sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A UFSC tem nova cara













Basta um simples passeio pelo campus da UFSC e já se pode perceber que a universidade não tem mais a mesma cara que a caracterizou por mais de cinco décadas. Há uma nova estética, outro visual, outro clima. Até o início dos anos 2000, a vida por aqui apresentava uma face mais elitizada, gente branca e os poucos negros que circulavam em geral eram africanos. Hoje não. Com o advento das cotas para negros, índios e escola pública, a universidade ficou diferente. O número de negros quintuplicou, e são na maioria brasileiros. Os índios já se fazem presentes em diversos cursos e conseguiram até uma licenciatura especial. A identidade de gênero também aparece nas suas mais diversas faces. Os empobrecidos ampliaram sua presença e estão aí lutando para permanecer e estudar. Há um colorido que se traduz também na forma de organização das lutas.

Durante o período do governo Lula e o primeiro mandato de Dilma, quando o Brasil vivia o que ficou conhecido como o “espetáculo do crescimento”, esse cotidiano da universidade foi se transformando sem que as pessoas percebessem e, agora, quando chegou o tempo do “ajuste”, essa nova cara da universidade aparece com toda a sua força, reivindicando, lutando e mobilizando a vida. Uma face que, ao que se vê, já não cabe mais nos modelos de luta do passado. Essa UFSC miscigenada exige novos caminhos e novas formas de organização.

É bom lembrar que durante os anos de Lula, o movimento sindical entrou em parafuso. Entre os militantes havia os que acreditavam que com o PT os trabalhadores iriam ter um parceiro seguro no governo, bem como havia os que entendiam que era necessária a autonomia diante do governo, para não confundir as coisas. E foi já no primeiro ano do governo Lula que tudo começou a clarear. Com a Reforma da Previdência proposta por Luís Inácio, que reduzia direitos, iniciou um processo de clivagem no movimento sindical. Os que lutaram contra a Reforma passaram a ser vistos como os “radicais” que não entendiam as propostas governistas. E os que defenderam a derrubada de direitos passaram a receber a etiqueta de governistas. Essa ruptura no movimento sindical de esquerda, a formação desses dois grupos, provocou um processo de desgaste e destruição de boa parte dos sindicatos combativos.

Teve início, então, todo um processo de cooptação de lideranças. Algumas ganharam cargos nos vários escalões do governo e outras, de boa fé, seguiram acreditando que era preciso confiar no governo que entendiam dos trabalhadores. Foi um tempo duro. Os sindicatos que se propuseram a fazer a crítica ao governo que já anunciava sua aliança com a burguesia nacional, os latifundiários e as transnacionais, passaram a ser acusados de fazer coro com a direita. E, nessa luta interna, o movimento sindical foi se domesticando. As lideranças mais críticas foram rechaçadas pela base, que também acreditava viver um lindo momento de crescimento econômico, tendo acesso a bens e crédito. Os que falavam mal disso eram vistos como loucos e foram varridos das direções. O governismo foi tomando conta do sindicalismo e as lutas dos trabalhadores apareciam de maneira pontual, sempre mediadas para que não extrapolassem o limite do “razoável” e não respingassem no governo.

Agora, com o fim da bolha do crescimento, que acabou se mostrando artificial conforme já se denunciava, os trabalhadores se veem dirigidos por sindicatos insossos, sem pegada de luta, sem radicalidade. No caso do serviço público federal isso é visível a olho nu. A considerar o exemplo singular da Universidade de Santa Catarina, as duas últimas greves realizadas pelos trabalhadores mostram isso claramente. Foram claramente contidas pelo sindicato. A última delas, em 2014, quando se travou a luta pelas 30 horas, num movimento histórico que abriu as portas da universidade das 7h às 22h, em turnos ininterruptos, o que se viu foi o próprio sindicato da categoria puxando o movimento para trás até finalmente terminar com ele numa assembleia patética, para a qual convocou aposentados que se prestaram ao triste papel de enterrar a luta dos colegas.

Pois 2015 chegou e com ele o tal do “ajuste fiscal”, cujo primeiro movimento foi cortar nove bilhões da Educação, colocando as universidades num fosso sem saída. Os primeiros a sofrer com os cortes foram, obviamente, os estudantes que entraram nas universidades públicas pelas cotas e os empobrecidos. Na UFSC são mais de cinco mil os que têm cadastro de vulnerabilidade econômica, ou seja, precisam das bolsas e auxílios prestados pelo governo para manterem a vida e conseguirem seguir com os estudos. Sem recursos e sem capacidade política de mobilizar o estado para o problema, a administração central reduziu bolsas, chegou a ficar sem pagar o auxílio alimentação e já anunciou que terá de diminuir os auxílios.

Não é sem razão que esses estudantes se mobilizam e se juntam à luta dos trabalhadores – técnicos e docentes – que entraram em greve contra os cortes na Educação e por melhorias salariais.

Essa união de interesses ficou bastante explícita na Assembleia Geral Universitária, realizada no dia 12 de agosto, no Hall da Reitoria. E foi ali que essa cara nova, bonita, jovem, negra, valente, indígena, branca e aguerrida assomou com toda a sua força. Os professores, sem o sindicato - que se distanciou de tal forma da categoria que sequer consegue ter quórum para uma assembleia - arrancaram uma greve autônoma, vinculada ao movimento nacional. Vendo a inércia da APUFSC, se juntaram e passaram por cima da entidade, mobilizando, parando e discutindo a educação. Os técnico-administrativos também enfrentam a desmobilização promovida pelo Sintufsc, mas avançam, buscando, na união com os colegas docentes e estudantes, provocar a reflexão sobre a universidade. 

Da mesma forma, os estudantes vivenciam um tempo em que o seu Diretório Central descansa em berço esplêndido diante dos cortes da Educação, sem se misturar aos problemas reais. E o que se vê é um grupo arrojado, que não se rende à mediocridade da acomodação, avançar entre os obstáculos, construindo unidade e botando a luta par andar.

Sintomático foi ver que na Assembleia dos três segmentos, nenhum dirigente de APUFSC, SINTUFSC ou DCE tenha se manifestado. A mesa se formou com os representantes da categoria escolhidos no Comando Unificado, que tampouco conta com a presença engajada das entidades. É sem dúvida um momento diferente na UFSC. E não significa desorganização. Pelo contrário. É uma hora nova, de reconhecimento da mudança de temperatura da instituição e da necessidade de encontrar outras formas de luta. Se as entidades claudicam, as gentes avançam. Se as entidades temem, as gentes se emparam e constroem a luta.

Fatalmente essa greve de 2015, que no caso dos técnicos avança pelo terceiro mês,  já é vitoriosa. Ela colocou às claras uma UFSC transformada, ela desvelou a incapacidade das entidades em vivenciar esse novo momento, e ela aponta para um futuro promissor. O desafio que está dado é o de entender que o tempo é outro, que as forças dentro da universidade mudaram e que novas formas de cuidar da vida e do trabalho precisam ser inventadas. Já não dá mais para usar instrumentos válidos em outros tempos. Há que inventar e inventar. E não há dúvidas de que essa geração que hoje vive a universidade saberá encontrar o caminho.

Ontem, dia 13 de agosto, uma discussão no Conselho Universitário mostrou que o atrasado está sem lugar, mesmo num espaço tão conservador como esse. Ao discutir a regulamentação do uso do nome social por parte de pessoas transgêneras, um professor levantou a possibilidade de se pedir a folha corrida da mesma, antes de aprovar. No que foi rechaçado pela ampla maioria. E mesmo entre os conservadores houve quem corasse diante de tamanho absurdo. A UFSC já discute em seus fóruns a realidade das pessoas trans. E isso não é pouca coisa.

Gosto de saber desses ventos novos e movediços. Pode ser que com eles, venha à tormenta. Mas, que a gente não se iluda. Na vida, a tormenta é construída historicamente. Estamos caminhando. 


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Câmara, justiça e as manobras políticas

















A Câmara de Vereadores de Florianópolis tem 23 representantes que foram eleitos para defender os interesses da cidade e legislar sobre as questões locais. Desses, 14 estão envolvidos em denúncia de corrupção, inseridos no processo da Operação Ave de Rapina. Essa operação, desencadeada pela Polícia Federal, desvendou que os vereadores foram beneficiados com propina na fraude dos contratos de radares e sinalização de trânsito dentro do projeto de lei Cidade Limpa. O nome de cada um dos vereados surgiu nos documentos apreendidos na casa do empresário Adriano Nunes, dono da empresa de mídia exterior Visual Brasil, ao lado dos quais estava escrito: "cortesia" , e o valor respectivo.

Com o andamento da investigação a situação na Câmara tem sido surreal, pois a maioria dos vereadores envolvidos segue atuando e votando projetos que são vitais para a vida da cidade, como é o caso das questões do Plano Diretor, que mexem com grandes interesses empresarias, o que provoca muita desconfiança entre os cidadãos da capital. Até agora apenas dois deles foram afastados, o ex-presidente da casa, César Faria, do PSD, (que inclusive comandou com mão de ferro a votação ilegal do Plano Diretor em dezembro de 2014), e o vereador Badeko (PSD). Mas, além deles também foram indiciados e podem ser denunciados os vereadores Erádio Gonçalves (PSD), Tiago Silva (PDT), Coronel Paixão (PDT), Marcelo da Intendência (PDT), Deglaber Goulart (PMDB), Celio João (PMDB), Dinho da Rosa (PMDB), Ed Pereira (PSB), Roberto Katumi (PSB), Alderico Furlan (PSC), Dalmo Meneses (PP ), e Ricardo Camargo (PC do B). Erádio Gonçalves, inclusive, assumiu a presidência da Câmara e tem tocado os trabalhos na normalidade. 

A Comissão de Ética da casa se debruçou sobre o caso dos dois vereadores que já foram afastados, César Faria e Badeko, e indicou a cassação dos mesmos por quebra do decoro parlamentar. Mas, no dia em que o tema seria apreciado pelos vereadores, uma liminar dada pelo juiz Laudenir Fernando Petroncini, impediu a discussão e a votação, baseado, segundo os vereadores, em informações que não condizem com a verdade e que podem ter induzido o juiz a erro. 

Para os que acompanham as batalhas que se travam dentro da Câmara de Vereadores, aonde quase nunca é levado em conta o interesse da maioria da população, a situação é de realismo fantástico. O vereador Lino Peres, do PT, lembrou muito bem que quando os vereadores votaram de forma ilegal o Plano Diretor, procurou-se a Justiça para reverter a situação e a resposta dada foi de que o Legislativo era autônomo e não poderia receber intervenção judicial. Agora, como os interesses não são os da população, mas de alguns prepostos de grandes empresas, a justiça se pronuncia e atua impedindo a votação da cassação. Dois pesos e duas medidas ou a escrachada verdade?  

Agora, a Câmara terá dez dias para responder aos questionamentos do juiz e só depois o tema poderá voltar a baila, considerando que o magistrado não mantenha a liminar depois de esclarecido. A alegação que impediu a votação  foi de que os mesmos vereadores que denunciaram o vereador fizeram parte da Comissão de Ética, o que não é verdade. O denunciante foi exclusivamente o vereador Afrânio Boppré. 

Na sessão de quarta-feira, excetuando os pronunciamentos de Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) os demais se mantiveram relutantes, afinal, tem pelo menos mais 11 deles que estão na berlinda. Não se pode saber se houve algum alívio por protelar o tema da cassação, afinal isso pode acontecer com os indiciados restantes, ou se o desejo é cassar logo os dois que estão no foco para criar a figura do bode expiatório e colocar panos quentes sobre os demais. A situação é delicada.

Enquanto as coisas se enrolam no campo do judiciário, a população se divide entre a indiferença e a indignação. Nessa quinta-feira o funcionário público Alexandre Magno de Jesus, lotado na Secretaria de Assistência Social de Florianópolis, externou o seu protesto entrando com um pedido de cassação contra o vereador Erádio Manoel Gonçalves (PSD), atual presidente da Câmara, também acusado de receber propina.  Agora, resta saber se a casa vai abrir o debate na Comissão de Ética também para esse caso.

Nas ruas, poucos sabem o que está implicado em todo esse enrosco, mas já saem atirando. "São tudo ladrão", diz Antônio Carlos de Oliveira, vendedor ambulante, mas acrescenta: "Isso não dá em nada, essa gente tem as costas quentes". Evelise Duarte, funcionária pública, diz que não sabe como essa gente é eleita. "Tu nunca vê esses caras nos bairros ou na vida da gente e, de repente, eles se elegem com milhares de votos. É tudo comprado. Eu não confio na Justiça e se alguém for cassado é porque tem algum interesse aí por trás. Nós sempre vamos sair no prejuízo". 

E assim, a nave dos indiciados segue voando. Projetos importantes continuam sendo votados e com pouca fiscalização cidadã. Sem mobilização popular a tendência é as coisas esfriarem. Nesse dia 12, na Câmara, havia apenas a presença solitária dos bravos dirigentes do Sintrasem, o sindicato dos municipários, e alguns militantes sociais que foram ver de perto mais essa "pizza".  Alguns estão de olho e pelo menos, a partir deles, as informações fluem.


domingo, 9 de agosto de 2015

Trabalhadores da educação entram no terceiro mês da greve




A semana que passou foi de muita mobilização em Brasília no âmbito da greve dos trabalhadores técnico-administrativos. Milhares de pessoas saíram de seus estados rumo à capital para mais um ato de enfrentamento e de busca de negociação. Como sempre, é um esforço tremendo que os trabalhadores precisam fazer para garantir que os burocratas do governo se dignem a abrir a porta para uma reunião e uma conversa. A cada ano, em cada greve, fica mais escandalosa essa demora em definir o reajuste salarial dos trabalhadores. 

Sempre é bom relembrar. Trabalhador público não tem data-base, logo, o governo fica desobrigado de reajustar salário a cada ano. Sua tática - e isso acontece em todo o governo, azul ou vermelho - é arrochar até quanto o trabalhador aguentar, então, quando não dá mais, precisa estourar uma greve para que venham discutir o tema.


Ainda dentro da tática de desgaste do trabalhador público, o governo faz com que a greve demore, demore, demore, até que a sociedade comece a achar "um abuso" que "essa gente" (no caso, os trabalhadores das universidades) fiquem dois ou três meses sem trabalhar, atrapalhando a educação de seus filhos. É tudo como um recorrente teatro, ano após ano. Na última reunião do Conselho Universitário da UFSC, por exemplo, foi possível perceber o quanto essa tática é vitoriosa. Um dos representantes do Diretório Central dos Estudantes, diante da discussão de uma moção de apoio à greve, disse que só poderia apoiar se os trabalhadores não "prejudicassem" mais os alunos, visto que as aulas iriam começar e precisava ter Restaurante Universitário e Biblioteca. 

Ora, a greve é um momento de subversão da ordem das coisas. É quando a vida sai do lugar. Justamente porque os trabalhadores precisam repor o poder de compra dos seus salários. Os técnico-administrativos das universidades estavam desde 2012 amargando um acordo feito também numa greve, o qual não acompanhou a inflação. Assim, as perdas salariais estão em 27,30%. O que isso significa? Que, em relação a 2012, os salários perderam essa porcentagem no poder de compra. Assim, é justo que isso seja reposto. São perdas. Não está aí embutido nenhum aumento real.

Pois o governo, usando o argumento da crise, não aceita discutir essas perdas e pretende impor a reposição de apenas 21%, divididos em quatro anos. Ou seja, quando chegar 2020 é que os trabalhadores terão reposto esses 21% de perdas acumuladas de 2012 a 2016. Isso significará que as perdas reais já serão bem maiores. Nesse sentido, é impossível aceitar a proposta.

E foi justamente para pressionar o governo que os trabalhadores fizeram mais uma caravana à Brasília, com atos e passeatas de protesto. O objetivo: estabelecer uma mesa de negociação.  Uma humilhação a mais. Todo um esforço para que se abra uma maldita mesa. Como pode um governo permitir que milhões de pessoas fiquem sem condições de estudo simplesmente porque não quer dialogar? Pois é assim. E os trabalhadores é que passam por vilões.

Pois, feitos os atos e passeatas, uma última caminhada noturno, com tochas acesas, terminou em frente ao Ministério de Orçamento, Planejamento e Gestão, que foi logo em seguida ocupado. Ninguém arredaria até que houvesse uma reunião. Gritaria, correria, polícia, todo o kit básico desse tipo de manifestação aconteceu. Então, os "magnânimos" resolveram conversar. A reunião serviu para marcar outra reunião, no dia seguinte, no MEC. E lá foram eles outra vez. 

Na nova reunião, a mesma surdez. O governo mantém religiosamente os serviços da dívida, que consomem 47% do orçamento nacional, e obriga os trabalhadores públicos a apertarem os cintos, ficando sem reajuste nos salários. Ou seja, que paguem os trabalhadores pela garantia de boa vida dos bancos e dos banqueiros internacionais. 

Agora, o governo acena com uma nova (?) proposta, igualmente trágica. Pagar 10 ou 12% divididos em dois anos, mesmo sabendo que a previsão de inflação é bem maior do que 5% ao mês. Ora, não há novidade aí. São os mesmos 21 anteriores. Apenas que serão pagos apenas 10 ou 12 em dois anos. Depois, em 2017 pode haver nova negociação para os 11% restantes. Seria cômico se não fosse trágico.

Aos trabalhadores é o que está posto. Ou aceitam isso, ou aceitam isso. Não há negociação. Não  há sensibilidade alguma com as gentes locais. Aos credores da dívida (ilegal e ilegítima) nenhum pedido de apertar cinto. Só aos trabalhadores, essa gente de casco duro que aguenta tudo. Será? 

Agora, ao iniciar o terceiro mês da greve vem o início de semestre e todas as dores de uma paralisação. Alunos sem biblioteca, sem RU, sem coordenadoria. E o dedo apontado para os trabalhadores: "vagabundos". Poucos são os que dirigem seu ódio aos verdadeiros responsáveis por essa tragédia das greves anuais. Os trabalhadores só têm sua força de trabalho para vender no sistema capitalista e, assim, precisam lutar para garantir o provimento da vida.  Unidos, eles formam um corpo gigante, que pode mover o pêndulo. Às vezes, vencem, às vezes não. Sempre depende da força da mobilização.

A semana será longa. 


Uma conversa de bar



Porto Alegre, noite de chuva e frio. Saí para um café e um pão com manteiga. Na lancheria (que é como os porto alegrenses chamam lanchonete) próxima à Farrapos encontrei guarida. Uma mulher atendendo e outra tomando cerveja, sozinha. Fiz o pedido e aguardei. As duas iniciaram um papo louco sobre ratos. "Porto Alegre está infestada de ratos. Estão por todo lugar. Aqui no centro mesmo, é um horror. E são enormes, parecem até uns coelhos", dissertava Denise, a atendente. A outra, de nome Bia, assentia fazendo cara de apavoramento.  "E o pior é que esses ratos aqui do centro sobem nos apartamento. Eles vão bem alto. Eu moro no quinto andar e um dia, ao entrar no banheiro, lá estava um em cima do vaso, olhando pra mim".

- Que horror. Fugiste?

- Capaz! Eu peguei a arma e atirei nele. Dei três tiros. Errei dois, mas um acertou. Ele escapuliu correndo porta afora, mas eu acho que morreu. Meu marido tem medo, sai disparado. Mas eu não, eu dou tiro mesmo. Se aparecer, leva bala.

A conversa ainda fluiu sobre ratos, como se dar tiros neles fosse algo comum, e depois foi desviando para as gentes.  "Eu tenho pena é dos moradores de rua. Os ratos andam sobre eles, estão por tudo. E tem o perigo de pegar aquela doença, a leptospirose. Eu cuido deles, dos moradores. O meu filho não gosta, diz que são tudo vagabundo. Eu nem ligo, ajudo mesmo", comentou Bia. "Outro dia eu dei uma bicicleta para um deles, o Wagner, que eu conheço faz tempo. A bicicleta era do meu filho, mas ele não usava há anos. Dei e pronto. Levei a maior bronca. O meu filho disse que ele ia vender pra comprar cachaça. Nos primeiros dias ele andou por aí com a bici, parecia um louco na rua. Eu até pensei que tinha dado a morte pra ele. Ia se matar daquele jeito. Mas, em três dia vendeu. Eu tive que vender, me disse. E eu aceitei. É a vida dele".

Denise ouviu a história e concordou com a amiga. Era preciso ter o coração bom quando o assunto era essa gente que ninguém gosta.

- É assim. Basta ser diferente. Aqui na lancheria as gurias tem medo de atender os haitianos, agora tu vê? Ela dizem que viram na televisão que eles estão todos doentes. E aí têm medo de pegar doença. Eu fico bem braba. Não admito discriminação. Se elas têm medo de pegar doença que lavem os pratos e os talheres com água quente. Água quente mata tudo que é bicho. Mas discriminar os haitianos na minha frente, ah, isso não. Eu faço questão de atender bem, coitados.

- Bem que tu faz. Eles só estão buscando uma vida melhor. Não tem nada a ver. São tudo seres humanos - insuflava Bia.

Vez ou outra elas me incluíam na conversa, olhando pra mim, esperando por uma reação. Ora eu ria, ora assentia, constrita. Ora comentava alguma coisa. E a noite avançava.

Naquela simples lancheria de Porto Alegre a solidariedade aparecia, concreta, na figura daquelas duas mulheres que, sem maiores discursos além de suas práticas cotidianas, mostravam que a vida pode ser melhor quando se respeita o outro como outro, diferente, mas real. No cuidado com os moradores de rua e os imigrantes elas tornavam aquele momento único. Uma trabalhadora e uma solitária mulher de classe média, parceria insólita, e uma passageira cliente, unidas no amor às gentes, numa chuvosa noite gaúcha. Às vezes, por nada, a vida assume contornos bonitos demais.

Naquele pedaço do centro porto alegrense, a  matadora de ratos e a salvadora de mendigos, seguiram sua conversa amorosa e doida, enquanto a chuva lavava a calçada, território livre dos roedores.  


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Seu Lidinho e os bonecos



Houve um tempo em que Florianópolis tinha um carnaval de rua que era uma belezura. O circuito do samba pelas veredas do centro reunia multidões, com a passagem das escolas, dos blocos de sujos, das sociedades carnavalescas. Mas, com o crescimento da cidade e do próprio carnaval, as escolas de samba ganharam um sambódromo. O samba da rua foi perdendo lugar.  

E foi para recuperar as ruas que um grupo de amigos criou o bloco do “Berbigão do Boca” em 1992. A ideia foi juntar o molusco mais apreciado na ilha com o maior folião da cidade, o Boca, daí o nome. Desde aí, eles se reúnem na sexta-feira que antecede o início do Carnaval e botam para quebrar nas ruas do centro, arrastando milhares de pessoas.

O bloco tem uma ligação visceral com as figuras do samba, da música e da arte do carnaval. Tanto que, a partir da criação do artista, folclorista e pandorgueiro Alan Cardoso, sua alegoria é feita com bonecos gigantes, representando pessoas que fizeram história na vida cultural da cidade. Não há quem não se emocione vendo os bonecos passarem, misturando alegria e saudade. 

Dia desses, na inauguração do mercado lá estava o Berbigão, com suas marchinhas e seus bonecos. Franklin Cascaes, Nega Tide, Lagartixa, Luiz Henrique Rosa, Nego Tuca, Aldírio Simões e até o seu Mendes, querido maestro que ensinou no rancho de canoa do seu Getúlio, lá no Campeche.
Os bonecos passam e a gente se veste de riso e festa, acompanhando a cadência.

Mas, em meio ao balançar dos gigantes, uma cena encheu meu coração de profunda emoção. Frenético, como sempre, ao primeiro som do samba, lá estava o seu Lidinho, pequenino e malemolente, bailando com os bonecos. Não pude deixar de pensar que um dia, ele mesmo, vai ser um daqueles. Rezo à deusa que demore... que demore!

“É festa pra rachar
É uma coisa louca
Vamos botar pra quebra
No Berbigão do Boca”



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Irineu Manoel de Souza: meu voto para reitor



Uma história de amor pela UFSC

Irineu nasceu na pequena localidade de Santa Tereza, em São Pedro de Alcântara, o quarto filhos de uma lista de oito. Desde pequenino já era determinado. Quando todos saiam para a roça, junto com o pai, ele ia, mas levava o livro e, se dava uma folga, lá estava ele, agarrado às letras.  Queria estudar. No primário foi dedicado, e quando chegou a hora de ir para o ginásio, o sonho se desfez. Não havia escola em Santa Tereza. Teria de ir para São Pedro, era longe, não tinha ônibus. Mas, o pequeno Irineu não iria deixar que um detalhe do destino atrapalhasse o caminho. Pediu um porco ao pai, fez uma rifa e com o dinheiro comprou uma bicicleta, com a qual realizava a longa e exaustiva travessia da sua casa até o ginásio. Foi o primeiro dos filhos a se formar. 

Terminado o ginásio, os olhos de Irineu voltaram-se para a capital. Haveria de fazer o segundo grau, mas ainda não sabia como. O pai ganhava a vida arando uma terrinha, trabalhando na horta da Colônia Santa Tereza e fazendo bicos de pedreiro, não tinha como sustentar o guri em Florianópolis. Mas, o acaso deu as cartas. Numa dessas festas de igreja, quando lá estava o pequenino a tocar violão, conheceu uma senhora que era dona de uma pensão na capital, bem atrás da Escola Técnica. Fizeram um acordo. Ele morava na pensão e o pai abasteceria a casa com verduras e legumes. Estava feito. Poucas semanas depois Irineu fazia o exame de admissão e entrava na Escola Técnica. Tinha 14 anos e já assumia a dura tarefa de sustentar-se a si mesmo. Durante semanas ele percorreu os escritórios da Felipe Schmidt, até que conseguiu um emprego de contínuo. 

Tinha 18 anos e a cabeça cheia de sonhos quando viu o anúncio do concurso para a UFSC. Era o que ia fazer. Inscreveu-se, prestou a prova e foi classificado em quinto lugar. Desde aí nasceu esse caso de amor com a Universidade Federal. Era o ano de 1974, a universidade começava a crescer e Irineu foi crescendo com ela. Já no primeiro ano assumiu a chefia da seção de matrícula e foi tomando gosto pela administração. Mais tarde passou pelo cargo de Diretor de Registro Escolar no DAE/UFSC até chegar a Diretor de Administração Escolar, cargo no qual ficou até 1996. Depois, foi assessor de Administração Acadêmica da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação e Diretor de Recursos Humanos da UFSC de 1997 a 2004. Na área acadêmica coordenou o Curso de Especialização em Gestão Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina. Como Integrante da Comissão de Políticas de Recursos Humanos da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, aprofundou ainda mais o seu saber sobre o funcionamento da máquina universidade.

Irineu também atuou de forma muito significativa na Estatuinte da UFSC e foi ali que assomou a ideia de um dia ser reitor da universidade. “Eu pude conhecer cada problema, entender cada detalhe, ver a universidade como uma totalidade. Então eu soube que poderia também ser capaz de, com a comunidade universitária, propor soluções para os problemas que tínhamos”. Naqueles dias ele já havia se formado em Administração, carreira que escolheu por ter se apaixonado pelo trabalho que realizava. “Lembro que no começo eu sonhava em ser engenheiro, mas depois que entrei para a UFSC, fui gostando do meu trabalho e Administração foi o caminho natural”.

Dedicação e seriedade sempre foram as marcas de Irineu. E justamente por isso que foi eleito, com a maior votação, pelos dirigentes das Instituições Federais de Ensino para a Comissão Nacional de Recursos Humanos de todas as IFES, sendo ainda reeleito e assumindo a vice-presidência da comissão. Ninguém nunca duvidou que ele era quem mais tinha conhecimento sobre esse tema. 
Ao longo de sua tragetória como técnico-administrativo Irineu recebeu várias distinções honrosas, com destaque para o Prêmio Hélio Beltrão - Inovações na Gestão Pública, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública, em 2001. O prêmio foi pela criação do Programa de Pós-graduação em Gestão Universitária - PROGEU, lato sensu, dirigido aos servidores técnico-administrativos e docentes da UFSC, que formou 148 especialistas em gestão universitária. Essa ideia foi o marco inicial para criação do mestrado em administração universitária.

Irineu fez uma linda carreira como técnico-administrativo da UFSC, mas aquele gurizinho que levava os livros para a roça lá em Santa Tereza ainda tinha mais sonhos na manga. Queria ser professor e também reitor da UFSC. Tratou de ir em frente. Fez concurso para docente em Administração e passou. Nem bem chegou e foi eleito para o Colegiado do Curso. Já atuando como docente publicou diversos artigos científicos, bem como colaborou com capítulos de livros em obras organizadas nas áreas de gestão universitária, gestão de pessoas, gestão pública e gestão do conhecimento. Publicou em co-autoria os seguintes livros: Gestão do conhecimento para a tomada de decisão; Prospecção de Cenários; e Processo Decisório. Tudo girando em torno da administração da universidade. Esse é seu chão e seu céu.

O garoto mirradinho, que andava pela vila de Santa Tereza agarrado no seu violão, cresceu e hoje é Doutor em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. Disputou uma bonita eleição para a reitoria da UFSC, na qual conquistou expressiva votação junto aos técnicos-administrativos. 

Pois esse ano ele completou 60 anos de uma vida cheia de surpreendentes desafios, todos superados com a perseverança típica da família. Irineu está pronto para mais uma batalha, na disputa pela reitoria da UFSC. Dos nomes que se apresentam ele é, sem dúvida, o mais preparado, o cara necessário para atravessar a tormenta que vive a UFSC. Competente, humano, observador, seguro, simples, Irineu é meu candidato. Ele acompanha a vida da UFSC, ele está nas lutas, ele defende o HU, ele tem amor pela UFSC, ele está pronto para assumir os destinos da universidade. Eu o felicito por essa bela trajetória de vida e deposito nele minha confiança. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Enfim, abriu o mercado!







O Mercado Público sempre foi o coração da cidade. Por entre seus espaços a vida ilhoa emergia. Nasceu para o peixe, de frente para o mar. Depois, com os aterros, ficou ancorado no centro, vibrando de vida popular. As lojinhas de calçados, as panelas, as ervas-mate, as camisetas de cinco reais, a padaria, o artesanato, os bares "sujinhos" que reuniam os pobres, os sujos e os malvados, com uma boa pinga e a gelada barata. Pelo vão central corria o samba, feito pela gurizada local, e o sábado de manhã era pura festa. Conviviam os espaços mais refinados, como o Box 32 e os botecos da plebe. A divisão de classe demarcada, mas o espaço do mercado era compartilhado, aparentemente sem conflito.

Então, chegou o prefeito César Souza e o mercado fechou. A promessa era de uma reforma. Um novo projeto que tornasse o prédio mais seguro e reparasse algumas injustiças. Segundo diziam, havia gente ali que nem pagava aluguel, ou se pagava, era um valor irrisório e isso não podia ser assim. O espaço nobre era uma galinha de ovos de ouro e tinha de dar lucro para a municipalidade. 

Aí, foi feita uma licitação e muitos dos antigos comerciantes perderam seus espaços, afinal, como bem concerne a cultura ilhoa, eram negócios familiares, sem pretensões de globalização. Impossível esquecer a tristeza das senhoras da loja de panelas, que ali estavam há gerações. Ou o seu Alvim, com mais de meio século na porta leste. Não foi levado em conta a historicidade, a tradição, o costume. O mercado precisava se modernizar. Foi muito triste acompanhar o fechamento das portas, a despedida, o levantamento dos tapumes. Todos sabíamos que o mercado que voltaria não seria mais o mesmo. Até porque, quem ganhou a licitação foram "marcas" que certamente não teriam nada de característico da cultura local.

Quando a ala oeste abriu já vieram os primeiros baques. Sorveteria italiana, com a bola de sorvete custando seis reais. E na ponta principal um "Bobs", marca transnacional que vende hambúrguer e coca-cola. Um restaurante chique, de comidas caras, cervejarias, bistrôs. Nenhum boteco, nenhum espaço acessível ao bolso das gentes. O mercado gourmetizou. Já não precisava ser muito esperto para saber que a ala faltante não seria diferente. 

A obra seguiu seu curso, os milhões chegaram via PAC, o Plano de Aceleração do Crescimento, da Dilma. Mas, apesar dos recursos em profusão, a coisa andava devagar. A previsão era de tudo estar pronto em 19 de julho de 2014. Não ficou. Precisou passar mais um ano. Na propaganda da prefeitura a explicação foi de que o mercado era muito antigo e precisava fazer tudo bem devagarzinho, para não dar erro. Mas, ao fim e ao cabo, o que era para custar cinco milhões, custou 10. O dobro. 

Então, nesse dia cinco de agosto, a ala leste ficou pronta. Era o lugar onde antes ficavam as peixarias e, segundo o prefeito, demorou a terminar por conta de obras de segurança. Enfim, sabe-se lá. O fato é que a cidade esperava com ansiedade pelo fim dos feios tapumes e pela volta do resplandecente mercado.

A cerimônia de reabertura estava marcada para as 11 horas. Eu cheguei antes. Queria ver tudo sem as gentes. E lá estava o mercado, com seu amarelinho queimado, as portas verdes, novinho em folha. O coração até deu aquele pulinho, de puro amor, de alegria extrema. O mercado sempre foi o centro dessa alma ilhoa, da cultura mané. Muitas pessoas fizeram como eu, chegaram antes, para olhar com vagar, deliciando-se com a paisagem sem tapumes ou entulhos. Quem ama a cidade sabe bem o que aquele lugar representa. "Ficou muito lindo", dizia um. "Valeu a pena esperar", dizia outro, encantado com o cuidadoso acabamento.

No vão central, onde antes se misturavam as cadeiras de plástico, brancas e amarelas, com guarda-sóis multicores, agora estavam mesas uniformizadas, marrons, com os guarda-sóis da mesma cor. E as cadeiras também, todas homogêneas, iguaiszinhas, com uma acintosa marca da coca-cola. Poderia ser uma praça de alimentação de um xópin qualquer. Bonito, mas sem alma.

As peixarias, todas muito limpinhas, de azulejos brancos, luzindo ao luminoso sol da manhã. Os peixes fresquinhos, como sempre estiveram e os vendedores com seus costumeiros chamados de clientes. Os boxes frigoríficos tiveram seu número aumentado. Isso achei legal. Mais a frente, o espaço do Box 32, que sempre foi um lugar mais requintado. Agora, ficou ainda mais chique. Bancos vermelhos, estilosos, balcão mega-moderno. Um típico lugar para turistas ricos, desses que existem nas grandes cidades do mundo e que dão familiaridade. Pode-se estar no Egito, na Grécia, na China ou em Florianópolis e a impressão é de que se está em casa, considerando que a casa é lugar de conforto e luxo.

Alguns boxes ainda permaneciam fechados, mas dava para entrever que seriam também todos no mesmo naipe. Espaços mais requintados, com preços salgados. Cerveja de marca, long neck ou latinha, preços nas alturas. "Antes os preços eram baixos porque os caras não pagavam aluguel, agora esses pagam e tem de tirar o lucro. É claro que tem de cobrar caro", justificava um jovem bem vestido, agarrado a uma Heineken.

Não vi a cerimônia de reabertura, nem ouvi os discursos das autoridades. Por certo seriam odes a si mesmos. Preferi passear pelos boxes, mirando as gentes. O mercado estava cheio de gente bonita, bem vestida e disposta a gastar uns cobres. Num instante toda a área central se encheu e foi a festa da praça da alimentação. 

Mais a frente um palco estava montado para as apresentações culturais e, fora do espaço do mercado, do lado da Praça dos Bilros, estavam os mais pobres. Ali, reuniram-se os negros, os mendigos, os trabalhadores, os desassistidos. E por toda a beira do chafariz abundavam os vendedores ambulantes com seus isopores cheios de cerveja gelada a quatro reais. Churrasquinho, pipoca, algodão doce, caldo de cana. A festa dividia bem as classes, embora todo mundo parecesse se divertir. Para quem não tem acesso à cultura a não ser assim, quando ela se oferece de graça, a coisa toda estava muito legal. Havia anos que não via a região do mercado tão cheia. E, lá de longe, as gurias olhavam o mercado e diziam com os olhos brilhantes: Tá bonito.

A festança se estendeu até tarde da noite. Eu saí lá pelas seis da tarde, depois de me deliciar com a Escola Livre de Música, acompanhando o chorinho do Geraldo Vargas, com a alegria do Boi de Mamão, o Nilera e suas música de mar, os bonecos do Berbigão do Boca. A festa foi bonita mesmo e encheu de alegria as gentes. O mercado estava vivo outra vez.

Agora é esperar para ver a vida real, cotidiana. E observar como se comporta o lugar na relação com o povo local, a gente comum. Os peixes seguem com seus preços baixos, mas os demais espaços parecem inacessíveis para muitos de nós. O ar de xópin é concreto e não consegui ver nada que tivesse muito a ver com a nossa cultura gastronômica e cultural. Há um espaço para o trabalho das rendeiras, mas também achei que ficou meio sem alma.

Existe ainda um projeto, que está em andamento, de fechar o vão central, o que pode tornar a coisa muito ruim, ainda mais xopinizada. Imagino que estejam pensado até em colocar ar-condicionado. Pessoas há que gostam disso, mas a mim parece uma perda completa da aura, da beleza. O mercado, que nasceu peixeiro e depois abrigou um entorno popular, agora parece que se descola da essência ilhoa. Está tudo muito artificial, muito homogeneizado.

O mercado é um desafio. Pelos preços das coisas, a tendência é que fique um espaço para turistas e abonados. Mas, tudo pode acontecer. Quando os vestígios da festa sumirem, voltarão os capoeiras, com seu gingado, os negros do samba, os trabalhadores, os desgarrados. E aí pode ser que toda essa gente que sempre fez do mercado seu chão ocupe a área, introduza sua alma, seu jeito, sua cultura, desfazendo o ar esnobe e "global".

Eu me permiti estar no mercado. Porque o mercado é meu. E eu estarei sempre por ali, ainda que tenha de comprar a cerveja com o carinha do isopor e me sentar, faceira, como hoje, nas chiques cadeiras coca-cola. Sempre é possível subverter a ordem das coisas.

A cidade amanheceu feliz. O mercado estava, enfim, aberto. A vida pulsou, o riso se abriu. Agora cabe aos frequentadores habituais recuperarem o mercado. Não vai ser fácil, porque as pessoas tendem a se acomodar com as coisas que pensam não poder mudar. Mas, quem sabe?