quinta-feira, 28 de maio de 2015

A democracia representativa representa quem?





Acompanhei cética as votações no Congresso Nacional, embora atenta aos gritos de todos os lados que saltavam no facebook. Uns comemoravam vitória por terem sido derrotados o voto distrital e a doação de empresas para a campanha política. Muitos foram as postagens tirando sarro do presidente da casa, deputados Eduardo Cunha. Mas, ao final, quem riu por último foi ele. Manobrando, como um bom conhecer dos trâmites legislativos, perdeu um anel, mas ganhou muitas mãos. Aprovou a doação de empresas aos partidos.

Não vejo aí nenhum absurdo. É pão comido. Qualquer um que conheça o sistema político brasileiro sabe como funciona a democracia representativa em vigor. Os deputados, na sua maioria, não representam a vontade popular. Eles representam a vontade dos grupos de poder, ou grupos econômicos que os elegeram. São eleitos para isso: para defender as pautas dos grupos em questão.

O presidente da Câmara mesmo informou ao Tribunal Superior Eleitoral que gastou seis milhões de reais na sua última campanha para deputado.  Entre seus financiadores estão bancos, empresa farmacêutica, mineradoras e construtoras. Ora, a quem ele vai defender no Congresso? A esses interesses. Quem financia é dono do deputado ou do senador. E tudo é bem transparente. Está tudo registrado no TSE. Sendo assim, era mais do que óbvio que a doações de empresas não poderia ficar de fora. São elas que movem o motor da vida nacional e decidem tudo sobre a vida da maioria da população. 

Observem o número de deputados classistas que temos hoje no Congresso. Pouquíssimos vêm dos sindicatos ou dos movimentos sociais. Sua ação dentro do legislativo é meramente ritual, no sentido de denunciar, gritar e espernear. Não há como vencer quando num universo de quinhentos e poucos, os representantes da maioria não chegam a 30. É só fazer a conta simples de diminuir.

Pela casa legislativa, onde os deputados e senadores são empregados dos grupos econômicos e de poder, os trabalhadores, a maioria das gentes, só têm vitória quando ocupa as ruas. Não há coisa que essa gente mais tema que o povo unido e organizado. Por isso não é à toa que quando as multidões chegam perto do Congresso eles imediatamente chamem a repressão. É o medo. Profundo medo. 

Agora, se lá dentro está tranquilo, todo o resto é encenação. Ninguém convence ninguém com discurso. Os votos já estão dados. Basta que se saiba a quem eles servem. Por cada um e cada uma que lá está serve a algum grupo. É a tal da representação. Logo, ninguém fala por si. Ou falam pela política do partido ou pelo grupo que os financiou. Simples assim. 

Resta a nós compreender a quem cada um representa. Bancos, construtoras, farmacêuticas, latifundiários, empresas multinacionais. No geral, os interesses muito pouco tem a ver com os da maioria da população como saúde de qualidade, previdência digna, educação libertadora. O foco são as benesses que podem advir para os grupos de sempre. Ao povo, vez em quando se joga uma migalha, quase sempre por conta de lutas gigantescas. Por isso que se realmente queremos que siga existindo uma democracia representativa aos moldes da nossa, é preciso que se tenha muito claro quem financia os caras.

Há outros tipos de democracia, como a cubana, por exemplo, na qual os representantes saem da base mesmo, das comunidades, e são eleitos por conta do seu trabalho cotidiano no seu lugar de moradia. É outro modelo, bem diferente, com seus problemas e contradições. Algo que poderia ser mais bem conhecido, em vez de se ficar apontando o dedo, chamando de ditadura comunista. Não é. Nem ditadura, nem comunista. Por que o comunismo é uma etapa da vida política na qual estaria abolido o estado e todos os bens seriam repartidos. Isso ainda não aconteceu, nem em Cuba, nem na história. O que há em Cuba é todo um processo de discussão comunitária e popular, que ainda precisa ser mais aprofundado, mas que acaba não apresentando o que se vê por aqui, com um deputado defendendo mais uma empresa do que a comunidade que o elegeu.

Há ainda a democracia participativa, como a da Venezuela, na qual, constitucionalmente, o poder popular está acima do poder do executivo, legislativo ou judiciário. E qualquer lei aprovada no legislativo pode ser revogada se o povo quiser, se tiver capacidade de organização e reivindicar um plebiscito. São instrumentos da democracia participativa que, legalmente, impedem que coisas como as que se vê no Brasil aconteçam impunemente. 

Infelizmente para nós, no Brasil, a democracia que conseguimos constituir até agora é essa. A democracia do voto, geralmente dominada pelo poder econômico. Quem tem mais dinheiro faz a melhor campanha, quem tem mais dinheiro leva mais votos. E quem não tem dinheiro raramente chega a ocupar um cargo desses, a não ser quando acontecem algumas conjurações cósmicas ou a conjuntura se apresente de tal modo movimentado, com um ou outro movimento popular em alta. Mas, isso é raro.

Nesse sentido, o que acontece na Câmara por esses dias é só a expressão dessa triste realidade. A democracia brasileira representa os interesses dos grandes, dos poderosos, da classe dominante, do poder dominante. É inelutável? Não! Como falei antes, se as gentes se organizam e crescem, garantem uma vitória aqui ou ali. O melhor mesmo seria mudar tudo, o tipo de estado, o tipo de democracia que, como bem dizia Lenin, sempre precisa de um adjetivo. Aposto na democracia participativa, de organização popular. Isso é possível. Mas ainda há muito para caminhar...

Enquanto isso, eles vencem. 


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Central de Penas Alternativas

Entrevista com Larissa Gomes Bez, psicóloga, sobre o trabalho de acompanhamento das penas alternativas na cidade de Florianópolis. Entrevista à elaine tavares, no Programa Campo de Peixe. Rádio Comunitária Campeche.

 

Na chuva, com a força da luta


Ato dos trabalhadores públicos municipais em Florianópolis, em greve desde o dia 14 de maio. Uma greve bonita, com uma mobilização massiva. Sob a chuva, milhares de guarda-chuvas fizeram a dança da unidade. E sob os guarda-chuvas, as gentes, em luta por um serviço público de qualidade.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Novos migrantes em Florianópolis


















O Haiti, hoje

O grande jornalista Marcos Faerman contava uma história engraçada, mas que lembra bem o que quero ilustrar aqui. Ele dizia que, naqueles anos de chumbo da ditadura militar, quando ele via entrar na redação um guri cabeludo ou uma guria descolada, com sandálias e bolsa de couro, já vaticinava:  vai dar bom! E não dava outra. Era os "hippies", por seu compromisso com a vida e com o amor os que se constituíam os melhores contadores de história.

Uso esse exemplo para falar dos migrantes que chegaram do Haiti. Se são haitianos, são bons. Não pode haver dúvidas. Afinal, foi nessa pequena ilha no meio do Caribe que aconteceu a primeira revolução feita totalmente por negros escravizados nessa nossa grande Abya Yala. E foi esse povo que gestou a liberdade que, depois, incendiou todo o continente. 

Depois de amargar mais de 200 anos de escravidão, os negros do Haiti se levantaram em rebelião, numa luta que durou 12 longos anos e na qual conseguiram derrotar os brancos locais e até uma expedição francesa. Jacobinos negros. Homens e mulheres que, animados pela revolução que acontecia na França, decidiram que era hora de balançar bem alto o pavilhão da liberdade. E foram esses valentes os responsáveis pela única revolta vitoriosa de escravos em toda a história da humanidade.

Os primeiros negros chegaram ao Haiti em 1517, 17 mil almas roubadas de vários pontos do continente africano. Vinham servir de mão de obra para o colonizador europeu. Ali passaram pelas maiores atrocidades e tanto que, aos poucos, reunidos no culto vudu, juravam destruir os brancos e tudo o que possuíssem. 

No 700, com a revolução assomando pelas ruas de Paris, o Haiti, que era uma possessão francesa, também ensaiava os passos de liberdade. Em 1791 começaram as primeiras rebeliões. No 22 de agosto, na noite da tempestade, os negros começaram a agir. Num levante de massas incendiaram as fazendas e tomaram as cidades. Foram 12 anos de lutas encarniçadas até que em 1802 o Haiti foi declarado independente.

O preço dessa avassaladora vitória contra os brancos continua sendo cobrado até hoje. Mas, ainda assim, nunca ninguém poderá apagar esse fato da história. É por isso que a um povo que foi capaz dessa saga heroica só se pode fazer reverência. Cada haitiano é marcado por essa gesta que influenciou a luta pela liberdade em toda a América Latina. Nunca é bom esquecer que foi do Haiti que Simón Bolívar recebeu as condições para voltar à Venezuela e retomar a luta que acabou tirando dos espanhóis todas as colônias. Também temos nossas dívidas com esses irmãos e irmãs.

Assim, quando o ônibus chegado do Acre, repleto de haitianos e alguns senegaleses chegou à Florianópolis, o sentimento que aflorou foi o da alegria. Agora, passados tantos anos, poderemos, como povo latino-americano, retribuir tudo o que a gente haitiana aportou de bom para que nossos países também pudessem desfrutar da sonhada liberdade. E, aos senegaleses expressar nosso respeito pela história de resistência durante o longo tempo da escravidão. 

É por conhecer essas histórias e ter muito claro a importância do Haiti para a libertação de toda a América que provoca profundo pesar as palavras eivadas de preconceito que se expressam - em liberdade - pelas redes sociais. 

O migrante negro e pobre é ruim

A cena é dramática. Um ônibus inteiro de gente sem rumo, olhar assustado, boca seca, coração aos saltos. Pessoas que saíram de seus lugares de nascimento, não porque estivessem a fim de conhecer o mundo ou fazer aventuras. Criaturas impelidas a caminhar, porque onde nasceram ou está devastado pela guerra, ou tomado pela miséria extrema. Gente que não tem outra escolha a não ser andar. Pessoas tomadas pelo desespero e pela pulsão da vida. Hoje, aqui, em Florianópolis, são os haitianos e os senegaleses que chegam, acuados, mas podem ser quaisquer outros povos acossados pela cobiça de uns poucos, como acontece nos países da África, do oriente médio ou da Ásia. São os fugitivos da fome, da morte, do medo.

Como esses homens e mulheres que hoje aportam na capital catarinense, séculos atrás vieram os italianos, os alemães, os japoneses. Gente que fugia da fome na Europa e embarcava animada pela promessa de boas terras e vida abundante. Vinham povoar o grande Brasil,alavancar o progresso da antiga colônia portuguesa. Quando aqui chegaram encontraram não a terra boa que esperavam, mas o lugar de outros: os índios, os quais tiveram de enfrentar e matar para poderem conquistar o sonho da boa vida.  E assim, muito da prosperidade dos imigrantes se fez em cima da morte do povo originário.
Nos dias de hoje, os migrantes empobrecidos chegam sem promessas e sabedores de que aqui a terra já tem dono. Já aportam em desvantagem. Não poderão matar ninguém para tomar suas terras e muito menos contar com as benesses governamentais. Tudo o que podem ter é um colchão para dormir até que encontrem algum emprego, se conseguirem. 

Na madrugada dessa segunda-feira foi assim. O grupo assustado encontrou repórteres, fotógrafos e toda uma sorte de pessoas para ajudar ou não. Haitianos e senegaleses vieram do Acre, por onde entram no Brasil, muitas vezes com o apoio dos traficantes de gente. Alguns deles deixam com os coiotes todas as economias de uma vida, porque acreditam que qualquer coisa pode ser melhor do que a guerra e a fome. Partem sem olhar para trás. São pessoas comuns, mas sem posses. E, por isso, sua migração é acompanhada com medo e preconceito. Bem diferente dos migrantes endinheirados, cuja chegada é saudada com o espocar do  champanhe, já que esses compram terras, casas e podem investir no lugar.

Os empobrecidos não compram nada. Eles só querem achar um modo de ganhar a vida. "Vai roubar nosso emprego", diz um. "Serão os marginais de amanhã", diz outro, e por aí vai um rosário de maldades típico do medo que o outro, diferente, provoca em quem não consegue ligar os pontos da realidade. E há aí um outros componente que não pode passar desapercebido. Os migrantes em questão são além de pobres, negros. 

E é a cor da pele que parece provocar tanta fúria. A mentalidade escravista do brasileiro comum segue intocável. Negro é sinônimo de ladrão, vagabundo, marginal. Como se isso fizesse parte do DNA. De maneira cômoda, os brasileiros, grupo constituído basicamente de migrantes, colam no negro tudo o que há de ruim. Perdeu-se na noite da história as origens do racismo, tão forte e tão cruel. Não é de bom tom lembrar que os negros foram sequestrados, vendidos como bichos, tendo seus filhos arrancados dos ventres e usados como instrumento de trabalho. Aquilo foi no passado e ninguém lembra mais. Os que sobreviveram ao massacre tiveram sua chance de "se virar". Se não conseguiram é porque não quiseram. Assim pensa o senso comum. 

E quem não é migrante?

Quando nos anos 80 do século passado um jovem padre criava em Florianópolis um centro de acolhimento ao migrante, a classe dominante olhava com desconfiança. Padre vermelho, comunista. Mas, naqueles dias, Wilson Groh não se intimidou com os rótulos que lhe colavam na cara. Junto com Ivone Perassa e outros companheiros, ele acolheu, ajudou a organizar, promoveu lutas. As gentes que vinham do interior do estado, na grande onda de migração, queriam uma vida melhor. 

Foi assim que nasceram muitas das comunidades que hoje fazem nossa grande Florianópolis. E aqueles que, naqueles dias apontavam o dedo para o padre, hoje reconhecem o seu trabalho e lhe reverenciam por ter tido a coragem de enfrentar com generosidade a chegada daquela maré de gente. Como agora, os que aqui já estavam olhavam com medo e nojo. Era uma gente pobre, aparentemente sem nada para dar. E não foram poucos os acampamentos, os despejos, as prisões. Porque as gentes ocupavam terras vazias e construíam barracos. 

Foram anos e anos de luta. Hoje, esses migrantes estão integrados à cidade. Tem suas casas, são trabalhadores, empresários, profissionais liberais. São os que fazem a capital andar. 

E antes deles vieram os portugueses, os bandeirantes, os açorianos. Cada um com suas razões. Todos buscando vida plena. Ironicamente, os reais donos das terras foram expulsos, muitos mortos, e hoje precisam novamente brigar para ocuparem seu próprio território.

Então, como a história vai assim, dando voltas, é preciso parar e pensar. Somos um pequeno gênero humano, dizia Bolívar. Que mal nos fará acolher o que chega, perdido de amor? Se cada um de nós um dia já foi um migrante, aqui ou acolá. Antes do olhar de ódio e discriminação, antes do medo de ter o emprego roubado ou coisa assim, aposte na generosidade da acolhida. Essa gente que chega de lugares tão distante, com outra língua, outros costumes, venceu uma grande batalha, que é a de continuar vivo, a despeito de tudo. Que não venham encontrar a morte no olhar de um de nós. 

Uma chance, apenas uma chance. É tudo que eles querem.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Porto Alegre por meus olhos

























Como Marco Polo, no século XIII e Ítalo Calvino, no século XX, eu também tenho esse encantamento pelas cidades invisíveis, aquelas que a maioria não vê, mas que se apresentam, tão intensas diante dos nossos olhos. Gosto de andar pelas ruas, observando os cantos escondidos, os ângulos inauditos, as frestas da vida dos lugares, me assombrando com a beleza. Boca aberta, olhos perplexos, coração aos saltos.

Assim foi em Porto Alegre, capital dos gaúchos, dia desses. Cheguei cedinho, no raiar da manhã. As janelas ainda se guardavam, fechadas, escondendo as pessoas que possivelmente se arrumavam para o turbilhão. Nas calçadas, os corpos retorcidos dos sem-teto, buscando aquecimento nos papelões, ou em algum cobertor velho. Um ou outro cachorro passeava, feliz, nas ruas ainda sem tráfego. Uma cerração pesada tornava tudo branco, dando um ar de sonho. 

O mercado público reinava, imenso, inaugurando a algaravia do dia. A praça ia se enchendo, com o vai e vem apressado das gentes até o terminal de ônibus. Era uma visão de sonho. O mercado, a prefeitura, o bulevar. Quase uma Porto Alegre de outros tempos. 

Mais alguns passos e chegamos à Rua da Praia, estranho nome para um espaço que está razoavelmente longe do rio Guaíba. Mas, é que andando até o final indefectivelmente chegamos ao rio, que se descortina em profunda beleza. É uma rua que remonta minha primeira infância. Tinha 12 anos quando ali pisei pela primeira vez e, assim, na manhã despertando, parecia tão igual. As mesmas pedras do calçamento, o prédio da antiga CEEE, a empresa de Força e Luz, as galerias com suas lojinhas fulgurantes e estranhas. Logo à frente, a Praça da Alfândega, lugar das maravilhas, no qual os velhos hippies ainda sobrevivem, expondo e vendendo sua arte. Hoje dividem a calçada com bolivianos, peruanos, haitianos, gente que busca sobreviver, e tudo parece ser uma grande família. O chimarrão corre de mão e mão e um vai ajudando o outro a montar a barraca. Os que já se instalaram tocam algum instrumentos ou leem um livro. Há um cheiro bom de incenso no ar.

Na praça, Mario Quintana conversa com Drummond, poemices talvez, bem em frente ao imponente prédio do Clube do Comércio. Mais a frente, Osório, o general dos farrapos, montado em seu cavalo, crava os olhos no horizonte, no qual também assomam os velhos e magníficos prédios onde hoje estão um museu e um centro cultural. Assim, na bruma da manhã, tudo parece tão mágico e tão antigo. Quase posso ver Getúlio Vargas, passando devagar, com seu terno de linho branco e bengala. 

Dando a volta, indo outra vez para o mercado, paro para uma conversa com um velho amigo. Meu amado general Artigas, Dom José, o homem que caminhou com os livres da banda oriental. Ali está, com sua cara marcante, nariz adunco e olhos de eternidade. Toco sua fronte de bronze, e fico ali, sorrindo, enquanto os passantes me olham como se louca fosse.

A cerração se dissipa, a cidade vai ganhando seu ritmo de metrópole. Perde a aura. Somem os fantasmas do passado e assomam as gentes comuns, apressadas, teclando alucinadamente seus celulares. Não chegam a perceber as maravilhas que se apresentam todos os dias em diferentes facetas. 

Uma Porto Alegre vai sumindo, vem a cidade real, com as obras da Copa do Mundo ainda inacabadas causando transtornos e mau humor. Buzinas, olhares fulminantes, ou a indiferença de quem não tem poder. Nada mais há fazer. Sigo para um café. Sento em frente ao mercado e espero o garçom. Faço o pedido e sorrio, pois é só nessa incrível cidade que a gente pode comer um "farroupilha" com café com leite. Comer mesmo, pois farroupilha é o nome do sanduiche comum, com mortadela. Leva o nome da maior revolução desse estado, que o fez uma república em 1835, e também do guerreiro farrapo que é quem dá dignidade a essa briga de fazendeiros. Mastigo o farroupilha e fecho os olhos, ouvindo o tropel. 

Essa cidade me emociona.  

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Educar é um ato de amor

Entrevista com o professor Marcelo Francisco Basso, grevista, acampado na Assembleia Legislativa, em luta por direitos, salário e uma educação de qualidade. Ele fala sobre a educação como um ato de amor, e justamente por isso, da necessidade de lutar por ela.


domingo, 17 de maio de 2015

Desculpe pelo transtorno








Thank you, Todd
Obrigada, Ivan








Comunidade não é só um lugar. É um sentido de pertencimento, um compromisso. Viver em comunidade é respirar o mesmo ar, sonhar os mesmos sonhos, travar as mesmas lutas. No Campeche, um pequeno bairro de Florianópolis, somos assim. Famílias/pessoas que se juntam na defesa do lugar, contra a especulação, contra a destruição e pela preservação da cultura.

No último sábado (16.05) essa comunidade se reuniu no salão da capela para ver um filme, feito por um "gringo" (nascido no Canadá), Todd Southgate, que, chegando ali, amou o lugar e dele fez seu lar.  Documentarista de profissão, decidiu filmar o Bar do Chico, espaço de cultura e resistência que havia perto da praia, onde a comunidade se fazia feliz e em luta. Foi quando o bar acabou sendo pivô de uma grande batalha da comunidade contra o governo. Estava dado o argumento.

Como era no Bar do Chico que o povo se juntava, era ele o nascedouro das centenas de lutas travadas em defesa do bairro. Lutas por um Plano Diretor comunitário,  que não esmoreceram, feitas anos e anos à fio. Por isso, a prefeitura quis derrubar o bar, atingindo de morte também o velho pescador - Seu Chico - que comandava o pequeno empreendimento. Defendido pela comunidade durante anos, o bar foi finalmente demolido numa madrugada chuvosa, de surpresa, para que não houvesse resistência. 

Toda essa história o Todd conta no filme, que expressa, muito mais do que a dor da queda do bar e da morte do seu Chico, a fortaleza de uma comunidade. Na sala repleta - exibido apenas para a família de Chico e os envolvidos com a luta - o filme de Todd e de Ivan provocou comoção. O riso do seu Chico, a praia, as manifestações, a cena dramática do bar sendo destruído pelas máquinas. Tanta luta, tanta dor. E depois, as cenas dos edifícios que vão se erguendo na beira da praia, com suas passarelas até o mar. Só tristeza.

O filme "Desculpe pelo transtorno", de Todd Southgate , é o retrato em movimento da luta e da esperança de toda uma comunidade, que começou nos anos 80,  com as reuniões pelo Plano Diretor. Depois, as batalhas com a prefeitura, a vingança do poder, a morte do seu Chico, a queda do bar. Na tela, os rostos dos velhos lutadores, ainda dando batalha. E os de uma juventude que chega e se faz comunidade também. 

A noite de visualização do "Desculpe pelo transtorno" nos fez chorar, a todos, mas, ao final, quando as luzes se acenderam e a gente pode se abraçar, percebemos que aquela era a nossa história, a digna história de uma comunidade que segue viva. Que sofre derrotas sim, mas não se apequena. Tanto que ali estávamos, todos, na mesma comunhão que nos une na hora do protesto, do enfrentamento com a polícia e com os homens do poder. 

Por isso, em meio às lágrimas, começou o riso. Porque estamos juntos, porque somos comunidade, porque temos uma história, feita por nossas mãos. Porque temos a lembrança e a força. Esse povo do Campeche, essa gente que luta sempre vai seguir em frente, defendendo seu lugar dos vilões do amor.  E ainda que venham as máquinas, que derrubem os prédios, que violentem a praia, nós estaremos braço no braço, mão na mão, porque fomos plasmados com os mesmos sonhos. Somos comunidade. Aconteça o que acontecer.

E quando saímos, alma lavada, na noite úmida, pudemos ouvir no marulho do mar, aquele que deu sentido ao filme, seu Chico, dizendo, baixinho: "aqui eu sou feliz". E bem ali, onde agora só tem areia, e um dia foi seu/nosso bar, perdura a sua energia e a de toda gente. Porque comunidade não é só um espaço geográfico. Ela é um lugar em nós. Viva o seu Chico, viva o Campeche e viva esse irmão do norte, Todd, que soube vestir a nossa história com tamanha ternura. Aqui seguiremos sendo felizes!

Vejam tudo sobre o filme no endereço: http://www.desculpepelotranstorno.com/index_port.html


O filme pode ser lançado oficialmente no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), de 19 a 26 de junho. Ainda não sabemos. Mas, até lá, só o aperitivo.



TRAILER: Desculpe Pelo Transtorno. Versão Brasileira from Todd Southgate on Vimeo.