sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cerveja I

Cerveja é coisa boa, meio amarga, meio travosa. Refresca, tonteia, descansa. Em La Paz, a pedida é Huari, bem gelada.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A grande muralha da China

Um trabalho de milhares de pessoas, em condições terríveis, mas que hoje é considerado uma das maravilhas do mundo. Iniciada em 220 a.C a grande muralha foi construída em oito mil quilômetros de fronteira da China, para evitar as invasões "bárbaras". Curiosamente foi Kublai Khan, um "bárbaro" mongol, foi o primeiro que ultrapassou a barreira em 1279 tornando-se o primeiro imperador não-chinês a governar toda a China. 









Lei de Greve tramita no congresso



Tramita desde o ano passado, na Câmara de Deputados, o famigerado projeto de lei que regulamenta as greves de trabalhadores. Isso, por si só já seria uma grande bobagem pois só os trabalhadores, auto-organizados, são os que decidem sobre suas formas de luta. Não há qualquer cabimento em o Estado ou o Legislativo tentar regular aquilo que não é da sua competência. No mundo capitalista, a luta dos trabalhadores é sempre uma luta contra o capital e, a menos que se entre numa armadilha de conciliação de classe, uma lei para regular as greves fica fora de questão.

Mas, apesar disso, um deputado do Partido dos Trabalhadores, chamado Roberto Policarpo Fagundes, eleito pelo DF, entrou com um projeto de lei, em 2012, visando justamente regular as greves. No corpo do projeto ele chama de "democratização das relações de trabalho e tratamento de conflitos". Um projeto dessa natureza deveria ser imediatamente rechaçado pelas entidades sindicais, mas, segundo a justificativa que está no corpo da proposta "o projeto resulta de três anos de negociação com entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Serviço Público Federal (Condsef) e a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam), além de representantes do Ministério do Planejamento, durante o segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva". Ora, isso significa que entidades de trabalhadores, junto com o governo constituíram essa peça que é uma grave interferência na auto-organização dos trabalhadores uma vez que se faz em parceria com o patrão, no caso, o Estado.

Alguém pode dizer que o estado não é o capital, mas se pensar bem vai ver que sim, é. No estado capitalista, o estado é representação do capital e é com o capital que os trabalhadores disputam as verbas que vão prover a sua existência. Um exemplo claro disso pode ser visto nas negociações por salário. O governo nega recursos aos trabalhadores, mas nunca se nega a pagar os juros da dívida. Nesse embate, é a luta contra o capital.

Diz a lei, no seu artigo primeiro que o seu objetivo é regulamentar o tratamento dos conflitos entre os servidores público e o estado e definir diretrizes para a negociação. Afirma que a livre associação é garantida assim como o direito de greve, mas estabelece que a negociação entre trabalhadores e governo deverá se dar dentro dos parâmetros da negociação permanente. Ou seja, apenas busca regulamentar o que já existe. Desde o primeiro governo Lula que esse expediente é usado. E ele significa exatamente o que quer dizer: negociação permanente, que permanece, que não avança.

Pois no artigo 5, do primeiro capítulo, já aparece a primeira pérola: "o direito de greve do servidor público submeter-se-á a juízo de proporcionalidade e razoabilidade". Ora, o que é isso? razoabilidade? Quem define o que é razoável? O governo? E se o que for razoável para os trabalhadores  - como um arrocho salarial - não o for para o governo?

Depois, o segundo capítulo, vem uma série de questões que definem como será a vida dos trabalhadores: direito a livre associação, proteção enquanto estiver em mandato sindical,  direito de afastamento para mandato sindical ( o que hoje não ocorre), dispensa de ponto para os que participam das mesas de negociação, direito a divulgação do movimento grevista (sic) e direito a arrecadação de fundo de greve.

O capítulo terceiro trata das regras para a negociação. Estabelece que ela se dará pelas Mesas de Negociação Permanente, uma prática que já existe e que só beneficia o governo. na verdade, nessas mesas, não há negociação e sim a imposição daquilo que o governo quer. A prática tem sido a da "enrolação permanente", só terminando quando o governo chega onde quer.

O capítulo quarto regulamenta o direito de greve. Caracteriza o que é a greve, como suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, dos serviços. Define, no parágrafo 2 do artigo 18, que são assegurados aos grevista o emprego de meios pacíficos para persuadir os colegas a aderir a greve. No artigo 18 fica bem claro que o direito á greve deverá ser submetido a juízo de "proporcionalidade e razoabilidade", mas não explicita o que isso significa. Joga para uma possível autorregulamentação a ser feita pelas entidades sindicais, mas que deverá passar pelo crivo do Observatório das Relações de Trabalho no Serviço Público, uma nova entidade que será criada, com representação de 50% do governo e 50% das entidades sindicais. Ou seja, mais uma estrutura, mais cargos, mais cooptação.

Agora, em 2013, esse projeto já poderá ser votado e se constituirá numa ferramenta importante para a administração no sentido do controle total dos movimentos trabalhistas. Como conta com o aceite e o apoio das maiores centrais sindicais brasileiras a sua aprovação pode acontecer sem maiores conflitos.

Daí a importância da divulgação desse tipo de projeto para que os trabalhadores conheçam seu teor e não permitam que uma burocracia sindical, muitas vezes cooptada pelos longos braços do poder, decida por todos. Esse projeto deve ser conhecido e debatido, com todas as suas nuances desveladas, para que os trabalhadores decidam autonomamente sobre se é isso mesmo que querem. Se não é uma tremenda contradição regulamentar, na lei burguesa, como devem se organizar para travar a luta contra os interesses do capital. É obvio que quando há um conflito aberto com o capital, como é o caso de uma greve, sempre é necessário abrir um canal de negociação. Mas isso deveria ser feito caso a caso, conforme o andar do próprio movimento. Não tem cabimento haver uma lei que determine como devem ser feitas as negociações, como se todo conflito fosse igual.

A luta de classe é a base do sistema capitalista, o conflito é permanente porque a riqueza está sempre acumulada nas mãos da classe dominante. Não cabe aos que dominam dizer aos trabalhadores como lutar contra eles. essa é uma decisão autônoma daqueles que vendem sua força de trabalho. Aceitar essa lei é ficar atrelado aos desejos do estado. E, esse estado que aí está - não importa quem seja o governante - é o estado capitalista/dependente. Isso significa que estará sempre defendendo os interesses do capital. Logo, é um contrassenso aceitar um projeto dessa natureza.

Aos sindicatos cabe chamar discussões e debater profundamente. Não é possível que as Centrais estejam negociando sem que a maioria dos trabalhadores saiba o que, de fato, está em jogo.

Conheça a lei, na íntegra:

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Caos no Ticen em Florianópolis



Foto: internet

A vida do trabalhador é uma desgraceira. Não bastasse ser explorado pelos patrões dia, noite e até quando pensa descansar vendo televisão, ainda tem de pagar por todas as merdas que os que governam fazem. É o que acontece hoje na capital dos catarinenses. O fim de tarde foi de completo terror no terminal do centro. Por conta dos ataques que o crime organizado vem realizando desde há dias, os trabalhadores do transporte coletivo decidiram encerrar as atividades às oito horas da noite. Quem sai do trabalho as seis já vem para o terminal na maior correia. As filas que se formam são imensas e os empresários, com medo que queimem os ônibus novos, colocam só as carroças para rodar.

Seis e cinco e a confusão era geral no terminal. Ninguém mais sabia onde começavam e onde terminavam as filas. Rostos tensos, coração aos saltos. Poucas horas antes um ônibus tinha sido incendiado no Saco dos Limões, diziam os fiscais. E nada de horários especiais. Os ônibus estavam saindo nos horários normais como se tudo estivesse em ordem. 

A confusão cresceu quando por volta das seis e meia os próprios fiscais começaram a gritar, dizendo para as pessoas entrarem nos ônibus porque aquele poderia ser o ùltimo. “O sindicato vai fechar o terminal do Rio Tavares”, diziam, e as pessoas, apavoradas, com medo de ficar no centro, corriam para dentro do ônibus, se empurrando e se acotovelando. Os carros saiam com gente saltando pelo ladrão. 

Eu estava na fila esperando chegar na ponta, para ir sentada, e já tinham passado seis ônibus. Os caras sempre com a mesma conversa de que era o último. Eu  fique doida com aquele papo de que era o sindicato que estava fechando o terminal, porque já tinha gente na fila xingando os trabalhadores. Comecei a gritar com os fiscais, dizendo que aquilo que eles estavam fazendo era criminoso. Em vez de agilizar a coisa e acalmar a população, eles estava tocando o terror e ainda colocando a culpa no sindicato. Porra, a culpa é do governador do estado que parece que não estar nem aí para o que acontece. “Ah é.. então tu quer morrer queimada”, retrucou o fiscal, continuando com a algaravia de que era o último ônibus. Eu continuei gritando que se a gente estava vivendo aquele horror era por culpa do governo que promovia a violência nos presídios e agora deixava o povo a ver navios. Nada, olhares de ódio. 

Quando finalmente entrei no ônibus, alucinada com tudo aquilo, ainda tive de vir escutando aqueles comentários grotescos de exigência de mais violência contra a violência. De matar.  A chuva caindo, o ônibus lotado, as pessoas em confusão. Tudo porque o fiscal anunciara que o terminal do Rio Tavares fecharia às sete e meia.  

Como quem tem carro foi trabalhar com ele, o trânsito estava um caos, agravado pela chuva. Demoramos mais de uma hora para chegar ao Rio Tavares. Lá, a balbúrdia estava formada porque os ônibus, de fato, já tinham parado. Única saída era seguir “na bota”, andando. Para quem mora mais perto a coisa não é tão ruim, mas e o povo da Caiera, do Ribeirão, da Tapera¿ Absurdo total. A cidade de Florianópolis está há dias refém do crime organizado. A polícia está tonta. O governador diz que na quarta-feira vai chegar reforço federal. Reforço do quê¿ Ninguém sabe.

As pessoas, andando pela estrada afora, cabeças baixas, corpo curvado, levarão horas para chegar à casa. Molhadas, cansadas, humilhadas. Amanhã, levantarão cedo e irão para o trabalho. Santa desgraça, Batman... Por que será que a gente não se revolta contra quem realmente merece¿¿¿¿¿

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Vazamento de óleo tóxico em Florianópolis põe saúde da população em risco




O vazamento do óleo ascarel de uma estação desativada da Central Elétrica de Santa Catarina (Celesc), no bairro Tapera, em Florianópolis, está sendo considerado gravíssimo pela Federação das Entidades Ecológicas Catarinenses. Segundo o coordenador geral, Gert Shinke, as autoridades estão minimizando o problema e é fundamental que a comunidade se ocupe em exigir um monitoramento contínuo sobre toda a área afetada por pelo menos cinco anos. Gert afirma que os laudos apresentados pela Fundação do Meio Ambiente (Fatma), que apontam não haver contaminação pelo ascarel na baía, não podem ser considerados conclusivos. “Esse óleo leva certo tempo para se infiltrar e é quase certo que agora os laudos não apontarão nada. Os efeitos aparecem mais tarde, quando todo mundo já tiver esquecido o caso”.

O óleo ascarel pertence ao grupo de compostos orgânicos sintéticos conhecidos como PCBs. Eles não são biodegradáveis e tem efeito cumulativo nos tecidos vegetais e animais. Esse tipo de produto é usado em transformadores, desses usados pela Celesc, mas também podem ser usados em outros equipamentos. A preocupação da FEEC é justamente saber onde mais existe esse óleo e em que condições ele está acondicionado. No caso desses 12 mil litros que vazaram, é certo que estavam sem qualquer proteção e sem que se levasse em conta a periculosidade. “A sorte foi que o funcionário percebeu que havia algo errado e procurou os técnicos da universidade que trabalham ao lado do galpão da Celesc. Ainda assim, o produto vazou por mais de dois meses, e os efeitos disso podem ser muito perigosos para toda a cadeia de vida da região”.

Conforme o coordenador da FEEC a contaminação vai se dando muito lentamente e, depois, pode se alojar nos animais, nas plantas e consequentemente nas pessoas que comerem esses produtos. Também pode contaminar a água e todo o subsolo. “O problema é que esse produto é altamente tóxico e a ingestão de quantidades microscópicas já é um problema. Isso vai acumulando no organismo e pode gerar problemas por gerações”.    

Está circulando pela internet um alerta da médica Vera Bridi sobre a necessidade da imediata interdição não apenas do consumo dos moluscos e peixes das baías, mas também a proibição de banhos. Segundo ela, o produto é altamente perigoso para a saúde humana. Outro médico, J. Paulo Mello, lembra um acidente com esse mesmo produto, acontecido no Japão, em 1968. Segundo ele, pouco tempo depois a população passou a apresentar o depois denominado “Mal de Yusho”, que tem como sintoma bronquite, entorpecimento dos membros e edema. Tudo isso foi atribuído à ingestão das PCBs contidas no óleo. Outro caso semelhante aconteceu nos Estados Unidos quando o produto foi detectado no lençol freático de uma cidade. O óleo havia sido enterrado Há anos e estava num aterro químico.

Esses fatos mostram o quanto a população está ameaçada, senão nesse momento, mas a longo prazo. Daí ser considerada uma irresponsabilidade a liberação da maricultura e a minimização dos efeitos. “O óleo vazou por muito tempo, e o recolhimento que foi feito não garante de forma alguma que ele não tenha penetrado na terra, no mangue e se espalhado pela baía. Os órgãos ambientais têm de ser pressionados pela população a apresentar laudos sistemáticos. Isso não pode ficar no esquecimento”, diz Gert.

Os médicos do sul da ilha também estão em alerta e convocam a população a ficar atenta. Segundo eles, os sintomas observados nas pessoas que sofreram o Mal de Yusho são fadiga, dor de cabeça, dores com inchaço, inibição do crescimento da dentição, anemia, problema sanguíneos, redução da condução nervosa, erupções na pele, despigmentação, dor nos olhos e infecção persistente nas vias respiratórias, entre outros. “Além disso, existe o risco de alterações genéticas. A coisa não é brincadeira”.

Mas, apesar de todo esse alerta, o juiz federal Marcelo Krás Borges já liberou a produção e ostras, mariscos e berbigões na região, baseado no laudo da Fatma de que não havia contaminação. Gert Shinke alerta para a chamada “guerra dos laudos” que pode acontecer visando proteger determinados interesses. “Nós já vimos isso quando da tentativa de Eike Batista em fazer um estaleiro por aqui. Havia laudos para todos os gostos. Nós temos é de exigir dos órgãos ambientais que haja a medição contínua e sistemática da contaminação”.

O vazamento de um produto altamente tóxico e contaminante coloca em questão a completa vulnerabilidade da população diante de produtos dessa natureza. Como esse óleo foi parar num galpão, sem qualquer proteção? Que outros galpões haverão por aí com produtos desse tipo, sem que se saiba? Como um produto tão perigoso, usado em equipamentos que estão por aí aos milhares (como os transformadores) não têm um programa de proteção para descontaminação em caso de acidente. Pelos estudos levantados, nenhuma das técnicas de descontaminação em caso de grandes vazamentos existe no Brasil. Há uma, sendo trabalhada num laboratório de Curitiba, mas ainda em testes, conforme estudo realizado pelo Ministério do Meio Ambiente. Então, como as autoridades de Florianópolis vão proteger a população? Isso ainda é uma incógnita.

O certo é que as pessoas precisam agir e manter vigilância sobre as ações dos governantes. Outros laudos estão sendo feitos e precisam ser divulgados amplamente. É preciso que o governo estabeleça uma comunicação transparente, permitindo que a população acompanhe e se proteja. A FEEC promete manter-se alerta e acompanhando o caso. “Mas é fundamental que as pessoas estejam com a gente, cobrando. Sem um acompanhamento de longo prazo não podemos ficar”, finaliza Gert.   


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A cidade proibida




Minha mãe tinha mania de varar noites e noites vendo filmes na televisão. Gostava de assistir de madrugada, quando tudo silenciava. Então, ela se estendia no sofá e ficava até o amanhecer vendo os clássicos que passavam na TV. Naqueles dias, nos anos 70 e 80, era comum a Bandeirantes e a Globo passarem bons filmes de madrugada. Também era comum que eu acompanhasse, impávida e feliz, essas vigílias fílmicas. Foi assim que aprendia a amar Miguel Aceves Mejia, Cantinflas, Vicente Celestino, Vitor Mature, Errol Flynn, Fred Astaire, Chaplin, Grande Otelo e tantos outros...

Mas, havia um tipo de filme que, em particular, fazia a gente rir e se maravilhar. Eram os chineses, ambientados na época imperial. No geral eram de kung fu e sempre começavam com um crime que depois tinha de ser vingado. Aí era aquela profusão de saltos, golpes e paisagens incríveis. A China vista pela tela era um encantamento. As roupas, as casas, os cabelos, as lutas, as cores. Por longos anos ficou latente o desejo de, um dia, quem sabe, poder ver tudo aquilo com olhos reais.

Foi esse sentimento que me assaltou quando as retinas abarcaram a entrada da Cidade Proibida.  Ali estava, descortinado, o cenário daquelas noites, em casa, com a mãe. Para chegar ao portão é preciso antes atravessa a famosa Praça Tian’anmen, a maior do mundo, palco de inúmeras manifestações estudantis em 1989, hoje vistas como a fagulha inicial do processo de mudança que a China passou a viver na economia e na política. Ali, vigilante, está a foto gigantesca de Mao Tsé Tungo, o homem que liderou, nos anos 40, a revolução chinesa, sendo também o articular e criador da República Popular da China. Mao governou os chineses de 1949 até 1976, ano de sua morte.  De certa forma, a sociedade alavancada pela “grande marcha”, acabou por enterrar definitivamente os séculos e séculos de governo imperial.  É fato que a China passou a ser república em 1912, depois de um movimento revolucionário liderado por Sun Yat-sen, mas o imperador ainda permanecia com o direito de viver na cidade proibida, ostentando o título, coisa que também lhe foi permitida durante a ocupação japonesa na Manchúria. Esse mundo só desapareceu mesmo com a vitória do comunismo.  

Ainda assim, a glória das dinastias Ming e Qing segue gerando suspiros e divisas, afinal, o número de turistas que acorre todos os dias ao local é tão gigantesco quanto a própria China. No mês de janeiro, quando o inverno castiga o país e os estrangeiros são poucos, é quando os chineses viajam para conhecer o esplendor de um tempo que já se esboroou. A cidade proibida começou a ser construída no ano de 1406 para ser a sede do governo imperial e levou 15 anos para ser terminada, empregando mais de um milhão de trabalhadores na tarefa. É chamada assim porque de fato era proibida aos simples “mortais”. Apenas a família do imperador e os que para ele trabalhavam podiam entrar. E, caso alguém o fizesse, era preso e morto. O palácio, considerado um dos maiores do mundo, cobre 720 mil metros quadrados. Dizem os chineses que os edifícios somam 9.999 divisões, porque o número nove era considerado sagrado pelos imperadores. É uma verdadeira cidade com os espaços de trabalho, descanso e lazer do imperador, além das alas de moradia e de confinamento das mulheres.

Todos os palácios são feitos de madeira, trabalhados artesanalmente por mais de cem mil mestres da arte chinesa. Os imensos pilares e frontais se encaixam sem que nenhum prego tenha sido usado. Tudo ali é simbólico. O rio interior, a harmonia suprema, o poder, a fé nos deuses antigos, o temor aos animais mitológicos, o respeito ao que consideravam sagrado. Por toda a parte escapa o hálito quente de um mundo que foi capaz de tornar a China uma referência para o mundo inteiro nos tempos mais remotos da humanidade. Que o diga Marco Polo, o navegador europeu que andou pela China e relatou as maravilhas que atiçaram a cobiça dos conquistadores. Os mais velhos, olham com silenciosa curiosidade aquele universo outrora proibido, mas a nova geração que assoma na China remodelada e aberta ao ocidente, nada mais quer do lugar a não ser a foto tirada como um souvenir de um tempo que já não diz nada. É só a cópia fetichizada de uma das maravilhas do mundo que, por acaso, está ali, bem ao alcance do celular.

Poucos há que se deixam ficar nos pátios a imaginar o esplendor da época imperial, ou que miram com suspiros os móveis e paredes talhados a ouro, capazes de custar a vida de tantos e tantos chineses. Poucos também são os que prestam atenção ao palavreado decorado dos guias que, apesar da ritualística, acabam por trazer informações importantes para se pensar as relações de poder que se estabeleciam naqueles tempos idos. A arrogância suprema dos imperadores, a completa ignorância da vida fora das muralhas, a exploração dos trabalhadores, o sofrimentos das mulheres, o exagero, a ostentação, o sacrífico de milhares de almas.

Na fala de muitos jovens também se pode notar a alegoria de uma crítica ao sistema comunista que, de 1945 até a morte de Mao, também usou de muitos desses elementos vistos no mundo imperial. “A vida na China não mudou muito com o comunismo”, dizem, e oferecem créditos ao que está vindo com a abertura econômica e o crescimento vertiginoso que eles não identificam como capitalismo, mas chamam curiosamente de “comunismo especialista”. “Hoje, por exemplo, as mulheres podem ter um emprego e cuidar da vida. Não precisamos mais casar. Também, com o nosso trabalho, podemos viajar e comprar coisas jamais imaginadas. Hoje podemos usar cores. Veja que na época imperial nos era proibido o amarelo, e no comunismo só podíamos usar o cinza. Agora, estamos livres para nos colorir”. De certa forma, essa gurizada tem razão, mas ainda é um discurso que só pode valer para poucos. É que a China tem tanta gente que a impressão que se tem é de que todos podem fruir das benesses do propalado crescimento.

Mas, se a gente prestar bem atenção e olhar para além dos espaços de comércio, pode-se ver o trabalhador excluído da promessa do “mundo livre”. Os que varrem o chão com as enormes vassouras de galhos, os que se esgueiram por detrás dos portais encarquilhados das ruas laterais, os que limpam os hotéis de olhos baixos e postura servil, os que recolhem o lixo nas madrugadas geladas, os camponeses perdidos de sua terra, os que não compram suas roupas em xópins, os que usam as velhas sapatilhas comunistas, os que não conseguem mais ter sua casa própria. Num país de um bilhão e trezentos mil habitantes o abismo entre pobres e ricos também começa a crescer, vertiginosa e inexoravelmente. Para quem olha de fora, é bem fácil perceber as tantas “cidades proibidas” que florescem por todo o país. É certo que ninguém mais está obrigado ao uso do mesmo uniforme gris, mas são milhões os que jamais poderão adentrar ao mundo de “cores” sonhado pela jovem trabalhadora que encontramos na Praça Taiananmen. Na velocidade da roda do consumo inaugurada com a “explosão” da economia, ninguém parece se importar com o fato de que se alguém está crescendo feito um bolo fermentado, é porque outro está fenecendo.

Para os chineses, sobretudo os jovens, já não há cidades proibidas e todas as muralhas estão no chão. Mas, sozinha no grande pátio do palácio dourado, num janeiro de oito graus abaixo de zero, penso que muralhas há que são invisíveis, mas igualmente poderosas. No aparentemente feliz mundo do capital, tudo parece permitido, até que se desmanche no ar na hora do embate com a realidade.








Os trabalhadores da velha Xian




Ali estava eu, em Xian, antiga capital da China imperial, centro da vida política e cultural do país por 14 dinastias, de uma nação que tem mais de sete mil anos de história contínua. Viera ver os famosos guerreiros de terracota, estátuas de argila, em tamanho natural, que desde sua descoberta em 1974, assombram o mundo com sua beleza. Hoje, tombados pela Unesco, os guerreiros formam uma das oitavas maravilhas do mundo. A visão é, deveras, espantosa.

A sensação que as figuras nos causam é de completo estupor. São milhares e nenhuma delas se repete. Cada rosto é uma pessoa única, imortalizada. Nas carinhas, ora sérias, ora sorridentes, podem-se notar os detalhes mais impressionantes, como o tipo de roupa, as rugas ou a barriga saliente, “típica dos funcionários mais graduados”, como diz uma chinesinha, encantada com a própria história.

Os guerreiros de terracota são apenas uma das extravagâncias do imperador Quin Shi Huangdi. Dizem que ele tinha apenas 14 anos quando mandou que se começasse a construir a tumba onde seria enterrado. Os chineses antigos tinham por tradição colocar no túmulo, tal qual o povo egípcio, tudo o que se pudesse precisar na outra vida: móveis, mulheres, escravos, ouro, soldados. Para isso, ao longo de 40 anos milhares de trabalhadores foram recrutados para a obra. Hoje, sabe-se que o túmulo mesmo do imperador está em uma espécie de pirâmide, rodeado por rios de mercúrio, o qual ninguém ainda teve coragem de acessar por conta de lendas de terríveis armadilhas.

Mas, uma parte dessa magnífica tumba veio à luz em 1974 quando um camponês furava o solo para fazer um poço. Logo estava descoberta a cova dos guerreiros de terracota. Milhares deles, bastante destruídos por inimigos passados e pelo tempo. Então, armados da milenar paciência chinesa, os arqueólogos foram montando o incrível quebra cabeça, recuperando as figuras. Hoje, pelo menos oito mil soldados já estão em pé, visíveis à visitação num imenso complexo museológico.

Diante dessa monumental obra humana a emoção é intraduzível. Os guerreiros são únicos. Provavelmente cada uma das caras representa a eles mesmos, os artistas que as fizeram, que se basearam uns nos outros para fazerem as esculturas. Assim que são pessoas reais nos mirando desde há mais de dois mil anos. O incrível disso tudo é que os trabalhadores que criaram a beleza dos guerreiros de terracota, e muito mais do que ainda não se encontrou, foram cruelmente assassinados ao fim da obra. O imperador temia que eles revelassem, mais tarde, o lugar da tumba. Por isso, nos arredores do local onde estavam os bonecos, também jaziam milhares de esqueletos reais, retorcidos em cova rasa. Possivelmente mortos de surpresa. Contam mais de 700 mil homens os que trabalharam na tumba. Um crime sem igual.

Por isso a visita aos guerreiros de argila é tão poderosa e impactante. Na entrada do museu assoma uma estátua gigante do imperador, mas não é ele o que merece as atenções. Foi um tirano megalomaníaco. O nos marca, indelével, é cada um daqueles rostos de olhos fixos à frente, como mirando o futuro. Mortos de maneira vil, ali estão, impressionantemente vivos, a apontar o crime, fixados na própria beleza. Cada um com sua singularidade: cocheiros, soldados, generais, gente comum. E, por mais que se possa querer honrar ao rei que unificou toda a China, os homens de terra encontrados em Xian são os que provocam a emoção visceral. Fica fácil perceber que são os trabalhadores, sempre, os que criam a beleza que nem a morte apaga. Sem sequer perceber, aqueles homens deixaram ali sua marca mais pessoal: o próprio rosto. Imagino a pureza de cada um imortalizando a cara do outro, anos a fio, sem esperar pelo absurdo fim. Dolorosamente são eles que voejam pelo imenso parque, na fria manhã de inverno chinês, como que a procurar por si mesmos na argila imortal.

A tumba dos guerreiros de terracota é um desses momentos de epifania. Uma das coisas mais lindas e tristes que já vi.