terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cacica Kerexu Yxapyry recebe medalha Zumbi dos Palmares






 

 Texto produzido pela assessoria do vereador Lino Peres

A cacica Kerexu Yxapyry (Eunice Antunes), da Terra Indígena Itaty, no Morro dos Cavalos (Palhoça/SC), receberá da Câmara Municipal de Florianópolis a Medalha Zumbi dos Palmares, por iniciativa do mandato do vereador Lino Peres. A Sessão Solene será nesta quarta-feira, 18, às 16 horas, no Plenário da Câmara.

A Medalha Zumbi dos Palmares homenageia pessoas e entidades que realizaram relevantes trabalhos ou destacaram-se no combate a qualquer tipo de discriminação e preconceito, na defesa dos princípios fundamentais da Constituição Brasileira e na promoção da vida, e integra a semana alusiva ao Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). 


A trajetória de Kerexu Yxapyry é resultado da ação de uma mulher guerreira, que, nos caminhos tortuosos da vida, obteve formação - concluiu o curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica - e hoje está conduzindo seu povo Guarani na conquista dos direitos e da dignidade, sejam direitos territoriais, de educação e o direito de defender e possuir a cultura Guarani. 


Em fevereiro de 2012, a homenageada foi eleita para o cargo de cacica da Terra Indígena Itaty. As eleições nas aldeias Guarani Mbya são feitas através da votação da comunidade, incluindo homens, mulheres, idosos, adultos, jovens e crianças. As primeiras ações como cacica foram dedicadas à questão da terra, bandeira que mobilizou sua eleição. Os Guarani têm sido alvo de uma disputa feroz por terras, contexto que em Santa Catarina atinge também a comunidade que vive em Morro dos Cavalos.


As ameaças que Eunice recebe até hoje começaram depois de assumir o cargo. As intimidações e violências consistem em diversos telefonemas anônimos advertindo sobre a intenção de colocar fogo em sua casa e nas de outros líderes e professores indígenas. Mesmo assim, ela e a comunidade continuaram com a luta.


No ano de 2013, houve várias manifestações de cunho racista, organizadas por pessoas e movimentos contrários à demarcação e homologação das terras indígenas, que, por não conseguirem barrar o processo nas esferas administrativas e judiciais, iniciaram ameaças e agressões, espalhando boatos para incitar os contrários à posse das terras pelos indígenas. Em 19 de fevereiro de 2013, a adutora de água que abastece a comunidade foi destruída por 38 cortes. Em janeiro de 2014, a comunidade indígena sofreu mais uma violência: novamente a adutora de água que abastece a comunidade indígena foi cortada, fato que se repetiu em 15 de dezembro de 2014.


No início de 2015, as ameaças de morte e a perseguição à cacica reiniciaram com grande intensidade, movidas pela decisão judicial que reconheceu a terra como sendo dos Guarani. Nos últimos meses, depois de episódios de graves ameaças contra moradores da aldeia, Eunice teve que registrar Boletins de Ocorrência. Apesar das ameaças, ela permanece firme no propósito de ver a terra indígena garantida para o seu povo.


Por esses motivos, a cacica Kerexu Yxapyry se destaca no combate à discriminação e ao preconceito contra a comunidade a qual pertence e, portanto, na defesa e na promoção da vida, o que lhe torna merecedora da Medalha Zumbi dos Palmares. 


O vereador Lino Peres destaca o simbolismo desta homenagem na Câmara Municipal da capital de Santa Catarina, estado que tem se notabilizado pelo sistemático ataque aos direitos indígenas e quilombolas. Têm sido frequentes as ações contra a demarcação das terras indígenas, agora ainda mais ameaçadas pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215/2000, elaborada na Câmara dos Deputados, que propõe alterar a Constituição para transferir ao Congresso a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação no Brasil. Atualmente, somente o Poder Executivo, munido de seus órgãos técnicos, pode decidir sobre essas demarcações.


 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Os Estados Unidos, o capitalismo, as mentiras e as verdades



Difícil tarefa de ver o que se esconde

Na contemporaneidade vários são os exemplos de mentiras deslavadas produzidas pelo governo dos Estados Unidos para respaldar ataques contra outros países. A mais conhecida diz respeito as falsas denúncias de armas químicas de destruição em massa do Iraque. Esse foi o motivo - inventado - que levou à invasão do território iraquiano em 2003. Outro engodo foi o 11 de setembro, quando derrubaram as duas torres do World Trade Center, o qual várias fontes alegam que foi uma grande armação dos serviços secretos estadunidenses para legitimar a invasão do Afeganistão. Sempre bom lembrar que tanto Sadam quanto Bin Laden eram amigos dos EUA, cria deles, inclusive, tendo sido treinados para defender os interesses dos Estados Unidos no lado oriental. 

Mentiras também foram usadas durante a guerra do Vietnã, com informações falsas sobre os "inimigos" bem como sobre o papel que os EUA desempenhava no conflito. Na verdade, os EUA atacaram o país apenas para barrar o que chamavam de "ameaça vermelha", o comunismo, o que seria ruim para seus negócios. Mentiras sobre Cuba, sobre a Venezuela, sobre o Chile.

Em 1898, quando reivindicava o que acreditava serem os seus direitos sobre Cuba à Espanha, os Estados Unidos chegaram a explodir seu próprio navio, o USS Maine, que estava ancorado em Havana, matando um terço da tripulação. E foi justamente a comoção pelas vítimas que fez com que a população aprovasse a guerra contra a Espanha. Tal como aconteceu no 11 de setembro que resultou em ataque imediato ao Afeganistão, como "resposta" ou vingança. 

Na atualidade, com a desestabilização criada no Oriente Médio, os Estados Unidos criaram - via mídia  - a figura do terrorista árabe, a qual tem servido de desculpas críveis para novas invasões e ataques. 

Ninguém é bobo de achar que os árabes são bonzinhos, coisa que nem asiáticos, nem americanos, nem qualquer outro representante do gênero humano é, por excelência. Existem os que são bons e os que se prestam às maldades mais atrozes, em qualquer etnia. Se temos o ISIS, temos também Guantánamo.  Mas, a ideologia produzida sistematicamente pelos meios de comunicação a serviço do governo imperial têm transformado qualquer árabe em inimigo. Exemplo mais recente foi o incêndio de um centro de refugiados na França, logo após o ataque terrorista em Paris, no qual, de maneira surpreendente, foi encontrado um passaporte sírio. Isso mostra o quanto as técnicas de mentira e de ideologização da realidade vão sendo copiadas pelos países que conformam o bloco do G-8, que são os que mandam no mundo. Imaginem que cabeça essa do terrorista que vai explodir uma multidão, passando primeiro em casa para pegar o passaporte, que servirá de prova sobre quem ele é. Ah, tá! 

O fato é que quase nada do que acontece no mundo é verdadeiro. No geral, o que aparece não é o que é de verdade. Mentiras, artimanhas, enganos, trapaças. Isso cabe a nós aqui no Brasil também, com coisas como a acusação de que os indígenas são o atraso do país, ou o crime da Samarco ou o incêndio na Chapada Diamantina. Sempre há que procurar o que está por trás das palavras, o que está por trás dos fatos. E se a pessoa apurar melhor as coisas vai logo perceber que tudo tem a ver com interesses financeiros de alguns poucos grupos, os quais tomaram de assalto os governos dos países, passando a agir com desenvoltura, destruindo vidas e mundos, sem qualquer compaixão.

Não é sem razão que os garotos e garotas que são recrutados pelo grupo extremista que se autodenomina Estado Islâmico, abandonam tudo para vivenciar a violência mais voraz. Eles geralmente são vítimas dessa violência, ou seus pais e avós. E, ao final, são encantados pela ideia da beleza da barbárie, cometendo atrocidades múltiplas e divulgando-as mundialmente como grandes feitos. E por que não seriam, se a barbárie é a que parece sempre vencer?

Hoje, dias depois dos atentados na França, ainda reverberam as discussões nas redes sociais sobre a colonialidade da dor. Afinal, a apresentadora da Globo chora pelo franceses (europeus, brancos), mas não chora pelos palestinos (semitas, morenos) que são bombardeados todos os dias desde 1947 ou pelos mortos de Bento Rodrigues. E ainda há os que dizem que não há hierarquização na tragédia. 

Mas, isso também é uma maneira de tentar tapar a realidade. Há hierarquização sim. Noam Chomsky, que é um teórico estadunidense, já mostrou como isso é real no seu lindo livro "Os guardiões da liberdade". Quando a vítima é aliada dos donos do mundo, a sua dor é viralizada, divulgada à exaustão. Mas, se a vítima é inimiga do donos do mundo ou se lhes é indiferente, então a sua dor cabe numa nota de rodapé, ou é simplesmente ignorada como acontece com os horrores perpetrados pelos capitalistas na África, ou na Ásia, ou na América Central ou mesmo no centro dos seus mundos.

O fato é que quando cai uma vítima do sistema, ela precisa mesmo ter sua tragédia escondida, para que não se gere a consciência de classe. Já quando quem tomba é do alto da pirâmide a coisa muda de figura, cria-se a ideia de que somos todos iguais na dor. Não somos. Nem na alegria, nem na dor, nem na vida mesma.

Então, não é de estranhar para nada que o facebook, esse projeto de emburrecimento e alienação, coloque a bandeira da França para customizar as fotos, e não coloque a da Palestina. Porque esse sistema de comunicação massiva é de propriedade do sistema. Seria mesmo um absurdo que ele se preocupasse com a dor dos pobres. Por isso parecem-me incognoscíveis as reclamações que se fazem na rede. Será possível que as pessoas não percebam isso?

E desse modo vamos caminhando com as caras enterradas nos celulares "espertos" conectados a uma realidade falseada.

Enquanto isso na realidade das gentes empobrecidas, bem aqui no nosso quintal, crianças e adolescentes ocupam escolas para que elas não fechem. Levam porrada, veem seus professores sendo brutalmente agredidos pela polícia que deveria protegê-los, mas não arredam pé. E de maneira subversiva vão usando o grande irmão, o facebook, para difundir sua luta. Só que, como não poderia deixar de ser, obscurecidos pelos mais variados espetáculos cotidianos que ganham todo o foco do sistema. 

Essa é a vida, nossa ordinária vida. A luta de classes que não cessa.   

CUn discute a Ebserh



Nessa terça-feira, dia 17 de novembro, o Conselho Universitário finalmente vai discutir os destinos do HU. Depois de um plebiscito realizado na instituição, e que deu vitória para a não adesão ao sistema da Fundação Privada, é hora de o conselho superior da UFSC homologar esse resultado. Esse, é claro, seria o melhor dos mundos, mas ninguém sabe se será assim. Comunidade se mobiliza, a partir das 13h e 30min, na reitoria.

A velha chantagem de que "se não privatizar o HU vai fechar", já há tempos circula pelo campus, sendo pregada pelo diretor geral do hospital, bem como pelos médicos e diretores de unidade. Segundo eles, por determinação do Ministério Público, os 134 trabalhadores que ainda estão contratados pela Fapeu, já receberam o aviso prévio e devem ser demitidos no mês de dezembro. Com isso haverá um déficit significativo no quadro de trabalhadores, o que implicará no fechamento de alguns serviços.

Em correspondência aos membros do Conselho, o professor Carlos Pinheiro, da Pediatria do HU, insiste que com a falta desses trabalhadores as escalas de serviço de setores como a emergência, centro obstétrico, UTIs e neonatal estarão prejudicadas e isso pode provocar um "verão caótico" para a sociedade.

Esse é um tipo de argumento que tem se configurado como uma espécie de terrorismo, já que a sociedade catarinense sabe muito bem que no caso na saúde pública, o HU representa um porto seguro para os doentes de todo o estado. É ali que vão parar as ambulâncias de quase todas as cidades de Santa Catarina, bem como é ali que os florianopolitanos encontram abrigo na dor, com mais de 25 mil atendimento ao mês.

Quem trabalha na UFSC sabe muito bem que as medidas para "salvar o HU" não foram tomadas justamente para que, agora, seja jogada na conta dos que lutam contra a privatização, a responsabilidade sobre a abertura ou o fechamento dessas alas. Ora, isso é uma manipulação violenta dos fatos.

Durante anos o Fórum Estadual que articula entidades e lutadores sociais na defesa do HU 100% público vem apontando a necessidade de a administração central estabelecer parceria com os municípios e o com o governo estadual para garantir a contratação de novos trabalhadores via concurso público. Uma luta coletiva envolvendo todas as forças políticas do estado, juntamente com as forças populares, certamente já teria garantido a contratação, uma vez que a adesão à EBSERH não é uma obrigatoriedade. Isso significa que o governo é quem tem a obrigação de oferecer as condições para o bom funcionamento do hospital que é um hospital-escola. Mas, sem pressão da sociedade o governo fica bem quietinho, esperando o caos.

A luta contra a privatização foi tão intensa e apontou tantos caminhos que a própria administração Roselane/Lúcia decidiu pelo plebiscito. A votação foi feita e mais de 70% da comunidade disse não. Apesar da sempre manipuladora campanha da mídia comercial, que insiste em reproduzir os argumentos de que ou privatiza ou o HU fecha, aqueles que trabalham e vivem na universidade sabem que a privatização em vez de melhorar, só piora. Não são poucos os relatos dos hospitais já privatizados sobre o desastre que tudo está sendo.

Não queremos isso para o HU.

Agora, passadas as eleições para a nova administração da UFSC, o tema finalmente volta ao CUn. Justamente num momento em que ainda estão muito a flor da pele as mágoas, ódios e dores do processo eleitoral. Não é sem razão.

A decisão do CUn, em tese, não poderia ser outra que não a de respaldo ao plebiscito que disse não, com 70% dos votos. Mas, as forças conservadoras da universidade estão em polvorosa e já ninguém mais sabe o que pode acontecer.

Para a sociedade, que é sistematicamente inoculada com a informação ideologizada de que, se não privatizar, o HU fecha, fica a outra informação: o HU pode continuar e ficar ainda melhor se a administração atual, juntamente com o novo reitor eleito, se unirem e buscarem o apoio dos municípios e do estado. Juntos, eles podem pressionar o governo e garantir os trabalhadores e os recursos.


Se o HU privatizar, aí sim é que as portas se fecham para os mais pobres. Ouçam os velhos "arautos da desgraça". Aqueles que gritam do alto da montanha, avisando do perigo. Eles sabem o que dizem. Nada de bom pode vir se a saúde for entregue aos empresários da doença. A saída é política, é de união das forças. 


domingo, 15 de novembro de 2015

Como governa Alckmin




















Palavras do professor Edivan ( Professor espancado por policiais na ocupação de uma escola no Jardim Angela- São Paulo)

Não é o corpo que dói 
Não são os braços marcados pelas algemas 
Não é a cabeça inchada pelos golpes ...e nem é a dor da vergonha por sair algemado como um criminoso num carro da polícia ...algo que em tempos que o tempo não me deixa esquecer, prometi aos meus pais que jamais aconteceria. 
Minha revolta nem é contra a PM ...contra policiais, trabalhadores que se veem convertidos a engrenagens de um sistema cruel que converte trabalhadores em algozes de trabalhadores. 
Minha dor é a dor que corrói as entranhas de uma sociedade doente , onde defender o justo , o correto, o digno e o óbvio constitui um crime. 
Não invadi a escola 
Não destruí uma ponta de lápis do patrimônio público 
Não estimulei violência de qualquer natureza 
Não me satisfez ver sangue num espaço que deveria estimular sonhos . 
Amo a profissão que abracei 
Amo a possibilidade de dialogar com vidas de estimular seus potenciais, seus sonhos e seu desejo inalienável e sagrado de ser feliz. 
Há tão poucas décadas reconquistamos o direito a voz que pode dizer ... 
Há tão poucas décadas nossas escolas puderam provar o gosto doce da liberdade , da criticidade e do debate democrático. 
Que a nossa geração não permita que isto morra ...que escolas sejam espaços de diálogo , de debate, de tensões (a unanimidade é perigosa) ...que a comunidade escolar (estudantes , professores e gestores) possam construir ...e construção meus amigos , não é silêncio, não é cerceamento, não é intimidação. 
O que me dói, de verdade ...no corpo e na alma ...é ser um educador , num estado em que a educação pública agoniza ...e se debate em medidas paliativas, implementadas de forma unilateral e autoritária. Agradeço imensamente a todos que de um modo ou de outro externaram apoio e solidariedade num momento tão difícil 
Agradeço o carinho de colegas, país e estudantes que tanto amo !! 
Que o retrocesso e o obscurantismo não encontrem morada nestes dias em que fomos agraciados com a vida! Muito Obrigado ! 
Estou bem e em casa. Vida que segue ...luta que não pode retroceder!

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Psicologia e movimento indígena



Hoje, dentro da programação do II Congresso Catarinense de Psicologia Ciência e Profissão, que se realiza na UFSC, acontece, a partir das 15h, na Sala Harry Laus, Biblioteca Central da UFSC, uma mesa de discussão sobre o tema: Psicologia e Povos Indígenas, da qual participam Sabrina Della Vechia Scarabelot, Lumena Celi e Bruno Simões. Os três nomes tem forte ligação orgânica com o movimento indígena.

O Congresso tem ampla programação. Confira.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ato contra a PEC 215 em Santa Catarina























A mulher xokleng não se intimidou com a presença dos policiais que chegaram tentando destrancar a estrada. “Nós também temos o direito de fazer manifestação, cada povo tem o direito de mostrar seu sofrimento”. E assim, por duas horas, as três etnias de Santa Catarina, Guarani, Xogleng e Kaigang, com a solidariedade dos militantes da causa indígena, realizaram nesse dia 11, um grande ato na BR 101, bem em frente  a Aldeia Itaty, no Morro dos Cavalos. 


Com a ocupação da estrada, nas duas pistas, eles estenderam seus cartazes, faixas e fizeram o toré. Danças rituais que desvelam a cultura viva, ainda resistindo, mesmo com mais de 500 anos de massacre.


Esta já é a terceira manifestação que as três etnias realizam juntas, o que mostra também uma crescente integração na luta pelos direitos. Ainda que estejam separados por longas distâncias, como é o caso dos Kaikang, que vivem no oeste, os povos originários do estado têm buscado uma articulação cada vez mais forte porque entendem que só unidos podem garantir suas demandas.


Com esse ato que durou toda a manhã, iniciando às dez horas com os rituais de proteção e boas vindas, passando pela ocupação da estrada por duas horas seguidas, os povos indígenas de Santa Catarina uniram-se ao movimento nacional desse dia 11 de novembro. Em todos os estados eles deram seu grito de protesto contra a PEC 215 que dá ao Congresso Nacional o poder de remexer nas demarcações de terra já realizadas, não só de indígenas mas também dos quilombolas e de povos tradicionais, e definir daqui para frente as novas demarcações. Como a bancada ruralista é maioria e quer domínio sobre as terras indígenas, ninguém tem dúvidas dos interesses que estão pro trás dessa mudança. 


“Nós vamos fazer essa luta até o último índio. Ninguém vai nos calar”, insistiu Woie Patté. A luta segue até que se arquive definitivamente a PEC 215.

sábado, 7 de novembro de 2015

Mulheres na rua, contra o retrocesso




















Passeata em Florianópolis  - dia 06 de outubro de 2015

Fotos: Rubens Lopes

A mãe de S.M.L tinha um plano para ela. Iria trabalhar numa repartição pública e casar com um bom rapaz, para lhe dar muitos netos. Tudo parecia seguir o curso, mas, quando tinha 20 anos S. conheceu um cara. Ele era músico e, na cidade, um marginal. A mãe jamais o aceitaria. Ela não deixou passar a oportunidade de viver um amor. Viveu. Só que com esse amor veio uma gravidez. S. não entendeu bem como, era pouco informada e quando se deu conta de que a menstruação falhara, entrou em pânico. O namorado não queria casar, ela não podia ter um filho. A mãe morreria, pensava. Tomou todos os chás que ensinaram e nada. Não havia jeito. Tinha de abortar.

Vivendo numa pequena cidade não haveria como fazer. Com as amigas armou tudo. Conseguiu o endereço de uma clínica numa cidade vizinha. Para lá iria. Conseguiu o dinheiro depois de algum tempo e se foi. Sozinha. Quando chegou na clínica apavorou-se. Tudo parecia muito sujo. Mas, o medo de decepcionar a mãe era maior do que tudo. A enfermeira chamou e ela entrou. Uma mesa de lata, do tipo que se vê em hospital, uma mesinha com instrumentos e um homem já com a máscara cirúrgica. A mulher, mal-humorada, mandou que tirasse a calça. Ela tirou. E o que se seguiu àquele momento foi o inferno. Hoje, relembrando, S. acredita que tudo foi feito sem qualquer cuidado. Ela sentia tudo, a dor intensa, algo sendo arrancado, o sangue borbulhando e aquele barulho dos instrumentos. A cara de reprovação da mulher, os olhos do médico. Tudo vem a mente como num filme de horror.

Quando tudo terminou ela ainda ficou deitada por algumas horas. As lágrimas vertendo. Pelo que passara, pelo que fizera. O medo, a culpa, tudo se remexendo dentro do peito. Passado o tempo requerido pelo homem que fizera o aborto, ela foi mandada embora. Nenhuma receita, nenhuma palavra. Ela saiu do lugar, cambaleando. Sentia-se fraca. Andou pouco menos de uma quadra e entregou-se a uma vertigem. Um rapaz que passava a amparou e a levou para uma farmácia mais adiante. Ela sangrava sem parar. O farmacêutico, possivelmente experiente naqueles fatos, deu-lhe um remédio e a faz descansar. "Eu pensei que ia morrer. Estava me esvaindo em sangue. Não sabia o que fazer e ainda tinha de pegar o ônibus e volta para casa. O fato é que sobrevivi, mas, hoje, passados já 40 anos, ainda me assalta a culpa e a dor. Eu me casei, mas não tive filhos. Não me achava digna".     

S. teve sorte. Saiu viva da experiência de um aborto clandestino. Mas, no Brasil, onde são praticados mais de 800 mil abortos por ano, pelo menos 2.100 (dados oficiais) mulheres morreram nos últimos 15 anos, por conta de procedimentos como esse, ou outros ainda mais bizarros, invasivos e violentos. Se considerarmos o número real, que é o das mulheres que morrem sem que sejam contabilizadas nas estatísticas, a situação ainda fica mais grave. Conforme o Ministério da Saúde, o aborto é a quinta causa da morte materna. Logo, isso não é um problema moral. É uma questão de saúde pública. Não é sem razão que as mulheres lutam para que esse tipo de procedimento seja feito pelo sistema de saúde, de maneira pública e segura. E qualquer uma que tenha passado por esse drama sabe que o aborto nunca é uma decisão fácil. Ninguém vai para um aborto como se fosse a uma festa. É sempre uma dor.

S. estava na passeata que reuniu, em Florianópolis, no dia 06 de novembro,  dezenas de pessoas no grito de "Fora Cunha",  numa alusão ao deputado Eduardo Cunha, autor do Projeto de Lei 5069, que dificulta o aborto legal para mulheres que tenham sofrido estupro, impedindo o anúncio ou a prescrição de pílulas do dia seguinte. A lei ainda prevê prisão para quem induza ou ajude à prática de aborto, e permite que um profissional de saúde se recuse a dar qualquer medicamento que considere abortivo. Atualmente as vítimas de estupro, ao declararem o crime, podem fazer o procedimento de maneira legalizada no sistema de saúde. Com a lei do Cunha, a mulher terá de provar que foi estuprada com exames de corpo de delito e queixa na polícia. Ora, qualquer pessoa sabe que um estupro é algo brutal, que deixa uma mulher em choque. Como exigir de uma pessoa violentada que ela aja com racionalidade cirúrgica visando comprovar a violência? A lei é, de fato, ela mesma, uma violência contra as mulheres.

Não é sem razão que esse PL está levantando as mulheres em luta por todo o país. Primeiro, porque como já se mostrou, o aborto não é uma questão moral. Ele é vivenciado por milhares de mulheres por causas tão variadas, que vão desde o medo de magoar a mãe até a completa incapacidade de proteger e criar uma criança.  Cabe à mulher definir o que fazer com seu corpo. Esse é um direito que ela tem, e ninguém no mundo deveria julgar alguém por decidir sobre si mesmo. Da mesma forma, um estupro tampouco pode ser tratado como um problema moral, culpabilizando as mulheres pela violência. Se uma mulher violada quiser viver sem o fruto da violência, essa é uma decisão que lhe cabe. Ao estado resta cuidar e proteger.

A lei proposta por Cunha consegue regredir ainda mais na já conservadora legislação que existe em relação ao aborto. E é por isso que as mulheres estão realizando protestos, buscando impedir mais um retrocesso. Em Florianópolis, S., que é de outra geração, marchou com as garotas e chorou. "Hoje nós vemos que as mulheres se protegem mais. Naquele tempo em que eu tive de abortar eu estava sozinha, não só no dia de fazer a coisa, mas na dor. Não havia com quem repartir. Hoje eu vejo essas meninas aqui, se amparando, lutando por todas as mulheres, eu me emociono".

A chamada bancada da bíblia, da qual Cunha é o mais importante representante, tem demonstrado poder, mas, a considerar a força das ruas, pode ser que a lei acabe arquivada. Nessa semana que começa novos atos estão planejados por todo o país e as mulheres estão engrossando cada dia mais as caminhadas e os protestos. Com tambores soando no ritmo do coração, elas gritam: "Fora Cunha, inimigo das mulheres. O estado é laico. O corpo é nosso". E esse é um grito que vai crescendo e tomando conta mesmo daquelas que nunca tiveram coragem de sair numa passeata política. Como Rose, uma balconista que viu passar a marcha e  ficou com os olhos arregalados, brilhando de alegria. "Eu sei o que é esse terror que a gente passa quando se vê grávida, sozinha e sem saída". E foi por saber que ela pegou a bolsa e saiu atrás da caminhada, somando-se ao coro: "mexeu com as mina, mexeu com satanás".


As mulheres estão na rua, e o que é melhor, não é apenas pela pílula do dia seguinte. Elas sabem que esse congresso quer muito mais atraso, nas leis trabalhistas, na ação anti-indígena, no reforço ao agronegócio. E, por isso, elas vão lutar com unhas e dentes para impedir a retirada de direitos e o retrocesso.