terça-feira, 6 de outubro de 2015

As eleições para a reitoria da UFSC



Lendo os "devaneios" do meu colega Helio Rodak, fiquei tentada a alguns pitacos sobre a eleição. Tenho ouvido de tudo nesse ano triste, no qual a universidade ficou parada por quatro meses, por conta de uma greve dos TAEs, que sequer acabou, ainda que esteja nos estertores. Nesse período sumiram os trabalhadores, os docentes e os alunos e o campus, dia após dia, ficou vazio de vida, como se esse não fosse um lugar de efervescência cultural e intelectual.

É fato que a eleição para o cargo máximo da UFSC não encanta ninguém, mas não é correto dizer que não haja candidatos da "massa", se considerarmos que a "massa" é a maioria. É claro que há. E o candidato da massa é justamente o da maioria silenciosa, essa que não se agita, que se esconde, que espia e espera. E que vota no projeto que melhor se identifica com seus desejos, sejam eles egoístas ou altruístas.

Também não vejo como certo dizer que não há diferentes projetos de universidade em disputa. Mas é claro que há. E cada candidato que se apresenta hoje tem deixado muito bem claro qual é o seu. Mesmo aquele que não fala, que tartamudeia, que tergiversa, está expressando seu projeto, porque o que é neutro no meio do rio está a favor do rio.

Eu escolhi o Irineu para meu candidato, não escondo de ninguém, até porque acredito que temos de tomar posição sobre a nossa casa. E por conta dessa escolha tenho ouvido pessoas me dizendo que até votariam nele, mas... E aí vêm os argumentos mais esdrúxulos.

1  - O Irineu não é de esquerda  - Posso até concordar que ele não seja de esquerda, assim, essa esquerda clássica que está nas passeatas, nos movimentos, nos palanques. Mas, o Irineu abraçou as pautas da esquerda como o "Não à EBSERH", as 30 horas, a democratização dos espaços da UFSC, contra as terceirizações, pela recuperação de cargos extintos. E ainda que ele não tenha discursos inflamados, firmou compromisso e, penso eu, vai cumprir. Por outro lado, o movimento de esquerda da UFSC abandonou a luta política dentro do campus. Não há movimento. Sobrevivem alguns indivíduos que, identificados como esquerda, batalham sozinhos ou em outros espaços da luta da cidade. Não há movimento de esquerda na UFSC, as forças segmentadas não se reuniram, não discutiram e não planejaram lançar um candidato. 

2 - O Irineu não é fruto da escolha democrática das massas - Muito bem , estamos de acordo, ele não é. Até porque como já disse ali em cima, não há movimento massivo na UFSC. Pequenos grupos, partidos, divididos, brigando por pequenos poderes. Ao longo de todo o mandato de Roselane não procuraram construir uma proposta alternativa. Boa parte deles aliou-se à atual gestão e outros ficam em cima do muro, num purismo que não ajuda. E além do mais, nenhum outra candidatura é fruto de qualquer outro "debate democrático". Essa é a realidade na UFSC.

.3  - O Irineu não empolga  - E que deveria fazer o candidato? Gritar, gesticular, sapatear, contratar um marqueteiro para esconder seus defeitos e apresentar um boneco palatável aos eleitores? O Irineu é o que é, o que sempre foi. Um trabalhador dedicado, honesto, capaz de incorporar propostas progressistas, disposto a fazer da universidade um lugar bom para trabalhar e viver. Um professor capaz de pensar a realidade, a instituição, a cidade. Quer dar à UFSC o lugar que ela deveria ter em Florianópolis. Um lugar aonde o pensamento aflore e que possa dialogar com os problemas da cidade e do estado.

4  - O Irineu não tem postura de reitor - E o que isso significa? Que ele anda de calça jeans? Que ele circula pela universidade conversando com as pessoas? Que ele é um cara simples, sem arroubos egóicos? Pois bem, o Irineu é isso. Uma pessoa tranquila, de gestos calmos, de vida simples, de falar manso. Em que medida isso é defeito? Precisaria ele ser um arrogante sem coração? Alguém que não olha os trabalhadores nos olhos, que foge pela porta dos fundos? Isso seria uma boa postura para um reitor? Pois a mim encanta que um reitor possa ser sereno, capaz de ouvir o diferente, disposto a dialogar. Essa é a postura que espero de quem vai comandar os rumos da UFSC.

6  - O  debate da campanha é superficial - Ora, pois. A campanha política é o espaço da propaganda. É o momento em que precisamos marcar alguns aspectos do projeto para que o eleitor decida seu voto. O processo de formação política e explicitação de projeto é bem anterior. Ele existe colado na vida e nos atos do candidato. Por isso é importante saber quem é a pessoa que pleiteia o cargo. Como ele viveu sua vida laboral? Que projeto defendeu? Como se comportou diante de determinadas lutas que nos são caras? Eu vi muito bem como se comportaram os candidatos durante a batalha da EBSERH, coisa que para mim é fundamental. E, tirando o Irineu, nunca vi qualquer outro candidato ou candidata participando dos debates e dos atos em defesa do HU público. Irineu não apenas aportou trabalho às comissões de estudo como circulou pelo HU, ajudando na campanha pelo Não. 

Eu poderia ficar aqui, rebatendo cada mau argumento, mas creio que basta. Finalizo dizendo que sim, há projetos claros em disputa. Um é de adequação completa ao modo de ser universidade que aí está, modelo do Banco Mundial (que claramente quatro candidatos defendem, por palavras e atos) e outro que procura encontrar veredas para romper com essa proposta, avançando com democráticos e seguros passos. Pode não ser o revolucionário projeto da esquerda brasileira, mas está disposto a dialogar com ele, no que dele ainda resta, apesar de toda a destruição da esperança.

Se os modelos de projeto não empolgam a massa talvez a resposta esteja justamente no triste processo de desmonte da universidade pública (o projeto em curso). A proposta de educação defendida e levada pelos gestores ano após ano deu nisso aí. Uma universidade calada, fechada no coronelismo, sem pensamento crítico, esperando o grande salvador branco.

A triste notícia é que  não existe o "salvador". Quem nos salva somos nós mesmos, coletivamente, aglutinados  em torno de um projeto que mude essa gosma. Sem isso, seguiremos sendo esse amontoado de pequenos grupos, siglas e lutas particularistas, incapazes de caminhar para o grande meio-dia.  

Eu declaro meu voto no Irineu e insisto. O voto no candidato não nos libera da responsabilidade da crítica. Assim, respondo aos que me dizem: 

- E se o Irineu ganhar, e for uma merda?  

Pois bem, se for uma merda, vamos estar na primeira fila da luta, porque estamos na batalha por uma universidade necessária e não na defesa de uma pessoa. Hoje, é o Irineu que, para mim, encarna essa proposta. Se não for assim, serei a mais feroz combatente. Caminhamos por um projeto coletivo, e assim seguimos.

Ensacando Dias Velho





O dia nascera emburrado, mas no alojamento, o povo já se preparava. Estavam ali há três dias, em intensos debates sobre como sobreviver na universidade. Eram jovens de vários lugares do Brasil, de variadas etnias indígenas. Já tinham discutido o acesso, a permanência, o preconceito, a demarcação das terras, a violência que ainda enfrentam, seja ela sutil ou explícita, como a que vive o povo Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Tinham também ouvido as experiências de parentes da Colômbia, do México, do Equador e de outros cantos da América Latina.

Haviam compreendido que estar na universidade dos brancos era também uma forma de resistir. Entrar, colocar a cunha, mostrar a cultura, dividir saberes ancestrais. Aprender, mas também ensinar. E, no diálogo com os companheiros latino-americanos, também entenderam que o movimento indígena brasileiro tem de avançar para a criação de uma universidade própria, indígena, para que, aí sim, possa realmente existir o diálogo intercultural. Um desafio que ficou para ser desvelado e superado.

Só que naquela tarde não haveria discussão. Eles marchariam até o centro da cidade, ocupando as ruas com suas cores, danças e cantorias. Florianópolis, tão acostumada a presença silenciosa dos Guarani, haveria de conhecer a garra Tuxá, o grito Xavante, Pataxó, Pancararu. E assim foi. Saindo da UFSC, a coluna indígena foi passando pelos caminhos, incendiando a cidade. As janelas se abriam e caras admiradas surgiam, bocas abertas. O que era aquilo?

Cantando e dançando os estudantes iam mostrando a beleza de suas culturas. Quando chegaram ao túnel que leva ao centro, eles tomaram conta de todas as pistas e, por alguns minutos, bailaram em círculos, com gritos e passos cadenciados. Era a expressão da alegria, o encontro sagrado com as raízes, a apoteose da cultura.

Seguiram caminho até o centro, percorrendo mais de 20 quilômetros e lá, no meio do Mercado Público gourmetizado, ocupado agora apenas por turistas e riquinhos, de novo entoaram seus cantos, no bailado xamânico. As pessoas paravam, admiradas e estupefatas. E os Tuxá puxavam seus cantos caboclos, evocando os deuses das florestas e dos igarapés. Momento mágico.

O próximo passo era o mais esperado. Sob a ponte que liga a ilha ao continente, desde há anos se mostra, arrogante, o colonizador. Uma estátua erguida para homenagear aquele que, conforme dizem os não-índios, “fundou” a cidade: Francisco Dias Velho. Em pé, nariz empinado, segurando o mosquete, o bandeirante matador de índios, que comandou caçadas por todo o sudeste antes de chegar à ilha, olha para o centro da capital e dá nome ao elevado que corta a beira do mar.

Numa correria louca, os estudantes atravessaram a perigosa autoestrada no rumo da estátua. Burlando a polícia que acompanhava a caminhada eles assomaram, gritando como se fossem para a guerra. Num átimo, sem que os policiais esboçassem reação eles já estavam ao pé da estátua. Dois deles subiram no pedestal e a enrolaram numa faixa, na qual estava escrito: DEMARCAÇÃO. Depois, afixaram cartazes com apoio aos parentes Guarani Kaiowá.

Falas repúdio ecoaram frente a estátua do assassino que havia varrido do litoral a presença Guarani. “Homens como Dias Velho ainda estão por aí, com suas armas na mão, matando índio. O massacre de nossa gente continua. Não é possível que continuem fazendo homenagens aos escravistas assassinos.” E, em volta da figura do matador, eles dançaram e fizeram pajelanças. Nenhum passo atrás, a luta vai prosseguir.

Dois dias depois, quando todos já tinham partido da cidade para suas regiões, passei pela ponte e, surpresa, vi a estátua ainda coberta com a faixa. Ninguém se preocupara em desembrulhar. Dias Velho estava cegado pela palavra “demarcação” e só o mosquete aparecia. Antes, como hoje, as armas ainda estão apontadas para os índios. Mas, a diferença é que agora, eles não têm medo algum.  

Que vivam os povos indígenas desse país e de toda Abya Yala.

sábado, 26 de setembro de 2015

Os bebês


O dia mal ia vencendo a noite e ouvi os gritos no portão. Meu nome sendo chamado numa voz apressada. Já era hora de acordar e levantei depressa. Do outro lado me esperavam três crianças de olhar assustado.

- Que foi?
- A nossa cadela deu cria, mas o pai disse que vai matar todos os filhotinhos. Por favor, por favor, fica com eles.

Primeiro relaxei. Não era nenhuma desgraça. Mas, no semblante dos três a impressão era de que o mundo ia se acabar.

- Quantos são?
- Quatro.

Argumentei que tinha os gatos, que eles não iriam gostar, e que os cachorros também poderiam estranhar. Enfim, não podia ficar com os bichinhos. Mas do outro lado, só aquelas carinhas e um repetido "por favor, por favor". De novo ponderei que os bichinhos, que tinham nascido naquele instante , não poderiam ficar sem a mãe. Ela tinha de vir também para dar de mamar. "Tudo bem, a gente traz. O pai não quer mais ficar com ela também. Ele vai matar eles, por favor, por favor".

Aquela altura  já estava toda a minha família (que não é essa da Câmara) no portão, acompanhando o drama. Meu companheiro relutava em deixar ficar os bichos, afinal, já tínhamos outros que escolheram nossa casa para morar. Mas, quem podia resistir ao pedido desesperado daqueles três pequenos?  Os guris já se aviavam arrumando um canto para os filhotes. "Tá bom, traz eles, mas vamos por para a adoção". E o riso veio aliviado na cara deles. Nem ouviram o que eu dizia, saindo correndo para pegar os bichinhos.

Logo estavam ali com os filhotes dentro de uma bacia. Quatro fofuras mais a mãe, uma cadelinha estranhinha e saltitante. Foi ela entrar e perturbar todo o ambiente. Os gatos saiam correndo, os cachorros latindo. Senhor! Que tumulto... Mas, os garotos eram só alegria, os filhotinhos viveriam.

Agora os bichos estão aqui. A Mel amamentando os filhotes, e os cachorrinhos tentando sobreviver nesse mundo tão vazio de amor. Dois dos bebezinhos morreram, não sei porquê, mas os outros dois estão seguindo, fortinhos e barulhentos. Os gatos, que corriam amedrontados, já se acostumaram com a Mel e até arriscam lamber os cãezinhos. Os cachorros acolheram a Mel como se fora uma namorada. Fazem carinho e compartilham a ração sem rosnar. Os garotos vêm todos os dias depois da escola ver os filhotes, fazer carinho e conversar. O maiorzinho até ofereceu vender uns livros que tinha para ajudar na ração. Declinei. "Onde comem dois, comem três. Vai ficar tudo bem". A Mel já pula na minhas pernas e eu nem sei mais se posso ficar sem ela.

Do alto do meu altarzinho de belezas, Francisco, o santo, sorri.

Essa é a vida, nossa cotidiana vida...


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A debutante



A televisão é um mundo surpreendente para mim. Ontem, passando os canais, deparei-me com alguém falando do seu baile de debutantes. "Meu pai trouxe o Caio Castro para dançar a valsa comigo". Bom, o Caio Castro é um artista global e cobra em torno de 20 mil reais para ficar uma hora na festa, incluindo dançar a valsa. Choquei. Que tipo de pai paga um cara para dançar com a filha? E que garota é essa que aceita algo assim?

Divagando sobre isso lembrei do meu baile de debutantes. Fiz 15 anos em São Borja, cidade fronteiriça com a Argentina. Lá, a vida social se dava nos clubes e o baile de debutantes era o ápice. Havia três clubes grandes na cidade. O Comercial, que era o espaço dos ricos, o Recreativo Samborjense, da classe média, e o Esperança, dos negros. Nós frequentávamos o Recreativo e minha mãe insistia que as duas filhas debutassem. Quando me tocou a vez, ainda esbocei resistência. Achava aquilo uma maçada. Uma coisa meio besta. Mas, não teve jeito, minha irmã mais velha já tinha cumprido a tradição e eu não escaparia.

Naqueles dias eu já era quem sou. Bicho do mato. Poucos amigos. Não tinha ninguém com quem dançar a valsa. Mas, tímida e envergonhada por tão pouca popularidade escondi esse detalhe. Todos os preparativos para o baile foram sendo finalizados. Vestido bordado, feito em costureira, convites e tudo mais. Nos ensaios eu mentia que o meu par estava com esse ou aquele problema e não viria. E o tempo foi passando. 

Faltando dois dias para o baile continuava sem a menor ideia de quem seria meu par. Tinha duas saídas. Ou entrava em pânico ou aprendia a gerir meus problemas cotidianos com criatividade e valentia. Ao fim,o acaso me deu um empurrão. No recreio da escola escutei alguns guris falando do baile e um deles saiu com essa: 

- Queria ir no baile, mas não sou sócio. 

Foi a deixa e a salvação. Fiquei à espreita e quando ele se separou dos amigos encostei e fiz a proposta.

- Olha, eu vou debutar e preciso de um par. Se tu quiser, eu posso te por para dentro. Tu entra como meu par. Só precisa dançar a valsa e depois, pode se esbaldar. 

Ele estranhou, não me conhecia direito. Mas, topou. Dois dias depois, lá estava ele na porta do clube, com seu terno preto e gravata borboleta. Com o nome na lista, feito par de debutantes, entrou e esperou a hora da valsa, bem tranquilo, na mesa com meus pais. A cerimônia correu bonita, com rosa para mãe, valsa com o pai e, finalmente a valsa com o par. Como um milagre, ali estava o meu, contrariando todos os prognósticos que eu antevira ao longo dos meses de preparação. E o que era para ser um grande fracasso social e pessoal, passou sem nuvens.

Aquele tinha sido, talvez, meu primeiro grande drama. Chegar ao baile sem um par. E, também contrariando minha própria natureza tímida, eu resolvera de maneira super pragmática, sem que ninguém a minha volta soubesse do fato. Enfrentara e vencera, sozinha e sem alarde. Estava nas nuvens. Dancei a valsa e liberei o rapaz, que curtiu o baile a noite toda. Bruno era seu nome, nunca o esqueci. 

Hoje, tão distante no tempo, percebo que aquela foi uma decisão bonita demais. Minha e dele, ambos vencendo nossas limitações. Isso em muito determina os caminhos que vamos trilhar. Imagine se eu tivesse pedido ao meu pai que arranjasse um par para mim? Toda a determinação para enfrentar os pequenos problemas da vida se perderia. E eu talvez me tornasse uma tola. Naquele dia eu tomei meu primeiro pileque e acho que foi de pura alegria por ter enfrentado sozinha o terror social. Eu não sabia, mas já era uma mulher. Vejo isso claramente na foto que olha para mim do passado e no riso radiante que marca minha cara.


domingo, 20 de setembro de 2015

Ananda Marga - uma experiência de bem-aventurança


Entrevista com o monge Dada Pavanananda, da organização sócio-espiritual Ananda Marga. Ele mora no Campeche, onde oferece práticas de meditação gratuitamente. Também dá aulas de Yoga no Centro Comunitário do Rio Tavares. No programa Campo de Peixe, ele falou sobre a Ananda Marga e sobre os tempos atuais.

sábado, 19 de setembro de 2015

Dom José - Imorrível

Hoje marca o dia do encantamento de Dom José Gomes, em 2002. Naquele triste dia escrevi esse texto, de saudade e de amor. Dom José é uma pessoa que está sempre no meu coração. A benção, meu lindo...




Dom José vive para sempre

E eis então que ele se foi. Feito um passarinho.  Na simplicidade, como sempre viveu. Encantou agora. Fico pensando em quantas revoluções não vai provocar lá no céu. Dom José Gomes. José. Um ser único, que tudo o que queria era ver seu povo bem. Um homem sem igual, que entregou seu coração a essa missão nobre que foi a de levar a ideia de Jesus por onde quer que fosse. 

Estava velhinho, 81 anos, e sofria de um mal em que a pessoa vai perdendo a memória. Parecia uma grande ironia isso. Como pode perder a memória aquele que é a memória viva da história do movimento popular em Santa Catarina?  Quando soube, me revoltei com Deus, com a vida, com tudo.  Mas, aí, certa noite, em conversa com as estrelas, tive a resposta. Ele esquecia para que nós lembrássemos. 

O bispo de Chapecó, iluminador de almas, nunca foi de grandes pompas. Era homem de capelinhas improvisadas, de barracos de lona, de casas velhas de madeira, de tendas indígenas, de chão. Foi assim que incendiou o oeste de Santa Catarina. Esteve a frente de todas as lutas envolvendo sem-terra, atingidos das barragens, índios, mulheres camponesas, agricultores. Um profeta. Sabia que viria o dia da libertação, mas não ficou esperando por ele. Arregaçou as mangas e foi construí-lo. 

Nunca vou esquecer de uma manhã, em Florianópolis, numa Romaria da Terra, em que constrangidos, alguns padres o convidavam para ir até a Cúria, compartilhar um almoço com a cúpula da Igreja. E ele, com aqueles olhos imensos, de pura doçura, disse não. “Fico aqui, com meu povo”. Depois, enquanto as autoridades iam para o banquete, ele parou em uma carrocinha de cachorro-quente, comprou um e o comeu, devagar. Em seguida , passou a circular por entre as gentes que almoçavam na grama, dividindo o que haviam trazido. Ele mordiscava um pão, tomava uma água, passava a mão na cabeça de um menino. Caminhante em meio aos seus. Um homem único.

Dom José nunca fez questão de homenagens, de bustos em praça. Só queria que as pessoas lutassem. Essa era sua missão. Queria que sua gente fizesse caminho na dignidade, na partilha, no amor. Foi o que plantou a vida toda. Agora foi embora, deixou a terra, encantou. Nunca mais veremos aquela figura, de óculos imensos e olhos de lâmpada, dizer suas palavras de amor. Agora ele só vai viver em nós, na nossa força, na nossa luta. Vai ser difícil. 
  
Quando ouvi a notícia de que ele havia encantado, o chão se abriu. A primeira coisa que pensei é de que não era justo. Não era hora ainda. Esse homem lindo precisava ver o Brasil dar sua grande virada. Ele precisava ver. Ele é parte disso, construiu isso. Foi fermento, foi causa. Mas, enfim, resta seguir, amparada no seu exemplo de simplicidade e de amor. Não vamos desapontá-lo. Vamos lembrar sempre. Lá em cima, ele se debruçará, sorrindo, e ficará feliz que a gente siga fazendo essas “coisinhas”, que é como ele qualificava a sua luta. Indelével, sua marca fica no coração de cada um que partilhou da sua luz. Morto que nunca morre. Dom José. José. Presente!!!!!

domingo, 13 de setembro de 2015

Um mundo opaco, um grito de dor...



De fato, por aqui, pelo menos por agora, não vivemos uma guerra de verdade, com bombas explodindo casas e gente matando gente sem qualquer razão plausível.  Mas, é certo que nesse nosso mundo estranho, das grandes cidades, temos muitos espaços em que a violência institucional é pão comido, realidade cotidiana, tão cruel quanto a realidade de uma guerra. As balas estouram nas casas e as pessoas morrem como moscas. E, a dita sociedade, de modo geral, vai se acostumando a essas cenas, como se elas se naturalizassem. Assim, de repente, uma chacina num bairro qualquer da grande São Paulo passa a ser só uma notícia na TV. Negros e pobres, "potencialmente marginais", nada de mais.

Então alguém mata um leão e o mundo se comove. Porque, afinal, parece tão selvagem que exista quem cace bichos só por prazer. Aí se produzem campanhas e vertem-se lágrimas. Mas, em alguns dias, tudo passa e já uma outra sensação assoma no mundo do espetáculo.  A vida e sua capacidade de rearticulação.

Na África, fanáticos sequestram meninas e as convertem em escravas sexuais. Na Turquia, estupram e torturam mulheres para que elas aprendam a não se insurgir contra o terror. Na Palestina, soldados armados sequestram e machucam crianças. E tudo vai passando na tela, como um filme B, incompreensível e avassalador. É como se fosse calejando a dor e ela já não mais doesse.

Nos países cobiçados pelos Estados Unidos, guerras vão sendo semeadas, grupos de fanáticos são incentivados e armados. E eles decepam cabeças, afogam pessoas, queimam-nas vivas, usam todos os requintes de crueldade para matar. Mas, tudo bem, são apenas os "loucos" dos árabes. Até que um europeu ou um americano morre e então, venha nova comoção mundial, que também passa em alguns dias.

Agora, a TV nos empurra goela abaixo as dolorosas cenas das famílias em fuga, querendo entrar na Europa,  escapando do terror do oriente.Milhares morrendo afogados, sem que ninguém os queira ajudar. Milhares buscando uma chance de manter vivos os filhos, sendo empurrados de volta para a morte. Não pode entrar. Erguem-se muros e cercas. A Europa branquinha não quer confusão. Pode causar confusão, mas não a quer nos seus quintais.


E então aquela cena, vista até a exaustão, de um menininho morto, na beira do mar, perdido para sempre da chance de seguir em frente. Um a mais, dos tantos milhares que vão ficando pelo caminho na fuga desnorteada. Ah, que mundo opaco, sem maravilhas...


Não, não dá para dormir. Não dá para seguir como se nada fosse. Somos responsáveis também, de alguma forma.  E o que fazer? Como proteger os meninos das favelas brasileiras, as mulheres da Nigéria, as curdas, os haitianos, os sírios, as afegãs, iraquianas, os indígenas brasileiros e equatorianos? Como parar o terror? Como impedir que mais meninos cheguem mortos à praia? Não sei!

Seguimos por aí, travando a luta por um mundo justo, de riquezas repartidas, mas parece tão pouco, e, às vezes, tão inútil. E fica essa dor profunda, martelando, esse medo infinito de ver a humanidade perdida de si mesma. Quantos muros ainda ergueremos? Quando aprenderemos a amar, de verdade, sem medidas? Quando entenderemos que a vida é um presente e todos têm o direito de desfrutar do jardim? Quando destruiremos esse sistema perverso no qual para que um viva outro tenha de morrer? Quando quebraremos as correntes e viveremos em paz?

Não há respostas e essa é uma crônica louca, um grito de dor. Porque não dá para ser diferente! Não tem pé, não tem cabeça, só tem coração.