sexta-feira, 23 de outubro de 2015

As eleições na UFSC





As eleições na UFSC sempre que termina um processo eleitoral na UFSC fica aquele gosto amargo. E não faltam as tentativas de buscar culpados para a derrota. Não creio que seja o caso. Não se trata de culpa, mas de posições diante da vida, e responsabilidades perante o futuro. 


Meu candidato era o Irineu, assim como já fora na eleição passada. E o meu voto era dele não porque ele é um cara generoso, humano, competente, sensível e gentil. Essas qualidades do Irineu são adoráveis, mas não foi o que determinou meu voto. O que fez eu apertar o 85 foi o projeto de universidade que a chapa Irineu e Mônica estava disposta a defender.


A candidatura do Irineu não nasceu do “movimento” da UFSC, bem como nenhuma outra nasceu daí. Esses movimentos de estudantes, técnicos e professores andam fracos, batem em questões particularistas, e expressaram sua fraqueza na incapacidade de propor e construir uma proposta totalizadora para a UFSC.  Assim, foi a partir de sua vivência de universidade que Irineu assumiu as pautas mais corajosas e progressistas – também defendidas pelo movimento  - numa UFSC cada dia mais na direção do atraso.


Durante a greve das 30 horas realizada pelos técnicos em 2014, ele esteve nas assembleias e acompanhou o processo. Não é da natureza dele fazer alarde sobre suas posições, mas sua presença constante deixava claro que ele apoiava o movimento. Por isso soa tremendamente desonesto dizer que ele não se importou com a greve das 30 horas. Ele não só se importou como acompanhou cada passo e foi dali que nasceu sua proposta mais polêmica: a de defender de maneira radical a aplicação das 30 horas para todos. Não é sem razão, portanto, que sua derrota entre os professores tenha sido significativa. Qualquer trabalhador técnico-administrativo sabe o terror que a ideia das 30 horas causa na categoria docente, em sua ampla maioria. Para grande parte dos professores, técnico não está aqui para pensar ou decidir e isso se expressou muito bem durante a greve do ano passado.


Irineu também ousou defender a democracia na UFSC, portanto, bem longe da tendência cada dia mais reacionária da aplicação dos 70/30 para a tomada de decisões sobre quem pode ser reitor ou reitora. E mais, Irineu apontava para a democratização das demais instâncias, discutindo a mudança na porcentagem da representação. Outro terror para a categoria docente. Imaginem permitir que técnicos e estudantes tenham voz paritária nos colegiados e conselhos. Heresia! Heresia.


Irineu igualmente se colocou frontalmente contra a proposta de privatização da universidade e do seu Hospital Universitário. Mas, na semana em que o Congresso votou a liberação da cobrança da pós-graduação nas universidades públicas, quem acreditaria que a maioria docente votaria num candidato que se colocava contra isso? Ilusão. Havia ainda a postura firme contra a polícia no campus e a discussão de outra proposta de universidade, no âmbito da universidade necessária, não necessariamente brigando com o privado, mas firmemente pública e de qualidade. 


Por isso que, para mim, o que parecia muito claro era que a disputa aqui no campus não se tratava de observar quem era o mais queridinho, mas sim quem estaria à altura de defender o vertiginoso processo de privatização das universidades, cada dia mais perto. Para os professores, que votaram em massa no candidato De Pieri, representante do CTC e dono de um Curriculo Lattes bem gordinho, não poderia haver dúvidas. O Irineu era o cão chupando manga. Claro que o fato de ele ter sido técnico pesa, mas a coisa não foi tão prosaica assim. Foi política, e muito bem pensada. Tanto que das campanhas, a menos visível foi a de Dei Pieri. Nem precisava ser visível. Os votos estavam seguros por conta do perfil conservador dos professores e de boa parte dos alunos, que também votaram nessa proposta. E como o voto dos docentes vale mais do que o dos técnicos e dos estudantes, o resultado não poderia ser outro. De Pieri era também o candidato da Apufsc, a associação dos professores que resolveu fazer uma votação paralela, para registrar que, para aquele grupo, valeria o 70/30. E na sua votação venceu De Pieri.


No campo mais progressista entre os técnicos, estudantes e professores a discussão também foi muito rasa. Houve pouco engajamento dos grupos organizados, étnicos, de gênero, estudantis e dos técnicos, alguns chegando a mais confundir mais do que esclarecer seus membros. A campanha “não empolgou”, diziam. As pautas particularistas não conseguiram alcançar a totalidade e não houve a percepção de que o futuro privatizante era o que estava em jogo.


O resultado agora está dado, duas chapas que tem posições muito parecidas sobre os temas mais quentes tais como a Ebserh, o 70/30, as trinta horas, o fechamento do campus e o modelo de universidade. Qualquer um deles levará adiante a proposta definida pelo Banco Mundial.


A nós, resta seguir na luta, apesar de todas as divisões, arestas e divergências que se mostraram transparentes nessa eleição, mas que precisam ser pensadas e superadas para que nós mesmos possamos avançar no rumo da universidade que necessitamos. 


Quanto ao segundo turno, não há opção. Voto nulo!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A indústria da morte



Por Eduardo Marinho

Há pouco tempo um grupo de psiquiatras britânicos diagnosticou uma nova psicopatia, a ortorexia, que consiste na obsessão de algumas pessoas em comer alimentos puros, rejeitando qualquer comida industrializada, químicas, coloridas, aromatizadas. A indústria alimentícia não brinca em serviço. As informações sobre a nocividade da "alimentação" industrial são restritas aos pequenos grupos mais informados, os preços de orgânicos e integrais são proibitivos à maioria. Os transgênicos estão nas prateleiras dos mercados, nas bebidas, em toda parte consumidos, na ignorância das inúmeras experiências catastróficas com animais, jamais divulgadas.

A diferença que deve ser levada em conta é o fato de antes tudo isso passar batido, sem questionamentos. Agora se fala no assunto, ainda de forma restrita a pequenos grupos que eu chamo de embrionários. O processo é lento, mas não pára, todo o tempo. Não podemos mudar o mundo, mas o mundo está em mutação permanente, desde que apareceu no universo. Ninguém vai "mudar o mundo", mas todos participam das mudanças que acontecem sem parar. Cabe a nós escolher como participar ou participar do jeito que somos condicionados, induzidos com mentiras bem pregadas em nosso inconsciente.

E participar como queremos requer uma faxina interna nos quereres que temos, pois a esmagadora maioria é produzida por profissionais do inconsciente e implantada pela mídia, pela cultura do consumo, pelo ensino enquadrador que impede a formação de senso crítico. Perceber os nossos próprios condicionamentos requer humildade, sinceridade e profundidade, raridade numa cultura social onde prevalece a forma sobre o conteúdo, tarefa nada fácil, mas fundamental no caminho da tomada de consciência. A conscientização é uma tarefa permanente, não há um ponto de chegada, o caminhar é o destino.

Nada de tão novo assim.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O repórter e a rua





Claudia, Raquel e Viviane
guerreiras!










 














Nesses tempos internéticos, quando os jornalistas preferem escrever suas matérias apenas consultando o google ou fazendo entrevistas por email, as professoras do Curso de Jornalismo da Unisul, Raquel Wandelli, Cláudia Reis e Viviane Bevilacqua, insistem nas velhas práticas de repórter, que nada mais são do que o encontro amoroso com as gentes e as ruas.
 

Na noite dessa terça-feira (20 de outubro) elas levaram a turma do segundo ano para um passeio pelo centro da cidade, buscando realizar a beleza do corpo-a-corpo com a vida, como diria o grande repórter João Antônio. E o que vivenciaram foi o assombramento que só é possível para aqueles que saem de suas zonas de conforto e se embriagam da existência vertiginosa dos caminhos da margem.
 

A aula ao ar livre começou no coreto da Praça XV, esquecido espaço de retretas e alegria. Hoje ele serve de cama para um bom número de moradores em situação de rua. Pedindo licença para os que ali ajeitavam suas poucas coisas, os estudantes chegaram, meio tímidos. Licença dada, Raquel começou sua fala, contando da experiência de observar a vida das ruas que começou lá longe, na França, com os famosos “flâneurs” (caminhantes)  e que, depois, foi tomando corpo como uma prática jornalística. 

No Brasil temos bons exemplos como João do Rio, João Antônio, Marcos Faermann, Eliane Brum.

Depois, os alunos apresentaram cantos e falas, tudo relacionado a esses que, nas ruas, são invisíveis para o jornalismo normótico, acostumado às salas acarpetadas e às fontes oficiais. Enquanto tudo isso acontecia, os moradores de rua foram se aproximando. Mais um pouco e eles já estavam sentados no coreto, junto com a turma. E um pouco mais, estavam falando e contando suas histórias, ensinando sobre a vida e sobre ser quem são. Foi um momento mágico. Estava feito o encontro, essa coisa bela em que um olha para o outro, sem medo.


Percival, Caveira, Gê, Junior, Lúcifer e outros tantos que ali foram se acercando estabeleceram a relação de confiança. Famintos de palavras e atenção, eles transformaram a aula em espaço de diálogo fraterno e terno. Teve de tudo, discursos, emoção, lágrimas, risos, canto, chuva, vento fresco. E os estudantes puderam perceber que há múltiplos universos circulando na vida real e que é ali que moram as histórias e os seres mágicos que constroem o mundo. 


Depois de trocas e abraços, a turma seguiu caminhando pela Praça XV, descobrindo os lugares já mortos, desaparecidos, como a feira hippie que vicejava no meio da Praça, ou o Miramar, cujo fantasma se levanta em frente ao antigo terminal de ônibus. Caminhando pelas ruas, eles foram descobrindo uma Florianópolis antiga, mas que ainda vive na memória, uma cidade tomada, tirada das gentes. Depois circularam pela Travessa Ratclif, onde ainda resiste parte da vida cultural.
 

Flanando na noite fresca, os futuros jornalistas foram tocados pela asa do repórter, esse ser que pergunta, que questiona, que narra. Esse ser que caminha pelas ruas, pelas margens, pelos cantos escuros onde ninguém quer passar, que destapa as mentiras, que descortina verdades. O repórter, esse inconformado, esse contador de histórias que, ao contá-las, diz do mundo inteiro. O repórter, o ser das ruas, da vida real. E tanta magia se fez que até se pode ver o espírito o Mosquito (Hamilton Alexandre), um desses históricos caminhantes da cidade, que andava sempre com seu notebook na mão, auscultando a vida do Desterro.

A aula de Raquel, Cláudia e Viviane foi uma dessas coisas inesquecíveis, que só acontecem porque ainda há os que insistem no jornalismo real, esse que analisa o dia, que busca na vida mesma a essência do que se pode narrar. 



Convidada que fui para falar de minha prática, sempre pautada nesse suporto de que a rua ainda é o melhor lugar para buscar histórias, eu pude viver esse momento. Agradeço! Foi lindo!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Eleições na UFSC e tentativas de retrocesso democrático









 


Por Lauro Mattei - Professor do curso de Graduação em Economia e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC

As eleições para Reitor das IFES foram normatizadas pela Lei 5.540/1968, durante a vigência do Regime Militar. Esta lei estabeleceu um processo formal de escolha por parte das instituições federais na proporcionalidade de 70% para docentes e 30% para as demais categorias (TAEs e Estudantes). Em 1995 (Lei 9.192) e em 1996 (Lei 9.394) essa norma de 1968 sofreu algumas alterações, porém mantendo-se intacta a proporcionalidade acima referida, a qual vem sendo cumprida pela UFSC em todos os processos de escolha formal dos novos reitores.


O que precisa ficar claro é que esta norma diz respeito apenas ao processo de consulta formal que tradicionalmente é realizado pela instância deliberativa máxima da universidade, que no caso da UFSC é o Conselho Universitário. O CUn elabora a lista tríplice que é enviada ao MEC que designará posteriormente o novo Reitor. 


Outra coisa distinta é a consulta informal, que na UFSC já vem sendo realizada desde o ano de 1983. Tal consulta não precisa obedecer qualquer normal legal de proporcionalidade definida em lei, ficando ao encargo da instituição e das demais formas de representação da comunidade universitária a definição das regras da consulta eleitoral. Tanto é assim que desde aquele ano (1983) até hoje é utilizada a proporcionalidade de um terço para cada categoria (Professores, TAEs e Estudantes) que faz parte da comunidade universitária. Registre-se que a grande maioria das IFES do país realiza a consulta informal nestas mesmas condições, sem nunca ter havido problema de natureza legal.

Numa atitude clara de desrespeito a essa trajetória histórica de escolha dos dirigentes da UFSC, a APUFSC estará realizando uma consulta paralela nos dias 19.10 e 20.10.2015, dias que antecedem a eleição para Reitor marcada para 21.10.2015. Esta consulta, na verdade, é uma clara tentativa de impor à Consulta Informal as regras da Consulta Formal definidas pela lei do Regime Militar, ou seja, que os votos dos professores representem 70% do processo. Para tanto, até ação na justiça foi ajuizada contra o processo eleitoral que será realizado no dia 21.10.2015, além de abaixo assinados que circularam pela universidade sob responsabilidade dessa organização
sindical.


No geral, exige-se que as eleições sejam feitas na proporcionalidade de 70% dos votos para os professores e 30% para as demais categorias (TAEs e Estudantes). Além disso, afirmam que se recusam a participar de qualquer processo eleitoral que não esteja de acordo com os preceitos legais definidos pela Lei 9.192. Neste contexto, vejamos a posição sobre este assunto por parte de alguns candidatos atuais ao cargo de Reitor:

Chapa 81: candidato Claudio Amante. Na época da definição dessa posição da APUFSC ele era vice-presidente da entidade e nada consta sobre posicionamentos seus contrários a esta atitude que para mim representa um retrocesso em relação ao processo eleitoral vigente na UFSC desde 1983.

Chapa 82: Candidato Luis Carlos Cancellier votou contra a paridade durante a reunião do CUn que estabeleceu as regras da consulta atual, numa clara atuação em defesa da proposição da APUFSC.


Chapa 84: Candidato Edson Roberto de Pierre assinou o manifesto defendendo o peso de 70% para os professores e, mais ainda, afirmou que não participaria de nenhum processo eleitoral que não estivesse embasado na Lei 9.192/95.


Assim, para essas três candidaturas o processo eleitoral, em termos de participação de cada eleitor, seria: 1 voto de um professor corresponderia a 88 votos de um estudante e a 6 votos de um TAE. Você acha isso democrático? 


Na trajetória das sociedades observa-se que a atuação do homem sempre foi no sentido de aprimorar seus conhecimentos e suas formas de organização societária visando o aperfeiçoamento democrático. Neste sentido, entendemos que a atitude da APUFSC no processo eleitoral atual vem na contramão da história e, particularmente, da própria história de construção da democracia na UFSC.


Por isso, conclamo a todos os segmentos integrantes da UFSC que desejam manter e ampliar a democracia a rejeitar mais esta tentativa de Retrocesso Democrático, a qual também encontra guarida nas candidaturas acima mencionadas.


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mestre Nô - um dia para lembrar































Aquele foi um momento único. Tão incrível que desliguei a câmera e apenas senti. Nenhuma foto, nenhuma imagem, puro sentimento. Em pé, como se fora um orixá guerreiro, o Mestre Nô, e em volta dele, os capoeiras da ilha de Santa Catarina. Mitos como Mestre Pop e Alemão, e outros mestres, mais novos, igualmente fazendo a história dessa dança/luta/magia. O toque do berimbau e o canto em uníssono. Um canto forte, ora duro, ora malemolente, referenciando a obra e a história daquele homem que, aos 70 anos, recebeu uma justa homenagem dos capoeiras do sul do mundo.

Mestre Nô, baiano de nascimento, foi a raiz que se espalhou pelos quatro cantos do Brasil na prática da Capoeira Angola. Foi lá, em Salvador, que Alemão bebeu dos conhecimentos de vida e da luta. Depois, de volta ao sul, trouxe a força dessa capoeira de rua, de tronco popular. E, devagarinho, foi plantando em Santa Catarina, particularmente na ilha, esse jeito de resistir do povo negro. Paradoxo. Alemão e Mestre Nô. O branco e o negro entrelaçados na prática de uma cultura que representa a mais importante forma de combate dos negros. Um combate físico e cultural, que vive e persiste.

Pois os filhos dessa raiz forte, o Mestre Nô, não descansaram enquanto não realizaram a justa homenagem a esse homem sem igual. E, capoeiras, também professores da UFSC, como Fábio Machado Pinto e Danuza Meneghello, iniciaram um caminho para garantir a Mestre Nô o título de Notório Saber. Doutor Honoris Causa. A proposta tramitou no Centro de Educação e foi aprovada, aguardando apenas a homologação por parte do Conselho Universitário. Mas, os caminhos burocráticos são longos e os capoeiras decidiram que era chegada a hora de reverenciar, em vida, aquele que tanta beleza garantiu à capoeira da ilha.

Assim, na noite cálida desse 15 de outubro, dia do professor, o mestre recebeu as honras. E ali estava ele, entre os seus, ouvindo a música que lhe retrata, com o rosto impávido e os olhos marejados. Na simplicidade do verdadeiro mestre, ele agradeceu à UFSC e aos amigos com os quais compartilhou a capoeira por tantos anos. 

E no auditório, cheio de capoeiras, o canto se ergueu, porque é assim que se resiste. Na alegria, no braço, na força e no riso. Vieram lágrimas, mas foram de alegria e de profunda reverência. Mestre Nô não leva apenas uma placa de prata, com um título universitário. Ele leva o amor e a gratidão de toda uma linhagem de capoeiras que, certamente, seguirão espalhando seus ensinamentos pelo mundo afora. 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Derrotada!





As obras já estão a todo vapor para fechar o vão central










Quando o prefeito César Souza decidiu gourmetizar o mercado público, a gente resistiu. Fizemos protestos, gritamos, escrevemos, tudo o que tínhamos direito. Não adiantou. Ele decidiu fazer uma licitação e acabou tirando do espaço do mercado comerciantes que estavam ali uma vida inteira. Gente que já era patrimônio cultural, como foi o caso do Alvim, o bar da ponta da rua, lugar perfeito para uma gelada, um bolinho de bacalhau e a espionagem da vida que fluía para o terminal de ônibus. 

Depois da licitação dos espaços - que era necessária, mas que poderia ter respeitado os históricos - o prefeito do PSD decidiu fazer uma reforma no prédio. Até aí tudo bem, sempre são bem vindos os melhoramentos. Mas, o que deveria durar alguns meses se alongou para mais de um ano e, ao final, o que recebemos foi uma espécie de xópim. Os boxes, que antes abrigavam bares populares, com comidas baratas e acessíveis, sumiram. No seu lugar vieram os negócios de comida rápida, tipo o Bob´s, e restaurantes caros. Nada de botecos, nada de bares populares. Tudo ali estava feito para os turistas ou para a burguesia local. 

A música que rolava livre nos finais de tarde e nas manhãs de sábado também mudou. Agora, nada de pagode, ou de livre expressão das gentes. Tudo bem organizadinho, com inscrição e pagamento de taxas. Artistas populares e livres estão proibidos no local. No vão do prédio, ao ar livre, as cadeiras homogeneizadas da Coca Cola dão aquele ar de praça de alimentação, dessas que são iguais em todo o mundo nos centros de compras. 

Durante algum tempo buscamos resistir. Com alguns amigos sentávamos nas mesas e levávamos nossa cerveja ou nossa cachaça, visto que agora não há mais cervejas de 600 mls. Só chope fino ou garrafinhas long neck. Tudo muito caro. Tampouco há jeito de comer alguma coisa. Um pastel custa 12 reais. Levávamos então um saquinho de amendoim  e insistíamos em ocupar aquele espaço que fora nosso por décadas.

Na semana passada fomos lá, eu e o Rubens, em mais uma tentativa de estar no mercado. O novo bar, que ficou no lugar do Alvin, bem na ponta da rua, não vende bolinho de bacalhau unitário. Só porção. Ou seja, tem que gastar muito. Não dá. Lá no meio, nas mesas cocacoladas, tampouco se pode ficar. Uma olhada para os lados e não se vê qualquer globo ocular simpático. Não estão os amigos, os bêbados, os pescadores, os sambistas, as putas. O que se vê são os turistas e um outro tipo de gente que nunca antes tínhamos visto por ali, com joias no corpo e roupas finas. Por mais que a gente insista em ocupar nosso mercado, ele já não tem mais a nossa cara. Estamos expulsos dali, por conta dos preços, da freguesia, do ambiente pasteurizado. 

Mas, naquele triste dia, uma coisa mais me roubou a alegria. Iniciavam as obras de fechamento do vão central. A proposta da prefeitura é colocar um teto sob a parte que fica ao ar-livre. Ou seja, não bastou cocacolizar o espaço, há que torná-lo fechado, tomado pelo ar-condicionado, xopinizado ao extremo.

Nosso mercado de peixe deixará de existir. Será só uma casquinha amarela, cheia de granfinos gastadores por dentro, que sequer estarão interessados no lugar. Para eles, será só mais um espaço para tomar seus espumantes. Quanto a nós, os amantes do mercado, que nos embriagávamos da vida mesma, que ali fluía, resta desistir. 

Naquele dia de chuva, saí dali vertida em lágrimas. O meu, o teu, o nosso mercado não há mais. Derrotada. Agora, só mesmo a nostalgia da velhas fotos. O velho mercado se nos escapou, e poucos somos os que choramos por ele...

Um dia alguém dirá: Por que? Por que? Como hoje dizemos do antigo Miramar. E, tal como antes, será tarde demais...

12 de outubro de 1492 - o começo do massacre





 Cacique Hatuey
 
Contam que foi assim. Naquele outubro de 1492, fazia um dia lindo de sol no mar dos Caraíbas e os arawakes observaram as estranhas embarcações que se aproximavam. Quando perceberam que ali vinham homens, correram para recebê-los com água, comida e desejos de boas vindas. Mas, toda essa hospitalidade foi logo entendida como fraqueza e é assim que descreve Colombo em seu diário, o povo que, de braços abertos, o acolheu: “Trouxeram louros, bolas de algodão, lanças e outras coisas que trocaram conosco por contas de vidro. Não tiveram qualquer inconveniente em nos dar tudo o que possuíam... Eram de forte constituição, corpos bem feitos e boas feições... Não carregam armas de fogo, não as conhecem. Ao tocarem numa espada, a tomaram pela lâmina e se cortaram sem saber o que fazer com ela. Não trabalham o ferro. Suas lanças são feitas de taquara... Seriam uns criados magníficos... Com cinquenta homens os subjugaríamos e com eles faríamos o que quiséssemos”. Já neste breve escrito pode-se perceber qual a lógica da armada de Cristóvão Colombo: a cobiça e o desejo de dominar. Tanto que nas primeiras tentativas de conversa com os nativos das Antilhas, onde aportaram, a primeira pergunta que sofregamente repetiam os espanhóis era: “onde está o ouro?”

É que Colombo havia saído de uma Espanha recém unificada, que ansiava pelas riquezas da Ásia para melhor constituir seus estados. Ele mesmo ambicionava ao posto de governador das terras descobertas, além dos 10% sobre todas as riquezas que encontrasse. Era disso que se tratava a viagem.

Nas ilhas aonde chegaram os espanhóis, os arawakes viviam em pequenas comunidades, com uma agricultura baseada no milho, batata e mandioca. Sabiam tecer e fiar, mas não domesticavam nenhum animal. Não conheciam o ferro, mas, desgraçadamente levavam pequenos ornamentos de ouro nas orelhas, o que acendeu a cobiça. Por conta disso Colombo aprisionou alguns homens e os fez guiar as embarcações para onde hoje é a ilha de Cuba e depois para o que é hoje o Haiti e República Dominicana, pois ali supostamente haveria mais ouro. Chegando às ilhas, ao receberem de presente de um dos chefes locais uma máscara de ouro, decidiram ficar. Ali haveria de ter mais do metal precioso.  Assim, com as madeiras da caravela Santa Maria, Colombo ergueu a primeira base militar estrangeira nas terras de Abya Yala e a chamou de Navidad. Aprisionou mais indígenas e começou o processo de matança que ainda segue até os dias de hoje.

Na verdade, conforme conta o historiador estadunidense Howard Zinn, naqueles dias Colombo ainda acreditava que havia chegado à Ásia, embora em algum lugar ignorado da costa chinesa. Sobre os moradores do lugar escreve aos soberanos espanhóis: “Os portos naturais são incrivelmente bons e há grandes rios, a maioria deles com muito ouro. Os indígenas são tão ingênuos e generosos com suas posses que se não tivesse visto com meus próprios olhos eu não acreditaria. Quando se pede algo que têm, não se negam a dar. Ao contrário, se oferecem para compartilhar...” E foi por conta destes informes da generosidade autóctone a da promessa de ouro que Colombo conseguiu receber mais 17 caravelas e 1.200 homens para uma nova expedição “às índias”, com o propósito de conquistar escravos e mais ouro. E assim foi feito. Mas, como não havia ouro na quantidade desejada, muitas foram as mortes e as atrocidades cometidas contra os arawakes. Conforme Howard Zinn, os que falhavam na missão de recolher ouro tinham as mãos cortadas e morriam sangrando.

Vivendo essas barbaridades, aqueles que haviam recebido os espanhóis com tamanha generosidade começaram a perceber que ali estava um povo cruel e cheio de cobiça. Foi quando tentaram reunir um exército de resistência, embora muito pouco pudessem contra as armaduras, mosquetes, espadas e cavalos. A mais importante liderança desse povo foi Hatuey, um cacique taíno, que chegou a ir remando desde onde hoje é a República Dominicana até a ilha de Cuba para avisar aos demais povos da região sobre as atrocidades dos espanhóis. Ao chegar, Hatuey aconselhou os parentes para que se preparassem para grandes batalhas e também que sumissem com todo o ouro que tivessem pois esse era o demônio que movia a invasão. A partir daí, ele mesmo comandou alguns grupos em ataques contra os espanhóis. Frei Bartolomé de Las Casas, narra uma cena, atribuída ao grande cacique taíno. Conta que junto a um baú com ouro e joias, ele falou aos parentes:

"Este é o Deus que os espanhóis adoram. Por isso eles lutam e matam, por isso eles nos perseguem e por isso é que temos de atirá-los ao mar. Nos dizem, esses tiranos, que adoram um deus de paz e igualdade, mas usurpam nossas terras e nos fazem de escravos. Eles falam de uma alma imortal e de recompensas e castigos eternos, mas roubam nossos pertences, seduzem nossas mulheres, violam nossas filhas. Incapazes de nos igualar em valor, esses covardes se cobrem com ferro que nossas armas não podem romper".

Hatuey tentou organizar a luta dividindo os homens em pequenos grupos para ataques surpresa, usando pedras, paus e flechas. Mas, Diego Velázquez conhecia bastante bem as técnicas dos indígenas e conseguiu ir debelando os grupos rebeldes. Além do conhecimento das táticas dos autóctones, os espanhóis tinham uma arrasadora capacidade técnica, já que contavam com armas de fogo, armaduras, lanças de ferro e até cachorros farejadores. Com o tempo, eles foram exterminando os focos de resistência e conseguiram prender o cacique Hatuey.

Depois de passar por terríveis torturas, o cacique foi condenado à morte na fogueira. Era preciso não deixar qualquer rastro que fizesse dele um herói ou que o rememorasse. Mas, ainda assim, Hatuey virou lenda, como o primeiro grande rebelde dessas terras contra a invasão. Contam que quando já estava para ser acesa a fogueira que colocaria fim a sua vida, um padre, de nome Olmedo, acercou-se e perguntou se ele não gostaria de - naquela hora extrema - converter-se ao cristianismo.

Hatuey encontrou forças para perguntar:
- Os espanhóis também vão para o céu dos cristãos?
- Sim, claro - disse Olmedo.

- Então eu não quero o céu. Quero o inferno. Porque lá não estarão e lá não verei tão cruel gente.

Hoje, na região de Granma, em Cuba, num povoado chamado Yara, bem na margem de um rio que tem o mesmo nome, onde segundo narra a história, foi o lugar onde Hatuey ardeu na fogueira, ocorre um fato que lembra sua valentia e a tentativa de parar a violenta invasão. Ali, no povoado, corre até hoje uma lenda. Nas noites escuras sempre é possível vislumbrar uma luz, que muda bastante de tamanho e que parece seguir os viajantes que passam pelo lugar. Para os moradores, a luz - que até hoje nenhum cientista conseguiu explicar - é a alma de Hatuey, que segue ali, como um símbolo, a lembrar da resistência do povo indígena. Naquelas margens, o bravo cacique segue sendo reverenciado, ainda que já tenham se passado mais de 500 anos de sua morte. 

Com a morte de Hatuey e o sistemático desmantelamento da resistência indígena na região, os originários começaram a se ver sem saída. E, não aceitando mais a escravidão, os arawakes iniciaram um processo de suicídio em massa, utilizando o veneno de uma mandioca tóxica. Igualmente, se nascia alguma criança, logo era morta para não cair em mãos espanholas. Assim, em pouco mais de 20 anos da invasão, mais de 250 mil arawakes já haviam perecido. Em 1550 restavam apenas 500 indígenas, e em 1650 estavam praticamente extintos da região onde hoje é o Haiti. No total, em toda a região das Antilhas, mais de três milhões de índios havia desaparecido diante da sanha do ouro trazida pelos espanhóis. É o que fala o historiador estadunidense Samuel Eliot Morinson: “A cruel política iniciada por Colombo e continuada por seus sucessores desembocou em um genocídio completo”. 


E exatamente como Colombo exterminou os arawakes nas Antilhas, Hernán Cortéz repetiu o feito com os aztecas, zapotecas, e demais povos, no México, Francisco Pizarro destruiu os Incas na região andina e, bem mais tarde, os ingleses dizimaram os povos originários da região do que hoje são os Estados Unidos. Tudo isso em nome de uma coisa só: o ouro. Colombo iniciou, portanto, um violento e complexo sistema de tecnologia, negócios, política e cultura que dominaria o mundo desde então.