O espetáculo do crescimento que marcou muito o governo de Lula e o primeiro mandato da presidente Dilma acabou. O Brasil agora está num processo de estagnação e queda de produção. A inflação cresce, os alimentos ficam mais caros, o crédito fica mais caro também, impedindo o consumo e fazendo com a indústria se retraia. Nossa cara subdesenvolvida volta a aparecer por baixo da maquiagem, deixando claro que somos a periferia do sistema e que esse hiato de super-crescimento foi um episódio conjuntural. Nesse processo de parada do crescimento, a questão da dívida pública, que estava escondida, reaparece e cobra políticas de ajuste. O governo brasileiro optou por bancar religiosamente o pagamento dos juros da dívida, que são estratosféricos, em vez de seguir investindo nos setores estratégicos para a vida nacional. Assim, a presidente chama um filho dileto do sistema capitalista, Joaquim Levy – que vem dos quadros do Fundo Monetário Internacional - para gerir as finanças nacionais e a receita que ele apresenta é a receita que é boa para os credores do Brasil, não para sua gente. Levy criou então uma meta de superávit primário de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o que equivale a uma economia de R$ 66,3 bilhões de reais que seriam então destinados ao pagamento dos juros da dívida pública. Como chegar a essa economia? Levy e o governo dizem que o problema é fiscal. Ou seja: está se gastando em excesso em alguma coisa e é preciso cortar. Então, cortam despesas do governo e elevam a arrecadação, seja pelo aumento de impostos ou outras receitas. Levy apontou onde poderia cortar e a presidente Dilma aceitou, aceitando a lógica da crise fiscal. Nesse sentido os maiores cortes foram feitos justamente nos setores mais importantes se pensarmos na perspectiva da população: saúde, educação e cidades. Na saúde, o corte foi de 11,77 bilhões. Na educação, 9,42 bilhões, e nas cidades 17,23 bilhões. O que isso ocasiona? Saúde ainda mais precária, educação jogada às traças e obras nas cidades ficando para as calendas. Ora, o problema não é fiscal. É financeiro. O que significa que pode o governo cortar o que for, que não conseguirá barrar o rombo, afinal, esse rombo é causado pelo pagamento dos juros da dívida. Não tem nada a ver com gastos na máquina pública. No caso específico das universidades, o buraco do corte já apareceu. A UFSC vivenciou uma greve de vigilantes, por não ter honrado o pagamento à empresa terceirizada e acumula dívidas dos aluguéis dos campi no interior, além de outras contas. Os prédios estão sem a devida manutenção, os jardins não existem mais e a previsão é de que seja necessário apertar ainda mais os cintos, o que na prática, significa problemas. Faltam recursos para a permanência estudantil e não há perspectivas de investimento. Nesse cenário, é mais do que óbvio que vai sobrar para os trabalhadores. Tanto professores como técnico-administrativos das IFES tem hoje um dos piores salários do Brasil no campo do executivo. A “elite” está concentrada nas chamadas carreiras estratégicas, ligadas à fazenda, Banco Central, jurídico, polícia federal e diplomacia. São carreiras que tem salário inicial de 13 mil reais, podendo chegar a 22 mil. Já os professores tem um teto bem modesto, de 17 mil, enquanto um técnico de nível superior raramente passa dos nove mil, salvo exceções que são excrescências de outros tempos. Não é sem razão que dos concursados para UFSC, mais da metade que passa desiste nos primeiros meses ou sequer assume o cargo. Opta por fazer outro concurso em lugares que paguem mais. Espaços como o Senado Federal, por exemplo, são considerados o “céu” do servidor. Lá, um trabalhador de nível médio, sem curso superior, entrar ganhando 13 mil reais, enquanto os que têm curso superior entram com 18 mil. Só que hora de decidir quem será o trabalhador que terá de apertar o cinto, ganhando reajuste zero, ou algo bem ínfimo, esses setores como o Legislativo federal e o Judiciário ficam de fora. Tanto que no apagar das luzes de 2014, o Congresso aumentou os salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF); do procurador-geral da República; dos deputados e senadores; da presidente e do vice-presidente da República; e dos ministros de Estado. O aumento dos onze ministros do STF impactou ainda mais os gastos do Estado porque ele incide também no salários dos 16.429 juízes que existem no país, bem como o aumento do procurador geral incide no salário dos 12.262 procuradores do quadro. Assim, o aumento desses poucos trabalhadores já custou aos cofres R$ 3,8 bilhões. Como o restante dos trabalhadores e pensionistas somam 2.176.959, o governo optou por salvar a pele dos mais ricos e não aumentar o salário dos mais pobres. A mesma velha lógica liberal. Por conta disso a choradeira de que o pedido de 27, 3%, que é a reivindicação linear dos trabalhadores, é “impossível de pagar”. Ora, não é impossível. Dinheiro há. Mas ele vai para o aumento desses setores que o governo considera estratégicos e para o pagamento da dívida pública. O governo diz que em 2014, o Tesouro Nacional desembolsou R$ 239,4 bilhões com o pagamento de salários, aposentadorias e pensões dos ativos, inativos e pensionistas da União. E, segundo o Boletim Estatístico de Pessoal, do Ministério do Planejamento, a previsão para esse ano é de que se gaste R$ 256 bilhões. Segundo os técnicos do governo, se fosse dado o reajuste que os trabalhadores querem a folha teria que aumentar em R$ 69,9 bilhões, o que colocaria por terra a economia do Levy. Então, a dança dos números mostra claramente a posição do governo. Porque, afinal, salário de servidor público não é gasto, é investimento. A melhoria do serviço prestado ao público passa por um trabalhador qualificado e bem remunerado. Mas, a opção é justamente achatar o salário do trabalhador que atende o público na ponta do sistema, provocando a fuga de profissionais e a depauperação do serviço. É nesse contexto que vem a greve. Uma mobilização de quem conhece os números e conhece a realidade brasileira. Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida, dos 2, 168 trilhões do orçamento brasileiro em 2014, um total de 45,11% foi para pagamento de juros e amortizações da dívida. Ou seja, dinheiro morto, pagando uma dívida que nem sequer sabemos se é legal e legítima. Com a paralisação das universidades a mídia comercial já começa seu trabalho ideológico de transformar a vítima em vilão e prepara o espírito das gentes para massacrar aqueles que já estão massacrados. Mas, a despeito disso, os trabalhadores que lutam por uma universidade capaz de servir efetivamente à nação, farão sua luta. Como sempre. Mantendo a universidade pública, exigindo recursos para que ela possa criar conhecimento e batalhando por um salário digno.
Debate realizado pelo Núcleo de História da América Latina - NEHAL - com a participação dos jornalistas Matheus Lobo Pismel, Elaine Tavares e Celso Schroder.
A semana que chega apresenta mais uma greve na educação. Em Florianópolis, estão parados os trabalhadores municipais - incluindo professores - os professores estaduais e, agora, o técnico-administrativos em educação da UFSC. E, no geral, essas greves que envolvem trabalhadores da educação demoram demais. Algumas chegam a durar três meses. Nesse meio tempo não há aulas e se acontecem, são precárias. A pergunta então que não quer calar é justamente essa: por que são tão longas essas greves? A resposta parece simples. Os governos estão se lixando para a educação. Observem que quando há alguma paralisação no setor produtivo - fábricas, empresas etc... - ou em algum setor público mais visível - como é o caso dos garis, as negociações são rápidas. Para um empresário, uma fábrica parada implica em milhões de prejuízo, ou o lixo acumulado nas ruas repercute mal e de maneira muito acelerada para um governante. Então, eles são céleres na resolução dos problemas. Mas, uma greve na educação provoca o quê? Que tipo de dano? Aparentemente, nenhum. No caso da educação municipal, há um certo desconforto para os pais que precisam encontrar outro lugar para deixar os filhos. Mas é só. Três meses sem aula, ao que parece, não prejudica ninguém. Nas primeiras semanas há uma certa gritaria, mas depois as coisas se acomodam e a vida segue. Para os governantes é até bom. Não precisam gastar com merenda, com luz ou água. É só ficar no vai em vem de reuniões infrutíferas, queimando o filme dos trabalhadores, pois, ao final, são eles os que aparecem como culpados do transtorno. A educação é só um tema ritual no programa de governo dos prefeitos, governadores se presidentes. Arrisco dizer que em casos muito singulares, como quando Paulo Freire foi secretário da educação, esse assunto realmente teve alguma relevância. As campanhas políticas sempre apresentam propostas mirabolantes para a educação, mas, no frigir dos ovos, tudo segue igual, entra governo, sai governo, seja de que partido for. Claro, há experiências legais, mas são apenas as exceções, o que confirma a regra. Educação mesmo é coisa séria, tem a ver com ensinar a ler o mundo, a ser crítico, autônomo, capaz de criar, inventar, subverter. Precisaria de um corpo de professores bem pagos, bem formados, cheios de entusiasmo pelo ensino, com tempo para ler, estudar e preparar boas aulas. Também precisaria de um corpo técnico bem qualificado, comprometido com o processo, engajado na tarefa do ensinar e aprender. Teria de ter uma estrutura material capaz de acolher com qualidade os alunos, laboratórios, espaços de lazer. E tudo isso é o que não há. Por isso são necessárias as lutas. E parece um paradoxo que um trabalhador da educação tenha que abandonar seu ofício para lutar por algo que deveria ser um direito de todos. Mas é assim que é. O salário, cujo reajuste da inflação seria o mínimo a ser dado anualmente, nunca cresce. Por vezes, nem o índice de perda da inflação é reposto, ou se é, os governantes ainda querem fazer em vezes, achatando e corroendo ainda mais o vencimento. Os trabalhadores público sequer têm data-base, que é aquela data específica, no geral em maio, que os patrões são obrigados por lei a reajustar os salários. Pois bem, os governantes não estão obrigados a isso, e é por conta de não terem data-base, que os trabalhadores públicos precisam da greve para reivindicar reajustes ou melhorias nas condições de trabalho. Na semana que passou, o novo ministro da educação, o filósofo Janine Ribeiro, declarou que os trabalhadores estão sendo intransigentes declarando greve - professores e técnicos. Que eles deveriam dialogar mais. Ora, que declaração infeliz. O ministro, que chegou ontem ao cargo, mas é um professor de carreira, deveria saber muito bem que os trabalhadores vivem pendurados em mesas de negociação, que mais são de enrolação, uma vez que não avançam em nada. E, no mais das vezes, ainda servem para desfazer os acordos feitos em greve. Diálogo é o que mais querem, nunca encontrando. O governo prefere pagar em dia os juros de uma dívida ilegal a remunerar bem seus professores e técnicos. Exige "paciência" dos trabalhadores, e permanece ajoelhado diante da dívida odiosa. E é assim que ajudados pela mídia comercial, eles vão tornando vilões aqueles que são as vítimas do sistema. Os meios de comunicação são capazes de endeusar jovens sem causa que caminham contra uma abstrata "corrupção", e tornar demônios os trabalhadores que lutam por uma vida digna, não só para eles, mas também para todos os que utilizam o serviço público. Os que lutam são hoje xingados de "vermelhos, petistas, governistas" ou um sem mais de nomes ideologizados. E a massa desinformada compra o pacote, enxovalhando aqueles que realmente querem um mundo melhor. É a total inversão de valores. Fracasso total da própria educação, que não consegue forma seres perguntadores e críticos. É fazendo esse ciclo que chegamos a resposta da pergunta sobre por que se demoram as greves da educação. Interessa a quem manda manter as gentes na ignorância. Dizia Simón Rodríguez, o educador das Américas: "Ensinem, e terão quem saiba. Eduquem, e terão quem faça". Pois assim é. A política de educação está voltada para ensinar apenas o necessário para que as pessoas possam se movimentar no mundo. Mas não há preocupação em educar, porque aí os véus podem cair: "que aprendam as crianças a serem perguntadoras, para que pedindo os porquês, se acostumem a obedecer a razão e não a autoridade, como os limitados, ou aos costumes, como os estúpidos". Assim, olhos abertos para a forma como os governantes tratam os trabalhadores da educação. Observem como César Souza, Raimundo Colombo e Dilma Roussef lidam com os professores e os técnico-administrativos em educação e perguntem-se: Porquê? A batalha dos professores e TAEs é legítima e necessária.No mundo capitalista, o trabalhador tem apenas o seu corpo - sua força de trabalho - para vender. E, no embate com o capital, precisa garantir o melhor para si. Por isso, a luta.
Esse texto é uma crônica de ficção. Mas poderia bem ser a história de cada um dos professores e professoras que acamparam na Alesc, na luta por vida digna. Acordou cedo o garoto. Na verdade pouco dormira, e não era por conta do chão duro da Assembleia Legislativa, onde estava acampado junto com outros colegas professores. O que lhe martelava o cérebro era a impotência. Estava ali, há dias, revezando as noites, numa luta sem fim. Parecia absurdo que um professor tivesse de fazer tudo aquilo para ter um salário digno. Acreditava que isso era o mínimo que se poderia esperar de um governo. A barra do dia ainda não surgira e ele estava à janela. Uma gota de lágrima teimava em aparecer no canto do olho. Lembrava-se da mãe, cujo sonho maior era vê-lo formado professor. Pensou que era bom ela não estar mais. Assim, não veria sua angústia nem sua dor. Nascido e criado no morro da Costeira, Edvilson era só mais guri talhado para vida nenhuma. Morando num barraco, vendo a mãe lavar roupa dia após dia, sem que soubesse do pai, ele andara beirando o mundo do tráfico. Zezão lhe havia prometido um tênis da Nike se ele se dispusesse a levar alguns pacotinhos para o asfalto. Naqueles dias a ambição do "ter" chegou a fazer cócegas. Mas, o riso de cristal da mãe foi mais forte. Ela desejava mais do que tudo que ele fosse professor. Tinha trabalhado numa casa de família na qual uma das moças era professora. E sempre lhe encantara aquela profissão. “É bonito ensinar os outros”. Era só o que queria para seu guri. Por isso não poupava esforços para que ele frequentasse a escola. Nada lhe faltava. O uniforme limpinho, a merenda, os materiais. “Tu vai ser professor”. E ele nunca ousara outra coisa. Quando nas tardes de inverno ele fazia os deveres perto do fogareiro improvisado com madeiras recolhidas na rua, podia perceber a alegria da mãe, observando-o desenhar as letras grandes e harmônicas. Nunca lhe sairá das retinas a alegria que viu nos olhos dela, quando, já formado no magistério, passou no concurso estadual. Seria professor de escola pública. Iria garantir que outros guris, como ele, encontrassem um caminho para além das vidas predeterminadas pela pobreza. Como acreditava na educação. Amava Paulo Freire e descobrira há pouco tempo Simón Rodríguez, dois monstros da arte de educar. Com eles andava, buscando transformar as vidas dos seus pequenos. A mãe morrera no segundo ano depois que ele entrou para o magistério estadual. Morreu feliz. Tinha encaminhado o filho e ele encaminharia outros tantos. A vida fizera sentido. Maria nunca soube como era, de fato, a vida de um professor. E Edvilson nunca lhe tirara o gozo. Escondia dela as noites no sindicato e não lhe contara sobre a luta pelo piso nacional que o governador não queria pagar. Para Maria, a vida dele era um paraíso e, no hospital, onde ela lutava contra a tuberculose, ele só contava das alegrias da sala de aula, com a gurizada. Ela se deliciava. “Valeu a pena, né, filho? “ E ele acenava que sim. Agora, na janela, depois de mais uma das tantas greves em luta por salário digno e condições de trabalho reais, ele vislumbrava o rosto da mãe nas brumas da noite que ia embora. Olhou para os colegas que ainda dormiam nos colchonetes improvisados e sorriu. Maria estava certa. Tinha mesmo valido a pena. Na escola ele fazia a diferença e ali, com aqueles companheiros também. Pavimentava uma estrada que haveria de ser bonita. Um educador é mais que um professor, ensinando para além da matéria do programa. E aquela luta era pedagógica. Os alunos o apoiavam, traziam cartazes nas passeatas, discutiam a educação, aprendiam que a escola pública, ainda que tenha sido criada apenas como um ritual, num arremedo de educação, pode ser revolucionária também. Basta que existam educadores assim, como aqueles que caminhavam com ele em mais uma greve da educação catarinense. O dia brotou por trás do Mocotó e Edvilson misturou-se a algaravia dos que acordavam. De pé para mais um dia de luta.
Então, de repente, tudo fica gris. O outono perde suas cores e a beleza parece se esconder sob as nuvens. Chove, e chove e chove. Dias e dias sem sol, pessoas ligeiras sob os guarda-chuvas, caras amarradas, roupas molhadas, sapatos encharcados. Mau humor. As dores ficam mais doídas e quase falta o ar. Na televisão as notícias de enchentes, vendavais, deslizamentos, aprofundam o mal-estar. Essa dura e difícil convivência do humano com a natureza. Até que, depois de uma tenebrosa tempestade, o dia amanhece. E um raio de sol fura o dia. Está frio, mas a simples luminosidade solar faz parecer que tudo ficou "patas arriba". Os passarinhos cantam loucamente e até as corujas, notívagas, se demoram no muro, celebrando a manhã. Os cachorros saltitam atrás das borboletas e os gatos esticam as patinhas, preguiçosamente. E a gente mesmo salta da cama depressa para aproveitar cada segundo do sol. Há roupas para lavar, janelas para abrir, tapetes para bater. A vida se movimenta dentro e fora de casa. A chuva finalmente parou.
Como por encanto estamos diante do dia como um navajo diante de seu território: beleza ao lado, beleza em cima, beleza embaixo. A vida é um caminhar na beleza. São esses momentos únicos nos quais se tem a exata dimensão de que somos, de fato, seres fadados à beleza, como ensina esse esplendoroso povo do norte. A vida se enche outra vez de cor.
O cotidiano assume outra face. Fica quase sagrado. As flores que, teimosamente, ainda se dependuram nos vasos dizem: sobrevivemos. E se mostram em radiosas cores, vaidosas, como a rosa do principezinho de Exupery. Os frutos que resistiram no pé vicejam e se entregam, prontos para a oblação. Sempre haverá uma mão para colher e uma boca sôfrega para sorver o doce da laranja e o azedo do limão.
Outras árvores se mostram em gestação. Há vestígios de que os frutos logo brotarão. As ameixas apontam. Num vaso improvisado dentro de um balde de plástico, as mudas vicejam, como meninas nas manhã de abril. Estão verdes e fortes. Bem logo serão adultas, parideiras de gostosuras. No jardim mal-arranjado e muito pouco planejado, as plantinhas vão encontrando caminhos para se espalhar e a terra inteira se move em um balanço bruxólico, bem comum nesse lugar. Sob a terra até as minhocas parecem dançar em meio a compostagem que transforma todo o orgânico em vida outra vez. Folhas velhas, cascas, frutos caídos do pé, se transformando. Nada morre. Tudo vibra.
E aquele que sofria por um amor perdido, ou aquela que chorava por uma dessas dores da vida, se coloca de pé. O que era lágrima vira riso, porque a dança da vida outra vez principiou. Essa vida ordinária, cotidiana e aparentemente igual, que esconde maravilhas, assoma, agigantada pelos raios de sol. O mundo recomeça seu giro depois da borrasca. É tempo de calmaria. A natureza ensinando que as coisas são assim mesmo, seja fora ou dentro da gente. Vez em quando tudo vira um turbilhão, aguaceiro, vendaval e a gente perde o pé, arrastada pela ventania. Mas, passado um tempo, ainda que estejamos feridos e lacerados, as águas baixam e o sol volta a brilhar.
Somos irremediavelmente fadados à beleza. Nada podemos fazer para mudar isso. Nenhuma dor, nenhuma cicatriz impede que nossos passos sigam a trilha do encanto, esse átimo de segundo que pode valer uma vida. Um momento feliz. Que pode ser essa manhã depois da chuva. Essa visão do paraíso que nos toma inteira. Depois, pode vir a dura peleia do dia, as lutas políticas, o ódio, a perda, a solidão, o desamor, qualquer coisa. Mas, se a gente espiou esse jardim secreto da beleza, uma única olhadela, já estamos salvos.
Vem aí um livro que promete balançar o coreto da pacata Florianópolis. O trabalho de pesquisa do autor, Gert Shinke, fruto de uma investigação que durou mais de dois anos, revela a maior fraude fundiária levada a cabo no Brasil, sob o manto de uma suposta reforma agrária. Subvertendo totalmente a generosa proposta de distribuição de terras para quem nela trabalhasse, para agricultores sem-terra, o que aconteceu em Santa Catarina foi uma anterreforma agrária e, segundo Gert, " uma fraude colossal com terras públicas em Florianópolis, especialmente durante o período da ditadura civil militar". Tudo foi documentado e os arquivos foram sistematicamente estudados pelo autor. A Editora Insular, de Nelson Rolim, topou o desafio de colocar à luz esse trabalho que promete ser glicerina pura. O lançamento acontece no dia 2 de junho, terça-feira, às 19h, no Auditório do CFH, da UFSC. O filho de João Goulart, presidente deposto pelo golpe, João Vicente Goulart fará uma conferência. Ele falará sobre a conjuntura pré-golpe de 64 e a proposta de Reforma Agrária do presidente Jango. Evento imperdível. Com posterior sessão de autógrafos com Gert Shinke. PROMOÇÃO: Editora Insular e CFH-UFSC
APOIO: Comissão de Direitos Humanos da ALESC; Escola do Legislativo da ALESC e Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça
Por José Newton Tomazzoni Diversas vezes eu escrevi sobre o amor. Coisa linda escrever sobre o amor. Assunto fácil, cheio de leveza. Mas também polêmico, sempre pronto a várias interpretações, peixe escorregadio...Em todas essas vezes eu pude usar todo o rigor da interpretação racional. Brinquei com as palavras. Eu podia. Falava de um pássaro que voava em outros horizontes. Hoje é diferente. Ele pousou sobre mim. Abriu suas asas dilacerantes e acolheu minha totalidade de sentido: “Estou aqui, sinta, vou revirar seu mundo de cabeça para baixo.” Eu estremeci. Sempre estremeço quando ele chega. Também amei. Sempre amo quando ele pousa. Mas o pássaro é danado, gênio forte, indomável. Inútil qualquer resistência. Sei disso, já o conheço. Somos como aqueles velhos amigos que se encontram de vez em quando para uma cerveja. Brindamos a vida, falamos do cais adormecido e, outra vez, voltamos para nosso mundo sério e opaco do gabinete, do escritório, da vida diária. O cenário era um bar: ela estava na minha frente. Altar. Lugar da hierofania. Com ela assim tão perto já não havia mais necessidade de rezar o Pai-Nosso, pois o reino já tinha chegado. Eu falava da beleza, da poesia, do apenas vislumbrado. Citei Fernando Pessoa, Cecília Meirelles, Mario Quintana...Todas essas distrações dos deuses. Movido pelo mesmo pássaro que um dia pousou sobre eles, eu a enchi de poesia. Falei sobre o mistério. Como é possível que um beija-flor possa parar no ar? Milagre. Como na historia do Eduardo Galeano (que agora não lembro onde li) eu também fiquei impotente diante da imensidão: “Vovô! Me ajuda a olhar?” Não suportei ver tanta beleza sozinho. Mas a beleza sempre está acompanhada da tristeza. Os chineses sabem disso: há sempre o yin e o yang, positivo e negativo. Ela escutou estarrecida, sem entender nada. Mais do que isso: sua resposta foi: “Zé! Você precisa voltar ao mundo real, viver mais” Que pena. Não entendeu nada. Não leu Mario Quintana. Não leu Nietzsche. Não se apaixonou por Fernando Pessoa. Confundiu o real com o empírico, historicidade com temporalidade. Vive somente do real. Se tivesse amado Novalis ele a ensinaria o óbvio: “A poesia é absolutamente real. Esta é minha filosofia: Quanto mais poético, mais real”. Mas ela não amou. Eu falei pássaro, ela entendeu pedra. Essa história me lembrou uma outra acontecida há mais de um século (não é curioso que nada há de novo sobre a terra?) Ele, homem das alturas, pássaro louco amante das torrentes e dos abismos. Ansioso arqueólogo da alma. Ela, mulher segura, experiente, sabia o que queria, racional. Ele propôs a beleza, a leveza e a ternura mas ela não pode aceitar. Beleza, ternura e leveza só sobrevivem na intempérie, no turbilhão, na arena trágica e bela do mundo da fantasia. A fantasia é a forma mais profunda de realidade. Mas é preciso muita coragem para embarcar nesse assustador e enorme talvez. A história que contei é a história de Nietzsche e Lou Salomé. Ele disse: “Vem comigo! Por onde ando os caminhos são solitários sim, mas há tanta beleza que você corre o risco de explodir como um vulcão em atividade. Vem comigo! Nada aqui é seguro, eu sei, mas terá um ganho: você brincará com beija-flores e sorrirá a cada manhã. Dê-me as suas mãos. Vamos colher morangos e brincar com os girassóis. Você sentirá a brisa fria no rosto. Ficará calada como se estivesse ausente- nós vivemos é das ausências – e mergulhará no sentido de todas as coisas”. Ela respondeu: “Bobo. Volte ao mundo real. Desça a sua montanha e aprenda a viver.” Foi embora e preferiu Freud. Certamente você já ouviu falar de Nietzsche. E de Salomé? Você já tinha ouvido falar nela? Claro que não. Ela só ficou para a história por causa de Nietszche, esse ingênuo que via o mundo do alto da sua montanha. Que estranho isso não é? Que ele tenha sobrevivido ao tempo...eterno. No entanto, ela.... Nietzsche morreu louco e não poderia ser de outra maneira. Como manter a sanidade em um mundo que prefere somente a opacidade do real? Como se manter são em meio a essa multidão de seres racionais em procissão louvando e canonizando a experiência, como se ela por si só nos ensinasse o caminho do arco íris? Como manter a normalidade diante da aceitação subserviente do que apenas aparece, o mundo que é? Ele não vivia o mundo que é. Ele vivia o mundo que não é: “Eu agora amo somente a terra dos meus filhos, no mar mais distante”. Por isso explodiu. Sua música interna era bonita demais. Seu corpo não suportou. Quis compartilhar essa melodia com a humanidade, mas ela preferiu o arrastado grunhido unifônico que abafa todo tipo de sentimento humano. Tentou desesperadamente indicar os caminhos do coração. Não foi possível. Riram dele como sempre fazem os eternamente corretos. Li em algum lugar sobre uma história de um namorado que deu um buquê de cebolas para sua namorada. Ela ficou indignada e jogou-lhe o buquê na cara. Tola. Não entendeu nada. Nunca viu “O carteiro e o Poeta”. Não se deliciou com “A festa de Babete”. Não levou a sério a advertência da Adélia Prado: “Aquele que entende só o que é falado ou escrito, não entende coisa alguma. A letra mata”. Ele disse: “Você é diferente de todas as outras. A elas eu dei buquê de flores, mas você não é como as outras. Você é de outra substância”. Que pena que ela não leu Pablo Neruda (Quem não leu, leia “ode à cebola”, quem sabe poderá perceber a leveza que pode morar num buquê de cebolas). Acho que foi isso que aconteceu com Nietzsche. Ele deu um buquê de cebolas para Lou Salomé. Ela preferiu buquê de flores...Normal demais, comum demais. Tinha mesmo que se apaixonar por Freud.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Jornalismo de Libertação
Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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