quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Impressões de Beijin



Beijin, capital da China, é uma cidade, a primeira vista, difícil de ser amada. Com mais de 20 milhões de habitantes, nela, tudo parece grandioso demais. As ruas são largas, os prédios imensos e para onde quer que se olhe, lá estão, como monstros a nos oprimir. Alguns deles são famosos como o Word Center, com 330 metros de altura, o maior centro de comércio internacional do mundo ou o da Torre Nova da Televisão Central Chinesa, que é um gigante de cimento, com um desenho estranhíssimo, tendo no seu meio uma espécie de porta. Todo esse esplendor está em consonância com a nova fase do país, que cresce como se tivera engolido fermento. Em 2010 o PIB cresceu 10,4% e, em 2011, embora tenha caído, ainda ficou entre as maiores taxas do mundo, 9,4%. Há um desaquecimento agora em 2013 por conta da crise europeia, mas, ainda assim, há quem diga que as coisas voltam a crescer ainda esse ano. O PIB do ano passado ficou em 8,28 trilhões de dólares. É a segunda economia do mundo, perdendo apenas para a dos Estados Unidos e representa 15% de toda a economia mundial.

Pelas ruas da imensa capital só o que se vê é trabalho. Há uma espécie de frisson em produzir e ganhar dinheiro. Entre a população mais jovem, as prioridades são os aparelhos eletrônicos de última geração e as mercadorias de marcas famosas. “Ninguém quer saber de produtos chineses, não têm qualidade nem diversidade”, diz uma trabalhadora do comércio, cuja aspiração mais imediata é viajar aos Estados Unidos para poder comprar coisas mais “modernas”. Para os jovens, as mudanças introduzidas pelo governo, que nada mais são do que as opções do capitalismo, estão fazendo muito bem. “Antes as mulheres não tinham trabalho, agora têm, podem ser independentes. Nem precisam se casar”. No geral, um salário mínimo, dos mais baixos, está em 2.000 iuans, em torno de 500 dólares, mas há quem ganhe muito mais se trabalhar nas empresas estrangeiras, tiver dois empregos ou for funcionário do governo.

O “governo” é um caso a parte. É visto como um ente, uma coisa concreta, poderosa e misteriosa. Ninguém que não seja funcionário pode entrar em qualquer prédio público, tudo é cheio de segredos e há muito ressentimento com o “comunismo”. Um garoto contando sobre o fato de que não é possível acessar o facebook, abre os braços e diz, desolado: é o comunismo. A grande rede que hoje é um vício mundial está bloqueada na China. Em compensação, a maioria das famílias não sabe o que é um aluguel. “Os que são daqui de Beijin têm moradia própria, só esse pessoal que está vindo de fora agora é que precisa alugar apartamento”. Segundo Jang, como os alugueis acabam sendo muito caros, é comum os jovens se juntarem entre dois ou três para conseguir viver mais perto dos centros de comércio, onde chegam a trabalhar mais de 10 horas por dia. “Se não for assim, há que ficar na periferia”. Na verdade, toda essa problemática que compõe a vida no mundo capitalista agora está muito presente na China. “O bom é que a gente agora pode ter roupas coloridas, variadas, e não mais aquele cinza, sempre igual”.

A virada da China para o inchaço das grandes cidades no ritmo alucinado da produção tem pouco mais de vinte anos e é a única realidade conhecida pela juventude local, mas a memória de pais e avós, muitas delas nada agradáveis no que diz respeito ao sistema, fazem com que o governo seja visto como ameaça. Há sempre um jeito de pronunciar, um sorriso, um manear de cabeça que denota certo desconforto. Mas, se “o governo” não atrapalhar a caminhada para o consumo das coisas boas, das grandes marcas, da tecnologia, já está muito bem.

Por outro lado, as implicações do crescimento tem sido problemáticas. Uma delas é a poluição, que chega a níveis assustadores. Em dias de inverno é tão intensa que parece que é noite mesmo estando o sol a pino. É tanta fumaça que toda a claridade se esvai. Beijin tem milhares de chaminés soltando fumaça por conta da calefação que ainda é feita com carvão mineral. Somam-se a isso mais cinco milhões de carros com seus escapamentos. O resultado é uma espécie de fog que não tem fim. As pessoas usam máscaras, mas isso não é suficiente. Em poucas horas na rua, o peito queima como se fosse explodir. “A gente não protesta porque não tem o que fazer. As pessoas precisam se aquecer no inverno e tem que ter calefação”, diz  a jovem funcionária do café. Em algumas zonas da grande Beijin, a temperatura pode chegar a 23 graus negativos em janeiro e apesar de a maioria ter ar condicionado, ainda há quem só tenha papéis e carvão para queimar.

Mas, se por um milagre qualquer, um vento forte empurra a poluição para longe, a cidade se abre num intenso e vivo colorido. Os restaurantes se enchem de gente e os mais velhos lotam os parques para dançar e praticar o tai chi, duas febres nacionais. Os chineses são amorosos e sorridentes e quando se juntam é como se fosse uma grande festa. “Em Beijin não temos o costume de sair à noite. A gente chega do trabalho, faz a comida, a família come sempre junto, e depois vamos todos até o jardim para a prática dos exercícios. Feito isso, vamos dormir. É raro um bar aberto depois das nove da noite, a não ser nos grande hotéis”, conta Jang. Os mais velhos, que já estão aposentados, não sabem o que é depressão, porque estão sempre buscando se divertir em comunhão e isso inclui muito movimento e muito riso. “Faz bem para o corpo e para a mente”. Nos bairros mais pobres, mais na periferia da cidade, pode-se ver muita pobreza, mas são raros os mendigos e não há vestígios de crianças de rua.

A zona rural destoa totalmente da azáfama da cidade grande. Ali, as casas são baixas, ao estilo tradicional, como se fossem pequenas fortalezas. São construções pobres e cinzentas. “A cor sempre foi um tabu na China. Na época imperial, só os imperadores podiam usar o vermelho e o amarelo. Depois, no comunismo, foi a vez do cinza. Agora é que a gente está podendo variar”. Ainda assim, cinza é considerado uma cor elegante e é por isso que a maioria opta por ela nas suas moradias. Nos arredores de Beijin pode-se ver muitas dessas localidades que são chamadas apenas de “campo” e também nelas dá de perceber muito resentimento com relação ao “governo” porque a maioria de alguma forma foi afetada pelo crescimento. Muitos camponeses foram removidos por conta da abertura de grandes rodovias e não se conformam com isso. Mas, essas são impressões passadas por pessoas da cidade. Eles mesmos não dizem palavra.

Mas, apesar de toda essa onda de modernidade, Beijin também vive bastante do passado. Uma das grandes fontes de divisas são as belezas deixadas pela época imperial. Só a Cidade Proibida, conjunto de palácios que foi o centro do poder por cinco séculos (1416 a 1911), é visitada por mais de 80 mil turistas ao mês. Em janeiro, quando é o tempo é muito frio, os estrangeiros são poucos, mas há vagas e mais vagas de chineses de todas as partes que vêm à capital para conhecer essa parte de sua história. Bem em frente ao complexo fica a famosa Praça Tiananmen , ou Praça da Paz Celestial, a maior do mundo, onde em 1989 um jovem sozinho parou um tanque durante uma revolta estudantil. Curiosamente, todas as menções sobre esse fato em particular não aparecem em quaisquer páginas de internet acessadas na China e o fato foi apagado da história. Mesmo assim, as pessoas tiram fotos da Praça, rememorando aquele acontecimento tão emblemático que ainda vive na memória popular.

Da mesma forma a Grande Muralha, que pode ser acessada a menos de duas horas do centro da cidade, é outro foco de turismo intenso. A assombrosa construção que levou mais de 600 anos para ficar pronta, cobre mais de oito mil quilômetros de fronteira. Algumas partes foram restauradas exclusivamente para o turismo e não há dúvidas de que são magníficos monumentos do trabalho humano. A muralha começou a ser feita 200 anos antes de Cristo durante a dinastia Zhou, com a finalidade de impedir o avanço das tribos nômades. Ela atravessa montanhas, cidades e todo o deserto de Gobi e é, sem dúvida, uma das maravilhas do mundo. Contam que boa parte dos trabalhadores morreu durante a empreitada por conta das péssimas condições de trabalho. Ao longo da muralha há várias fortificações onde ficavam os soldados. Eles se comunicavam por sinais de fumaça e bandeiras coloridas. A subida é um ritual importante para os chineses e logo na entrada se pode ver um escrito do grande timoneiro Mao Tsé Tung: “Quem nunca subiu a muralha não pode ser considerado um homem”.

Mas, para aqueles que amam as cidades pelo que elas têm de invisíveis aos olhos comuns, Beijin se mostra verdadeiramente esplendorosa na sua face mais popular. E, aí, nada pode ser mais bonito do que o fascinante mercado Pan Jia Yuan, um gigantesco espaço da genuína arte tradicional e popular chinesa, misturado a um animado e diversificado brique, no qual se vendem desde bonecas quebradas até as mais finas joias.

O pavilhão, é claro, fica fora dos circuitos turísticos. Há que se arriscar andar pela cidade procurando a vida mesma, aquela que se expressa no cotidiano. E, assim, numa surpreendente e inesperada visão, aparece a Pan Jia Yuan. Adentrar aos seus portões é mergulhar na China mais verdadeira. Na praça estão os vendedores avulsos, cada um com seu banquinho e  antiguidades de todos os tipos. Tranquilos e sorridentes eles nos convidam para sentar e apreciar as coisas, com calma. Não importa que a língua verbal não seja compreendida, o corpo fala e as partes se entendem. Impossível descrever a beleza que explode ali. O mercado, na sua concepção mais antiga. O olho no olho, a conversa, o regateio, tudo na paz.

Depois, nas lojinhas que circundam o grande pavilhão aparecem as pedras de jade em todas as suas conformações e os artistas se apresentam, no trabalho, sorridentes ao olhar do desconhecido. Em outras dezenas de boxes estão os pintores da arte tradicional, em nanquim. Verdadeiras obras de arte que em nada devem as que ficam no chique Espaço 798, antiga fábrica de componentes elétricos desenhada pelos alemães em 1950, que virou área da expressão da arte moderna da China. Só que ali, na Pan Jia Yuan, o desenho é a paisagem, as amendoeiras, o impressionismo. Pode-se ficar por horas nos corredores vendo as obras se fazerem na sua frente, metódica e tranquilamente, por experientes pintores. Também é de tirar o fôlego acompanhar a confecção das famosas sombras chinesas. Incrível e delicado trabalho que testemunha a capacidade humana de produzir indizíveis belezas.

Depois de circular por cada cantinho da imensa praça, é bom ficar ao sol, olhando as pessoas, sob centenas de bandeirinhas coloridas. Não há a sofreguidão dos grandes mercados nem a frieza dos xopins. Não há turistas e praticamente não há ocidentais. Só o farfalhar dos casacos e a risada cristalina das mocinhas. É quase como um oásis no meio de Beijin. E, para coroar a sensação de que se está no paraíso, no meio da praça há uma árvore florida. Em pleno janeiro, no frio intenso, quando não há sequer folhas nas árvores, aquela árvore, no centro de Pan Jia Yuan explode em rosa claro. Seu caule está protegido porque “as árvores se assustam com o frio”, conforme explicou uma senhora. E ela, a árvore, agradece àquele povo simples e criativo, assim, se abrindo em beleza.

Então, de todas as maravilhas que vi em Beijin, na parte antiga e na nova, certamente o que nunca me sairá das retinas é aquela amendoeira, em flor, como que a desafiar o tempo. Ela mesma um milagre, tão maior do que o desenvolvimento que pretende levar a China ao paraíso. Aquele que consegue ver, não tem dúvidas. O paraíso já está ali.






A prefeitura no bairro


Eu não morava ali, mas já amava o Campeche. E nem era pela praia ou a natureza exuberante. É que já sabia que ali, naquele bairro, vivia uma gente guerreira que não media esforços quando a questão era lutar pela vida do bairro. Circulavam histórias incríveis das batalhas na Câmara de Vereadores, de um grupo renitente, que insistia em defender um plano diretor. Ou seja, a proposta de um lugar planejado a longo prazo, que mantivesse a qualidade da vida da comunidade, com edificações baixas, jardins, ruas tranquilas, pomares, água na torneira e luz permanente. Que garantisse um parque onde as pessoas pudessem se encontrar e encontrasse os caminhos para uma boa mobilidade. Que protegesse as dunas, a mata, a praia, sem fechar os olhos para o sistemático aumento da população do bairro. Que a vida pudesse se desenvolver sem que isso tivesse de significar o “inferno do progresso”, que nos mais das vezes só traz destruição.

Mais tarde, vim morar no Campeche e pude acompanhar sistematicamente o trabalho desse povo que decidiu abrir mão de tantas coisas na vida para estudar as leis que regem o Estatuto da Cidade, para conhecer a realidade do bairro e a partir de encontros, reuniões, debates, seminários, oficinas, conferências, dar corpo e alma a um projeto de plano de diretor para o lugar. E esse não é um trabalho de agora. Ele existe há mais de 20 anos. Foram anos e anos de conversas, de chamadas, de visitas, de buscas, de discussões sistemáticas, trabalho de titãs. É certo que não é trabalho de heróis. Cada uma dessas pessoas escolheu fazer isso e o fez, com amor, com garra, com ódio, com paixão, com alegria. Não foram poucos os que foram perseguidos. Basta lembrar o que aconteceu com o seu Chico, cujo histórico bar foi derrubado por conta das batalhas políticas de seu filho Lázaro.

O poder público sempre confrontou a luta do Campeche porque tudo o que a comunidade queria ia contra as propostas mirabolantes que os governantes tinham para o bairro e para a cidade. Porque o grupo do Campeche nunca pensou apenas o seu umbigo. Sempre foi um olhar sobre a cidade inteira. E foi essa gente que se levantou quando Angela Amin quis fazer da planície um monstrengo de cimento, com 450 mil habitantes. De onde viria a água¿ Como seria a mobilidade¿ Quantos andares teriam os prédios¿ Enfim, toda a problemática de um adensamento forçado foi colocada e muita luta se fez. O projeto não vingou.

Depois, no governo de Dário Berguer houve o Plano Diretor Participativo e lá estava todo mundo outra vez, em cena, pronto para discutir, pensar, estudar, organizar, propor. Todo o bairro foi chamado, pela rádio, pelo jornal, pelo vizinho no boca-a-boca. Mas é como sempre foi. A maioria das gentes não está disposta a se comprometer, entrega a luta para uns poucos e espera. Se tudo der certo, muito que bem. Se algo falhar já tem em quem colocar a culpa. É bem mais fácil ficar observando de longe. E assim, por mais de cinco anos, um grupo de pessoas se reunia, participava das oficinas, dos debates e foi fortalecendo o velho projeto, ajustando, arrumando, sempre dentro dos desejos coletivos arrebanhados nas centenas de milhares de reuniões. Mas, o plano não andou. Dário preferiu ignorar o debate que toda a cidade havia feito e chamou uma empresa argentina para esboçar o projeto da cidade. Por força da luta do povo unido teve de recuar. O plano ficou na gaveta.

Agora, vem o novo prefeito, quase um menino ainda, prometendo levar a sério a voz da cidade. Alguns acreditaram. Outros não. Calejados com as promessas da oligarquia a qual ele representa, colocaram as barbas no molho e esperaram. Até que, poucos dias depois de assumir o prefeito apresentou o projeto “Prefeitura no Bairro”. Disse que ia ouvir as gentes, saber dos problemas. Alguns acreditaram. Outros não. Passou por Canasvieiras, pelo Monte Cristo e depois pelo Campeche. Mas, o jovem prefeito agiu como um velho coronel. Em vez de realizar um encontro político, de discussão e debate, preferiu a batida fórmula do beijão-mão, como bem definiu o morador do bairro, Ricardo Freitas. Montou uma mesa com os secretários e recebeu um por um os moradores. Criado na lógica das velhas raposas ele sabe que uma pessoa sozinha diante do governante faz seu pedido pessoal. Muitos chegam a ficar ofuscados com o fato de estarem frente a frente com a autoridade, perdem o prumo, acabam por elogiar e jogar conversa fora. Há muito pouco espaço, quase nada, para os projetos coletivos, assim como fica completamente barrada a reflexão, uma vez que ninguém sabe o que o outro reivindicou. É um pé de orelha entre o morador e o prefeito. Tampouco se sabe o que disse o prefeito. Assim, o evento público passa a ser uma coisa privada, quase uma troca de favores. Então, uma longa luta coletiva – como, por exemplo, a de um calçamento de rua - se acaba se concretizando, aparece como o atendimento de um pedido pessoal. É o mesmo velho cinismo das elites se expressando.

Para quem discute o bairro desde há décadas, não há novidades no front. As práticas dos governantes se travestem, mas a realidade não. Eles sempre buscam dividir uma comunidade que esteja forte na luta. Jogam uns moradores contra os outros, tentam desqualificar quem luta, buscam fortalecer as relações pessoais, de favores, de compadrio. Ainda assim, o grupo que forma o Núcleo Distrital do Campeche mandou representante. Foi lá na mesinha falar com o prefeito. Mas não levou reivindicações pessoais. Apresentou o Plano Diretor construído coletivamente nas noites, nos fins de semana, nas longas reuniões. Não levou um pedido, levou uma exigência de quem sabe que um prefeito ali está para mandar obedecendo. Afinal, a morada do poder é a comunidade organizada, aquela que se compromete, que debate, que discute e propõe.

Ao final, desfeito o teatro, sobra o quê¿ Uma lixeira consertada, uma rua recapeada, uma boca de lobo aberta. Isso é bom, não há dúvidas, mas a cidade precisa de um projeto global. O esgoto não pode parar no mar, os prédios não podem continuar brotando do chão sem que haja estrutura para uma vida digna de ser vivida. Há que encontrar respostas para os bairros que dialoguem com a cidade toda. Há que aprovar um Plano Diretor que expresse o desejo das gentes que discutiram e pensaram a cidade. Esse é campo da luta coletiva. E é aí que as pessoas querem ver os governantes se movendo.

Já vai muito longe o tempo do beija-mão. A vida mudou. Mas, em Florianópolis, quando a velha oligarquia (que quase sempre dominou) governa junta com o mesmo grupo que praticamente destruiu a cidade nos últimos anos, sobram poucas esperanças de que a forma de governar tenha mudado. Então, só resta a luta. A mesma renitente luta de todos os dias daqueles que vivem a enfrentar os “vilões do amor”.

Como bem lembrou a representante do Campeche no Núcleo Gestor Municipal do Plano Diretor, Janice Tirelli: ”Somos como essas folhas no nosso quintal. Um dia elas vão, outro dia elas voltam... A gente vai, mas a gente volta”.. E é assim... para desespero de uns e alegria de outros, a gente sempre volta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A cidade das bicicletas









Amsterdam é o sonho de qualquer pessoa que ame a bicicleta. As ciclovias estão por toda a parte, e onde elas não existem as bicicletas encontram espaço nas calçadas. Quem está andando se afasta para que elas passem, soberanas. Mas, são poucos os pedestres. Ao que parece todo mundo tem uma magrela e as ruas são tranquilas, sem muito carro e sem poluição. Mesmo com um frio de seis graus abaixo de zero, a maioria das pessoas se locomove de bicicleta, talvez por isso todos sejam delgados, atléticos e longevos. Mesmo pessoas já bem velhinhas podem ser vistas pedalando em magrelas super estilosas. 

A cidade vem sendo planejada para que as pessoas possam viver (eu disse viver) nela desde 1200. As pessoas, não os carros. Vai daí que é assim!

sábado, 12 de janeiro de 2013

O mensalão e a política- reflexões desde a esquerda




A lembrança é vívida. Quando aconteceu a Reforma da Previdência, em 2003, nos primeiros meses do governo Lula, eu dirigia o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc). E, naqueles dias, fomos implacáveis na crítica. Era a primeira grande ação do chamado “governo popular”, e era um golpe mortal na aposentadoria dos trabalhadores públicos, além de introduzir o malfadado fundo de pensão, uma espécie de “roleta russa” com a velhice das gentes . Em Florianópolis, o Sintufsc foi linha de frente na discussão e na luta contra a tal reforma. Fazíamos debates, reuniões, atos públicos, passeatas, tudo em parceria com outros sindicatos de trabalhadores públicos, alguns ainda tímidos, sem querer bater no governo que iniciava sua trajetória.

Como parte da estratégia de luta, fazíamos o cerco aos deputados federais do PT que eram da bancada catarinense. Foi um momento triste e tenso, porque eram nossos companheiros de muitas lutas, alguns, amigos. Daqueles atos assomaram muitas dores. Amizades perdidas, mágoas, tristezas, desilusões. Mas, o que estava em questão não eram as dores pessoais e sim o destino de quase 200 mil trabalhadores. Assim, não havia como não criticar a reforma e lutar contra ela. Os velhos companheiros, naquele então deputados federais, se recusavam ao debate e nos apontavam o dedo com o argumento de que estávamos tentando desestabilizar o governo, que fazíamos o “jogo da direita” ao criticar Lula. Não foi fácil enfrentar e seguir denunciando aqueles que até pouco tempo eram nossos aliados nas lutas.

Pois no processo de votação da reforma já tinha surgido a acusação de que o governo estava “comprando” votos para formar a maioria e passar a reforma. E tudo isso era denunciado, a despeito das caras amarradas dos que confiavam no governo como um governo de trabalhadores. Para nós, que estávamos à frente do sindicato, nosso papel era claro: defender os trabalhadores, ainda que para isso tivéssemos que enfrentar velhos amigos e mostrar que o “rei estava nu”. Era a prática real daquilo que sempre tivemos como princípio: independência de qualquer governo.

Nunca tive problema em ser “governista”, afinal, se um governo que ajudamos a eleger está no caminho certo, há que se apoiar e defender. Mas, no caso em questão não era o que acontecia. A Reforma da Previdência proposta por Lula era ruim e só traria prejuízos aos trabalhadores. Não havia qualquer avanço naquela proposta, pelo contrário: era uma exigência do ideário neoliberal. Ou seja, a reforma colocava a aposentadoria dos trabalhadores lá em baixo e ainda obrigava àqueles que ganhavam um salário melhor a entrarem no fundo de pensão. Ou isso, o rebaixamento dos salários em 40, 50 e até 70%. Assim, os trabalhadores públicos que futuramente se aposentassem deveriam colocar sua vida nas mãos da especulação financeira.

Aqueles dias de luta foram duros e intensos. Como a Central Única dos Trabalhadores apoiava a reforma, os sindicatos de trabalhadores públicos ficaram sozinhos. Foi assim que nasceu a Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas. Havia que se constituir uma organização nacional que articulasse a luta das mais diversas categorias. Começava, por parte do governo, um longo processo de cooptação de lideranças, desmantelamento dos movimentos, dos sindicatos e da mais importante central de trabalhadores, a CUT. Os trabalhadores públicos ficaram isolados, acusados de atrapalhar o processo de mudança que o governo de Lula queria impulsionar.

O tempo passou, a reforma foi aprovada, o fundo de pensão foi criado e tudo aquilo que os sindicatos de trabalhadores públicos haviam anunciado se fez. A história nos faz justiça. Ninguém queria desestabilizar governo, muito menos atuar na linha da crítica praticada pela velha direita. O que queríamos era mostrar que aquela reforma, assim como as outras que vieram depois, não era boa para os trabalhadores e, por isso, tínhamos de apontar seus defeitos e criticar suas proposições. Havia, como ainda hoje há, muitos sindicalistas que se sentiam constrangidos em fazer a crítica, em se colocar contra, pois não queriam ser colocados no mesmo balaio que velhos inimigos. Mas, outros sabiam que não havia jeito: ou se defendia os trabalhadores ou prestariam contas à história.

O mensalão

É essa história que se descortina sob nossos olhos nos dias em que o Supremo Tribunal Federal começou o julgamento dos envolvidos no chamado mensalão, que surge da reforma da previdência. O dinheiro das sobras de campanha do PT que foram parar nas contas de aliados e outros nem tanto, servira para “sensibilizar” os deputados na votação da dita (ou mal-dita) reforma da previdência. Isso já fora denunciado e era sabido que essa era uma prática corrente no Congresso Nacional durante os governos anteriores. O que não se esperava era que o PT também a colocasse na ordem do dia, afinal, essa prática é o que conhecemos como corrupção. E aí, nesse universo, todos são corruptos. Os que distribuíram o dinheiro e os que o aceitaram, afinal, um deputado é eleito – como representante do povo – para atuar em consequência com os interesses da população. Não deveriam ter de receber um “incentivo” a mais para fazer sua obrigação já tão suntuosamente remunerada. Mas, é assim que é.

A história do mensalão é toda recheada de absurdos, como se fora um desses alucinantes folhetins da tarde nos canais de TV. O detonador da denúncia foi nada mais, nada menos do que um dos corruptos: o deputado Roberto Jeferson que, não satisfeito com seu quinhão, decidiu melar a vida de todo mundo. Para a elite brasileira – que nunca realmente engoliu Lula, apesar de o mesmo ter atuado, no mais das vezes, em consonância com seus desejos - aquilo foi a cereja do bolo. Era o seu momento de colocar no chão aquele que se alçava como o mais popular dos presidentes brasileiros contemporâneos. Ainda que sem mexer com absolutamente nada da estrutura de poder da classe dominante, Lula sempre foi uma pedra no sapato, por atuar, inclusive, na lógica do assistencialismo visando permanecer - ou o seu grupo – no comando da política brasileira. Aquilo aparecia como inaceitável aos poderosos. O escândalo do mensalão foi o orgasmo tardio da elite brasileira. Agora, o PT já não poderia mais se colocar como a vestal da moral e da ética. Estava conspurcado, colocava-se no mesmo saco da farinha política nacional.

Por conta disso, a cruzada moral conduzida pelo STF no caso mensalão não poderia ter sido diferente. Haveria que se condenar um a um dos envolvidos, com absoluto destaque aos petistas. Qualquer pessoa que viva na política sabia que assim seria. Todos haveriam de ser condenados por formação de quadrilha, por terem movimentado milhões de reais na compra de consciências. Não estaria em questão o fato de que isso sempre fora assim, que outros governos também tivessem usado do mesmo expediente, ano após ano no Brasil. Também não estariam em foco outros escândalos de corrupção graúda, como por exemplo as privatizações de FHC, que expropriaram a nação brasileira em milhares de milhões. Ou ainda a agiotagem oficial praticada cotidianamente pelo sistema financeiro junto aos cidadãos e cidadãs comuns, os mesmos que se esganiçam gritando: “crucifiquem, crucifiquem” aos réus petistas.  O grupo de poder que sempre dominou o país tinha nas mãos a chance de derrotar, não o PT, ou os inimigos pessoais, ou o próprio presidente Lula. Com isso, essa gente poderia derrotar uma linda ideia que foi cultivada durante anos e anos no processo conhecido como abertura democrática: a ética da esquerda nacional. Era uma oportunidade de ouro e não seria desperdiçada.

Nesse importante processo de descrédito da “esquerda” (onde colocavam o PT) também não haveria de faltar a ação sempre oportunista da chamada “grande mídia”, outra fatia da sociedade brasileira que nunca conseguiu suportar a ideia de conviver com, ou festejar, figuras que até bem pouco tempo abominavam . Assim, a cruzada moral do STF encontrou a aliada perfeita e o mensalão foi se tornando notícia frequente, tanto mais frequente quando mais se aproximavam as eleições de 2012. Com a derrocada do “santo do pau oco” que era o PT e sua turma, os conservadores poderiam assomar novamente como os guardiões da moral e da ética.

Mas, apesar de toda exposição e o espetáculo diário das sessões do STF demonizando principalmente as lideranças petistas, os resultados eleitorais foram pífios aos conservadores. O governo de Dilma Roussef segue popular e com elevadíssima aprovação nacional. Lula recebe prêmios pelo mundo afora e mesmo os condenados como José Dirceu, Genuíno e outros seguem com suas vidas, apoiados pelos correligionários e militantes petistas.

O rescaldo da pataquada

De tudo o que houve, desde 2003 até agora, o que significa dizer desde a reforma da previdência e todo o processo de conformação de uma maioria disposta a sustentar os projetos governistas no Congresso Nacional, o que fica, então, de resultado? É inegável que a exposição de figuras importante do Partido dos Trabalhadores como corruptos de grande monta consolida a proposta central da elite brasileira que era a de desmoralizar a esquerda. E que fique claro que o PT desde há muito tempo não representa mais uma força verdadeiramente de esquerda. Principalmente quando se fez governo e atuou em consonância com o ideário neoliberal. Mas, para a maioria da população, principalmente aquela que é informada basicamente pela televisão, o PT é sim sinônimo de esquerda. É como esquerda que gente como Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, entre outros, tratam o PT. Então, a mácula está consolidada. A esquerda também é corrupta. Nada se salva. Essa é a mensagem do espetáculo do mensalão.

De nada adiante a defesa dos militantes petistas a clamar pelas corrupções passadas de FHC, de Collor, de Sarney que, em volume de dinheiro, são muito mais escabrosas que a do mensalão. Ao que parece, corrupção é sinônimo dessa gente. Mas, não o era no caso do PT que sempre denunciou as maracutaias desses velhos adversários. E aí, ao assumir o governo esse partido teria de valer da máxima do comandante Che Guevara: “no governo, na escola, em casa, com a namorada, em tudo, temos de ser perfeitos”. Não foi o que aconteceu. Independentemente de muitos dos envolvidos terem um lindo passado de luta, o fato é que participaram do esquema, ou fizeram vistas grossas, o que dá na mesma. Isso é inegável. Por isso foram julgados e condenados. Assim como seriam condenados FHC, Sarney e Collor caso a oposição, na época, tivesse tido chance de levá-los a julgamento. Os fatos são os fatos e, se postos num tribunal, não têm como ser contestados. O que passa é que a oposição nunca teve poder e a corrupção dessa gente passou e passará incólume.

Igual destino não foi possível ao PT, os adversários tinham e têm o poder. Fato importante da conjuntura que deveria ser melhor analisado pelas forças petistas. Ainda que o partido governe o país desde 2003, o poder ainda está firme nas mãos da mesma velha oligarquia/burguesia industrial que sempre comandou os destinos da nação.

As lições do mensalão estão aí, às claras, para serem digeridas. O PT embarcou na canoa furada da busca de uma “governabilidade à força” e por cima. Não buscou se valer da governabilidade real, que se conquista com as forças sociais organizadas, com os trabalhadores. E tinha tudo para isso. Quando Lula chega ao poder tem uma força popular gigantesca ao seu lado. Mas, em vez de forçar a mão para a esquerda, buscando amparo nas gentes, o governo foi se rendendo às reformas neoliberais e políticas assistenciais. Em vez de focar nas demandas populares, preferiu uma aliança com a classe dominante. Perdeu. E os lobos, tão logo tiveram chance, abocanharam o cordeiro. Outra lição para ser digerida. Pode até ser que a figura de Lula não tenha sido abalada no processo, mas, no frigir dos ovos, o resultado do mensalão acabou sendo bem ruim para uma força que nada tem a ver com ele: a esquerda brasileira. Não bastasse vir sendo fragmentada e diminuída com a política de cooptação implementada pelo petismo, ainda acabou sendo colocada no mesmo patamar que os velhos e históricos corruptos nacionais. “É o fim dos partidos”, “são todos iguais”, “vamos votar em pessoas não em projetos”... Esses são os novos mantras da despolitização que já se fortaleceram nas últimas eleições.

Mas, se num primeiro momento isso pode parecer um grande estrago, também pode vir a ser uma mola de subida. Se efetivamente a esquerda brasileira quiser, pode tirar boas lições desses processos e avançar. Para isso, haveria que se dar um bom espaço ao estudo sistemático desse período, para a autocrítica e para construção de novas liras e novas canções. Há um longo caminho a percorrer para constituir outro tecido político que venha disputar a vida nacional, uma coisa nova, bonita, capaz de tornar real a “moral guevariana” de “ser perfeito”, verdadeiramente ético e voltado aos interesses reais da nação brasileira. Tarefa árdua e difícil, mas não impossível. E, nesse processo, os petistas históricos, os que participaram do início daquele projeto, quando ainda havia proposta de socialismo, de caminho pela esquerda, também deveriam ser capazes de olhar para toda essa história com seriedade, autocrítica, realidade e optar por novos rumos. Afinal, na política concreta, na vida real, a história avança e exige mudanças. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Museu do Índio é história...





Fotos: Ricardo Casarini

Contra o “negócio” Copa do Mundo, a beleza e a força do mundo indígena se levantam

1556. Rio de Janeiro. Território Tupinambá

No meio da mata os Tupinambás espiam a baia. Desde há muito tempo (1502) que por ali havia chegado uma gente estranha. Traziam cruzes e armas que cuspiam fogo. Por anos foram empurrando os nativos para longe da praia, expulsando das terras que ocupavam em paz e destruindo seu modo de vida. Muitos tinham sido mortos, outros escravizados e uns poucos se embrenhavam para dentro da floresta, ainda livres. As batalhas eram frequentes, mas desiguais. Em 1554, um jovem índio chamado Aimbiré, filho do cacique Kairuçu, depois de ver o pai capturado e morto por conta dos maus tratos na fazenda de Brás Cubas, em São Vicente, consegue fugir do cativeiro e começa a reunir-se com chefes de grupos indígenas que ainda andavam livres pela região. É ele quem vai costurar uma aliança histórica de resistência. Naqueles dias andavam pela baia também os franceses, loucos para abocanhar riquezas. Os Tupinambás – que nos tempos da invasão dominavam todo o litoral - por algum motivo, acreditaram que aqueles poderiam ser amigos e se aliaram a eles para expulsar os portugueses. Lograram um pacto com os Goitacazes e os Guaianases, e essa parceria se configurou na famosa Confederação dos Tamoios, liderada por Aimbiré. Os indígenas pelearam por mais de 10 anos contra os portugueses. Traziam na pele a marca da opressão e queriam suas terras de volta.

Em 1565, Estácio de Sá desembarca perto do que hoje é o Pão de Açúcar e começa dali a resistência portuguesa contra os franceses e os indígenas. É quando funda a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. Com a ajuda do padre Anchieta, os portugueses vão se misturando a outras etnias indígenas, conquistando amizades e enfraquecendo a Confederação. Naqueles dias a coroa não atinava perder o comércio do pau-brasil, abundante na região. Por dois anos deram batalha aos indígenas. Esses eram chefiados pelo valente cacique Aimbiré, que conduzia os guerreiros pelas canoas através da baia da Guanabara em duros confrontos contra os invasores. Ainda assim, Estácio de Sá seguia distribuindo terra aos amigos portugueses, visando fortalecer suas posições. Em 1567, os portugueses conseguem abafar o movimento indígena e expulsam os franceses da região. A Confederação dos Tamoios é derrotada, os povos originários do lugar são dizimados, as lideranças caem nas batalhas, e poucas famílias conseguem escapar pelo mato, garantindo assim a continuidade do povo indígena na região.

2006. Rio de Janeiro. Ocupação Guajajara

No meio dos prédios os Guajajaras espiam o grande estádio do Maracanã, templo de um esporte que chegou ao Brasil pelas mãos dos ingleses, num tempo em que a Inglaterra era dona do mundo. Remanescentes dos velhos guerreiros da Confederação dos Tamoios, os indígenas se embrenham na cidade maravilhosa para recuperar o que acreditam ser seu: uma pequena fatia de território. O mesmo espaço que foi palco da disputa sangrenta entre portugueses e tupinambás nos primeiros anos de invasão. O lugar em questão é um velho prédio localizado ao lado do estádio, que de 1953 até 1977 abrigara o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro para ser justamente um espaço onde o homem branco pudesse compreender o modo de vida dos povos originários.

O território onde está o prédio tem larga vinculação com os indígenas. Primeiro, era o seu mundo original. Depois, com a vitória portuguesa foi passando por várias famílias até que em 1865, o então proprietário, Duque de Saxe, doou a grande mansão que construíra para que o governo federal a transformasse em Centro de Pesquisa sobre a cultura indígena. Nada aconteceu. A casa acabou abrigando a Escola Nacional de Agricultura e só décadas depois sediou o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Quando o SPI foi transferido para Brasília em 1964, o prédio passou para a mão dos militares. Foi só em 19 de abril de 1953 que o casarão retornou para a vida indígena, quando Darcy Ribeiro instituiu o Dia do Índio e criou ali o museu.

Mas, o espaço não ficaria muito tempo dedicado ao abrigo da história indígena. Em 1977 o museu é transferido para o bairro do Botafogo e o prédio passou para o controle da Companhia Nacional de Abastecimento, que praticamente o abandonou. Ao longo dos anos, a velha casa foi ruindo e nunca sequer foi tombada pelo Patrimônio Histórico.

Só que para os indígenas aquele lugar é espaço sagrado, templo de resistência e foi assim que em 2006 cerca de 20 pessoas – indígenas de várias etnias - decidiram ocupar o prédio, dispostos a fazer dali um ambiente de acolhimento para todos os irmãos que chegam à cidade maravilhosa, além de guardar a memória ancestral das gentes que viveram naquele território desde os tempos imemoriais. A casa foi tomada e começou a batalha pelo tombamento e recuperação. Desde então as comunidades originárias vem travando grande batalha institucional para manter o prédio, criando um polo de produção de cultura e de conhecimento sobre os povos originários. Mas, a exemplo dos tempos da invasão, novos Estácios de Sá armam suas esquadras e dão combate aos indígenas. Ao que parece, nada muda nas terras de Pindorama.

2012. Rio de janeiro. Copa do Mundo

Pois em julho desse ano, completamente surdo aos desejos dos povos indígenas e dos movimentos sociais para que fosse feito o tombamento do lugar, o governo federal vendeu a área ao governo do Rio de Janeiro. A proposta do governador Sérgio Cabral, singela, é derrubar o prédio para que sirva de espaço de mobilidade para as pessoas que virão assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014. Mais uma vez, a cultura indígena sendo solapada em nome de um deus estranho: nesse caso, o dinheiro.

Hoje seguem vivendo no prédio perto de 20 pessoas, representando etnias de diversas regiões do país: Guajajara, Pankararu, Xavante, Guarani, Apurinã, Fulni-ô, Pataxó e Potiguara, entre outras. Várias casas foram erguidas no lado de fora, uma vez que o prédio principal está em ruinas, apesar de servir para algumas atividades. A proposta dos ocupantes é recuperar o prédio e transforma-lo na primeira Universidade Indígena do país. Atualmente já são ministradas aulas de língua Tupi Guarani, inclusive para professores universitários e acontecem manifestações culturais, rituais, pinturas de corpo, feitura de comidas típicas das etnias na cozinha coletiva, ensinadas medicinas nativas e contadas histórias das tradições indígenas. Segundo as lideranças vivem mais de 30 mil índios no espaço urbano do Rio de Janeiro e o casarão deverá ser também um ponto de referência para a sobrevivência da cultura de todos eles.

Nesses dias, quando a demolição se aproxima, muito mais gente está se unindo aos moradores originários, tentando fazer pressão para que o governo estadual reverta a situação. Já foram feitas audiências públicas na assembleia estadual, caminhadas, protestos, ações judiciais. Tudo o que dá para fazer dentro da ordem burguesa. Mas, nos governos, todos estão surdos. Para se ter uma ideia do que pensam basta espiar a fala do Superintendente Federal de Agricultura no Estado do Rio de Janeiro, Pedro Cabral, em entrevista aos jornais: “A memória dos índios será preservada, talvez com uma loja de artesanato para eles venderem seus materiais”. Para eles, índio é folclore. Já Sérgio Cabral insiste: “vamos derrubar”. Mas, na aldeia Maracanã, o povo segue em resistência.

E tu, cara pálida?

A verdade pode soar incômoda, mas, índio, no Brasil, é estorvo. Por conta disso, eles são assassinados, estuprados, dominados, chutados, queimados, escondidos, degradados. Só que nem sempre foi assim. Antes da invasão dos portugueses os grupos étnicos, mais de 200, iam construindo suas vidas, dentro dos limites de suas culturas. Vivendo em terras férteis e abundantes não chegaram a constituir uma civilização como os astecas, incas e maias, premidos pelas dificuldades geográficas. Eram caçadores, coletores, e sentiam-se livres na imensidão das terras tropicais. A chegada dos estrangeiros colocou o mundo de cabeça para baixo, todo um modo de vida ruiu. Com os portugueses vieram a cruz e o arcabuz, exigindo a fé num deus estranho e impondo a escravidão. Estarrecidos diante da violência dos homens de além-mar, os habitantes originários dessas terras foram se embrenhando no interior. Os que não conseguiram foram exterminados. E assim foi se fazendo esse imenso Brasil. O índio era um animal sem alma que não servia sequer para ser escravo. Por isso, o extermínio, o genocídio.

Com o passar do tempo, as etnias que se embrenharam pelo interior também foram sendo encontradas. Com a chegada dos imigrantes, as terras que eram espaços de liberdade, começaram a ser aradas e escrituradas, passavam para outras mãos, viravam mercadoria, coisa que se compra. Na solidão das noites, os grupos indígenas que tinham sobrevivido ao massacre dos primeiros tempos também foram sendo destruídos, um a um. Eram chamados de bugres, selvagens, animais. Precisavam ser “civilizados” para que aceitassem pacificamente o roubo de suas terras e vidas. Assim se criaram os “bugreiros”, os bandeirantes, uma gente que fez fortuna caçando e matando índio e que até hoje são apontadas como “heróis nacionais”. De novo, os habitantes originais da grande Pindorama eram um entrave para o progresso que representavam os imigrantes.

No início do século XX uma nova versão de contato começou a se fazer. Já não era mais o tempo da morte, do extermínio, mas da inclusão. Os indígenas começaram a ser procurados para que pudessem sair do seu estado “selvagem” fazendo parte da “civilização”. Com o lendário Marechal Rondon acabava-se a caça e começava um processo de integração. Foi ele quem criou o Serviço de Proteção ao Índio, em 1910, com sede no Rio de Janeiro, então capital da República. O objetivo era dar amparo e ajudar no processo de integração. Mas, apesar de todos os esforços e da boa vontade de muita gente do calibre de um Rondon, a integração do índio à sociedade que se criou a partir do genocídio nunca se deu de verdade. Fora do seu lugar sagrado, os povos originários seguiram sendo vistos como um estorvo. Os que se integraram na vida fora das matas, foram perdendo suas referências culturais, e ainda assim seguiram sendo discriminados. E os que aceitaram viver em aldeias, amargam até hoje a falta de direitos e de terra.

Apesar da história triste de morte, destruição e genocídio, os povos indígenas nunca se entregaram sem luta. Desde os primeiros dias da invasão, quando perceberam que ali estava a opressão, as comunidades resistiram. Resistem ainda hoje por todo o país, na luta pela demarcação das terras, contra a invasão de seus territórios, contra os megaprojetos que destroem a vida, pela garantia de seus direitos. E não é diferente o que acontece hoje no Rio de Janeiro. Tão pouco o que querem: um prédio, uma universidade, um espaço para que sua gente possa descansar a cabeça e cultivar sua cultura. Ainda assim, a sanha por lucro, dinheiro, negócios, prevalece. A Copa do Mundo, que pretende atrair turistas de todo o planeta, trará com ela mais um massacre.

Que fazer diante disso? Da impotência frente à fria lógica do capital? Talvez seja hora de evocar Aimbiré, a alma sagrada da Confederação tamoia, o desejo secular de liberdade das gentes indígenas para viver sua cultura, seus deuses, seu modo de vida. E, com essa força, iniciar uma rebelião que acerte o ponto mais sensível dessa gente que quer derrubar a aldeia Maracanã: o bolso. As formas? Haveremos de encontrar...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com Maria do Carmo, outra vez...!





Eu era menina quando ouvi as gurias mais velhas falarem de um túmulo que havia atrás do quartel, na cidade de São Borja, fronteira com a Argentina. “Ela é santa”, cochichavam, e preparavam prendas para levar quando fossem pedir para que viesse o príncipe. Andava-se muito para chegar até lá e os adultos não aconselhavam percorrer a pequena trilha no meio do mato. “É perigoso, vão sossegar”. Mas que, as gurias não descansavam enquanto não iam levar as ofertas e fazer os pedidos àquela que alguns davam como certo fazer milagres.

As versões do caso eram muitas, mas a que mais se ouvia era de que lá pelo mês de agosto de 1890, ali havia sido assassinada a jovem Maria do Carmo Fagundes, guria de vida airosa, que era como chamavam as prostitutas naqueles dias. Mas, ao que parece, esta tinham um princípio irremovível: jamais se deitava com milicos. E vem daí a tragédia. Conta-se que um soldado apaixonou-se por Maria do Carmo e, desesperado por saber-se impossível, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Então a matou, bem ali, atrás do quartel, o mesmo lugar onde alguns poucos amigos a enterraram. Mas, sua alma alegre não suportou a fria terra, e ela decidiu que ali vagaria, acolhendo as dores do amor e fazendo felizes aqueles que lhe pedissem graça.

Foi aí que começaram os milagres. Não são poucas as histórias de gente que viu a mulher de longos cabelos negros brincando com o vento, fazendo os soldados, que ficavam nas guaritas do quartel, tremer feito vara verde. Desde aí se espalharam os feitos da Maria do Carmo, a prostituta virada santa. Seu amor foi embora? Clame à Maria do Carmo. Faltou dinheiro? Clame à Maria do Carmo. Bateu a depressão, faltou o príncipe encantado, a vida foi pelo ralo? Clame à Maria do Carmo.

Quando chegava o mês de agosto era de lei caminhar pela trilha até o pequeno túmulo para levar flores, perfumes, bijuterias. A Maria do Carmo era nossa Iemanjá, venerada no outono. Não foram poucas as lágrimas derramadas naquele campo santo, fruto de amores não correspondidos e desejos de vida feliz.

Então, o tempo passou, eu cresci, fui embora da cidade, mas a força da santa das mulheres sempre me acompanhou. Há alguns anos (2009), num janeiro, passei por São Borja, num átimo. Tinha várias opções. Ver alguns velhos amigos, visitar antigos vizinhos, caminhar pelas veredas da minha infância. O tempo era curto, mas não hesitei. “Quero ir ao túmulo da Maria do Carmo”. Por algum motivo, aquele lugar nunca saiu de mim, espaço de encantos e sortilégios. Surpresa eu constatei que já não havia trilha, nem mato, não era mais um lugar ermo. Havia casas por perto e uma estrada de chão levava até o campo santo, agora cercado, pintado e sinalizado. Pelas placas que ali estão, vê-se que a obra é de 2005.

Maria do Carmo dorme no pequeno túmulo azul, simples, mas bem cuidado, e ao seu redor multiplicam-se os presentes. Flores, perfumes, velas, bijuterias. O tempo passou e a mulher alegre, de longos cabelos continua bailando atrás do quartel. Dizem que os soldados já não lhe têm medo, ao contrário, a veneram e lhe trazem prendas. E, a contar pelos presentes espalhados no chão, a romaria de gente continua. Eu toquei seu nome e lhe fiz um pedido. Saí dali com o coração leve. Na tarde de verão missioneiro, incrivelmente soprava um brisa. Era ela. Eu sabia. Tocou meu rosto, senti seu cheiro. E quando o carro partiu a vi pelo espelho. Voejava envolta em azul. Acenou e sorriu. Então lembrei a última graça que lhe pedira antes de partir da cidade, em 1977. Estava cumprido. Não era à toa que eu estava ali.  

domingo, 6 de janeiro de 2013

"Serás livre ou morrerás"




Era uma dessas desgraçadas noites de senzala no ano de 1819. Uma negra escrava, entre dores, dava à luz a uma menina. Seus dedos magros a acolheram e apertaram. Mais uma para sofrer. Mas, naquela madrugada, no pequeno condado de Dorchester, no estado de Maryland, Estados Unidos, a menina que arejava os pulmões com gritos fortes não carregaria o peso da dor. Ela seria uma libertária, uma dessas loucas, nojentas, que nada dobra e, anos depois, se tornaria uma das mais importantes “condutoras” de negros para a liberdade.

O nome dado pela mãe foi Aramita Ross. Mas muito pouco conviveu com quem lhe deu à luz. Ainda garotinha foi levada para a plantação e ficou sob os cuidados da avó. Com seis anos de idade já estava no trabalho de uma casa branca. Apanhava muito. Uma vez levou uma surra só porque comeu um cubo de açúcar. Ela ruminava a dor e sentia que a vida lhe pesava. Quando completou 11 anos, passou a usar uma bandana na cabeça, indicando que saíra da meninice. Foi aí que mudou de nome. Virou Harriet e já tinha nos olhos o ar da rebeldia. Não foi à toa que quando viu um capataz pedindo ajuda para segurar um negro fujão, se recusou a fazê-lo. Por isso levou um golpe na cabeça e sofreu a vida toda as conseqüências.

Harriet cresceu ali, na plantação, a matutar. Nunca passou dos 1,50m. Era pequena, de olhos penetrantes e cheia de idéias de liberdade. Não ia morrer escrava. Quando tinha 25 anos casou-se com um negro livre, John Tubman, e vivia a pensar em planos de escape. Coisa que não achava eco junto ao marido. Ele não compartilhava das loucas idéias que ela sussurrava nas noites de inverno. Mas ela queria ir para o norte, fugir, ser livre também. Agüentou cinco anos e, numa destas noites, escapou no rumo da Filadélfia.

Sua fuga foi digna de filme. Ajudada por uma família branca, foi colocada dentro de um saco, num vagão, até estar segura nas casas dos abolicionistas que revezam na rota de fuga. Chegou inteira e logo começou a trabalhar. Do dinheiro que ganhava, guardava uma parte que usava para libertar outros negros. Mas, para Harriet, dar dinheiro não bastava. Aquela alma atormentada precisava agir, e ela decidiu liderar as tropas de negros e brancos que marchavam para as fazendas e libertavam os negros. Fez muitas dessas incursões. Em uma delas, no comando, chegou a libertar 750 negros de uma só vez. Tudo isso já bastaria para tornar Harriet uma lenda, mas ela ainda iria mais longe. Como não era mais um jovenzinha decidiu abandonar o comando das tropas e passou a atuar como “condutora”, no que ficou conhecida como a “estrada de ferro subterrânea”.

Esta estrada de ferro não era uma estrada de verdade, mas o nome dado à rota de fuga de milhares de negros em todos os Estados Unidos. Uma rede muito bem urdida de estradas, rotas e casas, as quais os negros percorriam e se abrigavam durante a grande travessia para a liberdade. Essas rotas eram pronunciadas junto aos negros sempre com os jargões da estrada de ferro, para que nenhuma suspeita fosse levantada e, justamente por isso, foram chamadas assim.

Nesse processo de fuga a figura do “condutor” era, sem dúvida a mais importante. E Harriet se fez um deles. Foi a mais famosa e a mais eficiente. Armada de revólver e da sua atávica coragem ela chegou a carregar mais de 300 pessoas para os estados em que a escravidão já estava abolida. Nunca perdeu qualquer passageiro. Ficou conhecida também a frase que dizia aos seus conduzidos quando empreendiam a caminhada rumo ao norte: “Serás livre ou morrerás”. E foi com essa bravura que também carregou para a liberdade seus irmãos de sangue e seus pais, esta última uma viagem espetacular. Não foi à toa que ficou conhecida como “o Moisés” de seu povo.

Harriet era mestra na arte da fuga e do disfarce. Graças a isso entrava e saia do sul escravista a qualquer hora. Em 1857 sua cabeça valia o prêmio de 40 mil dólares. Nunca foi pega. Durante a guerra civil estadunidense ela, já entrada nos anos, ainda serviu como enfermeira e espiã das forças federais. Seu nome é reverenciado até hoje por todos os negros e negras daquele país como uma mulher que não aceitou a sua condição e, generosa e solidária, deu sua vida para garantir a liberdade dos negros. Morreu velhinha, em 1913, considerada uma heroína nacional. Mesmo assim, foi só em 2003 que o estado instituiu o dia 10 de março (dia de sua morte) como o dia de Harriet Tubman, a Moisés do povo negro estadunidense, a condutora, aquela que nunca abriu mão da liberdade. “Há duas coisas que tenho direito: a liberdade ou a morte. Se não tiver uma, tenho a outra. Nenhum homem neste mundo vai me tomar a vida”. E assim foi.

Hoje, contam os negros, quando apita um trem lá para os lados do sul, todo aquele que sofre alguma prisão, seja física ou espiritual, sente um arrepio. É Harriet, a condutora, chamando para a grande travessia. E sempre há quem se levante e encontre o caminho.