quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Psicologia e movimento indígena



Hoje, dentro da programação do II Congresso Catarinense de Psicologia Ciência e Profissão, que se realiza na UFSC, acontece, a partir das 15h, na Sala Harry Laus, Biblioteca Central da UFSC, uma mesa de discussão sobre o tema: Psicologia e Povos Indígenas, da qual participam Sabrina Della Vechia Scarabelot, Lumena Celi e Bruno Simões. Os três nomes tem forte ligação orgânica com o movimento indígena.

O Congresso tem ampla programação. Confira.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Ato contra a PEC 215 em Santa Catarina























A mulher xokleng não se intimidou com a presença dos policiais que chegaram tentando destrancar a estrada. “Nós também temos o direito de fazer manifestação, cada povo tem o direito de mostrar seu sofrimento”. E assim, por duas horas, as três etnias de Santa Catarina, Guarani, Xogleng e Kaigang, com a solidariedade dos militantes da causa indígena, realizaram nesse dia 11, um grande ato na BR 101, bem em frente  a Aldeia Itaty, no Morro dos Cavalos. 


Com a ocupação da estrada, nas duas pistas, eles estenderam seus cartazes, faixas e fizeram o toré. Danças rituais que desvelam a cultura viva, ainda resistindo, mesmo com mais de 500 anos de massacre.


Esta já é a terceira manifestação que as três etnias realizam juntas, o que mostra também uma crescente integração na luta pelos direitos. Ainda que estejam separados por longas distâncias, como é o caso dos Kaikang, que vivem no oeste, os povos originários do estado têm buscado uma articulação cada vez mais forte porque entendem que só unidos podem garantir suas demandas.


Com esse ato que durou toda a manhã, iniciando às dez horas com os rituais de proteção e boas vindas, passando pela ocupação da estrada por duas horas seguidas, os povos indígenas de Santa Catarina uniram-se ao movimento nacional desse dia 11 de novembro. Em todos os estados eles deram seu grito de protesto contra a PEC 215 que dá ao Congresso Nacional o poder de remexer nas demarcações de terra já realizadas, não só de indígenas mas também dos quilombolas e de povos tradicionais, e definir daqui para frente as novas demarcações. Como a bancada ruralista é maioria e quer domínio sobre as terras indígenas, ninguém tem dúvidas dos interesses que estão pro trás dessa mudança. 


“Nós vamos fazer essa luta até o último índio. Ninguém vai nos calar”, insistiu Woie Patté. A luta segue até que se arquive definitivamente a PEC 215.

sábado, 7 de novembro de 2015

Mulheres na rua, contra o retrocesso




















Passeata em Florianópolis  - dia 06 de outubro de 2015

Fotos: Rubens Lopes

A mãe de S.M.L tinha um plano para ela. Iria trabalhar numa repartição pública e casar com um bom rapaz, para lhe dar muitos netos. Tudo parecia seguir o curso, mas, quando tinha 20 anos S. conheceu um cara. Ele era músico e, na cidade, um marginal. A mãe jamais o aceitaria. Ela não deixou passar a oportunidade de viver um amor. Viveu. Só que com esse amor veio uma gravidez. S. não entendeu bem como, era pouco informada e quando se deu conta de que a menstruação falhara, entrou em pânico. O namorado não queria casar, ela não podia ter um filho. A mãe morreria, pensava. Tomou todos os chás que ensinaram e nada. Não havia jeito. Tinha de abortar.

Vivendo numa pequena cidade não haveria como fazer. Com as amigas armou tudo. Conseguiu o endereço de uma clínica numa cidade vizinha. Para lá iria. Conseguiu o dinheiro depois de algum tempo e se foi. Sozinha. Quando chegou na clínica apavorou-se. Tudo parecia muito sujo. Mas, o medo de decepcionar a mãe era maior do que tudo. A enfermeira chamou e ela entrou. Uma mesa de lata, do tipo que se vê em hospital, uma mesinha com instrumentos e um homem já com a máscara cirúrgica. A mulher, mal-humorada, mandou que tirasse a calça. Ela tirou. E o que se seguiu àquele momento foi o inferno. Hoje, relembrando, S. acredita que tudo foi feito sem qualquer cuidado. Ela sentia tudo, a dor intensa, algo sendo arrancado, o sangue borbulhando e aquele barulho dos instrumentos. A cara de reprovação da mulher, os olhos do médico. Tudo vem a mente como num filme de horror.

Quando tudo terminou ela ainda ficou deitada por algumas horas. As lágrimas vertendo. Pelo que passara, pelo que fizera. O medo, a culpa, tudo se remexendo dentro do peito. Passado o tempo requerido pelo homem que fizera o aborto, ela foi mandada embora. Nenhuma receita, nenhuma palavra. Ela saiu do lugar, cambaleando. Sentia-se fraca. Andou pouco menos de uma quadra e entregou-se a uma vertigem. Um rapaz que passava a amparou e a levou para uma farmácia mais adiante. Ela sangrava sem parar. O farmacêutico, possivelmente experiente naqueles fatos, deu-lhe um remédio e a faz descansar. "Eu pensei que ia morrer. Estava me esvaindo em sangue. Não sabia o que fazer e ainda tinha de pegar o ônibus e volta para casa. O fato é que sobrevivi, mas, hoje, passados já 40 anos, ainda me assalta a culpa e a dor. Eu me casei, mas não tive filhos. Não me achava digna".     

S. teve sorte. Saiu viva da experiência de um aborto clandestino. Mas, no Brasil, onde são praticados mais de 800 mil abortos por ano, pelo menos 2.100 (dados oficiais) mulheres morreram nos últimos 15 anos, por conta de procedimentos como esse, ou outros ainda mais bizarros, invasivos e violentos. Se considerarmos o número real, que é o das mulheres que morrem sem que sejam contabilizadas nas estatísticas, a situação ainda fica mais grave. Conforme o Ministério da Saúde, o aborto é a quinta causa da morte materna. Logo, isso não é um problema moral. É uma questão de saúde pública. Não é sem razão que as mulheres lutam para que esse tipo de procedimento seja feito pelo sistema de saúde, de maneira pública e segura. E qualquer uma que tenha passado por esse drama sabe que o aborto nunca é uma decisão fácil. Ninguém vai para um aborto como se fosse a uma festa. É sempre uma dor.

S. estava na passeata que reuniu, em Florianópolis, no dia 06 de novembro,  dezenas de pessoas no grito de "Fora Cunha",  numa alusão ao deputado Eduardo Cunha, autor do Projeto de Lei 5069, que dificulta o aborto legal para mulheres que tenham sofrido estupro, impedindo o anúncio ou a prescrição de pílulas do dia seguinte. A lei ainda prevê prisão para quem induza ou ajude à prática de aborto, e permite que um profissional de saúde se recuse a dar qualquer medicamento que considere abortivo. Atualmente as vítimas de estupro, ao declararem o crime, podem fazer o procedimento de maneira legalizada no sistema de saúde. Com a lei do Cunha, a mulher terá de provar que foi estuprada com exames de corpo de delito e queixa na polícia. Ora, qualquer pessoa sabe que um estupro é algo brutal, que deixa uma mulher em choque. Como exigir de uma pessoa violentada que ela aja com racionalidade cirúrgica visando comprovar a violência? A lei é, de fato, ela mesma, uma violência contra as mulheres.

Não é sem razão que esse PL está levantando as mulheres em luta por todo o país. Primeiro, porque como já se mostrou, o aborto não é uma questão moral. Ele é vivenciado por milhares de mulheres por causas tão variadas, que vão desde o medo de magoar a mãe até a completa incapacidade de proteger e criar uma criança.  Cabe à mulher definir o que fazer com seu corpo. Esse é um direito que ela tem, e ninguém no mundo deveria julgar alguém por decidir sobre si mesmo. Da mesma forma, um estupro tampouco pode ser tratado como um problema moral, culpabilizando as mulheres pela violência. Se uma mulher violada quiser viver sem o fruto da violência, essa é uma decisão que lhe cabe. Ao estado resta cuidar e proteger.

A lei proposta por Cunha consegue regredir ainda mais na já conservadora legislação que existe em relação ao aborto. E é por isso que as mulheres estão realizando protestos, buscando impedir mais um retrocesso. Em Florianópolis, S., que é de outra geração, marchou com as garotas e chorou. "Hoje nós vemos que as mulheres se protegem mais. Naquele tempo em que eu tive de abortar eu estava sozinha, não só no dia de fazer a coisa, mas na dor. Não havia com quem repartir. Hoje eu vejo essas meninas aqui, se amparando, lutando por todas as mulheres, eu me emociono".

A chamada bancada da bíblia, da qual Cunha é o mais importante representante, tem demonstrado poder, mas, a considerar a força das ruas, pode ser que a lei acabe arquivada. Nessa semana que começa novos atos estão planejados por todo o país e as mulheres estão engrossando cada dia mais as caminhadas e os protestos. Com tambores soando no ritmo do coração, elas gritam: "Fora Cunha, inimigo das mulheres. O estado é laico. O corpo é nosso". E esse é um grito que vai crescendo e tomando conta mesmo daquelas que nunca tiveram coragem de sair numa passeata política. Como Rose, uma balconista que viu passar a marcha e  ficou com os olhos arregalados, brilhando de alegria. "Eu sei o que é esse terror que a gente passa quando se vê grávida, sozinha e sem saída". E foi por saber que ela pegou a bolsa e saiu atrás da caminhada, somando-se ao coro: "mexeu com as mina, mexeu com satanás".


As mulheres estão na rua, e o que é melhor, não é apenas pela pílula do dia seguinte. Elas sabem que esse congresso quer muito mais atraso, nas leis trabalhistas, na ação anti-indígena, no reforço ao agronegócio. E, por isso, elas vão lutar com unhas e dentes para impedir a retirada de direitos e o retrocesso.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Feliz dia do trabalhador público


Nossa luta cotidiana para melhorar o serviço público e a vida do trabalhador

Hoje é dia do servidor público e me ocorreu falar um pouco, não sobre nós, trabalhadores, mas sobre o serviço público mesmo. Porque muitas vezes aquele problema que vivemos no atendimento é jogado para a conta do mau trabalhador. E, assim, vai se criando o preconceito de que todo o trabalhador público é vagabundo, relapso ou incompetente. Coisa que não é de todo verdade.

Outro dia tive problemas com minha declaração de imposto de renda. Tentei resolver pela internet. Não deu. Apelei para o telefone. Era uma simples dúvida. “Não fazemos atendimento por telefone, só presencial”. Tudo bem, lá fui eu para a Receita Federal. “Moça, eu tenho uma dúvida, é coisa simples, não estou conseguindo transmistir...” Ela nem deixou eu terminar. “Tem que pegar uma senha e aguardar”. Tudo bem, lembrando que as atendentes ou são estagiárias ou terceirizadas.

Peguei a senha e fiquei sentada em frente a TV. Minutos, minutos, minutos. Uma hora e meia e nada de aparecer as letrinhas do meu cartão. Já tinham aparecido todas as letras do alfabeto, manos as minhas. “Moça, será que não está tendo algum problema, não chamaram nenhuma senha com essas letras”. Cara amarrada. “Tem que aguardar”. Tudo bem.

Dali há pouco chega minha vez. Uma hora e 45 minutos de espera. Fui em direção a uma sala que tinha 30 mesas de atendimento. Mas, a maioria delas estava vazia. Apenas cinco seres humanos se desdobravam para fazer andar a fila quilométrica. “Oi, tenho uma dúvida”. Expliquei o caso e o rapaz me mandou fazer o procedimento pela internet. Não demorou um minuto. “Por que vocês não fazem o atendimento de dúvidas por telefone? Não seria melhor para todos?”. O homem suspirou. “Senhora, olha em volta. Não tem gente. Se formos atender ao telefone, tudo piora”. Está bem, concordei. Agradeci e sai.

Toda essa aventura para tirar uma dúvida me custou cinco horas. O tempo de ir até lá, de esperar e de voltar para casa. Cinco horas. E sem resolver o problema. Cheguei a casa e fui fazer o que ele disse. Não deu certo. E agora? Voltar lá e viver tudo de novo? Pois...

Então, tudo isso para dizer que os colegas trabalhadores públicos têm também os seus dramas. Excesso de trabalho, acúmulo de funções, falta de condições, enfim. O que parece claro é que o estado não existe para servir com qualidade as pessoas comuns, normais, sem poder econômico. Tudo precisa ser batalhado, suado, conquistado. Uma simples informação vira uma novela. A saúde não funciona, a educação é ruim. Aquilo que deveria ser um direito precisa que se trave uma larga peleia. E, no fim das contas, não é culpa do trabalhador. O problema está no estado, ou no governo que não prioriza os bons serviços.

Eu fico imaginando o atendimento de um empresário no BNDS. Como seria? Teria todo esse mau humor dos atendentes? Seriam obrigados a ficar com o papelzinho na mão por horas? Ou os grandes fazendeiros buscando empréstimos nos Bancos Públicos? Viveriam o mesmo drama?
O estado capitalista existe para os interesses da classe dominante. Os “normais”, os “comuns”, esses precisam disputar no braço cada atendimento, cada política pública.

Nesse dia do servidor público, o que eu mais queria desejar é que meus colegas pudessem perceber essa dolorosa verdade e que fizessem das tripas coração para mudar esse estado de coisas. Que pudessem receber com um sorriso os velhinhos desinformados, as pessoas empobrecidas, os feios, os sujos. Que pudessem acolher, sabendo que é esse povo que precisa do seu trabalho e que, muitas vezes, é só isso que eles têm ao alcance.

Sabemos que os salários são ruins, que a carreira não é suficiente, que as condições de trabalho são duras, mas as pessoas que precisam do nosso trabalho não têm culpa disso. Elas são nossas companheiras na luta por um mundo novo e melhor.

As pessoas que buscam saúde, educação, informação, segurança, moradia, empréstimo ou qualquer outro serviço público só precisam disso: um olhar de amor, ternura, sorriso, cuidado, um aperto de mão, um abraço. O resto, com todos os entraves e dificuldades, acaba ficando mais fácil de garantir.
Então, meu abraço apertado a todos os colegas de profissão e meu desejo profundo de que possam dar o melhor de si. O cuidado com outro não muda apenas o outro, muda a nós mesmos.


Feliz dia, tudo de bom!!!!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos será comemorado na Capital em 06 de novembro



Pelo décimo segundo ano, acontece a celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos, que esse ano será no dia 06 de novembro (sexta-feira), das 15h às 18 horas, na Esquina Democrática, em frente à igreja São Francisco, em Florianópolis. 

A promoção é da Revista Pobres & Nojentas, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc), Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de Santa Catarina (Sintrajusc) e Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina (Sindprevs/SC). No dia haverá música, contação de histórias, boi-de-mamão e distribuição de “sacizinhos”. O dia “oficial” é 31 de outubro, mas, como será um sábado, neste ano vamos antecipar!

A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo, dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão.

Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil. O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade. 

Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo.

A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres & Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas, guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição. Junto com ele trazemos também os amigos, as bruxas de Cascaes, o Caipora, o Curupira, a Mula-sem-cabeça e tantos outros que povoam o imaginário em todas as regiões do país. 

Venha brincar com a gente. Esperamos você na celebração!

Mais informações com Elaine Tavares no 9907-8877.


UFSC: Uma agenda de compromisso




Por Lauro Mattei - professor no Departamento de Economia e Relações Internacionais/UFSC


Após a realização do primeiro turno no dia 21.10.2015, em que 13.901 membros da comunidade universitária da UFSC (professores, estudantes e técnicos administrativos) participaram da votação, sagraram-se aptas ao segundo turno as chapas 82, liderada pelo Professor Cancellier (CCJ), e 84, liderada pelo Professor Edson de Piere (CTC). O segundo turno está marcado para o dia 11.11.2015, momento em que essa mesma comunidade universitária irá escolher o novo Reitor para os próximos quatro anos.

Antes de tudo é preciso registrar que essas duas candidaturas são irmãs siamesas. Isto porque ao longo dos últimos dois anos se constitui um fórum liderado pelos diretores de unidades acadêmicas com alguns convidados próximos, onde primordialmente se discutia a sucessão da gestão atual. Os dois candidatos participantes do segundo turno atual sempre estiveram juntos nos debates do referido fórum, compactuando as mesmas ideias e as mesmas propostas. Dividiram-se somente nas semanas que antecederam as inscrições das chapas.

Como o tempo entre um turno e outro é bastante reduzido será importante um posicionamento claro e objetivo de cada um dos postulantes ao cargo de Reitor sobre temas candentes na UFSC. Além disso, é necessário que o debate seja pautado por uma agenda temática de interesse da universidade para se evitar que as discussões sejam dominadas pelo simplismo de que nossa chapa é “acadêmica” e a outra chapa é “propagandista”.

Neste sentido, elenco a seguir uma agenda de pontos prioritários que recebeu pouca atenção dos postulantes atuais ao cargo de Reitor durante o primeiro turno. Espera-se que estes pontos recebam um posicionamento público claro de cada um dos candidatos. Eis a agenda política da UFSC no momento:

1)Hospital Universitário: nos últimos anos temas relativos ao HU estiveram presentes em muitos debates, inclusive ocupando destaque na mídia escrita e falada. Para solucionar um conjunto de problemas, o Governo Federal propõe que o HU seja administrado pela EBSERH, empresa pública de direito privado. Esse ponto dividiu recentemente a comunidade universitária, uma vez que em plebiscito 69% dos votantes se manifestaram contrários a essa política do Governo Federal. Por isso, os dois candidatos precisam externar claramente seu posicionamento sobre este tema e sobre como pretendem encaminhar a decisão do plebiscito acima referido.

2)Processo Eleitoral Interno: desde o ano de 1983 a comunidade universitária escolhe o Reitor por meio de uma Consulta Informal pautada na paridade de representação entre as três categorias anteriormente citadas. Recentemente um grupo de professores representados pela APUFSC passou a defender a ideia de que a escolha seja feita na proporcionalidade de 70% dos votos para Professores e os 30% restantes divididos entre os Estudantes e Técnicos Administrativos em Educação (TAEs). Entendendo que este ponto é essencial no processo de democratização da universidade, é importante uma manifestação clara e objetiva dos dois candidatos sobre o assunto.

3)Jornada de Trabalho: nos últimos três anos ocorreram longas greves dos TAEs visando a implantação de uma jornada de trabalho de 6 horas diárias corridas, o que daria uma jornada semanal de 30 horas. Diante de uma realidade objetiva na UFSC atualmente, espera-se um posicionamento claro dos dois candidatos sobre o assunto.

4)Política de Segurança no Campus: nos últimos anos a UFSC, por diversas razões, vem ocupando espaços nas páginas policiais. Como o tema “segurança” atinge hoje toda a sociedade, torna-se evidente que o debate simplista sobre “entrada ou não da polícia no campus” está superado. Para isso, é fundamental que as duas candidaturas apresentem claramente sua política de segurança para a universidade, esperando que esse posicionamento vá além de chavões observados nos materiais de campanha distribuídos pelas duas candidaturas durante o primeiro turno.

5)Política de regulamentação da pesquisa: é por demais sabido que o tema genérico “pesquisa” encobre e esconde consultorias com volumes consideráveis de recursos financeiros em diversas áreas de conhecimento que nem sempre passam pelos canais institucionais adequados. Por isso, ao longo dos últimos dois anos ocorreram intensos debates sobre a legislação da pesquisa na universidade, sendo que o assunto recentemente foi regulamentado pelo Conselho Universitário, dotando a UFSC de uma norma própria. Sob o desígnio que tal normatização “burocratizou” a pesquisa, existem manifestações contrárias à referida regulamentação. Por isso, os candidatos devem manifestar seu posicionamento sobre o assunto, deixando claro se pretendem respeitar tal norma ou se pretendem modificá-la, explicitando as razões para tal ação.

6)Política de privatização da Pós-Graduação: no momento em que o tema das privatizações também atinge a educação pública é importante destacar que exatamente no dia das eleições do primeiro turno (21.10.15) a Câmara Federal aprovou a PEC 395 que, dentre outras coisas, permite a cobrança nas universidades públicas (que sempre foram gratuitas) de cursos de Pós-Graduação Latu Sensu, de Cursos de Mestrados Profissionais, etc. Por isso, é importante que cada candidato deixe claro seu posicionamento sobre este assunto, considerando-se que a UFSC desenvolve várias atividades de pós-graduação nas áreas mencionadas.

7)Política de qualidade do ensino de graduação: é amplamente conhecida a disparidade entre cursos de graduação nas diferentes unidades acadêmicas, especialmente em função da infraestrutura existente em cada uma delas e do volume de recursos destinado às mesmas. Neste sentido, é importante que cada candidato deixe claro sua política (se de fato existir) para melhorar coletivamente a qualidade dos cursos de graduação da UFSC, não intensificando o fortalecimento de ilhas de excelência em meio a um mar de problemas.

8)Política de acesso à universidade: desde a implantação da política de cotas sociais, indígenas e raciais o assunto “acesso à UFSC” é polêmico e tem recebido um tratamento, muitas vezes, até discriminatório por parte de vários segmentos. Entendendo que esta é uma política que também contribui para a democratização da universidade, é importante um posicionamento de cada candidato sobre o assunto, inclusive indicando quais as medidas que serão adotadas contra atitudes discriminatórias que existem e que uma universidade efetivamente democrática não poderá mais tolerar.

9)Política de permanência estudantil: como o acesso foi fortemente ampliado nos últimos anos, é necessário ampliar também as condições de permanência, especialmente em termos de garantia de bolsas de estudo aos estudantes oriundos de segmentos sociais mais vulneráveis. Por isso, é importante que os candidatos deixem claro se vão manter ou não o número mínimo de bolsas previstas na atual legislação universitária, além de outras medidas que serão adotadas, tendo em vista que os materiais de campanha dos dois candidatos são extremamente vagos neste aspecto.

10)Política de integração dos campi do interior: após a aprovação do REUNI em 2007, ocorreu uma expansão de campi pelo interior sem a devida infraestrutura correspondente. O resultado é que hoje temos quatro campi no interior funcionando em precárias condições, comparativamente ao campus de Florianópolis. Além disso, essas unidades educacionais não tem uma regulamentação adequada até o momento; não possuem autonomia administrativa e financeira; e não conseguem se integrar ao conjunto das ações desenvolvidas no campus sede. Considerando-se que no primeiro turno este assunto passou ao largo dos debates, é necessário um posicionamento objetivo dos dois candidatos, deixando claro quais as medidas que serão adotadas para solucionar problemas crônicos da expansão da UFSC no interior do estado.

11)Política de integração universidade-comunidade: é quase consensual que a universidade, seguindo apenas o academicismo, está cada vez mais ficando de costas para a sociedade. Neste sentido, seria importante cada candidato expor quais são suas políticas nesta área, considerando-se que no primeiro turno este assunto praticamente não fez parte dos debates.

12)Política de controle e transparência da Fundações: entendemos que nas condições atuais as fundações são essenciais para garantir o bom funcionamento da universidade. No entanto, isso não autoriza que essas entidades permaneçam atuando sem um controle administrativo e financeiro adequado, bem como de forma pouco transparente. Por isso, é importante que cada candidato deixe claro quais são suas principais medidas para democratizar e dar maior transparência às ações das fundações na UFSC que, diferentemente de outras universidades como a UFRGS, possui quatro fundações.

Certamente existe um conjunto de outros temas que poderiam ser adensados aos anteriores. Todavia, ressalto que a agenda acima mencionada contempla um leque extenso de assuntos candentes atualmente, os quais requerem um posicionamento claro e objetivo de cada candidato, de preferência antes das eleições.

Foi visando exclusivamente os interesses da universidade que apresentei essa agenda de debate, por entender que o mesmo precisa ser mais bem qualificado por ambos os postulantes ao cargo de Reitor da UFSC.



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

As eleições na UFSC





As eleições na UFSC sempre que termina um processo eleitoral na UFSC fica aquele gosto amargo. E não faltam as tentativas de buscar culpados para a derrota. Não creio que seja o caso. Não se trata de culpa, mas de posições diante da vida, e responsabilidades perante o futuro. 


Meu candidato era o Irineu, assim como já fora na eleição passada. E o meu voto era dele não porque ele é um cara generoso, humano, competente, sensível e gentil. Essas qualidades do Irineu são adoráveis, mas não foi o que determinou meu voto. O que fez eu apertar o 85 foi o projeto de universidade que a chapa Irineu e Mônica estava disposta a defender.


A candidatura do Irineu não nasceu do “movimento” da UFSC, bem como nenhuma outra nasceu daí. Esses movimentos de estudantes, técnicos e professores andam fracos, batem em questões particularistas, e expressaram sua fraqueza na incapacidade de propor e construir uma proposta totalizadora para a UFSC.  Assim, foi a partir de sua vivência de universidade que Irineu assumiu as pautas mais corajosas e progressistas – também defendidas pelo movimento  - numa UFSC cada dia mais na direção do atraso.


Durante a greve das 30 horas realizada pelos técnicos em 2014, ele esteve nas assembleias e acompanhou o processo. Não é da natureza dele fazer alarde sobre suas posições, mas sua presença constante deixava claro que ele apoiava o movimento. Por isso soa tremendamente desonesto dizer que ele não se importou com a greve das 30 horas. Ele não só se importou como acompanhou cada passo e foi dali que nasceu sua proposta mais polêmica: a de defender de maneira radical a aplicação das 30 horas para todos. Não é sem razão, portanto, que sua derrota entre os professores tenha sido significativa. Qualquer trabalhador técnico-administrativo sabe o terror que a ideia das 30 horas causa na categoria docente, em sua ampla maioria. Para grande parte dos professores, técnico não está aqui para pensar ou decidir e isso se expressou muito bem durante a greve do ano passado.


Irineu também ousou defender a democracia na UFSC, portanto, bem longe da tendência cada dia mais reacionária da aplicação dos 70/30 para a tomada de decisões sobre quem pode ser reitor ou reitora. E mais, Irineu apontava para a democratização das demais instâncias, discutindo a mudança na porcentagem da representação. Outro terror para a categoria docente. Imaginem permitir que técnicos e estudantes tenham voz paritária nos colegiados e conselhos. Heresia! Heresia.


Irineu igualmente se colocou frontalmente contra a proposta de privatização da universidade e do seu Hospital Universitário. Mas, na semana em que o Congresso votou a liberação da cobrança da pós-graduação nas universidades públicas, quem acreditaria que a maioria docente votaria num candidato que se colocava contra isso? Ilusão. Havia ainda a postura firme contra a polícia no campus e a discussão de outra proposta de universidade, no âmbito da universidade necessária, não necessariamente brigando com o privado, mas firmemente pública e de qualidade. 


Por isso que, para mim, o que parecia muito claro era que a disputa aqui no campus não se tratava de observar quem era o mais queridinho, mas sim quem estaria à altura de defender o vertiginoso processo de privatização das universidades, cada dia mais perto. Para os professores, que votaram em massa no candidato De Pieri, representante do CTC e dono de um Curriculo Lattes bem gordinho, não poderia haver dúvidas. O Irineu era o cão chupando manga. Claro que o fato de ele ter sido técnico pesa, mas a coisa não foi tão prosaica assim. Foi política, e muito bem pensada. Tanto que das campanhas, a menos visível foi a de Dei Pieri. Nem precisava ser visível. Os votos estavam seguros por conta do perfil conservador dos professores e de boa parte dos alunos, que também votaram nessa proposta. E como o voto dos docentes vale mais do que o dos técnicos e dos estudantes, o resultado não poderia ser outro. De Pieri era também o candidato da Apufsc, a associação dos professores que resolveu fazer uma votação paralela, para registrar que, para aquele grupo, valeria o 70/30. E na sua votação venceu De Pieri.


No campo mais progressista entre os técnicos, estudantes e professores a discussão também foi muito rasa. Houve pouco engajamento dos grupos organizados, étnicos, de gênero, estudantis e dos técnicos, alguns chegando a mais confundir mais do que esclarecer seus membros. A campanha “não empolgou”, diziam. As pautas particularistas não conseguiram alcançar a totalidade e não houve a percepção de que o futuro privatizante era o que estava em jogo.


O resultado agora está dado, duas chapas que tem posições muito parecidas sobre os temas mais quentes tais como a Ebserh, o 70/30, as trinta horas, o fechamento do campus e o modelo de universidade. Qualquer um deles levará adiante a proposta definida pelo Banco Mundial.


A nós, resta seguir na luta, apesar de todas as divisões, arestas e divergências que se mostraram transparentes nessa eleição, mas que precisam ser pensadas e superadas para que nós mesmos possamos avançar no rumo da universidade que necessitamos. 


Quanto ao segundo turno, não há opção. Voto nulo!