sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mestre Nô - um dia para lembrar































Aquele foi um momento único. Tão incrível que desliguei a câmera e apenas senti. Nenhuma foto, nenhuma imagem, puro sentimento. Em pé, como se fora um orixá guerreiro, o Mestre Nô, e em volta dele, os capoeiras da ilha de Santa Catarina. Mitos como Mestre Pop e Alemão, e outros mestres, mais novos, igualmente fazendo a história dessa dança/luta/magia. O toque do berimbau e o canto em uníssono. Um canto forte, ora duro, ora malemolente, referenciando a obra e a história daquele homem que, aos 70 anos, recebeu uma justa homenagem dos capoeiras do sul do mundo.

Mestre Nô, baiano de nascimento, foi a raiz que se espalhou pelos quatro cantos do Brasil na prática da Capoeira Angola. Foi lá, em Salvador, que Alemão bebeu dos conhecimentos de vida e da luta. Depois, de volta ao sul, trouxe a força dessa capoeira de rua, de tronco popular. E, devagarinho, foi plantando em Santa Catarina, particularmente na ilha, esse jeito de resistir do povo negro. Paradoxo. Alemão e Mestre Nô. O branco e o negro entrelaçados na prática de uma cultura que representa a mais importante forma de combate dos negros. Um combate físico e cultural, que vive e persiste.

Pois os filhos dessa raiz forte, o Mestre Nô, não descansaram enquanto não realizaram a justa homenagem a esse homem sem igual. E, capoeiras, também professores da UFSC, como Fábio Machado Pinto e Danuza Meneghello, iniciaram um caminho para garantir a Mestre Nô o título de Notório Saber. Doutor Honoris Causa. A proposta tramitou no Centro de Educação e foi aprovada, aguardando apenas a homologação por parte do Conselho Universitário. Mas, os caminhos burocráticos são longos e os capoeiras decidiram que era chegada a hora de reverenciar, em vida, aquele que tanta beleza garantiu à capoeira da ilha.

Assim, na noite cálida desse 15 de outubro, dia do professor, o mestre recebeu as honras. E ali estava ele, entre os seus, ouvindo a música que lhe retrata, com o rosto impávido e os olhos marejados. Na simplicidade do verdadeiro mestre, ele agradeceu à UFSC e aos amigos com os quais compartilhou a capoeira por tantos anos. 

E no auditório, cheio de capoeiras, o canto se ergueu, porque é assim que se resiste. Na alegria, no braço, na força e no riso. Vieram lágrimas, mas foram de alegria e de profunda reverência. Mestre Nô não leva apenas uma placa de prata, com um título universitário. Ele leva o amor e a gratidão de toda uma linhagem de capoeiras que, certamente, seguirão espalhando seus ensinamentos pelo mundo afora. 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Derrotada!





As obras já estão a todo vapor para fechar o vão central










Quando o prefeito César Souza decidiu gourmetizar o mercado público, a gente resistiu. Fizemos protestos, gritamos, escrevemos, tudo o que tínhamos direito. Não adiantou. Ele decidiu fazer uma licitação e acabou tirando do espaço do mercado comerciantes que estavam ali uma vida inteira. Gente que já era patrimônio cultural, como foi o caso do Alvim, o bar da ponta da rua, lugar perfeito para uma gelada, um bolinho de bacalhau e a espionagem da vida que fluía para o terminal de ônibus. 

Depois da licitação dos espaços - que era necessária, mas que poderia ter respeitado os históricos - o prefeito do PSD decidiu fazer uma reforma no prédio. Até aí tudo bem, sempre são bem vindos os melhoramentos. Mas, o que deveria durar alguns meses se alongou para mais de um ano e, ao final, o que recebemos foi uma espécie de xópim. Os boxes, que antes abrigavam bares populares, com comidas baratas e acessíveis, sumiram. No seu lugar vieram os negócios de comida rápida, tipo o Bob´s, e restaurantes caros. Nada de botecos, nada de bares populares. Tudo ali estava feito para os turistas ou para a burguesia local. 

A música que rolava livre nos finais de tarde e nas manhãs de sábado também mudou. Agora, nada de pagode, ou de livre expressão das gentes. Tudo bem organizadinho, com inscrição e pagamento de taxas. Artistas populares e livres estão proibidos no local. No vão do prédio, ao ar livre, as cadeiras homogeneizadas da Coca Cola dão aquele ar de praça de alimentação, dessas que são iguais em todo o mundo nos centros de compras. 

Durante algum tempo buscamos resistir. Com alguns amigos sentávamos nas mesas e levávamos nossa cerveja ou nossa cachaça, visto que agora não há mais cervejas de 600 mls. Só chope fino ou garrafinhas long neck. Tudo muito caro. Tampouco há jeito de comer alguma coisa. Um pastel custa 12 reais. Levávamos então um saquinho de amendoim  e insistíamos em ocupar aquele espaço que fora nosso por décadas.

Na semana passada fomos lá, eu e o Rubens, em mais uma tentativa de estar no mercado. O novo bar, que ficou no lugar do Alvin, bem na ponta da rua, não vende bolinho de bacalhau unitário. Só porção. Ou seja, tem que gastar muito. Não dá. Lá no meio, nas mesas cocacoladas, tampouco se pode ficar. Uma olhada para os lados e não se vê qualquer globo ocular simpático. Não estão os amigos, os bêbados, os pescadores, os sambistas, as putas. O que se vê são os turistas e um outro tipo de gente que nunca antes tínhamos visto por ali, com joias no corpo e roupas finas. Por mais que a gente insista em ocupar nosso mercado, ele já não tem mais a nossa cara. Estamos expulsos dali, por conta dos preços, da freguesia, do ambiente pasteurizado. 

Mas, naquele triste dia, uma coisa mais me roubou a alegria. Iniciavam as obras de fechamento do vão central. A proposta da prefeitura é colocar um teto sob a parte que fica ao ar-livre. Ou seja, não bastou cocacolizar o espaço, há que torná-lo fechado, tomado pelo ar-condicionado, xopinizado ao extremo.

Nosso mercado de peixe deixará de existir. Será só uma casquinha amarela, cheia de granfinos gastadores por dentro, que sequer estarão interessados no lugar. Para eles, será só mais um espaço para tomar seus espumantes. Quanto a nós, os amantes do mercado, que nos embriagávamos da vida mesma, que ali fluía, resta desistir. 

Naquele dia de chuva, saí dali vertida em lágrimas. O meu, o teu, o nosso mercado não há mais. Derrotada. Agora, só mesmo a nostalgia da velhas fotos. O velho mercado se nos escapou, e poucos somos os que choramos por ele...

Um dia alguém dirá: Por que? Por que? Como hoje dizemos do antigo Miramar. E, tal como antes, será tarde demais...

12 de outubro de 1492 - o começo do massacre





 Cacique Hatuey
 
Contam que foi assim. Naquele outubro de 1492, fazia um dia lindo de sol no mar dos Caraíbas e os arawakes observaram as estranhas embarcações que se aproximavam. Quando perceberam que ali vinham homens, correram para recebê-los com água, comida e desejos de boas vindas. Mas, toda essa hospitalidade foi logo entendida como fraqueza e é assim que descreve Colombo em seu diário, o povo que, de braços abertos, o acolheu: “Trouxeram louros, bolas de algodão, lanças e outras coisas que trocaram conosco por contas de vidro. Não tiveram qualquer inconveniente em nos dar tudo o que possuíam... Eram de forte constituição, corpos bem feitos e boas feições... Não carregam armas de fogo, não as conhecem. Ao tocarem numa espada, a tomaram pela lâmina e se cortaram sem saber o que fazer com ela. Não trabalham o ferro. Suas lanças são feitas de taquara... Seriam uns criados magníficos... Com cinquenta homens os subjugaríamos e com eles faríamos o que quiséssemos”. Já neste breve escrito pode-se perceber qual a lógica da armada de Cristóvão Colombo: a cobiça e o desejo de dominar. Tanto que nas primeiras tentativas de conversa com os nativos das Antilhas, onde aportaram, a primeira pergunta que sofregamente repetiam os espanhóis era: “onde está o ouro?”

É que Colombo havia saído de uma Espanha recém unificada, que ansiava pelas riquezas da Ásia para melhor constituir seus estados. Ele mesmo ambicionava ao posto de governador das terras descobertas, além dos 10% sobre todas as riquezas que encontrasse. Era disso que se tratava a viagem.

Nas ilhas aonde chegaram os espanhóis, os arawakes viviam em pequenas comunidades, com uma agricultura baseada no milho, batata e mandioca. Sabiam tecer e fiar, mas não domesticavam nenhum animal. Não conheciam o ferro, mas, desgraçadamente levavam pequenos ornamentos de ouro nas orelhas, o que acendeu a cobiça. Por conta disso Colombo aprisionou alguns homens e os fez guiar as embarcações para onde hoje é a ilha de Cuba e depois para o que é hoje o Haiti e República Dominicana, pois ali supostamente haveria mais ouro. Chegando às ilhas, ao receberem de presente de um dos chefes locais uma máscara de ouro, decidiram ficar. Ali haveria de ter mais do metal precioso.  Assim, com as madeiras da caravela Santa Maria, Colombo ergueu a primeira base militar estrangeira nas terras de Abya Yala e a chamou de Navidad. Aprisionou mais indígenas e começou o processo de matança que ainda segue até os dias de hoje.

Na verdade, conforme conta o historiador estadunidense Howard Zinn, naqueles dias Colombo ainda acreditava que havia chegado à Ásia, embora em algum lugar ignorado da costa chinesa. Sobre os moradores do lugar escreve aos soberanos espanhóis: “Os portos naturais são incrivelmente bons e há grandes rios, a maioria deles com muito ouro. Os indígenas são tão ingênuos e generosos com suas posses que se não tivesse visto com meus próprios olhos eu não acreditaria. Quando se pede algo que têm, não se negam a dar. Ao contrário, se oferecem para compartilhar...” E foi por conta destes informes da generosidade autóctone a da promessa de ouro que Colombo conseguiu receber mais 17 caravelas e 1.200 homens para uma nova expedição “às índias”, com o propósito de conquistar escravos e mais ouro. E assim foi feito. Mas, como não havia ouro na quantidade desejada, muitas foram as mortes e as atrocidades cometidas contra os arawakes. Conforme Howard Zinn, os que falhavam na missão de recolher ouro tinham as mãos cortadas e morriam sangrando.

Vivendo essas barbaridades, aqueles que haviam recebido os espanhóis com tamanha generosidade começaram a perceber que ali estava um povo cruel e cheio de cobiça. Foi quando tentaram reunir um exército de resistência, embora muito pouco pudessem contra as armaduras, mosquetes, espadas e cavalos. A mais importante liderança desse povo foi Hatuey, um cacique taíno, que chegou a ir remando desde onde hoje é a República Dominicana até a ilha de Cuba para avisar aos demais povos da região sobre as atrocidades dos espanhóis. Ao chegar, Hatuey aconselhou os parentes para que se preparassem para grandes batalhas e também que sumissem com todo o ouro que tivessem pois esse era o demônio que movia a invasão. A partir daí, ele mesmo comandou alguns grupos em ataques contra os espanhóis. Frei Bartolomé de Las Casas, narra uma cena, atribuída ao grande cacique taíno. Conta que junto a um baú com ouro e joias, ele falou aos parentes:

"Este é o Deus que os espanhóis adoram. Por isso eles lutam e matam, por isso eles nos perseguem e por isso é que temos de atirá-los ao mar. Nos dizem, esses tiranos, que adoram um deus de paz e igualdade, mas usurpam nossas terras e nos fazem de escravos. Eles falam de uma alma imortal e de recompensas e castigos eternos, mas roubam nossos pertences, seduzem nossas mulheres, violam nossas filhas. Incapazes de nos igualar em valor, esses covardes se cobrem com ferro que nossas armas não podem romper".

Hatuey tentou organizar a luta dividindo os homens em pequenos grupos para ataques surpresa, usando pedras, paus e flechas. Mas, Diego Velázquez conhecia bastante bem as técnicas dos indígenas e conseguiu ir debelando os grupos rebeldes. Além do conhecimento das táticas dos autóctones, os espanhóis tinham uma arrasadora capacidade técnica, já que contavam com armas de fogo, armaduras, lanças de ferro e até cachorros farejadores. Com o tempo, eles foram exterminando os focos de resistência e conseguiram prender o cacique Hatuey.

Depois de passar por terríveis torturas, o cacique foi condenado à morte na fogueira. Era preciso não deixar qualquer rastro que fizesse dele um herói ou que o rememorasse. Mas, ainda assim, Hatuey virou lenda, como o primeiro grande rebelde dessas terras contra a invasão. Contam que quando já estava para ser acesa a fogueira que colocaria fim a sua vida, um padre, de nome Olmedo, acercou-se e perguntou se ele não gostaria de - naquela hora extrema - converter-se ao cristianismo.

Hatuey encontrou forças para perguntar:
- Os espanhóis também vão para o céu dos cristãos?
- Sim, claro - disse Olmedo.

- Então eu não quero o céu. Quero o inferno. Porque lá não estarão e lá não verei tão cruel gente.

Hoje, na região de Granma, em Cuba, num povoado chamado Yara, bem na margem de um rio que tem o mesmo nome, onde segundo narra a história, foi o lugar onde Hatuey ardeu na fogueira, ocorre um fato que lembra sua valentia e a tentativa de parar a violenta invasão. Ali, no povoado, corre até hoje uma lenda. Nas noites escuras sempre é possível vislumbrar uma luz, que muda bastante de tamanho e que parece seguir os viajantes que passam pelo lugar. Para os moradores, a luz - que até hoje nenhum cientista conseguiu explicar - é a alma de Hatuey, que segue ali, como um símbolo, a lembrar da resistência do povo indígena. Naquelas margens, o bravo cacique segue sendo reverenciado, ainda que já tenham se passado mais de 500 anos de sua morte. 

Com a morte de Hatuey e o sistemático desmantelamento da resistência indígena na região, os originários começaram a se ver sem saída. E, não aceitando mais a escravidão, os arawakes iniciaram um processo de suicídio em massa, utilizando o veneno de uma mandioca tóxica. Igualmente, se nascia alguma criança, logo era morta para não cair em mãos espanholas. Assim, em pouco mais de 20 anos da invasão, mais de 250 mil arawakes já haviam perecido. Em 1550 restavam apenas 500 indígenas, e em 1650 estavam praticamente extintos da região onde hoje é o Haiti. No total, em toda a região das Antilhas, mais de três milhões de índios havia desaparecido diante da sanha do ouro trazida pelos espanhóis. É o que fala o historiador estadunidense Samuel Eliot Morinson: “A cruel política iniciada por Colombo e continuada por seus sucessores desembocou em um genocídio completo”. 


E exatamente como Colombo exterminou os arawakes nas Antilhas, Hernán Cortéz repetiu o feito com os aztecas, zapotecas, e demais povos, no México, Francisco Pizarro destruiu os Incas na região andina e, bem mais tarde, os ingleses dizimaram os povos originários da região do que hoje são os Estados Unidos. Tudo isso em nome de uma coisa só: o ouro. Colombo iniciou, portanto, um violento e complexo sistema de tecnologia, negócios, política e cultura que dominaria o mundo desde então.

sábado, 10 de outubro de 2015

O Sérgio, do Box 40




Vinha de uma jornada num hospital, onde o tempo para, apenas na espera da recuperação da vida. Cansada, triste, sombria. Então, na rodoviária de Porto Alegre, antes de pegar o ônibus para Florianópolis, fui buscar um lugar para comer. Espiei aqui, ali, aquelas "lancherias" ( é como se diz no sul, lanchonete) cheirando a gordura. Não tinha muita escolha. A fome era grande.

Parei numa delas, de nome Box 40. Cabisbaixa, algumas lágrimas insistindo em sair, fiquei ali, esperando o prato. Então, passei a reparar no rapaz que preparava as refeições, bem a minha frente. Cada prato que saía, vinha com alguma tirada engraçada, uma brincadeira, uma espécie de bailado entre ele e a menina que atendia as mesas.  

Acompanhando aquele alegre ritual fui desenferruscando a cara, sorrindo, entrando no mesmo clima de alegria e brincadeira que ele propiciava. Ali estava, num pequeno espaço, fedendo a gordura, possivelmente superexplorado, irradiando tanto riso e bem-querenças. 

Comi minha milanesa, sempre de olho no cara, rindo de suas bobagens. Minha alma foi ficando leve. Quando terminei, paguei e fiz questão de ir até ele perguntar seu nome e agradecer. Sérgio. É assim que se chama. Ficou meio envergonhado quando agradeci pelos minutos de pura alegria que ele me havia proporcionado naquela hora de almoço. Mas, olhando para o dono da casa, que estava no caixa, arriscou: "Viu como as brincadeiras são legais". Eu confirmei. Sim, são legais.

Num mundo cada vez mais perdido de amor, aquele homem, Sérgio, com seu contentamento em simplesmente viver, encheu meu coração de ternura.  Saí dali sorrindo, achada de novo, impregnada de belezas.

Agora, quando voltar a Porto Alegre, ali estarei, no Box 40, com uma milanesa e uma Bohemia gelada, ouvindo a algaravia festiva do Sérgio, no doce desejo de ser feliz. 
 
   

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As alas do SUS nos hospitais privados



Imaginem um hospital no interior, pequeno, privado, com uma pequena ala do SUS, esse incrível sistema de saúde criado no Brasil,  que permite a qualquer pessoa ser atendida gratuitamente. Mas, que, por conta de maus administradores municipais ou de outros âmbitos, acaba sendo no mais das vezes o saguão do inferno. Pois, ali estava eu, num desses hospitais. Poucos médicos na ala SUS, poucas enfermeiras, poucos técnicos e muito doentes. Muitos. Na emergência chegam os estropiados, os quebrados, os urgentes. Os poucos leitos vivem lotados e os que chegam ficam nas macas, nos corredores. Não por maldade dos médicos ou atendentes. Não há vagas mesmo. E se a pessoa não tem dinheiro para um atendimento particular tem de se submeter.

Meu pai foi um desses tantos urgentes que amargou um dia inteiro, entre delírios e fraquezas, deitado numa maca no meio do corredor por onde entram as emergências. Só no segundo dia conseguiu leito, depois de diagnosticada uma infecção renal, coisa que, em velho, tem todas as chances de ser fatal.
O quarto onde agora se trata é simples e coletivo. As coisas estão velhas, mas parece limpinho. Há que destacar o trabalho quase desumano a qual estão submetidas as assistentes de enfermagem. Garotas guerreiras que seguram na força do braço um andar inteiro de gente para trocar, medicar e cuidar. É de emocionar, e algumas ainda conseguem ser humanas, engraçadas e gentis.

Junto com meu pai estão mais outros dois doentes. Um deles é o senhor Brasil, ele está com o pé necrosado e precisa do oxigênio para respirar. É o que está melhor dos três, podendo falar e andar. Negro, pobre, ele não sabe muito bem o que tem. “O médico vem, mas não explica direito, ou eu é que não entendo, não sei”. O que sim, sabe, é que lhe falta o ar e lhe explode o coração. Sem outro recurso, tem de confiar no tratamento que lhe dão.

O outro companheiro de quarto chama-se Marco, é um jovem que está morrendo. “A médica veio aqui e já desenganou ele”, conta a mãe, dona Maria, uma mulher de uns 60 anos que parece ter 80. O corpo magrinho se debruça sobre a cama e ela reza, entre lágrima, ao longo do dia e da noite. Há três semanas ela está ali, acompanhando o filho. E como no quarto coletivo não tem lugar para o acompanhante descansar, ela se encolhe na cadeira fria. Diz que já não há lugar no corpo que não doa. Está sozinha no cuidado, não tem como compartilhar a dor. Quando fala é para reclamar do tratamento do pessoal do hospital. “É triste ser assim, pobrezinha, feínha e velha. Eles tratam mal. Ontem eles me tiraram do quarto pra limpar meu filho. Mas chegam com brutalidade, dizendo sai, sai, como se a gente fosse lixo. Será que eles não têm mãe”.

Na noite de vigília que compartilhamos, chovia à cântaros, e ela se sentiu ofendida com a maneira da enfermeira falar e foi ficar lá fora do hospital, no meio da rua, chorando e clamando aos céus. Uma cena de cortar o coração. As assistentes, penalizadas, tentaram trazê-la de volta, mas ela não quis, preferindo a chuva a ser maltratada. Só no comecinho da manhã, quando o filho gritava por ela, sem parar, é que as jovens conseguiram fazê-la voltar, toda molhada. Ela veio, e ali ficou chorando, chorando, sem parar. Nenhum consolo parecia possível.

Em parte dona Maria tem razão. Há certo descaso com os pobres. Os médicos falam como se estivessem fazendo um favor e, se as perguntas são muitas, fazem cara de irritação e respondem sem paciência. Não explicam. Falam na língua de médico e esperam que as pessoas apenas confiem. Por vezes não é suficiente. Um pouco de ternura com uma mãe, ou um filho, ou uma esposa que cuida do parente, poderia ser muito producente. A gente confia, não há saída, mas custava ter um pouco de compaixão? Parece que eles aprendem na faculdade que não é para ter “envolvimento” com o doente, mas nada impede um pouco de humanidade. “É porque a gente é pobre, com os ricos não fazem isso”, insiste dona Maria. Vai saber, nenhum de nós nunca foi rico.

Outro aspecto alucinante é o barulho durante a noite. Os trabalhadores passam pelo corredor conversando alto, riem, gritam, arrastam máquinas, tonéis de lixo, escadas, pouco se importando se os doentes estão querendo dormir. Parece que eles, os pacientes, ficam invisíveis, e aí se pode entender o significado literal da palavra “paciente”. Não há saída. Estão ali prisioneiros da situação, sem força para sequer reclamar. Há uma perplexidade no olhar de cada um, que já estão assustados pela morte que espia nas portas, e ainda tendo de se submeter a situações tão constrangedoras.

Por isso que a madrugada acaba sendo também um espaço de solidariedade. Os doentes que podem ficam andando de quarto em quarto, procurando saber como está o colega de infortúnio, contam histórias, procuram ajudar. Os familiares que ficam como cuidadores, porque não há serviço de enfermagem, também buscam puxar conversa, se confortar mutuamente, encontrar algum olhar de ternura, de compaixão. É um momento no qual a humanidade se expressa, viva. A tal ponto que alguns fazem a ronda junto aos que estão nas macas e cadeiras, nos corredores, procurando apoiar, levando um café, um pão, para os que ficam esperando quarto, sem apoio de ninguém. É de enternecer.

Assim, os corredores do SUS são universos de tristeza, de abandono, de desespero, de repulsa, mas também são territórios da beleza, da solidariedade, da ternura. Tudo está ali, ao mesmo tempo. E o que sustenta aquele que está parado ao lado da cama do seu familiar é justamente o terno compartilhamento da dor e do sentimento de abandono. Parece que assim, juntos, todos conseguem atravessar, com certo consolo, o caudaloso rio da doença.


Como são longas, tristes e inacreditavelmente belas as madrugas nas alas do SUS. 


terça-feira, 6 de outubro de 2015

As eleições para a reitoria da UFSC



Lendo os "devaneios" do meu colega Helio Rodak, fiquei tentada a alguns pitacos sobre a eleição. Tenho ouvido de tudo nesse ano triste, no qual a universidade ficou parada por quatro meses, por conta de uma greve dos TAEs, que sequer acabou, ainda que esteja nos estertores. Nesse período sumiram os trabalhadores, os docentes e os alunos e o campus, dia após dia, ficou vazio de vida, como se esse não fosse um lugar de efervescência cultural e intelectual.

É fato que a eleição para o cargo máximo da UFSC não encanta ninguém, mas não é correto dizer que não haja candidatos da "massa", se considerarmos que a "massa" é a maioria. É claro que há. E o candidato da massa é justamente o da maioria silenciosa, essa que não se agita, que se esconde, que espia e espera. E que vota no projeto que melhor se identifica com seus desejos, sejam eles egoístas ou altruístas.

Também não vejo como certo dizer que não há diferentes projetos de universidade em disputa. Mas é claro que há. E cada candidato que se apresenta hoje tem deixado muito bem claro qual é o seu. Mesmo aquele que não fala, que tartamudeia, que tergiversa, está expressando seu projeto, porque o que é neutro no meio do rio está a favor do rio.

Eu escolhi o Irineu para meu candidato, não escondo de ninguém, até porque acredito que temos de tomar posição sobre a nossa casa. E por conta dessa escolha tenho ouvido pessoas me dizendo que até votariam nele, mas... E aí vêm os argumentos mais esdrúxulos.

1  - O Irineu não é de esquerda  - Posso até concordar que ele não seja de esquerda, assim, essa esquerda clássica que está nas passeatas, nos movimentos, nos palanques. Mas, o Irineu abraçou as pautas da esquerda como o "Não à EBSERH", as 30 horas, a democratização dos espaços da UFSC, contra as terceirizações, pela recuperação de cargos extintos. E ainda que ele não tenha discursos inflamados, firmou compromisso e, penso eu, vai cumprir. Por outro lado, o movimento de esquerda da UFSC abandonou a luta política dentro do campus. Não há movimento. Sobrevivem alguns indivíduos que, identificados como esquerda, batalham sozinhos ou em outros espaços da luta da cidade. Não há movimento de esquerda na UFSC, as forças segmentadas não se reuniram, não discutiram e não planejaram lançar um candidato. 

2 - O Irineu não é fruto da escolha democrática das massas - Muito bem , estamos de acordo, ele não é. Até porque como já disse ali em cima, não há movimento massivo na UFSC. Pequenos grupos, partidos, divididos, brigando por pequenos poderes. Ao longo de todo o mandato de Roselane não procuraram construir uma proposta alternativa. Boa parte deles aliou-se à atual gestão e outros ficam em cima do muro, num purismo que não ajuda. E além do mais, nenhum outra candidatura é fruto de qualquer outro "debate democrático". Essa é a realidade na UFSC.

.3  - O Irineu não empolga  - E que deveria fazer o candidato? Gritar, gesticular, sapatear, contratar um marqueteiro para esconder seus defeitos e apresentar um boneco palatável aos eleitores? O Irineu é o que é, o que sempre foi. Um trabalhador dedicado, honesto, capaz de incorporar propostas progressistas, disposto a fazer da universidade um lugar bom para trabalhar e viver. Um professor capaz de pensar a realidade, a instituição, a cidade. Quer dar à UFSC o lugar que ela deveria ter em Florianópolis. Um lugar aonde o pensamento aflore e que possa dialogar com os problemas da cidade e do estado.

4  - O Irineu não tem postura de reitor - E o que isso significa? Que ele anda de calça jeans? Que ele circula pela universidade conversando com as pessoas? Que ele é um cara simples, sem arroubos egóicos? Pois bem, o Irineu é isso. Uma pessoa tranquila, de gestos calmos, de vida simples, de falar manso. Em que medida isso é defeito? Precisaria ele ser um arrogante sem coração? Alguém que não olha os trabalhadores nos olhos, que foge pela porta dos fundos? Isso seria uma boa postura para um reitor? Pois a mim encanta que um reitor possa ser sereno, capaz de ouvir o diferente, disposto a dialogar. Essa é a postura que espero de quem vai comandar os rumos da UFSC.

6  - O  debate da campanha é superficial - Ora, pois. A campanha política é o espaço da propaganda. É o momento em que precisamos marcar alguns aspectos do projeto para que o eleitor decida seu voto. O processo de formação política e explicitação de projeto é bem anterior. Ele existe colado na vida e nos atos do candidato. Por isso é importante saber quem é a pessoa que pleiteia o cargo. Como ele viveu sua vida laboral? Que projeto defendeu? Como se comportou diante de determinadas lutas que nos são caras? Eu vi muito bem como se comportaram os candidatos durante a batalha da EBSERH, coisa que para mim é fundamental. E, tirando o Irineu, nunca vi qualquer outro candidato ou candidata participando dos debates e dos atos em defesa do HU público. Irineu não apenas aportou trabalho às comissões de estudo como circulou pelo HU, ajudando na campanha pelo Não. 

Eu poderia ficar aqui, rebatendo cada mau argumento, mas creio que basta. Finalizo dizendo que sim, há projetos claros em disputa. Um é de adequação completa ao modo de ser universidade que aí está, modelo do Banco Mundial (que claramente quatro candidatos defendem, por palavras e atos) e outro que procura encontrar veredas para romper com essa proposta, avançando com democráticos e seguros passos. Pode não ser o revolucionário projeto da esquerda brasileira, mas está disposto a dialogar com ele, no que dele ainda resta, apesar de toda a destruição da esperança.

Se os modelos de projeto não empolgam a massa talvez a resposta esteja justamente no triste processo de desmonte da universidade pública (o projeto em curso). A proposta de educação defendida e levada pelos gestores ano após ano deu nisso aí. Uma universidade calada, fechada no coronelismo, sem pensamento crítico, esperando o grande salvador branco.

A triste notícia é que  não existe o "salvador". Quem nos salva somos nós mesmos, coletivamente, aglutinados  em torno de um projeto que mude essa gosma. Sem isso, seguiremos sendo esse amontoado de pequenos grupos, siglas e lutas particularistas, incapazes de caminhar para o grande meio-dia.  

Eu declaro meu voto no Irineu e insisto. O voto no candidato não nos libera da responsabilidade da crítica. Assim, respondo aos que me dizem: 

- E se o Irineu ganhar, e for uma merda?  

Pois bem, se for uma merda, vamos estar na primeira fila da luta, porque estamos na batalha por uma universidade necessária e não na defesa de uma pessoa. Hoje, é o Irineu que, para mim, encarna essa proposta. Se não for assim, serei a mais feroz combatente. Caminhamos por um projeto coletivo, e assim seguimos.

Ensacando Dias Velho





O dia nascera emburrado, mas no alojamento, o povo já se preparava. Estavam ali há três dias, em intensos debates sobre como sobreviver na universidade. Eram jovens de vários lugares do Brasil, de variadas etnias indígenas. Já tinham discutido o acesso, a permanência, o preconceito, a demarcação das terras, a violência que ainda enfrentam, seja ela sutil ou explícita, como a que vive o povo Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Tinham também ouvido as experiências de parentes da Colômbia, do México, do Equador e de outros cantos da América Latina.

Haviam compreendido que estar na universidade dos brancos era também uma forma de resistir. Entrar, colocar a cunha, mostrar a cultura, dividir saberes ancestrais. Aprender, mas também ensinar. E, no diálogo com os companheiros latino-americanos, também entenderam que o movimento indígena brasileiro tem de avançar para a criação de uma universidade própria, indígena, para que, aí sim, possa realmente existir o diálogo intercultural. Um desafio que ficou para ser desvelado e superado.

Só que naquela tarde não haveria discussão. Eles marchariam até o centro da cidade, ocupando as ruas com suas cores, danças e cantorias. Florianópolis, tão acostumada a presença silenciosa dos Guarani, haveria de conhecer a garra Tuxá, o grito Xavante, Pataxó, Pancararu. E assim foi. Saindo da UFSC, a coluna indígena foi passando pelos caminhos, incendiando a cidade. As janelas se abriam e caras admiradas surgiam, bocas abertas. O que era aquilo?

Cantando e dançando os estudantes iam mostrando a beleza de suas culturas. Quando chegaram ao túnel que leva ao centro, eles tomaram conta de todas as pistas e, por alguns minutos, bailaram em círculos, com gritos e passos cadenciados. Era a expressão da alegria, o encontro sagrado com as raízes, a apoteose da cultura.

Seguiram caminho até o centro, percorrendo mais de 20 quilômetros e lá, no meio do Mercado Público gourmetizado, ocupado agora apenas por turistas e riquinhos, de novo entoaram seus cantos, no bailado xamânico. As pessoas paravam, admiradas e estupefatas. E os Tuxá puxavam seus cantos caboclos, evocando os deuses das florestas e dos igarapés. Momento mágico.

O próximo passo era o mais esperado. Sob a ponte que liga a ilha ao continente, desde há anos se mostra, arrogante, o colonizador. Uma estátua erguida para homenagear aquele que, conforme dizem os não-índios, “fundou” a cidade: Francisco Dias Velho. Em pé, nariz empinado, segurando o mosquete, o bandeirante matador de índios, que comandou caçadas por todo o sudeste antes de chegar à ilha, olha para o centro da capital e dá nome ao elevado que corta a beira do mar.

Numa correria louca, os estudantes atravessaram a perigosa autoestrada no rumo da estátua. Burlando a polícia que acompanhava a caminhada eles assomaram, gritando como se fossem para a guerra. Num átimo, sem que os policiais esboçassem reação eles já estavam ao pé da estátua. Dois deles subiram no pedestal e a enrolaram numa faixa, na qual estava escrito: DEMARCAÇÃO. Depois, afixaram cartazes com apoio aos parentes Guarani Kaiowá.

Falas repúdio ecoaram frente a estátua do assassino que havia varrido do litoral a presença Guarani. “Homens como Dias Velho ainda estão por aí, com suas armas na mão, matando índio. O massacre de nossa gente continua. Não é possível que continuem fazendo homenagens aos escravistas assassinos.” E, em volta da figura do matador, eles dançaram e fizeram pajelanças. Nenhum passo atrás, a luta vai prosseguir.

Dois dias depois, quando todos já tinham partido da cidade para suas regiões, passei pela ponte e, surpresa, vi a estátua ainda coberta com a faixa. Ninguém se preocupara em desembrulhar. Dias Velho estava cegado pela palavra “demarcação” e só o mosquete aparecia. Antes, como hoje, as armas ainda estão apontadas para os índios. Mas, a diferença é que agora, eles não têm medo algum.  

Que vivam os povos indígenas desse país e de toda Abya Yala.