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A comunidade do Campeche encerra um mês de busca pela secretária do prefeito, de nome Claudia. Na verdade, ela é uma das três secretárias do prefeito de Florianópolis, César Souza Junior. Por incrível que possa parece, ela é a única, entre as três, que marca audiências com o mandatário. E, pelo que pudemos notar, ou muito pouco aparece na prefeitura ou então é orientada a não responder demandas comunitárias. Desde o dia 27 de julho, quando foi entregue, em mãos, um pedido de audiência com o prefeito, representantes da Comissão do Parque Cultural do Campeche têm ligado diariamente para o gabinete, pedindo uma resposta. A resposta, invariavelmente é: "A Claudia não está. Está acompanhando o prefeito em agenda externa".
- Mas é só ela que marca audiência?
- Sim, só ela.
- Então ela não deveria estar na prefeitura?
- (...)
Fui pessoalmente ao gabinete por várias vezes, onde conversei com outra secretária, a Daiane, e pedi que ela se comunicasse com a Claudia para que tivéssemos uma resposta sobre a audiência. Se sim ou não.
- Pode deixar senhora, vamos estar entrando em contato.
Hoje é dia 20 de agosto, e nada de contato. Sequer um correio eletrônico negando a audiência.
Já recebemos um recado do pessoal que tentou audiência com o prefeito para falar do Parque das Três Pontas. Segundo eles, também não conseguiram agendar via secretária. Depois de um mês ligando todos os dias, só conseguiram agendar depois de terem abordado o prefeito numa das atividades da prefeitura no bairro. Pois, vejam, a Claudia não marcou a reunião.
Nossa companheira da UFECO também mandou mensagem de apoio, contando que ficou um ano esperando pelo agendamento de uma audiência, e nada aconteceu.
Chego a pensar que essa tal secretária não existe. Porque não pode ser possível existir uma secretária exclusiva para marcar audiência, e ela nunca estar na prefeitura para marcar audiência.
O estranho é que outras audiências acontecem, com bispos, empresários, etc... Será que essas audiências são marcadas pela secretária? Não sei. Para mim , isso é um grande mistério.
Em nome da comunidade do Campeche vou insistir mais essa semana. Caso não conseguir marcar a audiência, então teremos de tomar outras providências.
Até lá, sigo esperando pela Claudia. Onde estará? Ou será que é o prefeito que teme receber pessoas das comunidades? Não sei, não sei...
Na última reunião da Fasubra (federação que congrega os sindicatos de trabalhadores da IFES) com o MEC e MPOG (ministérios da educação, planejamento, orçamento e gestão), acontecida no início desse mês, os trabalhadores técnico-administrativos das universidades, que já estão no terceiro mês de greve, viveram uma situação inusitada. Diante das discussões em torno da pauta de reivindicações, o governo insistiu que ainda havia tempo até 31 de agosto para mexer no orçamento. Ou seja, na prática, foi quase que uma indicação para que a greve seguisse até esse dia, embora de antemão já anunciasse que não haveria qualquer possibilidade de ganho econômico. O governo mantem diálogo apenas nos pontos que não implicam em dinheiro e que não são outros que os mesmos que vêm sendo discutidos desde 2004, quando então apresentou o novo Plano de Cargos e Salários, hoje vigente. Nesse sentido, se não há nada de novo na mesa, porque incentivar o espichamento da greve?
O estranho comentário pode parecer surreal, mas não é. Ele denota claramente que ao governo pouco importa que as universidades estejam paradas. É até bom, porque assim, ele pode economizar e ir colocando em prática o velho plano do Banco Mundial (estranhamente um formulador de políticas educacionais), desenhado nos anos 80, e que vem sendo “melhorado” e aplicado, em pequenos pedaços, de maneira sutil, desde então, pelos sucessivos governos. Nem o do PT fugiu à regra.
Na época do auge da política neoliberal, em 1986, o Banco Mundial lançou um documento no qual expunha as “boas” opções de políticas educacionais que os países em desenvolvimento deveriam seguir. A ideia geral era de que a educação tinha de se adequar aos princípios da globalização econômica, os quais deixavam bem claro que no mundo globalizado seria fundamental a “divisão de responsabilidades”. No campo da educação isso significava o seguinte: os governos dos países periféricos deveriam investir dinheiro público na educação básica deixando que a educação superior fosse cuidada pela iniciativa privada. As alternativas nesse setor seriam a de cobrança de taxas e mensalidades, mesmo nas universidades ditas públicas.
Com isso o Banco Mundial incentivava, obviamente, uma proposta de criação de um sistema de crédito estudantil, coisa que iria gerar ainda mais lucros para o sistema financeiro. Ou seja, seria transferida para o aluno, a responsabilidade de arcar com seus estudos superiores. O Banco também sugeria que era necessário descentralizar a educação incentivando a expansão de escolas comunitárias e privadas. Todo esse “indicativo” foi imediatamente incorporado pelos governos da época, e exigiram muitas lutas nas universidades.
Em 1995, num novo documento que apresentava já alguns resultados dessa política em diversos países, o Banco Mundial reconhece que o incentivo ao ensino superior tinha tido boas repercussões no mundo do trabalho, mas, ainda assim, sua proposta seguia sendo não a de fortalecer as universidades públicas, e sim as privadas, que deveriam expandir ainda mais. Para o Banco Mundial, se as públicas crescessem iriam causar rombos nas contas públicas. Melhor era entregar esse setor a quem pudesse fazê-lo rentável. A ideia de uma universidade pautada na indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão era considera antiquada num tempo em que era preciso atender as demandas do mercado.
Quem viveu esses tempos neoliberais durante o governo de FHC sabe que foi um período de grandes embates. Foi aí que iniciaram com mais velocidades os cursos pagos dentro das federais e pulularam as propostas de cobranças de taxas e mensalidades. Naqueles dias, o governo, amparado nessas indicações do Banco Mundial, não queria saber de formar sujeitos críticos, mas apenas uma mão de obra que fosse do interesse pragmático dessa nova fase do capitalismo.
Em 1998, o Banco lançou novo documento reafirmando sua tese de que a educação superior estava melhor guardada se nas mãos privadas. É claro que no documento, o BM não falava da proposta de que a periferia do mundo fosse cada vez mais apenas um espaço de – quando muito – inovação. A ciência não precisava ser feita no sul do mundo. Isso era coisa para gente grande, os países desenvolvidos. O “terceiro mundo” que ensinasse apenas para que as pessoas pudessem manejar o sistema com um mínimo de conhecimento. Adestramento para o mercado e só. Não bastasse isso, o adestramento deveria ser bancado pelo próprio adestrado. Política esperta a mais não poder. Para o Banco Mundial, claramente, o conhecimento não é um bem público. Ele deve ser apropriado pelo setor privado para gerar lucros para alguns.
No ano 2000, em parceria com a UNESCO, o Banco Mundial lança novo documento, apontando que os governos deveriam ter apenas o papel de supervisores no ensino superior, abrindo mercado para novos “fornecedores” de educação. Também defendia a autonomia das instituições federais para que pudessem captar recursos com menos interferência estatal. Em 2003, chegam até a mudar o conceito de educação superior para “educação terciária”, em alusão aos interesses do mercado e das novas tecnologias que abriam frentes on line. Nesse conceito de educação terciária estava incluído também qualquer curso pós-ensino médio. Ou seja, a ideia de universidade vai se perdendo totalmente.
É nesse universo que chega o governo do PT, aliado ao PL. Com Lula no poder, não há qualquer desvio da política traçada pelo Banco Mundial. Pelo contrário. Dá-se mais ênfase ao ensino técnico (terciário), criam-se institutos de ensino superior sem o compromisso com a produção da ciência e, apesar de serem criadas novas universidades federais, a política de apartamento do financiamento público vai se aprofundando. Mais cargos são extintos nas federais, novas terceirizações são propostas e começa o lento, mas ininterrupto, processo de fortalecimento de algumas carreiras no campo dos trabalhadores, buscando deixar apenas uma “elite” nos quadros públicos. Por outro lado, cria-se o PROUNI que é o fortalecimento das empresas privadas de educação, com o falso verniz da inclusão social. Os pobres entram nas universidades privadas, estudando à noite, em cursos menos procurados, e com qualidade nem sempre assegurada. Em 2012, já eram 370 mil estudantes pagando o FIES, um financiamento bancário.
Apesar de criar a política de cotas nas federais, com a entrada de negros, índios e estudantes da escola pública, a permanência vem sendo sempre encarada como um “problema” e só as lutas renhidas tem garantido o ensino aos estudantes cotistas, em que pese o fato de que muitos deles - esgotados pela necessidade de “provarem” merecer a vaga, casada com a permanente luta para conseguir permanecer na universidade - desistem no caminho e abandonam o estudo.
No governo Dilma, nada mudou. A linha parece ser a mesma. Quase nada de produção de ciência, consolidação de alguns polos de excelência, ênfase na inovação, currículos flexíveis e menos especializados, incentivo ao ensino técnico ou cursos não universitários de curta duração.
Assim, com esse quadro em mente, é possível compreender a razão de uma greve na educação demorar três meses, sem que pareça fazer qualquer diferença para o governo. O desafio para os trabalhadores está nesse fio de navalha. Como fazer a luta por melhores salários, condições de trabalho e defesa da universidade pública, sem se prestar ao jogo do governo que aposta no desmonte? Como mostrar à sociedade essa verdade, que o que está em questão numa greve como essa é a luta contra esse modelo de educação terciária, mercadológica e deseducadora?
Na UFSC, a lógica do Banco Mundial também é seguida pela administração Roselane/Lucia. Não foi sem razão que na greve das 30 horas, elas inauguraram ações inéditas como o corte de salários dos trabalhadores e punições exemplares. Agora, a reitora anuncia que vai abrir o Restaurante Universitário com os trabalhadores terceirizados, visando mostrar aos catarinenses que não precisa mesmo dos trabalhadores públicos. O mundo privado dará conta do recado. Os estudantes, dirigidos pelo DCE, aplaudem, até que amanhã se surpreendam com a cobrança de um preço padrão FIFA e uma qualidade padrão McDonalds.
Assim, diante do cenário sombrio, não resta alternativa que a luta mesma, e unificada. Professores, técnicos e estudantes que defendem a universidade pública, financiada pelo público, só têm essa saída. A luta e a difícil tarefa de anunciar a triste notícia de que, sem que se perceba, a universidade vai sendo destruída. Mas, apesar do tamanho do inimigo, alguns há que não se intimidam. E estão aí, prontos para o combate.
As ruas, nesse dia 16
Ainda que a conjuntura política brasileira esteja um pouco confusa, com um partido de trabalhadores no governo jogando contra os trabalhadores, as manifestações desse dia 16 de agosto aparecem como um momento único para pensar a luta de classes no Brasil. E, apesar do fato de muita gente sequer desconfiar o significado das palavras de ordem que carregam nos cartazes, há duas visões de mundo em batalha nesses dias de agosto.
Uma delas é a visão socialista. A busca por uma maneira de organizar a vida que não explore o outro, que não concentre os meios de produção e a riqueza nas mãos de poucos, que garanta o direito à saúde, educação, moradia, segurança, que se faça dentro de uma democracia participativa, na qual as pessoas possam decidir a vida, sem o acosso do dinheiro e da corrupção. Essa proposta certamente não está no governo, o qual os manifestantes do dia 16 querem derrubar. Mas, apesar disso, ela assoma, porque é contra isso que os que exigem o "fora PT" mais clamam.
A outra visão em disputa é a defesa de uma via autoritária do sistema capitalista vigente que, para existir, precisa da exploração do outro, da pobreza, da dor, da miséria, da exclusão. Um sistema que se baseia numa falsa democracia pois, nele, o que impera, é o poder do dinheiro. Só quem tem a grana é o que pode ser cidadão da polis.
Alguém pode dizer que não é nada disso, e que o que está em jogo é apenas o "fora Dilma" e o "fora PT". Mas, em verdade, o fora Dilma é só a forma como esse debate aparece. A essência do conflito é o modo de organizar a vida, ou seja: capitalismo x socialismo.
Na esquerda brasileira há muito tempo que se sabe que o PT não representa o socialismo, apesar de os seus adversários tentarem - e de certa forma conseguirem - colar no partido de Lula essa etiqueta. E só acredita nisso quem não tem mesmo qualquer conhecimento sobre o que seja o socialismo. A verdade sobre o caminho que o PT escolheria estando no poder apareceu três meses depois da posse de Lula, em 2003, quando o governo iniciou a Reforma da Previdência, uma perversa retirada de direitos que inaugurou uma série de outros golpes nos trabalhadores. E, ainda que o PT tenha implantado um jamais visto processo de redução da pobreza, tudo se limitou ao campo das políticas públicas, sem qualquer passo além no rumo de uma outra forma de ser Estado.
É fato que o PT, durante o chamado "espetáculo do crescimento", acabou com a fome crônica que havia no país (mais de 30 milhões de pessoas), criou universidades, aumentou significativamente o número de jovens na faculdade e deu possibilidade da casa própria para milhares de famílias. Mas, ao mesmo tempo, foi o tempo em que a fronteira agrícola expandiu de forma assustadora, com assassinatos de camponeses e indígenas, sem que o latifúndio fosse tocado. Pelo contrário, no segundo mandato de Dilma, o latifúndio até ganhou o Ministério da Agricultura. Também o sistema financeiro seguiu intacto, com os filhos diletos do capital comandando a economia brasileira, e a dívida pública sendo paga religiosamente, sem que a proposta de auditoria fosse levada à sério. Igualmente a indústria brasileira caiu de produção, com o crescimento vertiginoso da exportação de bens e até de comida. O Brasil aumentou o número de universidades, mas não investiu na ciência, preferindo o dependente caminho da inovação.
Assim, o PT jamais sequer se aproximou que qualquer proposta socialista, que dirá comunista, que é o momento do fim das classes e do estado. Não. O PT seguiu a mesma velha cartilha do capitalismo dependente, com a formulação de algumas políticas públicas que permitiram a entrada de milhões de pessoas na roda do consumo. Isso gerou o chamado neodesenvolvimentismo que, afinal, teve vida curta, com o governo agora aplicando um violento ajuste para poder manter os compromissos com os credores.
Mas, então, se o PT não é socialista e governa mais para os ricos que para os pobres, por que os velhos grupos de poder querem o seu fim? A resposta é simples: eles não querem concorrência.
Os grupos que comandam as marchas contra a corrupção são os mesmos que comandaram o país por décadas, enchendo os bolsos, e estão repeltos de gente manchada pelo que dizem repudiar: a corrupção. O ex-presidente FHC foi o responsável por um tremendo esquema criado pelas privatizações, que desmontou empresas públicas e vendeu o patrimônio nacional à preço de banana. O senador Ronaldo Caiado, líder da velha UDR (União Democrática Ruralista) , braço armado do latifúndio, já foi pego com trabalhadores escravos nas suas fazendas. O atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também está envolvido em corrupção ativa. As igrejas que integram a bancada da Bíblia no Congresso insuflam o ódio e o fundamentalismo. É um circo de horrores. Para eles, derrubar o PT é apenas abrir caminho para suas próprias demandas. E, nelas, está, principalmente, a instituição de uma mão dura capaz e impedir o pensamento crítico e as reivindicações populares.
Não é sem razão que nas passeatas chamadas por esses grupos apareça um festival de bizarrice. Pessoas reivindicando o assassinato dos comunistas, outras chamando os milicos para um "intervenção temporária", garotas com cartazes dizendo "não ao gênero", tudo em nome de deus e da família. E se algum defensor do governo fala em pegar em armas, esse é acusado de "terrorista". Ou seja, apontam o dedo para o outro sem ver a trava no próprio olho.
As bancadas da bala, da bíblia e do boi representam o pensamento mais atrasado que há no país e são elas as que têm dado a linha nos protestos. É uma corruptela conservadora do capitalismo que, ao mesmo tempo que quer garantir o acúmulo das riquezas, também pretende implantar o obscurantismo, num minotáurico sistema de lucro para alguns, misturado ao atraso mental. Assim, garantem um regime duro, sem perder as benesses do sistema. A proposta política é o aprofundamento da dependência econômica e uma ligação de vassalagem mais profunda com os países centrais. Não são à toa os cartazes escritos em inglês, enviando mensagens aos "mestres" estrangeiros. Nesse dia 16, por exemplo, circulava no facebook a mensagem: "Amigos, a ONU já autorizou a intervenção militar no Brasil. Tudo vai ficar bem". Essa é a ideia.
Então, o discurso conservador, de morte ao comunismo (?) e pela mão-dura dos militares, tão igual ao do pré-golpe de 1964, é o que acabou levando as pessoas para a rua. Não que no meio delas não existam cidadãos de boa fé, que, contrários às políticas do governos, se somam - ingenuamente - aos delírios golpistas dos comandantes da oligarquia. Há os que verdadeiramente acreditam que o PT é comunista e vai levar o Brasil ao caos. Mas, mesmo assim, ainda que se possa entender o pensamento ingênuo, é grande o nível de violência que cabe dentro dos discursos.
Vai daí que voltamos a luta de classe. Marx dizia que a violência é a parteira da história e qualquer um que tenha estudado um mínimo da história da humanidade sabe disso. Os conflitos contra os interesses das classes empobrecidas sempre são eivados de violência por parte de quem detém o controle da força. E, mesmo nos confrontos mais sangrentos da humanidade, sempre há os que - sob o manto da servidão voluntária - se juntam aos poderosos contra os de sua própria classe, preferindo viver como escravo a ser livre.
No Brasil de 2015 estamos assim, caminhando entre três veredas. Numa está o conservadorismo mais primário que recrudesceu sua força, perdeu a vergonha, não se esconde, está nas ruas. Na outra está o governismo, de um conservadorismo não tão grotesco como o da oligarquia, que consiste em todo um conjunto de forças que não quer perder o espaço que garantiu no poder, e não arrisca buscar novos caminhos. E, por fim, na terceira rota vão os que conseguem sair da consciência ingênua, que fazem a crítica ao governo e que avançam na construção de um outro modo de organizar a vida. Nem o obscurantismo rural/religioso, que prega o golpe, nem o PT. Mas, essa é uma rota difícil, principalmente porque a direita tradicional conseguiu colar no PT o selo de "esquerda" e isso torna mais duro o processo de reconstrução de um espaço crítico e socialista.
Não bastasse isso, nos últimos dias pode-se perceber uma viragem na conduta do maior meio de comunicação de massa, a TV Globo, que "misteriosamente" parou de fomentar o golpe contra a presidenta Dilma. Isso pode significar que um grande acordo foi firmado, o que pode atrasar ainda mais as possibilidades de retomada do caminho pela esquerda, afinal, 98% do país recebe o sinal aberto da Globo e esse ainda é um poderoso instrumento de produção da mais-valia ideológica. Através das notícias, dos programas de entretenimento e das novelas, a ideologia produzida ofusca o pensamento crítico e consolida a ideia de que o mundo do consumo é melhor dos mundos, ainda que boa parte das gentes não tenha como entrar. E se estiver colado no governismo, a coisa piora.
Para os que durante uma vida inteira caminharam pela rota da esquerda, sem desviar o curso por conta de promessa socialdemocrata, a realidade é de luta e enfrentamento. Nesse dia 16, isso ficou patente. Quando as passeatas são de reivindicação de direitos ou contra os ataques das transnacionais ou do governo, a polícia é chamada para reprimir e golpear. Quando a manifestação é chamada pela oligarquia as ruas das grandes cidades são também tomadas pela polícia. Mas, nesse caso, os que se manifestam pelo golpe e pela ditadura militar, são chamados de "pessoas de bem", e as tropas estão ali para protegê-los de qualquer perigo que possa vir dos "terroristas" (leia-se petistas ou qualquer um de camisa vermelha). Assim, os manifestantes respondem tirando fotos abraçados às forças da lei. Enquanto nas passeatas de luta por direitos, o que sobra é gás, bala e porrada para quem luta.
Retomando a tese inicial, a essência de tudo isso é, então, o modelo de organização da vida. E se não queremos nem uma ditadura, nem o PT, resta-nos seguir na luta, reconstituindo a difícil malha de uma força de esquerda capaz de oferecer, verdadeiramente, uma outra proposta para o país.
Basta um simples passeio pelo campus da UFSC e já se pode perceber que a universidade não tem mais a mesma cara que a caracterizou por mais de cinco décadas. Há uma nova estética, outro visual, outro clima. Até o início dos anos 2000, a vida por aqui apresentava uma face mais elitizada, gente branca e os poucos negros que circulavam em geral eram africanos. Hoje não. Com o advento das cotas para negros, índios e escola pública, a universidade ficou diferente. O número de negros quintuplicou, e são na maioria brasileiros. Os índios já se fazem presentes em diversos cursos e conseguiram até uma licenciatura especial. A identidade de gênero também aparece nas suas mais diversas faces. Os empobrecidos ampliaram sua presença e estão aí lutando para permanecer e estudar. Há um colorido que se traduz também na forma de organização das lutas.
Durante o período do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma, quando o Brasil vivia o que ficou conhecido como o “espetáculo do crescimento”, esse cotidiano da universidade foi se transformando sem que as pessoas percebessem e, agora, quando chegou o tempo do “ajuste”, essa nova cara da universidade aparece com toda a sua força, reivindicando, lutando e mobilizando a vida. Uma face que, ao que se vê, já não cabe mais nos modelos de luta do passado. Essa UFSC miscigenada exige novos caminhos e novas formas de organização.
É bom lembrar que durante os anos de Lula, o movimento sindical entrou em parafuso. Entre os militantes havia os que acreditavam que com o PT os trabalhadores iriam ter um parceiro seguro no governo, bem como havia os que entendiam que era necessária a autonomia diante do governo, para não confundir as coisas. E foi já no primeiro ano do governo Lula que tudo começou a clarear. Com a Reforma da Previdência proposta por Luís Inácio, que reduzia direitos, iniciou um processo de clivagem no movimento sindical. Os que lutaram contra a Reforma passaram a ser vistos como os “radicais” que não entendiam as propostas governistas. E os que defenderam a derrubada de direitos passaram a receber a etiqueta de governistas. Essa ruptura no movimento sindical de esquerda, a formação desses dois grupos, provocou um processo de desgaste e destruição de boa parte dos sindicatos combativos.
Teve início, então, todo um processo de cooptação de lideranças. Algumas ganharam cargos nos vários escalões do governo e outras, de boa fé, seguiram acreditando que era preciso confiar no governo que entendiam dos trabalhadores. Foi um tempo duro. Os sindicatos que se propuseram a fazer a crítica ao governo que já anunciava sua aliança com a burguesia nacional, os latifundiários e as transnacionais, passaram a ser acusados de fazer coro com a direita. E, nessa luta interna, o movimento sindical foi se domesticando. As lideranças mais críticas foram rechaçadas pela base, que também acreditava viver um lindo momento de crescimento econômico, tendo acesso a bens e crédito. Os que falavam mal disso eram vistos como loucos e foram varridos das direções. O governismo foi tomando conta do sindicalismo e as lutas dos trabalhadores apareciam de maneira pontual, sempre mediadas para que não extrapolassem o limite do “razoável” e não respingassem no governo.
Agora, com o fim da bolha do crescimento, que acabou se mostrando artificial conforme já se denunciava, os trabalhadores se veem dirigidos por sindicatos insossos, sem pegada de luta, sem radicalidade. No caso do serviço público federal isso é visível a olho nu. A considerar o exemplo singular da Universidade de Santa Catarina, as duas últimas greves realizadas pelos trabalhadores mostram isso claramente. Foram claramente contidas pelo sindicato. A última delas, em 2014, quando se travou a luta pelas 30 horas, num movimento histórico que abriu as portas da universidade das 7h às 22h, em turnos ininterruptos, o que se viu foi o próprio sindicato da categoria puxando o movimento para trás até finalmente terminar com ele numa assembleia patética, para a qual convocou aposentados que se prestaram ao triste papel de enterrar a luta dos colegas.
Pois 2015 chegou e com ele o tal do “ajuste fiscal”, cujo primeiro movimento foi cortar nove bilhões da Educação, colocando as universidades num fosso sem saída. Os primeiros a sofrer com os cortes foram, obviamente, os estudantes que entraram nas universidades públicas pelas cotas e os empobrecidos. Na UFSC são mais de cinco mil os que têm cadastro de vulnerabilidade econômica, ou seja, precisam das bolsas e auxílios prestados pelo governo para manterem a vida e conseguirem seguir com os estudos. Sem recursos e sem capacidade política de mobilizar o estado para o problema, a administração central reduziu bolsas, chegou a ficar sem pagar o auxílio alimentação e já anunciou que terá de diminuir os auxílios.
Não é sem razão que esses estudantes se mobilizam e se juntam à luta dos trabalhadores – técnicos e docentes – que entraram em greve contra os cortes na Educação e por melhorias salariais.
Essa união de interesses ficou bastante explícita na Assembleia Geral Universitária, realizada no dia 12 de agosto, no Hall da Reitoria. E foi ali que essa cara nova, bonita, jovem, negra, valente, indígena, branca e aguerrida assomou com toda a sua força. Os professores, sem o sindicato - que se distanciou de tal forma da categoria que sequer consegue ter quórum para uma assembleia - arrancaram uma greve autônoma, vinculada ao movimento nacional. Vendo a inércia da APUFSC, se juntaram e passaram por cima da entidade, mobilizando, parando e discutindo a educação. Os técnico-administrativos também enfrentam a desmobilização promovida pelo Sintufsc, mas avançam, buscando, na união com os colegas docentes e estudantes, provocar a reflexão sobre a universidade.
Da mesma forma, os estudantes vivenciam um tempo em que o seu Diretório Central descansa em berço esplêndido diante dos cortes da Educação, sem se misturar aos problemas reais. E o que se vê é um grupo arrojado, que não se rende à mediocridade da acomodação, avançar entre os obstáculos, construindo unidade e botando a luta par andar.
Sintomático foi ver que na Assembleia dos três segmentos, nenhum dirigente de APUFSC, SINTUFSC ou DCE tenha se manifestado. A mesa se formou com os representantes da categoria escolhidos no Comando Unificado, que tampouco conta com a presença engajada das entidades. É sem dúvida um momento diferente na UFSC. E não significa desorganização. Pelo contrário. É uma hora nova, de reconhecimento da mudança de temperatura da instituição e da necessidade de encontrar outras formas de luta. Se as entidades claudicam, as gentes avançam. Se as entidades temem, as gentes se emparam e constroem a luta.
Fatalmente essa greve de 2015, que no caso dos técnicos avança pelo terceiro mês, já é vitoriosa. Ela colocou às claras uma UFSC transformada, ela desvelou a incapacidade das entidades em vivenciar esse novo momento, e ela aponta para um futuro promissor. O desafio que está dado é o de entender que o tempo é outro, que as forças dentro da universidade mudaram e que novas formas de cuidar da vida e do trabalho precisam ser inventadas. Já não dá mais para usar instrumentos válidos em outros tempos. Há que inventar e inventar. E não há dúvidas de que essa geração que hoje vive a universidade saberá encontrar o caminho.
Ontem, dia 13 de agosto, uma discussão no Conselho Universitário mostrou que o atrasado está sem lugar, mesmo num espaço tão conservador como esse. Ao discutir a regulamentação do uso do nome social por parte de pessoas transgêneras, um professor levantou a possibilidade de se pedir a folha corrida da mesma, antes de aprovar. No que foi rechaçado pela ampla maioria. E mesmo entre os conservadores houve quem corasse diante de tamanho absurdo. A UFSC já discute em seus fóruns a realidade das pessoas trans. E isso não é pouca coisa.
Gosto de saber desses ventos novos e movediços. Pode ser que com eles, venha à tormenta. Mas, que a gente não se iluda. Na vida, a tormenta é construída historicamente. Estamos caminhando.
A Câmara de Vereadores de Florianópolis tem 23 representantes que foram eleitos para defender os interesses da cidade e legislar sobre as questões locais. Desses, 14 estão envolvidos em denúncia de corrupção, inseridos no processo da Operação Ave de Rapina. Essa operação, desencadeada pela Polícia Federal, desvendou que os vereadores foram beneficiados com propina na fraude dos contratos de radares e sinalização de trânsito dentro do projeto de lei Cidade Limpa. O nome de cada um dos vereados surgiu nos documentos apreendidos na casa do empresário Adriano Nunes, dono da empresa de mídia exterior Visual Brasil, ao lado dos quais estava escrito: "cortesia" , e o valor respectivo.
Com o andamento da investigação a situação na Câmara tem sido surreal, pois a maioria dos vereadores envolvidos segue atuando e votando projetos que são vitais para a vida da cidade, como é o caso das questões do Plano Diretor, que mexem com grandes interesses empresarias, o que provoca muita desconfiança entre os cidadãos da capital. Até agora apenas dois deles foram afastados, o ex-presidente da casa, César Faria, do PSD, (que inclusive comandou com mão de ferro a votação ilegal do Plano Diretor em dezembro de 2014), e o vereador Badeko (PSD). Mas, além deles também foram indiciados e podem ser denunciados os vereadores Erádio Gonçalves (PSD), Tiago Silva (PDT), Coronel Paixão (PDT), Marcelo da Intendência (PDT), Deglaber Goulart (PMDB), Celio João (PMDB), Dinho da Rosa (PMDB), Ed Pereira (PSB), Roberto Katumi (PSB), Alderico Furlan (PSC), Dalmo Meneses (PP ), e Ricardo Camargo (PC do B). Erádio Gonçalves, inclusive, assumiu a presidência da Câmara e tem tocado os trabalhos na normalidade.
A Comissão de Ética da casa se debruçou sobre o caso dos dois vereadores que já foram afastados, César Faria e Badeko, e indicou a cassação dos mesmos por quebra do decoro parlamentar. Mas, no dia em que o tema seria apreciado pelos vereadores, uma liminar dada pelo juiz Laudenir Fernando Petroncini, impediu a discussão e a votação, baseado, segundo os vereadores, em informações que não condizem com a verdade e que podem ter induzido o juiz a erro.
Para os que acompanham as batalhas que se travam dentro da Câmara de Vereadores, aonde quase nunca é levado em conta o interesse da maioria da população, a situação é de realismo fantástico. O vereador Lino Peres, do PT, lembrou muito bem que quando os vereadores votaram de forma ilegal o Plano Diretor, procurou-se a Justiça para reverter a situação e a resposta dada foi de que o Legislativo era autônomo e não poderia receber intervenção judicial. Agora, como os interesses não são os da população, mas de alguns prepostos de grandes empresas, a justiça se pronuncia e atua impedindo a votação da cassação. Dois pesos e duas medidas ou a escrachada verdade?
Agora, a Câmara terá dez dias para responder aos questionamentos do juiz e só depois o tema poderá voltar a baila, considerando que o magistrado não mantenha a liminar depois de esclarecido. A alegação que impediu a votação foi de que os mesmos vereadores que denunciaram o vereador fizeram parte da Comissão de Ética, o que não é verdade. O denunciante foi exclusivamente o vereador Afrânio Boppré.
Na sessão de quarta-feira, excetuando os pronunciamentos de Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) os demais se mantiveram relutantes, afinal, tem pelo menos mais 11 deles que estão na berlinda. Não se pode saber se houve algum alívio por protelar o tema da cassação, afinal isso pode acontecer com os indiciados restantes, ou se o desejo é cassar logo os dois que estão no foco para criar a figura do bode expiatório e colocar panos quentes sobre os demais. A situação é delicada.
Enquanto as coisas se enrolam no campo do judiciário, a população se divide entre a indiferença e a indignação. Nessa quinta-feira o funcionário público Alexandre Magno de Jesus, lotado na Secretaria de Assistência Social de Florianópolis, externou o seu protesto entrando com um pedido de cassação contra o vereador Erádio Manoel Gonçalves (PSD), atual presidente da Câmara, também acusado de receber propina. Agora, resta saber se a casa vai abrir o debate na Comissão de Ética também para esse caso.
Nas ruas, poucos sabem o que está implicado em todo esse enrosco, mas já saem atirando. "São tudo ladrão", diz Antônio Carlos de Oliveira, vendedor ambulante, mas acrescenta: "Isso não dá em nada, essa gente tem as costas quentes". Evelise Duarte, funcionária pública, diz que não sabe como essa gente é eleita. "Tu nunca vê esses caras nos bairros ou na vida da gente e, de repente, eles se elegem com milhares de votos. É tudo comprado. Eu não confio na Justiça e se alguém for cassado é porque tem algum interesse aí por trás. Nós sempre vamos sair no prejuízo".
E assim, a nave dos indiciados segue voando. Projetos importantes continuam sendo votados e com pouca fiscalização cidadã. Sem mobilização popular a tendência é as coisas esfriarem. Nesse dia 12, na Câmara, havia apenas a presença solitária dos bravos dirigentes do Sintrasem, o sindicato dos municipários, e alguns militantes sociais que foram ver de perto mais essa "pizza". Alguns estão de olho e pelo menos, a partir deles, as informações fluem.
A semana que passou foi de muita mobilização em Brasília no âmbito da greve dos trabalhadores técnico-administrativos. Milhares de pessoas saíram de seus estados rumo à capital para mais um ato de enfrentamento e de busca de negociação. Como sempre, é um esforço tremendo que os trabalhadores precisam fazer para garantir que os burocratas do governo se dignem a abrir a porta para uma reunião e uma conversa. A cada ano, em cada greve, fica mais escandalosa essa demora em definir o reajuste salarial dos trabalhadores.
Sempre é bom relembrar. Trabalhador público não tem data-base, logo, o governo fica desobrigado de reajustar salário a cada ano. Sua tática - e isso acontece em todo o governo, azul ou vermelho - é arrochar até quanto o trabalhador aguentar, então, quando não dá mais, precisa estourar uma greve para que venham discutir o tema.
Ainda dentro da tática de desgaste do trabalhador público, o governo faz com que a greve demore, demore, demore, até que a sociedade comece a achar "um abuso" que "essa gente" (no caso, os trabalhadores das universidades) fiquem dois ou três meses sem trabalhar, atrapalhando a educação de seus filhos. É tudo como um recorrente teatro, ano após ano. Na última reunião do Conselho Universitário da UFSC, por exemplo, foi possível perceber o quanto essa tática é vitoriosa. Um dos representantes do Diretório Central dos Estudantes, diante da discussão de uma moção de apoio à greve, disse que só poderia apoiar se os trabalhadores não "prejudicassem" mais os alunos, visto que as aulas iriam começar e precisava ter Restaurante Universitário e Biblioteca.
Ora, a greve é um momento de subversão da ordem das coisas. É quando a vida sai do lugar. Justamente porque os trabalhadores precisam repor o poder de compra dos seus salários. Os técnico-administrativos das universidades estavam desde 2012 amargando um acordo feito também numa greve, o qual não acompanhou a inflação. Assim, as perdas salariais estão em 27,30%. O que isso significa? Que, em relação a 2012, os salários perderam essa porcentagem no poder de compra. Assim, é justo que isso seja reposto. São perdas. Não está aí embutido nenhum aumento real.
Pois o governo, usando o argumento da crise, não aceita discutir essas perdas e pretende impor a reposição de apenas 21%, divididos em quatro anos. Ou seja, quando chegar 2020 é que os trabalhadores terão reposto esses 21% de perdas acumuladas de 2012 a 2016. Isso significará que as perdas reais já serão bem maiores. Nesse sentido, é impossível aceitar a proposta.
E foi justamente para pressionar o governo que os trabalhadores fizeram mais uma caravana à Brasília, com atos e passeatas de protesto. O objetivo: estabelecer uma mesa de negociação. Uma humilhação a mais. Todo um esforço para que se abra uma maldita mesa. Como pode um governo permitir que milhões de pessoas fiquem sem condições de estudo simplesmente porque não quer dialogar? Pois é assim. E os trabalhadores é que passam por vilões.
Pois, feitos os atos e passeatas, uma última caminhada noturno, com tochas acesas, terminou em frente ao Ministério de Orçamento, Planejamento e Gestão, que foi logo em seguida ocupado. Ninguém arredaria até que houvesse uma reunião. Gritaria, correria, polícia, todo o kit básico desse tipo de manifestação aconteceu. Então, os "magnânimos" resolveram conversar. A reunião serviu para marcar outra reunião, no dia seguinte, no MEC. E lá foram eles outra vez.
Na nova reunião, a mesma surdez. O governo mantém religiosamente os serviços da dívida, que consomem 47% do orçamento nacional, e obriga os trabalhadores públicos a apertarem os cintos, ficando sem reajuste nos salários. Ou seja, que paguem os trabalhadores pela garantia de boa vida dos bancos e dos banqueiros internacionais.
Agora, o governo acena com uma nova (?) proposta, igualmente trágica. Pagar 10 ou 12% divididos em dois anos, mesmo sabendo que a previsão de inflação é bem maior do que 5% ao mês. Ora, não há novidade aí. São os mesmos 21 anteriores. Apenas que serão pagos apenas 10 ou 12 em dois anos. Depois, em 2017 pode haver nova negociação para os 11% restantes. Seria cômico se não fosse trágico.
Aos trabalhadores é o que está posto. Ou aceitam isso, ou aceitam isso. Não há negociação. Não há sensibilidade alguma com as gentes locais. Aos credores da dívida (ilegal e ilegítima) nenhum pedido de apertar cinto. Só aos trabalhadores, essa gente de casco duro que aguenta tudo. Será?
Agora, ao iniciar o terceiro mês da greve vem o início de semestre e todas as dores de uma paralisação. Alunos sem biblioteca, sem RU, sem coordenadoria. E o dedo apontado para os trabalhadores: "vagabundos". Poucos são os que dirigem seu ódio aos verdadeiros responsáveis por essa tragédia das greves anuais. Os trabalhadores só têm sua força de trabalho para vender no sistema capitalista e, assim, precisam lutar para garantir o provimento da vida. Unidos, eles formam um corpo gigante, que pode mover o pêndulo. Às vezes, vencem, às vezes não. Sempre depende da força da mobilização.
A semana será longa.
Porto Alegre, noite de chuva e frio. Saí para um café e um pão com manteiga. Na lancheria (que é como os porto alegrenses chamam lanchonete) próxima à Farrapos encontrei guarida. Uma mulher atendendo e outra tomando cerveja, sozinha. Fiz o pedido e aguardei. As duas iniciaram um papo louco sobre ratos. "Porto Alegre está infestada de ratos. Estão por todo lugar. Aqui no centro mesmo, é um horror. E são enormes, parecem até uns coelhos", dissertava Denise, a atendente. A outra, de nome Bia, assentia fazendo cara de apavoramento. "E o pior é que esses ratos aqui do centro sobem nos apartamento. Eles vão bem alto. Eu moro no quinto andar e um dia, ao entrar no banheiro, lá estava um em cima do vaso, olhando pra mim".
- Que horror. Fugiste?
- Capaz! Eu peguei a arma e atirei nele. Dei três tiros. Errei dois, mas um acertou. Ele escapuliu correndo porta afora, mas eu acho que morreu. Meu marido tem medo, sai disparado. Mas eu não, eu dou tiro mesmo. Se aparecer, leva bala.
A conversa ainda fluiu sobre ratos, como se dar tiros neles fosse algo comum, e depois foi desviando para as gentes. "Eu tenho pena é dos moradores de rua. Os ratos andam sobre eles, estão por tudo. E tem o perigo de pegar aquela doença, a leptospirose. Eu cuido deles, dos moradores. O meu filho não gosta, diz que são tudo vagabundo. Eu nem ligo, ajudo mesmo", comentou Bia. "Outro dia eu dei uma bicicleta para um deles, o Wagner, que eu conheço faz tempo. A bicicleta era do meu filho, mas ele não usava há anos. Dei e pronto. Levei a maior bronca. O meu filho disse que ele ia vender pra comprar cachaça. Nos primeiros dias ele andou por aí com a bici, parecia um louco na rua. Eu até pensei que tinha dado a morte pra ele. Ia se matar daquele jeito. Mas, em três dia vendeu. Eu tive que vender, me disse. E eu aceitei. É a vida dele".
Denise ouviu a história e concordou com a amiga. Era preciso ter o coração bom quando o assunto era essa gente que ninguém gosta.
- É assim. Basta ser diferente. Aqui na lancheria as gurias tem medo de atender os haitianos, agora tu vê? Ela dizem que viram na televisão que eles estão todos doentes. E aí têm medo de pegar doença. Eu fico bem braba. Não admito discriminação. Se elas têm medo de pegar doença que lavem os pratos e os talheres com água quente. Água quente mata tudo que é bicho. Mas discriminar os haitianos na minha frente, ah, isso não. Eu faço questão de atender bem, coitados.
- Bem que tu faz. Eles só estão buscando uma vida melhor. Não tem nada a ver. São tudo seres humanos - insuflava Bia.
Vez ou outra elas me incluíam na conversa, olhando pra mim, esperando por uma reação. Ora eu ria, ora assentia, constrita. Ora comentava alguma coisa. E a noite avançava.
Naquela simples lancheria de Porto Alegre a solidariedade aparecia, concreta, na figura daquelas duas mulheres que, sem maiores discursos além de suas práticas cotidianas, mostravam que a vida pode ser melhor quando se respeita o outro como outro, diferente, mas real. No cuidado com os moradores de rua e os imigrantes elas tornavam aquele momento único. Uma trabalhadora e uma solitária mulher de classe média, parceria insólita, e uma passageira cliente, unidas no amor às gentes, numa chuvosa noite gaúcha. Às vezes, por nada, a vida assume contornos bonitos demais.
Naquele pedaço do centro porto alegrense, a matadora de ratos e a salvadora de mendigos, seguiram sua conversa amorosa e doida, enquanto a chuva lavava a calçada, território livre dos roedores.