uma vergonha.

Enquanto isso, os brasileiros estão completamente alheios ao que se passa dentro do Congresso, visto que os meios de comunicação sequer mencionam o que pode acontecer caso a exclusividade da Petrobras seja retirada. 


Apenas uma grande mobilização nacional poderia mudar o quadro da votação. Haverá? 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Líricas - lançamento dia 09 de março


Meu mais novo livro será lançado no dia 09 de março, quarta-feira, às 19h, no Bar do Zeca, espaço amoroso do bairro que escolhi para ser o bairro do meu coração: Campeche. O bar é rootzeira, coisa de gente da terra, com um grupo de trabalhadores que já são amigos do coração. Como o livro tem muitas crônicas do Campeche, não poderia ser em outro lugar...

Para chegar é fácil. Pega a Pequeno Príncipe e vai toda vida até o mar. No lado direito está o bar. Espero os amigos!!!

Abaixo reproduzo a apresentação feita de maneira muito generosa pela amiga e companheira jornalista Miriam Santini de Abreu.

A menina da rua da Coruja Dourada

Míriam Santini de Abreu

Parte da magia do jornalismo é empalavrar cotidianamente a realidade. E esse gesto de empalavrar tem várias formas e fôrmas, uma delas essa que escorre dos textos publicados pela jornalista Elaine Tavares no blog Palavras Insurgentes (eteia.blogspot.com) e que agora compõem a presente coletânea “Líricas: a palavra amorosa do cotidiano”.

O blog, no qual são postadas reportagens, artigos, comentários, fotografias e vídeos, tem sido, desde que foi criado, uma referência como voz dissonante no jornalismo cada vez mais acrítico que se pratica na atualidade. Ou que, quando crítico, se faz voltado para alugar o discurso aos poderosos, que dele se valem para disseminar o desentendimento venenoso da realidade. A escrita de Elaine, semeada em centenas de posts, amplia a compreensão do modo como a cidade se transforma em uma mercadoria à venda, mas também do movimento contrário, da resistência de mulheres e homens que desvelam essas negociatas e a combatem no cotidiano.

Os textos narram histórias de resistência pelo meio ambiente saudável, a paisagem aberta a todos, a cultura popular, a educação de qualidade, a informação a quem dela queira se apropriar, sem o controle dos oligopólios criminosos. Dessa forma, o blog – cujos textos são reproduzidos Brasil afora – também é um farol para as novas gerações de jornalistas, sinalizando o caminho das lutas populares percorrido até aqui e a escrita possível e necessária para mantê-lo aberto e pleno das narrativas de suas personagens.

Para esse seu décimo primeiro livro, Elaine pinçou do blog a escrita que, entre 2008 e 2014, se alarga no dizer de si, das cidades, dos caminhos, dos homens e mulheres que os percorrem. E assim ficaram atemporais as palavras amorosas do cotidiano, nessa escrita absurdamente célere da autora, que na sua prática cotidiana escreve como se os textos fossem frutos pendurados nos neurônios, bastando aos dedos no teclado o desejo de colhê-los. E palavras e parágrafos se avolumam para contar de Florianópolis e de outras terras, narrar as lutas de quem deseja que essa estreita faixa de terra no Atlântico não seja apenas para os ricos e bem-nascidos.

Os textos igualmente são pincelados pelos elementos da croniportagem, um gênero inventado pela equipe da revista Pobres & Nojentas, que Elaine edita e que já está na 30ª edição. A croniportagem  mistura elementos da crônica, posto que focaliza o cotidiano, e também da reportagem, visando a profundidade e a análise. 

São características da crônica, diz Massaud Moisés no livro “A criação literária”, a ambiguidade, a brevidade, a subjetividade, o diálogo - que possibilita uma conversa imaginária com o leitor -, o estilo, entre o oral e o literário, a temática, sempre ligada a questões do cotidiano, e a efemeridade. A croniportagem aproveita, em maior ou menor grau, todos esses elementos, aos quais acrescenta dois atributos da reportagem jornalística: a entrevista e a contextualização.

Assim é que, pincelado pelo viés ficcional, o texto “Um mate com `el comandante`” traz esse elemento de contextualização, em que a narradora conta ao visitante as derrotas dos povos latino-americanos, mas também as lutas e vitórias em Florianópolis, na Bolívia, em Cuba. O mesmo acontece em “Lá se foi o seu Chico” e “O menino e Artigas”, um o homem que abria seu recanto para ideias de liberdade compartilhada, outro o herói enlaçado pelos braços de uma criança, ambos sujeitos de histórias de enfrentamento pela terra.

Alceu Amoroso Lima, na já clássica obra “O jornalismo como gênero literário”, diz que o “ jornalismo vive o cotidiano, o efêmero, o que passa, e sabe, se realmente o for de verdade, ver nele a nota típica, diferencial, única, e portanto permanente, mas em sua unidade efêmera, e não na sua expressão perene, como o faz o poeta ou o ensaísta”. E ainda: o jornalista “... vive no tempo e capta a mensagem do tempo, do seu tempo, da hora que passa. Do dia a dia”. Essa nota diferencial no olhar para a realidade permeia os textos dessa coletânea.

Parte deles se volta para a compreensão da cidade, do espaço público do encontro, do conflito, do entendimento de si e do outro. Os lugares percorridos a pé, de ônibus e pelos fios da memória, unindo o tempo - o fio condutor do jornalismo - e o espaço. Textos também ancorados nas mudanças de estação, nos ciclos dia/noite, na relação memória/história. Exemplos desses líricos sobre Florianópolis, João Pinheiro, Uruguaiana, Caxias do Sul, São Borja, lugares onde Elaine morou, aparecem em textos como “O ônibus das 17:15” e “Os caminhos do Campeche”:

Na volta para casa, em meio às veredas, acompanham as curruíras, as cambacicas, as currecas, os coleirinhas, os canários da telha, os ferreirinhas, as rolinhas. Gritam os grilos, relincha um cavalo e, antes mesmo que a noite estenda seu manto escuro, já se pode vislumbrar os vaga-lumes, vagalumeando sob nossas cabeças, com as luzinhas verdes a piscar. É um assombro de beleza que só termina ao se chegar em casa, quando as corujas esperam no muro, virando as cabeças e fazendo arrulhos de boas vindas. É abrir o portão e se deixar envolver pelos gatos que se enroscam nas pernas e pelos homens que são a razão do meu viver. Viver no Campeche é caminhar na beleza.

Em “Por aí, esperando a faísca...”, a autora deixa explícita essa relação com o ser ancorado onde passa, dono do plano, das lonjuras, do horizonte:

Aprendi com Walter Benjamin a andar pela minha cidade feito um viajante, com os olhos procurando ver o que sempre ali esteve, mas de um jeito diferente. Olhos de assombramento, de quem não naturaliza as coisas, de quem está frequentemente admirando o cotidiano, seja para celebrar ou denunciar.

Olhar de jornalista a fazer a ligação lugar-mundo, a levar quem lê a compreender a injustiça na divisão do espaço e do tempo, a justiça da luta para que todos possam experienciar em plenitude esse fluir. O mestre Antônio Olinto diz no seu “Jornalismo e Literatura”: “O jornalista luta pelo esclarecimento de todos. Vai ao fundo mesmo das coisas, descobre a beleza de cada madrugada, a revolta de todos os fracassados, o amor de um adolescente, o silêncio do quarto de um morto, o brilho de uma onda contra o sol. Descobre apenas o que está aí, diante dos olhos de todo mundo, mas que pouca gente vê. Sua luta é um descerrar, um abrir de cortinas, para que seu companheiro, o homem de cada dia, veja o que está sob as aparências casuais da paisagem”.

No texto “E ele distribuiu a água e o queijo!” o leitor conhece Sebastião, o homem que apareceu na estrada para saciar os famintos e nada cobrou. Era socialista talvez sem o saber: “Ninguém disse nada, mas dava para sentir que todo mundo naquele veículo havia sido tocado pelo amor”.  Em “Uma sombra em rebelião”, a autora encontra a outra em si mesma, na sombra que se movimenta à revelia do corpo que a produz: “Então, no meio da noite clara, na companhia dos vagalumes, nenhum som se fez. Minha sombra calada ficou e seguiu ordeira, do meu lado, pouca coisa atrás”.


Nesses tempos de debate sobre os impactos da internet e das redes sociais na teoria e prática do jornalismo, essa coletânea expressa em palavras essa capacidade do artista “de sentir sentimentos estranhamente verdadeiros e de transmitir sentimentos estranhamente verdadeiros”, como diz Antônio Olinto no seu “Jornalismo e Literatura”. Elaine cita em mais de uma crônica o dizer dos índios navajos que é a essência de suas existências: “viver é caminhar na beleza”. Nessa coletânea, também a escrita caminha na beleza, livre do rebanho dos discursos gastos, em sua estranhamente verdadeira capacidade de empalavrar a realidade.