quinta-feira, 2 de julho de 2015

A maioridade penal e o Brasil



a alegria do reacionarismo


Se há algo que não subestimo é a capacidade e a esperteza dos grupos de poder que dominam esse país, por isso me mantive quieta quando da votação da proposta de maioridade penal na última terça-feira, dia 30 de junho. O Congresso Nacional já havia realizado manobras para aprovar o que era de interesse das forças econômicas que verdadeiramente mandam no Brasil, e no mundo, já que o núcleo duro do capitalismo é internacional. Foi o que aconteceu na votação do financiamento das campanhas por empresas. O tema foi votado e derrotado. Depois voltou outra vez ao debate e a votação anterior foi anulada. 

Assim que não foi surpresa ver o que aconteceu na noite de ontem quando, a partir de uma manobra, o presidente do Congresso colocou de volta em votação a matéria sobre a maioridade penal, já vencida. Todas as regras da democracia foram burladas, mas sempre haverá algum “notório” jurista para dizer que não, que tudo está dentro da lei, que isso é possível, que aquilo também é. A lei não é feita para garantir igualdade de direitos, muito menos justiça. Ela existe para ser usada contra os pobres, os sujos e os marginalizados. A velha máxima: “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”. E, no capitalismo, nós somos os inimigos. 

É preciso que se compreenda que esse sistema “democrático” no qual vivemos é a ditadura do capital. Tudo é feito a partir de seus interesses. Os avanços que as gentes conquistam só são garantidos na luta renhida. Luta cruenta, na qual se morre e se mata. Nada pode ser conquistado na via institucional, a qual está dominada pelos grupos de poder que efetivamente dão as cartas.

Vejam o que acontece no Mato Grosso do Sul com os indígenas. Eles são os legítimos donos da terra, mas são sistematicamente expulsos, mortos, trucidados, desaparecidos. E a “justiça” do estado chega a divulgar que “é impossível diminuir os crimes contra os indígenas”, numa clara aliança com os assassinos. Ao dizer isso, deixa que a impunidade grasse. O governo, omisso, faz vista grossa e, assim, os fazendeiros vão “limpando” a área, onde plantarão soja para a exportação, adubada pelo sangue e pelo corpo dos povos indígenas. Nada se faz! Não há protestos massivos e apenas os indígenas – com poucos aliados – denunciam e resistem. 

A lei brasileira manda prender um jovem que, numa manifestação, foi “pego” com um frasco de desinfetante e outro de água sanitária. Que crime é esse? Nada foi provado que aqueles elementos poderiam – numa louca mistura química - se tornam um explosivo ou coisa assim. Mas, o rapaz é condenado a cinco anos de prisão e tem sua vida destruída. Enquanto isso, o jovem Thor Batista, filho de um milionário, em alta velocidade atropela e mata um homem e não sofre qualquer punição. Ou outro garoto da fina estirpe catarinense, que estupra uma moça e sai impune, sem qualquer arranhão da lei.  Esses são alguns exemplos gritantes, mas poderiam ser citados inúmeros outros. As coisas são assim no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo. 

Os movimentos sociais brasileiros foram adormecendo durante o governo Lula e esse adormecimento é, talvez, a maior perversidade provocada pelo grupo governista. Agora, passada mais de uma década de cooptação e conivência com a ideia de que Lula ou Dilma iriam virar o leme para a esquerda e fazer acontecer alguma mudança nesse país, estamos diante da barbárie. Um congresso tomado por conservadores, reacionários e até alguns fascistas, dando as cartas sobre a vida da nação. Ao mesmo tempo, um governo fraco que, em vez de combater esse ovo de serpente que cresce no planalto central, vai costurando acordos, tecendo malhas ainda mais conservadoras e perversas, em nome de uma “governabilidade”.

São tristes momentos os que vivemos. E muito por essa incapacidade de compreender o caráter subserviente desse governo do PT, o que faz com que não se dê combate, e se espere que das cadeiras estofadas do Congresso saiam as soluções.

Ora, o Congresso Nacional nunca foi do povo. A maioria nunca esteve em nossas mãos. A luta não se dá ali dentro. A batalha é na rua. Mas, tampouco pode ser uma batalha suicida e sem direção. Os tempos são duros e há que reconstituir uma esquerda capaz de dar respostas efetivas ao país. Reformar a colcha capitalista, tentando dar verniz “humanitário” à barbárie é um erro de lesa humanidade. Ao capitalismo há que se dar combate. 

O que se repetiu ontem no Congresso Nacional ultrapassa a questão de o estado poder prender menores de 18 anos. O buraco é maior. É a ruptura com a tal da democracia liberal, que nem é a melhor das democracias. E se nem essa democracia formal é respeitada, que mais podemos esperar? 
É tempo de entender as mudanças provocadas por esses 13 anos de governo petista e avançar para novos caminhos. Será uma longa jornada, mas temos de dar o primeiro passo.  


sábado, 27 de junho de 2015

O Haiti e e seus dilemas



















Entrevista do Professor Waldir José Rampinelli ao programa Campo de Peixe, na Rádio Campeche






O Brasil e seus desafios















Professor Nildo Ouriques fala sobre a conjuntura brasileira ao programa Campo de Peixe , da Rádio Campeche





Uma batalha vencida



Há uma grande diferença entre a política de um estado, seus dirigentes e o sistema capitalista que os domina, daqueles que, vivendo dentro de cada um desses espaços geográficos, lutam por transformação e por justiça. Por isso devemos comemorar sim a batalha vencida pela comunidade gay nos Estados Unidos. Muitas dessas pessoas podem ser reacionárias, racistas, capitalistas, individualistas e tudo mais que orienta a opressão social num estado como os EUA. E esses não mudarão, apesar de terem um aspecto de sua vida mudado.

Mas também há na comunidade gay pessoas que fogem desse perfil conservador e buscam a vida boa para todos, a justiça, o caminho da transformação.  Eu me solidarizo com todos os que sofrem preconceito por sua orientação sexual, e celebro com os gays estadunidenses essa importante vitória. O estado não deveria legislar sobre quem podemos amar, mas já que é assim, que bom que agora, também lá, num dos países mais conservadores do mundo, os homossexuais tenham seus direitos garantidos. 

Isso não significa, de nenhuma maneira, que ao amanhecer o dia de hoje, toda essa gente seja aceita e respeitada. A maioria continuará sendo morta, violentada, humilhada e tudo mais. A lei não muda a cabeça das gentes, ela apenas procura amparar. E muitas vezes tampouco consegue. Então, essa é uma batalha inconclusa, que só virá numa sociedade realmente nova. 
A luta segue. Há muito ainda para conquistar.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Dilma, a mandioca e os indígenas















na lenda, a mandioca nasce do corpo de uma menina






















Nem preciso dizer, mas sempre é bom, que acho o governo de Dilma Roussef uma fraude. O PT é um partido da ordem que governa para a classe dominante. Quanto a isso não resta qualquer dúvida. Mas, ainda assim preciso falar sobre o discurso que a presidenta deu durante os jogos mundiais indígenas e os comentários desairosos que se veem nas redes sociais. Sobre eles, alguns elementos me parece importante dissertar.

Primeiro: Ninguém está nem aí para a cultura indígena. A completa indiferença da maioria das gentes brasileiras pelos primeiros habitantes desse lugar não é novidade. Ao longo dos séculos os indígenas foram dizimados, assassinados e desaparecidos. Muito foram subsumidos na cultura branca e, à exaustão, os meios de comunicação e os aparelhos ideológicos têm disseminado a ideia de que índio é um ser de segunda categoria, um sujo, um bêbado, um atrapalho para o progresso da nação. 


Por conta desse “crime perfeito” poucos são os que se dispõe a conhecer e entender a cultura dos povos originários que, no Brasil, conformam mais de 300 etnias, 270 línguas e um milhão de pessoas. Gente que tem uma cosmovisão, uma história e uma cultura importantíssima.  Não é, então, sem razão, que a notícia mesmo – a realização dos jogos mundiais indígenas – tenha sido apagada, com o foco todo sendo dirigido para as palavras da presidenta, que, bem orientada, se embasaram na rica tradição indígena. 

Segundo: O eurocentrismo e o colonialismo mental da maioria dos brasileiros é algo que ainda tem um peso gigantesco na cultura nacional. Uma ignorância que é imposta, na medida em que as escolas e os demais centros de irradiação de conhecimento ainda se mantêm reféns de uma cultura exógena, tida como melhor do que a nossa. Assim, valoriza-se mais a lógica dos fast-foods, vindas da matriz imperial – os Estados Unidos  - que o nosso baião de dois. É mais chique comer escargots do que pirão d´água. Tudo isso é carregado para dentro das gentes pelos meios de comunicação, na sua interminável mais-valia ideológica. 

Por isso as piadas sobre a questão da importância da mandioca, que Dilma muito bem lembrou no discurso aos povos indígenas. 

Pois a mandioca é um alimento sagrado para o povo indígena de quase toda a Abya Ayala, inclusive para os povos do norte. Sobre ela contam-se lendas da mais profunda beleza. Ela é absolutamente a rainha dos trópicos, a terceira maior fonte de carboidrato, e está presente na mesa de quase todo o brasileiro e latino-americano, muitas vezes até sem ele saber.  

Contam os Tupi que uma de suas mulheres deu à luz a uma indiazinha que foi chamada de Mani.  Ela era linda e tinha a pele bem branca. Era alegre e brincalhona, e tanto, que todos a amavam.  Mas, um dia ela ficou doente e por mais que fizessem não conseguiram salvá-la. Ela se foi. Foi enterrada dentro da própria oca, como é costume. E os pais regavam seu túmulo com lágrimas. 

Foi então que, um dia, dali começou a brotar uma planta. E sob as folhas verdes nasceu uma raiz marrom, bem branquinha por dentro. Os pais a chamaram de Maniva, em homenagem á  filha. Desde aí essa raiz passou a fazer parte da vida da tribo e nunca mais deixou de vingar pelas terras dos trópicos. Ela é tão importante, inclusive, porque praticamente não precisa de manejo e se mantém na terra por muito tempo. Foi um presente de Mani para sua gente.

A mandioca é, então, um elemento fundamental da cultura indígena e da nossa própria cultura brasileira.  “A mandioca é a rainha do Brasil”, dizia Câmara Cascudo, um dos nossos maiores estudiosos do folclore e da cultura nacional. Ele estava certo. 

Dilma é um desastre na política e na economia, governando para a classe dominante. Mas, nisso – da importância da mandioca - ela acertou.  

E que viva a mandioca, como diria o genial Gilberto Vasconcellos, um produto genuíno do nosso país. 





quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma experiência autônoma grega



Oscar Oliveira é um lutador social da maior importância na Bolívia, tendo sido uma das lideranças da famosa "guerra da água", que aconteceu em Cochabamba colocando em xeque o processo de privatização da água naquele país. Hoje, ele atua uma escola rural onde ensina as crianças a conviver de maneira harmônica com a terra. 

Esteve na Grécia visitando experiência de lutas dos trabalhadores e traz aqui suas impressões sobre o que viu. 






"Esta é uma primeira entrega  de uma série de pequenos testemunhos sobre o que pude perceber e sentir na longínqua, mas tão próxima Grécia. 

Relatarei o que vi em uma Cooperativa de consumo, em um parque autônomo de Atenas, a entrevista com um jornalista e com a gente simples e trabalhadora das ruas. 

Não serão artigos, mas uns versos anarquistas (sem regras ou padrões literários), apenas palavras de esperança, inspiração e criação.

PARTE 1

Grécia- Tessalônica-Atenas

Tive o privilégio de visitar, compartilhar e sentir o que acontece no território sem partido, sem caudilhos nem patrões, na fábrica Vio.Me (Bio. Me, em grego), em Tessalônica, Grécia.

Território que está sendo construído desde baixo, a partir das angústias, da estafa do capital frente a inoperância, temor e burocracia estatal e com um grande sentido de irmandade, solidariedade, alegria, risos e esforços por parte de um punhado de trabalhadores que, tendo perdido seus empregos, decidiram estabelecer um espaço produtivo, não apenas para sobreviver a crise grega, mas principalmente mostrar que é possível construir no caminho o processo revolucionário com as mãos calosas e o coração grande em meio a tormenta. 

Esses trabalhadores conseguiram estabelecer  laços fraternos e práticos com os trabalhadores e trabalhadoras de Zanón, na Argentina, assim como uma rede importante do movimento social internacional, que já manifestou seu apoio pleno à construção da autonomia. 

Antes fabricavam artigos para construção, agora fazem artigos para limpeza de casas, cuja estrela é um pequeno sabão que se faz grande pelo conteúdo do trabalho, esforço, suor, de cisão e dignidade. 

Tivemos um importante diálogo, quase sem falar, porque nem necessitava. Trocamos alguns presentes. As palavras estavam ditas e escritas no nosso olhar, nas nossas mãos, nos nossos sorrisos e na alegria de compartilhar, não só esses momentos, mas esses espaços que antes eram de exploração e de ditadura do capital e patronal, e que hoje são cheios de carinho, reciprocidade e esperança. 

Vio. Me é nossa!"

terça-feira, 23 de junho de 2015

Capoeira da ilha


Kiko Knabben (diretor)  com Danuza L. Meneghello

Capoeiras














Com Danuza L. Meneghello e Fábio machado Pinto, dois dos autores do livro 

Foi lançado no Festival Audiovisual do Mercosul, o documentário sobre o Mestre Nô e a capoeira da Ilha, "nego bom de pulo". Um belíssimo registro sobre o nascimento da capoeira em Florianópolis e a influência poderosa do Mestre Nô sobre boa parte dos capoeiras locais. Figuras importantíssimas como Mestre Pop, Calunga, Alemão, entre outros, também foram reverenciados. Um belíssimo registro da história da capoeira em Florianópolis feito pelo cineasta Kiko Knabben.

Depois da apresentação foi realizado o pré-lançamento do Livro "CADERNOS DE CAPOEIRA" que igualmente recupera essa bonita história da capoeira em Florianópolis. O lançamento mesmo será no segundo semestre, com a presença do Mestre Nô.