terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A revolução dos artefatos



Vem de muito longe nos tempos dessa nossa Abya Yala a lenda do  povo Mochica sobre a revolução dos artefatos, contada até os dias de hoje na cordilheira. Dizem que havia um tempo em que a terra era tomada por grandes guerras e havia muito sangue e covardia. Era tanta violência dos humanos, uns contra os outros, que as armas se cansaram de matar. 

Uma noite, depois de uma grande batalha, cheia de matança, os guerreiros estavam muito cansados e dormiram um sono muito pesado. Aproveitando-se disso, as armas fizeram uma assembleia e decidiram se rebelar. Contam que nessa noite todas elas se transformaram em seres humanos, tomaram os guerreiros como prisioneiros e começaram a ensiná-los a não mais fazer guerra nem cometer violência. Foi aí que veio um longo tempo de paz.

Quem dera esse nosso mundo fosse tomado por uma revolução dos artefatos, já que os humanos perderam o juízo...



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Cun da UFSC - cenas da vergonha

EBSERH é aprovada dentro da Polícia Militar



Durou 30 minutos a votação do Conselho Universitário que aprovou a adesão da Universidade Federal de Santa Catarina à Empresa de Serviços Hospitalares (Ebserh). Assim, numa tarde melancólica, sob a tutela da Polícia Militar, nas dependência de um quartel, a administração de Roselane/Lúcia coloca fim a décadas de vida de um hospital 100% público. Agora, administrado por empresa de direito privado, o HU vai conhecer a realidade das duas portas - uma do SUS e outra do plano de saúde, e toda a sorte de misérias que acontecem quando a saúde da população vira mercadoria.

Numa atitude que nem mesmo as reitorias que atuaram no regime militar tomariam, a reitora Roselane Neckel pediu à Polícia Militar para realizar a reunião nas dependências do quartel. E tudo isso porque não quis tolerar as manifestações de protestos de estudantes, professores e técnicos que exigiam que o Conselho Universitário respaldasse o plebiscito realizado na universidade pela própria administração, que deu a vitória a não adesão, em 70%.

Disposta a provar a adesão a reitora não seguiu nem mesmo os ritos liberais de livre manifestação de ideias. E, amparada pela força, colocou fim ao processo.

O local da reunião só foi divulgado de manhã cedo, embora o jornal Diário Catarinense  tivesse soltado uma nota com a novidade. Imediatamente a confirmação o professor Carlos Locatelli que era o relator da matéria, se manifestou dizendo que não participaria da reunião caso ela fosse mesmo realizada nas dependências da polícia. Em seguida, o parecerista de vista, professor Paulo Pinheiro Machado também solicitou que a reitora revisse a decisão e fizesse a reunião dentro da UFSC. Roselane se fez surda. A bancada dos técnico-administrativos também laçou nota dizendo que jamais participaria de um ato arbitrário e do que consideraram completa perda de autonomia. 

Quando bateram as duas horas da tarde, os TAEs permaneceram em frente ao quartel junto com alguns estudantes e professores conselheiros que também não entraram. Mas, pouco a pouco, os pró-reitores, professores e representantes do DCE foram chegando e cumprindo os rituais da PM. Assinavam lista e mostravam documentos. A reitora chegou quando ainda nem era uma hora da tarde, para evitar encontrar algum manifestante. Dentro do quartel estavam dois grupos da tropa de choque, que realizaram alguns exercícios de manifestação de força, e por toda a rua circulavam policiais montados em motocicletas. No portão, uns dez soldados faziam guarda. 

Durante toda a sessão o chefe de gabinete, professor Carlos Vieira, permaneceu na parte de fora do quartel, sentado no meio-fio, numa visão melancólica que bem representa essa gestão que encerra sua triste passagem pela UFSC. Roselane e Lúcia, as primeiras mulheres a dirigirem a Universidade entrarão para a história como pioneiras: foram as primeiras a cortar salário de trabalhador em luta, as primeiras registrar greve como falta injustificada ao trabalho, e as primeiras a realizarem uma reunião do Conselho nas dependências da Polícia Militar.  

Em menos de 30 minutos a votação estava realizada. Os conselheiros que aceitaram participar dessa triste sessão do CUn foram saindo com as caras amarradas, enquanto os estudantes gritavam "covardes" e "não nos representam". Apenas o professor Carlos Pinheiro,  o Maninho, saiu ironizando, rindo para os manifestantes e fazendo o V da vitória. Roselane e Lúcia escapuliram por alguma outra saída do quartel e não passaram pelo portão. E os representantes do DCE fugiram num carro, recebendo vaias dos colegas.  

A votação realizada sob a tutela da Polícia Militar foi de 35 votos à favor da Ebserh e dois contra. participaram, portanto, 37 dos 61 membros do CUn. A história haverá de responsabilizar esses professores  e estudantes que entregaram o Hospital Universitário para mãos privadas. 


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A gênia da lâmpada



Desde bem pequena fui encarnada em discos voadores. Lia tudo sobre isso e nas noites claras da fronteira eu procurava por eles, ingenuamente pensando que se viessem outros seres de algum lugar, eles seriam bons. Naqueles dias de infância até os humanos me pareciam bons, afinal, eram só os desse tipo que eu conhecia. Nos anos 70, ninguém me tirava de frente da televisão na hora do “Jornadas nas Estrelas”. Era fissurada, e amava Spock, o vulcano, tão inteligente tão doce.

Assim, foi com alegria que em 1993 vi nascer a série Arquivo X. Ela vinha com essa temática e eu comecei a seguir, um pouco desconfiada de que pudesse ter alguma série melhor do que a velha Jornada nas Estrelas. Mas, aqueles eram outros tempos e outras temáticas assomavam. Era bom e era diferente. Arquivo X também fazia crítica ao governo estadunidense e sua velha mania de acobertar os fenômenos UFOs. Com o passar dos capítulos, Arquivo X ainda tratava de outros assuntos quentes como as armações secretas e as maracutaias da CIA e do FBI, bem como sobre outros fenômenos do campo dos mitos e das lendas urbanas.

Não demorou muito e eu já estava apaixonada pelo Mulder, tanto quando amara Spock. O jovem agente do FBI personificava aquela criatura bondosa e irreparável. Amoroso, crédulo, compassivo, doce, corajoso. Tudo de bom.

Dentre os tantos episódios bonitos que mostram a bondade humana, essa coisa tão rara, um deles me encanta e faz chorar. É o do encontro entre Mulder e uma gênia que sai de uma lâmpada que ele encontra. Na história ele investiga uma série de mortes estranhas e violentas e acaba encontrando o que então descobre ser a lâmpada mágica, aquele que contém um gênio que permite três pedidos.

A cena é fantástica. Lá estão Mulder e a gênia, sentados num café. Ele tenta conversar com ela para que pare com as mortes. Ela insiste que tudo é culpa das próprias pessoas e dos desejos que fazem. O agente Fox percebe que ela sofre com seu destino e pergunta qual seria o seu desejo, se pudesse ter um. E ela, com olhos sonhadores, diz que tudo o que queria era ser uma pessoa comum, tomando um café em Paris, livre dessa maldição.

Mas, Mulder havia libertado a gênia, precisava fazer os pedidos. Era lei. Ele, podia pedir algo bem pessoal, como a volta da irmã, mas prefere o altruísmo, como sempre, e faz seu primeiro pedido: “que haja paz na terra”. Estava feito, disse a gênia. E se foi. Mulder então olha pela janela e vê que tudo está parado. Não há movimento nem pessoas. Ele liga para sua amada Scully e ela não responde. Não há mais pessoas no mundo. Tudo está vazio. Ele pira e invoca a gênia.

- O que você fez?
- Coloquei a paz no mundo – ela diz – Somente sem os seres humanos  a paz é possível.

Aquele momento aterrador. Mulder entende a mensagem sobre o perigo dos pedidos. Faz então seu segundo pedido: “que tudo volte a ser como antes”. E, em um segundo, lá estavam todos na rua, a vida, o barulho, o turbilhão. Mais tarde o vemos com Scully e ela pergunta sobre o caso dos assassinatos. Ele revela as causas e conta sobre seu incrível encontro com a gênia. Scully, sempre cética, não acredita muito na história, fantástica demais para sua razão instrumental. Mas, ainda assim, pergunta a Mulder sobre o terceiro pedido, já que ele teria direito a mais um, depois da cagada do “paz no mundo”. Ele sorri, aquele sorriso adorável, e faz uma carinha sapeca, bem típica do personagem quando comete um de seus arroubos de bondade e beleza. Não diz nada. Nós, os que estamos do outro lado da tela, entendemos tudo. Na cena, aparece a gênia, tomando um café, numa pequena mesa de um bulevar em Paris.

Mulder a tinha libertado. Pode algo tão singelo?

Uma delicada visão de Cris Carter sobre o humano, personificado naquele doce personagem.  Não é sem razão que Mulder sumiu e o personagem mais famoso hoje nos EUA é Drexler, um psicopata que mata com requintes de crueldade e tortura.

E eu, quando vejo notícias sobre o horror que o humano pode produzir, me encolho e evoco Fox Mulder e sua amorosa traquinagem. Abriu mão de toda riqueza e poder que podia ter, apenas para ver uma mulher feliz.

E tal qual a gênia, sento num café e fico olhando o infinito. Sempre haverá bondade? Ou isso apenas é possível numa fantasia de TV? Não sei...  

sábado, 28 de novembro de 2015

Encontro de Blogueiros de SC


foto: Iris Cavalcante

Participei nesse dia 27 do Primeiro Encontro de Blogueiros de Santa Catarina, promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, que é dirigido pelo jornalista Altamiro Borges. Na mesa que dividi com Milton Pomar falei sobre a conjuntura da mídia no estado, trazendo aspectos históricos da formação da mídia em Santa Catarina, centrando na formação do oligopólio da RBS a partir do final dos anos 70. No debate os temas foram os mais variados, a conversa foi rica. Lembrei que a democracia na comunicação só virá quando tivermos outra sociedade e que não é possível humanizar o capitalismo. Insisti que a comunicação alternativa é sempre resistência, e no mais das vezes pouco eficaz diante da abrangência e o poder dos meios comerciais. Resistir à formulação ideológica da mídia comercial é necessário, mas se não avançar desde aí, ficaremos sempre dando remédio para o monstro. É hora de caminhar para outra organização da vida. Unir, disseminar a comunicação que universaliza, fugir da manipulação, e abrir espaço para as vozes que não tem onde se expressar. Mas, sempre de olho no lá na frente, quando os meios serão nossos. 

O jornalismo na Furb


Estive na primeira semana acadêmica de jornalismo da Furb, um curso novo que vingou muito por conta da insistência generosa da jornalista Roseméri Laurindo, que é filha de Blumenau e há muito sonhava com um curso desses na região. Agora, nessa primeira semana organizada pelos alunos dá para ver o quanto é importante que se tenha um curso de jornalismo em Blumenau, voltado para os problemas locais, capaz de auscultar a realidade regional. E o que a gente vê é uma galera curiosa, interessada em fazer a diferença. O jornalismo está vivo e é uma das profissões mais necessárias do mundo. Contar as histórias, desvelar o que está escondido, narrar a vida na sua universalidade... Muita alegria em participar e poder contar a experiência de se praticar jornalismo nas margens.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ação de graças



Final de tarde, barra do dia se escondendo e eu fui dar uma espiada nas redes sociais, ver as notícias, saber o que está acontecendo e essas coisas. Com surpresa reparei várias postagens de gente saudando o Dia de Ação de Graças. Estaquei, cabelo em pé. Já não basta a tolice de festejar o halloween, uma festa gringa que nada tem a ver com nossos mitos? Agora essa? Festejar o "thanksgiven", outra festa típica dos Estados Unidos.  Então, talvez por conta de outras tantas dores represadas, chorei. Chorei até mais não poder.

O dia de Ação de Graças tem sua origem mais remota numa festa da colheita realizada pelos colonos recém chegados na terra nova. O primeiro desses festivais foi celebrado em 1620, em Plymouth, Massachusetts, por migrantes ingleses. Eles agradeciam pela boa colheita que tiveram depois de terem passado por alguns desastres no enfrentamento com os povos nativos durante o processo de invasão do território. Naquela colheita específica, eles contaram com a ajuda dos índios e com eles compartilharam a comida. Mas, tão logo a festa acabou, a guerra sem quartel continuou para "limpar a terra prometida dessas criaturas perniciosas", como atestam os escritos da época.

E é justamente por conta desse aspecto histórico que os povos originários dos Estados Unidos realizam nesse mesmo dia o "Dia do Luto". Eles recordam aos que invadiram suas terras que a boa colheita celebrada pelos colonos de Massachusetts só aconteceu porque eles levaram a cabo a destruição da vida daqueles que já viviam naquelas paragens, seja por morte, por contaminação de doenças ou escravidão. Por isso, fazem questão de jejuar e lembrar do genocídio que ainda não acabou.

Mas, apesar dos protestos no mundo indígena, a festa de ação de graças segue sendo o feriado mais importante do país, superando inclusive o natal. A data virou feriado em 1863, por decreto do presidente Abraham Lincoln.  

Tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, o Dia de Ação de Graças é um dia de encontro familiar. Quem mora longe aparece para o jantar e o peru enfeita todas as mesas. Também é nessa semana que o comércio aproveita para fazer suas mais quentes liquidações, aproveitando para garantir bons lucros.

Em outros países esse dia também é celebrado, com outras motivações, mas sempre buscando agradecer pelas dádivas recebidas. No Brasil ele também é celebrado desde 1949 porque Joaquim Nabuco, que foi embaixador nos Estados Unidos gostou da festa e quis reproduzi-la aqui.

Hoje, quando o movimento indígena busca recuperar seu território e fazer respeitar sua cultura, esse ainda é um dia de dor. Enquanto alguns agradecem por terem conseguido conquistar uma nova terra e fazer dela uma das nações mais poderosas do mundo, os povos originários que seguem confinados em reservas, sem terra e eternamente vítimas de preconceito e discriminação, lembram a conquista e tudo o que ela significou de sofrimento, dor, miséria e morte. Séculos se passaram desde aquele 1620, quando brancos e índios sentaram na mesma mesa. Essa partilha amorosa não se concretizou na vida cotidiana.  Por isso, os indígenas não tem nada para agradecer.


Alguém vai dizer que nós estamos sempre reclamando e que temos de dar o direito às pessoas que querem celebrar. Tudo bem. Direito concedido. Mas os que tiveram seus antepassados assassinados e toda sua vida cortada também têm o direito de protestar.