quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Bolívar, na caixa





A universidade também tem seus segredos. E foi assim que, numa caixa velha, abandonada no saguão de entrada do Centro Socioeconômico, encontramos vários livros e revistas que seriam descartadas no lixo. Curiosos, fomos “catar”, pois sempre pode haver uma pérola não vislumbrada. Foi o caso.

Em meio aos papéis encontramos uma edição especial, de 1995, feita pela revista Isto É, da Editora Três, da obra de García Márquez, “O general em seu labirinto”, que conta a história de Simón Bolívar. O trabalho é em formato de revista e conta com oito fascículos. Não bastasse o texto ser um primor (a tradução é de Moacir Werneck de Castro), ele ainda vem acompanhado de desenhos que retratam momentos da vida do libertador. O traço, belíssimo, é do chileno Gonzalo Cárcamo, que vive no Brasil desde 1976.


Cárcamo é ilustrador, aquarelista, autor de quatro livros infantis e um de aquarelas sobre Paraty. Tem uma obra incrível que pode ser conferida na sua página do facebook. Coisas de tirar o fôlego.

Mas seus desenhos sobre Bolívar acertaram direto no meu coração...


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Banco Mundial e a Internet



Relatório do Banco Mundial - o banco que adora dar pitaco nas políticas públicas dos países subdesenvolvidos - divulgado essa semana dá conta das seguintes informações:

1  - A internet não democratiza a informação
2 - As novas tecnologia não melhoraram o acesso aos serviços públicos
3  - A internet aumentou a desigualdade no mundo
4  - Quem tem educação de qualidade e recursos financeiros consegue aproveitar melhor a internet
5 - A tecnologia é inútil para 20% da população mundial que ainda é analfabeta
6  - No planeta, 60% da população não tem acesso à internet.
7 - A tecnologia emprega entre 3 a 5% da população nos países desenvolvidos, nos subdesenvolvidos emprega 1%.

Com base nisso, o Banco orienta que deve ser feito um esforço de oferecer uma educação que habilite as pessoas para as tecnologias.

Conhecendo a instituição, já se pode imaginar o que isso significa. Programas de educação cada vez mais tecnologizados e emburrecedores. Como se pode perceber pela pesquisa do próprio banco, o problema não parece ser a falta de habilidade, mas sim a falta de condições de acesso. Habilidades se conseguem em cursinhos rápidos, já a possibilidade de estar conectado exige condições econômicas, o que significa a necessidade de uma mudança no modo de organizar a vida.


Como diz o Suricate seboso: valamideuzi!!!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A racionalidade da má política


Foto: Notícias do Dia


Ao ler a notícia de que o prefeito César Souza e seus secretários decidiram fechar com areia a foz do rio Brás, que deságua no mar de Canasvieras, como a solução para o problema de contaminação por esgoto, aparece um único pensamento: isso é uma irracionalidade. Mas, depois, com mais frieza, observa-se que essa é a única racionalidade que essa gente conhece. Para esse tipo de político, que não tem qualquer ligação afetiva com a cidade, o que precisa é estancar o problema imediato, para evitar a debandada dos turistas. É que a contaminação do mar estava levando vagas de gente para os postos de saúde do bairro, com uma série de problemas de saúde, e logo depois direto para fora da ilha.

Pouco interessa ao  prefeito e seus secretários conhecer a origem do problema, saber desde quando que aquele bairro joga esgoto na praia, ou todo o tipo de agressão que o velho rio vem sofrendo desde há décadas, com toda a especulação imobiliária feita, muitas vezes, sem qualquer planejamento, ao bel prazer da alterações de zoneamento aplicadas pelos vereadores. No final das contas, a culpa da onda de doenças na praia ficou para o Rio Brás. Julgado e punido ele recebeu cargas e cargas de areia, para que não mais chegasse ao mar. E agora, o que fazer com ele? Entubar, desviar, drenar, o quê? A melhor opção, fruto dessa racionalidade cezística, é fazer o maldito desaparecer. E a merda? Ah, a merda, certamente darão um jeito de enterrar.

O drama do rio Brás não é caso inédito na cidade. Vários dos rios da ilha foram virando riscos de esgoto por conta de uma cidade sem planejamento e sem cuidado com a vida. Quem se lembra do velho rio da Bulha enterrado sob a Hercílio Luz, morto sem dó e hoje escondido pelo asfalto? Ou o pobre rio do Noca, no Campeche, ou o rio Rafael? E o Rio Tavares, que ainda se mostra como uma água suja na entrada do bairro, como a pedir socorro diuturnamente? E o rio do Carreirão, que ficava ali onde termina a rua Presidente Coutinho? Tudo destruído em nome do progresso. Com eles a solução foi a mesma. Se enfeavam a cidade com o cheiro podre da merda, a punição era esconder, entubar, tirar do alcance da vista.

Mas, a água que brota nos caminhos naturais sempre encontra um jeito de se livrar. Por isso mesmo que ainda acontecem alagamentos nos mesmos lugares onde antes eram caminhos de rio. A natureza dá jeito de sobreviver em meio ao processo de destruição levado a cabo pelos humanos. Assim, encher de areia a saída do rio do Brás não vai resolver nada. Só um paliativo para os negócios.
Florianópolis é uma ilha, não é um espaço interminável onde podem os seres se aglomerar uns sobre os outros nos prédios bonitos. Há limites para a água, para a luz, para a mobilidade. Há limites, não tem jeito. Não é uma ilha elástica que pode se alargar por conta dos desejos dos empreiteiros. Ela é um espaço "imexível", sem chance de se espraiar. Ou se entende isso ou certamente se destruirá o paraíso.

Para os que ricos, a solução é simples. Se a cidade ficar insuportável eles pegam o avião e se vão para outro lugar. Mas e os que não podem ir? Que farão? Terão de se conformar em viver numa cidade destroçada, ladeada por água, sem que se possa tocá-la. Uma cidade sem água potável, colapsada energeticamente e na qual andar é um sofrimento.

O fato é que muito já foi destruído, por esse e por tantos outros políticos que já passaram pela administração. Também as gentes comuns, os cidadãos da polis, destroem e burlam as regras em nome de seus desejos. A responsabilidade não é só de uma parcela da população. Mas, há algo que não podem esconder. Gente há que estuda, que luta, que propõe soluções sustentáveis e equilibradas ambientalmente. Gente há que sabe que esse é um recanto turístico digno de ser visto por todo o mundo. Mas, isso tem de ser feito de um jeito que não se destrua justamente o que as pessoas vem buscar.   Um exemplo é a proposta do Parque das Três Pontas. Turismo comunitário, sustentável, com menor impacto de predação. Mas, em vez disso, querem colocar na ponta um hotel de 18 andares. Aí, em vez de trabalho para os pescadores, beleza para os turistas e vida para os bichos do mar, teremos quilos e quilos de merda jorrando na beira do mar.

Hoje foi o rio do Brás, ontem já foram tantos outros, destruídos e enterrados. Amanhã será o quê? Seguiremos colocando areia, escondendo a sujeira?

A ilha é uma ilha. Ela está esgotada. Temos algumas opções. Ou a mantemos no oxigênio, numa sobrevida, ou cuidamos dela, para que seja bela e plena. Estou pela segunda opção e nesse desejo caminho com gente que tem respostas técnicas e políticas para que nossa cidade siga sendo um pequeno paraíso.  Que se escutem essas vozes, os chamados eco-chatos, os ambientalistas, os urbanistas, os representantes comunitários do Plano Diretor, os que conhecem e amam a nossa histórica Meiembipe.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Quando morre uma criança



Tamir Rice, 12 anos, foi assassinado pela polícia de Cleveland, Ohio, Estados Unidos, em novembro de 2014, quando brincava com uma arma de plástico num parquinho. Nesse último dezembro as autoridades do estado informaram que nenhum dos policiais seria julgado pelo crime. O líder negro Múmia Abú-Jamal escreveu esse texto quando soube do fato, agora em dezembro de 2015. Um texto que tanto serve para pensar esse assassinato, como o do menino indígena Vítor Pinto.




"Existe algo de devastador na morte – o assassinato – de uma criança.

Quando morre uma criança, a ordem natural se desagarra, as estrelas choram e a terra treme.

Estamos tão acostumados a este sistema que consideramos a morte de uma criança como algo natural, não como resultado do abuso humano.  Os políticos, que são pagos pelos chamados sindicatos de policiais, baixam a cabeça vendo as bolsas de prata e fazem que não enxergam que uma criança foi morta, especialmente se é uma criança negra.

Que instituição criada pelos homens é mais importante, mais valiosa, que uma criança?

Que trabalho?
Que profissão?
Que posição política?
Que estado?

Quando morre uma criança, os adultos não têm o direito de respirar o ar que está ao seu redor.

Quando uma criança morre, os vivos não devem descansar até que não tenha sido eliminado o veneno que se atreveu a causar danos a esse criatura.

Quando uma criança morre, o tempo tenta regressar e busca corrigir tal erro.

Isso é o que deve inspirar os movimentos mundiais, para lutar como jamais se lutou.  

Porque algo detestável se passou diante dos nossos próprios olhos.

Uma criança foi assassinada, e como é um menino negro, nos Estados Unidos da América, sua morte não significa nada".


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ato em Imbituba reúne indígenas e militantes sociais



Fotos : Celso Réggio/Imbituba

De Florianópolis partiram os Guarani e outros militantes da causa indígena. Seguiram para Imbituba, mais ao sul, onde foram participar de um ato de protesto contra o assassinato do menino kaingang Vitor Pinto, de dois anos, degolado no colo da mãe. Os Guarani se mobilizaram porque sabem muito bem o que é o preconceito, a discriminação e a violência. Afinal, vivendo tão próximos da capital e do mar, eles tem sido sistematicamente desqualificados pela mídia comercial, que reforça a mentira de que os Guarani não são dessas terras, que são preguiçosos e inúteis. Mês após mês, ano após ano, apesar das ritualísticas matérias de 19 de abril, nas quais se idealiza um índio que nem existe, a prática é de fomento do preconceito. Tal qual os negros e os pobres eles são massacrados diuturnamente.

Assim como em Imbituba, cidade litorânea, onde a família de Vitor foi buscar uma maneira de vender seu artesanato e garantir o alimento, também Florianópolis recebe todos os dias famílias indígenas que buscam espaço para a venda da cestaria, colares e bichinhos de madeira. São as estratégias mínimas para conquistar o mínimo. Os Guarani do Morro dos Cavalos, por exemplo, até hoje não conseguiram a demarcação definitiva de suas terras e precisam lutar cotidianamente contra a discriminação e o ódio de toda uma comunidade que não suporta sua presença nas margens da 101.

Por isso eles foram à Imbituba, liderados pela valente cacica Kerexu Yxapyry (Eunice Antunes). Ela, que vive recebendo ameaças de morte por parte de gente que vive dentro da terra indígena, sabe muito bem o que é viver nesse fio da navalha entre a batalha por viver, e a luta por fazer reconhecer o direito de existir. Eunice, tal qual a mãe de Vitor, também tem filhos, e sabe o terror que é estremecer a cada barulho estranho vindo da estrada. A vida dos indígenas é dura demais. Nem podem mais viver como viviam, nem conseguem estar integrados a uma cultura que não é sua, tampouco podem viver conforme suas tradições. É um constante desfazer-se, desenlaçar-se, desenraizar-se.

Mas, para ir ao protesto em Imbituba não precisava ser indígena. Qualquer pessoa - seja mãe, ou pai, ou filho - deveria ter apontado suas velas para baixo daquela árvore que foi testemunha da morte de Vítor. Render homenagem ao menino. Pensar coletivamente sobre a sociedade que temos construído como humanos. Uma sociedade capaz de produzir o abandono dos primeiros donos da terra, bem como a alma em escombros do garoto que puxou a faca e tirou a vida de Vítor.

Uma reportagem feita pelo jornalista Renan Antunes levantou vários elementos sobre quem é Matheus Ávila Silveira, o garoto de 23 anos que está preso como principal suspeito do crime, uma vez que ele mesmo chamou a polícia e se entregou. Ouvindo familiares e vizinhos do rapaz, Renan traça o perfil de  abandono e sofrimento que teria levado Matheus a caminhos tortos, os quais desembocaram naquele 31 de dezembro, na rodoviária de Imbituba. Ou seja, o assassino aparece como vítima de violência, preconceito e discriminação, os mesmos elementos que permeiam cotidianamente a vida do povo indígena.

Ainda não se sabe o que, de fato, levou Matheus a escolher aquele menino em particular. Se foi um crime racial, se foi um ato de loucura. Nenhuma informação foi liberada pela polícia que segue na busca da arma do crime e de outras evidências, visto que têm 30 dias para finalizar o inquérito. 

Enquanto isso, os parentes indígenas tratam de não permitir que tudo seja esquecido. E, com fitas vermelhas no pescoço, simbolizando o sangue derramado do inocente, eles manifestaram sua dor, acompanhados de outros militantes da causa indígena. Em Chapecó, também o povo Kaingang realizou uma ato público, exigindo os motivos do crime. Para os familiares, que perderam Vitor de maneira tão brutal, faz-se necessária a justiça. Mas, a todos parece cruel demais vivenciar a dor de uma vida de exclusão e ainda ter de prosseguir sem entender o que aconteceu de verdade naquele dia em Imbituba. Por quê? Por quê?


E assim, enquanto a vida segue, no verão catarinense de praias lotadas, essa pergunta ficará martelando a cabeça daqueles que se importam. 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Al otro lado de la lluvia


Impossível não mergulhar na dura e triste realidade dos povos da América Central lendo esse poderoso livro do escritor guatemalteco Rafael Cuevas Molina, "Al otro lado de la lluvia". A partir da mirada de duas mulheres ele narra o assombro da violência, do medo, da tristeza e do êxodo vividos por milhares de famílias naqueles cantões da fatia estreita do mundo cetro-americano. Acompanhando a intimista saga de Clara e Esperanza a gente vai se embrenhando  naqueles anos de tanta dor que foram os 60 e 70 do século XX.  

Nada está dito, a narrativa traz apenas a vida em imanência. Mas tudo está explícito, tal qual a chuva que nunca para. Quando a vida era boa e se sonhava, e quando vieram os duros anos de armada resistência. Sabe-se dos que arriscavam a vida por um mundo bom, e dos que sempre usaram a carência do outro para crescer. Sabe-se de ausências, de amores, de lágrimas, de fortalezas, de esperas, de mortes e de esquecimentos. A narrativa é leve, quase lírica, se contrapondo a toda dureza da realidade. 

O livro é pequeno, mas suficiente forte para ficar doendo por horas a fio. Deixa o gosto amargo de um tempo que impôs tantas perdas, mas que também fortaleceu os espíritos que sobreviveram. Um fio de esperança escapa pelas páginas quando as personagens decidem seguir seus caminhos, ainda que com a alma em escombros. A vida sempre chamando, desde as profundezas. 

Rafael Cuevas Molina é nascido na Guatemala, mas vive hoje na Costa Rica, onde atua na Universidade Nacional. E esse é apenas um dos seus livros, os quais estou vagarosamente sorvendo nesses dias de estupor.

sábado, 2 de janeiro de 2016

E mataram um menino kaingang...
























Artesanato Kaingang - Foto: Professora Maria Ester

O primeiro originário dessas terras a perceber que os homens brancos e barbudos que chegavam pelo mar, naquele distante 1492, não eram "flor que se cheirasse" foi  Hatuey, um jovem cacique da etnia Taíno, que vivia onde hoje está a República Dominicana, lugar onde desembarcou o grupo de Cristóvão Colombo. Bastaram alguns encontros para que ele percebesse que a cobiça e a violência eram tudo o que eles traziam. Foi então que decidiu dar combate aos espanhóis, mesmo em desvantagem no quesito armas. Percebeu aí que sozinho não poderia vencer e decidiu ir remando até a ilha próxima, onde hoje fica Cuba, para avisar aos demais povos da região sobre as atrocidades  que o grupo estava cometendo e preparar a resistência. Junto a um baú com ouro e joias, ele falou aos parentes: 

"Este é o Deus que os espanhóis adoram. Por isso eles lutam e matam, por isso eles nos perseguem e por isso é que temos de atirá-los ao mar. Nos dizem, esses tiranos, que adoram um deus de paz e igualdade, mas usurpam nossas terras e nos fazem de escravos. Eles falam de uma alma imortal e de recompensas e castigos eternos, mas roubam nossos pertences, seduzem nossas mulheres, violam nossas filhas. Incapazes de nos igualar em valor, esses covardes se cobrem com ferro que nossas armas não podem romper".

Hatuey liderou muitas batalhas, mas acabou sendo capturado. Sofreu horríveis torturas foi condenado a morrer na fogueira. Contam que um padre, de nome Olmedo, ainda tentou convertê-lo na hora final. E Hatuey encontrou forças para perguntar:

- Os espanhóis também vão para o céu dos cristãos? 
- Sim, claro - disse Olmedo.
- Então eu não quero o céu. Quero o inferno. Porque lá não estarão e lá não verei tão cruel gente. 

Nesse final do ano de 2015, um pequeno garoto da etnia Kaingang encontrou com Hatuey em alguma terra sem males, bem longe da presença de gente tão cruel. O menino indígena, de nome Vitor Pinto, e com apenas dois anos de idade, foi degolado no colo da mãe, enquanto mamava. Um homem acercou-se, fez um carinho no rosto de Vitor e quando ele ergue os olhinhos para ver quem lhe afagava, recebeu o golpe fata. Um faca, ou um estilete, ainda não se sabe, lhe rasgou a garganta. A mãe, em choque, correu em busca de ajuda enquanto o homem saiu tranquilo para longe dali.

Na temporada de férias, é bastante comum que famílias indígenas se movam até o litoral para melhor vender seus artesanatos. E foi o que fez a família de Vítor, saindo de Chapecó, no oeste de Santa Catarina, indo para Imbituba, no litoral. Lá, obviamente sem condições de pagar uma hospedagem, eles tiveram de improvisar e encontrar algum lugar razoavelmente seguro para dormir. O melhor espaço foi o da rodoviária, onde havia movimento e, por isso mesmo, segurança. Jamais poderiam supor que alguém, de maneira tão deliberada, pudesse fazer o que foi feito.

Três dias depois do assassinato foram divulgadas as imagens capturadas por algum dessas câmeras de rua e nelas se vê o rapaz se aproximando, normal, como se fosse conversar. Foi tudo muito rápido. A mulher estava sentada no chão, com o filho no colo. Ele chegou, abaixou-se, moveu a mão, primeiro no carinho, depois no golpe, e saiu. Tudo depois é perplexidade e dor. 

Um garotinho indígena degolado enquanto se alimentava. Uma cena de arrepiar. A mesma velha cena de mais de 500 anos, repetida e repetida, à exaustão. Desde a chegada dos espanhóis e portugueses às terras de Abya Yala, mais de 40 milhões de indígenas foram exterminados. Chamados primeiro de não humanos, depois de seres de segunda classe, infiéis, inúteis. Não é, portanto, sem razão, que alguém se ache no direito de fazer o que fez esse rapaz em Imbituba. Ato parecido foi feito em Brasília contra Galdino Pataxó, quando alguns rapazes ricos o queimaram enquanto dormia num banco em um abrigo de ônibus. 

É que ao longo de todos esses séculos foi sendo construída uma imagem negativa do indígena, justamente para que pudesse ser justificada a invasão e o roubo de suas terras e riquezas. Os índios são vistos como um atrapalho, uma lembrança desconfortável do massacre. Por isso que o melhor acaba sendo confiná-los em alguma "reserva" longe dos olhos das gentes. Mas, se eles decidem sair e dividir a vida no mundo branco, aí a coisa fica feia.

Assim que cada pessoa que siga disseminando essa ideia inventada de que índio é preguiçoso, é feio, é sujo, é ruim, é também cúmplice do assassinato de Vitor. Cada criatura que repete esses absurdos pelas redes sociais, nos encontros de família, na escola, nos bares e nas igrejas, armou a mão que degolou Vítor. E é responsável pela morte não só desse garotinho, mas de centenas de outros indígenas que tombam pelas mãos assassinas do latifúndio, da jagunçagem, do ódio. Esse mesmo ódio que escorre pela redes sociais contra o índio, o negro, as mulheres, os gays.   

No mundo capitalista, no qual tudo vira mercadoria, não há espaço para o indígena. E não é só porque ele é uma presença incômoda, lembrança indelével do primeiro crime - a invasão. Mas porque ele é também a recusa histórica desse sistema. Ele não faz da terra uma mercadoria, ele não explora os parentes em fábricas de coisas, nem inventa produtos inúteis para vender aos incautos.  O indígena pensa o território como espaço de vida e de espiritualidade. Reproduz suas cerâmicas, seus cestos, colares e bichinhos como resistência cultural e como única possibilidade de sobreviver no mundo que lhe foi imposto. E, se ocupa as ruas, as marquises e as rodoviárias é porque não têm outra escolha.

Então é assim, em Santa Catarina, nesse dia 30 de dezembro, um jovem se deu ao direito de degolar um menino Kaingang. Desde há anos a brava cacica dos Guarani do Morros dos Cavalos vem recebendo ameaças de morte por defender sua terra e sua gente, bem como os povos Xokleng e Kaingang vivem sendo escorraçados de outras praças e outras rodoviárias por autoridades competentes. Isso é coisa diária, sistemática, como também é sistemático o ataque dos meios de comunicação contra os povos originários. Essa máquina  ideológica do ódio e da opressão.

Agora, à família do menino Vítor resta a luta pela justiça. Um suspeito já foi preso e fala-se em "distúrbios psicológicos". Não se tem ainda a informação segura de quem é o assassino e o que o motivou. Mas, ainda que seja alguém "perturbado", isso não tira a responsabilidade daqueles que diuturnamente destilam ódio e preconceito contra os povos originários. 

O "mundo maravilhoso" da mercadoria insiste que não há lugar para o indígena no seu espaço. Mas, o que se vê é o movimento indígena brasileiro e latino-americano crescer a avançar na luta pelos seus direitos e pelos seu território. Isso não vai parar. Caem hoje os mártires, como naquele longínquo 1492 caiu Hatuey. Mas os que ficam não desistem, como não desistiram os Taínos, os Arawakes e todos os que caminhavam com o valente cacique. O pequeno Vítor, que sequer teve tempo de perceber que estava perdendo a vida, lá, na terra dos espíritos, será embalado por outros colos: Guyunusa, Guaicaipuru, Mani, Sepé.  Por aqui, vamos garantir a justiça. A grande marcha continua.

Vitor Kaingang, presente!